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História O Livro dos Mortos - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Viatura


Darwin acordou animado naquele dia. Levantou, arrumou a cama, o quarto... Tudo que um jovem de 20 anos não faria. Depois de tudo, já cansado, deitou em sua cama e ligou a TV; pegou seu celular e começou a conversar com os amigos.

Respondeu primeiro a mensagem de Fred, que perguntou:

 

"Como ta o cara do intercâmbio? Arthur né?"

"Ta de boa, ele e bem legal"

 

Lilian:

 

"Ei como vc ta?"

"To bem e vc?"

"Tbm"

"Top"

"Top"

 

Arthur:

 

"Ei tá na Mary ainda?"

"To, os seus pais tao preocupados?"

"Não, rlx eles tão de boa"

"Vo fica por aqui mais um poco, a Mary quer me mostrar um pouco da cidade"

"Ta até mais tarde ent"

"Até, host brother"

 

Com seu melhor amigo:

 

"Ow vamo sair?"

"Nem da cara, eu to querendo dar um rolê com o Arty, tlg? Faz uns meses q tá aqui e nem conhece nada"

"Vai largar nois pelo intercambista?"

"Sim, ele é novo em Londres e eu queria mostrar pra ele como é a cidade e tal"

"Pdp, nois se ve ent"

 

Sua mãe o chamou.

Darwin desligou a TV, deixou o celular no criado mudo e desceu as escadas para atender ao chamado. Seu irmãozinho Jake estava assistindo desenhos na sala junto do pai, que logo o vê e diz:

— Bom dia, filho!

— Bom dia.

— Bom dia, filho! — Diz a mãe, vindo da cozinha.

— Bom dia.

— Pode me ajudar com umas comprinhas, querido? — Ela estende a mão; segurava uma listinha de itens.

Ele pega e da uma lida rápida.

— Claro! Eu já vou indo, então.

— Te vejo mais tarde, querido.

Subiu para se preparar para o frio. Passou novamente pela sala de estar, tomando um breve café da manhã, tempo suficiente para ouvir duas notícias junto de seu pai. Uma dizia sobre as viaturas de polícia que estavam sumindo junto de seus motoristas e eram encontradas poucas horas ou dias depois, porém sem os rádios e outros equipamentos, sem sinal nenhum de corpos; a outra notícia já parecia mais porca, publicada para encher linguiça, e estava contando sobre o velho Joe, um homem sem casa que andava pelas ruas de Londres e foi entrevistado a respeito do Corona Vírus. Sem ligar muito para as reportagens, o garoto se levantou, escovou os dentes e partiu.

***

Após receber uma ligação de emergência que pedia por reforços, Jonathan já correu para sua viatura e pisou fundo sem nem mesmo parar para ajeitar o cabelo, a barba ou os óculos. Alertou na rádio que estava atendendo aos pedidos e, junto de outros dois carros, partindo para Hunstanton, uma cidade na costa em Norfolk, na costa da Inglaterra. No banco do carona estava Richard, recém-chegado, que estava verificando o estado de sua arma assim como o resto dos equipamentos. O desespero na voz de quem tinha ligado para a delegacia foi assustador; o grito, cortado de repente pela queda da ligação, perturbou os policiais, que já partiram preparados para o pior.

A viagem durou poucos minutos. Ao chegar, as rodas se arrastaram com a frenagem e deixaram marcas pelo asfalto. Richard saiu primeiro, prontamente foi em direção da casa referente ao endereço passado; sua mão no cabo da arma todo o tempo, pronto para qualquer adversidade. O imóvel se localizava em uma extremidade contrária à costa de Hunstanton, longe do mar. Jonathan nem pensou em desligar o carro, apenas saiu do veículo e correu para alcançar o parceiro.

— Jonathan, a porta tá...

— Sem tempo pra isso! — Disse firmemente, tão firme quanto o seus quatro chutes.

O quarto golpe foi suficiente para abrir caminho, enfim os dois entraram, atentos.

Parecia uma casa normal e bem arrumada, seu interior era completamente coberto por papéis de parede que estavam certamente envelhecidos, porém quase não era notável. No curto corredor principal, havia duas portas nas laterais, que levavam aos dois primeiros cômodos, logo após a entrada. Eles olharam rapidamente as duas entradas; nada. Jon fez sinal para que Richard subisse as escadas para o andar de cima no final do corredor. Enquanto isso, o oficial iniciou seu caminho pelo andar térreo. 

Durante seu caminhar, escutou alguns sons que pareciam ser gemidos; tão abafados e são fracos que não conseguia definir de onde vinham, ainda mais com os sons de passos no andar de cima. Ao andar pelo lado direito da casa, olhou para cima, escutando os  passos de Richard, e olhou para baixo, escutando os próprios passos. Richard, por sua vez, fez o melhor que pôde no seu passeio no andar de cima, mas mesmo assim não escontrou nada a não ser mobília. Passou mais alguns segundos pensando e olhando para os lados e decidiu voltar.

Enquando descia as escadas, parou por um momento. Subiu alguns degraus de tornou a descê-las, desta vez com passos mais firmes. Repetiu o processo para ter certeza.

— Jon?

— Aqui.

Richard tentou seguir a voz de início, porém começou a escutar os mesmos gemidos dissipados que o parceiro. Finalmente chegou até uma sala de estar, toda bem arrumada, e encontrou-o.

— Achou alguma coisa?

— Enquanto você estava andando lá em cima, eu percebi que deste lado da casa o som dos passos é similar aos dos passos lá em cima, como se fosse...

— Oco? Eu notei um som incomum na escada também, como se não tivesse nada embaixo. E as vozes?

— Eu também ouvi... — ele se deita no chão grudando o ouvido contra o piso. — Pode ser que venha daqui, mas não consigo ter certeza.

Richard vai até embaixo da escada e tenta alguns soquinhos na parede, obviamente estava oca, não só isso, também parecia mais limpa que o resto das paredes da casa. Analizando um pouco mais o papel de parede, ele pôde perceber alguns pequenos erros no corte das extremidades. Puxou do bolso uma luva emborrachada e a vestiu; passou o dedo nos cantos estranhos e foi calmamente analisando. Do outro lado, Jonathan até tenta puxar o tapete da sala, ao por alguma entrada de alçapão; não achava nada, não importa o quanto tentasse. Ele para, suspira, coça a barba e desiste; agora tinha todo o tempo do mundo para fechar seus olhos e apreciar a calmaria e o som ambiente da sirene da própria viatura. 

Repentinamente abre os olhos. Escutava o som da sirene, porém, estranhou ao perceber que era apenas uma. Uma sensação estranha corre seu corpo em um calafrio. Anda em direção à saída com passos agitados.

— Aonde vai?

— Outras viaturas atenderam ao chamado, mas só a gente chegou, não é estranho?

Não demorou muito tempo para que Richard também se sentisse desconfortável.

— Vou tentar alguma comunicação.

— Espera aí.

Jon para antes mesmo de alcançar a porta.

— Eu achei alguns relevos no papel de parede — diz, passando a mão sem luva ao redor, o que fez a curvatura ser notada pelo outro oficial. Richard mostra a luva de borracha. — Vê como parece molhado? É cola — puxa um canivete do bolso e começa a descolar as pontinhas. — Colocaram isso aqui pouco antes de gente chegar. Esses relevos são bolhas por causa do ar que ficou lá dentro, não tiveram tempo de passar alguma coisa por cima pra liberar esse ar.

— Boa — Jon dá uns tapinhas no ombro do parceiro e o ajuda a tirar o papel de parede.

Uma pequena porta se revelou por trás do TNT mal posicionado. Richard puxou-a por uma cavidade em cima e ela se abriu. Instantaneamente um cheiro putrido subiu aos seus narizes, ambos cobriram as faces com os cotovelos; junto do cheiro, uma barata gigantesca rasteja rapidamente por entre os dois.

A passagem dava no início de uma escada para onde teria de ser um porão. Aparentemente não havia nenhuma fonte de iluminação lá embaixo, o que obrigou ambos a pegarem suas lanternas compactas, cuja iluminação confirmou a falta de interruptores na entrada. Verificaram se havia maneira de serem trancados lá dentro contra a vontade e, para garantir, arrancaram a portinhola. Puxaram suas pistolas, segurando as lanternas nas mãos que cobriam o rosto, e entraram.

Concentrados, nem perceberam que, quanto mais desciam, menos dava pra ouvir a sirene.

O terceiro passo depois do último degrau foi molhado e estranho, muito sangue já tinha passado pelo mesmo lugar que eles desbravavam agora. As lanternas encontraram dois corpos quase que ao mesmo tempo. Lá estavam os dois policiais que haviam realizado o chamado; pálidos; degolados. Passando por eles, o foco de luz achou alguns equipamentos em uma mesa.

— Jon.

Levantou-se, depois de verificar a identificação dos policiais para ter certeza, e olhou para Richard, apontando a lanterna.

— São rádios de viaturas roubados. Eram eles, e não reforços.

Jonathan passou por ele enquanto xingava. "Merda, merda, merda". Um quarto xingamento veio em um grito "MERDA!". Após isso, começaram a ouvir grunhidos, gemidos, e dessa vez não estavam abafados. Velozmente os dois seguiram os sons e, virando em uma sala logo depois das mesas de rádio, acharam uma banheira cheia de gelo, água e sangue. Era possível ver o rosto de uma pessoa para fora d'água tentando gritar enquanto amordaçado; estava fazendo força para ser ouvido.

— Ai, meu deus...

— A gente tá aqui, calma! — Falou Richard. — A gente vai te ajudar!

O olhar do homem palido e careca oscilava entre desespero e alívio. Estava tão fraco que não conseguiu ajudar os oficiais a tirarem ele de lá.

— Rich, vai pro carro e chama uma ambulância! — Jon puxava o homem para fora da banheira. — A gente vai se encontrar com o carro no caminho pro hospital!

— Tá legal! — O oficial corre para fora.

Jonathan conseguiu pegar o homem em seu colo e começou a subir as escadas estreitas com dificuldade.

— Relaxa, que a gente tem uniformes e ar condicionado quente no carro, você vai ter algo pra vestir e se aquecer.

— JON! — Gritou Richard lá de fora.

— O que foi?!

— Levaram!

— Levaram?

Jonathan alcançou o final da escadaria e atravessou a entrada, dando de cara com o parceiro.

— Levaram a viatura! Eles roubaram o nosso carro!

***

Arthur envolvia Mary com seu braço no banco da praça. Os dois conversavam e, vez ou outra, trocavam carícias e beijos.

— Então você tá aqui, idiota.

Arthur leva um tapa na cabeça. Olha para trás, já levantando o seu corpo, deixando a adrenalina fluir. Mary leva um susto e se afasta.

Uma risada suave começa a acalmar o casal.

— Meu deus, Art, eu juro que tava começando a ficar preocupado.

O semblante de raiva, passa, dando lugar a um sorriso. Era apenas Darwin, seu host brother, estava carregando duas sacolas de compra.

— Olha, cara, desculpa. Eu...

— Ei... — ele coloca a mão no ombro do amigo. — Relaxa. Meus pais tão de boa com isso, eu já falei. Só que você podia ter avisado mais cedo, né?

— Eu tô ligado. É que eu nem lembrei, só fui direto pra casa dela depois da aula.

— Sem problemas. Só toma cuidado pros agentes de intercâmbio não te pegarem — ele solta uma risada.

— Eu sei, eu sei... A regra do namoro...

— Não é nem isso! Você tem noção do quanto esses caras são solitários? Eles vão é ficar com inveja!

— Ah, tá bom. — Fala em tom de ironia.

Arthur abraça a garota de novo, e os três dão algumas boas risadas juntos por mais alguns minutos enquanto caminhavam. Uma sirene começa a ser ouvida ao longe.

— Ambulância, será?

— Parece mais uma sirene de polícia.

Comentam entre si o casal.

— Eu não faço ideia — diz Darwin. — Só sei que tenho que voltar pra casa, a minha mãe tá doida pra fazer o almoço logo. Chega logo em casa, tá? Eu vou avisar os dois que você tá bem, mas você já tá aqui há um mês, deve saber como eles são.

— Tô logo atrás de você.

— A gente se vê, então — Darwin vira as costas após uma piscada amigável para Mary.

O casal se vira e volta à conversa de antes. A sirene fica cada vez mais alta, começando a incomodar e, depois, atrapalhar a conversa dos dois. Eles param as risadas para olhar para a origem do som. Nem tiveram tempo de processar direito, logo que viraram as cabeças os olhos já se arregalaram em sincronia com o estrondo.

POW-POW. Dois impactos repentinos e altos.

A viatura que vinha pelas ruas em alta velocidade agora estava parada com um amassado na lataria, uma grande marca de impacto no para-brisa e marcas de sangue que se espalharam pelo veículo. O carro acertara um corpo que foi arremessado para longe e atingido novamente por um caminhão que vinha pela outra faixa.

Novamente, o carro de polícia se pôs nas ruas, fugindo do local.

A cena repentina chocou Mary e Arthur, que só foram perder de vez a expressão de choque poucos dias depois quando deram lugar para um semblante de tristeza, deixando as lágrimas caírem enquanto se abraçavam no funeral da família Jones. E as lágrimas só deixaram de cair quando visitaram o cemitério para deixar flores na frente da lápide que mostrava o nome de Darwin Jones, um jovem de 20 anos que morrera atropelado.



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