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História O Monólogo e as Lágrimas de um Palhaço - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Parte 3


-Eu me formei, Zeus. E o baile até que foi legal. Sabe, minha escola não tinha tradição de fazer bailes, mas decidiram copiar as escolas de rico e fizeram mesmo assim. Tudo que me lembro foi de ter batizado o ponche. Depois disso, são apenas borrões, vestígios do que um dia foram memórias. Foi também a primeira vez que tomei atitude com uma garota. Chamei ela pra dançar. Não sabia dançar, era desajeitado, mas precise apenas de alguns vídeos para me tornar profissional. Dançamos e bebemos, e isso é o que lembro de dentro da escola. Foi a primeira vez que ela tinha bebido. Eu já havia tido muitos porres antes, então já estava acostumado. Esperamos até a madrugada pra eu levar ela em casa, pra que passasse a brisa. Quando a deixei em sua porta, ela me deu um beijo e disse que havia sido um dos melhores dias de todos. Como era bom estar apaixonado. Como era bom amar.

Kyle dá um gole violento na bebida, e acaba derrubando um pouco em seu casaco sujo e velho. Naquele ponto, isso era o que menos importava. Ele não costumava resgatar lembranças. Era, de certa forma, doloroso, ainda mais o que estava por vir. Parou e pensou se realmente valia a pena continuar falando. Zeus dormia, e mesmo que estivesse acordado, não poderia ajudar em nada. Outro gole, moderado. Não adianta nada ficar guardando para si.

-Depois da formatura, veio a vida real. Tinha que trabalhar. Era um homem. Como não sabia muito bem o que queria, decidi dar um tempo para pensar no que eu era bom, mas até hoje não pensei em muita coisa. Trabalhava em uma lanchonete atendendo pedidos para um homem gordo, suado e rude. Não me lembro do nome dele. Me tratava mal, e depois de um tempo se tornou insuportável. Ele veio chamar minha atenção sobre alguma coisa. Mandei ele se foder. Disse que ele era um fracassado. Ele rebateu jogando na minha cara que eu trabalhava pra um fracassado e ainda morava na casa da minha mãe. Depois daquilo, decidi mudar. Saí da casa dela e comecei a morar em um pequeno quarto aqui na selva. Era um luxo. Quarto e banheiro, como todas as mansões. Só que sem o resto. Comecei a fazer bicos, e minha namorada na época me trocou por um mauricinho que trabalhava com ela.

Outro gole. Dessa vez foi realmente bruto. Desceu rasgando pela garganta. Estava acabando, então Kyle decidiu guardar para depois. O termômetro marcava seis graus. Insano. Na noite mais fria dele na rua, com doze, ele já sentia uma dor nos ossos e parecia que seus dedos e orelhas iriam cair a qualquer momento, de tão dormentes. Mas hoje não. Duplamente frio, se sentia quente. Zeus tremia. A coberta fina não era suficiente. Kyle tira seu casaco e cobre o cão, na esperança de aquecê-lo um pouco. Sem sucesso. Continuava tremendo, e Kyle já começava a se preocupar, então abraça seu amigo, para que dividissem calor e se aquecessem. Não que Kyle precisasse, mas o cão estava estupidamente tremendo. Talvez com o tempo ele aquecesse.

-Fiquei muito triste na época. Sem rumo. Perdi meu emprego, perdi quem eu achava ser o amor da minha vida, havia deixado mágoa em casa quando saí. Não podia voltar. E mesmo que voltasse, que orgulho tem um homem que sai de casa com a cabeça erguida e volta com o rabo entre as pernas? Não tinha quase nada, mas dignidade é algo que sempre carregamos. Quem antes se dava muito bem com os pais e adorava que eles ficassem por perto se tornou alguém rebelde na adolescência. Decidi não dar pista de onde estava. Não queria que fosse atrás de mim fingindo que se importam. Foda-se todos eles. Os bicos estavam escassos, e eu precisava de dinheiro. Aluguel estava atrasado, e meu inquilino me cobrava todos os dias, ameaçando me colocar pra fora. Não botava fé, até que um dia fui á padaria comprar a refeição do dia. Três pães para comer com um pouco de manteiga que tinha em casa. Era isso quase todo dia, meu organismo já havia se acostumado com tão pouca comida. Eu tinha dívidas no bar, então saí de capuz. E aquele dia aconteceu algo que mudou minha vida.

Ao lembrar-se daquilo, Kyle sentia algo entalado na garganta. Choro? Não. Homem não chora. Zeus nunca chorava, e Kyle se acostumara com guardar tudo para si também. Lembra de todos os detalhes daquele dia. De como estava com dor de cabeça, de como suas olheiras estavam aparentes, de como o capuz lhe fazia parecer um drogado qualquer. Drogado não, bêbado sim. Um homem e seus princípios. Lembra-se de como escolheu os pães de maneira completamente desinteressada. De como colocou-os no balcão, de como colocou a mão no bolso e acho uns poucos centavos. Não pagavam nem metade de um pão. Lembra-se de como desabou a chorar ali mesmo.

-A atendente, Zeus, começou a me perguntar se estava bem. Pergunta idiota pra um homem que não conseguia pagar três pãezinhos. Me dizia que eu podia pagar depois, queria me ajudar, mas aquilo só piorava tudo. Nada dava certo, Zeus. Não conseguia nenhum bico, não tinha ninguém ao meu lado. Minha vida estava um lixo. E não tinha com quem conversar. Ficava tudo guardado pra mim. Não tinha quem me perguntar como foi meu dia, não tinha quem me perguntasse se eu estava bem. Ainda bem que tenho você agora, Zeus. Não sei o que seria de mim sem você.



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