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História O Jardim dos Esquecidos - Capítulo 8


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Notas do Autor


Boa noite, como estão? Putos comigo? Bem-vindos ao clube, eu também estou puto comigo.
Cá está mais um capítulo de nossa amada fanfic, espero que vocês ainda me acompanhem aqui.
Boa leitura e não esqueçam de lavar bem as mãos.

Capítulo 8 - Through the Valley


Fanfic / Fanfiction O Jardim dos Esquecidos - Capítulo 8 - Through the Valley

              O som da chuva era quase enervante. Os pingos caíam com tanta força, tamanha a ferocidade da tempestade, que respingavam ao se espatifar nas folhas viçosas das árvores que compunham a Floresta Fontaine. Shaka e Mu estavam sentados abaixo de um frondoso carvalho há mais de cinco minutos e suas respirações ainda estavam sôfregas e seus corações tamborilavam tão violentamente no peito que ambos tinham certeza plena de que qualquer um podia ouvir os batimentos.  

                Estiveram correndo por muito tempo, em fuga desenfreada floresta adentro afim de salvarem suas vidas. Estiveram na Reunião da Lótus da Noite e, sem aviso prévio, o grupo foi encontrado por alguma espécie de guarda anti-iluminista. Os soldados corriam por Paris com armas nas mãos, assoviando e batendo os pés com tanta brutalidade que Shaka tinha certeza ouvi-los por quarteirões. Os dois foram perseguidos por um grupo menor, de três soldados, que se embrenharam nas árvores para tentar alcançar Mu e Shaka a qualquer custo, mas graças a Deus – pensou o pequeno Ohitsujiza -, não foram pegos. Despistaram os homens e, finalmente, conseguiram sentar para respirar. Se tivessem de correr mais, talvez suas vidas já tivessem encontrado seus finais.

                - Como? – o indiano arfou brusco, quase demonstrando irritação clara e pura, enquanto recostava a cabeça coberta pelo capuz negro e ensopado no tronco nodoso da árvore – O Escorpião nos garantiu que não seríamos encontrados tão facilmente, o ponto de reunião foi trocado há apenas alguns amanheceres!

                - Talvez tenham seguido alguém até ali – murmurou -, talvez alguma coisa tenha passado desapercebida. Será que todos escaparam?

                - Não – respondeu fechando os olhos com força -, ouvi os guardas gritando quando pegaram alguns de nós.

                - O que acontecerá a eles?

                - Não sei – obrigou-se a admitir -, serão presos. Torturados para que digam quem são os outros integrantes ou os outros pontos de reunião.

                Mu gemeu baixinho, sentia frio e sabia que seu acompanhante também. A noite estava extremamente chuvosa e o vento uivava contra eles, levando folhas e pedrinhas pequenas consigo. Parte de si desejou roupas secas e seus cobertores de linho quente, uma lareira crepitante e uma xicara de chá que apenas Camus sabia fazer, mas majoritariamente seu espírito encontrava-se em paz. De certa forma era fascinante – e assustador – ver-se distante assim de tudo o que sempre conheceu, afastar-se da segurança de sua casa, mas sempre foi aquilo que o nobre desejou. Olhando para todos os lados possíveis e atentando seus sentidos, esperou uns instantes para se erguer e puxar Shaka consigo.

                - Procuraremos um lugar seco – murmurou enquanto se esgueirava levando o louro a tiracolo. Talvez tenham andado mais do que se era possível prever, mas era certo o fato de que seria difícil achar a saída daquela floresta absurdamente grande. Conforme se aprofundavam na imensidão verde, escura e úmida, as gotas de chuva não ultrapassavam mais as copas das árvores, e embora o solo permanecesse ensopado, o vento também não conseguia adentrar tão facilmente para lhes esfriar ainda mais. O breu os recebeu e engoliu como um monstro atípico abocanha suas presas desavisadas, tornando-os apenas um com a natureza selvagem inabitada. As respirações dos dois se mesclavam com o farfalhar de animais andando, com o uivo do vento distante, com o mover dos pés incertos sobre a terra cheia de galhos, plantas, ramos e pedras. Se não segurassem a mão um do outro com tanta força, talvez pudessem dizer que não existiam mais e estavam sozinhos, atravessando uma galáxia distante.

                Quando as mãos desocupadas cansaram de tatear as coisas ao redor, como um suspiro de esperança e ânimo, o luar iluminou ao longe uma estrutura rochosa e íngreme. Shaka respirou fundo em alívio silente, pois finalmente podiam encontrar abrigo daquele mar verde e escorregadio. Ao adentrarem a caverna, era impossível ver. O cheiro de queimado era vago, sabiam que alguém havia estado ali e acendido uma fogueira há não muito tempo, pois o calor permanecia alocado dentro das pedras, porém rapidamente se esvaia.

                - Vamos congelar – a voz do nobre Ohitsujiza estava colada ao rosto de Shaka, o hálito dele era a única quentura disponível -, vamos morrer.

                - Foste tão valente quando decidiu buscar abrigo – retorquiu quase com escárnio e percebeu, então, que estavam próximos demais. Não discutira ou culpara o garoto abastado pois ele havia sido útil em alguns pontos estratégicos até aquele momento. Suas costas estavam grudadas na parede de pedra e sua mão ainda estava unida a de Mu, que também se mantinha colado na rocha levemente aquecida. Buscavam, inconscientemente, absorver qualquer resquício de queimor que pudessem, então os ombros e braços estavam juntos e os rostos quase unidos.

                - Zelei por nós – murmurou. Estava exausto.

                Shaka desejou ter energia o suficiente para responder e iniciar uma discussão como sempre acontecia quando estavam juntos, mas optou por poupar-se num ímpeto de sobrevivência. Em um golpe de folego, percebeu que estavam possivelmente perdidos, molhados e sozinhos em qualquer lugar distante. Logo amanheceria e o garoto emproado não podia sair à luz do dia, então estariam confinados ali por sabe-se quanto tempo, e se aquele filho de ricos morresse assim, sentir-se-ia uma farsa. O trouxera para o Iluminismo, o odiava terminantemente, mas não queria ser responsável por sua morte. Se Mu era filho de mesquinhos, que vivesse com sua família asquerosa, mas não morresse em seus braços como outros já haviam desfalecido.

                - Insinuarmo-nos mais – começou a caminhar dentro da caverna com os passos leves, abstendo-se de qualquer ruído, temendo encontrar outra pessoa ou algum animal conforme se aprofundassem naquela rocha. A presença atrás de si era quase um lembrete de que, por hora, não estavam seguros.

                Conforme seguiam caminho, o calor aumentava lentamente. Num certo ponto da caverna, o espaço se tornava mais estreito e abafado e, quando os dois garotos ouviram os estalos abaixo de seus pés, tiveram as confirmações de suas teorias mudas: algum viajante acampara ali e fora embora antes da tempestade, pois agora pisavam sobre o que, horas antes, fora uma fogueira. Num misto de alívio e desespero, os dois se sentaram colados um ao outro graças ao pouquíssimo espaço disponível e, num ímpeto de surpresa, o indiano percebeu que as mãos ainda estavam unidas desde que começaram a fuga. Não soltou o aperto, não por apego ou despeito, mas por receio de perder-se de alguma forma. Sabia que o nobrezinho também tinha esse medo, mas não era como se quisesse confortá-lo... Apenas queria ter certeza de que se algum animal selvagem aparecesse, seriam dois cérebros pensantes contra uma fera. A chance de vitória pendia para eles, caso continuassem juntos assim.

                Quando o silêncio quase destruía a consciência dos dois gaiatos, Mu foi o primeiro a quebrar a atmosfera com sua voz sutil e prazerosa de se ouvir:

                - Tu tens família?

                A pergunta era desprovida de maldade e quase tinha um tom curioso escondido por baixo do timbre despreocupado, como se falasse do sabor da torta do café da tarde.

                - Não.

                E a resposta de Shaka fora totalmente seca, desgostosa, enquanto a expressão dele se fechava em tom de ofensa na escuridão total.

                - O que houve com eles?

                - Por que não te aténs a ficar quieto e sobreviver?

                - Se não conversarmos, vou dormir – respondeu -, e aí tu ficarás sozinho na vigília. E se um animal tentar nos assassinar?

                - Durma e eu permaneço acordado. Não sou frágil como tu.

                - És estúpido – sua voz não parecia xingar o indiano, apenas apontava -, estamos em dois aqui. Se ficarmos em silêncio, também vais dormir e aí corremos mais risco ainda. Converse comigo, é a segunda vez hoje que peço para que deixe de ser arrogante e orgulhoso. Lhe fiz uma pergunta simples, não lhe pedi um dedo emprestado.

                - A curiosidade é o pior dos pecados.

                - És religioso agora? Do tipo que crê em Deus e pecados? – o sorriso de Mu era evidente, não precisava ver seu rosto para saber que sua expressão trazia a serenidade de sempre – Um iluminista religioso?

                O silêncio do louro quase desacreditou o nobre Ohitsujiza, mas finalmente a voz do pianista surgiu abaixo dos murmúrios do vento lá fora.

                - Sou religioso – entregou -, sempre o fui.

                - Então por que luta contra a igreja? – não estava apenas curioso, estava intrigado.

                - Porque não acredito na Igreja Católica. Acredito em Buda, mesmo o budismo não sendo considerado religião de fato, e não nasci desta terra de Cristo. Buda não pregou em momento algum que o conhecimento é pecado ou que o homem deve ser submisso a Deus. Buda pregou o desenvolvimento, o amadurecimento, o melhoramento do homem enquanto dono de si e dono da bondade. É estupidez negar o avanço, a Igreja o faz para manter o controle sobre o povo omisso e isso é inadmissível.

                - Uma tática de jogo brilhante – Mu observou -, mas vexaminoso. É indecente a forma que a Igreja manipula os fiéis, evidentemente. Meus pais acreditam que o Iluminismo é uma forma subversiva de bandidagem, um novo jeito gaiato de desobedecer a ordem natural das coisas. Shion partilha da mesma opinião, mas tenho por opinião que ele apenas teme desobedece-los ou, de certa forma, teme perder algo ou alguém nesta luta silenciosa.

                - Mudar os ideais de uma sociedade é perigoso – contrapôs -, muitos de nós hão de morrer para que Deus deixe de ser o centro de tudo. O homem há de morrer para se tornar o centro do universo.

                - É uma pena – segredou num murmúrio -, mas eu morreria pelo que acredito. De que vale um ideal se não vamos nos sacrificar por ele?

                - Exatamente – Shaka, num ímpeto, concordou fielmente com a afirmação de Mu, o que surpreendeu a ambos -, por este motivo eu lutarei até o fim, até que o que acredito se torne viável.

                - E se morrermos no caminho?

                - Nós vamos morrer no caminho. Essa revolução vai demorar tanto que talvez nem nossos netos sobrevivam para ver o seu fim, mas vamos chegar em algum ponto, de alguma forma.

 

------------ O Jardim dos Esquecidos --------------

 

                Ao despir-se de sua farda, também se despia do cansaço que o dia trazia e deixava sobre seus ombros.

                Camus, enclausurado em seu pequeno quarto nos fundos da mansão Ohitsujiza, abarrotado de livros e penas para escrever nos rolos de papel cuidadosamente postos no canto da escrivaninha de madeira acetinada, dobrava sua roupa de trabalho. A mesma costumeira farda de veludo preta com botões prateados somados à camisa de linho branco e o colete de cetim, os colocou organizadamente sobrepostas acima do criado-mudo ao lado de sua cama. Tinha certeza de ter ouvido na cidade que as noites se tornariam secas e mornas, mas aquele nevoeiro lá fora lhe fazia se enfezar um pouco. Gostava do frio, mas não da chuva.

                Quando, vestido de trajes informais e confortáveis, o jovem Camus guiou-se para a cozinha dos empregados do casarão Ohitsujiza, a surpresa lhe assolou num breve instante. Recostado no balcão de utensílios, o visitante Aphrodite se deliciava com uma xícara de chá que cheirava tão bem quanto jamais sentira.

                - Oh, olá – o estrangeiro cumprimentou ao ver Camus silente nas sombras do batente da porta -, sinto muito pelos meus modos, mas não quis incomodar ninguém embora quisesse muito beber uma xícara de chá – seu sorriso era ladeado por um fervor quase obsceno de malícia -, aceita beber comigo?

                - Boa noite – o guarda cumprimentou num tom quase desconfiado por baixo da frieza frequente de sua voz -, aceito o chá. Devias ter chamado alguma criada, ela o faria por vossa senhoria.

                - Não me faça sentir velho – gesticulou com a mão de forma graciosa, dispensando a formalidade de Camus -, aposto que temos as mesmas primaveras. Posso servir-me de chá sozinho, pois não?

                - Suponho que sim – concordou ao sentar-se na mesa de madeira gasta -, mas esta é a cozinha da criadagem. Por que vieste até aqui? Há a cozinha principal no oeste do casarão.

                - Finura e delicadeza são bem-vindos – o visitante sentou-se junto ao ruivo -, mas queria quietude. Talvez acabasse por despertar algum dos donos da casa.

                - Duvido – serviu-se de chá também. O guarda ainda assim mantinha-se alerta, desconfiado das atitudes de Aphrodite, como se o sueco pudesse lhe causar dor a qualquer momento ou simplesmente fugir com toda a prataria da casa, embora sua postura fosse demasiado requintada para um ladrão. Ele se sentava de forma elegante, sua fala era catita e seus modos eram agradáveis aos olhos.

                - Então... Camus? Certo? – ele sorria.

                - Sim. Adrien Camus Chevalier.

                - Gustav Aphrodite, como já deve saber. Sei que nos fomos apresentados um ao outro mais cedo, mas é sempre bom apresentar-se novamente de forma particular. É um prazer conhece-lo, nobre guarda.

                Os olhos do louro eram de um tom azul brilhante e ostentava um brilho peculiar.

                - O prazer é meu – respondeu.

- Na Suécia não existe esse tipo de proteção aos nobres, sabe? – o interesse na voz do visitante era palpável – Os ricos e bem-quistos lá são protegidos por batalhões inteiros, infantarias completas e homens armados até os dentes. O que faz com que os Ohitsujiza confiem tanto em apenas um homem?

- Não sou apenas um – o observou de canto de olhos, o castanho-avermelhado de seus olhos reluzindo á luz das velas acesas nos castiçais gastos -, há um pequeno exército à disposição. Eu faço a segurança pessoal do senhor Sage, sua esposa e seus filhos. É mais fácil um homem acompanhar a família do que um punhado de soldados.

                - Deves ser um lutador exímio.

                - É tradição de minha família proteger os Ohitsujiza. Todos os homens de minha linhagem protegeram e guardaram os interesses e a saúde dos nobres Ohitsujiza.

                A conversação entre Aphrodite e Camus soava quase como um balbuciar sutil de informações ao relento. Os dois homens tinham modos diferentes, mas extremamente semelhantes, e por mais que o assunto fluísse deliberadamente, o ruivo ainda assim não deixava de perceber que algo estava faltando: Mu e Shaka já deviam ter retornado da reunião noturna, mas sequer havia sinal deles. Desejou, internamente, que eles tivessem se esgueirado tão silenciosamente de volta que sequer ele pudesse ter ouvido ou percebido.



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