História O milagre de uma lágrima 8 ANOS DEPOIS - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Direitos Humanos, Espiritismo, Família, Feminismo, Loucura, Medicina, Paranormalidade, Psicologia, Psicose, Self-harm, Suícidio
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Palavras 12.607
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Hentai, Lírica, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Poderia ser mais difícil
Dizer adeus e ficar sem você?
Poderia ser mais difícil
Ver você ir, enfrentar a verdade?
Se eu só tivesse mais um dia...

Could It Be Any Harder

Capítulo 5 - Sem explicações.


No capitulo anterior: Clara surpreendeu Victor e Júlia abraçados na empresa.

     Clara ficou à olhá-los estupefata não acreditando no que vê. Muitas coisas passaram pela sua cabeça. Tem segurança de que foi uma armação de Júlia para prejudicá-la, mas ao mesmo tempo, vê-los se abraçando lhe causou uma extrema sensação de estranheza, raiva e ódio, sentimentos estes, que jamais havia sentido. Irritada ela intervém:

CLARA: Mas o quê está acontecendo aqui?

     Júlia imediatamente afastou-se ao ouvi-la e Victor assustou-se. Não resta dúvida de que Clara ficou irritada com a cena que vira.

VICTOR: Clara! Eu não sabia que você vinha meu amor. -Aproximou-se-
CLARA: Não se aproxime de mim! -Afastou-se irritada-

     Cléris que estava na porta junto à Clara, tenta evitar uma briga.

CLÉRIS: Calma Clara. -Disse sereno-
JÚLIA: Oi Clara! -Cumprimentou com um sorriso-
CLARA: Você não me dirija a palavra. -Gritou-
VICTOR: Clara não é nada disso que você está pensando. -Tentou justificar-se-
CLARA: Você não sabe o que eu estou pensando! -Irritou-se-
JÚLIA: Bom, já vi que esse é um assunto de família. Fui!

     Júlia lançou um olhar sarcástico para Clara e saiu da sala passando por ela e Cléris com um sorriso no canto da boca. Sentiu-se vitoriosa por ter conseguido o que queria.

VICTOR: Clara eu não tenho nada à ver com isso. A Júlia entrou aqui e me abraçou à força. Você sabe que eu jamais tocaria nela novamente. -Justificou-se-
CLARA: Aé? E como ela entrou na sua sala?
VICTOR: A Júlia tem acesso livre na empresa. Ela abriu a porta e eu não pude evitar.
CLARA: Eu imagino o que teria acontecido se eu não tivesse chegado.
VICTOR: Não teria acontecido nada! Porque não aconteceu nada!
CLARA: Não me faça de idiota Victor!
VICTOR: Meu amor você sabe que a Júlia não significa nada pra mim.
CLARA: Pára de mentir! Pára! -Gritou-
VICTOR: Dá para você falar baixo pelo menos? -Sussurrou-
CLARA: Não. -Finalizou com os olhos cheios de lágrimas- Eu não tenho mais nada à dizer. Mais nada. Toma a aliança. -Retirou-a do dedo- Dê para a Júlia porque o nosso noivado termina aqui. -Jogou a aliança no chão e saiu chorando-
VICTOR: Clara... -Gritou-

Victor dirigiu-se até à porta na tentativa de ir atrás de Clara mas foi impedido por Cléris.
CLÉRIS: Deixa ela Victor. Deixa. -Segurou-o-

    O que Victor não podia fazer nesse momento era ir atrás de Clara irritada como estava. Procurá-la nesse estado poderia agravar mais ainda a situação.

VICTOR: O quê Clara deve estar achando? -Sentou-se a mesa preocupado-
CLÉRIS: Ela está nervosa. Você sabe que ela sempre se comporta assim quando vêem vocês juntos. -Pegou a aliança que Clara jogou no chão e entregou à Victor-
VICTOR: Vou falar com a Clara. -Pegou o celular em seu bolso começando a ligar-
CLÉRIS: Você não vai atrás dela agora. Dá um tempo pra você e ela se acalmarem. Espera um pouco.
VICTOR: Ela não atende o celular. -Desligou-
CLÉRIS: Dê um tempo pra Clara. Depois, quando estiverem mais calmos você explica tudo pra ela, agora só vai complicar.
VICTOR: Meu casamento foi pro espaço.
CLÉRIS: Calma! Tem que se acalmar.
VICTOR: Quero que proíbam a entrada dessa mulher aqui! -Disse irritado-
CLÉRIS: Calma Victor. -Aproximou-se dele na tentativa de acalmá-lo-

     Victor não podia acreditar que tão próximo ao casamento Júlia poderia ter aprontado algo que colocasse em risco sua relação com Clara. Claro que ela acreditou em tudo que viu. Como não acreditar se Júlia estava em sua sala? No momento, a única coisa que espera é que Clara entenda toda a situação e perceba a armação.

     O Rio de Janeiro contempla um lindo sol de verão. São exatamente duas da tarde. No meio do oceano, Angélica realiza uma de suas atividades preferidas, admirar o mar após ter convencido o namorado para uma saída de barco. Ficar à observá-lo é uma tarefa que realiza desde que ainda era uma adolescente. Antes tinha mais tempo, mas agora com a carga pesada do curso de Medicina quase não tem mais essa oportunidade da qual sente muita falta. Muitas vezes pairou a dúvida se fez a opção certa em desistir do curso de Oceanografia pelo de Medicina. Oceanografia sempre fôra seu desejo desde que cursava o ensino médio e estudou suas matérias específicas por 6 meses no pré-vestibular, mas com um pai médico e uma irmã empenhada em estudar Medicina, sua possessividade não permitiu que fizesse Oceanografia. Para ficar ao lado do pai optou pela mesma profissão, principalmente, porque sabia que faria Ventura imensamente feliz, mas a vontade de ficar sobre o mar ainda é um desejo que nutre dentro de si e que lhe traz imensa paz. 
     Sentada na escada do barco que está ancorado em um mar azul e calmo. O vento balança seus cabelos e naquele silêncio ela fica à experienciar todas as boas sensações que a maresia pode lhe proporcionar. Muitas vezes quando se depara com suas vozes recorre à ele para que a ajude a recuperar novamente a razão. É como se o mar levasse consigo todas aquelas vozes perturbadoras que sempre insistem em atormentá-la nos momentos de intensa fragilidade emocional. Eduardo ficou à preparar um momento romântico para a namorada na parte interna da embarcação. Com duas taças de champanhe na mão, bebida preferida de Angélica, ele sai dirigindo-se à parte externa e observa-a um pouco distante. Não quer atrapalhar aquele momento tão especial para a namorada já que sabe de sua adoração pelo mar. Eduardo sorriu com uma pitada de satisfação. Lembrou-se do árduo trabalho que teve para conquistar aquela que não queria de forma alguma saber de relacionamento sério. Eles levaram praticamente 6 meses para assumirem o namoro. Vagarosamente, ele aproxima-se dela.

ANGÉLICA: Que vista linda Edu! -Disse fitando o mar percebendo sua aproximação-
EDUARDO: Você adora o mar né? -Sentou-se à seu lado-

     Eduardo entregou uma das taças à Angélica. Ela deu um gole e olhou com ternura aquele que se disponibilizou à fazer com ela o programa que tanto ama. Com uma voz doce, prossegue:

ANGÉLICA: Desde pequena. Antes de decidir fazer medicina eu queria ser oceanógrafa. -Fitou-o-
EDUARDO: A arquiteta do mar. É uma bela profissão. -Bebeu-
ANGÉLICA: Depois eu quis fazer medicina mas eu continuo amando o mar. -Dirigiu seu olhar novamente para o horizonte- Não gosto de entrar. Gosto de olhar. Ver o contraste que ele faz no céu, nos morros, o desenho das ondas ao quebrarem. -Admirou-

     Angélica tem uma forma apaixonante ao se referir ao mar. A forma como fala denota extrema devoção por aquele que sempre guardou seus segredos. Ninguém conseguira tanta expressão ao falar dele como ela. Mesmo sem qualquer tempo para envolver-se com aquilo que sempre fez parte da sua vida, aquelas águas marinhas, ainda consegue alguns momentos de prazer. Eduardo fica à olhá-la encantado. Sabia do amor da namorada pelo mar, mas não se dava conta da sua adoração por ele.

EDUARDO: Espero que o mar não roube seu amor por mim! -Brincou-
ANGÉLICA: Claro que não seu bobo! -Sorriu para Eduardo e voltou à olhar o mar- Olha a sensação de paz que ele nos dá. Sem barulhos de carros. Sem a correria do Rio que a gente é acostumado à viver. Aqui é uma tranqüilidade. Fecha os olhos. -Fechou os olhos-

     Eduardo não entendeu muito bem o que Angélica queria quando pediu que fechasse os olhos mas sem querer quebrar o clima criado ele obedeceu. Em uma fala extremamente calma como se estivesse fazendo um relaxamento, Angélica continua:

- Escuta o barulho das ondas. Sente o vento batendo no seu rosto. Sinta o som da natureza. Muitas vezes não bastar ouvir, temos que sentir. Agora pensa em uma coisa que você queria que se realizasse, qualquer coisa. Pensa no que quer esquecer. Nas coisas que fazem sofrer. Nos problemas. Pede pro mar levar as coisas ruins e trazer coisas boas. Pediu?EDUARDO: Pedi. -Respondeu de olhos fechados-

    Eduardo deixou-se levar pelo momento na tentativa de experienciar a mesma sensação que Angélica. Com todo seu jeito rude em sua entonação vocal, ouvi-la falar com tanta mansidão a situação deve propiciar uma sensação bastante agradável.

ANGÉLICA: Agora ainda de olhos fechados pense num lugar bem bonito. Onde você se sinta relaxado.

    Eduardo começou à imaginar o lugar que mais o apraz, o campo, e também Angélica quem habita seus pensamentos à 4 anos. Ele não tem a mesma sensibilidade e criatividade que ela, mas faz o possível para entrar em seu mundo sensível. Um belo campo verde contempla sua imaginação. Ao caminhar por ela de braços dados com Angélica sente-se o homem mais feliz do mundo. Desde que a conhecera algo mudou dentro dele, não precisa de mais nada além de sua presença. Como se sente feliz com ela. Imagina-se casado, mas apenas em sua imaginação isso é permitido já que Angélica abomina a ideia. Ele então fica à experienciar aquela gostosa sensação produzida por Angélica que talvez, jamais volte à sentir.

EDUARDO: Nossa! -Exclamou abrindo os olhos- Como você consegue? -Olhou para Angélica que também o olhou- Eu venho ao mar com frequência e nunca parei para repará-lo dessa maneira que você fez.
ANGÉLICA: Eu não sei explicar. Eu só sei sentir. -Olhou para o horizonte-
EDUARDO: Estou até mais leve. -Suspirou de olhos fechados-
ANGÉLICA: O mar acalma, relaxa. Quando eu pedi para você pensar em alguma coisa importante em que você pensou?
EDUARDO: Em você! -Olhou Angélica com ternura- Que é a mulher que eu amo e com quem quero viver pra sempre. Me casar, ter filhos e você?
ANGÉLICA: Pensei no meu pai. Ele sempre me ajudou. Me apoiou mesmo quando eu errava. Meu pai é meu tudo! 
EDUARDO: E em que lugar você pensou? Eu pensei num bosque com muito verde, um lago e eu estava com você apreciando o lugar.
ANGÉLICA: Eu pensei nesse lugar mesmo. Esse mar, o céu azul, a água cristalina, o barco. Eu e você juntos com o nosso amor -Beijou-o apaixonado-
EDUARDO: Não é que esse negócio funciona mesmo?
ANGÉLICA: O quê?
EDUARDO: O pedido que eu fiz foi um beijo seu. -Começou à beijá-la sedutoramente-

     Eduardo tirou das mãos de Angélica a taça de champanhe colocando-a em um canto qualquer do barco. Delicadamente Voltou à beijá-la retirando sua blusa quando foi impedido em um repente.

ANGÉLICA: Edu? - esquivou-se com certa dificuldade de seus beijos- A gente vai acabar sendo presos por falta de decoro. -Disse sapeca-
EDUARDO: Não estamos no carro princesa e nem no campus da faculdade. Estamos no mar - Beijou seu pescoço-
ANGÉLICA: Então é isso que você quer? -Olhou fixamente para Eduardo e retirou sua blusa-

    Apenas de sutiã Angélica deitou Eduardo no chão do barco e começou beijá-lo sedutoramente.

EDUARDO: Tem hora pra chegar em casa? -Perguntou entre beijos-
ANGÉLICA: Não. Estou à seu dispor -Beijou-o-

     Angélica tem muita sedução em sua forma de ser. Muitas vezes, torna-se impossível resistir à seus jogos de amor. Eduardo já havia brigado com ela inúmeras vezes por conta do seu ciúme e sua possessividade nata mas ela sempre conseguira entre abraços e muitos beijos reverter toda a situação à seu favor. Se aos 14 anos já era uma menina que arrancava suspiros de todos os meninos de sua escola, agora aos 22, com seus cabelos pretos e lisos pela cintura, olhos castanhos claros em uma silhueta de 1, 70 de altura, leva o título de a musa da Medicina. Eduardo sente-se sortudo por ter conquistado o amor da menina mais cobiçada da faculdade e a mais difícil também.

EDUARDO: Eu amo você sabia? -Olhou-a fixamente-
ANGÉLICA: Eu também te amo! -Beijou-o-

Angélica retirou a camiseta de Eduardo olhando-o com seu olhar atraente enquanto ele todo atrapalhado tentou abrir seu sutiã. Malditos sutiãs que tem o fecho na frente, questionou consigo mesmo enquanto tentava com certa irritação abri-lo. Ele nunca fôra habilidoso para desabotoar sutiã algum. Angélica só poderia estar de piada tê-lo vestido para um momento como esse. Angélica começou a rir do namorado, ele sempre se enrola para abrir esses sutiãs cujo botão são na frente. Com as pernas abertas sentada sobre sua barriga, Angélica fitou-o e com todo o seu charme, colocou a mão sobre o fecho mostrando à Eduardo como se faz. Eduardo ficou à olhar todo o seu corpo. Como é linda aquela mulher que está em cima dele e começou a acariciar aquela barriga tão perfeita. Angélica arrepiou-se. O toque de Eduardo à deixa sempre muito excitada. Com suas mãos ela pegou as do namorado o que deslizavam sobre sua barriga e levou-as até seus seios para que ele pudesse tocá-los e deixá-la ainda mais enlouquecida. Angélica antes de conhecer Eduardo já havia se relacionado com outros caras, mas nenhum deles à fez se sentir tão mulher quanto ele. Mesmo não tendo sido seu primeiro parceiro sexual, ele sabia excitá-la como ninguém havia feito. Nem André, seu primeiro namorado, havia conseguido deixá-la tão enlouquecida quando ele. À medida em que Eduardo apertava seus seios com carinho seu corpo respondia com um gemido entre sussurros e seus mamilos se contraiam de prazer ao serem tocados. Angélica desabotoou sua calça, esse era o sinal que Eduardo precisava para que avançasse um pouco mais. Ele então levantou-se e enquanto Angélica sentia seus lábios em seu pescoço ajudou-o a abrir seu short, ela queria ouvir sua respiração ofegante ao tocar seu pênis. Eduardo beijou-a e colocou a mão por dentro de sua calça tocando-a por cima da calcinha. Ela estava derretendo-se de prazer e quanto mais a tocava, mais Angélica com seus gemidos solicitava que fosse um pouco mais invasivo. Queria que ele à domasse como sempre fizera. Eduardo deitou-a e em um misto de delicadeza e agressividade retirou sua calça, Angélica sentiu um alívio, agora os dedos de Eduardo poderiam percorrer livremente por sua intimidade. Ele começou à beijá-la intensamente e enquanto a tocava, ela remexia-se ao sentir seus dedos tocando sua zona de prazer. Eduardo foi o único que conseguiu acertar com tanta precisão o ponto que a deixava totalmente desorientada mas ele era bem malvadinho em não dar à ela de imediato o que tanto quer. Com sua voz trêmula de desejo, Angélica solicitou que ele lambesse sua vagina. Eduardo sorriu cafajeste, não seria assim tão fácil, gosta de vê-la se contorcer de prazer antes de dar-lhe o tão sonhado presente. Ao passar a língua vagarosamente por todo o seu corpo começou a lamber sua perna bem próxima à sua vagina. Angélica odeia quando ele tem esse comportamento, excitada como está, não tem mais tanta paciência para aguentar essas provocações do namorado. Provocador como sempre, Eduardo dá leves toques com a língua em alguns pontos específicos de sua vagina enquanto lança um olhar para a namorada que está aguardando o momento para que ele à chupe com vontade. Ele não é nem um pouco sádico, mas gosta de ver Angélica implorar para que sua língua quente toque sua intimidade. Ela sente seu corpo todo estremecer com os toques sutis de Eduardo em sua vagina e em completo desespero segurou sua cabeça para que ele finalmente fizesse como deve ser feito. Eduardo começou à passar sua língua por toda sua vagina tocando seu clitóris enquanto Angélica passou a mão em seus cabelos sentindo seu corpo arder como fogo. Eduardo é sem dúvida o seu encaixe perfeito, só é uma pena que briguem tanto e fiquem dias sem se falar.

     Clara dirige chorando pela Lagoa, não acredita que Victor pôde mais uma vez ter se rendido ao jogo sujo da ex-namorada. Eles já haviam brigado 5 meses antes por tê-los visto juntos no La Porte trocando abraços. No fundo ela sabe que tudo não passa de uma armação e que Victor jamais se envolveria com Júlia novamente após tudo que passaram, mas o sentimento de raiva e ódio a domina de uma forma que não pode controlar. Sente-se uma burra por ainda chorar por esse tipo de coisa. O que Júlia sempre fez desde que rompera com Victor foi tentar de todas as formas separá-los, mas não consegue evitar. A vontade que tem é de agredi-la, coisa que nunca fizera por maior motivo que tivera. Nesse sentimento de ódio intenso ela adentra o condomínio parando seu carro em frente à sua casa.

CASA DA FAMÍLIA GUIMARÃES DIÁZ

     Érika está sentada em um dos sofás da sala falando ao telefone. Ela está resolvendo com o buffet os últimos preparativos do casamento da filha. Clara decidiu de última hora acrescentar mais algumas coisas que serão servidas no jantar e Érika está tentando acordar tudo da forma que ela quer. Por quase não ter tempo de se dedicar à isso, Clara deixou sob a responsabilidade de sua mãe toda a decisão com o salão e o buffet enquanto ela e Victor se responsabilizariam pelas demais coisas. Clara entrou chorando.  Érika preocupou-se com o que pôde ter acontecido e finalizou a conversa desligando o telefone. Nem passa pela sua cabeça que a premonição de Clarisse de fato aconteceu.

ÉRIKA: Clara o que aconteceu? Aonde você estava? -Levantou-se do sofá e aproximou-se de Clara-
CLARA: Estou bem mãe. Fui andar por aí. Cancele o casamento por favor! -Disse chorosa-
ÉRIKA: O quê? -Assustou-se-
CLARA: É isso. Eu não quero mais casar. -Finalizou em lágrimas-
ÉRIKA: Mas o quê aconteceu filha? -Insistiu-
CLARA: Não aconteceu nada. -Subiu as escadas- 

     Erika subiu as escadas atrás da filha que adentrou o corredor seguindo para seu quarto. Clara tinha que ter um motivo muito grave para entrar em casa chorando e não podia se contentar com sua negativa de que nada acontecera.

ÉRIKA: Claro que aconteceu. -Disse seguindo-a pelo corredor-

     Clara entrou em seu quarto e sentou sobre sua cama irritada e secando as lágrimas.

CLARA: Eu não aguento mais mãe! Eu não aguento mais! -Chorou em desespero-
ÉRIKA: Filha o quê houve? Estou preocupada. -Sentou-se aos pés da cama-
CLARA: A mesma coisa de sempre. A Júlia. -Olhou sua mãe em lágrimas-
ÉRIKA: O que ela fez?
CLARA: Fui na empresa buscar o Victor. Ele tinha reclamado que não tínhamos mais tanto tempo juntos e do plantão fui direto pra lá. Abri a porta e encontrei os dois abraçados mãe! -Elevou o tom de voz- Se eu tivesse demorado mais era certeza de que eles tinham se beijado. -Irritou-se-
ÉRIKA: Clara que absurdo! -Surpreendeu-se- Eu não acredito que depois de anos a Júlia ainda deixe você nesse estado. 

     Na visão de Érika, Clara já conhecendo Júlia não deveria mais se comportar da forma que está se comportando diante de mais uma provocação da ex namorada de Victor. Clara tinha seus momentos de irritação mas sempre conseguiu levar com serenidade à maioria das vezes em que Júlia os provocava. Essa atitude à véspera do casamento era no mínimo esquisito vindo da filha. Clara olha para sua mãe com seriedade e determinada finaliza.

CLARA: Não quero mais casar mãe! Eu não vou aguentar isso! -Disse em um tom cansado-
ÉRIKA: Eu entendo que esteja chateada mas nada disso vai mudar a situação. Tem que se acalmar. Você vai terminar com o Victor mais uma vez por causa disso?
CLARA: Mãe eu não quero a Júlia como um fantasma na nossa relação. -Secou o rosto com as mãos- Ela entra e sai da Engenher quando quer. Como acha que eu vou me sentir?
ÉRIKA: Mas sempre foi assim filha. E você conhece bem o Victor. Já te deu várias provas de amor. Pensa bem meu amor. -Disse serena-
CLARA: Pensar no quê? Cansei mãe! Cansei! Me consumi! -Chorou- Não quero passar de novo o que eu passei com o Victor quando terminamos na primeira vez. Não tenho estrutura para aguentar isso novamente. Eu sei que não terei paz no meu casamento porque nunca vou saber quando a Júlia estará ou não perto dele. Não quero isso pra mim mãe!
ÉRIKA: O Victor jamais faria algo desse tipo. Tenho certeza.
CLARA: Mesmo assim. Eu não suportaria outra situação dessas. Não é a primeira e nem será a última. Não quero mais casar mãe! O encanto se quebrou! Desisti! Não aguento mais viver assim! Chega! Se esgotou! -Gritou-
ÉRIKA: Tudo bem, você não quer casar não se case, mas pensa bem. -Tentou acalmá-la-
CLARA: Já pensei mãe. -Finalizou-
ÉRIKA: Seu casamento é daqui 2 meses, os convites já foram enviados, os padrinhos já foram escolhidos. Quer desistir, desista, mas antes conversa com o Victor. Diga a decisão que tomou sem demorar muito. Se tem certeza de que é isso que você quer fale com ele o quanto antes. Não vou me meter na decisão que tomar. Só quero te dizer que você fará uma grande besteira desistindo e eu me sentirei muito mal em ligar para 500 pessoas adiando um casamento que tem tudo para dar certo. Lamento muito filha, você vai entregar o Victor de bandeja para a Júlia. Vai fazer o que ela quer. -Olhou Clara com tristeza-
CLARA: Não quero mais falar nisso mãe. -Deitou na cama abraçando sua almofada-
ÉRIKA: Pense, reflita. Não deixe a raiva influenciar nas suas decisões. Vai tomar um banho. Depois a gente conversa. -Saiu-

     Érika tem razão. Desistir do casamento seria entregar o seu amor novamente para Júlia. O amor que desde os 14 anos tem lutado para manter. Eles já haviam brigado diversas vezes mas o amor que sentiam um pelo outro sempre possibilitou que permanecessem juntos. Já passaram por situações piores e nem assim tomou uma decisão tão drástica. Talvez estivesse estressada por ter passado à noite acordada no HUE e devesse mesmo pensar á respeito. Érika sentou-se na escada, mais uma vez Clara estava desistindo do casamento por uma bobagem.  Se a filha não consegue lidar com situações corriqueiras como essa, imagina se conseguirá enfrentar uma situação como a que ela enfrentou à 8 anos quando foi obrigada à assumir para o marido e a filha sua infidelidade e ter escondido a paternidade de Clara? Ela sim havia passado por problemas no casamento, já Clara estava sendo mais uma vez, imatura.

     A casa de Olga está movimentada. Elisa e Rômulo foram fazer-lhe uma visita e eles ficaram durante muito tempo na mesa da sala conversando sobre diversos assuntos pertinentes ao momento histórico do Brasil. A crise que o país tem enfrentado deixou Rômulo temeroso em relação ao futuro de sua empresa. Lucas e Fernando se divertiam jogando video-game na televisão próximo à eles. Os dois sim não estão nem um pouco preocupados com a situação que o país está vivenciando. Victor chegou à quase 3 horas, sem falar com ninguém ele se trancou em seu quarto alegando estar com dor de cabeça. Olga nem sequer suspeitou que possa ter acontecido alguma coisa entre o filho e Clara. Estava atenta à conversa dos amigos que à ela muito lhe interessava.

CASA DA FAMÍLIA GRÉGIS DELIBEARRY

     Victor está deitado em sua cama chorando segurando o celular esperando por uma ligação ou mensagem de Clara. Já fez várias tentativas e ela não retornou nenhuma. Mais uma vez, Clara ficou imensamente chateada com a cena que viu. Como está sendo ingênua sentindo ciúme de um evento tão corriqueiro. Não há qualquer problema em um abraço, Victor pensou. Sente-se injustiçado e um sopro de raiva tocou seu coração. Clara não tem um estilo ciumento e nem possessivo. Por quê a cena que viu ocasionou tanta fúria? Pensou diversas vezes em procurá-la para resolver a situação mas sabe que quando fica desse jeito não há qualquer possibilidade de diálogo até que coloque a cabeça no lugar. Á ele só resta agora dormir e esperar pelo dia de amanhã. Lucas saiu do banheiro enrolado na toalha. Eles dividem o mesmo quarto desde que eram adolescentes. Animado, Lucas entrou no quarto e percebeu Victor chorando. Essa é uma cena que ele quase nunca presenciou. Victor não é de chorar, a última vez que o viu fazer isso foi quando terminou com Clara à 5 anos atrás.

LUCAS: Victor você está chorando?
VICTOR: Claro que não! Eu chorar. -Secou as lágrimas-
LUCAS: Está sim que eu sei. -Abriu o guarda-roupa-
VICTOR: O que te importa Lucas?
LUCAS: Nada. -Retirou duas peças de roupa do guarda roupa- Todos nós choramos às vezes. Brigou com a Clara? -Suspeitou-
VICTOR: Briguei. Satisfeito? -Rude-
LUCAS: O que a Júlia aprontou agora? -Vestiu a blusa-

     Lucas acompanhou todo o período de relacionamento do irmão. Só poderia ser Júlia a causadora de sua briga com Clara.

VICTOR: Nada demais. Apenas me deu um abraço na empresa. Clara viu e isso foi o suficiente para que terminasse com tudo.
LUCAS: E o que a Júlia foi fazer lá?
VICTOR: Eu que vou saber?
LUCAS: Liga pra ela. Ela tem que acreditar em você e não na Júlia. -Vestiu a calça-
VICTOR: O Cléris me aconselhou à não falar com ela hoje.
LUCAS: Eu resolveria esse assunto de uma vez. -Abotoou a calça-
VICTOR: Você vai sair? -Perguntou ao ver Lucas se arrumando-
LUCAS: Vou no La Porte. A Aninha me chamou. -Passou seu perfume-
VICTOR: E precisa se arrumar tanto assim? -Estranhou-
LUCAS: A vista ajuda. A Ana disse que gosta de um garoto que não gosta dela, mas não disse quem é. Queria que fosse eu o menino que ela gosta. -Suspirou triste-
VICTOR: Você gosta mesmo dela?
LUCAS: Gosto. -Sentou-se em sua cama- Ás vezes eu acho que ela também gosta de mim. Ás vezes acho que não. Não entendo as mulheres.
VICTOR: Elas são um tanto quanto complicadas. Lucas, sem querer ser indiscreto mas já sendo, vocês nunca ficaram?
LUCAS: Não. Só conversamos como amigos.
VICTOR: Sendo assim você tem que começar a atacar, dar umas olhadas, lançar umas indiretas, conquistar, entende?
LUCAS: Entendo. Já vou Victor.
VICTOR: Lucas? -Chamou-

     Victor virou-se para sua cabeceira retirando de uma das gavetas sua carteira. Ao abri-la, retirou um dinheiro. Apesar de não se darem bem, Victor sempre que pode ajuda o irmão em algumas situação que apresente qualquer dificuldade, conquistar mulheres é uma delas. 

-Toma! -Entregou o dinheiro à Lucas- Se quer conquistar uma mulher, comece pagando a conta.
LUCAS: Valeu Victor! Te pago depois. -Saiu-

     Victor ficou à olhar na cabeceira da sua cama um porta retrato em que está com Clara. Eles tinham acabado de noivar no Vero, restaurante que sempre frequentam. Estavam muito felizes por finalmente poderem concluir um desejo de 8 anos. Desejo este que Clara acabou de jogar à baixo por um ciúme tolo. Ela deveria ter acreditado nele e ignorado a cena como sempre fez. O que deve ter dado na noiva para que tomasse uma decisão tão drástica? Talvez ela não queira mais casar e acabou usando esse fato como desculpa. Imensamente chateado ele desligou o celular e tentou dormir. Amanhã pensará no que fazer, agora, só quer esquecer de tudo que aconteceu.

     Érika está no jardim arrumando a churrasqueira para o dia de amanhã. Geralmente quem fica responsável por esse serviço é Carla, mas ela está ocupada demais arrumando o armário da cozinha. A churrasqueira não é grande e Érika só precisa passar um pano para tirar toda a sujeira que possa ter acumulado de um dia para o outro. Clara e Clarisse não saíram de seus quartos durante toda à tarde. Clara se trancou após conversarem dizendo que tentaria dormir e Clarisse não quis conversar por estar vivenciando todo o sofrimento da irmã. Sônia havia ligado minutos antes para acordar o que teria que levar para o churrasco e Érika acabou comentando sobre o término do noivado de Clara. Sônia até sugeriu que adiassem o compromisso familiar até que a situação se resolvesse mas Érika se recusou. Ventura preza muito os encontros familiares no domingo e não achou justo que deixassem de se reunir por conta de toda a situação. Se à cada vez que alguém tiver um problema deixarem de se reunir possivelmente, só se encontrarão em aniversários e festas de fim de ano. Chateada, Érika fica à passar o pano sobre a churrasqueira pensando na decisão precipitada de Clara. 

CASA DA FAMÍLIA GUIMARÃES DIÁZ

     Carlos abriu o portão de sua casa. Acabou de chegar do vôlei com seu irmão Mariano na praia do Leblon. Eles participam de uma liga de vôlei de praia e costumam jogar todo sábado sem compromisso. Mariano é mais assíduo nos jogos, já Carlos, prefere passar com Clarisse que solicita sempre sua atenção aos fins de semana. Por estar todo sujo de areia, ele entra pela garagem que dá para o jardim, não quer sujar a casa que Carla com tanto esforço limpou. Érika também viraria uma fera se o visse entrar naquele estado e subisse para o quarto. Carlos batendo suas mãos em seu short para retirar o excesso de areia passa pela porta e encontra Érika limpando a churrasqueira, atitude essa, muito estranha. O quê teria dado em sua mulher para estar limpando a churrasqueira se isso sempre foi função da Carla? Ele então aproximou-se curioso.

CARLOS: Érika? Já está arrumando as coisas para o churrasco de amanhã? -Tirou a camiseta-
ÉRIKA: Quis facilitar para Carla que está agarrada lá dentro arrumando o armário.

     Carlos percebeu Érika chateada. Teve uma atitude bastante generosa querendo poupar Carla de um esforço desnecessário, mas algo mais aconteceu e por isso ela atreveu-se à limpar a churrasqueira.

CARLOS: O quê aconteceu? -Preocupou-se-
ÉRIKA: Clara brigou com o Victor.
CARLOS: De novo?
ÉRIKA: Ela foi na empresa fazer essas surpresinhas que sempre dão problemas e os viu abraçados. Claro que a Júlia tirou proveito da situação. A Clarisse já havia avisado que isso iria acontecer. Enfim... Clara viu e decidiu terminar o noivado.
CARLOS: Como assim terminar o noivado? Por causa de um abraço? -Espantou-se-
ÉRIKA: É. -Entristeceu-se-
CARLOS: A Clara enlouqueceu! -Indignou-se-
ÉRIKA: Ela está cansada de tudo que já fez para manter esse relacionamento.
CARLOS: Eu vou lá falar com ela.
ÉRIKA: Você não vai subir com essa roupa toda suja de areia.
CARLOS: Vou colocar outro calção.

     Carlps entrou no banheiro do jardim para se trocar, lá ele guarda algumas roupas justamente para estas situações.  Érika que havia terminado de passar o pano pelo menos umas 20 vezes sobre a churrasqueira voltou-se para uma pilha de pratos sobre a pia ao lado. Imediatamente, começou à lavá-los, precisava aliviar sua preocupação com tudo que aconteceu ou não conseguirá dormir por toda à noite. Terá um trabalho imenso em cancelar toda festa que já está praticamente paga, pior ainda vai ser reaver todo esse dinheiro gasto caso Clara realmente insista em manter essa decisão. É melhor não pensar nessas coisas por enquanto. 
      Clarisse está deitada em sua cama, sentindo tudo que a irmã sente, está com raiva de toda a situação. Ela nem desceu para lanchar. Como tem raiva de Júlia por ter provocado toda essa confusão. Se pudesse, iria na casa dela e diria poucas e boas mas nada adiantaria, não ia passar de uma fedelha petulante e ninguém lhe daria ouvidos. Triste, Clarisse se levanta de sua cama e dirige-se ao quarto da irmã. Espera que ela tenha destrancado a porta. Clara está deitada em sua cama abraçada à seu travesseiro. Não conseguiu dormir e também não conseguiu descer para comer qualquer coisa ainda que por insistência de Érika. Clarisse abre a porta e fica à olhá-la. Clara ao perceber alguém na porta vira-se e vê Clarisse.

CLARA: Oi princesa! Vem cá! -Chamou carinhosa-

     Clarisse entrou e sentou-se ao lado da irmã.

CLARISSE: Eu tentei te avisar, mas não deu tempo.
CLARA: Eu sei. -Sentou-se-
CLARISSE: A Júlia quer separar vocês. Eu sei.
CLARA: Eu também sei.
CLARISSE: E então?
CLARA: Não quero que você sofra.
CLARISSE: Então não sofra por uma bobeira. O Victor te ama. Ele sempre te amou. Eu sinto aqui no coração. -Colocou as mãos sobre o peito-
CLARA: Eu vou ficar bem tá. -Acariciou o rosto da irmã-

     Clara tinha realmente que ficar bem para que a irmã não captasse sua tristeza e sofresse como ela está sofrendo.

CLARISSE: Você não vê que sua felicidade depende do Victor? Casa com ele Clara!
CLARA: Vou pensar.
CLARISSE: Se o Victor fosse mau você acha que eu ia te deixar casar com ele? Não ia te avisar e te deixar sofrer? Jamais!
CLARA: Eu sei disso Cla. Eu sei. -Sorriu com tristeza-
CARLOS: Posso entrar? -Abriu a porta-
CLARA: Pode pai. Entra.
CARLOS: Filha, dá uma licencinha pra eu conversar com sua irmã? -Dirigiu-se à Clarisse-
CLARISSE: Eu volto depois.
CLARA: Tá bom!

     Clarisse retirou-se do quarto da irmã e Carlos sentou-se à seu lado.

CARLOS: Eu acho que a gente deveria conversar sobre sua decisão.
CLARA: Não quero mais me casar pai. Eu não aguento mais sabe? Não aguento mais. -Disse já cansada-
CARLOS: Eu sei. Me diz o que eu posso fazer pra não te ver chorar?
CLARA: Vai passar pai. Não é a primeira vez que terminei com o Victor.
CARLOS: Você não terminou um namoro, terminou um noivado.
CLARA: Não tenho outra opção.
CARLOS: Escute o Victor filha.
CLARA: Eu já sei tudo que ele vai me dizer.
CARLOS: Você realmente acredita que ele seria capaz de se envolver novamente com a Júlia como você está pensando?
CLARA: Não. Não sei. Estou tão confusa pai. -Titubeou-
CARLOS: Pense, pense muito bem. Sua mãe não adiou o churrasco de amanhã.
CLARA: Não tem porquê deixarem de se divertir por minha causa. Só que eu não vou descer.
CARLOS: Vai ficar trancada aqui?
CLARA: Não quero ter que ficar dando explicações à ninguém.
CARLOS: Tudo bem. É um direito seu não querer falar no assunto. Só quero que pense. É um noivado que você está terminando. Um noivado de 2 anos. Pensa bem. Pode não ter mais volta.
CLARA: Acredito que não vou me arrepender.
CARLOS: Eu acho que vai.
CLARA: Não vou pai. -Afirmou segura-
CARLOS: Se você pensa assim... Eu vou descer. Te amo muito filha. -Sorriu-
CLARA: Eu também pai.
CARLOS: Um beijo princesa. -Deu-lhe um beijo na testa e retirou-se do quarto- 

     Clara virou-se novamente para o lado oposto da porta e abraçou seu travesseiro. Talvez devesse mesmo estar sendo uma tola em jogar seu noivado para o alto. Victor já havia lhe dado diversas provas de amor durante o tempo que ficaram juntos. Ele nem sequer se relacionou sexualmente com Júlia na certeza de que a teria de volta. Por quê irritar-se com um simples abraço? 

    Lavinha está passeando com Eduarda no Jardim Botânico, com toda paciência ela mostra todas as plantas existentes no jardim para aquela criança sapeca e inquieta que está à questionar tudo o que vê. Como Cléris se ausentou a manhã toda por conta do projeto da empresa, ela decidiu ir rapidamente à sua mãe para entregar-lhe as compras para o churrasco de domingo em sua tia Érika. Sem conseguir ficar muito tempo, tomou apenas um café e saiu com a desculpa de que levaria Eduarda para dar uma volta já que era um belo sábado de sol. Eduarda ouviu o comentário de sua mãe e cobrou o tal passeio que ela nem sabia qual era. Lavinha queria era ficar em casa em um sábado à tarde já que passará o domingo todo na casa de sua tia bêbada como sempre. Com toda a insistência de Eduarda ela resolveu dar uma volta no Jardim Botânico, lugar que sempre gostou de ir desde que era ainda uma adolescente. São seis horas da tarde, Lavinha caminha de mãos dadas com Eduarda pela calçada, estão indo para casa após um dia de muitas brincadeiras. Ela e Eduarda se entendem muito bem, Eduarda admira sua mãe e Lavinha não deixa de agradecer um dia sequer por aquele serzinho que pôde ganhar dos céus. Eduarda veio preencher todo aquele vazio deixado após o aborto que sofreu quando tinha 15 anos. Em risadas ela ela entra na portaria, cumprimenta Luiz e chama o elevador.  Eduarda às vezes faz alguns comentários e ela sempre ri como uma maluca. 

CASA DA FAMÍLIA DIÁZ FERREIRA

     Lavinha entra pela porta da sala com Eduarda. A casa está silenciosa, Cléris deve ter ido direto para sua mãe e ainda não chegou. Se estivesse em casa, com certeza sua cozinha estaria uma bagunça, mas ela estava tão organizada como quando saíram de manhã. Eduarda chama por seu pai. Quem sabe ele está no andar de cima?

EDUARDA: Papai? Papai? -Gritou-
LAVINHA: Psiu não grita! Ele não deve ter chegado ainda. -Colocou as chaves sobre o balcão de sua cozinha americana-
EDUARDA: Posso ver televisão aqui?
LAVINHA: Pode, mas baixinho. Mamãe vai tomar banho e depois você vai.
EDUARDA: Tá bom mamãe. -Sentou no sofá e ligou a televisão-

     Lavinha subiu dirigindo-se à seu quarto. Colocou a bolsa sobre seu cabideiro e pegou seu roupão no mesmo lugar colocando sobre à cama. Vagarosamente, começou a despir-se. Nua, começou a olhar-se no espelho. Até que estava com um belo corpo para quem vive alimentando-se de bobagens e carboidratos. Outras já teriam engordado pelo menos uns 20 quilos. Vestiu seu roupão azul e dirigiu-se ao banheiro. Ao abrir a porta, deparou-se com Cléris que pareceu ter dormido na banheira. Quase não conseguia vê-lo em meio à toda espuma que só deixou seu rosto de fora. Com seu roupão entreaberto e deixando parte de seus seios e de sua intimidade à mostra ela encosta na porta e pergunta:

LAVINHA: Será que eu caibo aí?

     Cleris assustou-se ao ouvir a voz e Lavinha e abriu os olhos. Ele realmente havia cochilado enquanto tomava seu banho.

CLÉRIS: Claro doutora. Vem. -Fitou-a já excitado-

     Lavinha havia ficado deveras sexy e provocante vestida daquela forma. Ela então retirou seu roupão e jogou no chão do banheiro deixando seu corpo à mostra. Mesmo com 5 anos de casados eles ainda conseguem manter alguns jogos de sedução  o que não deixa o relacionamento cair na rotina. Lavinha com certeza estava provocando-o para algo mais à noite se Eduarda não atrapalhar indo para o quarto com medo.  Cléris ajudou Lavinha à entrar na banheira que não é lá muito confiável. Ambos já se machucaram feio nela por conta de ser escorregadia. 

LAVINHA: Achei que não tivesse ninguém em casa. -Deu-lhe um beijo-
CLÉRIS: Cheguei já tem um tempo e você? 
LAVINHA: Fui dar uma volta com a Eduarda no Jardim Botânico. -Deitou-se à seu lado-
CLÉRIS: Então você não está sabendo das novidades.
LAVINHA: Que novidade? -Curiosa-
CLÉRIS: Júlia esteve lá na empresa. Entrou na sala do Victor e Clara os pegou abraçados. Jogou a aliança fora dizendo que o noivado tinha acabado.
LAVINHA: Tem pessoas que nascem com o dedo ruim. Clara foi uma dessas. Ela nunca teve tranquilidade desde que começou a namorar o Victor.
CLÉRIS: Também, tirando sua prima, ele só se relacionou com gente doida. 
LAVINHA: Não acho que a Júlia e Angélica sejam doidas.
CLÉRIS: Angélica sempre foi possessiva e a Júlia tem dificuldade em perder. Se isso não é doideira eu não sei o que pode ser.
LAVINHA: A verdade é que Clara está cheia. Não aguenta mais a Júlia. Eu falei que se ela quiser matar eu dou o maior apoio. Sou criminalista. A tiro da cadeia em 2 tempos.
CLÉRIS: Acho que ela não é tão doida quanto você.
LAVINHA: Não é doideira. É defesa pessoal.
CLÉRIS: Cadê a Eduarda?
LAVINHA: Na sala vendo televisão. Estou cansada sabia?
CLÉRIS: Eu também. Aquela empresa me matou hoje.
LAVINHA: Isso é um enorme prejuízo. -Beijou-o com sedução-

     Um chamado de mamãe interrompe o momento romântico de Lavinha e Cléris. É Eduarda que parece ter um radar para detectar os momentos de intimidade de seus pais. Indignada ela entra no banheiro à procura de sua mãe para reclamar que a TV à cabo mais uma vez tinha saído do ar.

EDUARDA: Mamãe? -Chamou da porta do banheiro- Papai você já estava aí ou foi mágica? -Perguntou ao ver seu pai-

     Eduarda não sabia que seu pai estava em casa. Lavinha havia dito assim que chegou que ele ainda não havia chegado.

CLÉRIS: Papai já estava aqui gatinha.
LAVINHA: Fala filha. O quê foi? 
EDUARDA: A televisão saiu do ar.
LAVINHA: Televisão? Deixa ela pra lá. Vai brincar no seu quarto.

     Eduarda colocou a mão na água da banheira.

EDUARDA: Está quentinha. Deixa eu entrar também?
LAVINHA: Ai não acredito! -Disse em descontento-

     Eduarda iria atrapalhar toda sua cena para Cléris mais à noite. Às vezes sente saudades de quando ainda eram adolescentes e tinham um pouco mais de privacidade. Desde que teve filha tem que ficar escolhendo o momento mais propício para se relacionar intimamente com o marido. 

- Vem filha. Tira a roupa sem jogar no chão. 

     Eduarda tirou rapidamente sua roupa. Além de adorar banho de banheira, atividade que não realiza com frequência, adora estar junto à seus pais.

CLÉRIS: Vem cá. -Esticou a mão para ajudar a filha a entrar na banheira- Cuidado pra não cair.
EDUARDA: Que água gostosa. -Disse ao sentar-se-
LAVINHA: Sem jogar água! -Avisou-

     Eduarda deitou-se sobre o colo de seu pai e começou a contar sobre seu passeio no Jardim Botânico e sobre o que aprendeu com sua mãe em relação as plantas que lá existiam. Cléris gargalhou com alguns comentários engraçados feito pelo filha enquanto Lavinha corrigia algumas pronuncias erradas de Eduarda.

     Ventura dirige seu carro pela Lagoa. Acabou de sair da Reviver, estava desde de manhã atendendo seus adolescentes. Ele não é funcionário da clínica, mas por ter um grupo de pesquisa e intervenção junto à Leonardo, precisa estar lá todos os sábados. Em 8 anos a Reviver mudara muito. Quando Angélica ficou internada, ela era uma clínica psiquiátrica particular que tinha a ideologia da internação e segregação. Os pacientes ficavam isolados em seus quartos ou no jardim principal no interior da clínica sem qualquer atividade que pudessem tirá-los daquele quadro. Angélica sem qualquer possibilidade de entrar em contato com aquilo que na época lhe causava tranquilidade como suas poesias, música e desenhos, tentou suicídio 3 vezes enforcando-se com um lençol. A Reviver não permitia a entrada de qualquer material que pudesse representar risco á vida dos que ali estavam. Seus lápis coloridos, seu violino e suas tintas para pintura era um desses materiais perigosos. A única coisa que Angélica pôde levar para a clínica foi seu urso de pelúcia e o amuleto dado por seu pai que dava certo aconchego naquele lugar que para ela era tão sombrio. Classificada como uma paciente altamente agressiva, passou sedada e sem qualquer possibilidade de verbalização praticamente todos os meses que ficou internada. Ventura viu a filha se sucumbir naquele lugar e foi então que solicitou que Leonardo que cuidasse dela. Eles trabalhavam juntos na Climédia e por Leonardo ter todo um trabalho com psicóticos por meio da arte achou que ele seria a salvação para o silêncio em que Angélica se encontrava. E foi. A Reviver não aceitou de inicio que um psiquiatra particular ficasse responsável por uma paciente internada já que a clínica tinha seus próprios profissionais, mas Ventura entrou com um pedido judicial e a Reviver acabou tendo que aceitar sob o risco de ser fechada por negligência. Se Angélica é o que se tornou hoje deve agradecer imensamente à Leonardo que através da arte conseguiu resgatá-la daquele mundo silencioso em que estava. Nas folhas de papel pintadas com giz ela conseguia expressar todo o seu silêncio. Se não fosse toda a sensibilidade de Leonardo para traduzir tudo o que Angélica queria dizer através de suas poesias e melodias tocadas no violino, talvez ela ainda estivesse internada e sem qualquer contato verbal. Seria mais uma dos inúmeros pacientes alienados que ali se encontravam. Com o sucesso na conduta terapêutica com Angélica, ele acabou sendo chamado para realizar alguns trabalhos artísticos com os psicóticos sem comunicação verbal e após 5 anos acabou assumindo a direção. Hoje a Reviver não é mais uma clínica psiquiátrica de portas fechadas, ela tem o setor de internação mas as pessoas que ali fazem tratamento tem livre acesso o que a tornou mais humanizada. Ventura sente-se feliz por estar desenvolvendo um trabalho significativo com o público adolescente que ali estão. Trabalhar com eles é como se resgatasse toda sua história com Angélica. Ele foi obrigado á afastar-se dela enquanto estava internada porque segundo os psiquiatras, sua presença a deixava transtornada. Aqueles adolescentes que ouvem vozes não deixa de ser uma lembrança de Angélica quando ainda tinha 14 anos, cuidando deles é como se estivesse cuidando da própria filha por isso, trabalha com tanta dedicação.
     Mesmo com um sorriso estampado no rosto e uma serenidade natural, Ventura carrega dentro de si a responsabilidade por ter sido a peça chave no processo psicótico de sua filha. Seu amor por ela era tão intenso que acabou por criar uma relação totalmente simbiótica ao ponto de Angélica não se reconhecer como pertencente ao mundo e tentar por diversas vezes suicídio. Um longo processo terapêutico o ajudou a reconhecer todas as suas fragilidades e toda a personalidade permeável da filha que aos poucos vem conseguindo se diferenciar da figura paterna. Apesar dele saber da importância do afastamento entre eles, é muito difícil lidar com isso. Angélica vem fazendo mais avanços que Ventura nesse quesito, claro que ainda carrega algumas dependências afetivas que voltou-se para o uso abusivo de medicamentos e bebidas alcoólicas mas ao menos, não precisa mais do pai para caminhar sozinha, já ele, apesar de esconder, ainda precisa daquela garotinha tão geniosa à seu lado para que se sinta preenchido, assim ele entra no condomínio.

CASA DA FAMÍLIA MERCANTELLY ALVES

     Angélica e Eduardo estão encostados no carro em frente ao portão de sua casa. Ela está tentando convencer o namorado à subir mas ele está mais interessado em dar-lhe uns amassos. Apesar de fogosa, Angélica sente-se cansada para esse tipo de coisa. Eles passaram uma tarde inteira juntos, Eduardo parece não ter esgotado suas energias na transa que tiveram horas atrás. 

ANGÉLICA: Ai Edu! Pára! -Disse afastando-se de seus beijos no pescoço-  Não é possível que você ainda esteja nesse fogo todo. -Reclamou-
EDUARDO: Eu te amo sabia? -Beijou-a-

     Enquanto beija-a, suas mãos correm por toda sua cintura. Ventura que dirige até sua garagem fica à olhá-los com certo incômodo. Como é difícil para ele ver qualquer homem tocar sua filha. Ele deveria ficar feliz por saber que Angélica hoje consegue fazer laços sociais saudáveis mas não é assim que ele se sente. Ver sua filha se relacionando com qualquer pessoa do sexo oposto é para ele muito doloroso. Sem focar nesses pensamentos que o deixa bem chateado, em uma brincadeira, joga o carro para cima de Eduardo e Angélica que sequer repararam sua chegada.

VENTURA: Vou atropelar hein! -Disse da janela-

    Angélica e Eduardo assustaram-se com o carro que estava quase que em cima da calçada. Ventura abriu o portão da garagem.

ANGÉLICA: Oi paizinho! -Cumprimentou-o com seu tom infantil-

     Ventura estacionou seu carro na garagem. Angélica e Eduardo o acompanhou. Finalmente Eduardo aceitou subir para tomar pelo menos uma água.

VENTURA: Chegamos juntos? -Saiu do carro-
ANGÉLICA: É. Fui buscar o Edu no CAIS né bem?
EDUARDO: Me fez surpresa professor. -Abraçou-a-
VENTURA: Vamos subir.

     Eduardo, Angélica e Eduardo subiram as escadas que dá para a enorme sala do primeiro andar. Como todo sábado à casa é sempre silenciosa quando Angélica não está. Com toda sua agitação é impossível abrir a porta e encontrar aquele silêncio. Ao subir as escadas para o segundo andar, Sônia está saindo da cozinha com uma garrafa de café. Ela está arrumando a mesa para o lanche da tarde. 

SÔNIA: Oi Tura! -Beijou-o- Vieram juntos? -Perguntou ao ver Angélica e Eduardo entrando em seguida-
VENTURA: Não. Nos encontramos no portão.
ANGÉLICA: Tem comida pra gente? Estou morrendo de fome. Vem Edu! -Puxou-o- Vamos ver o que tem na geladeira. 

     Entrou com Eduardo na cozinha que dá de encontro para a sala. Ventura sentou-se à mesa, não esperava que teria uma mesa de café posta à sua espera tão prontamente.

SÔNIA: Tem bolo de chocolate filha. 

     Gritou para que Angélica ouça já que acabara de entrar na cozinha.

ANGÉLICA: Delícia! -Respondeu da cozinha ao ouvir sua mãe-
SÔNIA: Liguei pra Erika. -Sentou-se à mesa- Falei que vou levar as carnes amanhã. -Pegou a xícara colocando um pouco de café-
VENTURA: Ótimo! Espero que não chova. -Serviu-se-
SÔNIA: Na casa dela está caindo um temporal tremendo.
VENTURA: Temporal? Que isso Soninha! Não está nem chovendo.

     Ventura estranhou o comentário da esposa. Como poderia estar chovendo se moram no mesmo condomínio? Ele não entendeu a associação linguística feita por Sônia. Ela havia ligado para a casa de Érika para combinar o que deveria levar para o churrasco familiar de domingo e Érika acabou dividindo com Sônia o que aconteceu com Clara e Victor.

SÔNIA: A Clara brigou com o Victor e disse que terminou o noivado.
VENTURA: O quê? Terminou o noivado? -Assustou-se- 
SÔNIA: Palavras da Érika.
VENTURA: Ela disse o por quê? -Continuou à comer-
SÔNIA: Pelo que sei a Júlia foi na empresa do Victor e a Clara acabou vendo-os juntos.
VENTURA: E aí ela já imaginou um monte de coisas.
SÔNIA: Só sei que a coisa ficou feia. Clara saiu da empresa super irritada dizendo que o noivado tinha acabado.
VENTURA: Mais essa agora! Estava tudo indo tão bem.

     Angélica saiu da cozinha com Eduardo e entrou na sala. Eles reviraram a geladeira toda à procura de alguma coisa para comer. Eduardo levou o champanhe mas esqueceu de levar os aperitivos para o passeio marítimo e Angélica não estava mais do que esfomeada. Sem encontrar algo que os agradasse acabaram retirando da geladeira o bolo de chocolate que Sônia passou à tarde toda confeitando para esperá-los. Eduardo comeu seu bolo na cozinha mesmo já Angélica entrou na sala carregando um prato com bolo e um copo de leite. 

ANGÉLICA: Mãe o Edu adorou o bolo. -Comentou-
EDUARDO: Maravilhoso Soninha! Como tudo que você faz. -Sorriu-
ANGÉLICA: Você não podia arranjar genro melhor mãe. -Acariciou com ternura o rosto de Eduardo-
SÔNIA: Estou vendo. -Sorriu-

     Angélica sentou-se à mesa junto com seus pais enquanto Eduardo ficou atrás de sua cadeira esperando que terminasse seu lanche. Sônia e Ventura não deixam de estar preocupados com o término do noivado de Clara. Se ela levar à sério mesmo essa ideia será o fim de todo um planejamento de quase 1 ano e em silêncio eles ficam à lanchar. Angélica incomoda-se com a situação. Sempre que chegam Sônia é tão receptiva e comunicativa e todo aquele silêncio em plena mesa de lache não é nada normal.

ANGÉLICA: Aconteceu alguma coisa?
VENTURA: Aconteceu filha. -Disse em um lamento-
ANGÉLICA: Ai meu Deus! Deixa eu parar de comer para receber a notícia. -Brincou- Quem morreu?
VENTURA: Ninguém morreu Angélica! Pára de brincar. -Irritou-se-

    Angélica sempre tem o costume de fazer um comentário ou uma brincadeira em momentos em que não são propícios, atitude essa que irrita muito Ventura. Angélica tem conseguido progressos no processo de fazer alteridade, processo esse inexistente quando era adolescente, mas mesmo assim, em alguns momentos ela ainda tem dificuldade em captar de imediato o quanto uma situação pode ser complicada e dolorida e se solidarizar com ela.

ANGÉLICA: Então fala gente! Gosto de suspense só em filme, na vida real não. -Insistiu curiosa-
VENTURA: Sua irmã brigou com o Victor.
ANGÉLICA: E por isso estão com essas caras? -Disse com naturalidade-

    Por quê uma briga com Victor seria motivo para deixar os pais com aquelas caras de preocupação? Em 8 anos já acompanhara várias brigas dos dois que nunca deram em nada além de alguns dias sem se falar. Nessa calmaria ela continua:

Em 8 anos de namoro eles devem ter brigado pelo menos... -Pensou- deixa eu contar -Contou nos dedos- ... umas 200 vezes.
VENTURA: Ela terminou o noivado.
ANGÉLICA: O quê? A Clara pirou? Faltam 2 meses para o casamento. -Indignou-se-

     Em um relance, Angélica parece ter se dado conta que o problema era mais sério do que pensava. Clara já havia sim brigado com Victor inúmeras vezes mas em nenhuma delas passou pela cabeça romper com o noivado.

VENTURA: Pois é.
ANGÉLICA: Por quê?
VENTURA: Ela viu a Júlia e o Victor juntos na empresa.
ANGÉLICA: Tinha que ser. Ai! Eu vou matar essa garota! Que raiva! -Levantou-se da mesa irritada-
VENTURA: Não vai matar ninguém não. Senta aí. -Segurou o braço da filha-

     Angélica sentou-se irritada. Apesar de se relacionar bem com Júlia, não permite que ela faça qualquer sacanagem com sua irmã. Já brigaram de discutir diversas vezes por Angélica tomar as dores da irmã e entrar de cabeça em uma briga para defendê-la.

ANGÉLICA: Quando eu encontrar a Júlia na rua ela vai ver. Vou deixar ela roxa. Mexeu com a minha irmã mexeu comigo. Deixa ela. -Disse ofegante-
VENTURA: Você vai acalmar esses ânimos e sossegar. Não vai fazer nada com a Júlia. Não é problema seu.
ANGÉLICA: Claro que é! Clara é minha irmã! -Gritou-
VENTURA: Angélica não se mete nisso filha. Você pode piorar ainda mais as coisas. Eu sei que você adora uma briga. Vai devagar tá. -Fitou-a com ternura-

     Angélica entendeu o olhar de seu pai e acalmou-se. De fato, todas as vezes que partiu em defesa da irmã a situação acabou se agravando. Ela deveria se controlar.

EDUARDO: Eu amarro ela professor. Pode deixar. -Brincou-
ANGÉLICA: Se a Clara terminar o noivado eu nunca vou ser madrinha. Clara vai ter que casar sim! Comprei até vestido que me custou muito caro. -Reclamou-

     Ventura e Sônia se entreolharam-se descontentados com a fala de Angélica. Mais uma vez ela não estava conseguindo entender a gravidade da situação. Não era possível que diante de uma situação dessas ela esteja se preocupando com vestido.  Angélica prossegue com a sua indagação:

- Eu até voltei a tocar violino só pra tocar no casamento dela. Não é possível que ela não pense em todo o meu esforço. 

     Ventura e Sônia voltaram à comer sem dar atenção à conversa da filha. Angélica ao perceber o silêncio dos pais deu-se conta do quanto está sendo egoísta ao não se solidarizar com a situação da irmã fazendo reclamações tão triviais.

- Estou sendo inconveniente não estou?
VENTURA: Está! -Disse com contundência-
ANGÉLICA: Desculpa. Não sei o quê dizer.
VENTURA: Fica quietinha então. Come seu bolinho. Toma seu leite.
ANGÉLICA: Sempre tem uma mulher pra infernizar a vida da gente não é Eduardo Shuverfest? -Olhou provocativa para Eduardo-

     Eduardo fingiu não ter percebido o olhar de Angélica. É claro que ela estava se referindo á Larissa e à todas as brigas que tiveram por ela simplesmente só cumprimentá-lo e ele não daria corda à esse tipo de conversa. Conhece bem Angélica e sabe que isso poderá ocasionar uma intensa discussão. Ventura que percebeu o tom provocador de Angélica intervém antes que Eduardo possa responder qualquer coisa.

VENTURA: Angélica. -Olhou-a com seriedade-
ANGÉLICA: Tá bom. -Disse ao perceber sua inconveniência- Vou comer no meu quarto. Vem Edu. -Chamou- Vamos assistir alguma coisa na TV. -Levantou-se da mesa-
EDUARDO: Com licença. -Despediu-se-
SÔNIA: Tem toda Edu.

     Angélica com seu bolo na mão e seu copo de leite, adentrou junto com Eduardo, o corredor que dá para seu quarto. Ventura mesmo conhecendo o jeito de ser de Clara não deixa de ficar preocupado. Teme que a filha não volte atrás na decisão de reatar o noivado. Geralmente quando toma uma decisão tão séria como essa, é pra sempre.

VENTURA: Não estou acreditando que a Clara vai fazer isso. -Lamentou-
SÔNIA: A Érika disse que ela esta irredutível.
VENTURA: Tudo marcado. Tudo certo!
SÔNIA: Que situação! -Suspirou-

     Ventura e Sônia ficaram à pensar sentados à mesa. Como algo desse tipo poderia acontecer às vésperas do casamento? Clara e Victor estavam se dando tão bem e Júlia parecia ter dado um sossego para os dois. O que à levou ter ido à empresa exatamente no dia que Clara resolveu encontrar Victor lá? O destino não facilita mesmo para ela.

     São 8 horas da noite e o La Porte encontra-se bastante movimentado por conta da música eletrônica que tem feito o maior sucesso com o público nos sábados à noite. O condomínio está tão cheio que quase não tem lugar para estacionar e o porteiro teve que limitar a entrada dos carros no estacionamento. A preferência ainda é dos moradores que precisam ter livre acesso para entrar e sair sem quaisquer transtornos. 

LA PORTE

     Bianca, Júlia Virgínia, Pedro e Mariane conversam em uma das mesas externas do La Porte já que o barulho na área interna está praticamente insuportável. Mariane ainda é a melhor amiga de Clara mas isso não é impeditivo para que ela não possa sentar-se com Júlia e jogar conversa fora. Clara nunca fizera esse tipo de exigência nem com Mariane e nem com Angélica, nenhuma delas tem que deixar de ter relações com Júlia apenas por serem suas amigas. Elas até saem juntas algumas vezes para badalar. Júlia não contou para ninguém da mesa o que aconteceu na empresa, estava falando sobre a exigência de seu pai em querer que volte para a faculdade nem que seja para cursar outro curso quando na verdade, ela quer arrumar um emprego qualquer e ter dinheiro para bancar seus caprichos muitas vezes negado por seu pai.

BIANCA: Olha Jú, eu não sou de dar muita razão para o seu pai não, mas acho que nesse ponto ele esta coberto de razão. Você deveria voltar a estudar e terminar a faculdade.
JÚLIA: Eu não tenho paciência para conviver com aqueles pirralhos.
BIANCA: Deixa de ser boba Júlia que eu já vi lá uns garotinhos de 20, 21 anos umas gracinhas.
JÚLIA: 20, 21 anos? Eu lá pego garoto dessa idade?
VIRGÍNIA: Menina, dizem que os novinhos são os melhores.

     Virgínia é a melhor amiga de Júlia. Ela é filha de Mauro, dono da Engenher. Ambas cursaram os primeiros períodos da faculdade de comunicação juntas, Júlia já estaria perto de se formar se não tivesse desistido. 

PEDRO: Sou uma criancinha de colo perto das 3. Cuidado com as 2 professoras que você arrumou que elas podem te ensinar coisas que você nem imagina Bianca.
VIRGÍNIA: Que isso Pedro! Você se engana com a Bianca? Em algumas matérias ela pode até lecionar para a universidade. -Brincou-
PEDRO: Uma semana na UFTS e você esquece o Victor rapidinho Júlia.
JÚLIA: Quem disse que eu quero esquecer o Victor? Que mania vocês tem de achar que eu estou apaixonada pelo Victor.
VIRGÍNIA: E não está não?
JÚLIA: Eu sou apaixonada por ele sim qual e o problema? Você acha o quê? Que eu vou agarrar o Victor na frente daquela noivinha dele? Dar minha cara a tapa? -Irritou-se-

     Anabela e Lucas saem da casa de Elias após tê-lo convencido à ir ao La Porte já que Júlia estaria lá. Diferente de seu irmão, Pedro, não é muito voltado para saídas noturnas e bebedeiras. Tem um objetivo que é terminar sua faculdade que já cursa à 6 anos. Por ser mais novo que Júlia nunca recebeu dela qualquer reciprocidade sobre o que sente. Júlia não se relaciona com meninos mais novos que ela e mesmo tendo falado isso inúmeras vezes para Elias, ele ainda continua com seu sentimento sem saber do interesse de Bianca por ele.

ELIAS: Oi gente! -Cumprimentou-
BIANCA: Oi Elias! Oi Ana! Oi Lucas!
JÚLIA: Como está seu irmão depois da briga com a Clara? -Perguntou para Lucas-
LUCAS: Eles vão voltar. -Sentou-se junto com Anabela e Elias-
JÚLIA: Clara cheia de possessão. Deus me livre!
LUCAS: Você também não larga do pé dela.
JÚLIA: Ihh você também com esse papo Lucas?
MARIANE: A Clara brigou com seu irmão Lucas? -Espantou-se-

     Clara ficara tão chateada com tudo que aconteceu que não teve tempo de informar à melhor amiga sobre os últimos acontecimentos.

LUCAS: Brigou. A Clara viu o Victor e a Júlia se abraçando na empresa.
JÚLIA: Só estava me despedindo dele. Fui lá dar um oi para o Mauro e o resto do pessoal. Acabei encontrando o Victor lá também.
LUCAS: Claro.
MARIANE: Você também hein Júlia! -Repreendeu-a-
JÚLIA: Gente foi só um abraço. A Clara que é maluca e fica fazendo cena.
MARIANE: Vocês vão pedir alguma coisa?
ELIAS: O que tem aí no cardápio? 
PEDRO: Eu quero vodka.
JÚLIA: Olha ele, cheio de segundas intenções.
PEDRO: Hoje eu quero ficar bêbado.

     Elias pegou o cardápio sobre a mesa e ficou à olhá-lo junto com Anabela e Lucas. Mariane solicitou que Júlia desse detalhes sobre o que ocasionou a briga da melhor amiga com Victor. Como Clara poderia ter encontrado Júlia logo nesse dia? Não podia ser coincidência, com certeza Júlia sabia de alguma coisa. 

     O sol nasce trazendo novas possibilidades para uma noite que não fôra muito boa. Pedro embebedou-se tanto com as vodkas que tomou no La Porte que passou mal à noite inteira. Mariane que tinha planejado uma noite íntima terminou a madrugada socorrendo Pedro que só conseguiu dormir às 5 da manhã. Clara e Victor também tiveram uma noite de intensa insônia. Tudo o que Clara queria era poder dormir após um plantão puxado no HUE na madrugada anterior mas com tudo que aconteceu sua noite de sono foi marcada por picos de tristeza. Ela havia ficado tão tensa que em alguns momentos sentia seu corpo tremer por conta de todo o cansaço e estresse que passou. Com muita resistência, tomou um calmante para que pudesse ao menos relaxar. Victor mesmo tendo ido dormir mais cedo do que de costume, acordou às 2 da manhã e sem sono, ficou na praça tentando entender todos os sentimentos que rondavam em seu coração. Não conseguia definir se sentia medo, raiva ou indignação pela atitude incompreensível de Clara. Ela já havia presenciado outras situações assim e agiu de uma forma mais natural. Ela iria brigar, ficar emburrada mas não romperia o noivado apenas por um simples abraço. O que será que aconteceu é a pergunta que não saiu da sua cabeça.
      São 10 horas da manhã, algumas crianças se divertem no play e na piscina do condomínio. Ventura e Angélica saem de casa carregando algumas sacolas. Angélica queria ficar dormindo até as duas da tarde como sempre faz, mas seu pai fez questão de acordá-la às 9 para que se arrumasse para o churrasco em família de todo domingo. Desde que resolveu suas desavenças familiares com Érika, Ventura achou que seria uma boa ideia manter a família unida e a melhor forma de promover esse momento é reunindo todos em volta de uma mesa de carne todo o domingo. Angélica obviamente odiou a ideia. Seu pai faz disso um ritual sagrado e ai dela se faltar por qualquer motivo que seja. Mau humorada por ter levantado cedo, ela segue com ele  reclamando e carregando algumas bolsas com refrigerantes e guloseimas para a casa de Érika.

CASA DA FAMÍLIA GUIMARÃES DIÁZ

      A casa de Érika está movimentada. Paula, Mariano, Lavinha, Cléris e Eduarda já chegaram junto com Marlene e Daniel. Enquanto Filipi brinca com Eduarda na beira da piscina, Mariano fica à ajudar Carlos a acender a churrasqueira. Clarisse ainda não desceu para brincar com o amigo. Érika pediu que fosse tirar seu pijama antes de ir para o jardim. Ao som de um bom pagode, estilo preferido de Carlos em eventos como esse, Marlene, Paula e Lavinha ficam à beber sentadas em uma mesa à beira da piscina, essa é a única forma que Lavinha consegue relacionar-se de maneira saudável com seus pais, principalmente com sua mãe. A embriaguez é a unica coisa que não as fazem divergir. Cléris que já desistira de fazer Lavinha parar de beber à desde s 9 da manhã foi mostrar um vídeo que recebeu no whatsapp para Daniel que ficou a rir da situação engraçada apresentada nele. Ouve-se a campainha, Érika que ajudava Carla na cozinha à preparar o vinagrete dirige-se à sala para abrir a porta.

ÉRIKA: Oi! Podem entrar! -Disse ao abrir a porta-
VENTURA: A Soninha vem depois com as carnes. Ela falou o que houve. Sinto muito mesmo. -Lamentou-
ÉRKA: Eu sinto muito mais. -Pegou as bolsas das mãos de Angélica e Ventura-

     Clarisse que estava em seu quarto trocando de roupa à pedido de sua mãe, desceu as escadas amarrando a parte de cima de seu biquíni e deparou-se com Ventura e Angélica.

CLARISSE: Dindinho! -Abraçou Ventura chateada-
VENTURA: Oi Cla! Tudo bem? -Beijou-a-
CLARISSE: A Clara terminou com o tio Victor.
VENTURA: Eu sei. Ela está aí?
ÉRIKA: Está no quarto.
VENTURA: Posso falar com ela?
ÉRIKA: Pode subir.
ANGÉLICA: Vem Cla com a tia. Quero logo ir para a piscina. -Chamou-a-

     Clarisse deu as mãos para Angélica e ambas seguiram para o jardim. Angélica e Clarisse mais brigam do que se dão bem. Com gênios muito parecidos é comum vê-las discutindo em eventos familiares. Ventura e Érika já até se acostumaram e nem dão mais ideia para as brigas das duas que parecem mesmo ter vestido a camisa da irmandade. Ao mesmo tempo em que estão brigando poucos minutos depois já estão trocando beijos e abraços novamente. Angélica sempre se mostrou muito solícita no cuidado com Clarisse. Ela e Clara foram quem cuidaram dela quando Érika e Carlos precisavam trabalhar por isso Angélica a considera como sua irmã mais nova. Ventura continua seu diálogo com Érika:

VENTURA: Vou subir então.

     Ventura subiu as escadas enquanto Érika levou as bolsas para a cozinha. Clara após ter tomado um calmante parece ter apagado. Nem a música alta de seu pai no jardim que dá direto para a janela de seu quarto foi capaz de acordá-la. Ventura entra no corredor que dá para o quarto. Ao bater na porta acaba por acordar Clara.

CLARA: Entra. -Respondeu sonolenta-

     Ventura entrou ao ouvir a permissão e sentou-se aos pés da cama da filha.

VENTURA: Desculpa se te acordei. -Beijou sua testa-
CLARA: Tudo bem. -Sentou-se-
VENTURA: Eu fiquei sabendo. Está tudo bem?
CLARA: Não pai. Está tudo péssimo- Abraçou seu travesseiro chateada-
VENTURA: Você está sendo boba acreditando na Júlia.
CLARA: Eu sei pai. Não sei como agir. O que decidir.
VENTURA: Você ama o Victor. Fica com ele.
CLARA: Não sei. Tenho que pensar. Ainda estou muito magoada, machucada, me sentindo humilhada, menosprezada, um grão de areia.
VENTURA: Não tem porquê filha. -Tocou seu rosto com ternura-
CLARA: Eles estavam se abraçando pai.
VENTURA: Sim e você já era para ter superado essa fase.
CLARA: Você não sabe a vergonha que eu senti. Queria que o chão se abrisse e que eu sumisse quando abri a porta e vi os dois lá. Só não se beijaram porque eu cheguei.
VENTURA: Você conhece bem seu noivo filha. Não acho que seria capaz de algo assim.
CLARA: Pode ser. -Suspirou- A Soninha e a Geli estão aí?
VENTURA: Só a Geli. A Soninha vem depois. Está esperando o doce de prestígio ficar pronto.
CLARA: O Edu não veio com a Geli?
VENTURA: Ele tinha que ir pro CAIS. Você vai descer?
CLARA: Agora não. Não quero dar explicações à ninguém.
VENTURA: Nem à mim?
CLARA: Pai, tenta me entender. Terminei um noivado de 2 anos.
VENTURA: Entendo filha. Eu terminei um de 5.
CLARA: Com a minha mãe né? Eu sei.
VENTURA: Sofri como você mas passou. No meu caso, eu não podia voltar porque foi sua mãe quem terminou comigo. No seu, foi você quem terminou e pode voltar quando quiser. Pensa filha. Pensa no seu casamento que está por vir. Adiar agora seria besteira.
CLARA: Antes agora do que depois.
VENTURA: Clara você ama o Victor.
CLARA: Não amo mais! Não amo! -Irritou-se-
VENTURA: Tudo bem. Sei que não quer falar disso. Seus sentimentos estão conturbados, mas pensa com calma. Você sempre foi tão prudente.
CLARA: Não pai! Não vou pensar! Já decidi! -Disse firme-
VENTURA: Ainda acho que você está se precipitando.
CLARA: Pai eu não estou bem. Não quero conversar agora, por favor.-Deitou-se novamente-
VENTURA: Está bom. Eu vou descer. A Geli quer conversar com você.
CLARA: Pede pra ela subir.
VENTURA: Está triste por tudo que aconteceu.
CLARA: Eu sei.
VENTURA: Já sei que você não vai voltar atrás. Vou descer, pensa direitinho, o Victor te ama. -Beijou-lhe a testa e saiu do quarto-

    Talvez agora que conseguira ter algumas horas de sono tenha exagerado em romper o relacionamento. Vai ver todo o estresse do plantão e não ter conseguido dormir tenham colaborado para que ela valorizasse uma situação que nem fora tão importante e que já acontecera milhares de vezes. Abraçada ao travesseiro ela fica à pensar. No jardim, Clarisse, FIlipi e Eduarda brincam na piscina. Estão fazendo mais uma vez Eduarda de bobinho já que não consegue nadar o suficiente para pegar a bola dos companheiros, nenhum dos dois usam mais boia, exceto Eduarda. A piscina é bastante funda mas Clarisse e Filipi tiveram aulas de natação desde que começaram a estudar no CVM e aprenderam a nadar com muita rapidez. Próximo à piscina, Carlos, Mariano, Cléris e Daniel estão ao lado da churrasqueira tomando cerveja e rindo, possivelmente, de alguma piada maliciosa de Mariano que ficou responsável por olhar as carnes. Fazer piadinhas com mulheres é comum para ele, por isso Lavinha fica tão irritada. Feminista como é, não suporta determinadas brincadeiras de seu pai e acabam sempre por brigarem, mas no momento, ela está bêbada demais para isso e nem sequer imagina que esse seja o motivo das risadas.  Junto com Lavinha e Paula, Angélica se embriaga de cerveja como acontece todos os domingos. Ela fez uma batida com o resto de vodka que havia na geladeira do churrasco da semana passada que acabou por deixá-la bêbada em questão de minutos. Lavinha não se atreveu a tomar a tal batida feita por Angélica, a última vez que ousou tomar junto com cerveja passou mal à noite toda. Angélica só poderia estar maluca misturando aquela bomba suicida com cerveja. Paula também recusou-se experimentar, já passou da fase de ficar caindo pelos cantos, além disso, ela tem que chegar em casa sóbria para terminar os trabalhos pendentes do escritório. Marlene e Érika que dividem a mesa com as 3 ficam à observar as crianças brincarem na piscina. Brincadeiras em água sem supervisão de um adulto sempre pode ocasionar graves consequências principalmente se tratando de Eduarda. Lavinha não pouparia um escândalo se algo acontecesse com sua filha. O telefone que encontra-se sobre à mesa toca e Érika atende prontamente.

ÉRIKA: Alô? -Atendeu- Oi Victor! Eu já sei. A Clara está mas não quer falar com você. Está chateada. Tudo bem. Eu falo. Tchau. -Desligou-
LAVINHA: Devia ter chamado a Clara tia. -Intrometeu-se-
ÉRIKA: Ela não quer atender. Eu sei. -Colocou o telefone sobre à mesa-
ANGÉLICA: Se minha mãe fizesse isso eu ia me chatear muito. -Comentou segurando a lata de cerveja-

     Ventura chegou ao jardim e aproximou-se da mesa das mulheres.

ÉRIKA: E aí? -Perguntou ao vê-lo se aproximar-

     Érika espera que Ventura traga-lhe boas notícias.

VENTURA: Clara precisa de um tempo. Vai mudar de idéia.
ÉRIKA: O Victor acabou de ligar.
VENTURA: Acho que eles precisam resolver isso o quanto antes.
ANGÉLICA: Se fosse o Edu ele iria ter que suar muito a camisa pra que eu voltasse atrás. O Victor deu mole e a Clara tem toda razão de estar chateada. -Disse em estado de embriaguez-

     Ventura já percebera Angélica alterada pelo álcool. Ela sabe muito bem que não pode beber da forma que bebe por conta dos medicamentos que às vezes precisa tomar e principalmente porque comete inúmeras imprudências que acabam colocando em risco sua vida. Ventura já passou várias situações constrangedoras por conta das bebedeiras de Angélica que muitas vezes necessita hospitalização por ficar totalmente inconsciente. Se ela continuar nesse ritmo, não vai demorar muito à começar a alucinar e a passar mal. Meio irritado ele intervém:

VENTURA: Não acho que você tenha que se meter nisso. 
ANGÉLICA: Eu não posso dar a minha opinião? -Perguntou com a voz mole-
VENTURA: Não! -Disse firme-
ANGÉLICA: Credo! Que desprezo pai! -Reclamou-

Angélica sentou-se novamente à mesa e voltou a beber sua cerveja irritada com a resposta de seu pai. Já está tão alterada que não consegue nem compreender ao certo o que está acontecendo.

VENTURA: Angélica, dá um tempo pra mim filha e vê se pára de beber! São 10 da manhã ainda. -Alertou-

     Angélica deu de ombros e voltou à beber. Seu pai mais uma vez ia discursar sobre o mal que fazia abusar de bebida alcoólica e dar aquele sermão moralista como sempre. Se fosse para ouvir o falatório de Ventura que ela pelo menos estivesse acompanhada de uma cerveja gelada. Carlos e Cléris aproximaram-se da mesa com um prato de pães de alho para servir às mulheres enquanto Daniel continuou a ajeitar as carnes junto com Mariano na churrasqueira. 

LAVINHA: É. A Clara, ela não e mais bobinha não, ela aprendeu a se defender das malvadas isso porque... 

     Cléris cortou a fala de Lavinha colocando as carnes sobre à mesa.

CLÉRIS: Ai advogada tá bom! Isso não é um tribunal não. Fica quieta também.

  Lavinha também já estava alcançando um alto grau de embriaguez. Qual o sentido de ter feito tal comentário? Se ela e Angélica já estavam assim as dez da manhã imagina como não estarão até o horário do almoço.  Assim como Angélica, Lavinha também deu muito trabalho à Paula com suas bebedeiras desmedidas. As duas sempre beberam juntas desde os 15 anos, Paula depois de tanto se descabelar tentando afastar a filha da bebida acabou desistindo, Lavinha era teimosa demais para ouvi-la, já Ventura revirava-se na cama de preocupação quando saiam juntas. Era certo de que Angélica chegaria em casa naquele estado lamentável e ele nunca se equivocou.

ANGÉLICA: Eu vou lá conversar com a minha irmã. -Levantou-se da mesa em um repente-
VENTURA: Você não vai conversar com a sua irmã desse jeito. -Impediu-a segurando seu braço-
ANGÉLICA: Desse jeito como? -Perguntou meio cambaleando-
VENTURA: Bêbada! -Disse firme-
ANGÉLICA: Ihh pai! Deixa de ser careta! -Deu de ombros-

     Angélica mal conseguia ficar de pé que dirá subir aquela escadaria toda. No mínimo acabaria caindo e daria mais trabalho tendo que levá-la para o hospital. Ao ver Angélica sair Érika tenta contornar toda a situação, Ventura já estava irritado por ver Angélica bêbada. Ele não tem muita tolerância para isso e sempre acaba exagerando em seu trato com a filha.

ÉRIKA: É melhor deixar que Clara nos procure. -Interveio-
VENTURA: Também acho.

     Angélica sentou-se novamente à mesa e começou a conversar com Lavinha enquanto os demais da mesa degustaram os pães trazido por Carlos e Cléris. A sala mostra-se silenciosa já que todos estão no jardim. Nem Carla está em casa. Ela pediu à Érika permissão para visitar uma colega que mora na zona norte do Rio. Clara que estava conversando com Mariane por whatsapp ouve a campainha tocar mas não move-se 1 centímetro, provavelmente deve ser Sônia com as carnes e alguém no jardim irá atender, assim, ela continua a conversar com Mariane. Está contando sua versão dos fatos sobre seu término com Victor já que Júlia deu sua versão antes e Mariane também alertou da besteira que estará cometendo jogando tudo para o ar dessa maneira. Ouve-se novamente a campainha tocar. Clara despediu-se de Mariane, jogou seu celular sobre à cama e saiu do quarto. É ela mesma quem tem que atender a porta, não sabe que Carla saiu para visitar uma amiga.

CLARA: Ninguém atende a campainha não? -Gritou das escadas- Com certeza não ouviram. -Disse ao ver a sala vazia-

Clara desceu as escadas e abriu a porta.

VICTOR: Não fecha a porta na minha cara por favor.
CLARA: O que você faz aqui Victor?

CONTINUA...

 


Notas Finais


Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue. Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Clarice Lispector


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