História O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 18


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Diário, Romance
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Festa, Ficção, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Saga, Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Self Inserction, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 18 - 10.05.18 Quinta (manhã)


Fanfic / Fanfiction O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 18 - 10.05.18 Quinta (manhã)


De: [email protected]
Para: [email protected]
Assunto: Seeenta que lá vem história…

 

 

Bom dia, amiga! Acordei bem cedo, hoje… Não era nem 6h e eu já estava de pé.

É que minha cabeça está a mil. Preciso fazer uma faxina na casa, e queria escrever este e-mail para você, antes.

Bem, pra começar… Vou receber uma certa visita.

… Eu liguei pra ela, ontem. Pra minha mãe. Nossa, aquilo foi tenso e complicado… Mas no fim das contas foi bom. Eu reparei uma coisa que nunca tinha me passado na cabeça antes: morar longe muda nossa percepção das coisas. Das pessoas, mas especificamente… E essa distância meio que fez bem para nós dois (eu e minha mãe). Na época em que eu morava lá era o verdadeiro inferno.

Ah, eu nunca contei detalhes para você, né? Bem, é porque não gosto de ficar lembrando. Pra escrever esses e-mails que te mando eu tenho que reviver a porra toda, então não é como se eu me animasse a colocar as partes podres da vida de volta na mesa..

Mas talvez… É.

Talvez acabe sendo bom contar.

Aiai… Beleza.

Eu sou filho único. Sempre quis ter mais alguém lá comigo, mas não tive. E a carga de cobrança pra ser o “filho exemplar” caiu toda sobre mim. Até aí, tudo bem… Eu tentava ser o melhor que eu podia. Não dava trabalho no sentido de levar problemas para casa, não pedia dinheiro, evitava visitas de amigos lá (não que eu tivesse muitos além da Hellen e de um pessoal do ensino médio) e eu fazia todas as coisas que me pediam (mercado, pagar alguma conta nos correios, deixar meu quarto em ordem, essas coisas bobas). Eu só não ajudava mais na casa por conta daquela mania sexista dos meus pais que eu já expliquei. Se meu pai ou minha mãe me vissem fazendo serviço de casa (nem que fosse varrer um chão) já começavam a questionar com aquele jeito que me angustia só de lembrar “Por que cê tá fazendo isso? Quer provar o quê com isso? Vai arranjar uma mulher, e um emprego!”.

Eu tinha nojo quando meu pai falava isso. Nojo dele e da visão dele. Uma vez tentei explicar que eu estava só tentando ajudar minha mãe (porque ela às vezes tem umas crises de estresse)… E a resposta dele? Falou que ela é uma vadia, e que tinha que fazer alguma coisa pra merecer a comida que ELE colocava na mesa.

Bom, é isso aí. Esse é o “status quo” do meu progenitor (vulgo “pai”).

 

… Eu odeio lembrar disso. Eu odeio o fato de ter a consciência de que odeio meu pai.

É, eu sei. É muito “odeio” na mesma frase. Muita coisa ruim no coração. Eu vou pro inferno, se isso realmente existir. Que se dane…

Ele chamava minha mãe de várias coisas, e geralmente na cara dela. Até quando tinha outras pessoas por perto ele não tinha receio de tratar ela mal.

Eu já tentei defendê-la. Respondia pra ele (não da forma mais inteligente, confesso… eu xingava de volta) e o que eu recebia em troca era um tapão na cara… que a minha mãe dava.

Juro que eu não entendia.

Ela falava pra eu “não ousar desafiar meu pai”. Putz… Aquilo me ardia o estômago. E olha que era ela que tinha gastrite!

Essa coisa de eu procurar emprego não é de agora. Enquanto eu estava naquele inferno cheguei a conseguir algumas entrevistas, mas sempre tinha alguém que era contratado em meu lugar. Faculdade pra mim então, nem se fala… O que eu queria era poder colocar algum dinheiro a mais lá e ajudar a pagar contas pra que ele parassem de me olhar feio durante os jantares, ou reclamar quando eu via TV, ou esmurrar a porta quando eu tomava um banho mais longo que cinco minutos (sorte que oxigênio é de graça, senão eles iam falar merda disso também).

Quando ele estava de mau humor ficava falando “esse moleque vai ficar comendo de graça até quando?”, e minha mãe ia na dele, concordando e se fazendo de coitada porque ela tinha que fazer tudo sozinha na casa (e se eu ajudasse, ouviria merda). Acho que ela falava isso como uma proteção pra si mesma, para o meu pai saber que ela era útil em alguma coisa.

Em vez de ela se unir a mim, pra colocar aquele demônio no lugar dele, ela ficava ao lado do desgraçado. É mais fácil fazer pacto com o inimigo pra ficar protegido, né? Mais fácil do que resistir e lutar.

É, deve ser esse o problema dela.

Por causa disso eu ficava a maior parte do tempo na casa da Hellen, fugindo. Bem, só até ela entrar na faculdade e começar a namorar. Depois disso eu realmente me foquei em procurar algo, e por esse motivo ficava as tardes fora. E quando eu voltava, é claro que ouvia merda. Eu era o vagabundo, o inútil…

Já cheguei em casa uma vez depois de ter conseguido um dinheiro ajudando em um descarregamento (foi só quarenta reais, mas é alguma coisa) e ela me deu um tapa na cara, perguntando de quem eu tinha roubado.

E não adiantou explicar. Quanto mais eu falava, mais alto ela berrava “Mentiroso! Você é uma vergonha!”.

A vontade que dava era de realmente ir e começar a roubar. Fazer jus ao delinquente que ela acreditava que eu era. Mas continuei na vida ridícula de tentar ser alguém útil. Com minha monotonia diária sendo quebrada só pelos gritos e por algumas bofetadas que eu levava por falar algo que não devia.

… Bom, é por aí. Eu estava saturado de viver com eles, não aguentava mais MESMO. Se olhar uma coisa ou outra isoladamente pode não parecer grande coisa. Mas ter isso como uma realidade comum todos os dias… Todos os dias… Sem parar… Satura a alma. Como eu não tinha mais pra onde correr, ficava trancado no quarto torcendo pra que eles não viessem falar comigo. Torcendo pra eles não virem esmurrar a porta me chamando de “peso morto”. Rezando pra que parassem de repetir que “alguém como eu” nunca iria conseguir um emprego.

(eu nunca contei a eles que era gay, mas imagino que os dois desconfiem, porque muitas das merdas que falavam eram indiretas nesse sentido, falando que gente “desse tipo” não presta… uma vez, vendo uma reportagem na TV sobre homossexualidade, meu pai só virou pra mim e falou “ai de você se algum dia aparecer com algo assim nessa casa”… e como na época eu ainda nem tinha ME assumido, respondi “claro que não”, que nem uma ovelha retardada, indo pra onde o lobo quer)

Meu pai jogava na minha cara que ele sempre separava um dinheiro pra colocar na minha conta (minha mãe insistiu que eu tivesse uma desde os seis anos), só que quando ele estava mais nervoso é que falava o que realmente pensava: que aquilo era um investimento pra se livrar de mim.

Isso não me chateava tanto, só aumentava minha raiva. Por que era isso mesmo: sempre torci pra esse dia chegar logo.

Na cabeça dele, eu ia usar a grana para comprar um carro e sumir no mundo. Mas… aquela não era a ideia de vida que eu tinha. Por isso que fuçei a Internet atrás de uma casa baratinha que fosse longe da cidade deles (são 5h de viagem de Vale do Ocaso até lá). Eu iria aceitar qualquer coisa pra sair dali. E foi quando achei essa casa a um preço muito bom. De início achei que fosse um erro no site da imobiliária, mas depois confirmei por telefone que era isso mesmo. Deus abençoe as pessoas supersticiosas que desprezaram esse lugar… Graças a elas a casa ficou realmente uma mixaria, e eu consegui comprar sem a interferência de ninguém. Por já ter vinte anos, eu pude movimentar tudo sem precisar do aval de minha mãe ou de meu pai. As negociações foram por telefone, e as assinaturas e tudo o mais foi por correio, em uma imobiliária aqui de Vale do Ocaso (um lugar onde também entreguei currículo).

Se isso que fiz foi arriscado? Sem dúvida… Mas eu estava desesperado de verdade.

Quando as chaves chegaram por Sedex eu esperei o jantar pra falar. Por sorte, aquele foi um dia em que meu pai não estava com o humor péssimo (só resmungou que a comida estava ruim - o que não era verdade), e eu esperei eles terminarem o que tinham no prato, e aí soltei “Eu vou embora daqui”.

Não fiz aquele drama de “tenho algo para falar”. Simplesmente revelei que iria embora, e pronto. Meu pai deu risada, como se eu fosse uma criança dizendo que vai pegar um foguete de papelão e ir para os Anéis de Saturno. Ele não deu a mínima. Mas então eu expliquei melhor. Disse que tinha usado aquele dinheiro (o MEU dinheiro, porque eles depositaram na minha conta) para comprar uma casa, e que logo eu iria arrumar minhas tralhas e me mandar.

Minha nossa… Ele ficou vermelho de raiva. Num pulo pegou o telefone e ligou pro banco, porque não acreditava. Quando o pessoal do banco confirmou que tinha acontecido uma transferência de quase 80% do total, ele pirou. Jogou o telefone na parede, quebrou o prato usado no chão, e quase arrancou os cabelos. Só não me enforcou de ódio porque eu o evitei, ficando sempre do lado oposto da mesa enquanto ele gritava todas as ofensas que vinham na mente.

Acho que meu pai não tinha a menor intenção de se desfazer daquele dinheiro, apesar do que falava (sobre ter esperanças de que eu desaparecesse com um carro).

Mas eu fiz a checagem: como estava tudo em meu nome (e por eu já ser de maior), era meu total direito. E meus pais não tinham mais poder sobre aquilo. Não podiam retirar um centavo sequer (chupa, desgraçado!).

Bom, essa coisa da chave chegar por correio e da ligação para o banco foi numa sexta, cinco dias antes de eu me mudar. No sábado de manhã, quando meu pai deu uma saída, eu falei pra minha mãe que eu me mudaria naquela semana mesmo, e ela ficou insistindo para que eu esperasse o feriado do dia do trabalho (que era na semana seguinte). Mas eu não queria esperar tanto. Não queria ter tempo o bastante para me arrepender, ou para que ela ou meu pai conseguissem estragar tudo.

E… Bom, a discussão final (e definitiva) veio no domingo. Meus pais tinham acabado de voltar da minha avó paterna (se fosse na minha avó materna, meu pai não faria questão de visitar). Eu não tinha ido junto porque costumo passar por lá várias vezes durante a semana, mas ouvi umas ofensas básicas por ter ficado em casa (de acordo com meu pai e mãe, sou um neto desnaturado e ingrato).

Minha mãe foi separar umas fotos que minha avó tinha pedido. Foi quando ela viu umas lembranças da minha tia Carina… Essa é a que eu comentei com você, uns dias atrás, que se divorciou de meu tio (irmão de minha mãe) pra ficar com uma mulher… É minha tia lésbica. O que minha mãe fez? Rasgou a foto, com raiva. Começou a xingar minha tia e falar como o irmão dela é um pobre coitado. Eu simplesmente cheguei e perguntei “Não foi melhor assim, do que ele ser enganado a vida toda?”.

Em troca eu levei uma direto na boca. Nuss… Eu tenho que aprender a não responder quando estou tão próximo. Mas isso nem foi nada. O problema é que ela começou a gritar comigo, e isso atraiu o Orc da casa. Meu pai foi ver o que estava acontecendo, e minha mãe falou “esse teu filho fica defendendo aquela puta”, e depois disso eu nem lembro os detalhes da paçoca… Foi um inferno. Eu tentava fazer eles entenderem que a situação do meu tio não era tão ruim assim, mas era o mesmo que jogar palha embebida em álcool em uma fogueira.

Eu só piorei a merda toda.

Aí minha mãe, que já toma uma caralhada de remédios tarja preta por indicação do psicólogo, começou a chorar desesperada e dizer que estava sem ar. Ela caiu no chão abanando as mãos, e meu pai começou a falar que eu sou a causa de tudo… e…

… Putz, isso é foda…

O pior é que tô tremendo de raiva, e acabo nem conseguindo digitar direito. O teclado do meu PC está turvo pra mim.

Vou dar um tempo, tomar uma água, sei lá.

 

 

Ok, acho que dá pra continuar agora.

Então, ele nem fez menção de ajudar ela caída lá. Eu levantei minha mãe e a coloquei no sofá enquanto meu pai fazia o favor de lembrar que só se casou com “aquela piranha” (palavras dele) porque ela estava grávida “desse merdinha miserável” (que sou eu). E minha mãe chorava mais, e isso fazia meu pai ficar repetindo “Tá vendo, Isaac? Tá vendo o que você fez?”, e minha mãe, que tem a mania de ir na onda dele, gritou que deveria ter ignorado o pedido de minha avó e ter feito o aborto.

Ter feito o aborto”. Foi o que ela disse.

 

Aquela foi a primeira vez que eu ouvi isso na minha vida. Eu fiquei meio que… Nossa. Sabe a sensação de levar uma escaldada de água gelada? Quase isso, só que foram as palavras dela que me deixaram meio desnorteado.

Ah, que merda… Por que eu tinha que ouvir aquilo? Sério! Pra quê me falar isso? Já estava ruim demais sem eu saber… Então, é isso, amiga. Eu sou um filho indesejado, e só vim a este mundo porque minha avó materna teve o bom senso de impedir que minha mãe me matasse.

Que bosta! E o pior é que naquela hora eu quis mesmo morrer!

Nós três estávamos com os nervos à flor da pele. Eu chutei a cadeirinha que fica na sala e saí pro meu quarto, enquanto ouvia o meu pai grasnar mais algumas coisas pra ela e pra mim.

A verdade é que eu não sabia se eu queria morrer, ou se eu queria matar aquele desgraçado. Por isso que me tranquei no quarto, mesmo enquanto eles ainda discutiam. E depois que a sala silenciou foi a minha porta que quase veio abaixo. Ele começou a esmurrar, pra eu sair e levar a surra que merecia…

É sério? Ele achava mesmo que eu ia abrir a porta que nem um cachorrinho manso pra apanhar?

Pelo menos ele não bate na minha mãe (ao menos isso… ao menos isso!). Mas o que ele não faz com o corpo dela, faz com a mente. Sempre a vejo tomando litros de água com bicarbonato de sódio pra acabar com as azias frequentes. E tem os outros remédios, também…

Naquela noite o traste não dormiu em casa. Deve ter ido com alguma coleguinha da noite fazer as putarias que ele faz. Eu não estranharia se eu soubesse que tenho uma porção de meio-irmãos perdidos no mundo.

Quando eu acordei, na segunda-feira (dormi sentado no chão do meu quarto) fui direto colocar meu plano em ação. Eu não iria esperar outra semana. Não dava mais. Peguei minha bike e fui num shopping perto de casa. Comprei um fogão e uma geladeira novos, e mandei entregar lá na casa de meus pais. Paguei um extra pela instalação e essas coisas.

Esses eletrodomésticos novos eu dei pra minha mãe. Quando o caminhão de entrega chegou ela ficou assustada. Meu pai não estava lá (ele trabalha até tarde, e muitas vezes enrola num bar antes de voltar), então ela meio que… Acho que ela foi um pouco dela mesma. Um pouco da Olga sem o José maldito.

Não esqueço a expressão de minha mãe quando falei “é pra você”. Os olhos dela brilharam e ela ficou com a mão na boca, olhando enquanto os entregadores posicionavam os eletrodomésticos novos.

Eu perguntei se ela daria o fogão e a geladeira velhos pra mim, pra eu levar para a minha casa. Ela fez cara de quem não tinha entendido. Mas, depois daquele domingo PODRE, imagino que ela tenha se esquecido completamente que eu tinha comprado uma casa. Tive que contar tudo de novo, e ela meio que concordou (na verdade eu acho que minha mãe estava anestesiada pelos presentes novos, então nem deu bola).

Ainda eram três da tarde quando eu tinha feito isso tudo. E eu ainda fui ao mercado, comprei umas provisões pra sobreviver por uns dias e peguei várias caixas pra guardar o pouco de coisas pessoais para a mudança.

Isso foi até que rápido.

A última coisa que eu precisava fazer antes de meu pai chegar era entrar em contato com um conhecido dele que fazia mudanças pequenas. Eu sabia que o cara tinha uma caminhonete, então liguei pra ele. Pra minha sorte, ele não é muito do tipo tagarela. É bem objetivo: você quer isso pra quando? Qual o destino? Tem a grana? Vambora? Vambora!

Sem perguntas irritantes, sem xeretices, nem nada. Era o que eu precisava.

Ele foi até a casa de meus pais lá pelas 17h e me ajudou a desmontar o guarda roupas (ô tarefinha chata). Minha mãe ficava só olhando, de longe, como se não me conhecesse. Foi só quando estava tudo certinho na carreta que ela perguntou “Então vai me abandonar mesmo?”.

Porra… Depois de toda a merda que eu ouvi? Eu não estava mais de cabeça quente da briga do domingo, mas eu estava machucado pra caralho. Então respondi “Agora você pode fingir que eu nunca existi”. Ela não fez expressão nenhuma. Acho que a coitada está tão habituada a levar coice, que já tem uma expressão facial preparada pra essas coisas.

Eu me senti um pouco culpado, mas… Poxa, ela também não tinha me tratado exatamente com carinho nos últimos anos!

Ainda era segunda-feira. Eu não sabia o que fazer durante a noite. Não queria ter que topar com meu pai e nem com minha mãe. O que eu queria era vazar naquela hora, mas o motorista disse que era muito tarde para ele (eu chegaria a tempo, mas ele teria que fazer uma viagem de volta, ainda). Combinamos que partiríamos no dia seguinte (terça, dia 24) às 9h da manhã.

Eu fui pro meu quarto, e fiquei jogando. Era a única forma que eu tinha de passar o tempo sem enlouquecer.

Quando meu pai chegou do “trabalho” já era 2h da madrugada. Eu estou pouco me fodendo para onde ele ficou. Seja onde for, devia ter permanecido lá.

… Na manhã seguinte eu só saí do quarto quando meu pai tinha ido trabalhar. Dei um pente-fino geral na casa, vendo se não tinha esquecido nada. E minha mãe só parada, me olhando… Parecia um espírito, de pé no canto daquele jeito.

O dono da caminhonete atrasou duas horas, fazendo eu quase explodir de desespero (com exceção da mochila, tudo o que era meu estava lá). Quando ele finalmente chegou, eu me sentei ao lado do motorista. Minha mãe me surpreendeu ao colocar a mão no meu ombro e pedir para que eu ligasse ao chegar. Eu disse que não estaria afim de conversar durante vários dias, e ela insistiu: “Só pra avisar que chegou bem”. E eu concordei, com um aperto no coração.

Esse tipo de demonstração por parte dela é raro. Quem me pedia pra avisar que “cheguei bem” era a Hellen.

Hoje, escrevendo isso depois de duas semanas que essas coisas aconteceram, sinto culpa. Mas quando lembro de todas as coisas que ouvi, eu meio que me perdôo. Não sei se estou certo ou errado nisso tudo, não sei o que eu deveria ter feito, mas o fato é que: ficar lá não tinha mais como. Ou eu matava, ou eu morria. E como não sou o tipo agressivo, sei que eu poderia cometer uma merda qualquer contra mim mesmo.

Sair de perto deles foi o melhor, acho.

 

… Uau, que e-mail longo estou escrevendo! E olha que ainda não terminei.

A ligação de ontem à noite foi meio rápida, mas senti que foi especial. Juro que pensei que ela fosse brigar comigo por eu estar perturbando, ou que ela fosse falar qualquer coisa ruim… Mas em vez disso percebi ela preocupada. Parecia que estava com a voz meio… embargada, até. “Você está bem? Está comendo direito?”, ela quis saber.

E foi nessa hora que senti uma bola gigante na garganta. Eu tentei responder direito, mas… Putz. Que foda. Que foda. Por que foi tão difícil e doloroso ouvir a voz da minha mãe falando manso comigo?

E eu disse que sim, que eu estou bem e comendo bem (essas coisas que mãe quer ouvir). Mas ela percebeu que eu estava chorando (que inferno) e perguntou o que foi.

E o que eu ia responder? Como se explica um iceberg gigantesco dentro de um pingo d’água?

Não tem como… Então eu simplesmente falei que estava com saudade. De certa forma, é verdade. Eu não sinto falta dos momentos ruins, nem do patife que engravidou ela. É somente dela. Daqueles raros momentos em que eu via ela sorrindo. Daquela felicidade contida de quando ela ganhou o fogão e a geladeira.

Tão simples… E por que tinha que ser tão triste?

A gente ficou quieto no telefone um tempo. Percebi que ela também não sabia o que dizer. Aí eu tive a ideia: perguntei se ela não queria passar uns dias aqui, conhecer a minha casa. Eu senti um gelinho na hora que fiz o convite.

Tipo… Minha mãe… aqui? No Pântano dos Mosquitos? Nesse hotel de aranhas? Onde um velho misantropo foi comido por cães famintos? Onde o mato é mais alto que eu?

Pois é… Mas eu convidei.

Nessa hora ouvi a voz dele no fundo perguntando quem era. Quando ela disse que era eu, veio aquela flecha envenenada que consegui ouvir (porque ele falou bem alto): “Não quero marmanjo vagabundo de volta na minha casa, não… Manda ele bater em outra freguesia”.

Cretino… Achou que eu queria voltar com o rabo entre as pernas. Mas nem sob pena de morte eu voltaria naquele lugar.

Prefiro ser comido por cães, como o coitado do Senhor Roberto, do que dividir aquele teto durante mais um dia.

Minha mãe explicou pro desgraçado que eu estava chamando ELES para virem até aqui. Caralho, eu não chamei os dois, era somente ela! Mas eu ouvi ele gritando que não iria mover um dedo pra “ver um traste”, e que se ela quisesse, que viesse por conta própria, pois ele não pagaria ônibus para “piranhas” (acho que estava bêbado, pela forma como ouvi ele gritando através do telefone, com a voz mole).

Ela ficou quieta um instante, e depois disse que iria ver com o irmão para pegar um dinheiro emprestado. Quando ela chegar, eu vou pagar a viagem dela. Eu não estou com muita coisa sobrando, mas… Logo vou conseguir um emprego decente. O valor da passagem da minha mãe não vai fazer falta pra mim.

 

… Ufa, é isso.

Ficou decidido que ela vai chegar aqui no ônibus das 11h da noite, na sexta-feira. Eu pedi pra que viesse antes, mas não adiantou. Então vai ser isso mesmo: ela vai ficar de sexta até segunda ou terça aqui, no meu Pântano.

Adivinha se não estou nervoso?

Tudo está me preocupando. Sobre o que vamos conversar? O que eu cozinho para ela? Aliás… devo cozinhar? O que faremos pra matar o tempo? O que ela vai achar da casa?

É por isso que eu acordei cedinho e já pedi hoje e amanhã de folga pro Seu Antônio.

 

… Eita! Passou mais de duas horas enquanto eu escrevia este e-mail (caralho, eu não tinha visto o relógio!), então o que vou fazer hoje é isso: limpar tudo como se a rainha da Inglaterra fosse se hospedar aqui.

Pelo menos não tem tantos móveis, então a tarefa fica mais fácil.

Mas tenho que dar um jeito no meu guarda-roupas (eu tenho deixado tudo embolado lá dentro).

E também tem os lençóis que eu tenho que…

Ah, não…

 

PUTA QUE PARIU

 

Eu não sei onde ela vai dormir!!!!!!!!! Puta que pariu, inferno! Como eu sou BURRO, eu não tinha pensado nisso!

Ah, merda… Por que eu sou tão tapado assim?

Porra, acho que vou ter que falar com o Nicolas, ver se ele tem um colchão excedente pra me emprestar. Se ele não tiver… Acho que terei que recorrer à Dona Maionese.

Aff… Ela não… Espero que o Nicolas tenha uma solução pra minha burrice sem tamanho.

Bom, vou dar um jeito (eu tenho que dar um jeito!!! >_< ).

Hoje vou ter um dia longo e cheio de poeira e aranhas (fiquei com preguiça de matar todas na primeira faxina).

Vou colocar Trapt e Breaking Benjamin pra tocar BEM ALTO, porque preciso de uma distração enquanto dou um jeito nesse casarão.

Minha mãe vai assustar quando chegar aqui na sexta à noite, sei disso. Eu não mostrei fotos, não comentei como é, nem nada. Ela está no escuro sobre a casa do Isaácula.

Bom, tenho até sexta à noite para transformar esse lugar em algo apresentável (e sem gastar nenhum tostão, senão passo fome).

Veremos no que vai dar.

 

… Né?

 

É.

 

Bye bye, amiga…

 

 

PS: me desculpe pela chuva de palavrões. Era isso ou explodir.


Notas Finais


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