História O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Boyslove, Diário, Romance
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Palavras 7.432
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Slash, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Self Inserction, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


(abaixo tem uma sugestão de música que combina com este momento do email ^_^)

Capítulo 20 - 12.05.18 - Sábado


Fanfic / Fanfiction O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 20 - 12.05.18 - Sábado


De: [email protected]
Para: [email protected]
Assunto: Aconteceram coisas… que só me deixaram mais confuso.


 


 

Hey, amiga. Como você está?

Eu estou… Ainda processando tudo, e tentenado compreender o que rolou. Ontem foi um dia longo… Se eu conseguisse anexar minhas emoções para lhe enviar num arquivo zipado, seu computador certamente pifaria. Porque está uma zona aqui dentro (de mim, não da casa)…

Neste momento eu estou na minha varanda, olhando o céu estrelado (ainda acho o máximo quando falo minha varanda… meio surreal, como se fosse tudo um sonho maluco).

Agora eu consigo enxergar meu quintal, e confesso que ao tirar todo o mato ao redor do terreno eu me senti meio exposto. Se eu pudesse, transformaria essas grades em muros (não que eu esteja sendo observado, mas eu gosto de ficar fechado).

Então, vamos lá. Eu já peguei um chá aqui (de capim cidreira - descobri que está CHEIO disso nos fundos de casa), e recomendo que faça o mesmo.

Bom… Ontem eu acordei muito cedo (era cinco e pouco) porque precisei ir no banheiro, e como minha cabeça já começou a trabalhar a mil, não deu pra voltar a dormir. Eu só ficava pensando nas coisas que poderiam acontecer. O Nicolas estava pra vir ajudar com o quintal… E à noite minha mãe chegaria…

Enquanto eu tomava um café com leite (amo o cheiro disso) acabei mandando uma mensagem para a Jack dizendo que eu já estava de pé (a paciência passou lá na esquina e me deu “tchauzinho”), mas ela só visualizou umas sete da manhã, e quando eu recebi a resposta dela já fiquei alerta. Eles estavam vindo.

Ahh… Eu aguardei sentado exatamente onde estou agora, até eles aparecerem lá na rua. Quando a Jaqueline saiu da casa florida, já veio correndo pro meu portão. Ela tinha uma pá e três enxadas nos braços. O Nick veio mais atrás, carregando um cortador de gramas junto com uma extensão.

Ver os gêmeos (mais especificamente, o gêmeo) logo de manhãzinha, com aquele perfume de dia novinho em folha, foi legal. Dar bom dia pra ele, e ver aquele sorriso fez eu me sentir realizado e bobo ao mesmo tempo (eu sei que falo demais do sorriso dele, mas… é que… putz…). A Jack deu aquela olhadinha pra gente, com a visão de ler mentes (queria que ela parasse com isso). Eu estranhei que só estavam os dois, e perguntei sobre o tal Marcus, e descobri que ele estava pra chegar. Isso foi o bastante pra Jack ficar meio de cara feia pro irmão (ao menos assim ela não fica nos fiscalizando). Mas o Nick se defendeu falando que os dois tinham que se acertar, e talz. “Eu não quero voltar com ele nem a pau”, ela falou. O Nicolas explicou que “se acertarnão é o mesmo que “reatar”.

Eu me senti deslocado, ouvindo aquilo. Sabe quando a gente não está incluso na conversa, mas mesmo assim ela acontece na sua cara? Então.

Ela ficou meio irritada e foi entrando portão adentro, até minha casa. Eu olhei da Jack pro Nick, e ele deu de ombros (coisas de irmãos, acho… não sei porque não tenho nenhum).

Ahh… Uma oportunidade sozinho com o Nicolas. Não que eu tivesse algo em mente, nem nada… Eu só queria ficar com ele um pouco mais. Encostei no portão e falei “Valeu mesmo por ter vindo, Nick… Vai ajudar demais”. Em resposta, ele disse que não tem nada que a Jack peça sorrindo que ele não faça chorando. A gente riu da frase trocada.

Essa conversinha no portão não durou mais do que isso. Logo o tal ex da Jack, e amigo do Nick, chegou de carro buzinando na frente da casa das flores. O Nicolas gritou pro cara, que desceu do carro e veio até a gente. E, lembra que eu comentei de a Jack ter avisado que ele tem uma vibração ruim? Olha, eu não sou uma pessoa de percepção aflorada, nem nada disso. Mas senti a tal negatividade (ao menos na forma como o Marcus olhou pra mim). O cara me mediu como se estivesse analisando quanto estrume teria que pegar pra me enterrar. E falou “É esse aí? O rapaz que você disse que vamos ajudar? É esse?”.

O desprezo na voz dele era palpável, e até o Nicolas notou. Perguntou qual era o problema, mas o brutamontezinho (não tem descrição melhor) disse “nada, não”, mas deu aquela conferida em mim mais uma vez quando entramos. Um olhar agressivo, que dizia perfeitamente que eu tinha que me cuidar pra não ser esfolado vivo.

Deu um gelo ruim na espinha. Um mau pressentimento daqueles que faz a gente querer enxergar o futuro pra saber se é problema mesmo, ou se é só paranóia.

O Orczinho ia andando na frente, no caminho de pedra até a casa, como se o dono dali – EU – não estivesse presente (não consegui deixar de pensar que esse Marcus parecia o tipo de filho que meu pai sempre sonhou em ter). Eu e o Nicolas íamos logo atrás enquanto o Marcus comentava as partes do mato que precisavam de mais atenção, e coisas assim. O cara poderia ser o que fosse, mas parecia um tipo de líder. Sem nem ter andado em tudo ele já separou o terreno em alas e disse que iríamos em uma de cada vez, para que o trabalho fosse produtivo. O Nicolas piscou pra mim e falou “Não disse que ele seria útil?”. Eu não estava exatamente animado com o cara ali, então só fiz um “aham” baixinho.

Quando chegamos em casa a Jack estava descontando a raiva num tufo de mato, com a enxada (na hora lembrei do Seu Antonio machucando o pé ao fazer a mesma coisa… e me deu um gelo…). O Marcus já foi chegando nela chamando de docinho e tentando dar um beijo.

Mas ela não deixou.

Aquela Jaqueline “zen” que me deu um selinho não estava ali. Aquela era uma mulher arisca, com garras, e sem nenhum pingo de vontade de dar bitocas (estou totalmente do lado dela). Ele levantou as mãos (tipo se rendendo) e se afastou dela. Começou a dar as instruções, já. Disse que iria pegar uma carriola que tinha no carro, e já distribuiu as enxadas pra gente. Quando ele nos separou de acordo com as alas do terreno, a Jack disse que iria ficar comigo.

Nossa, eu tive que fazer força pra não demonstrar decepção. Tadinha dela… Eu gosto da Jack. Mas… né? Você sabe bem com quem eu queria ficar.

Mas eu sabia que o dia ia ser longo, então beleza (muita água podia rolar ainda). O Marcus pediu pro Nick ajudar ele com umas coisas no carro (o cara é super preparado: além da carriola tinha mais umas tralhas pra facilitar nosso serviço). Quando eles ficaram longe, a Jack pediu desculpas. Eu dei uma de desentendido, e perguntei o motivo. E ela: “Eu não quero ficar sozinha com ele, e também não quero que você fique sozinho com ele”.

Era óbvio que eu não queria ficar a sós com ele, depois da encarada assassina que recebi. Mas continuei perguntando o motivo e, como sempre, a Jack deu aquelas respostas diretas: “Ele não tem um sentimento muito bom com garotos como você”.

Hum, garotos “como eu”, né? Aiaiai. E eu que tinha pensado que ele estava só demarcando território (aquela coisa de ex-namorado possessivo perto de outros homens, sabe?). Mas é bem pior. Ela percebeu que eu fiquei meio aéreo, porque colocou a mão no meu ombro pra me chamar de volta à Terra. E a única coisa que consegui pensar pra responder foi ridículo… “Eu dou tão na cara assim?”.

Aff… Por que eu fui perguntar aquilo?

Mas ela não ligou. Disse que de início não percebeu. Que eu não “dou pinta”, nem nada. Mas aí explicou que durante a festa da piscina ela notou como eu olhava pro irmão dela, e que daí em diante foi só observar mais algumas “dicas” dos meus olhares.

Que merda… Então eu sou um idiota apaixonado que dá bandeira sem nem perceber. Putz, depois disso eu achei até bom que a divisão era eu com a Jack (quis me esconder num dos túmulos lá do cemitério e sair só quando todos fossem embora). E ela, mais uma vez me lendo, falou “Ei, Isaac, relaxa… Eu não vou deixar ninguém te machucar”.

Acho que ela estava se referindo ao Marcus.

Quando eles voltaram, colocamos umas galochas altas que ele tinha trazido (para evitar bichos peçonhentos) e simplesmente começamos. Eu e a Jack fomos num dos cantos enquanto os outros dois foram numa parte oposta, com mais mato e menos moitas. De onde estávamos, dava pra ouvir o cortador de gramas, e de vez em quando umas risadas mais altas dos dois. No meio do silêncio, enquanto a gente batia as enxadas no solo, eu perguntei o que rolou entre a Jack e o Marcus. E ela disse que conheceu ele antes de ir fazer o intercâmbio, na escola, e que a atração que sentiram foi só física (o cara é fortinho, até entendo ela… mas não faz meu tipo), e que eles ficaram juntos antes de ela conhecer “o pessoal” (se referindo à galera zen). Fiquei sabendo que o Marcus repudiava eles, falava que eram abraçadores de árvores maconheiros, que a galera estava colocando bobagens de espíritos na cabeça da Jaqueline, essas coisas. A separação foi mais do que natural.

É, ele é um babaca mesmo”, eu falei, rindo, e ela deu um suspiro quase triste. Meio que senti aquela dor, quando ela disse “Você seria o cara perfeito… Se conhecer um outro Isaac, mas que curta meninas como eu, me apresenta, ok?”.

… Foda.

Ouvir aquilo doeu um pouco, amiga. Não por mim, mas pela Jack. Só que imediatamente ela riu e já disse que não queria que eu sentisse pena, e essas coisas (mas a verdade é que acabei sentindo um pouco). Tentei disfarçar, e ela também pulou pra outros assuntos, mas aquilo ficou como se fosse um grãozinho de areia no sapato – e não pense que estou criticando, não é isso! É que não tem como evitar a constatação de que ela tinha realmente me olhado de forma diferente, e só não avançou porque percebeu que não adiantaria.

Nossa, gosto muito dessa menina. Queria poder dar o que ela precisa, mas isso é impossível. A única relação que a gente vai poder ter é de amigos. Melhores amigos. Inseparáveis amigos. Best friend forever, irmãos de alma, companheiros de jornada… Só que nada além disso.

Teve uma hora que não deu mais pra conversar, porque a tarefa era muito extenuante. Se a gente ficasse papeando, ficaria sem fôlego. Foi aí que ela pegou o celular e colocou algumas coisas pra tocar. Eu comecei a ouvir e simplesmente não entendia o que a música falava (tenho hábito de ouvir muita coisa estrangeira, mas eu sabia que aquilo não era inglês, nem espanhol, francês, italiano, nem nada… Não fazia sentido pra mim). Uma língua muito diferente, mas com um ritmo super gostoso de ouvir, viciante até. Eram vozes de garotos… Vozes muito sexys de garotos… Ela percebeu que eu fiquei com uma interrogação na cara, e falou que era “Gay-pop”. Eu achei que ela estava tirando onda comigo, mas depois eu entendi que era “k-pop”, um pop coreano (a pronúncia disso é “kêi-pop”… vai falar que não se parece com o que eu tinha entendido antes? Ou eu que sou tapado mesmo?).

Ela começou a dançar enquanto metia a enxada no chão (eu pedi umas dez vezes para aquela louca tomar cuidado, e ela só ficou cautelosa quando eu contei do naco de carne que o Seu Antônio arrancou do próprio pé). No fim das contas, aquelas músicas salvaram a nosso trabalho matinal, porque deu uma recarregada nas energias pra continuar em frente com a enxada.

Lá pelas onze horas o Marcus veio perguntar que porra era aquela (ele estava falando da música). Olhou pra Jack, e depois pra mim, e ela se colocou na minha frente perguntando o que ele queria (eu admiro e sou grato a essa atitude, mas preferia não ser tratado como se eu tivesse 13 anos). Dali a pouco o Nicolas apareceu também, e eu senti um frio na barriga quando ele olhou pra mim.

O Nick estava sério, mas de uma forma agradável.

Eu juro que não consigo explicar direito… Ele é difícil de ler. Qualquer coisa que eu fale vão ser suposições, e eu não gosto de simplesmente supor. Mas… basta ser humano para julgar e supor as coisas, não é? Bom, então… Suponho que ele estivesse me analisando (isso deve ser inerente dos “gêmeos Belson”, não é possível). Eu posso estar super errado, mas aquele era um olhar de quem está verificando algo.

Me pergunto o que aqueles dois conversaram enquanto estavam sozinhos… (e chega de supor, ok?).

O que eles queriam era uma pausa para comer. O Marcus perguntou se “as mocinhas” não iriam fazer algo pro almoço, e foi o próprio Nicolas que repreendeu ele: “Aê, não precisa falar assim”, só que o outro lá se safou fácil ao rir e dizer que estava só brincando. A Jack chamou ele de idiota e entrou na minha casa com o Marcus na cola dela.

Não liga pro jeito ogro de ele fazer brincadeira”, o Nicolas falou. Eu quase respondi que “tudo bem”, mas mudei de ideia e comentei que aquilo era tão imbecil quanto o próprio Marcus. Ele olhou pro chão. “É, ele faz essas coisas idiotas, mesmo”. Parecia que estava se desculpando pelo outro, lá… Eu arrisquei colocar a mão no ombro dele, pra que ele voltasse a olhar pra mim, e sorri. Fiz isso consciente daquilo que a Jack falou, sobre eu dar bandeira… Eu não estava nem aí. Tentei mesmo enviar nesse meu sorriso algo a mais. E ele retribuiu.

Foram uns poucos segundos assim… De novo, aquela coisa, como se tivesse um véu em volta da gente, nos separando do mundo. E eu olhei pra boca dele de relance (sim, eu sei… bandeira DEMAIS… mas não consegui evitar). E percebi que isso deu um estalo no Nicolas, porque ele meio que voltou a olhar pro chão, sem jeito.

É, isso foi uma merda, eu sei. Tirei a mão do ombro dele na mesma hora. Foi muito ruim sentir isso, quase como uma rejeição subliminar e super sutil.

Depois disso a Jack chamou da cozinha, para irmos comer. Creio que era a forma de ela pedir socorro (já que estava sozinha com o Marcus), mas a verdade é que a Jack salvou a mim e ao Nick de uma situação meio esquisita.

Nosso almoço foram lanchinhos com patê e com presunto que eu tinha deixado preparado de manhã, antes de eles chegarem (não sou tão incompetente assim, também). Ainda bem que eu fiz bastante, porque o Nicolas e o Marcus comem que nem tratores.

Nós ficamos sentados na varanda (onde eu estou agora, cheio de repelente) enquanto o Marcus avaliava o que ainda tinha que ser feito. Eu estava sentando um pouquinho mais afastado, e o Nicolas veio pra perto perguntar o que eu estava achando de ter meu quintal desbravado. A verdade é que até aquele momento não tínhamos visto nada além de tufos e mais tufos de mato, mas eu não falei isso (ia parecer ingratidão). Preferi falar que estava sendo legal, e aproveitei pra agradecer mais uma vez.

Enquanto isso, percebi que o Marcus e a Jack começaram alguma conversa entre eles, falando mais baixo. A Jack estava amuada, e o Marcus tinha se transformado: estava com uma cara mansa, meio galanteador.

Tentando reconquistar a Jaqueline? Com certeza.

Eu torci por duas coisas naquela hora: 1) Para que eles continuassem conversando, e 2) Para que a Jack não desse mole pra ele.

E acho que Deus deve ter ouvido minhas preces, porque no turno da tarde ela mesma falou que eles pegariam juntos uma das alas com o cortador de gramas. Eu e o Nicolas ficamos com o outro lado da “selva”, perto do charco (o córrego que passa nos fundos do terreno, lembra?), munidos de enxada e um facão. “Então… bora?”, ele perguntou. Quando ficamos sozinhos ele disse que já tem um tempo que estava querendo que a irmã se acertasse, porque o namoro tinha terminado de uma forma abrupta, antes da viagem da Jack pro exterior. “Eu sei que aqueles dois não dão certo como casal”, ele explicou, “Mas a gente precisa se ver direto, então eu não queria que a situação ficasse estranha… Eles podem pelo menos fazer as pazes”.

A coisa sobre o precisar se ver direto me chamou a atenção, então perguntei. Fiquei sabendo que os pais do Marcus têm uma floricultura enorme na cidade vizinha, e que os gêmeos são um dos fornecedores de flores e plantas de lá. Por isso, vira e mexe ele está colando na casa florida para um novo carregamento.

E nessa hora foi a vez do Nicolas me fazer perguntas. Quis saber sobre meus pais, e o motivo de eu ter discutido com eles. “É que, essa faxina toda é pra receber os dois não é?”. Eu senti um arrepio ao imaginar meu pai entrando pelo portão. Expliquei que era somente a minha mãe, e acabei revelando um pinguinho daquilo que eu já te contei num outro e-mail. Eu não queria parecer dramático, nem nada… Expliquei aquilo para você para desabafar, mesmo (não quero sair espalhando pro mundo como eu tinha uma vida escrota com minha família). Por isso, falei somente o básico: que eles não concordavam com minha forma de pensar, e que eram duros comigo. Nada muito além disso. E o Nicolas ouvia cada palavra minha com uma atenção que eu não me lembro de ter recebido antes. Tinha hora que ele parava de mexer no mato e ficava com os olhos grudados em mim. Parecia hipnotizado enquanto eu falava.

E eu lembrei daquele momento antes do almoço (quando acidentalmente olhei para a boca dele, e deixei ele sem jeito). Eu não sabia o que pensar sobre aquela forma de ele ficar vidrado nas minhas palavras. Fiquei repetindo na minha cabeça “Larga de ser besta, Isaac, o Nicolas só está sendo legal com você… larga de pensar coisas!”. Fiquei com isso como um mantra, porque eu realmente não queria interpretar nada errado, e fazer uma besteira pra estragar tudo.

Mas aí ele começou a perguntar coisas mais desconcertantes… Olhava pro meu casarão de madeira, e depois pra mim, com a camisa suada começando a grudar no corpo… “Você não se sente sozinho aqui, todos os dias?”. E eu disse que só às vezes. Acabei falando pra ele que a ficha ainda não caiu de que aquilo tudo é meu, e que não devo mais satisfações para ninguém… E é verdade. Ainda me é estranho.

E ainda não conheceu nenhuma garota legal na cidade, pra tentar um relacionamento?”.

Meu cérebro estava fritando. Não pelo calor (porque o tempo estava agradável), mas porque eu estava tentando entender o motivo daquelas perguntas. Por exemplo: se fôssemos só dois brothers, mesmo… Se eu não tivesse nenhum interesse nele… Seria normal essa pergunta?

E decidi que… Sim, seria super natural essa curiosidade, claro! E minha consciência gritou pra eu parar de criar esperança infundada.

Eu expliquei que não tinha conhecido muita gente ainda, e que a única garota legal até o momento era a Jack. Nessa hora eu fiz questão de enfatizar “mas relaxa, que eu não vou me engraçar pra cima da sua irmã”… ele riu, disse que eu seria um bom cunhado.

(não, Nicolas Belson, eu não seria um bom cunhado para você…)

E ele continuou com a investigação (sim, porque percebi que as perguntas dele começaram a me sondar… tenho um palpite que ele queria ter certeza de uma “certa coisa” sobre minha sexualidade). Como quem não quer nada, e sem me olhar enquanto se abaixava pra mexer em alguma coisa, perguntou se eu já me envolvi com alguém antes.

Uma parte de mim queria que ele desembuchasse logo. A outra parte estava curtindo o joguinho… Mas, vou dizer uma coisa: é torturante.

Então eu resolvi dar a dica, já que pelo jeito ele não ia ser direto: “Nunca me envolvi com nenhuma mulher… nem com homens”.

Eu senti tudo gelar nessa hora, mas fiz cara de paisagem.

Ele me olhou, meio surpreso pelo que eu tinha dito. Tenho cá pra mim que era a confirmação que ele queria, porque parou com a inquisição. Respondeu só “hum”, e voltou a atenção para o trabalho. Eu tive vontade de perguntar “E você?”, para descobrir sobre os casos antigos, mas travei total. Era como se o ar tivesse ficado mais denso, porque… Aquele “hum” poderia significar qualquer coisa.

A gente foi rodeando o charco, e descobrindo que ele não era tão grande quanto parecia (realmente é somente um riozinho com uns dois metros de largura que pega somente o cantinho do terreno, e segue mato adentro, fora dos limites da minha casa). E teve uma hora que o sol acabou esquentando muito. Eu reclamei de calor, mas de uma forma muito espontânea. E nessa hora o Nick respondeu com outra pergunta “ah é? Tá com calor?”, e pegou um pouco da água do córrego pra jogar em mim. Eu assustei, mas quando olhei ele estava rindo… Um riso lindo de criança sapeca…

Ahh…

Como eu estava perto, molhou bastante minhas costas, e aquela água estava muito gelada! Larguei a enxada pra descontar nele, mas o doido pulou no rio, se encharcando todo… Então não adiantava mais eu molhar ele (na parte mais funda, a água pegava a cintura). “Tenta me pegar”, o Nicolas falou, lá dentro.

Ah, amiga… Ele me confunde demais. Todo molhado daquele jeito, e mordendo o lábio (sim! Ele fez isso) esperando que eu fosse… o que? Pegar ele? Então tá, eu fui. Mas com aquela regrinha na cabeça: “é zoeira de brothers… só zoeira de brothers”, e comecei a jogar água nele, também. A gente ficou um tempo assim, só rindo e tentando um derrubar o outro no fundo lamacento do riacho. E como ele é mais alto e mais forte, levava a melhor.

Mas…

Eu…

Estava…

Simplesmente…

Amando…

Aquilo!

Ele me agarrava por trás e me jogava, só pra eu levantar e ele fazer tudo de novo. Acho que nunca ri tanto na minha vida.

E aquela coisa morna no peito crescia… Junto com outra coisa, lá em baixo! Bom, o que eu posso fazer? O cara que eu gosto estava me agarrando, todo molhado e com a roupa colada no corpo… Era meio óbvio que eu iria ficar com o pau duro que nem rocha. De vez em quando, nas minhas tentativas (inúteis) de derrubar ele, eu meio que… Roçava nele… Às vezes sem querer, às vezes propositalmente.

E no fim, teve uma hora que eu tentei resistir mais a ficar em pé, e quando ele me derrubou acabei levando ele comigo. A gente caiu na beirada do córrego, os dois encharcados e sujos de barro. Mas… Eu cai em cima dele, e foi nessa hora que ele percebeu que eu estava duro…

… Que… Vergonha…

O Nicolas ficou meio tenso e me olhou assustado. Me senti o pior ser humano do mundo… Ele colocou a mão na minha cintura (quase morri), mas me colocou de lado, falando que era melhor a gente volta ao trabalho. Eu pedi desculpas sem conseguir olhar na cara dele. Tentei me explicar falando que “Isso foi sem querer”, mas a vontade de sumir ainda estava lá. Ele falou “Relaxa, acontece”. Mas ele próprio não estava relaxado.

Voltamos a trabalhar, e eu percebia olhadas dele pra mim, de vez em quando, como quem quer puxar assunto pra sair da situação. E ele acabou sugerindo que a gente fosse pra um outro lado, porque ali já estava bom. No caminho ele avisou o Marcus e a Jack que iríamos pra penúltima ala (as tais divisões que o Marcus tinha feito). Eles pareciam que tinham se entendido, porque estavam conversando a vontade.

Diferente de mim e do Nicolas.

Aquele lado que fomos era um dos que tinha mais porcaria. Muitos galhos de árvores já secos caídos no chão, e um monte de mato morto junto com outros que cresciam. Uns minutos depois de termos recomeçado eu vi uma cobra se arrastando no chão.

Em tantos dias morando aqui, ontem foi a primeira vez.

Merda”, foi só o que eu falei, e foi o bastante pra chamar a atenção do Nicolas. Ele veio pra perto de mim e pediu que eu ficasse quieto. Tirou a camisa molhada e jogou sobre a cabeça dela, pra depois dar uma enxadada.

Argh… A camisa dele ficou nojenta. Ele disse que de vez em quando aparece algumas na casa dele, também, mas que é raro. Depois de explicar isso ele voltou a trabalhar. Eu perguntei da camisa estragada, e ele disse que era velha, e não tinha problema.

Ok. Ele iria ficar sem camisa o tempo todo… Aquele corpo lindo (sim, eu conferi, ele é tão delicioso quanto aparentava por baixo dos panos) à mostra do meu lado… É como ter uma obra prima e não poder admirar. Uma situação um pouco complicada, porque… Se eu disser que não fiquei espiando, estaria mentindo.

E o suor começou a escorrer pelas costas dele. Eu ficava olhando aquele monte de músculos trabalhar. Ah, que droga. Precisei pensar em outras coisas pra acalmar meu amigo, que já estava acordando de novo.

(fiquei imaginando meus dedos correndo pelas costas suadas dele… e minha boca explorando aquele peito…)

Mas ter que pegar aquele bicho morto e levar pra carriola foi o bastante pra eu broxar. E quando voltei, o Nick tinha parado e olhava pra alguma coisa. “Vem cá, Zak”, ele chamou. Quando ficamos lado a lado, vi uma espécie de tampão de concreto no chão, logo à frente. “Um poço?”, eu perguntei. E ele olhou pra mim, já sem aquela tensão ruim, e falou, todo divertido “Vamos descobrir”.

Precisou de bastante força para conseguirmos abrir aquilo. Depois de um tempo, o tampão foi colocado de lado, e descobrimos que já teve um poço sim, mas que agora está coberto por uma boa porção de terra. O buraco tinha poucos metros de profundidade antes de chegar na parte aterrada, e ficamos ajoelhados ali, dando uma pausa (aquela base de concreto que protegia o buraco tinha dado canseira). Ele olhou pra mim e brincou “Será que a gente descobre algum porão escondido por aqui, também?”, e eu entrei na dele “Talvez fosse lá que o Senhor Roberto guardasse os cadáveres”. Uma coisa besta, eu sei… Mas consegui arrancar dele uma risada.

E… A gente estava tão perto… Um ajoelhado ao lado do outro. Ele ficou olhando pra mim, e o riso sumiu. O Nicolas voltou com aquela cara de quem tenta entender algo. E… Sim, ele olhou pra minha boca.

Ok, para tudo! Isso é um sinal… Não é? Tentei voltar àquele mantra de “apenas brothers” e talz, mas não consigo imaginar um amigo me olhando daquele jeito.

E ele respirou fundo, e olhou de novo pra minha boca.

Eu… Só… Queria… Beijar… Ele… Logo. E me aproximei um milímetro, só pra testar, e ele não se afastou. Só continuou me olhando. E quando criei coragem pra fazer algo a mais, a Jack chamou a gente.

Eu xinguei ela mentalmente… O Nicolas deu um pulo pra trás, como quem estivesse fazendo algo errado, e foi ver o que ela queria. Eu ainda fiquei agachado lá um tempo, processando…

“Ele queria o mesmo que eu? Ele iria me beijar? Se ela não tivesse aparecido, o que teria acontecido?”. Queria saber. Queria muito saber.


 

… Fui agora levar minha xícara na pia, e aproveitei pra tirar a água do joelho. Eu ainda tenho coisas pra contar, e sei que esse e-mail está ficando muito maior que o normal… Caramba, acho que nunca escrevi tanto na minha vida!

Desculpe se estou cansativo… =__=

Voltando… A interrupção da Jaqueline era para contar que tinha uma carcaça de coelho na ala que eles estavam mexendo. Aproveitei para falar da cobra, e achamos que estava na hora de dar outro break para comer. A Jaqueline foi junto com o Marcus buscar algo mais substancial do que meus lanchinhos (que já tinham acabado), e o Nicolas precisou usar o banheiro.

Aquele foi o primeiro momento à sós que eu tive com minha casa depois que o terreno começou a ser desbravado. Tinha funcionado assim: depois que os tufos de mato eram retirados das alas, vinha a dupla seguinte com o cortador de gramas e aparava tudo, retirando algo que tivesse sobrado. Estava ficando bonito. Até comecei a imaginar uma mesa de pique-nique debaixo de uma das árvores, e uma piscina ao sol.

Quem sabe um dia.

Acabei emprestando uma camiseta pro Nick (deixei ele escolher, no meu guarda-roupas) e ele pegou uma antiga, dizendo que não queria correr o risco de estragar as outras (ele tem sensibilidade, hehe), e ele reparou em como eu moro num lugar vazio.

Tem até eco”, comentou, com aquele olhar. Mas logo ele saiu e desceu as escadas. A gente ficou esperando os outros enquanto quebrei o silêncio constrangedor falando do DarkSouls (aquele jogo que vi quando peguei o colchão dele). Isso acabou sendo legal, porque vi a empolgação dele enquanto falava a respeito.

Dava a impressão de que a gente estava evitando propositalmente aquele assunto. Como se os dois tivessem concordado mutuamente em fazer de conta que aqueles momentos anteriores não existiram. Bom, a minha vergonha de ter cutucado ele de pau duro poderia mesmo se esquecida. Mas eu não queria deixar para trás aquele outro momento, quando destampamos o poço. Queria que continuássemos de onde paramos.

Mas seguimos falando sobre coisas amenas. E a maneira como ele falava era encantadora. Eu estava simplesmente enfeitiçado.

O Nicolas não é um cara qualquer. Sei lá, ele tem… Como se fosse um algo a mais. É moleque quando tem que ser, e é adulto quando o momento pede isso. Não sei o que ele já viveu no passado, mas… Seja o que for, serviu como base para criar quem ele é hoje. E eu gosto desse Nicolas (a verdade é que eu queria não gostar tanto).

Quando o Marcus e a Jack voltaram, estavam com marmitas. Como já estava entardecendo, comemos rápido e partimos pra concluir o resto (faltava pouco). O resultado final não ficou como de um hotel-fazenda super chique, mas certamente transformou minha casa em algo mais apresentável. Agora entra até mais luz na sala e no meu quarto (o único problema é, como comentei, que ficou tudo mais exposto pelo fato de ter uma grade em vez de muro).

O Marcus recolheu as coisas e foi embora primeiro. Eu agradeci e dei quarenta reais pra ele (pra aliviar um pouquinho da culpa de ter sido ajudado por alguém que quero distância), e a Jaqueline foi logo depois. Ela me deu um abraço apertado, uma piscadinha muito significativa, e se mandou.

Bom, acho que tenho que me acostumar com isso. Afinal, é a Jack.

O Nicolas estava se demorando enquanto enrolava a extensão que foi usada para o cortador de gramas. Não sei se foi proposital, mas ele deixou o fio cair duas vezes, tendo que enrolar tudo de novo (e isso atrasou ele).

Foi uma sensação de “agora ou nunca” meio explosiva. Eu sabia que ele estava indo embora, e eu não queria que ele fosse sem eu ter algum tipo de confirmação. Mas ao mesmo tempo eu não queria perguntar nada, e percebi que o Nicolas também não. Ele finalmente se acertou com os fios e disse que estava indo. Fui com ele até o portão, mas antes de abrir e dar espaço para que ele passasse, me virei e agradeci (é, eu sei… “de novo”… mas eu não tinha ideia do que falar).

Nem sei como contar isso… Está tudo meio zoneado ainda, na minha cabeça…

Bom, ele estendeu a mão, e eu apertei. Estava formal demais… Aí eu simplesmente avancei e dei um beijo nele. Um selinho na boca, simples. Mas tentei fazer isso de uma forma que não se assemelhasse ao cumprimento “zen” da turma da Jack.

Era pra ele sentir minha intenção.

Eu estava tão nervoso… Me afastei, olhando pra ele esperando alguma reação. De início ele ficou pasmo, mas no segundo seguinte… Ele largou os fios e o cortador e me puxou.

Ah, meu Deus… Minha mão treme só de lembrar. Ele me puxou colocando as mãos na minha nuca e me beijou pra valer. E, apesar de ter sido eu a ter iniciativa, fiquei sem reação. Mas… Ele colocou a língua, e… Ah, amiga… Eu só queria que aquele momento durasse para sempre.

Mas não foi assim. Ele separou nossa bocas e encostou a testa na minha, ficando de olhos fechados. Ele estava respirando tão rápido que senti o nervoso dele chegando em mim. Ele estava ofegante… E, do nada, ele se desvencilhou de mim e pegou as tralhas que tinha derrubado. Sem me olhar disse “Foi mal, eu não devia ter feito isso”.

E foi voando pra casa dele…

Isso foi ontem, no comecinho da noite, antes de eu ir na rodoviária.

Eu estou até agora sentindo aquela boca macia na minha… Aquela barba rala no meu queixo…

Ahh, Deus. O que aconteceu pra ele agir daquela maneira?

Eu não tenho a menor ideia.

Ele deve ter me beijado num impulso, e se arrependido… E isso está cravado em mim como espinho. Se ao menos aquele beijo tivesse durado mais… E pareceu tão desesperado, como se… Eu posso estar alucinando, mas é como se ele tivesse guardado aquilo por um tempo, sabe? Porque foi urgente.


 

… E eu nem tive muito tempo de processar tudo, porque tinha que sair pra rodoviária. Eu fui com a bike até lá, e só naquela hora vi uma mensagem dela dizendo que não tinha pego o ônibus, e que só viria na tarde do dia seguinte (que é hoje).

Foi frustrante, sim. Mas ao mesmo tempo agradeci.

Aquela pilha que estava em mim precisava ser gasta antes de eu me encontrar com minha mãe. E eu passei boa parte da madrugada (e essa manhã toda) ouvindo um som bem alto nos headphones. Toquei Trapt até não aguentar mais.

Hoje, lá pelas quatro da tarde, eu já acreditava que ela tinha desistido (ela nunca viajou, então seria plausível), mas recebi uma mensagem dela, dizendo que estava quase aqui. Eu peguei minha bike (mais uma vez…) e voei pra rodoviária, achando que iria encontrá-la já me esperando. Mas o ônibus atrasou.


 


 

Num lado, o beijo do Nicolas… Do outro, a minha mãe vindo… Sim, meu cérebro estava em ponto de virar pasta, de tanto que eu remoía tudo.

E no fim, ver ela saindo do ônibus foi…

Eu não imaginei que aquilo aconteceria, mas eu chorei quando vi minha mãe. Corri e abracei ela de uma forma que eu não lembrava ter feito há mais de dez anos. Ela não me abraçou com a mesma empolgação. Perguntou o que deu em mim e, quando larguei ela, percebi que estava com vergonha, olhando em volta.

Não liguei. Eu realmente tinha feito algo fora do comum (e se somar minha iniciativa do beijo, eu meio que me superei). Ela estava arisca. Perguntou onde eu morava, se era longe, e por que eu não tinha um carro ainda. Me muni de paciência para responder tudo. Eu sabia que não tinha a possibilidade de meu pai aparecer, então foi mais fácil. Consegui lidar com o mau humor dela.

Na volta a pé eu mostrei uma coisa ou outra da cidade. A gente não conversava, nem nada. Ela só ia olhando para onde eu apontava, e concordando com a cabeça. Assim que viramos a esquina e vimos meu casarão de frente (bem ao longe) eu apontei dizendo que era ali. Ela me deu um tapa na nuca, porque pensou que eu estava fazendo ela de boba com uma brincadeira. Mas foi ficando pasma quando percebeu que era verdade.

Passar na frente da casa florida, com o Nicolas mexendo nas plantas, foi uma coisa esquisita. Ele me olhou meio alerta, e depois viu que eu estava acompanhado. Deu um cumprimento cordial (somente vizinhos, e nada mais… Algo assim… Dói lembrar), mas a Jack, que estava também ajudando a transportar flores para vasos, gritou meu nome (daquele jeito que você sabe) e veio falar com a gente. Ela fez o favor de dizer pra minha mãe que estava ansiosa por conhecê-la, e disse que eu falei muito bem dela (eu tinha falado da minha mãe pra Jack, sim, mas não exatamente “bem”… - e nem mal, também).

E parece que a Jaqueline, aquela doida Santa Milagrosa, fez a magia dela. Não sei de onde veio aquilo, mas minha mãe sorriu pra Jack, e depois sorriu pra mim.

Eu fiquei bobo com a habilidade daquela menina. Sò porque ela tinha dito que eu falei bem da minha mãe pra ela? Caramba…

Lá no fundo, perdido entre um monte de folhagens e pétalas, o Nicolas me espiava de vez em quando (notei pelo canto do olho). Recebi uma cutucada da Jack, e ela disse que tinha algo a me perguntar sobre o irmão, mas que deixaria para outra hora. A forma como ela falou, tão despretensiosamente, não despertou curiosidade na minha mãe (ainda bem, porque eu tenho um leve palpite sobre qual é a curiosidade da minha vizinha perspicaz).

Quando nos despedimos da Jaqueline e íamos nos aproximando do portão ela falou “Que boa vizinha, hã?”.

É claro que ela pensou coisas. Minha mãe tem esperanças desesperadas de que eu arranje uma namorada. Em partes era porque ela queria que eu me casasse logo pra me mandar (acho), mas a outra parte é porque, ao arranjar uma namorada, acabaria com aquela pequena desconfiança dela, de que eu “corto pro outro lado” (como ela falava, quando criticava um cara homo da igreja).

Mal sabe ela. Ahh, maaaal sabe ela!

A excursão da Dona Olga (minha mãe) pelo Pântano dos Mosquitos foi até que interessante. Parece que ela se esqueceu por um momento que eu era filho dela, e começou a perguntar como eu tinha conseguido aquele lugar. Eu contei do site da imobiliária, e inventei que o pessoal daqui não gostava de casas grandes, por isso ela estava baratinha (até parece que eu ia contar dos cães e do ex-dono). Como ela é uma pessoa bem simples (e não costuma questionar tanto as lógicas das coisas) acabou aceitando minha versão com uma naturalidade impressionante.

Já estava escurecendo, e eu tinha, SIM, feito o tal do bolo! Eu comprei três caixinhas de bolo de chocolate, pra garantir. Se um desse errado, eu faria outro. Mas… Segui tão à risca as dicas da Jack, que ele ficou per-fei-to. Ponto pro Zak!

Quando eu mostrei o bolo pra minha mãe, ela perguntou se eu tinha comprado. Respondi que não, que eu mesmo tinha feito, e ela deu aquela entortada de boca (homem na cozinha, blá, blá, blá), mas eu aproveitei a situação pra falar que eu tinha que aprender aquelas coisas.

E eu percebi uma coisa: por ela estar num ambiente diferente, ela também estava mais maleável.

Talvez a ausência do meu pai, ou o fato de estar fora da área de domínio dela, ou por estar numa viagem de lazer… Ou isso tudo junto! Mas minha mãe estava diferente. Ainda tem as minhocas na cabeça, mas eu consegui contornar, explicando que eu tinha que fazer as coisas da casa por mim mesmo porque não tinha quem fizesse pra mim. É claro que ela veio com uma de “pagar empregada”, mas relevei.

De janta, eu tinha deixado preparada uma macarronada (a única coisa que eu sempre soube fazer, graças à minha habilidade com miojos), e enquanto comíamos ela fez questão de pegar um tabletzinho pra assistir um capítulo da novela que ela tinha perdido ontem. Aquele tablet é uma espécie de terreno seguro pra ela. Uma fuga. Igual eu com StarCraft, acho.

Quando era na casa dos meus pais, era a televisão ligada que criava o silêncio familiar. Ninguém conversava, e se conversasse, era pra discutir. Então já estou acostumado.

Depois eu mostrei o meu quarto para ela (como eu pensei, ela foi checar a organização do guarda-roupas… bingo, estava arrumado, embora nada passado à ferro), e deixei ela com minha cama. Fiz o máximo pra ela ficar o mais a vontade possível, e falei que eu estaria no colchão da sala (depois do que aconteceu ontem, acho meio estranho ir deitar no colchão dele… está ali me aguardando, prontinho com lençol e minha blusa de frio servindo de travesseiro…).

Em casa minha mãe já tinha o hábito de se recolher bem cedo. Mas aqui ela foi ainda mais cedo, com o tablet dela. Deve estar se sentindo deslocada. Até EU estou me sentindo deslocado. E amanhã é o dia das mães… Eu não tenho um presente para ela, nem nada. E não tenho a menor ideia do que vamos fazer. Talvez eu a leve pra conhecer a prainha (o rio represado que comentei com você uma vez). Sei que minha mãe tem poucas experiências em lugares assim. Talvez seja bom.

Ah, desculpe. Sei que estou passando bem por cima esse meu encontro com ela, mas é que… Além de não ter sido grande coisa, minha cabeça está em outro lugar. O que eu queria mesmo era que o Nicolas tivesse me cumprimentado com o mesmo entusiasmo de sempre…

Eu fiz errado, em ter dado um selinho nele?

É que senti como se eu tivesse aberto uma comporta do Nicolas que ele não estava pronto pra lidar. Mas… O segundo beijo partiu dele, e ele parece ter se arrependido.

Lembrando agora… Ele beija bem… Segurou minha nuca daquele jeito, com as duas mãos… E… A boca dele tinha um gosto bom… O cheiro da respiração dele me arrepiou.

Queria que nunca tivesse acabado.

Queria mais um beijo…

Queria entender o Nicolas…

Um monte de “queria”, eu sei… Mas é verdade.

Bom, agora ele sabe. Pelo menos isso. Não vai ficar mais aquele joguinho de “é ou não é”.

Hey, Nick eu estou afim de você! O que vai fazer quanto a isso?”… Algo assim…

E se ele realmente não quiser nada comigo, eu vou ter que pegar essa droga de sentimento e afogar (não que eu já não esteja tentando fazer isso).


 


 

…Eu… beijei… o Nicolas.

É, a ficha não caiu direito ainda. Eu estou cheio de fichas enroscadas, já percebeu? O fato de que essa casa é minha, o fato de que minha mãe está lá em cima agora, na minha cama, o fato de eu ter tido uma iniciativa de beijar o cara que gosto…

… E ter sido beijado de volta…

… Pra depois ser rejeitado…

Agora entende minha confusão?

Não sei o que pensar, amiga. Simplesmente não sei. A única coisa de que tenho certeza é de que eu queria saber o que está acontecendo na casa de flores. Saber o que ele está fazendo… Mas sou só o Isaac, sem visões do além, tomando o sereno da noite.

E já é tarde, hein! O_O Eu acho que fiquei durante umas quatro horas escrevendo esse e-mail.

Aliás, olha o tamanho disso que escrevi!

Já deixou de ser uma simples correspondência pra virar quase um tratado! Cruzes!

Bom, vou finalizar por aqui. Eu ainda quero relembrar a parte BOA daquela aproximação, e tentar deixar pra lá o sentimento ruim que veio depois (porra, o Nick fugiu, não tem outra palavra). E também, planejar o dia de amanhã…

Ah, quanta coisa na cabeça, credo.

Amiga, desejo uma boa noite. Te aluguei hoje, hein…

Um abraço apertado, porque sei que você está em algum lugar por aí, me lendo. Sinto isso.


 


 

Eu estava pra clicar no botão de “enviar”, mas voltei pra comentar algo: parece que minha mãe está chorando lá na sacada… Caramba, eu odeio ouvir ela chorar. Está bem baixinho, mas esse lugar parece que amplifica tudo. Além do som dos insetos noturnos, só ouço ela.

=/

Pensei em ir ali, ver se está tudo bem, mas… Acho que é melhor eu ficar na minha. Ela nunca tem a oportunidade de ficar tranquila num lugar. Se eu aparecer lá posso ferrar com tudo.

Era só isso… Boa noite, amiga!


 

(eu vou me deitar agora… no colchão dele)

 

 


Notas Finais


MUSICA: https://www.youtube.com/watch?v=cfZdB_l7ldQ

(a música acima foi sábia sugestão de um amigo, o Augusto Lincon (https://www.wattpad.com/user/augustolincon), também autor de romances LGBT - recomendo uma espiada ^_^ - e tem bastante a ver com este momento do Zak)

OBS: O termo "Over My Head" também pode ser traduzido como "Fora de minha compreensão", e é neste sentido que tem mais a ver com Isaac e Nicolas. ;-) #FicaDica



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