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História O mestre - Capítulo 13


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Notas do Autor


Desculpem o atraso - muitas coisas pra fazer nos últimos dias, mas acho que voltaremos a nossa programação normal agora.

Este capítulo apresenta um novo personagem nessa fic.

Ah, outra coisa, se cuidem, hein pessoal? Cuidem-se de si para cuidar dos outros.

Capítulo 13 - Crianças


Na segunda-feira após a aula de Geralt, ele instruiu Jaskier sobre onde ir buscar os adolescentes que iriam começar a trabalhar com ele. Após tanto tempo longe de um ambiente social distante do meio universitário, Geralt até se sentia animado com essa nova aventura. Seu pátio estava arrumado, o depósito estava organizado, todos iriam ter uma tarde super divertida por ali, se dependesse dele.

No seu íntimo, Geralt estava se forçando a pensar no fato de que muitas daquelas crianças não vinham exatamente do mesmo ambiente que ele, e seria necessário Geralt adaptar sua visão.

Eles iriam chegar às três da tarde, e alguns minutos antes do relógio marcar o horário, Geralt estava no jardim. Ele podia ver Ciri olhando para baixo pela janela, e ele tentava procurar por Jaskier na rua com as crianças, mas apenas o viu quando estavam no portão prontos para descer. O combinado foi de que entre cinco e dez crianças seriam atendidas por vez--Geralt podia ver sete hoje. Dois meninos e cinco meninas faziam parte do grupo, e Jaskier estava entretendo eles com uma conversa. 

Subitamente Geralt se sentiu nervoso, mas logo sacudiu a poeira dentro de sua cabeça. Ele tinha que se provar não apenas para si e para aquelas crianças, mas ele também queria se provar para Jaskier. Havia paixão dentro dele por mais coisas, por coisas que eram importantes além da sua carreira. Geralt queria se provar como um humano, pois às vezes, com a pressão de ser um dominador ele parecia perder a sua empatia.

“Olá,” ele falou quando os adolescentes chegaram ali. A idade deles variava entre os dez e os dezessete anos, pelo que Geralt tinha visto nos papéis. Alguns deles iriam sair dos lares no fim do ano, ou no ano que vem, já que completariam a idade máxima em sua estadia. Iriam para o mundo, e levariam consigo algo junto de Geralt.

Algumas das crianças responderam ao cumprimento, outras pareciam mais envergonhadas. Um dos garotos assentiu para Geralt, o que parecia ser o mais velho entre todos. Um vento fresco atingiu eles ali no morro, como se quisesse deixá-los ainda mais desconfortáveis.

“Essas aqui são as nossas crianças,” respondeu Jaskier, como se quisesse colocar Geralt de volta  no momento.

“Crianças?” O garoto mais velho pediu, e Jaskier riu. Era como se, naquele pouco tempo os dois já tivessem desenvolvido um pequeno relacionamento. E Geralt quase sentiu ciúmes, porque ele levou tanto tempo para trazer Jaskier para o seu meio e aquele jovem garoto já tinha conseguido fazer Jaskier rir.

“Sim, sim, todos vocês são crianças, porque são mais novos que eu e ainda não vivem sozinhos. São muito novos para serem adultos,” comentou Jaskier, dando uma olhada para o garoto mais velho. As suas palavras pareciam ser bem sinceras, e Geralt queria saber mais sobre esse passado de Jaskier, se ele tinha experiência em como se chega até a idade adulta, e como ele fez essa passagem de tempo.

“Meu nome é Geralt. E eu não conheço vocês, e nem vou pedir para se apresentar agora, porque não quero colocar ninguém no meio da roda. Vamos começar a mexer com um pouco de arte e aos poucos eu aprendo o nome de cada um, certo?” A maior parte das crianças parecia relaxar um pouco, e talvez deixar eles mais a vontade era a coisa certa.

Geralt mostrou o caminho até o atelier, e todos os seguiram. Ele e Jaskier tinham organizado algumas almofadas velhas no chão, em cima de uma lona plástica. No meio havia várias bolas de argila pronta para ser modelada, e o forno de Geralt já estava pronto para ser usado quando eles precisassem cozinhar as peças. Assim que as crianças foram entrando no atelier, Geralt viu que os olhos delas foram para todos os lados, para os quadros nas paredes, todos os materiais dispostos ali, um mundo colorido para eles.

Por uns momentos, Geralt deixou que eles apenas olhassem para tudo, depois pensou em como os direcionar.

“O que a gente vai fazer hoje é bem simples. Minha sugestão para vocês é fazer um vaso simples de argila, sem usar a roda de oleiro. Por ser pequeno ou grande, e depois, na próxima visita de vocês aqui, vocês levam ele para o lar, onde uma das assistentes vai ajudar vocês a escolher alguma planta para colocar ali. Parece simples, não?” Explicou Geralt, apontando para a argila no meio do atelier e os lugares para eles sentar.

“Mas antes disso, vocês vão colocar aventais para não sujar suas roupas, porque eu não sei quem lava elas, mas acho que não vão gostar de tirar toda essa sujeira,” disse Jaskier, adiantando o que Geralt iria dizer no minuto seguinte.  

Geralt tinha que admitir que gostava muito de ver que Jaskier estava fazendo as coisas mesmo sem ser mandado. Ele distribuiu os aventais e foi organizando as crianças, de forma bem mais experiente que Geralt, que até auxiliou duas das crianças, mas antes de ele poder fazer mais, Jaskier já tinha assentado todo mundo, e Geralt se viu com sete pares de olhos olhando para ele. Oito com Jaskier.

“Vocês podem pegar o tanto de argila que quiserem,” disse Geralt, mas ele sabia que teria que explicar melhor. “Usando a água que tem nos potes em volta de vocês, molhem um pouco essa bola de argila,” disse ele ao pegar uma bola do tamanho de sua mão, molhar um pouco, e então começar a modelar ela, abrindo um pequeno buraco para fazer um vaso que seria de um tamanho não maior que a palma da mão.

Em silêncio, por dois minutos, Geralt trabalhou com rapidez. Seus dedos iam modelando a argila como se ele já tivesse treinado, e na verdade, ele tinha. A figura que ele tinha em mente era a de um lobo, mas obviamente seria difícil fazer um, por isso Geralt se centrou em um cachorro, pequeno e bonitinho, mas com um buraco no meio para plantar uma suculenta daquelas em miniatura. O trabalho não era a melhor obra de arte que tinha saído de suas mãos, mas ele o fez rapidamente para mostrar às crianças.

“Não precisa ter muito talento pra isso, é só sujar as mãos e tentar,” ele falou, mostrando para as crianças a pequena obra de arte que tinha feito. As mais novas tinham os olhos brilhando. O garoto mais velho não parecia tão impressionado, mas Jaskier logo atrás dele tinha um sorriso para Geralt.

“Vamos tentar?” Jaskier sugeriu. E logo as crianças colocaram as mãos na massa. Aos poucos, Geralt foi indo de uma em uma para dar suas sugestões, pedir o nome delas e a idade, e ouvir qualquer informação a mais que gostariam de lhe contar. 

As crianças mais novas diziam mais coisas, e certamente não tinham vergonha de esconder nada. Falavam das famílias ruins das quais saíram, ou onde foram abandonados antes de aparecer por ali. Geralt tentava empatizar com elas, mas era difícil. A sua vida não tinha sido um mar de rosas, certamente, mas do seu lugar de privilégio ali nos morros de São Francisco, ele estava tão longe da realidade dessas crianças que não tinham uma casa só sua.

Elas tinha um lar, sim, mas não era a mesma coisa. Naqueles momentos ele percebia que tinha uma vida melhor do que muitos.

Se Geralt foi aos poucos conhecendo as outras crianças, Jaskier já parecia mais familiarizado com eles do que Geralt imaginava. Ele descobriu o nome de todos antes de Geralt, passava de um em um contando piadas e fazendo-os rir, como se fosse a coisa mais simples do mundo--e como aquelas crianças pareciam gostar dele. Se quando Geralt chegava perto alguns até queriam olhar para longe, talvez pelo tamanho dele ou seu jeito mais taciturno, com Jaskier elas se sentiam mais livres.

Tinha sido uma boa ideia ter Jaskier ali com ele, porque fez as crianças muito mais prontas para conhecer o algo novo que ele as estava dando.

Como nunca tiveram experiência com argila, as crianças tinham mais dificuldade para conseguir transformar sua ideias em realidade, mas a maior parte deles parecia bem feliz com seus vasos. Alguns pareciam flores e formas geométricas, mas outros não eram nada mais do que obras rudimentares que poderiam não ter valor artístico para ninguém, mas aquilo significava muito para essas crianças. Geralt podia ver que elas se conheciam e se davam bem, que uns protegiam os outros e se respeitavam, mas também eram reais e tinham momentos de brincadeira e discussões das mais bobas.

Mas eram apenas crianças, e com sua energia elas poderiam mudar muito mais do que qualquer homem poderia imaginar.

“Já terminou o seu?” Geralt pediu quando finalmente chegou ao garoto mais velho, aquele que parecia se dar muito mais bem com Jaskier e até então não tinha pedido nada para Geralt.

O garoto assentiu, mas não disse nada no primeiro momento.

“Como que é seu nome?” Geralt pediu, mesmo tendo ouvido as crianças chamarem ele antes.

“Dara,” disse o garoto.

“Nome diferente,” Geralt comentou.

“O seu também é,” Dara respondeu, sem olhar para Geralt. Havia um certo embate de energias entre os dois, Geralt tinha que admitir.

“Acho que os nomes menos comuns são sempre um atrativo,” Geralt disse.

“Eu já sou pobre e sozinho no mundo, acho que tenho coisas até demais chamando atenção para mim.” O garoto não mencionou a cor de sua pele, mas Geralt conseguia ver que nas palavras dele tinha a marca de alguém que sofreu racismo. Outra vez, Geralt definitivamente não conseguiria relativizar isso.

“Eu acho que chamar a atenção nunca é demais,” respondeu Jaskier, surpreendendo os dois com sua presença. “Aliás, acho que é a única forma de sair da mesmice na vida, chamando atenção.”

Dara rolou os olhos, mas havia um sorriso em seu rosto.

“É fácil falar isso quando se tem uma casa nas montanhas,” disse Dara.

Geralt estava pronto para abrir a boca, mas ele não tinha certeza o que iria falar. Jaskier outra vez saiu na frente.

“Eu concordo com você. Mas eu não saberia como é isso porque não fui criado aqui. Mas no fim cada um tem uma história diferente, não? E não posso negar que o apoio que a sociedade nos dá nem sempre é o suficiente. Nós temos que usar de nossa força pra seguir em frente, subir novos degraus, alcançar um mundo melhor que o que moramos. E sempre que recebemos uma ajuda, encontramos uma chance, temos que aproveitá-la.”

Aquilo era o retrato do que Jaskier pensava sobre o que Geralt havia lhe oferecido. E quem sabe, naquele momento Geralt admitiu para si mesmo que o seu interesse sexual em Jaskier não poderia ser o mais importante da relação entre os dois, porque essa oportunidade na vida de Jaskier estava lhe dando uma nova perspectiva de mundo. Estava dando a ele a ajuda que precisava nesse momento. E aproveitar-se disso para o prazer próprio parecia mais do que errado. Era quase um crime, na visão de Geralt.

“Sim, sim, sem tantas lições de moral,” disse Dara, trazendo Geralt para o presente enquanto ele e Jaskier riram. 

Pelo resto da tarde, Geralt ficou a pensar sobre isso. Ele terminaram os vasos, separaram todos para secar e depois serem cozidos, e então Jaskier buscou o lanche das crianças lá dentro, oferecendo a todos um sanduíche e suco. Todos eles se alimentaram bem, com promessa de que voltariam naquela semana para terminar seus vasos com a pintura. 

Geralt disse adeus para as crianças. Algumas com abraços, apertos de mão, mas a Dara apenas com um aceno.

Jaskier se encarregou de levar eles de volta para o lar, enquanto Geralt ficou para limpar o atelier. Ele começou a sentir um pouco do cansaço se abatendo sobre ele, mas também sentia-se feliz por ter começado aquele projeto. Ele não tinha ideia de onde isso iria o levar, mas já deu o primeiro passo, que sempre era o mais difícil.

“Como foi?” Ciri pediu quando apareceu ali no jardim. Ela não tinha descido para ver as crianças nesse primeiro encontro.

“Bom. Eu não sei se levo muito jeito com os mais jovens, mas Jaskier parece um natural nisso.”

Ciri olhou em volta e viu os vasos que as crianças fizeram.

“Eu fiquei olhando vocês aqui. Jaskier realmente parece se dar bem com qualquer público,” ela falou. “Mas fica claro quando quem o assiste não consegue tirar os olhos dele.”

Geralt olhou para sua filha, que tinha uma das sobrancelhas levantadas, curiosa. Geralt nada disse, apenas sacudiu a cabeça e sorriu.

“Eu vou pedir pizza hoje, acho que vocês precisam de uma folga depois dessa tarde,” ela disse ao se virar para voltar para casa.

Jaskier chegou apenas uns minutos mais tarde. Cansado mas sorrindo. Geralt tinha muitas coisas para dizer a ele, mas depois de ter pensado o que pensou, ele ficou considerando cada uma de suas ideias antes de falar.

“Obrigado por hoje. Você se dá bem com eles, e acho que isso é de muita ajuda, Jaskier.”

“De nada, Mestre.” Jaskier sorriu para ele. Mesmo sem dizer nada além do normal, aquelas palavras e aqueles lábios pareciam clamar por Geralt, por isso ele se virou para o outro lado.

“Você pode ir se lavar, eu termino por aqui,” falou Geralt, tentando colocar um pouco de distância entre os dois.

Ele não ouviu uma resposta de Jaskier, que se recolheu em silêncio.

 

 



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