História O Jogo dos Deuses: Aquele que caça o divino. - Capítulo 3


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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Misticismo, Sobrenatural, Violência
Avisos: Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Inferno


Sentindo uma dor nas costas e na cabeça, nas mãos também, acho que no corpo inteiro, consigo abrir os olhos e noto que estou sendo arrastado. Eu estava sentindo muito medo, com a minha visão borrada, via mulheres e homens sendo açoitados e jogados num rio de sangue fervente, onde demônios estavam atirando flechas neles por diversão.

- Socorro... - Consigo murmurar muito baixo, um murmuro tão silencioso que pelo visto eu fui o único que escutei.

Eu não queria arriscar a me debater, ainda tinha forças, mas meu corpo inteiro doía, se fosse escapar, teria que ser na hora certa. A explosão no sigilo era apenas energia e não produziu estilhaços, então de certa forma só me apagou e queimou um pouco minha pele e roupas. Continuo sendo arrastado até chegar numa floresta. Uma floresta e um rio fervente em sangue, este com certeza era o círculo da violência. Quando começamos a adentrar as árvores, vejo plantas carnívoras com cabeças humanas devorando a si mesmas de fome, era a condenação dos suicidas.

- Vocês viveram uma vida difícil ao ponto de se matar para escapar dela, e agora sofrem ainda mais... Isso não é certo... - Diz Argon, me carregando.

Olha só, o desgraçado até que tem coração. Argon coloca a mão no seu cinto e tira o que parecia um rádio.

- A anjo da noite entrou no inferno e está atrás dele, aparentemente está no quinto círculo. - Dizia a voz no rádio.

Era a minha deixa.

- Flýja radíus - Não consigo gritar, mas um murmuro é o bastante, a magia me impulsiona para frente e acerto a cabeça de Argon com o pé, enquanto ele ainda estava cambaleando, passo a corrente que ele usou para me prender pelo seu pescoço e o sufoco até que ele desmaiou.

Pego as minhas lâminas que estavam com ele e as uso para quebrar as correntes que me prendiam, depois amarro Argon com o que restou delas e usando a caneta dele faço um sigilo anti-recitação, para que ele não fuja usando alguma magia. Percebo então que aquele círculo era composto por três vales, o primeiro era o rio de sangue, onde os violentos eram mergulhados no rio de sangue, o segundo era esse que estava, onde os suicidas eram transformados em árvores que tinham suas folhas devoradas por harpias, fazendo-as virarem plantas carnívoras e devorarem a si mesmas para sobreviver, o terceiro vale era um grande deserto sem cor ou vida, onde as almas condenadas corriam ou ficavam deitadas enquanto eram bombardeadas por fogo, no fim de tudo, um rio que passa pelo segundo e terceiro vale termina numa cachoeira de sangue. Começo a voltar pelo caminho que nós viemos, quando passo pelo rio de sangue fervente, vejo que uma enorme onda vem e cobre o rio, afogando todos os que estavam sendo atormentados, então suas almas voltam ao topo do morro e seus corpos são reconstituídos, onde são novamente açoitados e derrubados no rio de sangue, voltando a ser atingido por flechas. Um dos demônios atirando flechas me vê e começo a correr, vejo uma, duas, três flechas na minha direção. Exorcismos não funcionam aqui, então não tenho como lidar com eles por enquanto. Chego em uma árvore alta, suas raízes ficavam para fora. Haviam almas tendo seu sangue sugado pela árvore servindo como alimento a planta, elas ficavam implorando para que eu lhes desse o seu perdão, acreditando que talvez com eu as perdoando, deixem o inferno, não é assim que funciona, porque olhando para as almas, realmente preferia que todas estivessem fora dessa tortura eterna. Andando mais um pouco, vejo um elevador de corda que funciona no abismo que leva até o sétimo círculo, provavelmente o que Argon usou para me trazer aqui para baixo. Quando chego a beirada dele, noto que ele está subindo, como se alguém lá encima estivesse puxando, uso novamente a magia de impulso Flýja radíus para chegar até o elevador. Não posso ficar usando essas magias toda hora, já sinto minha energia acabando, é como uma anemia, mas diferente, seu corpo continua com a força mas parece que sua cabeça está indisposta. E todos os danos da explosão também estão me causando problemas, as queimaduras ardem ainda mais quando o meu suor passa por elas, e é quase impossível não suar nesse calor infernal, o que torna até engraçado pensar que o último círculo daqui tem um frio congelante. Depois de encontrar Laylah, ainda vou ter que ir atrás de Pedra, e só aí sair daqui. Quem puxava o elevador não era um demônio, era uma das almas penadas, fazendo serviço para um meio-sangue que estava ali, um conhecido, o vidente que morreu no acampamento.

- Você foi pro inferno depois de morrer? - Pergunto.

- Eu não era batizado e pedi para Javé que não me enviasse para a vida após a morte da minha mitologia chinesa, então, ele me enviou para cá, no Limbo. Quando vi você sendo levado, tentei fazer algo, mas é difícil sem corpo físico. Venha logo, vou te levar até a sua anjo, ela está por aqui já.

Ele estica sua mão para que eu pule do elevador e me ajuda a subir até onde ele está.

- Laylah veio sozinha, contra a ordem de todos do seu grupo. Era uma missão suicida, pelo que ela me falou, teve que nocautear Rogziel para vir, pois ela estava tentando a impedir de descer.

- Então por que ela veio? - Pergunto.

- Pergunta pra ela, eu não faço ideia.

Realmente era estranho, até o momento, com exceção dos demônios, Argon havia sido o único inimigo que eu havia encontrado. A minha teoria é que provavelmente a armada do inimigo esteja no castelo de Lilith, aqui encima, seja somente onde as almas sofrem, e pelo que me contaram, quanto mais almas aqui, mais magia Lúcifer consegue usar, provavelmente extraindo poder das pobres almas que aqui jazem.

- Matt, não pense que quem está aqui é bom, até mesmo eu, só estou aqui porque preferi o Limbo ao outro fim, mas não merecia o paraíso. Não tomar partido sobre nada é escolher a indecisão. Até mesmo os menos merecedores de estar aqui merecem.

Agradeço o conselho do vidente e continuo a viagem, o lugar onde estava parecia um cemitério de fogo, onde haviam túmulos lotados de almas sendo queimadas, pareciam milhares em cada um deles, uma das almas inflamadas estava quase saindo de um dos túmulos, escalando com suas forças.

- Eu sou um homem da igreja... Não merecia estar aqui... - Diz a alma penada.

Eu não conseguia só olhar. Tive a disposição de chegar perto para o puxar para fora mesmo que queimasse minha mão, mas quando estico meu punho ele é puxado para baixo junto com os outros.

- Volte para o seu tormento, Anastácio II... - Diz a alma que o puxou.

Continuando viagem, vejo o muro de uma cidade. Esse é o sexto círculo, o círculo dos hereges, logo, essa é a cidade de Dite,  que divide o inferno entre os pecados cometidos sem intenção e os cometidos conscientemente. Entrando pelos portões que estavam abertos, noto que a cidade era infestada de demônios, tenho que permanecer escondido e passar pelas sombras com cuidado. Consigo após passar por uma construção sem demônios chegar até perto do portão que leva até fora da cidade, acima dos muros do portão haviam dois demônios, aparentemente, estavam conversando com duas pessoas no outro lado da entrada da cidade, olhando pelas frestas do muro velho, vejo um homem aparentemente vivo, e uma alma, porém essa alma parecia de alguma forma ser capaz de vagar por todo o inferno, talvez seja do limbo, e portanto livre, como era o vidente. Escuto um dos demônios falar algo sobre "Virgílio", começo a observar o que está acontecendo. Por algum motivo, as fúrias da mitologia grega passam acima da cidade neste momento, carregando Medusa, assim que a alma diz ao homem vivo que não olhasse para as serpentes na cabeça da Górgona, me viro. Nessa mesma hora percebo que a construção em que estava era logo abaixo de uma torre onde existia um gorgonião(imagem da cabeça de górgona entalhada em pedra), fico assustado achando que olhei para uma imagem que me transformaria em pedra, mas como nada aconteceu, acredito que só vale se olhar para a cabeça verdadeira. Escuto um barulho vindo do portão, era Laylah, usando uma vara(que não é nem um pouco a cara dela) abriu o portão para os dois viajantes e depois começou a andar para fora dos portões. Eu queria ter gritado, para que ela viesse me pegar, mas era arriscado, os demônios aqui estavam atrás de mim, como comprovei fugindo de flechas no sétimo círculo. Decido tentar chegar até os dois viajantes, mas então sou parado por uma alma que pulou de um dos túmulos flamejantes e agarrou-me pelos ombros.

- Não pode interromper o caminho! - Gritava a alma. - Dante deve escrever!

Depois de me soltar da alma e ignorar a dor de mais uma queimadura, olho para frente e vejo a ponta de uma espada tentando me acertar, desvio muito lentamente e acabo sofrendo um corte no ombro, justamente onde a alma me queimou, era um demônio quem segurava a espada.

- O garoto está aqui! - Ele gritava sem parar.

Começo a correr o mais rápido que consigo em direção a saída, um demônio tenta ficar no meu caminho, então atiro uma de minhas lâminas em seu joelho para o atrasar e continuo em frente, chamo a lâmina que estava presa ao joelho do demônios e disparo um trovão no portão da cidade, quando estava prestes a passar por ele, os demônios no muro pulam e me imobilizam, um deles ia enfiar a adaga no meu pescoço.

- Morra! - Ele gritou.

Nessa hora um disparo de luz atingiu o demônio que iria me apunhalar, o matando. Vejo o que pareciam anjos caídos com as asas arrancadas gritando e matando os demônios como animais, mas minha felicidade não durou muito, quando acabaram os demônios, eles olharam para mim com um olhar de matança. Passo por eles e tento fugir da cidade, mas eles me cercam. Achei que seria meu fim, mas então, quando percebo, minha gola está sendo puxada e eu estou voando.

- Laylah! Não sabe o quão feliz estou de te ver agora. - Digo.

Laylah me manda um sorriso, e depois me coloca ao chão, afastado dos anjos caídos. Olhando ao longe, vejo que quanto não tem mais ninguém, os caídos se reúnem ao redor do muro da cidade e fecham o portão, eles eram como guardiões da cidade. Enquanto estava distraído Laylah me abraçou.

- Eu tava tão preocupada... Toma mais cuidado, seu idiota! - Diz.

- É, eu sei. - Respondo.

Ela se recompõe, e então se senta, nessa hora, vejo que os movimentos em seu ombro estavam lentos.

- Machucou o ombro? - Pergunto.

- Não é nada. - Responde.

- Deixa eu ver.

- Olha só para você, tá todo ferrado, por que é comigo que fica preocupado?

- Porque é você quem veio até o inferno só pra salvar esse mané todo quebrado.

Ela vira o olhar e acaba cedendo, me deixando ver seu ombro, estava deslocado e havia um pequeno machucado, não podia ajudar com o ferimento, mas podia arrumar o deslocamento, e é o que eu faço.

- Droga, Matt, avisa! - Grita.

- Desculpa, não achei que fosse doer tanto.

- Não doeu, é que... Foi só a surpresa, deixa pra lá.

Estávamos sentados, então, imagino que era uma espécie de descanso.

- Por que você veio, se era tão arriscado? - Pergunto.

- Eu não queria errar de novo. Deixei Ártemis morrer, mandei Batraal para a morte... Não podia errar de novo, e não vou.

- É só por isso? Não queria errar?

Laylah desvia o rosto para que eu não visse sua expressão, parecia que ela mesma estava evitando pensar se era só isso.

- Sim. - Responde, mas parece forçado, uma resposta jogada.

Ainda exitando, ela continua, e solta mais uma fala forçada.

- Só isso.

Ela sabe que eu estou percebendo que isso é forçado. Pode ver na minha mente. Então por que ainda diz? Será que eu é quem estou enganado e era só isso mesmo? Talvez eu ache que ela se importa mais do que realmente liga.

- Cadê o Pedra, Matt?

Ela queria mudar o assunto, então decido ceder.

- Não sei. Mas se você veio do limbo até aqui e não viu ele, e eu que estava no sétimo círculo até aqui também não vi, então...

- Ele está abaixo disso. - Diz Laylah.

- Isso.

Ela se levanta e já começa a andar na direção da cidade de Dite para que voltemos a descer no inferno.

- Vou economizar minhas asas.

Não parecia que Laylah queria me aguardar, estava andando na frente e nem olhava para trás. Eu esperei para ver se ela pararia quando percebesse a distância, mas quando estava a 150 metros sem nem mesmo mover o pescoço para ver se eu a acompanhava, desisti. Ando um pouco rápido, quase correndo, e a alcanço. Normalmente quando andávamos em outras situações, conversávamos, mas agora ela não dizia nada e cortava todas as minhas tentativas de conversa. Me levou voando por cima dos muros de Dite, tomando cuidado com Medusa e as fúrias, e continuamos descendo, nada, nem uma palavra, até que eu perco um pouco a paciência.

- Laylah, eu fiz alguma coisa? Não é possível que seja só aquilo do supermercado, qual é!

- Não liguei de verdade para aquilo do supermercado. Quando você sumiu, eu senti uma coisa estranha. Era como um aperto no meu peito, fiquei agitada, e só me acalmei agora que vi você bem. Ainda não entendi o que é isso, então estou processando. Conversar não ajuda, desculpa.

Aperto no peito? O que isso significa?

- É exatamente essa a minha dúvida. Por que você está vermelho? - Diz.

- Nada, eu acho.

Um aperto no peito quando achou que eu estava mal. O que isso pode significar?

- Para de pensar e anda. Esse lugar me incomoda um pouco.

- Desculpa.

Passamos tentando nos manter escondidos dos demônios nos três vales do sétimo círculo, chegamos até a cachoeira de sangue.

- Como a gente desce aqui? - Pergunto.

- Assim. - Diz, me empurrando.

Laylah me segura alguns centímetros antes do fim do abismo.

- Esse lugar é conhecido como Malebolge. - Diz Laylah.

- O oitavo círculo do inferno. - Completo.

- Isso mesmo.

Era como um enorme penhasco cheio de valas e haviam 10 regiões mais altas ligadas por pontes. A primeira delas foi onde Laylah e eu pousamos, escondidos atrás de uma pedra, víamos almas em fila sendo açoitadas por demônios, algumas delas tinham seu corpo tocado e abusado.

- Aqueles são sedutores e rufiões (pessoas que brigam por mulheres de baixa reputação). Eles são condenados a sofrerem aqui o que fizeram com os outros. - Diz Laylah.

- Como você sabe tanto assim sobre o inferno? Quase tudo que eu sei foi você quem me contou.

- Livros, Matt. Mas tem algumas diferenças, meu pai criou isso de um jeito e depois que Lúcifer veio governar aqui, ele se rebelou, mudou algumas coisas para aumentar seu poder e controle sobre as almas.

Uma das almas tentou sair da fila e foi pego por um dos demônios, foi colocado novamente sobre a fila e um grupo de demônios foi açoitar o condenado em conjunto.

- Vamos. Aproveite que estão distraídos. - Diz Laylah.

Não parecia que ela se importava tanto, era como se não ligasse para nenhuma das pessoas que estavam ali. Mas eu não conseguia simplesmente ignorar a minha empatia, então todas as torturas eram incômodas para mim. Laylah atirou seu gládio na cabeça de um demônio que protegia a ponte para a próxima zona e depois fomos até lá, dessa vez não era necessário se esconder. No meio da região haviam valas lotadas de fezes e as almas estavam afogadas nelas, as fezes eram quentes  e o fedor com o calor deveria causar uma tortura e tanto.

- Esses são os bajuladores, eles enganam as pessoas com falsos elogios, acreditando que com esses elogios vão ganhar algo em troca. Eles estão cobertos na própria merda que colocaram no mundo. - Diz Laylah.

- Quanto mais bajulador, mais mergulhados na merda eles estão?

Laylah responde que sim com a cabeça. Continuamos passando escondidos por esse local até o próximo, haviam diversas pessoas enterradas com o pé para fora, os pés estavam sendo queimados, alguns por velas, outros por combustão espontânea.

- Os simoníacos estão enterrados aqui. - Diz Laylah.

- Simoquê?

- Simoníacos são tipo traficantes de artefatos sagrados. Aqui não incluem só quem traficou artefatos ligados ao paraíso, céu ou inferno. Alguns dos que traficavam artefatos de deuses estão aqui.

Um demônio quase nos olha, então puxo Laylah para atrás de uma sombra e dou sinal para que ela tornasse suas asas negras usando trevas.

- Não posso deixar minhas asas escuras. - Diz.

- Por que não?

- Aqui no inferno, tem uma sensação estranha.

- Como assim estranha?

- Frio.

- Frio? Frio é normal.

- Você já passou por frio, eu não, nunca senti isso antes... Incomoda.

- Tá bom, então temos que vir por aqui.

Eu a puxo para um canto e conseguimos passar despercebidos pela atenção do demônio. Ele começa a gritar para que alguns venham ver a área e então tenho uma ideia estúpida.

- Aqueles anjos caídos tiveram suas asas arrancadas. Esconde as suas asas dentro do sobretudo e atira um raio de luz em mim, pra machucar mesmo. Coloca uma máscara feita de alquimia e finge que me capturou.

- Essa ideia é PÉSSIMA. - Diz.

- Alguma melhor?

Não tínhamos muito tempo para pensar, ela acabou cedendo e torceu para dar certo. Atirou um raio de luz capaz de me ferir na minha perna e eu gritei de dor para parecer que ela me feriu. Laylah pega uma pedra no chão, e com alquimia faz uma máscara de rocha. Me arrastando, sai da sombra e me mostra aos demônios.

- A outra anjo que estava com ele fugiu. Eu vou levá-lo até o nono círculo. - Diz Laylah.

- O quê está fazendo fora da cidade de Dite? Vocês anjos caídos não podem sair de lá. - Responde o demônio, apertando uma lâmina com sua mão, mostrando que não acreditava no que estávamos dizendo.

- Eu não sou uma anjo caída. - Laylah libera novamente suas asas. - Sou uma das anjos que trabalha para Alá. Vim ajudar a capturar esse garoto.

- Leve ele logo, então. - Os demônios se dispersam

Laylah continua me levando até a próxima ponte.

- Você é pesado, hein?

- Poderia ter mirado em outro lugar ao invés da perna, eu poderia ir andando com você.

- Foi por reflexo, se eu quisesse imobilizar alguém acertaria a perna. Queria que os demônios acreditassem, aí acabei imobilizando você de verdade.

- Eu vou me curar rápido disso. Só mais algum tempo.

O lugar para onde vamos após cruzar a próxima ponte era perturbador, todas as almas tinham as cabeças torcidas e estavam desnudas, as lágrimas deles desciam até as pernas e  seus gritos saiam distorcidos como seus pescoços. Acabo percebendo que Laylah estava bem incomodada.

- Qual é, eles podiam usar pelo menos um lencinho como roupa íntima. - Comenta enquanto acelera o passo, me arrastando com mais força.

Eu não consegui conter o riso, ela respondeu com um apertão na parte machucada da minha perna.

- Ai! você não queria que eu me curasse? - Pergunto.

- Não vai atrasar sua cura, só vai doer.

Fiquei me questionando como é que eu posso gostar de alguém que me causa dor, mas aí eu lembrei que ela foi até o inferno para me salvar, literalmente. Laylah me explicou que esses eram os falsos videntes que diziam ver o futuro mesmo sem saber, sua condenação era nunca poder olhar para frente, por isso seus pescoços eram torcidos. Quando chegamos na próxima ponte, minha perna estava boa o bastante para que eu andasse mancando.

- Laylah, como funciona o tempo aqui embaixo?

- É bem confuso. Por exemplo, você pode encontrar alguém que esteve aqui a muito tempo, e alguém sendo punido que ainda não morreu.

- Tem uma explicação para isso?

- Sim, mas eu não sei não. Provavelmente algum dos meus irmãos deve saber.

Passamos então para a próxima parte, onde almas estavam enterradas em piche fervente.

- Minha parte favorita, os corruptos. - Laylah fica mais empolgada que o normal, procurando pessoas com as cabeças para fora

- Por que eles ficam enterrados em piche?

- Corruptos fazem as negociações as escondidas, então no inferno eles ficam escondidos no caldo de piche fervente. Abusavam da confiança da sociedade, mesmo assim querem colocar o rosto para fora do caldo e se mostrar, é por isso que esses demônios estão prontos para atacar.

Eu estava prestes a perguntar o que " prontos para atacar" significava quando um dos corruptos tirou a cabeça do caldo de piche e um demônio o puxou, dilacerou seu rosto e o jogou de volta.

- Por que você tem tanta raiva dos corruptos?

- Eu já acho errado que esses políticos usem o nome do meu pai e de outras divindades para justificar as ações deles ao povo, como se alguma divindade interferisse num sistema de política criado por humanos. Eles mentem e manipulam a verdade, as pessoas também, muitas vezes sem que elas percebam. No tempo que fiquei na terra, antes de me colocarem no palácio de Equidna e você me encontrar com a Allen, eu tentei ver como era a vida humana, mas isso foi o que mais me deu ódio, ver as mentiras, principalmente quando fui escondida a uma decisão política e li a mente dos idiotas. Não quero nem pensar nisso, dá nojo.

Conseguia reconhecer algumas pessoas ali, nem todos já haviam morrido quando sai da terra, mas estavam lá. Lembro de ter visto alguns deles na lista dos condenados de uma operação anti-corrupção no Brasil, Adir Assad, André Vargas, Antonio Palocci, e mais outros. Um deles tinha o dedo mindinho da mão esquerda faltando, o que me fez questionar se os corpos das almas aqui no inferno eram reflexos do corpo que possuíam na vida real. A ponte para o próximo lugar estava quebrada mas Laylah nos levou voando. Aqui era a área dos hipócritas, eles usavam roupas brilhantes mas que eram tão pesadas que mal conseguiam se mexer. Com a minha audição de meio-sangue conseguia ouvir o corpos sendo esmagados pelo peso, os ossos roendo, os músculos ficando atrofiados, com certeza não é um som agradável. Ao invés de uma ponte, aqui havia uma ruína que levava até o próximo ponto de condenação. No topo da ruína, Caiphás estava lá sendo pisoteado.

- Ele não devia ter sido perdoado pelo que fez? - Pergunto a Laylah.

- Ele foi perdoado pelo que você está pensando. Ele pecou de novo depois, e aqui no inferno, se pagam por todos os seus pecados, mesmo os que haviam sido perdoados.

Subindo um pouco mais vemos a punição dos ladrões, eles corriam enquanto tinham partes de seus corpos, os braços, pernas ou até mesmo órgãos, roubados por serpentes a mordidas. E quanto mais as serpentes roubavam, menos humanas as almas ficavam, como se os répteis estivessem roubando sua identidade própria. Depois de perder toda sua identidade os condenados se tornavam serpentes e passavam a caçar os outros, e quando consumiam o bastante, voltavam a serem normais, então voltam a correr, fugindo das novas serpentes.

- Ladrão que rouba ladrão tem 1000 anos de perdão? Não é o que parece. - Digo.

A ponte que levava ao próximo fosso era bamba, Laylah e eu conseguimos passar por cuidado, e vemos um homem tentando passar por ela no caminho de volta.

- Eu vou chegar ao limbo, chega de tortura... - Dizia a alma.

Laylah o chutou, derrubando-o da ponte.

- Por que fez isso? - Pergunto.

- Para que ele voltasse a tortura dele. O corpo dele vai ser refeito seja lá de onde ele pertencia.

Nossa opinião divergia um pouco nisso, mas não ligava, isso é até bom, diversidade nunca é ruim. No fim da ponte estava o oitavo ponto de tortura do oitavo círculo, as almas ficavam tentando aconselhar umas às outras enquanto estavam envoltas em chamas, oceanos de lava e tempestades de raios, toda vez que tentavam dar um mal conselho a alguém, se feriam com algo. Esses eram os maus conselheiros, que incentivavam a fraude e outras mais atitudes ruins. No penúltimo fosso do oitavo círculo, estavam os que causaram discórdia durante a vida. Um demônio gigante de 10 metros de altura usava sua espada para dilacerar a alma de acordo com a discórdia que ele plantou, alguns tem membros amputados, outros decapitados e teve um em específico que toda vez que chegava seu momento era cortado em centenas de pedaços.

- Vamos sair logo daqui, Laylah. - Digo.

Nessa hora, o demônio se vira para nós e aponta seu enorme dedo na nossa direção.

- Matt... - Diz Laylah, tirando a máscara. - Você me chamou pelo meu nome.

Fomos cercados por demônios em questão de segundos. Um deles usou um sigilo pronto para invocar fumaça e tirar nossa visão. Laylah ativa suas trevas para anular a cortina de fumaça e levanta vôo segurando meu braço, assim nos levando a altura, ela estava tremendo, como havia dito antes, usar suas trevas no inferno a deixa com frio. O demônio gigante levanta sua lâmina, quando vejo que Laylah não desviaria a tempo, reajo:

- Flýja radíus! - Quando grito a magia o impulso nos tira da rota de colisão com a espada do enorme demônio, mas faz com que meu corpo acerte Laylah com força extrema, fazendo-a perder o equilíbrio.

A alguns metros de colidir contra o chão, Laylah consegue recuperar o equilíbrio ao abrir mais as asas e planar, mas meu peso estava atrapalhando a aerodinâmica, o que nos fez realizar um pouso forçado no nono círculo.

- Entrem aqui! - Uma alma gritou de um buraco. - Os demônios não irão ver vocês aqui.

Nós sabíamos que esse era o círculo dos traidores mas não tínhamos muita opção, Laylah leu a mente do homem e deu ordem para que eu entrasse no buraco.

- E aí, - Diz Laylah. - Valeu a pena passar a vida estudando a relatividade?

Eu não conseguia acreditar. Olhando melhor a pessoa, se tratava do grande gênio da física, Albert Einstein.

- Por que você está aqui!? - Pergunto num ponto tão alto de voz que foi quase um grito.

- A gente tá escondido, seu idiota! - Laylah cochicha com um tom de raiva.

Einstein nos explica que havia cometido adultério mais de uma vez e tinha sido considerado um traidor da humanidade por ajudar na criação da bomba nuclear, uma arma que pode tirar milhares ou até milhões de vidas humanas. Por adultério ser uma forma de traição e por ele ter traído a humanidade, foi levado ao nono círculo.

- Tenho que voltar ao meu tormento, ou vão me procurar e nos achar aqui. Boa sorte aos dois. - Diz o físico, saindo do buraco e voltando.

Foi culpa minha. Tínhamos um bom plano, e eu estraguei tudo. Eu vim para o inferno e até na hora de ser salvo eu atrapalho, talvez eu até mereça estar aqui, mas não Laylah e Pedra, eu vou tirá-los daqui.

- Matt. - Laylah segura minha mão e percebo que ambas as mãos estavam tremendo, a minha por ansiedade e culpa, a dela por frio. Usar suas trevas havia a afetado bastante. - Já basta eu me culpando, você cometeu um erro agora, sim, mas é incrível, tá bom? Você não merece estar aqui.

Acabo de perceber que esqueci que ela podia ler minha mente. De certa forma ela consegue saber exatamente o que eu preciso ouvir, e é bom ter alguém assim. Mesmo com o buraco no chão sendo apertado, tinha espaço para ficarmos de pé, Laylah levanta e me puxa para também levantar pela mão que estava segurando. Nessa hora, por algum motivo, Laylah coloca a minha mão sobre seu rosto.

- Eu nunca tinha sentido isso antes... Tocar o calor de um corpo quente enquanto sente frio, é... Bom. - Diz.

Eu fico um pouco envergonhado, mas coloco a outra mão sobre o queixo dela para esquentar seu rosto. A pele dela era macia, mesmo cheia de sujeira do inferno.

- Você também é incrível, Laylah. Não devia se culpar. - Digo.

- Eu digo pra eu mesma que não sei porquê eu senti aquele aperto no peito quando você sumiu, mas, uma parte de mim diz que já sabe. Diz que é porque eu me importo com você.

Nesse momento ela chegou mais perto, e eu, sem pensar, aproximei meu rosto e a beijei. No primeiro momento Laylah aceitou o beijo, no próximo, ela se afastou. Estava vermelha, parecia feliz, mas confusa.

- O que foi isso? - Perguntou.

Assim que ela pergunta, começo a encher a minha cabeça com pensamentos aleatórios para que ela se perca e não consiga saber nada que passa na minha mente.

- Você tá pensando em golfinhos? Qual é, eu achei que... - Ela parece ter ficado nervosa e um pouco triste. - Deixa pra lá.

Eu estraguei tudo de novo, e dessa vez, Laylah não vai conseguir ler minha mente pra saber o que dizer a respeito. "O que foi isso?" Eu também queria saber. Por que eu fiz isso? Seria tão mais fácil simplesmente ter ignorado aquele pensamento rápido, aquele sentimento. Fácil, mas não agradável. Eu me senti bem com aquilo, muito bem. Mas foi só isso. Não tem mais nada, só foi aquilo.

- Os demônios já pararam de nos procurar. - Diz Laylah, olhando pela saída do buraco.

Nós saímos e logo na saída encontramos uma pessoa, com alguns cortes e hematomas, mas ainda sim sorrindo: Pedra.

- Vamos sair daqui, pessoal. - Ele diz, mostrando sua macuahuitl e apontando na direção do caminho que devíamos seguir para voltar.



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