História O milagre de uma lágrima 8 ANOS DEPOIS - Capítulo 15


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Direitos Humanos, Espiritismo, Família, Feminismo, Loucura, Medicina, Paranormalidade, Psicologia, Psicose, Self-harm, Suícidio
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Palavras 13.380
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Hentai, Lírica, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"O destino não pode ser mudado. Existem vários caminhos, mas todos eles levam ao mesmo lugar."

Supernatural.

Capítulo 15 - Existe destino?


No capítulo anterior, Clara se assustou quando viu alguém em seu quarto.

CLARISSE: Você me assustou Clara.  -Disse temerosa-

      Clarisse por não ter conseguido dormir assim que ouviu Clara chegar foi até seu quarto para que pudesse checar se estava bem.

CLARA: Eu só fechei a janela que estava batendo com o vento princesa. -Respirou aliviada-
CLARISSE: Mas me assustou. -Disse chorosa-

       Clara que tirava sua blusa frente ao espelho virou-se para olhar a irmã.

CLARA: Desculpa. Não foi a minha intenção.
CLARISSE: Fiquei com medo.
CLARA: Já passou. -Sorriu doce- Volta a dormir.
CLARISSE: Dorme comigo?
CLARA: Por que?
CLARISSE: Dorme comigo só hoje. Estou com medo.
CLARA: Medo de quê?
CLARISSE: Medo da minha visão.
CLARA: Que visão?

       Érika que ouviu o grito assustado de Clara foi até seu quarto impedindo que Clarisse comentasse algo a respeito da visão que teve em relação a irmã.

ÉRIKA: O que aconteceu? -Perguntou ao abrir a porta- Ouvi você gritar Clara.
CLARA: Eu fui fechar a janela e me assustei com a Clarisse no quarto. Estava escuro e ela apareceu de repente.
ÉRIKA: Você chegou agora?
CLARA: Cheguei. Eu fui dar uma volta com o Victor. Desculpa não ter avisado.
ÉRIKA: Não tem importância. 

        Érika olhou para Clarisse que estava amedrontada ao lado da cama da irmã.

- É melhor ir dormir. Eu fico com a Clarisse. -Puxou a filha pelo braço para que se posicionasse à seu lado-
CLARISSE: Deixa eu dormir com a Clara hoje mãe. -Pediu amedrontada-

        Clara aproximou-se da irmã preocupada, Clarisse estava muito amedrontada como se alguma coisa muito grave estivesse para acontecer.

CLARA: Cla o que está havendo?
CLARISSE: Eu vi uma coisa muito ruim.
CLARA: O que você viu?

        Érika intrometeu-se antes que Clarisse pudesse dar qualquer detalhe a respeito de sua premonição.

ÉRIKA: Acho que é tarde demais para vocês conversarem sobre isso. 

        Clara que olhava para a irmã fitou Érika com um semblante preocupado.

CLARA: Mãe ela está desesperada. -Comentou-
ÉRIKA: Ela vai ficar tranquila não vai Cla? -Abraçou Clarisse-
CLARISSE: Vou. -Respondeu com desanimo-

       Clarisse sabia que não podia dar qualquer detalhe sobre o que viu para a irmã sem que antes tivesse a certeza que estava correndo risco de morte.

CLARA: Tudo bem. boa noite!
ÉRIKA: Deus te abençoe filha. -Beijou-lhe a testa de Clara-

         Érika saiu do quarto com Clarisse e seguiram pelo corredor em direção ao quarto da filha.

- Cla, não fale nada sobre o que viu para a sua irmã. -Abriu a porta-
CLARISSE: Mas ela corre perigo.
ÉRIKA: Eu sei, mas você não quer deixá-la apreensiva com isso perto do casamento, quer?
CLARISSE: Não.
ÉRIKA: Então será um segredo nosso. Eu vou contar para Clara quando achar que é o momento. Agora deita para dormir. -Ajudou a filha a deitar-se-

       Clarisse sentou em sua cama e cruzou os braços indignada.

CLARISSE: Não vou mais dormir.
ÉRIKA: Mas tem que tentar. Eu fico aqui com você.
CLARISSE: Fica mesmo? -Fitou sua mãe com um olhar de estranheza-
ÉRIKA: Fico filha. Pode confiar em mim. -Sorriu-

         Érika e Clarisse deitaram na cama, ela abraçou a filha com toda a ternura que não tinha demonstrado desde que ainda era um bebê. Clarisse pela primeira vez sentiu-se acolhida pela mãe, mesmo que não entendesse nada sobre o que acontecia, ao menos, ela conseguiu demonstrar por ela todo o amor e carinho que acreditava nunca existir. 
        Érika pegou em uma das gavetas do criado da filha um livro de estórias sobre fadas e começou a ler na tentativa de tranqüilizar todos aqueles pensamentos horripilantes que Clarisse alegou ter visto, ela estava temerosa em dormir e sonhar mais uma vez com a morte da irmã.

_____


          Angélica e Eduardo saíram da faculdade e foram para uma choperia próxima a Lagoa, Angélica queria ir para o apartamento do namorado, mas depois de tudo que aconteceu na madrugada de sábado Eduardo achou que seria mais prudente não criar mais uma situação que pudesse deixar Ventura irritado, ele morria de ciúmes da filha e não gostaria de saber que seu atraso para chegar em casa se deu por ela ter ido para a sua casa.
        Angélica como de costume emburrou-se e quase acabou com a noite com toda a sua reclamação, para ela era muito fácil dizer para que Eduardo não se importasse com todo o desprezo dado por Ventura afinal, ela era sua filha, mas para ele era uma situação bastante incômoda ser estagiário daquele que não se mostrava nem um pouco contente com a situação criada desde que descobriu que Angélica voltou dirigindo de uma balada. 
        Eduardo passou quase meia hora relatando para a namorada todo o sentimento de vergonha em dividir o mesmo espaço com o sogro que estava muito hostil em relação a toda a situação  e Angélica sequer deu a devida atenção, estava mais preocupada em disparar o seu falatório frustrado diante da negativa do namorado em levá-la para o seu apartamento. Ela não conseguiu compreender que Eduardo não se sentiu confortável em realizar o seu desejo de esperar ao menos, uma semana.

 

PRAÇA DOS AMORES.

 

         Angélica e Eduardo saíram por volta das onze e meia da choperia onde estavam, Angélica estava um pouco alta, já Eduardo preferiu ficar apenas no refrigerante, não queria dirigir com nenhum resquício de álcool no organismo, além do mais, ele estava se recuperando de toda a bebedeira de sábado passado, seu organismo não era tão resistente quanto o da namorada.
          Eduardo passou pela portaria e estacionou em frente a casa da namorada, já eram meia noite e Ventura sem dúvida a questionaria pelo horário em que chegou, ele não ficaria tão preocupado com a opinião do sogro se não fosse acadêmico de neurologia, mas ainda que Ventura afirmasse que nada tinha a ver sua relação com a filha e seu estágio no HUE, Eduardo não deixava de se sentir incomodado, Ventura não tem tratando-o tão bem como antes desde o que deixou Angélica voltar dirigindo embriagada.
          Eduardo despediu-se da namorada com um beijo em seus lábios, não queria que demorasse mais para entrar ou seu pai poderia se irritar e ela comentou que ele havia mandando uma mensagem para o seu WhatsApp dizendo que precisou ir à Reviver resolver uma situação com um paciente. Ela que estava sob o efeito do álcool imediatamente beijou o namorado com toda aquela sedução que o deixava encantado. Era praticamente impossível não ceder a todos beijos e carícias que Angélica sabia fazer como ninguém e sem mais delongas ele a beijou enquanto passava a mão por todo o seu corpo, ela conseguiu o que queria. 
         Ao descer seus lábios por todo o pescoço da namorada Eduardo desabotoou sua calça para que Angélica pudesse dar continuidade ao que tinha começado enquanto beijava-a. Ela sem qualquer medo ou pudor de ser pêga em um momento íntimo com o namorado tirou a blusa, abriu sua calça e exigiu que Eduardo a tocasse. Ele fôra obediente a exigência da namorada até se lembrar de que não poderia mais uma vez correr o risco de ser pêgo por Ventura tendo relações sexuais com sua filha, já não bastava a cena que vira alguns dias antes no HUE e imediatamente parou o que estava fazendo. Ainda que estivesse repleto de desejo não queria dar motivos para que o sogro se irritasse, aquela situação que Angélica o colocou era totalmente desnecessária, ela estava simplesmente agindo por capricho.

ANGÉLICA: Por que você parou?
EDUARDO: Porque eu lembrei que você tem uma casa e uma família. -Afastou-se do contato corporal com Angélica-
ANGÉLICA: E você se lembrou disso bem no meio de uma preliminar? -Perguntou com uma pitada de irritação-
EDUARDO: Não quero problemas com seu pai Geli. Ele já está de cara virada para mim porque deixei você voltar dirigindo bêbada. -Justificou-se enquanto fechava o botão da calça-

Angélica recostou-se no banco indignada com Eduardo. Ele não poderia ter começado uma provocação sexual se não tinha o objetivo de finalizá-la.

ANGÉLICA: Meu pai é um preocupado e maluco! -Emburrou-se-
EDUARDO: Esse problema se resolveria se você fosse morar lá no apartamento.
ANGÉLICA: Lá vem você com essa conversa de novo. -Fechou sua calça-
EDUARDO: Quem ouve você falar contra o casamento pensa que já sofreu horrores nele e você nem teve uma experiência familiar ruim. Seus pais se amam muito.
ANGÉLICA: Eu não falo contra o casamento, eu falo contra o meu casamento. Eu não nasci para isso Edu.  Não me sinto pronta, pelo menos por enquanto. Não quero correr o risco de me unir a você e a gente se digladiar naquele apartamento até nos separarmos.
EDUARDO: A gente se ama, por que acha que iríamos brigar?

      Angélica que arrumava sua roupa em seu corpo fitou Eduardo irritadiça. Nem uma preliminar interrompida era capaz de deixá-la tão irritada quanto uma conversa sobre casamento.

ANGÉLICA: Porque a gente briga! -Respondeu com contundência-
EDUARDO: A gente briga como qualquer casal Geli, muito normal.
ANGÉLICA: Depois que eu terminar a faculdade eu prometo pensar em morar com você. Tudo bem?
EDUARDO: Tudo. Fazer o quê? -Disse um tanto desanimado-
ANGÉLICA: Vou subir meu bem! Você bem que podia me deixar na cama.
EDUARDO: Eu deixo. -Sorriu-
ANGÉLICA: Te amo! -Deu-lhe um beijo nos lábios do namorado-
EDUARDO: Eu também!

        Angélica saiu do carro e Eduardo seguiu para a saída do condomínio aproveitando para tirar aquela música clássica horrível que a namorada insistiu em ouvir enquanto iam para casa, precisava de silêncio para se recuperar de todo o falatório que ela havia travado desde que chegaram a choperia.
        Angélica abriu a porta da sala inferior e acendeu a luz, ela simplesmente detesta estar no escuro e ainda dorme com a luz de seu abajur ligada, abrir os olhos e não ver um palmo a frente do nariz era uma situação horripilante. Ao chegar no segundo andar cruzou a sala e seguiu para o seu quarto, a casa estava silenciosa, Cíntia e sua mãe já deviam estar dormindo. Ela abriu a porta de seu quarto, acendeu a luz e colocou seu material de faculdade sobre sua escrivaninha. Um vulto em suas costas fez com que se estremece por completo, estava alterada pelo álcool e possivelmente seria mais uma de suas alucinações que sempre a perturbavam quando se excedia na bebida alcoólica. Sentir vultos e ver o que ela chama de "assombrações" é um fenômeno trivial desde que abriu seu primeiro surto psicótico aos 14 anos. Na maioria das vezes é tomada por alucinações auditivas, mas às vezes, não deixa de ver pessoas que nunca havia visto antes. Ainda que amedrontada Angélica seguiu para o banheiro, retirou sua roupa e começou a banhar-se. Doces lembranças de todos os momentos que vivera com Eduardo vieram em sua mente dissipando todas aquelas sensações de vultos e de estar sendo observada, eles brigavam sim, às vezes tão agressivamente que se não fosse Ventura ou Clara interferirem poderia tornar-se uma agressão física, mas na maioria das vezes era um casal cheio de amor e que vendiam paixão por onde passavam. Era realmente uma pena que ela tivesse tanto medo de se envolver em um casamento, sem dúvida, ainda que brigando, seriam muito felizes juntos.
          Ventura cruzou a portaria do condomínio, já eram quase 1 da manhã, assim que Érika saiu do Congress chateada com a conversa que tiveram a respeito de Clarisse, Leonardo chamou-o pelo celular dizendo que teria que comparecer a Reviver para cuidar de uma paciente que abriu um surto e para não fazerem uso de medicação para contê-la preferiu chamá-lo para resolver a questão, afinal, a paciente era dele e cabia a Ventura os procedimentos a ela dirigidos. Ele estacionou em sua garagem, subiu as escadas que dava acesso ao andar superior, cruzou a sala e dirigiu a seu quarto ao passar pelo longo corredor. Um som vindo de uma televisão ligada chamou a sua atenção, vinha do quarto de Angélica que possivelmente adormeceu assistindo algum programa qualquer. Ele abriu a porta, entrou no quarto, desligou a TV e ficou a olhá-la, como sua menina havia crescido e como era difícil para ele dar-se conta de que a cada dia mais se tornaria menos dependente de sua presença, por mais que tentasse, ainda tinha imensa dificuldade em permitir que aquela que até então era sua garotinha vivesse sua própria vida. Em um suspiro de desalento ele apagou a luz e acendeu o abajur, era difícil de acreditar como Angélica aos 22 anos ainda pudesse ter medo de escuro.

_____

 

         Carlos acordou com o seu despertador às seis da manhã de uma quarta feira e percebeu que Érika não estava na cama, sem dúvida ela já havia levantado antes de todos e devia estar na cozinha esperando todos para tomar o café da manhã como todos os dias. Ele aprontou-se prontamente e desceu encontrando com Clara sentada à mesa. Curioso ele perguntou se tinha notícias da mãe já que não a viu no quarto e a filha respondeu que a mãe foi dormir com Clarisse, pois tinha acordada assustada com um pesadelo. Como era um pouco mais de seis e meia Carlos resolveu subir para acordá-las, Érika possivelmente estava sem o celular e não ouviu o despertador tocar.
          Com um beijo no rosto da esposa cheio de amor, Érika agradeceu por ele tê-la acordado, cansada como estava seu relógio biológico não iria conseguir acordá-la antes das dez da manhã. Ele preocupado perguntou o que motivou a esposa a ir dormir com Clarisse se raramente tinha aquele tipo de atitude, algo de muito grave estava acontecendo. Érika abriu seu coração para Carlos sobre o quanto estava preocupada com as visões da filha em relação ao que poderia acontecer a Clara e que decidiu levá-la ao psicólogo e ao psiquiatra, Clarisse estava sofrendo muito e não podia continuar naquele estado. Carlos apoiou a esposa e só pediu que fosse cautelosa ao fazer uso de alguma medicação psiquiátrica em relação a filha, ele não era tão rígido como Ventura em relação a medicações, mas compreendia que as vezes erravam na dosagem prejudicando a esfera social de Clarisse, se a medicação fosse necessária para deixá-la bem que fosse ao menos, usada com prudência. 
            Carlos retirou-se do quarto enquanto Érika acordou Clarisse para que se arrumasse para a escola, ela também já estava atrasada para a Climédia e teria que se apressar. 

 

CLIMÉDIA - CLÍNICA MÉDICA INTEGRADA E ASSOCIADA.

 

        Érika e Clara deixaram Clarisse na escola e por um milagre conseguiram sair dentro do horário para que não se atrasasse, geralmente ela vai de van, mas naquele dia pediu a mãe que a levasse só para ir junto com Clara, estava preocupada com o que poderia acontecer e ficar próxima a irmã lhe dava mais confiança. Érika atendeu ao pedido da filha e assim que a deixou no CVM seguiu para a Climédia. Ela e Ventura não se falaram por toda a manhã, o máximo que trocaram foram algumas palavras em relação a um relatório que ele precisava assinar e assim que o fez ela voltou para sua sala e por lá permaneceu até as dez da manhã quando movida pela fome dirigiu-se até a cozinha para tomar um café e comer alguns biscoitos.
            Ventura além de estar com sua agenda cheia em plena quarta feira ainda teve que lidar com a reclamação de Angélica por não ter conseguido resolver por telefone o seu problema com um cartão de débito que foi bloqueado na noite anterior com suas senhas digitadas erradas ao fazer o pagamento na choperia que tinha ido com o namorado, ela ficou tão irritada que imediatamente arrumou uma confusão com a recepcionista alegando ser um problema da máquina. A situação só foi amenizada quando Eduardo decidiu colocar a conta toda em seu cartão e depois ela lhe daria a parte que lhe era pertinente.
          Com meia hora de folga entre um paciente e outro Ventura entrou na cozinha e deparou-se com Érika tomando o seu café sem sequer olhá-lo. A conversa da noite anterior a deixou realmente muito irritada, enquanto estava na Reviver deixou várias mensagens em seu WhatsApp e algumas ligações no celular, mas a amiga não retornou nenhuma delas.

VENTURA: Ainda irritada comigo? -Aproximou-se da garrafa de café-
ÉRIKA: Não quero falar sobre isso. -Deu as costas para o companheiro voltando-se para a mesa com um pote de biscoito-
VENTURA: Tudo bem, mas sua filha continua sofrendo. -Disse enquanto colocava café na xícara-

      Érika virou-se e olhou para Ventura com sua soberba de sempre.

ÉRIKA: Eu já sei tudo o que vai dizer Ventura e você sabe muito bem que não acredito em nada disso.
VENTURA: Nunca te obriguei a acreditar, mas você não pode negar que acontece. -Pegou um biscoito no pote sobre a mesa-
ÉRIKA: Não vou entrar de novo nesse assunto com você. 

        Ventura deu uma risada frente ao comentário da amiga.

- Qual o motivo da risada? -Perguntou um tanto irritada-
VENTURA: Acho engraçado a forma como você evita alguns assuntos só para não assumir que está equivocada. Érika, ideologias e crenças mudam. Você não estará errada se voltar atrás.
ÉRIKA: Quem te disse que eu quero mudar alguma coisa? O problema é que você continua com a mesma arrogância e prepotência de sempre.

        Ventura riu mais uma vez.

VENTURA: Eu arrogante e prepotente? Adoro projeções ao meu respeito. 

        Ao fazer uso do termo projeção Ventura referiu-se a um conceito utilizado na psicologia onde os atributos pessoais de determinado indivíduo seja pensamentos inaceitáveis ou indesejados, seja emoções de qualquer espécie são atribuídos a outras pessoas. A Projeção Psicológica ocorre quando os sentimentos ameaçados ou inaceitáveis de determinada pessoa são projetados em alguém. Ao chamar Ventura de arrogante e prepotente, Érika estava colocando nele suas próprias características que nunca conseguiu aceitar.

ÉRIKA: Eu fui te procurar ontem angustiada e tudo o que fez foi ficar questionando as minhas ideologias.
VENTURA: Você queria que eu te ajudasse como? Eu sou espírita Érika! Só sei lidar com as questões da Clarisse por meio do espiritismo, mas você não permite nem que se toque no assunto porque é medrosa. -Provocou-
ÉRIKA: Eu não sou medrosa! -Defendeu-se irritada-
VENTURA: Se não fosse e se não acreditasse em nada sobrenatural não ficaria tão nervosa e angustiada. Ficou por que? -Provocou mais uma vez com seu olhar fixo na colega-

          Érika baixou seu olhar por não conseguir justificativa plausível diante da colocação de Ventura.

ÉRIKA: Não vem ao caso. -Voltou-se mais uma vez para a mesa de biscoitos-
VENTURA: É sempre assim. Você fugindo de todo confronto ideológico que nada ajuda. Eu pedi que você levasse a Clarisse na Mérces que é especialista em fenômenos paranormais, mas você achou que eu estava sendo louco em indicá-la como se aquele psiquiatra que deu Diazepam para a sua filha aos cinco anos de idade fosse um profissional muito normal. -Indignou-se-

         Érika voltou novamente seu olhar para Ventura.

ÉRIKA: Vai jogar isso na minha cara até quando?
VENTURA: Até você tirar essa ideia da cabeça! -Disse com firmeza-
ÉRIKA: Você não utilizaria todas as formas de tratamento para ajudar a Angélica? Não foi isso que você fez quando ela surtou?
VENTURA: Foi, mas você não tentou todas as opções, sequer aceitou levá-la na Mérces. Eu teria tentado se a conhecesse antes mesmo sabendo que Angélica não tinha qualquer questão paranormal, mas eu tentaria. Eu não estudei quatro anos da minha vida e nem desafiei a psiquiatria com uma tese totalmente contra o pensamento hegemônico para ouvir você dizer que vai sedar a minha afilhada. Mesmo que ela seja sua filha eu não vou permitir que faça isso Érika.
ÉRIKA: Então me dá uma solução melhor porque até agora você só falou e não fez nada. Minha filha continua na mesma! -Disse aos gritos-

        Angélica e Clara que vinham de seus respectivos atendimentos entraram na cozinha para tomar um café depararam-se com um clima um tanto pesado entre Ventura e Érika.

CLARA: Tudo bem por aqui? -Perguntou enquanto olhava seus pais-

        Érika olhou Angélica e Clara e passou no meio das duas sem dar qualquer resposta a pergunta feita pela filha.

ANGÉLICA: Ihhh! Acho que não. -Comentou ao ver Érika sair da cozinha-
VENTURA: O que você quer Angélica? -Perguntou rude-
ANGÉLICA: Preciso ir ao banco. A senha do meu cartão não funcionou ontem e eu tenho que  resolver isso o quanto antes.
VENTURA: E você está me pedindo permissão para ir?
ANGÉLICA: Na verdade quero o seu carro emprestado.

        Ventura levou a mão no bolso de sua calça, retirou as chaves do carro e entregou a Angélica.

VENTURA: Te espero no Vero. -Disse rude-

       Ventura passou entre as filhas e saiu da cozinha.

ANGÉLICA: O que será que rolou? -Usou de um tom curioso-
CLARA: Não sei. Minha mãe está estranha desde ontem a noite.
ANGÉLICA: Estranha como?
CLARA: Sei lá. Percebi ela preocupada como se algo estivesse para acontecer.
ANGÉLICA: Cruz credo! -Benzeu-se- Vou lá irmãzinha ou ficarei o dia todo aguardando atendimento.

         Angélica saiu da cozinha apressada para resolver sua situação no banco, esperava que não passasse o horário de almoço esperando ser atendida pelo gerente, se atrasasse para o HUE seu pai seria o primeiro a reclamar. 
           Clara ficou a pensar por alguns minutos sobre a situação que acabara de presenciar e foi até a sala de sua mãe na tentativa de descobrir o que aconteceu entre ela e seu pai. Érika como sempre pediu a filha que se retirasse sem dar qualquer informação sobre a conversa que teve com Ventura na noite anterior, Clara não devia saber de nada no momento, ela estava animada com o casamento e não precisava passar por uma preocupação desnecessária. 

_______

 

          Às onze da manhã Érika foi surpreendida com uma chamada de Camille em seu celular, mais uma vez estava solicitando que fosse buscar Clarisse na escola. A filha tinha tido outra crise de choro e se recusou a entrar na van que a traria para casa e sem avisar ninguém Érika se dirigiu ao CVM onde encontrou a filha aos prantos. 
          Um telefonema Érika deu a Marlene avisando que não poderia comparecer no Vitte por Clarisse estar apresentando mal estar e não teria qualquer condição de deixá-la por conta de Carla até que retornasse do trabalho. Carlos também não estava disponível para sair da empresa e ficar com a filha, no mais, Érika não teria qualquer condição de trabalhar preocupada com toda a situação de Clarisse, já era o terceiro dia consecutivo que ela fez uma crise por conta das visões que teve. Uma dúvida pairou sobre a sua cabeça se deveria ou não fazer contato novamente com o psiquiatra que a atendeu quando tinha cinco anos, a filha não podia continuar em sofrimento, mas procurá-lo além de causar um grande problema entre ela e Ventura, Clara também não deixará de recriminá-la por tal atitude, ela também não é adepta de nenhuma medicação em crianças sem que seja extremamente necessária, muito a contragosto ela recomenda anti-térmico para febre. 
          Clarisse não disse qualquer palavra enquanto ia para a casa com a mãe, de nada adiantaria suas explicações, ninguém conseguiria entendê-la mesmo que não dissessem claramente, sabia perfeitamente que sua família a via como uma criança esquisita e que muitas vezes provocava medo naqueles que lhe eram próximos, só Ventura e Clara eram capazes de dar-lhe todo o suporte necessário para que ficasse menos angustiada, mas os dois estavam trabalhando.

CASA DA FAMÍLIA GUIMARÃES DIÁZ

         Assim que chegou em casa Érika solicitou que Carla fizesse o prato preferido de Clarisse, arroz com pastéis de queijo já que a filha não conseguiu comer nada no período em que estava na escola e subiu para o quarto. Clarisse deitou-se em sua cama e ficou por toda a tarde, Carla deixou sobre a sua mesa de estudos o prato repleto de pastéis de queijo e insistiu que comesse, mas ela negou dizendo estar sem fome, nem o suco de laranja feito com todo amor por foi recusado. Com toda a sua apreensão, Clarisse não tinha vontade de comer qualquer coisa.
          Um toque na porta do quarto de Érika dissipou todas as suas preocupações a respeito da filha. A briga que teve com Ventura ajudou a deixá-la ainda mais apreensiva, sem seu contato não tinha qualquer ideia de como lidar com filha. Carla abriu a porta dizendo que Clarisse não havia comido nada que preparou para o almoço e muito menos tomou o suco feito com tanto carinho, Ela estava completamente apática deitada na cama. Érika preocupada levantou-se e dirigiu-se ao quarto da filha, precisava saber o que estava acontecendo.

ÉRIKA: Não comeu nada minha filha? -Perguntou ao ver o prato ainda cheio sobre a mesa-
CLARISSE: Tem um osso de galinha que não me deixa comer.

         Érika aproximou-se da filha e sentou-se ao seu lado na cama.

ÉRIKA: Não tem nada aí Clarisse. -Afirmou-
CLARISSE: Eu sinto.

            Érika levantou-se, foi até a mesa e pegou o prato do almoço.

ÉRIKA: Tenta comer um pouco. -Sentou-se na cama- Toma. -Levou uma colher até a boca da filha-
CLARISSE: Não quero! -Recusou virando o rosto-

         Érika suspirou pesarosa e colocou o prato sobre o criado ao lado da cama da filha.

ÉRIKA: Você não pode ficar assim minha filha. Te faz mal. -Disse em um lamento-
CLARISSE: Você não me entende. -Suspirou triste-

          Érika olhou para Clarisse com imensa tristeza. Queria poder ajudar a filha, mas não tinha a menor ideia de como proceder.

ÉRIKA: Eu queria muito te entender filha, muito.

          Clarisse olhou para a mãe a abraçou.

CLARISSE: Cuida da Clara. -Chorou-

        Érika percebeu Clarisse em estado febril assim a filha a abraçou. 

ÉRIKA: Você está com febre. -Comentou ao colocar a mão sobre a testa da filha- Vou pegar o termômetro. 

        Érika levantou-se e foi até o banheiro do seu quarto onde tinha um armário com várias medicações e um termômetro. 

- Coloca. -Entregou a Clarisse assim que voltou para o quarto-

         Clarisse pegou o termômetro das mãos da mãe e colocou em baixo de um dos braços.

CLARISSE: Liga para a Clara, mãe. Liga! -Pediu em choro-
ÉRIKA: Eu ligo, mas primeiro vamos cuidar dessa febre.
CLARISSE: Não quero que nada aconteça à Clara.

          Alguns minutos de silêncio e preocupação se passaram até ouvir o apito do termômetro que Clarisse colocara.

ÉRIKA: Me dá. -Solicitou o termômetro ao ouvir o apito- 

         Clarisse tirou o termômetro do braço e entregou a mãe. Érika conferiu a temperatura da filha e preocupou-se.

- 38 e meio. Não acredito que você ficou doente Clarisse. A mamãe tem tanta coisa para fazer essa semana. Tem que resolver o casamento da sua irmã.
CLARISSE: A Clara não vai casar! Não vai! -Chorou desesperada-
ÉRIKA: Eu vou ligar para o Ventura. Quem sabe ele consiga dar uma olhada em você. Vou te dar um analgésico enquanto tento falar com o seu padrinho.

       Érika levantou-se e foi até seu quarto pegar o celular para ligar para Ventura. Fazer contato com ele era o que ela menos queria naquele momento. Sentiu que não foi bem tratada quando o procurou para falar a respeito de sua angústia em relação ao problema de Clarisse e Ventura nada mais fez do que questionar suas convicções. Clara ela também não poderia procurar, saber que a irmã estava apresentando febre emocional acabaria chamando a atenção para a situação que não deveria saber, já estava desconfiada com o sonho de Clarisse na noite anterior e não podia dar a filha uma preocupação desnecessária próximo ao seu tão sonhado casamento. 
           Com o celular nas mãos Érika abriu o WhatsApp  e procurou por Ventura em seus contatos, deveria ela ser tão egoísta e deixar Clarisse arder em febre simplesmente por ter tido uma desavença como ele? Não seria justo fazer com que a filha pagasse por seu orgulho e então ela redigiu uma mensagem um tanto quanto hostil. 

Mensagem de whatsapp:

Érika Guimarães: Ventura, a Clarisse está com febre, acho que pode ter pegado uma dessas viroses. Você pode dar uma olhada nela?

Ventura Alves: Claro Érika! Traga ela aqui no HUE que eu vejo o que está acontecendo. Avise a recepção da emergência que eu estou te esperando.

Érika Guimarães: Obrigada!

Ventura Alves: Por nada!

        Em outro momento tanto Érika quanto Ventura se refeririam um ao outro com um pouco mais de afetitivade, mas como a amiga demonstrou-se totalmente ríspida, Ventura achou que não deveria dar a ela qualquer abertura afetiva. Ele sentiu-se injustiçado pela forma com que fôra tratado por ela, só estava pensando no bem estar de Clarisse.

________

         Bianca e Anabela saíram da escola e foram para o shopping junto com Lucas e Elias, ela precisava comprar alguns apetrechos para usar com seu vestido no casamento de Clara e Anabela precisava escolher uma sandália. Lucas e Elias foram apenas para acompanhar as amigas, eles detestavam passeios no shopping atrás de roupas e sapatos como as duas e ficaram conversando na praça de alimentação até que as amigas regressassem. 
         Lucas comentou com Elias que o irmão estava muito animado com os preparativos do casamento e que aquele era o único assunto que se falava em sua casa, já estava deveras enfadonho ouví-lo todos os dias na mesa, ele nem conseguia falar sobre o seu dia de tanto que o tema estava em evidência. Elias deu uma risada e chamou o amigo de ciumento, Lucas sempre dominou todos os assuntos da casa e estava sentindo falta do seu reinado por conta do casamento do irmão, ele lógico, negou tudo dizendo ser apenas um assunto repetitivo. 
        Elias aproveitou para perguntar como estava seu relacionamento com Anabela, ambos tinham interesse afetivo um no outro, mas nunca conseguiram desenrolar nada além de algumas saídas sem compromisso. Lucas relatou ao amigo que tinha muito medo de se relacionar com Anabela e terminar como Victor e Júlia caso o relacionamento não desse certo, os dois eram melhores amigos e depois que se envolveram intimamente nunca mais se falaram, Anabela era para ele uma garota muito especial e não queria perder sua amizade. Elias explicou que a relação que se deu entre Júlia e Victor era totalmente diferente da que envolvia Anabela e Lucas, Victor só relacionou-se com a melhor amiga por sentir-se carente e por não conseguir lidar com a falta de Clara acabou misturando o sentimento de amizade por Júlia com amor, já Lucas gostava de Anabela e não estava se escondendo atrás daquele sentimento de amor. Em uma longa conversa eles ficaram até que Anabela e Bianca retornassem de suas compras.

CASA DA FAMÍLIA MALTONNY VIDGAL

          Bianca despediu-se dos amigos assim que entrou no condomínio e foi para a sua casa, precisava fazer a prova dos apetrechos junto com a vestimenta que usará no casamento de Clara e Victor. 
         Júlia estava recostada na cama conferindo sua rede social enquanto via a irmã espalhar todas as sandálias recém compradas pelo chão do quarto, ela estava muito entusiasmada com o tal casamento e não parava de tagarelar analisando as sandálias em frente ao espelho. Já ela não podia sentir o mesmo, muito lhe doía saber que Victor irá se casar em breve com uma mulher que não conseguirá dar a ele todo o afeto que necessita. Clara era ocupada demais com a medicina e era certo que deixaria Victor de lado para cumprir seus compromissos profissionais.

BIANCA: Menina, esse casamento da Clara está sendo o comentário geral no condomínio. Parece que vai ser uma super festa. -Comentou entusiasmada- O que você acha dessa sandália? -Mostrou a irmã enquanto se olhava no espelho-
JÚLIA: Sei lá. -Deu de ombros-
BIANCA: Ah Júlia! Você entende tudo de moda, me dá uma ajuda. -Implorou-
JÚLIA: Sei lá Bianca. Usa a prata que combina com preto.
BIANCA: Você não vai comprar o seu vestido? 
JÚLIA: Eu não vou no casamento. -Disse desanimada-

          Bianca que tirava suas sandálias dos pés virou-se para irmã um tanto assustada com seus dizeres. Como era possível que ela não fosse em uma das festas mais comentadas do condomínio?

BIANCA: Como assim não vai?
JÚLIA: Não vou. Não faz qualquer sentido eu ir ao casamento do meu ex. Não tenho sangue de barata para ver ele casar com outra. O Victor não vai ser feliz Bianca, eu tenho certeza. -Disse com segurança-
BIANCA: Como você pode afirmar isso? -Fitou a irmã com um olhar curioso-
JÚLIA: Porque eu conheço a Clara e conheço muito mais o Victor. Ele é carente e a Clara que vive para a medicina não vai dar conta das carências dele como não deu quando entrou para a faculdade.
BIANCA: Isso é um problema deles não acha?
JÚLIA: É. -Soltou um suspiro entristecido-

         Bianca colocou as sandálias que experimentava ao lado da cama e sentou-se ao lado da irmã.

BIANCA: Não gosto de te ver assim Jú, sofrendo por um cara que não está nem aí para você.
JÚLIA: Não entendo como o Victor pôde se afastar de mim. Tudo bem que não namoramos mais, mas ele precisava me deletar das redes sociais? Éramos amigos.
BIANCA: Você também ficava provocando os dois postando comentários maliciosos e mandando mensagens para o Victor. Qualquer um ficaria irritado.
JÚLIA: O Victor brincou com os meus sentimentos Bi. Eu não queria aquele namoro, mas ele insistiu e me iludiu dizendo que me amava.
BIANCA: Jú me desculpa, mas todo mundo te avisou que ele sempre gostou da Clara. Você entrou nessa furada porque quis. Ele tinha acabado de terminar com ela e dois meses depois vocês começaram a namorar.
JÚLIA: Por insistência dele.
BIANCA: Quando um não quer dois não brigam. Você podia ter recusado.
JÚLIA: Eu achei que fosse dar certo. Achei que ele me amava de verdade, não como amava a Clara, mas o suficiente para sermos felizes. Agora nem meu amigo ele é. O que houve com a nossa amizade?
BIANCA: Foi estragada por um namoro que não deu certo como sempre acontece quando se namora melhor amigo.
JÚLIA: É e só eu que sofro. -Lamentou-
BIANCA: Estou indo para a praça, quer ir?  
JÚLIA: Não. Vou ficar aqui chorando a minha vida infeliz.
BIANCA: Te amo. -Sorriu-
JÚLIA: Eu também! -Retribuiu com um sorriso-            

         Bianca saiu e fechou a porta do quarto chateada com toda a situação da irmã, era certo que mesmo que tentasse fingir que estava tudo bem sofria com o casamento do melhor amigo e como se não bastasse, ainda tinha o problema com o pai para resolver. Eles não se falaram desde o último domingo e o clima entre os dois estava começando a ficar extremamente pesado. 
          Júlia que via algumas fotos no Instagram abriu o perfil pessoal de Victor, ele  a bloqueou em todas as redes sociais e no Whatsapp, menos no Instagram, sua conta era privada e Júlia não encontraria nada alí além de sua foto de perfil, afinal, ele nem usava tanto aquela rede social. Extremamente entristecida ela ficou a olhar para a foto de perfil do ex-namorado e um sentimento de ira a tomou em poucos segundos. Como pôde ter sido tão tola em ter caído na conversa do melhor amigo de que estava apaixonado por ela e esquecido Clara por completo? Se tivesse ouvido Angélica e Mariane não teria se envolvido com o amigo, as duas sempre disseram que Victor nunca deixou de gostar de Clara e que só a faria sofrer se aceitasse se envolver com ele, mas não deu a devida atenção, já estava apaixonada.
            Ela que tinha seu celular nas mãos desligou a tela e abriu a gaveta de seu criado ao lado cama. Estava a fim de ouvir uma música e enquanto procurava o seu fone de ouvido em meio aquela bagunça de fios carregadores e papéis de diversos tipos deparou-se com o convite de casamento de Clara e Victor. Nada a doeu mais do que o ex-namorado ter entregado a ela pessoalmente aquele convite, Júlia sentiu além de afrontada, desrespeitada em seus sentimentos, ele não podia ter tido a cara de pau de convidá-la para assistir aquela união que nunca apoiou e que tinha certeza que não duraria mais do que 1 ano. 
         Júlia abriu o envelope branco e retirou o convite escrito em letras Lucidas douradas. Sem dúvida aquela forma de escrita foi escolhida pelo ex-namorado, ele adorava aquele estilo de letra principalmente em cor dourada. Em uma conversa enquanto namoravam Victor disse que se algum dia se cassassem queria que o convite fosse exatamente daquela forma, além dele ter tratado o relacionamento que tiveram apenas como um namoro passageiro ainda escolheu o convite que ela queria que fosse caso se casasse com ele. Victor em nenhum momento pensou em seus sentimentos ao ter enviado-o exatamente daquela forma.  Sem conseguir controlar as lágrimas que escorriam por seu rosto, Júlia jogou o convite dentro da gaveta, desligou o seu celular e ficou a chorar, ao menos as lágrimas ela tinha direito já que havia perdido quem mais amava.

_____

        Ventura, Clara e Angélica foram almoçar no Vero por volta de meio dia. Angélica acabou irritando o pai com todas as perguntas feitas à ele em relação a briga que teve com Érika. Ela não se sentiu satisfeita apenas com a resposta de que tiveram um mal entendido que não lhe dizia respeito, controladora como era, não saber dos detalhes que gerou a tal confusão a deixou extremamente angustiada. A discussão na mesa do almoço só foi interrompida quando Clara pediu que a irmã respeitasse o desejo de Ventura em não querer falar sobre o que tinha ocorrido, ela já havia procurado a mãe que também não deu qualquer detalhe a respeito da confusão e em um profundo silêncio os três seguiram para o HUE.
          Angélica com todo o trabalho que teve na emergência acabou por esquecer toda a sua curiosidade em relação a briga de seu pai com Érika, ela ficava extremamente incomodada quando os via de cara virada um para o outro, era como se remontasse todas as suas memórias de quando os pegou juntos aos beijos na Climédia, o que poderia ter ocorrido de tão sério para ficarem sem se falarem se eram melhores amigos? Ela não conseguia respeitar o direito do pai de não querer falar sobre como a irmã.
         Enquanto Angélica distraiu a cabeça com os milhares de atendimentos emergenciais que teve, Clara por sua vez não conseguia tirar do pensamento toda a preocupação que Ventura trazia em seu semblante desde que o viu na cozinha com sua mãe. Érika também havia saído da clínica sem avisar ninguém e aquela atitude foi o suficiente para preocupá-la principalmente depois de ter feito enviado várias mensagens sem sucesso, a mãe apesar de ter visualizado todas as mensagens deixadas no WhatsApp não respondeu nenhuma delas.  Para Ventura, Clara nem se atreveu a perguntar qualquer coisa, Angélica já tinha extrapolado toda a sua paciência com seu interrogatório sobre a cena que viu e não queria ser mais uma a provocar uma situação incômoda.                                                                                                                                                                                                                                                     

HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ELDORADO (HUE)

 

         Érika estacionou o carro no estacionamento destinado aos pacientes e acompanhantes que estavam em atendimento no HUE, Clarisse não tinha melhorado da febre de 39,5 que apresentava mesmo tendo feito uso de vários antitérmicos que tinha o costume de usar, geralmente em casos como o que apresentava apenas uma medicação injetável era capaz de fazer cair a temperatura e ela tinha medo de que a filha fizesse um quadro convulsivo como já fizera algumas vezes. Clarisse estava sentindo-se tão mal que estava usando blusa de moletom em pleno calor de 34 graus no Rio de Janeiro. Além do frio que lhe provocava até tremores ela reclamava de dor de cabeça e de tonturas por ter ficado uma tarde inteira se comer, eram cinco da tarde e só conseguiu tomar um copo com água.
          Érika abriu a porta traseira do carro e ajudou a filha a sair, Clarisse mal conseguia caminhar com todo o mal estar que sentia e apoiada a mãe entraram na recepção da emergência, esperava que ao menos pudesse ver a irmã e certificar-se de que estava bem. 

ÉRIKA: Boa tarde! -Disse ao se aproximar- Eu estou procurando pelo doutor Ventura Alves.
PÂMELA: Você tem hora marcada?
ÉRIKA: Na verdade não. Eu entrei em contato com ele pelo celular e pediu que viesse.
PÂMELA: Pode ir até a neurologia. Tem placas na paredes que podem guiar a senhora. -Disse ríspida-
ÉRIKA: Obrigada.

        Érika deu as mãos para Clarisse e seguiram para o corredor que as levou até o elevador.

CLARISSE: Que mulher escrota. Comentou enquanto caminhava-
ÉRIKA: Psiu. -Repreendeu a filha-  Vamos subir. -Chamou o elevador-

         O andar da neurologia demonstrava tranqüilidade para um dia de semana sem muitas demandas emergenciais, Ventura quase não foi solicitado a descer até o pronto socorro para avaliar algum caso específico.
          Eduardo que vinha da enfermaria trazendo um prontuário nas mãos deparou-se com Érika e Clarisse saindo do elevador em frente a recepção. 

EDUARDO: Oi Érika! - Cumprimentou-a- O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa? -Preocupou-se-
ÉRIKA: Nada de sério! -Despistou- A Clarisse que está com um pouco de febre. Estou procurando o Ventura, você sabe onde ele está?
EDUARDO: Na sala dele. Sabe onde é?
ÉRIKA: Sei. Obrigada Edu!

         Érika e Clarisse seguiram para  a sala de Ventura no final do corredor enquanto Eduardo foi até a recepção arquivar alguns prontuários.

VENTURA: Entra. - Disse ao ouvir uma batida na porta-

         Érika abriu a porta e adentrou a sala.

ÉRIKA: Trouxe a Clarisse conforme me pediu. -Disse rude-

          Ventura levantou-se e aproximou-se de Érika e Clarisse. 

VENTURA: Não precisa ser hostil Érika. Vem com o dindinho Cla. -Pegou sua afilhada no colo e a sentou sobre a maca- Deixa eu te examinar. -Colocou o estetoscópio no ouvido e começou a examinar o tórax de Clarisse-
CLARISSE: Tenho um osso de galinha na garganta desde domingo. Ele me sufoca. A minha irmã vai morrer dindinho! -Disse em desespero- Eu vi! -Chorou-
VENTURA: Calma. -Disse ameno- Deixa eu colocar o termômetro.

        Ventura retirou de um dos bolsos do jaleco um termômetro e deu para que Clarisse colocasse em um dos braços.

CLARISSE: Chama a minha irmã dindinho. -Implorou enquanto colocava o termômetro- Deixa eu falar com ela.

        Ventura olhou para Érika para que lhe desse permissão para fazer contato com Clara e ela balançou a cabeça fazendo um sinal negativo, a filha não podia ficar sabendo de nada que estava para acontecer.

VENTURA: Não sei se ela poderá subir. -Justificou-se ao ver a negativa de Érika-
CLARISSE: Chama ela! -Gritou-

        Ventura mais uma vez olhou para Érika que não esboçou qualquer reação frente ao grito desesperado da filha. Talvez fosse melhor que ela falasse com Clara para se sentir aliviada.

VENTURA: Eu vou pedir a ela para vir, mas você tem que me prometer que não vai falar sobre sua visão. Me Promete?
CLARISSE: Prometo.

         Ventura foi até a sua mesa, pegou o telefone e discou para a emergência.

PÂMELA: Emergência? -Atendeu-
VENTURA: Pâmela É o Ventura. Pede para a Clara vir a minha sala por favor? Preciso falar com ela. Obrigado. -Desligou-

         Ventura aproximou-se de Clarisse que chorava compulsivamente sentada na maca.

CLARISSE: Por que essas coisas acontecem comigo dindinho? O que eu fiz para merecer isso?
VENTURA: Ter um dom não é um castigo Clarisse. 
CLARISSE: Uma coisa boa tão pouco.
VENTURA: Você sabia que um presente como esse não vem para qualquer um? Você pode ajudar muitas pessoas e fazer muitas coisas boas com esse presente que ganhou do universo, mas primeiro você tem que saber usar. É como aprender a dirigir um carro. Você não ganha e sai andando porque se assim fizer pode acabar sofrendo um acidente e machucando muitas pessoas. Dons como seu a gente aprende a usar.
CLARISSE: E como eu aprendo a usá-lo? Meu anjo disse que ia me ensinar, mas até hoje não me disse nada.
ÉRIKA: Vai começar de novo com essas fantasias Clarisse? -Interveio irritada-
CLARISSE: Não são fantasias. São verdades. Eu vejo o Amadeus e converso com ele.
ÉRIKA: Ama quem? -Perguntou incrédula-
CLARISSE: O meu anjo da guarda. Ele me visita todas as noites antes de dormir ou sempre o encontro nos meus sonhos. Ele me diz coisas sobre o universo e sobre o que vai acontecer com as pessoas.

        Érika assustou-se. Ela sabia que Clarisse criava histórias fantasiosas, mas não ao ponto de dizer que tinha um anjo da guarda que conversava com ela sempre que ia dormir. Aquilo não passava de uma maluquice que precisava ser tratada imediatamente.

ÉRIKA: Você está maluca! Completamente maluca! Não precisa de neurologista, precisa de um psiquiatra. -Interveio irritada-
VENTURA: Érika... -Interveio com seu tom sereno-

          Érika voltou seu olhar para Ventura irritada com tudo que a filha lhe dissera. Ele não poderia tratar toda aquela situação com normalidade.

ÉRIKA: Como você me diz que tudo isso é um processo natural? -Gritou irritada- Como você pode acreditar que algo desse tipo seja natural?
VENTURA: Érika! -Gritou-

        Érika que estava aos gritos por conta da situação da filha retornou a si assim que ouviu o grito de Ventura. Ela não poderia fazer um escândalo na frente de Clarisse e piorar a situação.

ÉRIKA: Vamos embora Clarisse! -Puxou a filha pelo braço para que descesse da maca-

        Clara abriu a porta.

CLARA: Clarisse! -Admirou-se- O que faz aqui?

        Érika que trazia um semblante irritado respirou fundo para recuperar a tranqüilidade assim que viu a filha entrar na sala. Ela não podia deixar que seu desespero transparecesse.

VENTURA: Sua irmã teve febre e a Érika pediu para que eu desse uma olhada.  -Interveio- Como a pediatra da família é você pedi que a chamasse. -Retirou o termômetro do braço de Clarisse- Avalie a sua irmã, eu não sou capacitado. -Entregou o termômetro à Clara e saiu da sala-
CLARA: Pai? -Chamou-o-

       Ventura fechou a porta sem atender o chamado da filha.

- O que aconteceu entre vocês? -Perguntou enquanto olhava o termômetro-
ÉRIKA: Não vou conversar sobre isso com você agora. -Respondeu ríspida-
CLARA: E o que a Cla tem? -Examinou a garganta da irmã passando a mão em seu pescoço-
ÉRIKA: Fui buscar a Clarisse na escola porque estava com febre e como não passou fiquei preocupada. Você sabe que quando ela tem febre alta sempre tem que correr para o hospital.

         Enquanto ouvia a mãe relatar todos os sintomas que a filha estava apresentando Clara ficou a examinar a irmã conforme mandava o protocolo de atendimento infantil.

CLARA: Não tem qualquer sinal clínico de infecção para essa febre alta. -Comentou ao terminar de analisar os ouvidos de Clarisse-
ÉRIKA: Não será uma dessas viroses?
CLARA: Dificilmente uma virose causará 39,5 de temperatura. Febre com esse grau é sempre sinal de infecção. Vou solicitar um exame de sangue para verificar. 
CLARISSE: Não precisa me furar à toa Clara. Eu não tenho nada sério. Tenho certeza. É que eu arrumei confusão na escola e a tia chamou a minha atenção. Eu fiquei muito chateada e por isso estou com febre. Não queria que minha mãe ficasse chateada. -Despistou-
CLARA: E que confusão você arrumou?
CLARISSE: Briguei mais uma vez com o Tiago.

          Clarisse olhou para Érika para que lhe desse apoio na mentira que contava.

ÉRIKA: Pois é. -Intrometeu-se- Acredite que eu tive que resolver a briga deles hoje. O maior vexame.
CLARA: Você sente mais alguma coisa?
CLARISSE: Não. Mais nada.
ÉRIKA: Ela se queixou de tontura e dor de cabeça. Está sem comer desde de manhã.
CLARA: Não pode não é princesa? Se ficar sem comer vai demorar mais a melhorar.
CLARISSE: Não consigo comer nada Clara.
CLARA: Mãe eu vou passar um antitérmico daqueles que você já está acostumada com um horário menos espaçado e se não melhorar você traz ela de volta para que a gente faça uma avaliação mais detalhada.
ÉRIKA: Claro.

           Clara retirou do bolso inferior de seu jaleco um receituário e começou a escrever as medicações que a mãe deveria utilizar.

CLARISSE: Clara eu quero que você saiba que eu amo você e vou te amar para sempre.

           Clara que escrevia no receituário olhou a irmã com um sorriso terno.

CLARA: Eu sei meu amor! Eu também te amo.
CLARISSE: Promete que vai se cuidar?
CLARA: Claro que vou. 
CLARISSE: Eu te amo.

         Clara aproximou de Clarisse, deu-lhe um beijo no rosto e entregou a receita que acabara de fazer a mãe.

ÉRIKA: Obrigada filha. -Dobrou a receita- Qualquer coisa eu te ligo.
CLARA: Por favor mãe. Você tem a mania de resolver tudo sozinha.
ÉRIKA: Eu não vou desperdiçar uma pediatra na família. -Brincou- Te amo meu amor. -Beijou Clara no rosto-
CLARA: Eu também!
ÉRIKA: Vamos Clarisse. -Chamou-

          Clarisse desceu da maca com a ajuda de Clara. Ela era alta demais para que pudesse descer sozinha.

CLARA: Tchau princesa. -Despediu-se- Repouso e muito líquido. Mais tarde eu ligo para saber de você.
CLARISSE: Eu vou esperar.

        Érika saiu da sala junto com Clarisse. Ventura que estava sentado em um dos bancos da recepção as viu passar por ele.

VENTURA: Tchau Cla! -Despediu-se chateado-
CLARISSE: Tchau dindinho! Eu não contei nada à Clara.
VENTURA: Você é uma garotinha que sabe guardar segredos. -Sorriu-

          Ventura olhou para Érika que sequer retribuiu com qualquer afeição. Ela simplesmente puxou Clarisse pelo braço e seguiu para as escadas. Não queria esperar o elevador apenas para não ficar mais tempo na presença dele e ele chateado levantou-se e se dirigiu para a janela ao final do corredor. 
          Clara saiu da sala e ao fechar a porta viu o pai olhando pela janela, mesmo que não tenha dito nada a respeito da briga que teve com Érika era claro que estava muito triste com tudo que aconteceu.

CLARA: Será muita indiscrição da minha parte perguntar o motivo da briga com a minha mãe? -Perguntou ao se aproximar- 
VENTURA: Sua mãe é uma cabeça dura! Só isso. -Respondeu com uma rispidez que não estava acostumado a usar em seu linguajar.-
CLARA: E eu não sei disso? Por acaso ela não te deixou cuidar da Clarisse para ter dito o que disse?
VENTURA: Estudei quatro anos da minha vida produzindo uma tese que de nada me serviu. Sua irmã sequer leu por ter vergonha de seu passado e sua mãe acha tudo uma tremenda bobagem.
CLARA: Não entendi.

        Ventura que mantinha seu olhar no movimento do estacionamento do hospital olhou para a filha entristecido.

VENTURA: Tem tempo para conversar um pouco com o seu pai?
CLARA: Eu sempre tenho tempo para você e se eu não tiver, eu arrumo. -Sorriu-
VENTURA: Que a Angélica não nos encontre. -Brincou-
CLARA: Vou te esconder muito bem para esse momento ser só nosso pai. 

         Ventura sorriu para a filha e acariciou seu rosto, ela era realmente uma boa ouvinte e não havia ninguém melhor para que pudesse desabafar toda a tristeza que trazia em seu peito. Abraçados eles desligaram seus beeps, pediram um café na cantina, saíram do hospital e foram para um pequeno jardim de inverno aos fundos, não era um lugar muito freqüentado e podiam conversar sem interrupções.
         Enquanto tomava vagarosamente o seu café Ventura contou a filha como sentia-se frustrado em relação aos seus quatro anos de pesquisa de doutorado que segundo sua percepção de nada adiantou. A principal envolvida, Angélica sequer leu sua tese por não querer qualquer tipo de contato com o seu passado, ela que tinha uma cópia em sua estante junto à vários livros de medicina ignorou por completo sua existência, muito mal ela sabia o título.  Ele nunca forçou que a filha tivesse acesso a todo aquele conteúdo e também nunca falou da enorme tristeza que sentia por não ter dado qualquer importância ao trabalho feito especialmente para ela. Ventura fez uma dedicatória de duas folhas que Angélica nem se deu ao trabalho de ler e para completar sua enorme frustração ainda tinha Érika que assistiu sua defesa de doutorado, mas pareceu não ter entendido nada do que se tratava sua abordagem ao relatar tudo o que relatou na noite anterior. Sem querer dar maiores detalhes Ventura disse a Clara que Érika o procurou para conversar sobre Clarisse que estava apresentando o que ela considerou como problemas emocionais e de indisciplina. Não podendo dizer sobre o que realmente se tratava a conversa ele mentiu dizendo que ela tinha procurando-o para relatar alguns fatos sobre o comportamento rebelde de Clarisse e que estava pensando em voltar a dar remédios para que controlasse todo o seu desajuste. Ele não poderia aceitar que aquela que assistiu toda a sua defesa não entendeu nada de sua ideologia e estava acreditando que os remédios ainda eram uma salvação para a filha que ficou praticamente inapta socialmente quando os usou aos cinco anos de idade. 
          Suportar toda a crítica e a hostilidade da comunidade científica da psiquiatria hegemônica dizendo que sua teoria não passava apenas de uma visão de mundo e que não contribuía muito para a compreensão o universo psicótico ainda era aceitável, mas ser ignorado por Angélica e ouvir que de nada valia os seus estudos por Érika era demais para ele que passou quatro anos tentando produzir um olhar diferenciado sobre os transtornos mentais apenas na tentativa de diminuir o estigma e as diferenças entre o que é ser "normal" ou ser "disfuncional".
            Clara acolheu toda a angústia e tristeza do pai com a ternura que sempre teve, ela entendia bem tudo o que Ventura sentia. A filha foi o braço direito do pai enquanto trabalhava na pesquisa de campo com os participantes. Com a negativa de Angélica em não querer envolvimento com a psiquiatria era Clara quem o acompanha nas entrevistas e ajudava a transcrevê-las, ela também tinha interesse em conhecer o universo psicótico principalmente para aprender formas de lidar com a irmã e ajudá-la quando passasse por um de seus processos alucinatórios. Clara conseguia captar a alegria de seu pai ao entrevistar todos aqueles pacientes da Reviver, conversar com eles na tentativa de buscar sentidos fora das classificações psicopatológicas era como se resignificasse todo o doloroso processo que viveu com Angélica, ele só estava estudando a psicose por conta dela. 
         Depois que saiu da internação Angélica ficou praticamente 1 ano em isolamento social, ela só saía para ir a escola e as aulas de violino por se sentir inadaptada em viver coletivamente por ainda ter a sensopercepção alterada. Era comum ouvir relatos sobre si extremamente angustiantes que a deixava completamente amedrontada e por diversas vezes implorou ao pai que voltasse com a medicação a fim de cessar as vozes que a atordoavam por completo, ela não se importaria se ficasse sedada, só queria poder viver como todas as suas amigas. Ventura sempre negou todos os pedidos de medicação da filha e intensificou o seu processo terapêutico para que aprendesse a lidar com aquilo que sempre a angustiou e movido por esse desejo ele desvinculou-se da psiquiatria hegemônica e produziu um estudo consistente para mostrar a filha que nada tinha de errado ou de desajustado ouvir vozes e ter alucinações, ela poderia viver naturalmente apresentando todos aqueles fenômenos.
          Clara abraçou o pai após ter ouvido todo o seu desabafo, ele realmente se sentia muito triste por Angélica sequer ter lido a dedicatória que fez que chegou a lhe arrancar lágrimas. Ventura foi capaz de produzir um estudo apenas para que ela se sentisse feliz e "adaptada". Clara também ganhou uma página de elogios nos agradecimentos por ter se dedicado a ajudar o pai em todo o processo de pesquisa, ela inclusive leu O mito da loucura aos 14 anos e fazia até algumas pontuações a respeito das entrevistas que transcrevia. Ventura sempre diz que a sua tese teve a co-autoria da filha que o acompanhou desde a introdução até a conclusão. Na tentativa de animar o pai tão desmotivado em ver seu trabalho de quatro anos jogado pelo ralo relembrou que mesmo não conseguindo atingir Angélica e Érika ele conseguia ajudar vários pacientes principalmente os que estavam na Reviver. aquele fato tinha que ser motivo suficiente para sentir-se orgulhoso em ter produzido um estudo tão belo e cheio de sentido em relação a psicose. 

______

          Duas horas se passaram, eram sete da noite. Júlia recusou-se a jantar com seus pais e passou praticamente toda a tarde deitada em sua cama, Bianca saiu e ainda não tinha voltado, avisou que comeria qualquer coisa no La Porte junto aos amigos e que não precisariam esperá-la para jantar. Édna tentou mais de uma vez contato com a filha para explicar toda a situação que a fez tentar um aborto, mas Júlia não quis saber e deu o assunto por encerrado, não havia mais sentido que sua mãe explicasse uma situação que ela já sabia que existia desde os seus cinco anos de idade. Nada mudaria suas percepções depois de tantos anos. Antônio também depois de muito insistir para que conversassem desistiu de contar como tudo aconteceu, Júlia que ficasse com suas próprias conclusões porque ele tinha mais o que fazer do que ficar dando explicações de uma situação que tinha mais de 20 anos. Ainda que sofresse com o fato, a filha sempre teve de tudo e nada tinha a reclamar, ao contrário, deveria ser-lhe grata e não guardar ressentimento de uma atitude que ele tomou quando ainda era jovem. 
          Deitada na cama Júlia não sabia se o que doía mais era saber que nunca fôra uma filha desejada ou a falta de consideração de Victor a respeito de seus sentimentos. Melhores amigos como eram ele não devia sequer ter pensado em se envolver com ela e principalmente enganá-la dizendo ter se apaixonado. Ela relutou o máximo que pôde, mas Victor a seduziu de tal forma que quando deu-se conta já estavam completando 6 meses de namoro. Mesmo que tivesse se arrependido e voltado para Clara ele não podia ter rompido toda a relação que sempre tiveram. Eles confidenciavam segredos, bebiam e saiam juntos. 
         Era certo que Júlia causou muita confusão no namoro de Clara e Victor, por diversas vezes ela deixou mensagens no celular do ex-namorado dizendo estar com saudades e outras vezes tentou seduzí-lo quando saiam juntos. Clara nunca fez qualquer exigência para que Victor parasse de falar com a ex-namorada, a única exigência que fez foi que ele tomasse providências em relação ao assédio que ainda sofria por parte de Júlia e ele então a bloqueou de todas as suas redes sociais. Ainda que Júlia reconheça que tenha exagerado no início em tentar alguma coisa com Victor estando com Clara sua ausência e desprezo a causava profunda dor. Ela sentia-se injustiçada e usada por ele, ainda que próximos, nunca pensou em se relacionar com o amigo e quando a fez se apaixonar terminou tudo alegando nunca ter esquecido Clara e que o relacionamento entre eles não passou de um erro, um erro irreversível visto que ambos nunca mais se falaram. 
         Júlia abriu a gaveta e pegou o convite de casamento do melhor amigo. Victor só podia ter feito uma afronta convidando-a para ver sua união com Clara. Em um pulo ela levantou-se da cama e olhou pela janela que dava vista para a rua do condomínio. Victor tinha acabado de passar pela portaria com seu sedan preto, talvez fosse uma boa oportunidade para devolver o convite e dizer a ele tudo o que sentia que nunca conseguiu em cinco anos. Eles nunca mais se aproximaram para uma conversa e seus diálogos foram reduzidos somente a cumprimentos.

 

PRAÇA DOS AMORES

        Júlia saiu de casa com o convite do casamento de Victor nas mãos e decidida a não ir a festa do amigo achou que seria de bom grado devolvê-lo, quem sabe ele poderia convidar alguém que não entrou na lista porque o número de convidados já havia sido completado. Por ser vizinhos ela pôde ver pela janela a hora em que Victor chegou da empresa e para não ter que procurá-lo em casa foi até ele na praça.
         Victor cruzou a portaria do condomínio em seu carro e seguiu até sua casa e ao sair do carro para abrir a garagem deparou-se com um chamado vindo das proximidades. 

JÚLIA: Oi Victor!
VICTOR: O que você quer Júlia? -Perguntou descontente-
JÚLIA: Pedir desculpas se atrapalhei o seu lance com a Clara aquele dia na empresa.
VICTOR: Você fez de propósito.
JÚLIA: Confesso que sim.
VICTOR: Você não consegue entender que eu e você não temos mais nada?
JÚLIA: Consigo sim Victor. Consigo entender que não temos mais nada um com o outro. O que eu não consigo entender é por que esse desprezo todo? A gente era melhores amigos, lembra?
VICTOR: Lembro, mas não somos mais.
JÚLIA: Por que você voltou para a Clara?
VICTOR: Não por isso, mas por você ter tentado muitas vezes atrapalhar o nosso noivado.
JÚLIA: Só porque eu dizia que ela não era mulher para você? Continuo dizendo, casar-se com ela é um erro Victor, a Clara nunca deixará a medicina para ficar com você.
VICTOR: Isso não é um problema seu Júlia.
JÚLIA: Eu sei que não é. Na verdade eu nem quero conversar sobre um assunto que já cansei de falar. Você mais uma vez vai precisar entrar no fogo para se queimar.
VICTOR: Se não quer conversar eu vou entrar. 
JÚLIA: Saiu as fotos para a In Foco.
VICTOR: Eu fiquei sabendo, o Cléris me contou. Quer os meus parabéns por algo que nem vi?
JÚLIA: Não Victor. Não quero nada que não seja sincero. 
VICTOR: Então? 

        Júlia entregou a Victor o convite que trazia nas mãos.

- O que é isso? -Perguntou curioso-
JÚLIA: O seu convite de casamento, estou te devolvendo. Não faz sentido eu ir a um lugar em que não serei bem recebida e apesar de não parecer eu tenho amor próprio. Ter me convidado não passou de uma afronta.
VICTOR: Ao contrário, Clara e eu ficamos muito constrangidos em te convidar. Não queríamos que achasse que estávamos zombando de você.
JÚLIA: Então por que enviou? Foi por educação ou esperava mesmo que eu fosse? -Provocou-

        Júlia fez a pergunta esperando que Victor pudesse dar a ela alguma esperança de que desejava que fosse ao seu casamento mesmo que não tenham mais qualquer tipo de proximidade.

VICTOR: Não força a barra Júlia. 
JÚLIA: Esperava? -Insistiu-
VICTOR: Na verdade, não.

          Júlia não deixou de se sentir chateada com a resposta de Victor. Ela ainda tinha um fio de esperança de que pudessem retornar a amizade que tinham antes de começarem a namorar.

JÚLIA: Você brincou com meus sentimentos. Nunca gostou de mim de verdade. Me usou.
VICTOR: Nunca fiz do nosso namoro um brinquedo Júlia. Só me dei conta depois de um ano que eu amava de verdade a Clara.
JÚLIA: Por que você insistiu em uma coisa que a gente sabia que não ia dar certo? Eu não queria mais ficar com você, mas você insistiu e no final eu fui a única que saí machucada de tudo. -Lamentou tentando segurar as lágrimas-
VICTOR: Se eu soubesse que a nossa amizade se perderia por isso eu não teria insistido para namorarmos.
JÚLIA: Eu dediquei 1 ano da minha vida à você e fazendo tudo para você para no final me dizer que queria ficar com a Clara e como se não bastasse você me deletou da sua vida. Eu nunca quis ficar com você Victor! -Usou de seu tom alto em lágrimas-

        Júlia não conseguiu impedir que as lágrimas escorressem por seu rosto. Estava magoada demais com a atitude de Victor em ter deletado-a de sua vida sem qualquer consideração por tudo que tiveram.

VICTOR: Eu sei que errei em ter tentado alguma coisa com você para esquecer a Clara.
JÚLIA: Você sempre foi um egoísta Victor. -Disse enquanto secava as lágrimas- No fundo só pensou em você e nessa buraco que a Clara deixou em seu coração. Só se envolveu comigo para esquecê-la. Insistiu que éramos mais que amigos e no final só brincou com os meus sentimentos. Abusou da minha amizade e me iludiu. -Fitou-o raivosa-
VICTOR: Não faça esse tipo de acusação. Eu gostei mesmo de você naquela época.
JÚLIA: Não Victor. Você sempre quis que eu ocupasse o lugar da Clara. Você me forçou a um relacionamento que nós dois sabíamos que estava fadado ao fim. Você me usou e eu te amava de verdade. Você não tinha o direito de me fazer sofrer como fez. O que me consola é saber que Clara te colocará em segundo lugar na vida dela e aí você vai entender o que eu sinto.

         Júlia jogou o convite que segurava no chão e saiu chorando para sua casa, ao menos conseguiu explicitar toda a dor e revolta que guardava em seu coração por todo o desprezo do amigo desde que romperam o relacionamento. 
           Victor olhou Júlia entrar e foi tomado por um sentimento de culpa, não imaginava que pudesse ter ferido tanto a amiga quando terminaram. Ele também carregava o incômodo de ter se envolvido com ela e não ter dado continuidade ao relacionamento por ainda nutrir sentimento por Clara. Angélica que era melhor amiga de Júlia inclusive não deixou de acusá-lo do quanto foi leviano iludindo e brincando com os sentimentos da amiga e relembrou que sua conduta indecisa frente aos relacionamentos sempre o atravessou desde que era adolescente. Ele mesmo já tentou retornar o romance com Angélica por ter brigado com Clara, sua solidão foi tão forte que a fez procurá-la na época alegando ser a menina certa para se envolver. Angélica que ainda nutria afeto pelo amigo acreditou em suas palavras e ele mais uma vez rompeu o relacionamento depois de algum tempo por estar apaixonado por Clara fazendo-a sofrer mais uma vez. Ele fez a mesma coisa com sua melhor amiga e esperava que não a procurasse quando tivesse mais uma briga com Clara. Angélica chegou inclusive a dizer irmã que Victor era indeciso demais e por isso não merecia ficar com nenhuma das duas, além de ser carente era extremamente egoísta.
         A discussão só se findou quando Clara irritada pediu que Angélica não se intrometesse mais em sua relação com Victor, ela tinha todo o direito de defender a melhor amiga, mas não tinha qualquer direito de dizer com quem deveria ou não ficar e principalmente, não deveria fazer acusações tão duras à Victor que estava bastante incomodado com a situação, afinal, ele terminou um relacionamento com a melhor amiga. Angélica a pedido da irmã não tocou mais no assunto, mas nunca deixou de comentar o quanto Victor foi inescrupuloso em ter feito o que fez principalmente porque não era a primeira vez, Procurar por mulheres que pudessem suprir sua carência afetiva era um comportamento que o acompanhava desde a adolescência e ela podia afirmar com precisão, pois já fôra vítima de suas "indecisões amorosas" mais de uma vez.
          Com um sentimento de arrependimento por mais uma vez ter confundido seus sentimentos e machucado uma amiga que lhe era muito próxima, Victor pegou o convite do chão e entrou. Ele não esperava que Júlia fosse ao casamento, na verdade, ele torcia para que ela realmente ficasse em casa, vê-la participando de um evento tão importante para ele naquelas condições seria uma situação muito incômoda, só a convidou mesmo por consideração e deixou a cargo de sua consciência a escolha de ir ou não, ele só não esperava que sua negativa seria daquela forma.

________


          Ventura chegou com as filhas à UFTS às seis e meia da noite, ele tinha que lecionar às sete e as meninas tinham aula de psicologia médica no mesmo horário. Ele enviou para Érika algumas mensagens para o seu WhatsApp para ter notícias de Clarisse, mas ela visualizou e não respondeu nenhuma delas. Um sentimento de raiva ele sentiu quando percebeu ter sido ignorado, Érika estava passando dos limites em seu orgulho negando-lhe informação a respeito da afilhada. Só conseguiu saber da situação de Clarisse depois de perguntar à Clara que havia falado com a mãe minutos antes e relatado que a irmã estava sem febre, apenas sentia-se cansada, mas estava bem e aprontando. Ventura nem tentou esconder a raiva que mantinha de Érika e comentou com a filha que apesar de não querer terá que procurá-la para resolver a situação. Ela não podia continuar negando-lhe informações por simplesmente estar irritada com algumas pontuações que fez. 
        Clara percebendo toda a irritação do pai ofereceu-se para conversar com a mãe a respeito do assunto, mas ele negou dizendo saber como lidar com os rompantes orgulhosos de Érika e pediu que não se intrometesse para não gerar mais uma confusão, se o mal entendido envolver Carlos a situação poderia se agravar. Ainda que se respeitem, Carlos não tolera a forma rude com que Ventura se intromete na forma de educar Clarisse e se dirige a Érika quando toma atitudes orgulhosas. Eles já discutiram diversas vezes por causa de algumas condutas que Ventura tomou em relação a Clara principalmente quando fazia referência a Angélica. Ela que sempre guardava os segredos e acobertava a irmã em suas atitudes como fugir de casa e beber até cair era repreendida severamente por Ventura, fato que irritava muito Carlos, se competia a alguém cuidar de Angélica esse alguém não era Clara, ela estava sendo apenas irmã não a dedurando para o pai. O mesmo acontecia com Érika, ainda que amigos de anos, só a Carlos competia o direito de colocar a esposa contra a parede.

UNIVERSIDADE FEDERAL THEMES SOUZA (UFTS)

 

          Angélica e Clara foram para a aula de Psicologia médica ministrada por Mérces, curiosa e inquieta Angélica ficou a questionar a irmã se sabia da confusão dada entre Ventura e Érika, ele estava mais mal humorado do que de costume e sua fala não deixou de causar uma risada um tanto gostosa em Clara, da onde a irmã tirou que o pai era um cara mau humorado? Ao contrário, ele vendia sorrisos e risadas por onde passava, nem Angélica era mais capaz de tirar toda aquela alegria estampada em sua face. Ela só podia estar fazendo uma projeção, Angélica sim era uma bomba prestes a explodir. 
         Sem ter um pingo de descanso da perguntação da irmã Clara apenas relatou que Ventura e Érika se desentenderam por conta de Clarisse, ele não achou necessário fazer uso de um medicamento para febre e aquilo foi o suficiente para deixar a mãe irritada. Angélica gargalhou não acreditando que todo aquele clima se deu por causa de uma situação que ela considerou sem qualquer importância e entrou na sala. Clara suspirou aliviada, conseguiu com sua meia história que a irmã largasse de seu pé com a perguntação a respeito do que tinha acontecido e finalmente poderia estudar em paz.
           Mérces que estava em pé esperando os alunos de sua eletiva chegarem sentiu algo ruim assim que viu Clara passar por ela e cumprimentá-la. Algo de muito grave iria acontecer a filha de Ventura e imediatamente deu-se conta de que ela seria pêga de refém em um assalto a banco que causará um enorme alvoroço na cidade e se a polícia não for suficiente capaz de coordenar a situação Clara acabará morta. Premunir situações com qualquer pessoa com quem tenha contato é uma situação muito trivial para Mérces, ela apresenta o que se chama de: fenômenos paranormais desde os três anos de idade e por ter vindo de uma família totalmente misticista aprendeu desde muito nova a lidar com tudo que se apresenta diante dela sem que se assuste. Ela e Clarisse tinham muita coisa em comum e era uma pena que Érika nunca permitiu que a ajudasse.
         Enquanto olhava Clara na tentativa de compreender se poderia fazer algo que pudesse impedir seu acidente continuou a dar sua aula a respeito da escuta terapêutica para pacientes poliqueixosos que apareciam constantemente nos hospitais gerais com as queixas mais variadas.

MÉRCES: A principal questão que envolve toda a prática clínica é a empatia e a compreensão de que alguns sintomas podem ser amenizados com uma boa escuta médica. Muitos pacientes sentem-se aliviados de seus incômodos apenas em colocar para fora toda a dor.

       André ao fundo da sala levantou a mão.

ANDRÉ: Eu posso dar um exemplo?

            Angélica suspirou entediada com pedido de André. Ele mais uma vez iria detalhar toda uma história que poderia ser resumida em cinco minutos se ele não tivesse o costume de florear todo o contexto.

MÉRCES: Fique a vontade André.

            Mérces não deixou de perceber o incômodo de Angélica frente a possível fala do colega de turma, mas não poderia impedir que André prosseguisse em seu discurso, ele sempre tinha boas contribuições a fazer.

ANDRÉ: Ontem apareceu na neurologia um paciente com um quadro clínico bastante complicado. Ele já tinha ido umas quatro ou cinco vezes no pronto socorro com tonteira e visão turva. Ontem ele subiu para a  neurologia para ficar internado e você sabe que é um procedimento...
ANGÉLICA: Desenrola a fita André. -Disse irritada-

             Toda a turma não deixou de rir da fala de Angélica. Eles também sentiam-se bastante incomodados com a falta de objetividade de André em contar qualquer caso que fosse.

ANDRÉ: Então... Acabou que ele ficou nervoso pela demora ao desocupar o leito, me chamou de lento e mais um monte de coisas. Aí ele começou a falar sobre seu problema ali no corredor mesmo enquanto aguardava internação. 

               Angélica deitou sua cabeça sobre a carteira enquanto ouvia o relato de André. Ela já sabia qual era o desfecho da história e o colega podia ter evitado todo aquele falatório apenas dizendo que o permitiu dizer tudo o que queria para que amenizasse sua dor.

- Eu deixei ele falar tudo o que queria e fiquei ouvindo tudo o que tinha a dizer e quando acabou eu só pedi desculpas. Aquela minha acolhida e a minha humildade foi o suficiente para ele mudar toda a relação comigo. Inclusive disse que tinha ficado até melhor de todos os sintomas que estava sentindo. Eu devo ter ficado com ele 1 hora conversando.

              Angélica levantou sua cabeça e fitou o amigo irritada.

ANGÉLICA: Então é por isso que a gente bipa vocês e nada! -Reclamou- Tinha que ser orientando do meu pai. Ele fica horas ouvindo aqueles pacientes da neurologia. Um verdadeiro saco. Eu acho que cada um tem que tomar ciência do seu espaço. Se eu for dar atenção a todos os pacientes narrando as brigas com o marido, com o filho e mais um monte de coisas eu nunca mais vou sair da Climédia.
MÉRCES: A questão não é ficar ou não horas ouvindo o paciente, é simplesmente prestar uma acolhida ao sofrimento emocional Angélica. 

           Mérces olhou para a porta e viu Ventura esperando que desocupasse a sala para que pudesse entrar para sua reunião de pesquisa. A colega já havia passado cinco minutos do horário estipulado para a sua aula.

- Pessoal continuamos esse assunto na próxima aula porque nosso horário estourou e o Ventura está doido para entrar.

           Enquanto Mérces juntava seu material sobre a mesa alguns alunos que não participavam do grupo de pesquisa de Ventura se retiravam da sala, muitos deles ainda tinham algumas disciplinas para fazer.

THOMÁS: Tantas salas vagas na UFTS e os professores tem que ficar disputando. -Comentou pegando seu caderno sobre a carteira-
CÉZAR: Disputando aquelas que tenha no mínimo luz e ar condicionado não é? -Intrometeu-se-

         Ventura entrou na sala e deu um sorriso para Angélica que acabava de juntar algumas apostilas.

ANGÉLICA: Oi paizinho! -O cumprimentou com um beijo assim que o viu entrar-
VENTURA: Nada de ir para a casa do Eduardo. -Brincou enquanto se aproximava da mesa de Mérces-
ANGÉLICA: Eu não ia dizer isso.
CLARA: Geli vai descer? -Chamou-a da porta-
ANGÉLICA: Vou. Espera aí. -Gritou de sua carteira-
VENTURA: Não demora que preciso de você no grupo. -Intrometeu-se-

          Angélica saiu com seus amigos enquanto outros se ajeitavam nas carteiras em roda.

MÉRCES: E essa aura acinzentada que está carregando Ventura? -Perguntou enquanto pegava sua bolsa-
VENTURA: Você conseguiu ver isso em mim? -Colocou alguns papéis que trazia nos braços sobre a mesa-
MÉRCES: Eu consigo ver muitas coisas que você nem imagina. O que houve com o seu verde vibrante que sempre traz?
VENTURA: Está apagado.
MÉRCES: Preocupado com o acidente que acontecerá com a Clara?

              Ventura assustou-se com a pergunta de Mérces. Seria possível que ela também tivesse premunido o que acontecerá a Clara?

VENTURA: Você também sabe?
MÉRCES: Soube assim que olhei para ela.
VENTURA: Podemos evitar? 
MÉRCES: Não tive essa informação. 
VENTURA: Minha afilhada sabe que algo de muito grave vai acontecer e que Clara irá morrer. Estou tentando manter a serenidade, mas por dentro estou explodindo de preocupação. -Desabafou-
MÉRCES: Entender uma premonição requer mais razão do que emoção Ventura. Se colocarmos conteúdos emocionais não vamos conseguir entender o que elas querem nos dizer de fato. -Explicou-
VENTURA: Será que o destino da Clara é realmente morrer em um tiroteio? Acho que a vida dela não tenha sido programada para durar 22 anos.
MÉRCES: Isso é o que você acha, não sabemos do destino de cada um. 
VENTURA: Tenho que proteger a Clara, não quero mais uma vez me culpar com a possibilidade de ter negligenciado uma filha como aconteceu com a Angélica.
MÉRCES: Você nunca negligenciou a Angélica. Fez tudo o que pôde para ajudá-la e faz pela Clara também, mas destino é sempre destino. Você pode e deve cuidar da sua filha,  o que você não pode é começar a fazer o testamento de morte. 
VENTURA: A Clarisse está muito segura sobre o que viu e me garantiu que ela morrerá.
MÉRCES: A Clarisse não é um exemplo de controle emocional Ventura. Uma premonição só é autêntica quando está fora da emoção ainda mais se tratando de membros de uma mesma família. 
VENTURA: Eu vou conseguir salvar a minha filha?
MÉRCES: Não temos qualquer garantia disso Ventura. Nem como médico você consegue ter essa afirmação como ter garantias sobre a vida da sua filha? O que eu posso te dizer é que faça pela Clara tudo o que puder, estude, analise, reflita e se chegar a hora dela nada poderá fazer. Cedo ou tarde, todos nós vamos morrer um dia. 
VENTURA: Muito consolador. -Ironizou- O pior de tudo isso é não ter certeza de nada. Como a falta de controle nos deixa atordoados.
MÉRCES: Crescemos em uma sociedade que prega o controle e a liberdade quando na verdade não temos nenhum dos dois. Não temos controle sobre a nossa vida e tão pouco sobre a liberdade que queremos. Tudo isso não passa de uma farsa. O destino sempre dirigirá nossas vidas.

            A conversa entre Mérces e Ventura foi interrompida com a entrada de Eduardo que chegou atrasado.

EDUARDO: Oi professor! -Cumprimentou ao passar pela mesa-
VENTURA: Oi Eduardo! Você encontrou a Angélica por aí?
EDUARDO: Ela foi na cantina.
VENTURA: Já vi que não vem para a reunião do grupo.
MÉRCES: A gente conversa melhor depois Ventura.
VENTURA: Estou sempre on line no whatsapp. É só chamar. -Disse sarcástico-
MÉRCES: Nessa eu não caio mais. -Deu uma risada e saiu da sala-

              Ventura só podia ter feito uma piada pedindo para ela fazer contato com ele pelo aplicativo, ele quase não a respondia. Todas as vezes que precisou falar com o colega de trabalho teve que usar o celular na esperança de que ele atendesse suas chamadas ou ligar para os lugares em que trabalhava. 

VENTURA: Sentando pessoal. -Fechou a porta- Vamos discutir os dados que o André enviou para o email do grupo. Alguém leu?

           A turma começou a retirar de suas pastas e fichários todo o material necessário para o estudo da pesquisa que Ventura solicitou, eles precisavam deixar tudo pronto para apresentação no Congresso Internacional de Medicina que ocorrerá em 1 mês.
         Clara que caminhava com os amigos pelo enorme corredor do terceiro andar da medicina surpreendeu-se com um olhar um tanto inusitado de Mérces, que motivos ela teria para estar olhando-a como se estivesse analisando-a de cima a baixo? Com um sorriso Mérces passou por ela e desceu as escadas, havia se dado conta de que nada poderia ser feito para evitar o acidente com Clara. Aquele fato já estava traçado em sua vida e mesmo que se livrasse daquele o destino a colocaria em outra situação de perigo, não há como evitar os caminhos aos quais somos destinados, eles sempre vêm para nos mostrar e nos ensinar algo, sem dúvida alguém aprenderá muito com o acidente de Clara.



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