História O lado belo da dor - Capítulo 42


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Categorias Em Família
Personagens Clara Fernandes, Luiza Fernandes Machado, Marina Meirelles
Tags Amor, Emfamilia, Romance, Sadomasoquismo, Tragedia
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Palavras 6.779
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, LGBT, Orange, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 42 - Dusk till dawn


Amor, eu estou bem aqui

Mas você nunca ficará sozinha

Eu estarei com você do crepúsculo ao amanhecer

Amor, eu estou bem aqui

Eu vou te apoiar quando as coisas derem errado

O sangue escorria do corpo esguio como se tivesse pressa para fugir dali. Os lábios estavam pálidos e esverdeados, os olhos lutavam para se manter abertos, seguindo ordens de quem lhe gritava para não se deixar levar pela sensação tentadora de dormir. Seu coração tinha uma pulsação lenta depois que toda a adrenalina e a dor se tornaram anestésicos.

Ao seu redor, pessoas importantes, ao menos para ela, corriam desesperadas de um lado para o outro, gritando no celular, procurando por chaves de carros. O suor escorria frio de sua testa e apesar da dor dilacerante que sentia consumir todo seu corpo em ondas que iam e vinham, uma única imagem lhe vinha à sua mente e era nos braços dela que sangrava.

Ela.

O amor de sua vida.

Cinco dias antes

Como combinado, Alicia chegava à residência de Marina numa segunda feira monótona. A professora foi dar suas aulas e encarregou a irmã caçula de acomodar a garota. A recepção não foi muito hospitaleira, uma vez que uma Clara emburrada saiu dali grudada na professora, discutindo a relação que ela ameaçava terminar, algo que deixou a Meirelles mais nova de muito mau humor.

Lidar com brigas alheias numa segunda feira, às sete da manhã? Fora de cogitação. Kitty teria uma conversinha com Marina assim que a irmã chegasse no fim do dia.

- Fique à vontade. – Kitty disse indicando o quarto de hospedes onde a intrusa (apelido que ela e Clara escolheram para a mulher) deveria se acomodar pelos próximos dias. – Quer algo para comer? A Marina só chega no fim do dia, está cheia de trabalho.

- Ah, seria muito bom. Obrigada. Os últimos dias em Venice foram maravilhosos, mas chegou a hora de seguir viagem – sorriu francamente para Kitty que assentiu.

- Vamos para a sala, irei pedir comida japonesa. O que acha?

- Maravilhoso – concordou, seguindo Kitty para fora do quarto assim que deixou a própria mala sobre a cama de casal.

- E então, você é cantora? – perguntou Meirelles, sentando-se no sofá e assistindo Alicia copiar seus atos.

- Ah, sim. Viajo cantando. Gosto disso. É instável, mas costumo ganhar bem e conhecer muita gente interessante.

Kitty assentiu, pouco interessada naquele papo. Tinha mesmo que fazer parte daquele plano? Alicia era muito bonita, mas um tanto quanto entediante e com pouco conteúdo a oferecer, até aquele momento, é claro.

- Realmente interessante. – sorriu amigavelmente e pegou o celular do bolso da calça jeans que usava. – Vou pedir algo bem gostoso. Estou faminta. Não gostaria de tomar banho enquanto esperamos? Imagino que esteja cansada.

Kitty torcia para que a mulher concordasse.

- Sim, claro.

- Use a suíte de Marina, vai se sentir confortável.

Os olhos de Alicia brilharam.

- Obrigada. Usarei – assentiu lentamente, levantando-se.

Kitty riu internamente e também se levantou, caminhando para o próprio quarto.

Erro um.

Marina lutava para se afastar de Clara, mas por qualquer que fosse o motivo – ela sabia ser o período fértil da mais nova – não conseguia afastar a boca insaciável de Clara da sua. E por mais que adorasse aquele momento perdido em uma das fileiras menos frequentadas da biblioteca, ela tinha aula em cinco minutos e se Clara levantasse a saia indecente que usava, Marina seria oficialmente demitida por não trabalhar direito – ou nunca trabalhar?

Ela não daria aula e obviamente seria demitida. O primeiro semestre foi marcado por suas faltas ou pedidos de afastamento sem maiores fundamentos. O único motivo para ainda estar naquela faculdade, era Clara. Marina sabia que Katherine satisfazia os desejos do reitor com todo o tipo de ninfeta que ele desejasse. Menos sua Clara. Nunca Clara.

O ponto é que com Katherine fazendo a cabeça do pobre homem, todos os deslizes de Marina – que devia aprender a se portar como uma mulher adulta e trabalhar corretamente, segundo a loira. – eram perdoados e esquecidos no fundo de algum arquivo abandonado.

Marina girou os corpos pelo corredor estreito e bateu as costas de Clara contra a parede dura. A garota gemeu e sorriu simultaneamente, puxando Meirelles para mais perto de si. A professora relutou, empurrando a namorada para o mais longe que conseguiu, mas Clara ignorou isso e levantou a saia rodada, exibindo a fina calcinha branca que vestia.

- Clara... – sussurrou, sentindo o corpo arder em desejo.

- Eu amo você – Clara sussurrou de volta, soltando a saia no corpo para que voltasse ao seu lugar de origem.

Marina engoliu em seco, prevendo o que vinha a seguir.

A garota sorriu diabolicamente e escorregou a calcinha por baixo da saia, caminhando até Marina.

- Amor, para. – exigiu Marina segurando a garota pelos pulsos com violência.

- Vai me machucar? – provocou, erguendo o rosto para Meirelles. Marina assentiu em silêncio. – Não será a primeira vez.

- Clara... – seu tom era de advertência, mas seu corpo implorava para que ela seguisse adiante.

- Vai, amor. Só um pouquinho. – pediu, unindo seus corpos em outro beijo quente.

Marina gemeu, seu corpo pulsava em tesão.

Não. Ela não ia adiante. Naquele momento não.

- Vista a sua roupa. Te espero em sala de aula. – ordenou autoritariamente, afastando-se da garota.

- Mas, amor...

- Sem mas. – cortou a fala mansa de Fernandes. – Vista-se. É uma ordem.

Marina ajeitou a postura, respirando fundo e saiu do local, deixando Clara para trás, se pensasse muito na forma em que a garota se encontrava, não ia conseguir dar sua aula.

Clara sorriu de satisfação, sentindo o gosto da vitória nos lábios. Marina era tão sua.

No fim do dia, após Marina terminar um estressante dia de trabalho longe de Clara que havia ido para a própria casa, ficar pronta para humilhar Alicia com sua beleza – segundo ela mesma. A professora passou na casa de Fernandes e ambas seguiram caminho para a casa de Marina.

Clara estava praticamente morando com Marina desde que começaram a se envolver, o que a mais velha não achava nada ruim, mas acreditava ainda ser muito cedo para abrir a pauta com a mais nova.

Talvez Kitty tivesse razão ao debochar da irmã dizendo coisas como ‘’sete anos na terra é como um minuto no mundo das lésbicas.’’

Um tanto precipitadas, talvez.

Marina riu, batendo os dedos no volante do carro. Clara tagarelava sobre um assunto qualquer ao seu lado e Marina apenas sorria, assentindo. Amava a rotina criada por elas duas nas últimas semanas.

Clara estava correndo contra o tempo para entregar trabalhos e estudar tudo para a semana de provas – que seria na semana seguinte. Mas mesmo assim, arrumava tempo para deixar Marina doida de desejo, raiva e ciúmes. Às vezes todos simultaneamente.

Então é disso que se trata o amor?

Talvez.

O amor nos deixa obcecados e egoístas? Com certeza. Apesar de toda a romantização ao redor de um sentimento universal, Marina estava aprendendo que amor não é só noites românticas, momentos bons e descontraídos. O amor também nos leva a caminhos absurdos. O amor também causa dor. E definitivamente, nos deixa transtornados.

(Mas nunca se esqueça, o amor é só um emaranhado de hormônios e reações químicas.)

Você vai ser hipócrita ao ponto de dizer que está disposto a deixar sua namorada, talvez seu namorado, nas mãos de outra pessoa?

A ideia te irrita, não irrita? Isso fere seu ego? Seu coração? Quem sabe os dois.

Sim. Obcecado e egoísta. O amor nos torna miseráveis e ainda assim, é o único capaz de curar tudo.

Elas entraram no apartamento de mãos dadas e Clara tratou de permanecer assim até estarem na varanda, onde Alicia e Kitty conversavam animadamente.

- Boa noite, meninas – Marina disse exibindo o cansaço que sentia.

- Marina! – Alicia exclamou animada e caminhou até a mulher, lhe abraçando sem pedir permissão.

Marina sentiu-se desconfortável por não terem aquele nível de intimidade e Clara controlou-se para não a empurrar para longe.

- Cunhadinha! – gritou Kitty com a voz levemente enrolada. Havia bebido.

Clara riu, soltando a mão de Marina para ir até Kitty, lhe dando um beijo estalado na testa.

- Não devia estar estudando? Deu um trabalhão para transferir você do Brasil. – Clara cutucou a cunhada nas costelas.

Kitty gargalhou, assentindo.

Marina assistiu à cena com paixão e afastou Alicia de si, caminhando para mais perto da irmã e de Clara.

- Hey, Alicia. – Clara disse, chamando a atenção da mulher que havia sido excluída do momento.

- Oi, Clara. – sorriu falsamente.

- E então, foi bem recebida? – perguntou Fernandes.

- Eu espero que sim – Marina disse sorridente. – Eu deixei ordens explicitas para que Kitty se comportasse.

- Sua irmã é maravilhosa, não se preocupe. Acho que é mal de família – o tom jocoso escolhido por Alicia fez Clara revirar os olhos.

Marina por sua vez apenas riu gostosamente, assentindo.

Clara sentiu vontade de matar as duas com as próprias mãos.

- Vou tomar um banho, amor. – Marina anunciou, dando um rápido beijo em Clara. – Peçam uma pizza para o jantar. Vou pegar um vinho bom na adega.

- O que quiser, amor. – Clara respondeu, puxando Marina para um beijo profundo.

Meirelles tentou resistir, sabia que tinham que encenar, mas sabia também que os instintos de Clara impediriam que ela assistisse a tudo quieta. E como ela ia resistir aqueles lábios?

- Vão para o quarto! – interrompeu Kitty, fazendo as duas se afastarem rindo.

- Certo, vou tomar meu banho. – Marina disse e caminhou pela extensa área, indo em direção a casa.

- Ei! – Alicia chamou pela professora que virou para encarar ela – Poderíamos conversar?

- Claro. Me acompanhe – Marina chamou, trocando um rápido olhar com Clara.

Erro dois.

A garota suspirou, sentindo-se irritada.

- E então, fez aquilo? – perguntou Clara, encarando Kitty atentamente.

- Sim. Ela não trouxe nada de muito importante, apenas roupas, um livro e uma foto dela ao lado de Katherine. Ah. E algo que deveria nos deixar preocupadas... Uma pistola semiautomática.

Clara arqueou as sobrancelhas surpresa e engoliu em seco.

Aquele caminho era difícil e perigoso.

- Certo. Teremos cuidado. Avisarei Katherine. Hoje tenho que falar com a Flavinha, quero saber como anda a rotina de Nicole. Amanhã temos um encontro, ela quer que eu roube a Marina no fim de semana.

- O que!? Nesse? – Kitty elevou o tom de voz em alarde.

Clara a encarou com repreensão.

- Fala baixo. Quer que a sonsa escute?

- Não. Óbvio que não.

- Precisamos ser firmes agora. Ela mandou a Alicia aqui para descobrir onde está o cofre da Marina.

- Eu sei, mas a Marina é muito discreta, nem eu sei onde fica isso. – resmungou em tom magoado.

Clara deu uma risadinha cínica.

- Eu sei, pois ela confia em mim, mas não confia em você, ela teme que você gaste tudo com Cheetos. – provocou, apontando o dedo indicador para o rosto pálido típico dos Meirelles.

- Eu sou mais velha que você – cuspiu com desdém. – E Cheetos é amado universalmente, sua cadela.

- Por crianças e adolescentes?

- Por seres humanos! – exclamou irritada. – E você fala como se fosse adulta.

Clara a encarou com curiosidade.

- E to errada?

- Está.

Clara semicerrou os olhos. A implicância entre elas duas estava cada dia maior e ela mentiria se dissesse que aquilo não esquentava seu coração e sua alma.

- Bom, sua opinião não significa nada, porque, legalmente eu respondo pelos meus próprios atos, logo... – deixou no ar, sorrindo de forma irônica.

- Vá comprar Cheetos para mim, sua vabagunda! – ordenou, fazendo Clara gargalhar.

- Mania de Meirelles mandar nos outros, uh? – brincou, se inclinando para beijar o rosto de Kitty.

A garota sorriu quando sentiu os lábios macios contra a pele alva e suspirou, agarrando Clara pela cintura.

- Não deixe a Marina se machucar, por favor. – implorou, apertando o rosto contra a barriga de Clara.

Fernandes sentiu-se surpresa com o ato desesperado, mas entendeu perfeitamente o receio da Meirelles mais nova. O que seria dela sem a irmã? O que seria de Clara? O que seria de Flavinha e de Giselle? O que seria do mundo sem uma pessoa tão iluminada? Para Clara, seria o fim de tudo de bom que já conheceu na vida.

- Eu prometo que não deixarei, eu prometo, Kitty. – prometeu, acariciando os cabelos negros e lisos, iguais aos de Marina.

Kitty concordou, balançando a cabeça lentamente.

- Vamos pedir as pizzas, daqui a pouco a Marina desce. – incentivou Clara, na intenção de animar Kitty. – Deixo até você pedir quantas quiser e o sabor que quiser.

- Certo. – concordou com pouco ânimo.

Aquela noite, elas tiveram um jantar agradável, mesmo com a presença de Alicia. E mesmo contra a vontade de Clara, Marina ficou com Alicia, ‘’escondido’’ e esse foi o terceiro erro da semana.

Presente

- Eu não... Eu não... Oh, meu Deus! – Luiza tremia e chorava compulsivamente, olhando para a cena mais aterrorizante de sua vida.

O corpo que sangrava agora era carregado por Vanessa e Flavinha que levavam a mulher quase inconsciente para o carro da ruiva.

O ambiente, que antes era o escritório de Meirelles, agora havia se tornado um cenário de filme de terror, com buracos de tiros, vidros quebrados e o cheiro pungente de sangue.

- Onde erramos? Onde erramos? – Vanessa sussurrava para Flávia que chorava silenciosamente.

O mundo parecia muito mais lotado naquele dia e com certeza mais caótico. Elas entraram no elevador torcendo para que desse tempo de levar a vítima de toda aquela tragédia, daquele erro cometido em conjunto, ao hospital.  

- Ela precisa resistir – a voz de Flávia saiu entalada e mais rouca que o normal.

- Se ela não aguentar, meu Deus... Nunca irão nos perdoar.

Giselle segurava firmemente a mulher que lutava para sair de seus braços e correr na direção do elevador. As quatro deviam ficar ali naquele momento.

- Você não pode, querida. Você não pode. Assim que elas chegarem ao hospital, sairemos daqui.

Luiza tremia de horror, sentia que ia vomitar, mas precisava segurar Kitty para que a mesma não fizesse uma besteira.

- Ela vai pagar por isso! Vai pagar! – Kitty também chorava e os gritos que saíam de seu corpo eram pouco comparado ao horror que sentia.

- Que horror! Meu Deus. – Luiza disse, ganhando a atenção da namorada que dispunha de toda sua força para manter a fera em seus braços.

- Não deixe ela sair, amor. Vamos vencer isso. Ela consegue. Ela é forte – Giselle afirmou positivamente, encarando a namorada com carinho. – Confia em mim, ela vai ficar bem.

Luiza queria acreditar, mas sentia que um pedaço dela havia sido arrancado. Com que cola se cola um coração despedaçado?

Flávia ajeitou o corpo mole no banco traseiro e pediu que Vanessa dirigisse. Não ia dar conta. Sentando-se no banco do carona, a melhor amiga de Marina assistiu as luzes da cidade ficarem borradas. A velocidade era a arma delas naquele momento.

Três dias antes

Era o terceiro dia da presença de Alicia ali e até então, a mesma já havia investigado mais da metade da casa Meirelles, sendo assistida por Kitty através das câmeras de segurança do local.

- Dia três e a imbecil ainda não descobriu o esconderijo – desdenhou Kitty, enfiando um punhado de Cheetos na boca.

- Não seja maldosa. Você está aqui há meses e não descobriu. – Clara provocou, roubando o pacote de salgadinho das mãos de Meirelles. – Isso é de que?

Naquela tarde, Fernandes decidiu fazer companhia para Kitty.

- De não te interessa – retrucou Kitty. – Devolva minha comida.

- Isso não é comida. É câncer empacotado com temperinho especial de veias entupidas. Quanto sal colocam nessa porra?

Kitty riu, recuperando seu lanche das mãos da cunhada.

- Não tenho culpa se você tem uma alimentação politicamente correta.

- Não tenho mesmo, mas você está se matando – acusou, ajeitando-se ao lado de Kitty.

- Se diz. Não deve mesmo ser fácil manter essa cintura fina. – Kitty comentou com descaso.

Clara concordou em silêncio. Não era.

Marina chegou no fim do dia e fez o que estava fazendo nos últimos dias. Jantava na companhia das três mulheres, e assim que Clara subia, se encontrava com Alicia na varanda de sua casa.

Aquela noite seria a noite em que Clara a veria com Alicia e sinceramente, Marina não via a hora de aquela encenação toda acabar.

Apesar de que precisasse confessar, sentia-se atraída por Alicia e não sabia até onde conseguiria manter os limites.

Era humana, acima de tudo.

- Ei. – Alicia disse suavemente ao ver Marina.

- Oi, linda – um sorriso natural se formou no rosto branco. Apesar de tudo, ainda era com Clara que ela queria estar.

- O que acha de entrarmos na piscina? – sugeriu.

Marina pensou por alguns segundos e não viu porque não, então concordou, tirando o short que usava seguido da blusa. Marina também tirou o sutiã e entrou na água, sendo seguida por Alicia.

Erro quatro.

O beijo entre elas se iniciou e Marina sentiu o corpo reagir involuntariamente na medida que as peles nuas e mornas se chocavam. A leve inexperiência era notada por uma Meirelles acostumada a lidar com meninas mais novas e isso a deixava alucinada.

A razão estava sumindo de seu corpo. Ela apertou forte a cintura de Alicia e empurrou a mesma contra a borda da piscina, sentindo o impacto deixar a outra arrepiada.

Quando Marina tinha o poder nas mãos, era difícil parar.

Suas mãos desceram pelo corpo esbelto. Não era tão bonito quanto o de Clara. Não era tão macio. Mas ela precisava continuar.

Eu nunca vou deixar você transar com ela. A voz de Clara ecoou forte na mente de Marina, mas ela ignorou o impulso de se afastar.

E foi nesse momento que tudo aconteceu.

Marina ouviu um barulho forte na água e se afastou de Alicia para assistir uma Clara furiosa entrar na piscina completamente vestida.

- Clara, não é o que você... – Marina que agora estava afastada de Alicia tentou dizer, mas foi interrompida por um forte tapa no rosto.

Marina ficou em choque. Clara nunca havia lhe batido. Nunca.

Os olhos da mais nova estavam vermelhos e ela berrou que Alicia devia se retirar.

- Saia da minha casa! – gritou a plenos pulmões.

- A casa não é sua – protestou a outra.

- Foda-se, sua vagabunda! – cuspiu sentindo a cólera atingir cada célula do seu corpo. – A casa é da minha mulher, eu mando nessa porra. Pegue suas coisas e vá embora.

- Amor... – Marina tentou intervir. Aquilo não estava nos planos. Mas quase transar com Alicia também não, então Meirelles se calou.

- Você vai deixar ela me tratar assim, Marina? – questionou uma Alicia chorona.

Clara riu ironicamente e cruzou os braços. Estava congelando na água fria e queria subir com Marina para que pudesse explodir em raiva.

- Desculpa, mas ela é minha namorada. Eu pago um hotel para você. – propôs Marina.

- Vai pagar hotel porra nenhuma. Vá embora.

- Marina? – Alicia implorou uma vez mais.

- Sinto muito – foi tudo que disse.

Alicia assentiu com o orgulho ferido e em poucos minutos estava fora da casa de Marina.

Clara subiu para o quarto da namorada com raiva e a primeira coisa que fez quando viu Marina passar pela porta, foi a puxar para um beijo quente e urgente.

- Você pensa que vai me trair? – questionou se livrando das roupas molhadas que ela e Marina usavam. – Você acha que vou te deixar transar com outra dentro da minha própria casa?

Marina sentiu o corpo todo arrepiar. Aquela não era a casa de Clara. Pensou em mencionar isso, mas a boca faminta não lhe permitia pensar muito em nada.

- Senta. – Clara ordenou apontando para a beira da cama. Marina obedeceu, completamente atordoada. – Eu vou te ensinar a nunca mais pensar em me trair. Entendeu? – Marina assentiu em silêncio. – Diga! – exigiu.

- Entendi, amor.

Clara sentou no colo de Marina e levou três dos dedos da mulher para o próprio sexo, rebolando devagar contra o corpo pálido. Quando sentiu-se completamente preenchida, encarou Marina no fundo dos olhos.

- Você vai gozar me dando prazer e eu vou te provar que não existe mulher melhor que eu para você nesse mundo – declarou com arrogância e assistiu Marina desabar diante dela.

Presente

- Que dor. – Luiza soluçava contra os braços de Kitty. – Eu disse que elas não deviam estar juntas, eu disse. Ah, meu Deus. Eu tentei impedir, eu...

- Luiza, me solta. – exigiu Kitty, se debatendo contra Luiza. – Eu preciso ir ao hospital saber o que está acontecendo.

Luiza lançou um olhar para o corpo sedado que Giselle vigiava no chão banhado de sangue e pensou que não suportaria se perdesse Clara uma vez mais. E ela não era a única.

- Chamou a polícia? – questionou para a namorada, estremecendo com a própria voz.

- Sim – sussurrou em resposta. – Vá ao hospital, eu cuido dela.

- Tem certeza? – perguntou, encarando a mulher jogada no chão que havia sido sedada por não suportar a dor de ver o amor de sua vida tão ferido.

- Absoluta. Ela é minha família.

- Okay. Eu amo você. Sabia?

Giselle sorriu feliz.

- Eu sei. Eu também amo você, Luiza Fernandes. – afirmou, sentindo as lágrimas escorrerem sem permissão. – Precisamos cuidar das nossas famílias. Eu darei um banho nela e a levarei para o hospital assim que acordar. Prometo.

- Obrigada. – sorriu em agradecimento. – Vamos, Meirelles.

Dois dias antes

Marina acordou extremamente cansada naquele dia e levou uma Clara extremamente dolorida e exausta para a faculdade. A noite entre elas foi iniciada com muito sexo e terminada da mesma maneira.

Se antes Marina quase havia cedido para seus desejos primitivos, seus desejos primitivos agora, mais do que nunca, se resumiam em uma coisa, Clara Fernandes.

Era mágica a forma como ela roubava todas as atenções do mundo para ela e era louca a forma como isso deixava Marina extremamente enciumada e extasiada.

Em seu íntimo, ela tinha certeza absoluta que todos queriam Clara.

- Se comporte. Te pego às sete? – questionou como sempre fazia nos últimos dias. Dias em que elas conseguiram ter um namoro normal, apesar de tudo.

Clara fez uma careta.

- Desculpa, amor. Falta pouco para sábado, o dia em que devo te roubar – comentou com deboche – Vou dormir com a Nicole hoje.

A expressão de Marina rapidamente se alterou para algo sombrio e frio e Clara recuou no banco, receosa de que ela lhe tocasse com toda aquela raiva acumulada.

Mas Marina jamais faria isso, faria?

- Detesto isso – disse enfim, quebrando o silêncio. – Fico feliz que iremos destruir essa mulher.

Clara concordou, suspirando. Estava tão cansada de tanta tensão.

- Eu preciso assistir aula. – Clara mentiu descaradamente.

Ela não ia para aula.

- Okay. Amo você. Vou dar minha aula. – Marina disse e beijou Clara nos lábios saindo do carro com pressa. – Traz a chave do carro mais tarde? Vou ficar aqui o dia todo hoje. De novo. – pediu, mantendo a porta do carro aberta para que Clara lhe ouvisse.

Clara concordou, sorrindo levemente.

- Posso ir para casa com ele? Prometo vir trazer antes de ir para o Plaza com a Nicole.

- Claro. Mas traga. Não quero pedir um uber tendo um carro como esse. – resmungou.

Clara riu. Tão fresca.

- Falo sério. Eu trabalho muito para ter essas coisas.

- Não. Não trabalha. – Clara negou com a cabeça. – Agora mesmo devia estar dando aula e está aqui, perturbando uma aluna.

Marina revirou os olhos.

- Você é minha namorada. Se continuar me irritando vai ganhar um zero – provocou, apertando os olhos em um sorriso cínico.

- Vai dar sua aula. Eu estou me atrasando. Semana de provas chegando.

Marina concordou e saiu correndo gritando um ‘’tenho que bater o ponto.’’

Clara riu, e assim que a viu sumir para dentro do campus, saiu do carro com sua pose de bad girl de sempre e entrou pelo outro lado do veículo, tomando agora o volante em mãos. Tinha um encontro em alguns minutos e tinha pressa para chegar ao local marcado.

As avenidas estavam calmas e logo ela estacionou na frente de uma cafeteria que tinha como maior atração um jardim de inverno e era lá que seu encontro lhe esperava.

Clara desceu do carro e caminhou até a mulher, puxando a saia num falso cumprimento cordial. A mulher riu.

- É por isso que eu te amo tanto. Sabia? – um sorriso feliz surgiu no rosto de Cecília.

Clara riu.

- Eu amo a Marina. – retrucou com sinceridade. – Assinou?

- Está aqui – ergueu um pedaço de papel para Clara. – Vamos mesmo fazer isso?

- Sim. Eu preciso seguir em frente, e não posso fazer isso estando casada com você. Faz tempo que pedi o divórcio.

- Eu lembro do fatídico dia.

- Você assinou, eu sei, mas precisava que você concordasse para entrarmos com o processo. Não quero lidar com nada litigioso.

- Nem eu.

- Okay. Você sabe que amo você, não sabe?

Cecília concordou. Estava vencida.

- Você foi meu amor de livro, Cecília. Mas Marina é meu cinema todo. Ela é... Todos os livros de amor em um. É todo o conjunto de filme dos anos noventa que eu tanto amo. Os jazz que nego adorar. Os bares em que me sinto confortável. Ela é tudo.

- Eu sei, fico feliz que tenha isso. Mas saiba, eu nunca te traí, Clara.

- Eu acredito em você, mas por muito tempo acreditei que havia o feito e isso me destruiu muito. Você não sabe como uma traição destrói uma pessoa. – suspirou pesadamente. – Enfim. Vanessa mandou os arquivos?

- Mandou. Guarde em um lugar seguro. – ordenou, empurrando para ela um envelope preto.

- Obrigada. Isso vale ouro – alegou, segurando o objeto firmemente. – Preciso ir. Tenho aula e se a Marina descobrir que estou perdendo...

- Vai lá. Comporte-se.

Clara concordou e caminhou para perto da ex mulher, seus olhos se encontraram e a conexão que há muito existia entre elas vibrou.

- Eu amo você, sempre vou amar. – com um rápido beijo na testa de Cecília, Clara se retirou do local.

Então é isso. Vamos aceitar que não somos únicas na vida de ninguém. Ninguém é único na nossa vida. Você pode ter sido muito feliz com alguém. Mas pode ser muito feliz com outra pessoa também.

Naquele dia, Clara deixou o envelope sobre a mesa do escritório de Marina, quando ambas entraram na casa aos beijos. Elas fizeram amor ali mesmo, sobre toda a papelada de Meirelles, mas o envelope foi esquecido no emaranhado de papel e esse foi o quinto erro da semana.

Presente

Os paramédicos correram na direção do carro assim que viram uma mulher ruiva gritar na entrada do hospital que havia uma mulher baleada no banco de trás do seu carro. O caos estava armado e tudo a partir daquele momento se tornou um trailer de filme de terror. Tudo muito rápido e inconstante.

Flávia seguiu os paramédicos segurando a maca com força e logo foi afastada.

- Ela vai precisar ser operada – disse um dos internos com roupa azul e aparência exausta.

- Você tem certeza? – perguntou outro interno.

- Não, não. – ironizou uma interna de aparência vivaz e lindos cabelos loiros. – Veja – ordenou e todos que estavam ali, observaram a mulher erguer o corpo desanimado nos braços e o virar levemente para o lado. – Tem buraco de entrada, mas não tem buraco de saída. Isso significa que a bala ainda está lá dentro. Precisa ser retirado imediatamente. Chamem um cirurgião de trauma. Agora!

Todos saíram correndo, menos a loira que fitou Flávia com certa pena.

- Operada?

- É o melhor, senhora. Se sua amiga não for operada, pode ter complicações futuras. – apesar de ser vaga, Flavinha entendeu o que aquilo significava.

- Certo. Estarei aqui.

- Vão cuidar bem dela. Faremos o possível. – sorriu calorosamente e saiu empurrando a maca na direção de um homem muito mais velho.

Certamente o cirurgião.

Flávia não conseguiu saber mais nada, pois levaram o corpo ferido para sala de cirurgia em urgência e tudo que restou para ela foram as longas horas de espera.

Ela torcia para que a mulher resistisse. Jamais se perdoaria por aquela culpa.

Um dia antes

- Tem certeza que mandou os arquivos certo? – Vanessa perguntou, empurrando a namorada na cama.

Flavinha riu e concordou.

- Absoluta.

- Certo. Isso é muito importante.

- Eu sei. Está tudo certo. Confie em mim. – pediu.

- Eu confio. Não está na hora de vigiarmos a Nicole? – perguntou, puxando o notebook para o colo.

- Amor, não... Quero fazer sexo hoje – implorou, empurrando o aparelho para longe.

- Amor, você sabe que isso é importante.

- Ah, Van, deixa isso de lado. Olha – ela ergueu a tela do computador e surgiu a imagem de Nicole num bar, ingênua diante das imagens que estavam sendo roubadas pela câmera de seu celular. – Está bebendo com essa mulher aí. Elas vão ficar bêbadas igual todos os dias e nada de interessante vai acontecer. Elas não tem um terceiro sócio.

- Ahh! – Vanessa concordou, deixando o computador de lado. – Okay. Mas só porque concordo e quero ver você em cima de mim. – provocou, puxando a namorada para um beijo lento.

Flávia sorriu de satisfação e sentou-se no colo da namorada, esfregando seus corpos com vontade.

Esse foi o sexto erro da semana.

Alerta de spoiler, o império Mommy não tinha um terceiro sócio, mas Nicole tinha fornecedores de armas não registradas e eles se encontraram naquela noite, naquele bar. O encontro durou pouco mais de cinco minutos, mas Flávia e Vanessa não viram. Estavam ocupadas demais.

Presente

Katherine chegou desesperada ao hospital, sendo recebida por Vanessa, Flávia, Kitty e Luiza. Todas em estado deplorável.

- Onde está ela? – apesar de o nome da pessoa em questão não ter sido citado, todas ali sabiam a quem a loira se referia.

- Está com Giselle. Estava muito abalada. Tivemos que sedar ela.

- Oh, não! – exclamou a loira em completa frustração. – Onde estão os arquivos?

- Ela... Ela levou. Nicole levou. – disse Kitty com a voz trêmula. – Sinto muito, mas acabou.

- Não. Não acabou. Não pode ter acabado. – disse tranquilamente.

- Claro que acabou! – exclamou Luiza com irritação. – Tem uma pessoa importante lá dentro, sendo operada. Importante para todas nós. Como pode ser tão fria?

- É, Katherine. Não podemos fazer mais nada. – acrescentou Flávia, sentindo a mão de Vanessa lhe massageando o ombro esquerdo, a confortando.

- Claro que podemos. Vamos recuperar. Ela não pode sair impune por tudo. – insistiu a loira. – Eu tenho uma cópia dos arquivos, só preciso que a Vanessa faça a parte dela.

- Você tem cópias? – perguntou a ruiva.

- Sim.

- Então vamos nessa. Vamos fazer o que deve ser feito.

- Não. – discordou Flavinha. – Não vou expor minha namorada a esse perigo. Viu o que aconteceu com a Clara e a Marina?

- Justamente por isso devemos fazer algo. – Katherine rebateu.

- É a vida da sua irmã – Vanessa disse, encarando Luiza. – O que você quer que seja feito?

- Façam o que for preciso para nos manter livres desse pesadelo. E de uma vez por todas.

- Vamos. Não temos tempo a perder. – Katherine disse. – Nos mantenham informadas sobre as meninas.

- Pode deixar – Luiza disse fungando.

Flávia segurou as mãos de Vanessa com força.

- Por favor, tenha cuidado.

- Não vai tentar me impedir? – perguntou a ruiva, realmente surpresa.

- Não. Mulheres fortes sempre sabem o que fazer – um sorriso amarelo se pintou no rosto inchado de tanto chorar.

- Bom, você vai ser recompensada por esse comportamento maduro. – brincou, roubando um beijo da namorada antes de seguir com Katherine para fora dali.

Cinco horas antes

O pesadelo começa

O dia estava ensolarado e com um clima ameno, o verão se aproximava e Clara não podia estar mais animada por essa estação.

Apesar de o plano delas envolver uma exposição imensa, Marina havia achado formas de livrar Luiza e Clara de todo aquele drama. Legalmente falando. E isso reconfortava a todas as envolvidas.

Clara não merecia ser julgada.

Não daquela forma.

As horas seguintes foram lentas. Era o dia em que ela devia se encontrar com Nicole para acertar os últimos detalhes do plano para roubar Marina.

E enquanto esse momento não chegava, o casal decidiu fazer um piquenique no Central Park e conversar um pouco.

Tomaram café da manhã e Marina passou na própria casa apenas para deixar a namorada ali. Iria para a faculdade dar aulas extras. Aulas de verdade, como ela assegurou à Clara.

Estava tudo muito calmo no apartamento e Clara estranhou o silêncio, mas antes que tivesse tempo para pensar em algo, ouviu um ruído no escritório de Marina e seguiu até lá, animada para encontrar Kitty.

Sua surpresa foi grande quando viu uma mulher loira, alta e de belo corpo, a encarando com desejo.

Nicole estava vestida com roupas formais, como se fosse uma executiva.

Clara sentiu uma sensação ruim, mas restou sorrir.

- O que faz aqui? – perguntou o mais natural que conseguiu.

- Ora. Sabe que hoje é o dia de acertarmos os últimos detalhes do roubo. Não? Vai ser rápido e fácil. Sem pessoas machucadas. Eu só preciso do dinheiro e sei que ela tem.

-  Nicole, eu não sei se... – Mas Clara perdeu a voz porque antes que tivesse tempo de completar a fala, Nicole ergueu uma arma na direção de seu rosto.

Clara sentiu o corpo inteiro congelar.

 - Não sabe se...? – iniciou, induzindo Clara a continuar.

- O que... O que você está fazendo? – questionou, sentindo o corpo tremer.

Nicole sorriu. Um sorriso frio e cortante.

- Venha até aqui – ordenou, mantendo a arma na direção do rosto que agora estava pálido. – Seja boazinha. Você não quer me irritar. Quer, querida?

Clara balançou a cabeça em negação.

- Eu não estou entendendo... – balbuciou, caminhando com cautela até a loira. – Por que isso? Estamos juntas nessa. Você está me assustando.

- Me assusta o seu cinismo. A sua falsidade. – replicou a loira no meio de uma risada seca.

- Como assim...

- Eu sei que você está com a Marina. Eu sei que acha que pode me fazer de idiota. Você nunca esteve ao meu lado. Esteve? – Nicole passou a ponta da arma pela linha do maxilar de Clara que sentiu o desespero a engolir.

- Sempre estive. Você sabe que preciso fingir para ela que está tudo bem. – respondeu, tentando controlar a respiração.

- Não sei porque, mas não acredito nisso, Clara. Ou melhor, eu sei porque. – a mulher se virou na direção da mesa e estendeu um envelope preto para Clara.

A garota encarou o objeto horrorizada. Nicole ia a matar. Ela não tinha mais saída.

- Eu... Eu posso explicar – disse abruptamente, mas era tarde.

Nicole riu e acertou o rosto de Clara.

A garota deu três passos para trás, sentindo uma dor dilacerante no olho atingido. Seu estômago deu cambalhotas em protesto e um pulsar dolorido se fez presente no lado direito de sua face.

Nicole não estava satisfeita. Aproveitando a distração de Clara com sua dor, caminhou até a garota e lhe derrubou no chão num baque surdo.

Clara gritou de dor quando sentiu o pé esquerdo da loira acertar suas costelas repetidas vezes.

O sangue começou a jorrar de sua boca e o pânico estava cada vez maior. Queria lutar, rebater e se proteger, mas não conseguia. A dor agora era torturante e o gosto de sangue a fazia sufocar.

Mas a loira parou por conta própria e puxou a garota pela blusa que a mesma usava.

- Ligue para a Marina. Quero ela aqui. – exigiu, estendendo um celular para Clara.

- Não – respondeu firmemente, apesar das dores.

- Ligue.

- Você vai machucar ela. Não! – gritou, sentindo a garganta arranhar.

Nicole riu ironicamente e assentiu em silêncio para logo em seguida iniciar outra sessão de chutes no corpo magro de Clara.

A garota sentiu raiva e dor, e estendeu as mãos, puxando o pé que lhe acertava. Nicole caiu e Clara lutou para ficar de pé. Quando finalmente conseguiu fazer isso, a loira correu até a própria arma e novamente apontou para o rosto angelical e machucado.

Clara sentiu o choro sair sem permissão. Estava chorando desesperadamente e a sensação de impotência era horrível.

- Você acha mesmo que pode se meter em um mundo tão sujo e não lidar com as consequências? Isso aqui é como qualquer outro tráfico, Clara. Você não sai do jogo só porque quer. Você vai me pagar por tentar me enganar. – Nicole caminhou até Clara e a encarou de perto. – Ligue para Marina.

- Não. – relutou.

- Ligue.

- Não!

Nicole apertou o gatilho e um som alto percorreu pelo cômodo todo.

- Ligue!

- Não!

Mais e mais disparos.

Clara caiu no chão, chorando compulsivamente.

- Os próximos serão nesse seu rostinho de criança. – o tom amargo que ela usava só tornava a situação ainda pior.

Um ruído percorreu pelo escritório e a presença de Kitty se fez notada.

- Oh, meu Deus. Nicole! – exclamou a Meirelles mais nova. Sua surpresa era imensa por ver a ex cunhada ali. – Clara! – Kitty gritou e correu na direção de Clara, ignorando completamente o olhar furioso de Nicole e a arma apontada para seu corpo. – O que você fez com ela, sua vagabunda?

- Nada ainda, mas se alguém não trouxer a Marina para cá agora, serei obrigada a matar a adorada Clarinha.

Kitty balançou a cabeça negativamente e pegou o celular esquecido no chão. Com o corpo trêmulo, ligou para Marina e assim que a professora ouviu o nome de Nicole, saiu desesperada na direção da própria casa. Sabia que não tinha como aquilo ser algo bom.

Presente

A mulher passou pela porta do hospital correndo e só parou quando esbarrou em Flavinha.

- Ei. Ei. – chamou – Calma. Estamos aqui.

- O que... Como... Como ela está?

- Não sabemos. – respondeu Flavinha.

- Como você está? – perguntou Luiza.

- Eu não sei. – a sinceridade em seu tom de voz foi tão intensa que todas sentiram vontade de chorar.

Kitty dormia ao lado de Luiza. Vanessa ainda estava com Katherine.

- Ela está exausta. – Flávia acariciou o rosto pálido de Kitty.

- Eu... Tudo em mim dói. – lágrimas escorreram pelo rosto delicado. – Eu não imagino minha vida sem ela. Eu não...

- Eu sinto muito. – Luiza disse em meio a lágrimas. – Me perdoe. Eu não pude proteger ela. Eu...

O clima era pesado. Fazia mais de duas horas que a cirurgia havia se iniciado e até agora nada de notícias. A angústia começava a se tornar tão palpável que poderia ser cortada com uma faca.

- Ela tem que sobreviver.

- Eu só... Não imagino um mundo onde ela não exista. – disse enfim, admitindo para si mesma que se seu amor morresse, ela também morreria.  – Eu não posso perder a mulher da minha vida.

Quatro horas antes

Nicole não cedeu. Marina ofereceu todas as quantias possíveis. Mas estava óbvio que ela queria causar dor.

- Você me feriu tanto, Marina. – disse a loira, fitando a recém chegada.

- Eu não fiz nada. Você quem destruiu nosso casamento.

- Não. – retrucou Nicole. – Não, amor. Você não lembra?

Estava óbvio que Nicole estava completamente transtornada.

- Foi você. – afirmou.

- Não. – Marina disse rispidamente. – Abaixe essa arma.

- Não. – Nicole disse com raiva. – Você me feriu antes e tentou me trair agora. Você vai me pagar. Você não vê como vem sendo injusta? Mas vamos resolver isso agora, meu amor. Vamos sim. – ela apontou a arma no rosto de Clara e apertou o gatilho.

O som do disparo ecoou pela sala toda e o corpo caiu no chão num estrondo. O sangue começou a jorrar e Clara se arrastou no linóleo frio, parando diante do corpo pálido.

- Marina! – berrou  – Marina, não! Oh, meu amor. – lágrimas grossas escaparam de seus olhos. – Não me deixa, meu amor. Não me deixa! – implorou.

Marina tomou a cabeça para o lado de seu corpo que sangrava e fitou o rosto embaçado de Clara.

- Eu amo você. – foi tudo que disse antes de o zumbido em seu ouvido se tornar absoluto.

Não conseguia ouvir nada, mas podia ver. E o rosto de Clara sempre foi sua vista preferida.

O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabrochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue. – Tony Kusher, THE ILLUSION

Eu estarei com você do crepúsculo ao amanhecer

Amor, eu estou bem aqui


Notas Finais


nada a declarar.
até logo <3


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