História O Julgamento - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Drama
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Palavras 1.709
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Dia 2


A lembrança do Thomas ensaguentado no carpete da minha sala havia me tormentado durante toda madrugada. Nem sei por quantas horas dormi, mas sinto que foram poucas. 

Não dá para ter noção de tempo na cadeia, mas os momentos acordados duram muito e os momentos inconsciente duram pouco. Eu me odiava pelo que havia feito com o Thomas, mas também não queria ficar naquele lugar por mais tempo. 

Acho que, se eu mereço ficar presa as autoridades decidirão isso. Não sou eu que tenho que decidir se sou culpada ou não. Porque acho que nada nessa vida vai superar o sofrimento que tenho preso na minha mente, então para mim sempre serei culpada.

Quando cheguei à sala de monitoramento, já fui correndo sentar e fixei meus olhos aos olhos da Amélia. Hoje eu utilizaria cada minuto necessário.

-Parece melhor hoje. -Amélia sorriu.

-Só pareço. 

Acredito que ela tenha ignorado o que eu disse, pois sem nem perguntar nada em seguida, já foi abrindo o caderno e tirando a tampa da caneta novamente. Acho que ela também queria usar cada minuto, para compensar o dia perdido de ontem.

-Marcela, por que o matou?

-É uma longa história...

-Temos tempo.

Soltei um sorriso juntamente à ela pelo diálogo já conversado.

-Costumava a ser uma pessoa muito insegura comigo mesma. -comecei.

Costumava a ser uma pessoa muito insegura comigo mesma. Eu sempre senti a necessidade de ter alguém comigo para me apoiar. Tive meu primeiro namorado aos 16 anos, ele era meu colega de classe, era engraçado, gentil e o amor da minha vida.

Infelizmente nossos planos eram diferentes. Por mais que nos amassemos, teríamos que nos afastar. Ele iria se mudar para o Canadá com a família. Quando ele me disse isso eu senti todos os ossos do meu corpo se quebrando. Mas eu não havia como impedir que ele fosse. 

E então, na primeira semana de férias do fim do ensino médio, ele se mudou. 

Tinhamos combinado de tentar um relacionamento. Ou seja, ainda namorávamos, mesmo que há muitos quilômetros de distância. E eu o amava muito, então para mim não era problema ficar longe dele, até porque, também tinha planos de me mudar para lá e o reencontrar.

Nosso relacionamento durou muito tempo, passou um ano e ainda namorávamos. Eu nunca havia traído ele e acho que ele também não, mas não dava para ter certeza. E isso me angustiava, essa desconfiança nele. Às vezes ele sumia por dias, não mandava mensagem, depois aparecia dizendo que estava no trabalho, faculdade, que o ritmo no Canadá era diferente e etc. 

E o amor foi esfriando, eu estava sempre carente. Mas continuei sendo fiel.

Eu não saía mais de casa para nada. Era do trabalho para faculdade e da faculdade para casa. Essa era minha rotina todos os dias, aos finais de semana eu ficava em casa assistindo séries e sempre que podia estava na webcam com meu namorado. 

Até que um dia minha melhor amiga me chamou para sair com ela. O nome dela é Anna, e nos conhecemos desde o primário. A Anna sempre foi muito diferente de mim, sabe? Ela sempre foi mais segura de si, extrovertida, engraçada. 
A Anna estava saindo com um cara, não era nada sério, até porque ela odeia relacionamento.
Mas então esse cara a chamou para uma festa de noivado fora da cidade, e ela havia dito que iria. E então me chamou, disse que seria divertido passar um tempo comigo.

E eu já estava começando a surtar de passar tanto tempo sozinha.

Então aceitei. 

-Ok, mas, o que isso tem a ver com o Thomas? -Amélia parecia muito confusa.

Acho que ela pensou que eu estava de enrolação. Mas eu não estava, só estava sendo bem detalhista mesmo.

-Calma, ainda não cheguei aí. -disse.

-Marcela, temos hoje e mais cinco dias pela frente, cada um deles com no máximo uma hora e meia de duração, você precisa ser mais precisa. -ela disse. -Estão me pedindo.

E então ela apontou para o espelho.

Olhei para o espelho e foquei os olhos no meu rosto.

-Preciso contar a história desse jeito, por favor... -disse. -Continuando...

Fomos para a festa fora da cidade. Eu estava tão animada por finalmente estar saindo. Era a primeira vez que eu saía estando maior de idade e eu achava isso o máximo.

Quando chegamos a festa eu bebi, pulei, dancei. Eu estava morrendo de saudade daquilo. 

E então a Anna resolveu ir transar ou fazer sei lá o que com o cara que ela estava pegando. E me deixou sozinha, sentada no banco do bar, enquanto pedia ao garçom mais uma dose e bebendo tentando esquecer meu namorado com cidadania canadense.

E foi aí que o inferno começou.

-Não entendo como uma moça tão bonita consegue ter um olhar tão triste enquanto segura um copão de Whisky. 

Dei uma olhada para trás e me deparei com um homem me olhando. Ele estava tão bem arrumado, cheiroso, tinha um olhar tão doce, tão gentil e puro. 
Eu engasguei na mesma hora com a bebida e fiquei tossindo como se estivesse morrendo. E ele então me ajudou na minha mini asfixia. 

-Obrigada. -disse. -Por ter me chamado de moça bonita e por ter me salvado da morte. Eu podia jurar que tinha visto uma luz branca. 

E então ele apontou para um lustre enorme que estava praticamente em cima de mim.

-Não era essa luz branca. Era um branco celestial, como se anjos estivessem vindo me buscar e tal. -disse.

-Faz sentido. -ele murmurou.

-O quê? -perguntei.

-Os anjos querem te levar de volta ao lar. -ele sorriu.

Cara, essa foi P-É-S-S-I-M-A. Eu nem acreditei que ele tinha dito uma coisa daquelas. Eu teria vergonha de sair na rua falando esse tipo de coisa para as pessoas.

-Sei, foi bem ruim mesmo. -Amélia rudemente me interrompeu respondendo minha pergunta retórica.

Mas continuei firmemente minha história.

-Puts.

Não consegui conter minha desaprovação.

-Muito ruim? -perguntou. 

-Muito. -disse. -Ou eu estou muito bêbada, não sei.

-Os dois. -ele sorriu. -Amigo do noivo ou da noiva?

-Sou amiga da amiga do amigo do noivo. -disse.

Ele pareceu confuso, mas começou a rir, rir de verdade, e a gargalhada dele era boa de se ouvir.

Apesar da cantada ridícula que ele havia soltado, eu gostava dele. Ele era simpático, tinha um sorriso encantador. E ele parecia ser mais velho, eu gostava da ideia de me envolver com um cara mais velho. Mais experiente, entende né?

E então passamos um bom tempo conversando. Eu tinha conhecido bastante dele, em apenas poucos minutos de conversa, eu já sabia o nome, profissão, tipo sanguíneo, essas coisas que você aprende no primeiro encontro. 

E bem, aquilo não era um primeiro encontro.

Eu fiquei encantada porque ele era solteiro, tinha 32 anos e era médico. Ele era neurologista, tem coisa mais impressionante que isso? Eu sentia um nervoso na barriga como se estivesse numa montanha-russa. Só não entendia se era o álcool ou uma mini paixão começando.

Daí, o noivo chamou ele pra tirar uma foto. E ele foi. 

Enquanto ele tirava a foto, a Anna apareceu correndo e começou a me puxar.

-Rave, aqui do lado. -ela disse eufórica.

-Quê? -perguntei.

-É. Rave, Marcela, rave. -resmungou. 

-Tá, idai? -perguntei.

-A gente nunca foi em uma rave. A gente precisa ir. -ela disse.

Eu não queria sair dali, queria passar mais tempo com meu novo amigo Thomas Monteiro. 

-Pode ir, sabe, vou ficar bem aqui. -disse.

-Bem aqui? Sozinha? Tá maluca? -fez uma série de perguntas.

-Não estou sozinha. -apontei para o Thomas que estava conversando com os noivos.

A Anna se inclinou e ficou um tempo encarando o Thomas, dai me encarava, encarava o Thomas e me encarava de novo.

-Bem gato, bumbum parece ser durinho. -ela disse.

-E é. -disse.

-Nossa que delí... Calma, como você sabe? -ela perguntou.

Dei uma risada e fiz um sinal com a boca, como se não fosse contar para ela.

-Marcela, ok, olha, você está bêbada. -Anna disse.

-Bêbada não, levemente alterada. -disse.

-Ok, que seja. -Anna murmurou. -Lembre-se que você tem um namorado.

E aí a ficha caiu. Eu namorava e tinha me esquecido disso. Fazia tanto tempo que eu não beijava uma boca que acho que meus neurônios levemente alterados esqueceram que eu namorava e implorava por uns amassos. 
Mas eu namorava. E amava meu namorado. 

-Ok, vamos para rave. 

E então fomos para rave.

Fiquei um pouco apreensiva de ter deixado o Thomas ali, sem ter avisado, passado o número de telefone ou algo assim. Mas eu namorava e sentia que era o certo a se fazer.
Eu passei o resto da noite pensando nele, mas graças a bebida eu já tinha me esquecido de absolutamente tudo que ele havia me dito. Então o máximo que conseguia me lembrar era que eu o achei interessante, mas não sabia nem ao menos porque.

Me calei e fiquei olhando para a Amélia, que me olhava com uma feição que não tinha visto antes nela.

-Tem mais alguma coisa que queira dizer? -Amélia perguntou.

Fiquei pensando e analisando para ver se havia algo que eu queria acrescentar.

-Não usei drogas na rave. -dsse.

Achei importante ressaltar isso, sei lá, eu estava numa delegacia né.

-Não, alguma outra coisa. -ela disse.

-Tipo...? -perguntei.

-Tipo, porque o matou. -retrucou.

-Hum, não, era só isso. Por hoje. -disse.

A Amélia levantou e foi para o canto da sala, colocou os dedos no aparelho do ouvido e começou a falar baixo. Não consegui entender bem o que ela estava dizendo, mas parecia que estavam brigando com ela ou algo assim.

E então a Amélia voltou e sentou à minha frente.

-Ainda temos muito tempo, muito mesmo. -ela disse.

Ela parecia bem nervosa, como se precisasse realmente me convencer a continuar falando.

-Amélia, o Thomas foi a coisa mais especial que aconteceu comigo, e foi assim que conheci ele. -disse. -E é isso. Só isso.

-Mas Marcela, preciso saber o motivo da morte dele e não como se conheceram. -ela disse.

-Uma coisa leva a outra, não? -perguntei. -Se eu contar a história toda, nenhuma peça vai faltar. 

-Para você é mais fácil assim? Cada dia contar uma parte da história? -Ela perguntou.

-É, faz doer menos. 



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