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História O Lado Escuro do Vermelho - Capítulo 4


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Notas do Autor


Olá, leitores!
E aí? Como estão? Espero que bem, que tenham aproveitado os feriados e estejam em paz.

Capítulo 4 - Capítulo III


Fanfic / Fanfiction O Lado Escuro do Vermelho - Capítulo 4 - Capítulo III

¶CAPÍTULO TRÊS¶       

MEUS DEMÔNIOS ME PERSEGUEM     


Usava o uniforme padrão da Casa de Chá, uma camiseta branca com botões cetim e com longas mangas — das quais estavam arregaçadas em seus pulsos. Uma calça larga e de tonalidade preta, um avental roxo e calçava sapatos sociais marrons. Seus cabelos castanhos-claro estavam amarrados firmemente em um coque, Winry caminhava para lá e pra cá, entregando os bolos e chás à mesa. Ouvia o frequente som da caixa registradora no balcão abrir e fechar à medida que os clientes iam embora. Olhou-o pelo canto de seus olhos e avistou Joshua, suas vestes eram as mesmas que a sua. Mas diferente dela, ele parecia gostar de usá-las. Era o membro mais novo da Mercy, possuía dezessete anos; e sua aparência jovial revelava sua idade adolescente. Tinha feições largas, um nariz mais achatado e lábios grossos. Sua pele era ritinta. Possuía curtos cabelos crespos e olhos escuros, usava óculos redondos e de tonalidade preta que se acentuavam entre seus olhos. Do pouco que o conhecia sempre via-o animado com tudo, ele parecia amar o que fazia e gostava de trabalhar na Mercy independente de sua função.   



Apreciava trabalhar ao lado de Joshua, ele era sempre alegre, positivo e bastante alto astral apesar da falta de ânimo de Winry em servir as mesas. Isso a lembrava do seu antigo emprego como “Garota do Café''. Mas era diferente agora, ela teria que viver sobre uma vida secreta; o estabelecimento era apenas uma fachada para organização anormal. Winry às vezes era questionada por crianças em seu jeito inocente e curioso sobre o vídeo publicado na Web, claro, ela não poderia dizer a verdade sobre suas habilidades anormais então o único caminho era dizer que era um truque de mágica. Ainda assim, as crianças insistiam em querer ver com seus olhinhos saltando em admiração e animação. Joshua era quem ajudava-a sair dessa enrascada, o mais jovem, sempre fazia o truque de esconder uma bolinha em um dos três copos plásticos para prender atenção da criançada. E ele fazia isso com satisfação, agradecia por ter um colega de trabalho como ele. 



Por outro lado, existiam aqueles que não demonstravam a mínima intenção de ajudar com a Casa de Chá. Virou-se para encará-los sentados com as pernas cruzadas em ambas as poltronas carmesim da pequena biblioteca, Kaden que parecia ser o mais responsável e compromissado com seu emprego mostrava-se um grande falastrão. Ele lia um pequeno livro de capa vermelha em seu colo enquanto bebia uma xícara de chá, como se não existisse nada e ninguém a sua volta. Declan estava com os olhos fechados e com a cabeça escorada na poltrona, cochilava despreocupadamente. Nenhum dos dois usava uniforme padrão, nenhum dos dois estava trabalhando. 



Winry semicerrou seus olhos enquanto encarava-os, ela se aproximou calmamente de Joshua e o cutucou com o cotovelo; parecia frustrada. Estava irritada pelo fato deles serem os únicos a trabalharem enquanto outros que podiam estar em casa, faziam cena no estabelecimento como se fossem simples clientes. 



— O que foi, Winry? Algum problema? — Indagou com sua voz grossa e pouco rouca. Sempre prestativo para ajudar os outros. 



— Sim, por quê somos os únicos trabalhando aqui?! 



Ela apontou com seu dedo indicador em direção a pequena biblioteca enquanto Joshua, seguia-o com o olhar. 



— Oh, porque hoje é nosso dia de trabalhar na loja — Ela estreitou os olhos, como ninguém tinha dito isso a ela? — Cada funcionário tem seu dia para trabalhar em uma determinada função, é uma forma de todos poderem trabalhar igualmente! — Exclamou.



Seus olhos percorrem sobre Declan, ele sorria minimamente enquanto estava de olhos fechados. Era óbvio, notar que ele estava perfeitamente acordado e ouvia tudo com uma grande satisfação. Como quem insinuava “Olha eu aqui! Estou descansando, sem fazer o minimo esforço enquanto vocês trabalham feito um burro de carga.” E ela queria fazer ele engolir aquele sorrisinho insolente. 



— Garçonete! Garçonete! — Ele cantarolava, dizia aquilo como modo de provocação. Sem seu frequente apelido “anjo”, chamava-a como se fosse sua empregada. Queria enforcá-lo por essa audácia. 



Winry caminhou em passos largos e firmes. E então ficou frente a frente ao moreno com uma expressão furiosa:



— Sim? 



— Trás café, por favor. Sua especialidade… — Dizia, educado. Apesar da notável provocação. Declan havia dito que nunca mais ela precisaria servir outro café na vida, mas não imaginou que ao invés do café; serviria chá. 



— Não temos café, Declan! — Afirmou, tentando manter uma expressão neutra. 



Ele abriu seus olhos castanhos, suavemente.



— Não? 



— Não! Isso é uma Casa de Chá e você trabalha aqui! — Exclamou, visivelmente exaltada pela ousadia do homem. Estava irritada com seu modo despreocupado. 



— Não, não trabalho. Ao menos, não hoje! — Disse, simplesmente.



Kaden olhou por cima de seu livro, encarando a conversa à sua frente com uma expressão aborrecida.



— Declan, pare de importunar a garota. Ela está em horário de trabalho, pode fazer isso depois — Falava, totalmente autoritário — Trabalho é uma palavra que você parece desconhecer!



— Você também não está trabalhando! — Winry retrucou, aborrecida.  



— Estou sim — O loiro ergueu o livro aberto para mostrá-lo com uma expressão diligente e totalmente calma para ela —… Estou analisando-o página por página, vistoriando se seu conteúdo é adequado para nossos clientes. Isto requer cautela e muita calma!



Winry bufou enquanto batia o pé no chão e dava as costas para a dupla, escutou uma risada divertida e conforme se afastava sentia que o moreno estava tirando uma com a cara dela. Antes que pudesse voltar a trabalhar, ouviu a voz de Declan lhe chamando uma segunda vez; 



— Hein, Garçonete! — Ela parou e virou-se minimamente enquanto encarava-o pelo canto de seus olhos, estava pronta para saltar em sua garganta caso ele dissesse alguma gracinha —... Esteja pronta, hoje será seu primeiro trabalho de verdade.



Um sorriso malicioso cresceu entre seus lábios. Algo lhe dizia que esse trabalho seria diferente de tudo que já viu. 



Mais tarde, naquele mesmo dia, caminhavam pelas ruas de Manchester um ao lado do outro. Winry apesar de ainda vestida com uniforme da Mercy, estava sem seu avental e as mangas estavam arregaçadas em seus pulsos devido a lentidão do calor. Declan explicava tudo que a mesma precisava saber ao decorrer do caminho: para onde eles estavam indo, quem tinham que ajudar, o que ela deveria fazer. Caminhavam a quatro quadras do estabelecimento, não era tão longe da Casa de Chá — estavam próximos de chegar a um bairro pouco antigo e antiquado que foi reformulado da era vitoriana. Apesar da reformulação, as casas ainda possuíam traços da arquitetura do século passado e cores mais chamativas aos olhos. Estavam indo ver um garoto chamado August Hans, havia relatos sobre ele ter uma aparente deformidade e conter uma aparência medonha. Ele tinha características do que poderia ser apresentado como “gene-A” pelo que forá ouvido pelos vizinhos e conhecidos. 



O gene-A funciona como uma substância exótica que muda a química e o DNA do corpo, alterando-o para uma variedade de efeitos podendo mudar sua fisiologia ou não. Mas nem sempre essas mutações podem ser boas; pode ocorrer a mudança física de indivíduo, sua base molecular e suas células podem se alterarem ou podem acabar vindo a ter doenças degenerativas e mentais. No sistema de todo ser anormal existia um gene-A, havia aqueles com mais quantidade dele e outros com menos. Isto, acabava por aderir dentro das várias classes anormais classificando-os dentre seus poderes paranormais e suas limitações. Seres humanos que possuem a menor quantidade do gene-A em seu ecossistema são classificados como Mutantes, a classe mais baixa dos anormais. Eles não poderiam ser nem anormais ou pessoas normais, estavam mais no meio-termo. Declan suspeitava que o pequeno August fosse um Mutante. Na verdade, ele se encaixava perfeitamente nessa classe levando em conta as características que ouviu falar. Mutantes tinham deformidades físicas. 



Eles estavam em frente a casa, Declan bateu uma ou duas vezes fortemente contra a porta tentando chamar atenção da pessoa a qual tinha convocado seus serviços. Subitamente, ele olhou em volta e viu algumas crianças da vizinhança lhe observar com olhos curiosos antes de perceber que o mesmo estava encarando-os de volta, as crianças saíram correndo rapidamente em cima de suas bicicletas como se tivessem sido descobertas. Declan sorriu, expressando seu divertimento com o susto que os pequenos levaram. Ele virou-se e percebeu que a Sra. Hans havia aberto sua porta, ela continha uma expressão fria e sem qualquer simpatia. Ela era uma figura de meia-idade, possuía algumas rugas visíveis em seu rosto e fios grisalhos entre seus lisos cabelos castanhos-mel. Seus olhos azulados ressaltaram o cansaço e suas pálpebras pareciam obscuras, era visível notar sua nítida falta de sono. Insônia, talvez? Ela vestia um roupão de pelagem animal que cobria todo o seu corpo. 



— Sra. Margaret Hans? — Indagou, Declan com uma sobrancelha arqueada. Estava intrigado e tentando descobrir se estavam na residência certa. 



— Sou eu, sim. E você deve ser o Sr. O’ Sullivan?! — Declan assentiu levemente e em seguida se virou para encarar a figura silenciosa ao lado do mesmo — E você é…



Winry analisava a estrutura da casa. Observava a varanda e o jardim com olhos cheios de admiração, apesar de antigo; tinha que admitir que o lugar tinha classe. Ela logo se deu conta de que estavam falando com ela assim que Declan lhe deu uma cotovelada no braço, ela estreitou os olhos e apresentou-se a Sra. Hans rapidamente:



— Winry, apenas Winry — Ela apressou-se em responder. 



A Sra. Hans abriu espaço para que ambos pudessem entrar na casa. 



— Irei chamar August — Ela declarou, afastando-se da porta — Por favor, entrem Sr. O’ Sullivan e Srta... apenas Winry — Dizia com um último aceno de cabeça antes de deixá-los.



Declan soltou uma risadinha enquanto adentrava a casa. Ele podia imaginar o constrangimento de Winry daquele momento, suas bochechas divinham estar ardendo em chamas e não poderia negar que aquilo o divertia. Assim que eles colocaram seus pés dentro da casa, era notável ver que mesmo do lado de fora tendo uma materialização da era vitoriana, dentro sentia-se como se realmente estivessem no século 19. Era tudo tão rústico, da mobília as estruturas mais internas da residência. Quadros que pareciam de valor inestimável estavam pendurados na parede. Existia um em especial que parecia uma pintura a óleo da própria Rainha Vitória, mostrando-se a magnitude e a beleza de sua época. Declan andava com suas mãos para trás enquanto dava uma boa olhada na casa, ele vasculhava cada canto daquele lugar com seus olhos avelã. Parecia admirado. Winry negaria admiração se não tivesse fazendo o mesmo, fitando cada detalhe daquele lugar sendo aquela uma casa enorme e que possuía uma sala de visita que chamava tamanha atenção.



Eles fingiram que nada tinha acontecido e que permaneciam quietos em seus lugares assim que ouviram a madeira rangir. Olharam para cima e avistaram a Sra. Hans descer as escadas de carvalho, ela usará uma roupa diferente. Delicada. Um vestido floral que cobria suas canelas e possuia mangas longas, ela descia ao lado de uma figura menor e segurava sua mão firmemente. Era um garoto de cabelos castanhos-mel e olhos azulados assim como a mãe, mas a semelhança acabava aí; August possuía uma aparência grotesca, era difícil desviar os olhos dele. Sua pele parecia borracha, seu rosto era esticado e derretia-se à instabilidade de suas células. Sua barriga era inchada e redonda, caída para fora de sua camisa. A cada degrau em que desciam, podia ouvir o peso do garoto contra a madeira. No momento que olhou para ele, Declan teve sua confirmação: ele era um mutante e suas células eram instáveis. Sentiu pena do garoto.



Estavam sentados sobre a mobília da sala de estar; Declan e Winry sentavam-se no sofá enquanto August estava sentado numa poltrona de cobre em frente a eles. Sua mãe massageava seus ombros tentando confortar o garoto e demonstrar apoio, ele era tímido com estranhos. Winry permaneceu quieta, apenas estando a observar — afinal ela era uma novata e não saberia como ajudar o garoto. Fixou atentamente seus olhos e ouvidos para conversa que a Sra. Hans e Declan estavam tendo, August não pronunciará uma palavra ou som. O garoto parecia completamente mudo ou era tímido o bastante para conversar, de qualquer maneira, viu em seus olhos um brilho palpável e apagado. Ele parecia estar sofrendo. Winry imaginou se August sofresse algum Bullying na escola devido a sua aparência ou sua timidez, sentiu pena do mesmo, pobrezinho, ele deveria sofrer muito com sua mutação. Sentir desconfortável. Talvez, apreensivo em olhar-se no espelho. 



Winry não poderia mentir, ela não fazia a mínima ideia de como era estar em seu lugar. Nunca houve problemas para ela ser quem é. 



Declan tentou uma ou duas vezes conversar com August, mas ele não o respondeu. Ele parecia querer abrir a boca e falar, mas alguma coisa parecia impedi-lo. E o moreno também percebeu isso, deu para notar uma latitude em seu olhar distante. 



— Sra. Hans, August por acaso possui algum problema de fala? — Indagou a senhora, totalmente intrigado com a disposição de fala do garoto. Ele parecia perdido, aquilo não era timidez e sim, desencorajamento. 



— Há alguns meses, ele tem sido mais agressivo. Às vezes tenho que sedá-lo a base de remédios, ele começou desaprender a falar, algumas outras vezes se engasga com a comida como se estivesse desaprendendo a comer... — Agora tudo fazia sentido, o jeito que ela o segurava firmemente quando desciam a escada. Com medo dele cair. August não só desaprendeu a falar como também estava esquecendo como comer e andar. 



— Entendo. O alzheimer está expandindo-se mais rápido do que imaginava — Murmurou. 



Seus olhos azulados se arregalaram e Margaret não tinha sido a única surpreendida na sala com a confirmação da doença, Winry abriu a boca totalmente pega desprevenida. 



— Alzheimer? Isso é impossível! — Ela exclamou. A Sra. Hans andou para o lado e para o outro, não sabia o que pensar. Começou a ficar desesperada. 



— Não é impossível, nós anormais somos muito mais sensíveis a doenças degenerativas e a transtornos mentais que vocês humanos normais — Afirmou, seriamente. 



Margaret não sabia se ficava apreensiva ou totalmente desesperada, descobriu sobre os anormais há pouco tempo. Levou tempo até que ela acreditasse e ligasse para pedir ajuda de alguém da Mercy, mas estava tão desesperada por ajuda de alguém que pudesse entender sobre o que estava acontecendo com seu filho. Já que os médicos não foram capazes de tal coisa. E agora isso, descobriu que August tinha alzheimer — algo totalmente impossível e que só deveria afetar pessoas mais velhas. Por Deus, ele só tinha doze anos. Como poderia lidar com isso? Ela não poderia perdê-lo!



Se August morresse, jurava que tiraria sua própria vida. Ele era tudo que tinha.  



— Ok, tudo bem... — Margaret respirou fundo antes que voltasse a encará-lo. Ela dizia a si, para ser mais confiante pelo seu filho. Por August — Anormais existem, pessoas com poderes estranhos vivem por aí — Ela pousou sua mão sobre a poltrona e fitou Declan com um olhar mais firme enquanto tentava-se acalmar: — Por favor, me diga; o que eu posso fazer pelo meu August? 



Declan se levantou do sofá e manteve-se frio em sua frente, seus olhos pareciam mortos.



— Tem certeza? Faria realmente qualquer coisa pelo seu filho? — Perguntou, tentando descobrir se a mesma estava ciente das consequências que isso poderia gerar. 



— Ele é tudo o que eu tenho, farei o que for preciso por ele! — Gesticulou, decidida. 



— Mesmo que isso signifique deixá-lo partir?



Sua testa franziu, deixando evidentemente suas rugas nítidas. Margaret abriu sua boca para pronunciar-se, parecia confusa: 



— O que?



— Eu não posso curar seu filho, não posso receitar um remédio ou sumir com a dor que ele carrega. Talvez, seja hora de você deixá-lo partir — Seus olhos avelã sobrevoaram sobre August, o garoto estava cabisbaixo enquanto mexia os próprios pés, ansiosamente. Não parecendo prestar atenção para conversa dos adultos — Existe um lugar na Suíça…



Margaret explodiu.



— Saiam da minha casa! — Ela gritou, enfurecida. 



Como ele ousa? Margaret não era idiota, ela sabia ligar os pontos. Ele estava propondo uma eutanásia, uma morte indolor. Ficou irritada, irada na verdade. Aquele canalha ousou entrar na sua casa para propor uma barbaridade desumana naquelas, ele nem ao menos prestou-se a ajudá-la.



— Sra. Hans, você tem que… — Ele tentou prosseguir, mas foi interrompido pelos soluços de Margaret. 



— Não diga mais nada — A senhora apertou seus olhos fortemente enquanto tentava parar as lágrimas, viu seus olhos inchados e vermelhos em meio a maré de água —… Saiam da minha casa, os dois! — Exclamou, apontando para a porta. 



Ele entendeu o recado. Assentiu para que Winry levantasse do sofado e o acompanhasse, ela parecia abismada e completamente chocada com a situação, mas seguiu-o até a saída. Mas não podia deixar de sentir empatia pela Sra. Hans, tudo que ela queria era achar um modo, um caminho, qualquer coisa que pudesse ajudar seu filho. Matá-lo nunca foi uma opção. Margaret tremeu de raiva enquanto assistia-os ir embora, ela caiu assim que ouviu a porta bater, — teve sua confirmação que eles haviam partido — abraçou seu filho fortemente enquanto soluçava contra seu pescoço. Chorava como uma criança e prometia em meio às lágrimas amá-lo para sempre, August apenas ficou estático no lugar sem mexer-se não parecia entender o que estava acontecendo. E deixou que sua mãe apoia-se nele e deixou molhar-se com suas lágrimas, e soluços escandalosos.  



Winry não poderia acreditar no que aconteceu, era chocante demais para ser verdade. Quando ela saiu de seu antigo emprego, quando lhe propuseram ajudar outros anormais como ela; nunca pensou que seria dessa maneira fria e mórbida. Que Declan poderia ser alguém tão sem coração. 



— Você exagerou! — Declan virou-se minimamente para encará-la pelo canto de seus olhos e ficou imovél em um dos degraus da varanda, ele parecia vazio — Como pode considerar propor uma eutanásia? — Dizia, revoltada. 



— Você está dispensada… — Ele dizia friamente, havia trocado de assunto com total desinteresse — Se me der licença, estou indo me afogar num rio. Nos vemos depois ou não — Ele riu, sombriamente. Sem qualquer emoção ou pitada de humor. 



Antes que ele pudesse pensar em fugir, Winry o agarrou pelo braço; era visível notar que ela estava irritada e não achou nenhuma graça no que ele disse, aquilo só pareceu azedar seu humor.



— Qual é o seu problema?! — Segurou-o, fortemente — Como pode brincar com suicidio? Como pode ser tão frio e indiferente com o sentimento das pessoas? 



Declan arfou. 



— Da onde vêm essa simpatia toda? É órfã, não é? Estou surpreso que você pode simpatizar com a Sra. Hans — Declarou, friamente enquanto escondia-se seu rosto dentre seus fios. Ele mantinha sua face longe de seu alcance —… Por favor, Anjo. Não faça eu perder o interesse em você! — Exclamou. 



Ela largou-o abruptamente, fechou seu rosto em uma careta e uma expressão aborrecida. Winry tinha se decepcionado com Declan, ele havia se provado um verdadeiro babaca. 



E andou a passos largos para fora da varanda, decidindo seguir um caminho oposto. 



— Você é um idiota! — Xingou. 



Ela estava ali, para aprender, observar. Tirar algum aprendizado naquela missão como Declan disse que tiraria, mas a única coisa que tirou de lição foi “Que Declan O’ Sullivan não possuía um coração.”



O dia estava se pondo lentamente. O sol ocultava-se no horizonte, acabando por transmitir suas matrizes em tons vermelho e laranja no céu. Declan observou o lago do porto, estava sentado na grama em direção às águas. Ele as encarou por um longo tempo; por um momento, considerou se afogar. Jogar-se nas águas e cometer suicidio, mas aglomeração que fariam em sua volta seria constrangedor, sem falar, que era um local público e havia muito mais chances de ser resgatado. Suspirou. Deixou que a brisa suave balançasse os fios de seus cabelos castanhos enquanto mantiverá em silêncio, preso em seus próprios pensamentos. Talvez, Winry estava certa. Ele tinha exagerado e não considerou os sentimentos da Sra. Margaret Hans com a morte do filho, mas mais cedo ou mais tarde ela teria que lidar com isso. August iria morrer e possivelmente ele não chegaria à fase adulta, nenhum mutante chegava à fase adulta — são vistos pelos outros anormais como uma falha genética e não possuem poderes paranormais. 



Declan pensou na dor do garoto “Melhor ele morrer logo do que passar a vida morto por dentro.” Era assim que ele pensava, era exatamente desse jeito que ele vivia: completamente morto por dentro. E ele não queria isso pra ninguém nem mesmo para um garoto de doze anos, pela sua experiência, a vida já tinha feito o possível para lhe causar dor e ele odiava essa sensação dormente no seu peito. Mas diferente dele, August tinha alguém. Uma pessoa que se importava verdadeiramente com ele, que estava determinada a riscar tudo e permitir que ele viva alguns segundos mais. Achava que nunca tivesse vivenciado esse “amor de mãe”. Declan caminhou pelas ruas do bairro vitoriano durante o véu da noite e seus olhos estreitaram-se ao ver August sentado na calçada com uma bola de futebol em mãos; olhou em volta e viu as crianças entrando para dentro de suas casas, seus pais encaravam com olhares de repulsa e indignação para o garoto. As crianças pareciam assustadas pela ideia de brincar com ele. Declan lembrou de algo parecido que ocorreu em sua infância, ninguém jamais ousou aproximar-se dele, nenhuma criança. Mas não por causa de seus poderes ou aparência, não por causa dele e sim, por seu pai ser quem ele era. Um mafioso sádico e louco. 



Decidido a aproximar-se do garoto, Declan decidiu ser cauteloso e pensar em como deveria iniciar se apresentando a ele. Queria tirar toda aquela má impressão que pudesse ter dele: 



— Oi, August. Tudo bem? — Decidiu interagir por uma alternativa mais simples, não muito exagerada. August olhou-o com olhos azulados estreitos, pareciam brilhar; era como se ele tivesse tido alguma ideia.



E antes que Declan pudesse pensar em prosseguir, o garoto levantou-se e o puxou pela manga de seu casaco enquanto carregava a bola de futebol embaixo de seu braço. Os olhos avelã de Declan arregalaram-se, ele franziu suas sobrancelhas não entendendo o que estava acontecendo. Anteriormente, tinha tentado ter o controle da situação e limpar sua barra pelo ocorrido mais cedo. Mas agora quem parecia tomar as rédeas era August, ele era inteligente e parecia bastante determinado. Quase como sua mãe. O moreno parou no lugar assim que percebeu que o garoto havia soltado seu braço, eles ficaram uma distância considerável um do outro e então August chutou fortemente a bola. Declan a pegou em mãos mais como um reflexo e viu um sorriso meigo surgir nos lábios do garoto, ele então percebeu o que ele realmente queria. Alguém para brincar com ele.



— Entendi. Você quer que eu jogue com você? 



August assentiu com a cabeça levemente, estava sorridente — deixando à mostra todos os dentes de sua boca. 



— Bom, deixando claro que eu sou péssimo em futebol. Obviamente, não preciso dizer quem vai esmagar a cara do outro no asfalto, não é?! — Dizia, presunçoso.



O garoto riu. August deu uma risadinha fina e fofa, que podia ser facilmente confundida com um porquinho da índia. 



Eles jogaram futebol juntos. E Declan nunca se sentiu tão mal em toda a sua vida, ele era péssimo. Verdadeiramente péssimo. Ele chutou a bola muitas vezes para direções erradas, para o quintal dos vizinhos e era sempre um eufemismo pedir o objeto de volta. Até o jeito em que ele chutava a bola estava errado. August teve que ensiná-lo, o que fez Declan se sentir no fundo do poço sentindo-se menosprezado e inútil por ter que acabar numa situação onde era ensinado a jogar bola por uma criança de doze anos. Ele era ótimo para defender-se e pegar a bola, mas quando tratava-se de atacar, Declan chutava para qualquer lugar menos para o pobre August. O garoto não parecia se importar, ele estava se divertindo. Ria muito. 



— August! 



Então ouviu uma voz feminina lhe chamando. Despertou-se de seus desvios. Ele parou de rir e viu sua mãe na varanda de sua casa, encarando-o fixamente. Margaret desceu apressadamente as escadas arrastando seus saltos e saiu em direção a ele, August ficou em defesa de Declan, ele largou sua bola no chão e ficou frente ao moreno para protegê-lo de sua mãe; ele já sabia o que esperar. Declan franziu, por um momento ele ficou confuso, mas ao ver a Sra. Margaret Hans vindo em direção a ele não pode deixar de bufar prevendo uma bronca. Justo agora que estavam se divertindo e rindo juntos. 



— O que está fazendo aqui? O que quer com o meu filho? — Ela quase gritou, estava nervosa e apreensiva vendo Declan com seu filho. Depois do que ouviu mais cedo não tinha como não estar. 



August ficou frente a sua mãe, impedindo-a de chegar até Declan.



— Não bastou ter insinuado que eu matasse meu próprio filho? Agora veio envenenar a cabeça dele?! — Gritou — Eu jamais deveria ter ligado para Mercy e pedir ajuda para vocês se soubesse que me mandariam um louco! — Ela apertava seus olhos, estavam visivelmente vermelhos e havia lágrimas no canto de seus olhos. Estava aos pratos, quase a beira de cair no choro — Você não tem filhos, não sabe o que é ver uma criança nascer de você para depois ter que vê-la morrer. Não sabe o que é criar uma criança sozinha. Lutar para sobreviver, lutar para sustentá-la. Você não compreende nada disso! — Margaret berrou, deixou que as lágrimas deslizassem sobre sua face. 



Era um pesadelo. Declan odiava ouvir aquele choro, lembrou-o de algumas lembranças amargas da sua infância. O som da chaleira fervendo e transbordando água no fogão, os gritos de dor e o choro alto que invadia seus sonhos. E quando olhava para figura abatida no chão, seu corpo esguio e magro. Tudo que conseguia focar era em seu olho roxo e completamente inchado. Agredida pelo homem do qual era casada. August abraçou sua mãe, tentou infinitas formas para tentar pará-la de se mover e avançar em Declan, mas ela continuou andando como uma leoa que tentará proteger seu filhote. Houve uma plateia, pessoas saindo de suas casas para assistir o que estivesse acontecendo na sua frente. 



— Não é certo uma mãe enterrar seu filho, não é a ordem certa das coisas! — Exclamou, exaltada. 



— Então como você ousa… como ousa entrar na minha casa e pedir que eu deixasse meu filho partir? — Soluçou alto, deixando as lágrimas transbordarem contra o contorno de seu rosto. Estava completamente abatida — Quando esteve na minha casa, você me deu esperança. E agora a tira de mim! Qual é o seu problema? Onde está sua humanidade? O que há de errado com você?! — Nada. Declan continuou em transe, quieto e sem dizer uma palavra. Ela batia suas mãos contra seu peito, chorando como nunca enquanto August tentava fazê-la parar. Mas Margaret continuou a batê-lo com ainda mais raiva e fúria, estava irritada e angustiada. 



Essa sensação, essa sensação de impotência. O choro continuou a invadir seus ouvidos. Declan viu-a esqueirada em um canto da cozinha, seu corpo magro. Estando a pele e ossos, parecendo como se não estivesse comido nada há muito tempo; seus longos cabelos castanhos escondendo seu rosto, seu rosto pálido e mórbido. Seus olhos percorreram por todo seu corpo, observou seus machucados e feridas abertas sobre sua pele nua. Conforme se aproximava, ouviu o som ensurdecedor da chaleira. Caminhou em passos largos, mas ao mesmo tempo cautelosos, para não assustá-la e quando dobrou seus joelhos para ficar à altura da mulher. Tocou-a com o dedo em seu ombro. Ela virou-se parecendo completamente desesperada e abismada, mas acalmou-se ao ver que apenas era seu pequeno filho de oito anos. Ela sorriu minimamente, Declan percebeu que era um sorriso forçado para confortá-lo e dizer que estava tudo bem. Ele sabia que não estava. Viu seu olho roxo inchado, seu lábio inferior sangrando e seus olhos escorrendo lágrimas.



Ouvia chamar seu nome. Abraçou-o fortemente enquanto pedia para não se preocupar. Em explicação sobre o ocorrido ela lhe dizia “Não se preocupe, meu doce Declan. Papai apenas ficou bravo com a mamãe, a culpa é da mamãe!". Ela fazia isso soluçando. Mas sabia que aquilo não era verdade, seu pai era agressivo e batia-a por muito menos. Temeu um dia poder perdê-la, temeu que seu pai um dia matasse. Envolveu em seu abraço, tentando lhe transmitir o mesmo carinho e conforto que sua mãe sempre fizerá para ele. Declan sentiu um tapa atravessar sua bochecha e fazê-lo virar subitamente para o lado, seus olhos se arregalaram. Ele havia saído rapidamente do seu transe. Moveu sua mão para tocar sua face, acabou por sentir o estado de dormência e ardência do local onde recebeu o tapa. Olhou para Margaret e viu a mesma derramar lágrimas em sua frente, também observou August estar agarrado a sua cintura enquanto tentava segurá-la.



Ele parecia ter ficado muito tempo fora, observou ao seu redor e viu alguns olheiros os fitando fixamente de suas casas. Esses vizinhos não pareciam ter nada de mais interessante para fazer, além de meter-se em sua vida. Declan respirou fundo, tentou se acalmar depois da alucinação que teve. Não esperava por aquilo, não agora. A Sra. Hans estava certa, August era seu filho, era óbvio que queria protegê-lo e desejar que ele tivesse uma vida longa feliz. Como toda mãe desejaria o bem para sua cria. 



— Me desculpe... — Murmurou. 



Margaret estreitou seus olhos, surpresa. Ela ficou imovel no lugar, não esperando por aquilo. Havia ouvido certo?



— Você está certa, exagerei e não devia ter tido aquela ideia absurda — Prosseguiu — August tem sorte de ter você como mãe, é nítido ver que se preocupa com ele. Mas se deixar-me redimir, tenho outra alternativa — Disse, suavemente.



— Então diga, estarei disposta a ouvir! — Respondeu-lhe, tentando acalmar-se.  



Declan observou August, um garoto quieto e doce. Sorriu minimamente para ele, transmitiu o mesmo sorriso similar que uma vez sua mãe lhe deu. Um sorriso de falso conforto. 



— Crie boas lembranças: vá ao parque de diversões, passeiem na praia, viagem, façam coisas que ele goste. Aproveite cada momento… — Sussurrou para que apenas Margaret pudesse ouvir, a mesma estava prestes a cair no choro outra vez. Então não existia uma alternativa onde seu filho pudesse viver? — E quando chegar a hora dele partir, não chore pode ser pior. Mas tente se sentir realizada por apenas proporcionar um momento de felicidade onde ele pudesse se sentir “normal” — Olhou para August e viu estreitar-se seus olhos, ele sabia que estavam falando dele. E tinha consciência que ele jamais poderia ser alguém normal sendo quem era. 



— E como fica a minha felicidade? — Ela indagou, sentindo-se solitária. 



Declan a abraçou. Ele podia sentir sua dor e não a nada mais dolorido, do que ver uma pessoa sofrer e não ser capaz de fazer nada para ajudar. Essa era a vida para os anormais, eles podiam ser poderosos, mas tinha uma expectativa de vida baixa e sofriam ao longo de sua vida por traumas. Não havia uma vida feliz para eles. Ao menos, August poderia ter um momento de felicidade antes de vir a falecer. 



— Nunca mais vai ser a mesma — Declarou, friamente — Não importa o quanto tente. Uma vez quebrado, jamais poderá ter seus pedaços inteiros… mas por favor, por August não sofra antes da hora — Ele colocou sua cabeça sobre a da Sra. Hans e abraçou-a enquanto colocava sua mão sobre a cabeça de August, olhava-o com olhos tristes e perdidos no escuro de suas pupilas — A felicidade dele deve vir antes da sua!



A verdade poderia ser dura, mas poderia ser melhor do que passar a vida se iludindo em mentiras. 



Winry não conseguia compreender, ela havia se juntado a Mercy para ajudar as pessoas e o que viu hoje; não foi nada disso. Ela estava sentada em um banco no condomínio do seu prédio — estava sozinha nas profundezas daquela fria noite. Moveu suas mãos a cabeça enquanto sentia uma forte enxaqueca, uma dor parecia invadir seu crânio. Ouvia as luzes dos postes piscarem ao seu redor, parecia haver um curto no sistema ou algo parecido. Sentiu-se inútil naquele dia, incapaz. Ouviu a voz da irmã Flora invadir sua mente, sua mesma voz carregada de opressão e repulsa. Ela dizia: "Patético, você é uma inútil mesmo! Afinal para quê você serve? Tudo que faz é dar problemas, come e dorme sobre esse teto, e não é capaz nem mesmo de fazer uma faxina?! Imprestável! Faça-me um favor e morra logo! Menos uma boca para alimentar..." Ouviu um por um, as luzes entrarem em curto e se apagarem. Winry ficou apreensiva, sentada silenciosamente em meio a escuridão sendo apenas refletida pela lua minguante. 



Sentiu a presença de um estranho sentar-se ao seu lado, ele tocou seu ombro e viu as luzes se acenderem novamente. Repentinamente, começou a se sentir muito mais relaxa e abafou os pensamentos negativos para o fundo de sua mente. Ficou mais calma, estranhamente muito mais calma e a dor em sua cabeça havia passado. Winry estreitou seus olhos e virou-se para o lado, ela fitou o sujeito boquiaberto; não conseguia acreditar. Era Wilson, o Presidente da Mercy e líder da organização. Ele estava ali, sentado ao seu lado. Com seus curtos e lisos cabelos negros balançando ao vento. Olhava-a, fixamente com seus olhos azuis metálicos e carregava consigo a mesma bengala de alumínio que andava com ele sempre. Wilson era a pessoa que havia ajudado a relaxar e acalmá-la, o líder da Mercy estava bem ao seu lado fazendo uma aparição repentina e inesperada. 



Ela não podia acreditar. O aquilo era real? 



— Consegue sentir-se melhor? — Winry estava sem reação, ela apenas balançou a cabeça levemente ainda estando absurdamente abismada com a presença do mesmo. 



— Me perdoe, eu não queria ter usado minhas habilidades paranormais em você. Mas acabou sendo a única maneira que encontrei para acalmá-la — Suplicou. 



Wilson tinha o poder de influenciar as emoções e os sentimentos de outras pessoas, ele poderia alterá-las ou fazer com que sumissem. Não era uma habilidade útil no campo de batalha, mas poderia ser essencial para parar um anormal descontrolado e a beira de perder o controle de seus poderes.  



— C-como… por quê… — Gaguejou, Winry não sabia nem o que dizer. Ela foi literalmente pega de surpresa e não sabia como reagir. 



— Eu vim ver se tudo ocorreu bem na missão que a designei com Declan. Aprendeu alguma coisa? 



Engoliu, em seco. A aura de Wilson era intimidante, ele tinha sempre uma expressão severa e autoritária em seu rosto. Transmitia superioridade. Mas ele sempre fluía com um tom de voz cheio de autoridade e ao mesmo tempo calmo, não sabia como deveria comportar-se em sua frente. De uma forma, ou outra, ele era seu chefe afinal. 



Não sabia como deveria explicar o que aconteceu com os Hans. Não sabia nem se deveria falar o que Declan ousou insinuar para fim do problema com a deficiência de August, temia como ele reagiria. 



— Deixe-me adivinhar: Declan passou dos limites de novo?! — Winry arregalou seus olhos amendoados enquanto viu-o suspirar. Como ele sabia? 



— De novo? 



Ele parecia saber lidar com Declan. 



— Nada me surpreende vindo dele, ele às vezes pode ser imprevisível. Mas quando você passa a conhecê-lo não há que possa fazê-lo ser pego desprevenido pelos seus atos — Declarou, calmamente. Ele realmente não parecia surpreso — Diga-me, o que ele aprontou dessa vez? Devo me preocupar? — Indagou. 



— Ele sugeriu uma eutanásia — Disse, simplesmente. Winry esperou pela reação do Presidente, mas nada veio, ele parecia neutro e com a mesma expressão intimidante de sempre. 



— Entendi. O que você acha disso? 



Estreitou os olhos. Ele estava pedindo sua opinião?



— Como? — Ficou confusa. 



— Quero saber o que você acha do Declan, peço sua sinceridade sobre o assunto... — Exclamou, deixando-a um pouco desconfortável. Winry não sabia se ele estava lhe testando ou só pedia por uma opinião honesta sobre o ato de outro membro da Mercy. 



Conhecia-o há pouco tempo, mas do pouco que viu dele, notou traços de bipolaridade em seu comportamento. Ele mudava algumas vezes muito rápido de humor, outras dependendo do assunto ele era sério e algumas poucas vezes fazia piadas sobre se suicidar; enforcar-se numa viga, se afogar num rio ou se atirar de um prédio. Não era só bipolaridade, havia algo mais. Talvez, ele sofresse de algum transtorno. Quando ele havia lhe dito mais cedo sobre os anormais serem mais sensíveis a doenças degenerativas e a problemas mentais, era como se ele próprio estivesse se incluído nesse quadro. Ao menos, ele deu essa impressão a Winry. 



Sabia que havia algo estranhamente errado com ele; Declan era esquisito e suas ações poderiam ser problemáticas. Um exemplo disso, é ele não parecer se importar com os sentimentos da Sra. Hans em relação ao filho ou ter tentado insultá-la sobre o fato de ser órfã. Por um momento, pensou que ele podia ser apenas um louco doentio sem humanidade. Mas se ele tivesse mais problemas do que imaginava? 



— Ele é estranho e eu sinto que há algo de muito errado nele — Pronunciou-se, pensando em todas as vezes que viu Declan agir ou conversou com ele.



Wilson levantou-se do banco e ficou em pé, colocando seu peso sobre sua bengala. Ele ficou parado por um momento, antes de dizer: 



— Sei que não posso pedir para que esqueça o que aconteceu hoje, mas peço que tenha um pouco de empatia por ele. Pode fazer isso? — Sugeriu, tentando de alguma maneira fazê-la sentir como se estivesse julgando-o errado — Declan é uma criança traumatizada, as coisas que ele já viu. Os traumas que ele vivenciou por grande parte de sua vida… Sei que você possui suas próprias cicatrizes, mas diferente de você ou qualquer outra pessoa, ele usa o humor para esconder sua própria dor — Naquele momento, Winry sentiu-se muito mal. Completamente abatida. Ela ficou cabisbaixa, não suportando encará-lo e ser repreendida. 



— Declan possui nojo de si mesmo, ele não suporta olhar para ele e não suporta ver seu reflexo no espelho — Prosseguiu, parecendo carregar um tom de voz cheio de repressão. Mas ela entendeu, que era apenas o jeito de Wilson explicar a situação de um colega e pedir empatia pelo mesmo. Pedir compreensão e que tenha mais amor —… Todos nós da Mercy possuímos um passado distante e sombrio, mas ele, ele é atormentado todos os dias pelo seus demônios. Pois seu maior demônio é ele mesmo — Dizia com uma voz mais suave e calma. 



Ele olhou por um momento por cima de seus ombros e viu Winry repensando sobre suas palavras, inspirou fundo. Seu trabalho estava feito. Winry estava bem e conseguiu conter seus poderes a tempo. Ele andou calmamente para longe, seguindo seu caminho em meio a escuridão enquanto deixava-a só naquele banco contra as luzes dos postes e da iluminação da lua. Deixando-a pensar consigo mesma, sozinha. Suas palavras comoventes poderiam ser para Declan, mas sabia, que de alguma maneira Winry se identificaria com elas: ela se via atormentada por um mesmo demônio, sua insegurança.



Notas Finais


Como vocês podem ter notado, estou tratando de desenvolver os transtornos mentais dos personagens ao decorrer dos capítulos. Suas feridas. Cicatrizes.

Declan possuí um passado sombrio, marcado por muita dor e violência. Ele as vezes tem alucinações, flashbacks devido a esse trauma que marcou sua infância. Mas essa não é a única marca que o persegue, seus demônios são ainda mais profundos. Como o Wilson mesmo disse, ele odeia a si mesmo. Por outro lado, temos a Winry que sofre com ansiedade. Ela vive se afundando na sua própria solidão e insegurança, por não se considerar aceita. Por se vê como uma pessoa inútil que foi rejeitada pelos pais.
Então temos esses dois personagens, que tenta lidar com seus próprios demônios.

Esse capítulo, além de nos mostrar que existem outras categorias de anormais. Também pudemos notar que existem outros pontos de vista, que existem outras pessoas que são consumidas e acabam por não ter mais uma luta. August é um garoto, que infelizmente, nem deve a chance disso. É esse tipo de coisa que eu pretendo mostrar, não me prender somente no ponto de vista de um personagem ou sua realidade. Eu quero mostrar o que acontece com outros anormais, suas próprias realidades e histórias. E farei isso através da Mercy.
Pois bem, espero que tenham gostado do capítulo. Até a próxima!S2


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