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História O Jogo - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Capítulo 9


Jimin


— Quem era?

Pulo quase meio metro ao som da voz de Hannah. Desliguei a chamada assim que ouvi os passos dela no corredor, mas não achei que minha amiga fosse aparecer na porta do meu quarto tão depressa.

— Hmm, ninguém.–  Brilhante resposta.

Ela arqueia uma das sobrancelhas escuras. 

— Ninguém?

— Telemarketing–, corrijo.— Que é o mesmo que ninguém.

Ela resmunga de irritação ao se aproximar da minha cama. 

— Como é que eles arrumam o número dos nossos celulares? Quando assinei o contrato com a minha operadora, o documento tinha uma seção inteira sobre como eles nunca, jamais repassam o seu telefone para outras empresas. Bem, para mim isso é balela, porque na real todo dia recebo ligação de companhias aéreas, lojas de roupa e um monte de empresas me contando das vendas impressionantes deles e dizendo que ganhei algum prêmio falso. Ai, meu Deus, e sabe qual foi a pior? Uma promoção idiota de um cruzeiro que começava com um apito ensurdecedor de navio! Horrível.

Hannah reclama por vários minutos, e fico grato por isso, porque significa que está irritada demais para perceber que acabei de mentir. E está tão envolvida em sua ladainha que nem percebe quando verifico discretamente a mensagem de texto que aparece no meu celular.

Jungkook: Vc precisa parar d desligar na minha cara.

Eu: Vc precisa parar c/ essas propostas indecentes. Sei q sou bom d cama, mas tá na hr d partir pra outra.

Jungkook: Não consigo. Vai por mim, já tentei.

Eu: Tenta d novo.

Jungkook: Qual é. Só mais 1 vez. Pensa em como vai ser bom…

Claro que vai ser bom. Ele é um deus do sexo. Mas isso não muda o fato de que não me sinto à vontade com sexo casual.

Eu: Me esquece. Tô botando o papo em dia c/ Hannah.

Jungkook: Me escreve qd terminarem e eu passo no seu alojamento. Wellsy nem  ai saber q tô aí.

Fico surpreso ao sentir uma pontada entre as pernas. A ideia de Jungkook vindo aqui para transar enquanto Hannah dorme no quarto ao lado sem saber de nada me provoca um tesão inesperado.

Ignoro a reação não desejada e digito: Boa noite, Jungkook.

Então ergo o olhar para Hannah e pergunto: 

— Já terminamos de falar mal dos operadores de telemarketing? Porque este roteiro não vai se ler sozinho, amiga”.

— Desculpa. É mais forte que eu — ouço a palavra ‘telemarketing’ e viro bicho.– Ela senta de pernas cruzadas no meio da minha cama e pega o roteiro que lanço em sua direção.

Continuo de pé. A cena de abertura requer que minha personagem caminhe, e quero sentir como falar e andar de um lado para o outro vai afetar minha respiração.

Hannah folheia as páginas de abertura. 

— Certo. Quem sou eu? Mathias ou Josh?

— Josh. Suas características principais são egoísmo e insensibilidade.

Minha melhor amiga abre um sorriso imenso. 

— Então sou o megero? Legal.

Para ser sincero, eu queria ser o megero. Minha personagem é um jovem viúva que perdeu o marido no Afeganistão, ou seja, o papel mais desgastante emocionalmente. E, depois do término com Matt, meu reservatório emocional está muito perto do fim, então tenho medo de não ser capaz de dar conta e fazer justiça ao roteiro.

Meu medo não é infundado. Cinco páginas depois, já estou exausto e peço uma pausa rápida.

— Uau–, exclama Hannah, folheando as cenas seguintes. — Que peça intensa. A plateia vai desidratar de tanto chorar.

Desmorono ao seu lado e deito de costas. 

— Eu vou desidratar de tanto chorar.

Literalmente, porque meu personagem chora cena sim, cena não.

Hannah se recosta nos cotovelos, e um silêncio confortável cai sobre nós. Gosto disso, porque não é uma coisa que tenho com muitas pessoas. Mesmo com Megan e Stella, que considero amigas próximas, um de nós está sempre tentando preencher o silêncio. Acho que é preciso um certo nível de confiança para ficar junto de alguém e não sentir o desejo premente de tagarelar.

Meu pai me disse uma vez que a forma como uma pessoa responde ao silêncio revela muito sobre ela ou ele. Sempre achei que ele estivesse viajando, porque meu pai tem o hábito de inventar frases bonitas e insistir que elas carregam muita sabedoria, quando metade do tempo sei que está só de palhaçada.

Mas, agora, acho que consigo ver a verdade das suas palavras. Quando penso nos silêncios que compartilhei com meus outros amigos, percebo que são mesmo incrivelmente reveladores.

Meg quebra o silêncio com piadas, fazendo o possível para preenchê-lo com risos. Desde que a conheço, sempre recorreu ao humor quando o assunto ficava sério demais para ela.

Stella enche você de perguntas sobre a sua vida. Desde que a conheço, ela foge de falar da própria vida sempre que pode evitar. Acho que foi por isso que fiquei surpresa quando ela começou a namorar Justin Kohl, o jogador de futebol por quem Hannah tinha uma queda antes de se apaixonar por Garrett. Stella já admitiu abertamente, mais de uma vez, que tem medo de intimidade.

A lembrança de Justin me leva de volta a Hannah. 

— Ei, Garrett já se desculpou com você por ter se enganado a respeito de Justin?

Ela franze a testa.

— De onde veio isso?

Sorrio. 

— Desculpa. Pensei em Stella, aí lembrei de como Garrett estava convencido de que Justin tinha segundas intenções. Ele não insistiu que Justin era meio falso?

— Pois é.– Ela senta na cama, rindo.— A gente conversou sobre isso um tempo atrás. Eu falei que era ciúme inconsciente.

— Rá. Aposto que ele adorou isso.

— Mas é a única coisa que explica. Justin é um dos caras mais legais que já conheci. Mas Garrett insiste que só interpretou o cara mal.

— Bem, de qualquer forma, fico feliz que Justin tenha se revelado um cara gente boa. Stella merece ser feliz.– Ouço o tom de melancolia na minha voz e torço para que Hannah não tenha notado.

Ela notou. 

— Você também merece ser feliz. Sabe disso, né?

— Sei.– Engulo o nó que surge em minha garganta.

Seus olhos verdes assumem um brilho hesitante. 

— Jimin… Você se arrepende de ter terminado com Matt?

O caroço aumenta, dificultando a respiração, principalmente quando me lembro da agonia na voz de Matt quando me perguntou com quem dormi.

— Não–, digo, por fim. — Sei que foi a decisão certa. Queríamos coisas completamente diferentes pro nosso futuro e ninguém se dispôs a ceder, não sem um ficar ressentido com o outro.

Hannah parece pensativa. 

— Você acha que tá pronto pra começar a namorar de novo?

Estremeço com um suspiro. 

— Não, nem perto.– Mas na verdade eu adoraria uma distração. Estou cansado de ficar triste. Cansado de me perguntar como Matt está e lutando contra a vontade de ligar pra ele.

 Posso não querer voltar para ele, mas odeio saber que machuquei alguém de quem gosto. Tenho esse hábito terrível de querer deixar todo mundo feliz, mesmo que isso signifique sacrificar minha própria felicidade. Meu pai insiste que é uma qualidade admirável, mas às vezes queria ser mais egoísta.

E acho que fui egoísta na noite de sexta. Meu sexo casual com Jungkook foi puramente uma questão de satisfazer meus próprios impulsos básicos, e, por mais culpado e envergonhado que tenha me sentido depois, não posso negar que foi mais que satisfatório.

Merda. Talvez Jungkook tenha razão. Talvez a gente devesse ficar de novo.

— Talvez eu esteja precisando de um casinho–, digo em voz alta, só para testar a ideia.

A resposta de Hannah é rápida e direta. 

— Você já tentou isso, lembra? Depois das primeiras vezes que terminou com Matt. Você odiou.

É verdade. Odiei. 

— Mas não cheguei nem a dormir com ninguém-, pondero. — Tudo o que fiz foi ir a uns encontros medíocres e ficar com uns babacas. Talvez esse tenha sido o meu erro… marcar encontros. Quem sabe desta vez eu não deva pegar um cara bem gostoso e transar com ele por umas semanas até não aguentar mais. Só sexo, sem expectativas.

Ela solta um riso irônico. 

— Boa sorte com isso. Nós sabemos que você é incapaz de beijar alguém sem pensar em namoro.

Totalmente verdade.

E por que continuo a alimentar a ideia? Se é assim que Hannah reage à perspectiva de eu ter um casinho, não consigo nem imaginar o que diria se eu admitisse que esse cara pode ser Jungkook. Ele é um jogador típico. Além de não fazer o tipo namorado, duvido que se comprometeria com alguma coisa, mesmo que fosse casual. Não consigo imaginá-lo sendo fiel a mim, o que é absolutamente inegociável, porque de jeito nenhum dormiria com alguém que também estivesse dormindo com outras ou outros.

Pois é… Preciso cortar essa ideia de Jungkook  pela raiz. Não sei por que ele está tão ansioso para ir para a cama comigo de novo, mas estou confiante de que vai acabar superando isso. Ele tem o poder de concentração de uma ameba e a efusividade de um filhotinho, e dedica sua devoção sexual a qualquer uma ou um que estiver com ele no momento. 

Recobro os sentidos e mudo de assunto. 

— Ei, o que você vai fazer no feriado de Ação de Graças?

— Garrett e eu vamos para a casa dos meus tios, na Filadélfia. Meus pais vão nos encontrar lá.

— Legal. Parece divertido.

— Você vai para o Brooklyn, né?

Faço que sim com a cabeça. Passo todos os feriados no Brooklyn, com meu pai. Sempre fico ansioso para encontrá-lo, mas este ano estou um pouco preocupado, porque na última vez que nos falamos ele insistiu que queria fazer o jantar de Ação de Graças.

Em geral, eu ficaria exultante com o anúncio, porque meu pai é o melhor cozinheiro do planeta. Mas, desde que ele foi diagnosticado com esclerose múltipla, há cinco anos, tenho feito o possível para me certificar de que ele não está se esforçando demais. O único motivo que me fez recusar uma bolsa integral no programa de teatro da UCLA foi porque ficaria longe demais dele. Ele é um homem teimoso e insiste que não precisa de ajuda, que pode se virar sozinho, mas não me senti bem com a ideia de me mudar para a outra ponta do país logo quando seus intervalos de remissão se tornaram mais raros e distantes entre si.

Agora estou ainda mais aliviado de ter ficado na Costa Leste, porque a condição do meu pai piorou progressivamente no ano passado.

Como a maioria das pessoas que sofrem da doença, primeiro ele foi diagnosticado com esclerose múltipla recidivante remitente, mas agora passou para o tipo secundário-progressivo, o que significa que as recidivas são mais frequentes e mais graves do que costumavam ser. Quando o visitei no verão, fiquei chocado com a mudança. Do nada, estava com dificuldade para caminhar, e antes tinha só uma perda ocasional de equilíbrio e uma dormência leve nos membros. Teve dois ataques de vertigem enquanto eu estava lá e, quando o pressionei, admitiu que a dor estava piorando e que às vezes tinha problema de visão.

Como me sinto diante de tudo isso? Apavorado. Já perdi minha mãe para o câncer quando tinha treze anos. Meu pai é tudo o que me resta. Me recuso a perdê-lo também, mesmo que isso signifique amarrá-lo à cadeira do apartamento no Brooklyn e forçá-lo a ver futebol enquanto preparo o jantar.

— Certo, chega de descanso.

Mais uma vez, preciso de algo que me distraia dos meus pensamentos sombrios. Gemendo, sento e abro o roteiro na parte em que paramos. 

— Josh está prestes a gritar com Mathias mais uma vez.

Hannah passa uma mecha do cabelo escuro por trás da orelha. 

— Que fique bem claro: se algum dia você perder o marido, nunca o chamaria de bebê chorão e falaria para ‘virar a página’.– Sua expressão se torna mais grave.

— Em outras palavras, pode ficar borocoxô por causa do Matt o tempo que precisar. Prometo que não vou julgar você por isso.

A emoção empoça em minha garganta, mas consigo espremer uma palavrinha para fora dela. 

— Obrigada.



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