História O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 21


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Boyslove, Diário, Romance
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Palavras 4.960
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Slash, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Self Inserction, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 21 - 17.05.18 Quinta (manhã)


Fanfic / Fanfiction O Monótono Diário de Isaac - Capítulo 21 - 17.05.18 Quinta (manhã)


De: [email protected]
Para: [email protected]
Assunto: Dia das mães e muitas perguntas…

 

 

Acordei com os olhos ardendo… Odeio isso. Não tenho conseguido dormir bem ultimamente. Eu tento fingir pra mim mesmo que está tudo bem, mas toda noite é a mesma merda.

Eu desanimei totalmente de escrever esses dias (imagino que você tenha notado). E o único motivo de eu ter voltado a pegar nisso aqui hoje foi porque, nas poucas horas em que consegui pegar no sono, eu sonhei com a pessoa mais inusitada possível

Consegue imaginar quem?

Tenho um palpite de que você errou…

Bom, eu fiquei realmente surpreso, mas essa noite eu sonhei com ninguém menos do que você! Sim, você mesma, minha amiga. Eu não lembro tão bem do sonho como eu gostaria… Odeio isso: sempre quando acordo é como se eu tentasse agarrar fumaça com os dedos… Uma coisinha ou outra se retém, apenas.

Mas vou tentar.

Eu estava num campo. Não era florido, nem tinha árvores… Era apenas grama verde para onde quer que eu olhasse. Eu estava sozinho, e tinha uma tempestade horrível vindo. Nesse sonho eu senti medo… Medo daquelas nuvens escuras chegando, como se fossem ondas de petróleo num maremoto. E eu me encolhi. Me encolhi e protegi minha cabeça, esperando o baque das nuvens (sei lá, parecia que elas iriam me derrubar). E de repente, senti uma mão na minha cabeça. Na minha frente, tinha surgido uma mulher de vestido longo e esvoaçante. Eu não conseguia ver o rosto, porque sempre que eu tentava olhar minha visão ficava turva. Mas o que me lembro claramente é da sensação boa dessa presença. Tinha algumas plumas nas costas, como um anjo (ou espírito de luz, algo assim).

Essa mulher (que eu ainda não sabia quem era) estendeu a mão e segurou a minha, para que eu levantasse. Perguntou o motivo de eu tê-la abandonado… Na hora eu não entendi, e aí ela explicou: “Os e-mails… Fiquei esperando sua mensagem todo esse tempo”, ela disse. E foi aí que eu senti uma onda de choque percorrer todo meu corpo, porque entendi que aquela, na minha frente, era você!

Eu comecei a chorar, e te abracei…

Foi tão incrível… Acordei arrepiado e com os olhos úmidos, porque não foi um sonho qualquer. Era como se eu estivesse lá de verdade. E senti um amor tão forte e tão puro me percorrer, que… Nossa, é inexplicável. Como se você fosse a irmã que eu nunca tive. A única parte da família que me ama como eu sou, mas que nunca teve a oportunidade de vir até mim…

É você.

Fico aqui me lembrando de umas coisas que conversei com a Jack durante a faxina, sobre espíritos que se encontram durante o sono, desdobramento, e essas coisas. Eu não sei se acredito muito nisso, mas se for verdade, nós definitivamente nos encontramos. Tudo o que sei é que foi absolutamente incrível. Você, me pedindo para voltar a escrever esses e-mails… E teve outras coisas boas que você me dizia, mas que eu esqueci quando acordei. Só que a sensação boa ficou. Obrigado, Amiga! Anjo! Irmã!

Olha, se não fosse por isso, eu certamente não estaria aqui, nesta manhã, escrevendo isso. Não que eu tivesse desistido, mas eu estava desanimado depois de tudo. Eu meio que… queria esquecer. E quando te escrevo, preciso relembrar, entende?

Mas no sonho você me disse que “relembrar é importante”. Eu não sei se é verdade, mas… O que você me passou foi tão forte e tão bom que não teve como negar.

Acho que você é meu anjo da guarda… Minha irmã espiritual e protetora.

Por sua causa eu estou melhor do que nos últimos dias. E eu não sei como agradecer, porque não sei como se agradece anjos…

 

 

Então… Lá vou eu, voltar a me lembrar…

Eu não tenho visto o Nicolas. Humm, aliás, vi sim… Na terça, quando voltei do cemitério, ele estava mexendo no jardim. Me olhou demorado enquanto eu ainda estava longe (como se quisesse falar algo), mas quando eu estava já perto, passando na frente da casa dele, só me cumprimentou e voltou a enfiar a cara nas folhagens.

A Jack começou a trabalhar, também (soube porque ela falou via mensagem). Ela agora é funcionária num escritório aqui da cidade. Algum departamento relacionado a traduções e contato com estrangeiros, se não me engano (ela disse que foi um dos motivos de ela ter feito curso de inglês no Canadá). Ela chegou a me convidar pra uns passeios, mas neguei tudo (não estou com a mínima vontade de colocar o nariz pra fora, quero que o mundo exploda).

O dia das mães foi bom, pelo menos (uma parte dele). E foi a Jaqueline que salvou o dia, porque eu, na manhã do domingo, mandei uma mensagem de socorro pra ela, perguntando o que eu poderia fazer para que o dia não fosse um fiasco (minha mãe estava pousando aqui, lembra?).

Ela disse “bate um papo com sua mãe, ué”, e eu explique que isso era quase impossível. Não adianta… Sem um intermédio, não funcionaria. E foi aí que mandei uma mensagem pedindo para ela ir com a gente.

Antes, preparei o café da manhã: coloquei pão de fôrma pra dar uma tostada no forno (eu não tenho daquelas torradeiras que vemos em filmes), e coloquei leite morno com Nescafé numa toalhinha sobre a pia (eu sempre achei de boa ficar sem mesa, mas com minha mãe aqui era bem chato servir tudo dessa maneira, e ter que comer com o prato na mão).

Minha mãe acordou com umas olheiras. Deve ter chorado bastante de madrugada.

Mas… Ela sorriu pra mim e falou bom dia. Sabe quanto tempo faz que ela não me falava um bom dia assim, me sorrindo? Nunca. Isso NUNCA havia acontecido antes.

Droga… Estou vendo o teclado todo turvo (desse jeito vou pifar meu note). Queria não me emocionar tão fácil. E queria também que tivesse sido assim sempre: aquele bom dia dela pareceu tão diferente.

Tão… “mãe”.

Eu não tinha nenhum presente pra dar (além de eu não fazer ideia do que comprar, eu estou mesmo ficando cada vez mais sem grana) então só perguntei se eu poderia dar um abraço nela. Ela ficou meio sem jeito, mas disse que sim.

E quando eu a envolvi, ela começou a chorar. De novo. E ela me pediu desculpas…

Haa… Está difícil escrever esse e-mail.

Ela logo quis se soltar. Nunca gostou de contato físico (e aqui tenho que agradecer a Hellen, porque ela junto com o pessoal da minha classe me fizeram uma pessoa mais sociável, porque eu tinha essa mesma coisa da minha mãe antes).

Ouvir minha mãe falar aquilo, baixinho, foi doloroso. Eu fiz um carinho rápido no ombro dela e respondi que “tudo bem”. Sei que ela me falou coisas muito ruins no passado, e que não dá para serem esquecidas tão rápido. Mas… Não sei… Eu simplesmente quis perdoar tudo dela naquela hora. Tudo.

Acho que ela só é daquele jeito porque meu pai é daquele jeito.

Nessa hora eu aproveitei para sugerir um passeio a pé. Ela disse que “ok” sem muito ânimo, e eu perguntei se poderia chamar a Jaqueline pra ir junto (enfatizei a palavra “amiga”, pra ela entender que não passa disso). E, por incrível que pareça, o fato de saber que a Jack iria junto fez ela se animar um pouco (quando eu apresentei as duas, no sábado, minha mãe se encantou com ela).

Mandei uma mensagem pra Jaqueline, e… Nossa, ela ficou elétrica. Concordou na hora. E antes de passarmos na casa das flores eu alertei para que a Jack não fizesse “certos comentários” (sobre vida em família, marido, ou minha sexualidade)… Afinal, você sabe… Ela é cheia das perguntas desconcertantes, e eu não sei se falar daquelas coisas seria um bom caminho (aliás, tenho certeza de que seria péssima ideia).

Quando a gente passou na frente da casa dos gêmeos, a Jack já estava esperando, toda linda e produzida, e com o cabelão loiro dela preso numa trancinha que fazia ela parecer uma daquelas holandesas (nem sinal do Nick já que aos domingos ele trabalha no mercado Via Colina). Ela deu um buquê pequeno, de rosas brancas, para minha mãe. Mentiu falando que eu tinha encomendado, e piscou pra mim, pra que eu não estragasse tudo.

Jack, como sempre, tentando me ajudar… Mas minha mãe não me olhou, nem agradeceu. Bom, eu me sentiria estranho receber gratidão sem ter feito nada, mas… Fiquei pensando como seria se eu realmente tivesse encomendado, e entregue algo de minhas mãos pra ela.

Ah, que seja… Não tem como eu saber.

As duas foram andando na frente, pela calçada, e começaram um papo super entrosado sobre botânica e cultivo. A Jack começou a explicar o que eles fazem (sobre o fornecimento de flores), e eu fiquei sabendo que isso era uma coisa da falecida mãe deles, e que o Nicolas quis continuar por gostar de mexer com plantas. Soube também que ele está estudando pra passar em um vestibular de Engenharia de Alimentos, numa universidade da cidade vizinha.

Além de lindo, é inteligente, então…

Ouvir ela falando do Nick me deu uma mistura de sentimentos – bons e ruins. E eu vi que ela me espiou meio preocupada (a famosa checagem Raio-X da Jack). Lembrei que ela tinha dito que queria me fazer uma pergunta. Eu tinha certeza do que se tratava, e senti que ela estava fazendo uma força de Hércules pra se segurar na frente de minha mãe.

Ao chegarmos na prainha minha mãe ficou encantada. Quando eu morava com meus pais, nunca havíamos ido a viagem nenhuma, muito menos à praia. Tudo bem que o que temos aqui em Vale do Ocaso é na verdade a represa de um rio enorme, mas para quem nunca conheceu o mar (no caso de minha mãe), aquilo já era magnífico o bastante.

Eu já fui à praia (refiro-me ao mar, mesmo) três vezes, com a família da Hellen. Se não fosse por ela, acho que eu nunca teria tido a sensação da água salgada na boca e das ondas retirando a areia debaixo dos pés. Saudade disso…

A “prainha” de Vale do Ocaso é um ponto de encontro comum do pessoal de lá. Até quem mora em Eloporto (a cidade ao lado) gosta de passar umas horas ali, pelo que notei. E por ser um dia diferente, estava mais movimentado do que no dia que eu vim com minha câmera (aliás, eu estava com ela e tirei umas fotos… mas minha mãe ficava tapando o rosto).

A Jack tinha lembrado de algo que nem me passou pela cabeça: levou uma toalha enorme e colocou no chão pra gente sentar. E de quebra ela tinha uns snacks doces e salgados, e maçãs na bolsa (por que eu não tinha pensado naquilo?). Ficamos sentados lá boa parte do tempo. Eu quase não falava nada… Os únicos momentos em que eu interagia era quando a Jack tentava criar algo entre eu e minha mãe, com perguntas sobre gostos genéricos, mas a verdade é que nunca tivemos um assunto em comum.

Mas, sinceramente, pra mim bastava estar ali, vendo as duas conversando e sorrindo.

A Jack tentou arrastar a gente pra água (o fato de estarmos de roupas não é um problema para ela, como notei na festa da piscina). Mas minha mãe foi insistente em não querer e a Jaqueline acabou deixando pra lá (tenho certeza de que: se fosse eu e o Nick ela teria dado um jeito, nem que tivesse que levar o rio até a gente… só que ela sentiu a vibe quebradiça da minha mãe e respeitou).

Teve uma hora que precisei sair pra usar o banheiro público, e acabei me demorando um pouco. Quando voltei, vi de longe as duas absortas numa conversa que aparentava ser mais densa. Me aproximei devagar, mas a Jack disfarçou (para que minha mãe não visse) e levantou a mão pra mim, pedindo para que eu esperasse, deixando-as a sós um pouco.

Eu me roí de curiosidade, mas entendi que aquele era um momento delicado. Minha mãe estava de costas pra mim, mas notei que ela secava os olhos às vezes, e a Jack segurava a mão dela.

Fala se essa menina é, ou não é, uma espécie de santa… Caramba, eu nunca conseguiria fazer algo assim. Será que todas as pessoas Zen são dessa maneira?

(eu fico falando “zen”, mas ela explicou que a palavra certa é “mística”)

Me sentei no chão de areia, perto da borda do rio, esperando algum sinal pra me aproximar. Acho que passou uns quinze minutos até eu ouvir as duas rindo, e daí a Jaqueline me olhou e deu uma piscadinha pra que eu voltasse. Quando cheguei e me acomodei na toalha com elas, minha mãe estava absolutamente mudada. Um sorriso mais sincero no rosto… (se o psicólogo dela soubesse, pediria demissão).

Depois disso foi mais fácil participar das conversas. E minha mãe deu de falar uma coisa ou duas de quando eu era pequeno. Sobre como eu fazia caminhos na terra do quintal, e espetava palitos de churrasco para serem os postes (deixando ela louca com o desperdício). E de como eu sempre levava cartões no dia das mães (e ela disse, como se fosse piada, que não sabia bem o que fazer com aquele monte de “comida de traça”… eu fingi que achei graça e a Jack parece ter notado meu mal estar). Eu nem lembrava dessas coisas. Faz tanto tempo… Numa época em que eu ainda achava que minha mãe me amava.

Outra coisa que ela contou foi sobre o fogão e geladeira novos que eu dei, antes de me mudar. Fiquei sabendo que ela já estava querendo, e por isso ficou tão emocionada naquele dia: ela nunca havia tido coragem de comentar com meu pai que precisava de novos (e falando nele, pelo jeito o bêbado idiota sequer percebeu que trocou a geladeira e o fogão).

No meio desse monte de revelações, eu soube que ela teve que largar um emprego promissor numa tapeçaria por causa da minha gestação. Eu pensei que as revelações ruins fossem ter início (sobre eu quase ter sido abortado), mas acho que ela não queria que a Jack soubesse desse lado.

Uma parte minha perguntou, lá no fundo da consciência: “Foi por causa do tal emprego promissor que você quis se livrar de mim, na gravidez? Para poder ser promovida e viver de boa?”, mas afoguei o pensamento. Afinal, eu tinha de fato perdoado ela. Só Deus é que sabe realmente pelo que minha mãe passou com aquele traste do meu pai até os dias de hoje. Acho que a maldição da vida dela não foi eu, e sim meu pai (mas ela não admite isso por medo do que ele possa fazer, acho).

A gente conversou mais um pouco sobre amenidades, e quando o sol começou a ficar mais forte (lá pelas três e meia) fomos pro aquário da cidade (que eu nem sabia que tinha… fica meio escondido, perto da represa) e depois passamos na galeria de artes (que eu já visitei uma vez).

E então veio uma descoberta: minha mãe ama arte! Quem diria… Achei que a única atividade “cultural” que ela conhecesse fosse aqueles programas ridículos da TV aberta.

Ela e a Jaqueline ficavam apontando para formas que nem eu tinha notado. Algo como procurar desenho em nuvens… E eu fui percebendo o porquê de algumas pessoas permanecerem tanto tempo diante de uma pintura, ou escultura. Nessa hora eu descobri o que comprar pra minha mãe quando eu tiver um emprego melhor, com grana de verdade, porque os mais baratinhos estavam na faixa de quinhentos contos (e o jornalzinho que eu assinei aos domingos só anuncia emprego com diploma…).

Na volta para minha casa passamos na frente do Via Colina (aquele mercado), e a Jack disse que precisava pegar umas coisas lá. Ela olhou para mim, querendo saber se eu a acompanharia, mas… Preferi esperar do lado de fora (eu não estava afim de topar com o Nick). E, quando eu menos espero, ouço minha mãe falando “vou esperar aqui, com meu filho”.

Wooaah, eu fiquei sem reação! Minha mãe deu um sorriso bonito, com os olhos meio úmidos… Não falamos nada. Apenas continuamos na calçada, olhando o movimento da avenida em frente ao mercado.

Não demorou muito pra eu ouvir a voz da Jack, passando no caixa. Nessa hora eu senti aquela fisgada na nuca (sabe, quando parece que estamos sendo observados?), então eu virei… O Nicolas estava ali, e me encarou de um jeito meio triste. Hesitante, acho. Parecia que queria vir e falar comigo, mas viu minha mãe do meu lado, e acabou só me cumprimentando com um aceno de cabeça.

Ah, Nicolas…

Desejei tanto estar sozinho naquele momento! Queria que o mundo parasse, e ele viesse até mim e soltasse de uma vez o que quer que fosse aquele espinho, porque estava (e ainda está!) machucando a ambos.

E sei que, seja lá o que ele queira falar, não pode ser na frente da minha mãe!

Óbvio. Imagine só… “Com licença, dona Olga… Posso falar com seu filho sobre o beijo gay que demos na sexta-feira?”. Que divertido (sim, eu estou sendo muito sarcástico).

Minha mãe perguntou se ele era meu amigo. Expliquei que é o gêmeo da Jack, e ela se surpreendeu de início, mas depois concordou que os dois eram mesmo parecidos. Assim que a Jack se juntou a nós, voltamos à nossa caminhada para irmos embora. A Jaqueline ficou na casa dela (não sem antes se despedir de minha mãe, dizendo “pense no que eu te falei”), e minha mãe voltou comigo até o Pântano dos Mosquitos (falei pra ela desse apelido, e fiquei exultante quando consegui arrancar uma risadinha, mesmo que fraca).

Naquele domingo, não aconteceu mais nada. Ela foi tomar banho e se fechou no meu quarto. Eu fiquei com meu notebook, jogando um pouco pra matar o tempo e me distrair (a sorte é que StarCraft força mesmo a gente a focar o pensamento, e isso é bom quando quero parar de me sentir mal por um tempo).

E foi logo na segunda-feira pela manhã (ante-anteontem ← isso existe?) que minha mãe foi embora. Ela saiu do quarto já com as malas prontas (eu assustei, de tão repentino) e, depois de um café da manhã silencioso, carreguei tudo até a rodoviária. Ela já parecia que estava entrando no antigo “modus operandi”, como se uma parte dela já estivesse perto do meu pai. A parte sorridente da Olga voltou a hibernar, e ela estava com cara de velório – e disso agora eu entendo (era como se ela estivesse voltando pro inferno… o que não deixa de ser verdade).

Depois de comprarmos a passagem, e um pouco antes de ela entrar no busão, ela virou pra mim e fez a pergunta mais inesperada (e desconcertante) de todas. Perguntou se eu iria me acertar logo num casamento com “aquela moça” (ela falava da Jack), e disse “Depois que se casarem, vou morar com vocês”.

Ah-Meu-Deus-Eu-Ge-Lei.

Olha… A gente até que conseguiu conviver como mãe e filho normais nesse fim de semana, mas eu não sou nenhum santo pra aceitar ela morando comigo (perdoar é uma coisa… ter amnésia e esquecer tudo o que aconteceu é BEM diferente).

Eu falei pra ela que eu não tenho o menor interesse romântico na Jack, e que não iria me casar… E aí tive uma ideia que faria ela definitivamente não querer morar comigo: contei (meio por cima) a história do antigo dono, o Sr. Roberto.

Nossa, ela fez uma cara… Se benzeu com o sinal da cruz… Se afastou de mim como se fosse eu que tivesse assassinado o cara e comido a carne dele…

Senti raiva dela. Num dia depois do dia das mães, eu senti raiva da minha! Olha, me desculpe… Não sei como outras pessoas poderiam encarar isso. Eu não fiz nada, só fiquei olhando pra ela com o desgosto de um filho que é (mais uma vez) rejeitado. Eu sou um monstro? Um filho de merda? TALVEZ.

Mas ver ela me olhando daquele jeito, como se eu fosse um lixo de ser humano, só porque moro num lugar daqueles… Me alterou.

Eu poderia ter colocado uma cereja nesse bolo de merda, falando logo de uma vez sobre mim… Mas não fiz isso. Se eu fizesse, seria pura pirraça… Mas algo me segurou. Uma intuição de que era melhor deixar pra lá. E eu deixei…

Pensa isso… Ela estava falando sobre eu me casar com a Jaqueline, pra ela vir morar comigo e com minha esposa! Eu não sei em que universo aquela mulher vive para achar que depois de tudo o que vivemos aquilo estaria “ok”… E eu consegui estragar esses planos sem noção dela, porque… Morar comigo ela não vai. Tanto eu quanto ela precisamos melhorar muuuuitas coisas internas antes de essa proximidade dar certo.

Eu saí de lá vendo ela entrar no ônibus capengando, com a ajuda do motorista. Parecia que ela estava tendo outro daqueles ataques, de tão rápido que estava respirando, e com a mão no peito. Eu comecei a ficar preocupado só que, depois que ela entrou, parece que ficou normal (dava para ver, pela janelinha… ela não percebeu que eu ainda estava por lá, já que fiquei meio escondido).

Será que ela estava fingindo?

Quando eu morava lá, e ela tinha aquelas crises de cair no chão sem ar, eu já cheguei a me perguntar se era de propósito, só pra fugir de alguma discussão. E naquela hora, na rodoviária, vendo ela perfeitamente bem no ônibus, lembrei disso de novo.

E com a partida, na manhã de segunda, eu considerei que meu final de semana estranho tinha terminado.

Se contar desde aquele beijo na sexta-feira, até a interação com minha mãe no domingo, e pesar com a rejeição do Nicolas e a volta da minha mãe à atitude antiga, eu diria que o saldo foi “nulo”.

Mas, da forma horrível como estou me sentindo, é difícil aceitar isso. Pra mim esse saldo foi bem negativo.

Dali, fui direto pro trabalho. Como eu tinha pego a quinta e sexta-feira passada de folga (pra fazer a faxina em minha casa), acabou juntando muito serviço. E pela primeira vez eu fiquei trabalhando no cemitério até a noite. Segunda, terça e ontem também, voltei bem tarde e quebradaço de lá.

Ah, e hoje teve algo diferente: eu ajudei a descer um caixão durante um enterro. Caramba, que sensação ruim… É esquisito ter que fazer isso enquanto tem um monte de gente chorando em volta… Me senti mal por eles, só que ao mesmo tempo eu era quase como um fantasma. As pessoas passavam por mim com a cabeça baixa, me contornando como se eu não existisse (me pergunto se os outros sepultadores também se sentem assim).

Sempre tem esses enterros enquanto eu estou trabalhando (uns dois por dia, em média), só que eu nunca precisei ajudar. Era sempre algo que acontecia numa ala bem diferente da minha. Dessa vez eu estava por perto, e como os sepultadores tiveram uns problemas com uma das parentes (que desmaiou e teve que ser levada) acabei entrando na dança mesmo sem querer.

Bom, desculpe por essa desviada no assunto… Sei que tem outras coisas que você quer que eu conte, mas… Lembrei disso então achei conveniente falar sobre. É que nunca acontece nada excepcional no trabalho.

Enfim…

Quando eu estava voltando com a bike, ontem à noite, a Jack me abordou no meu portão. Esses dias, como eu estava ocupado, acabei não respondendo muito as mensagens de celular dela (e eu já expliquei pra ela que não gosto de falar de coisas importantes por whatsapp, então… fiquei meio ausente).

Ela já chegou dizendo que eu estava escorregadio e fujão. Deu uma olhada para trás, checando se não tinha ninguém por perto (isso foi quase engraçado, porque minha casa fica tão afastada das outras que mal precisa olhar pra saber que estamos no meio do nada). E finalmente veio a pergunta que eu já esperava há dias: “O que rolou entre você e meu irmão?”. Ela estava de braços cruzados, mas não parecia brava comigo. Estava só aflita e morta de curiosidade.

Eu respondi com outra pergunta, querendo saber o motivo de ela não ter perguntado isso diretamente pra ele. “Tem horas que o Nick é hermético… Não adianta, eu não consegui”.

Rá! Jaqueline Belson não conseguiu arrancar uma resposta de alguém? Interessante. Mas visto que o inquirido era outro Belson, talvez não seja tão impressionante assim.

Eu não queria falar… Fiquei meio quieto, e ela insistiu. E, nessas horas, nada melhor do que soltar de uma vez, concorda? E foi o que eu fiz. Soltei bem assim: “A gente se beijou, e seu irmão se arrependeu”.

É, sei que resumi demais a coisa toda com essa resposta pra Jack, mas… Era mais ou menos aquilo mesmo. Mas desconfio que ela não pegou muito a parte do “seu irmão se arrependeu”, porque ela já cobriu a boca e arregalou os olhos na parte do “a gente se beijou”. Ela ficou toda empolgada (aham, ela tinha mesmo ignorado a parte de ele se arrepender), e ficou me chacoalhando “Ele te beijou mesmo? Jura?”. E eu acabei contando melhor como foi. Que a iniciativa maluca foi minha, mas que ele continuou por vontade própria, e talz…

… E que ele se desculpou e disse que não devia ter feito aquilo.

Ela respirou fundo, balançando a cabeça. “Ah… Agora entendi porque ele está daquele jeito”.

Eu fiquei aflito… Daquele jeito COMO? E fiz ela falar (na verdade, não foi difícil porque ela queria falar, acho). Esses dias todos ele tem ficado muito quieto nos cantos, sem conversar muito e comendo pouco. E, de acordo com a Jack, sempre que ela perguntava se tinha acontecido algo entre a gente ele ficava melancólico. A única resposta que ele deu sobre isso é que “ele tinha feito algo que não sabia se devia, e que agora estava perdido”.

Era possível eu sentir o peito apertar ainda mais?

Nessa hora eu lembrei da cara dele, naquele domingo, quando me olhou triste lá do caixa do mercado.

Bom, essa conversa com a Jack foi ontem à noite. E eu ainda não falei com o Nicolas. Não quero simplesmente chegar lá e perguntar se ele tem algo pra me dizer. Eu não funciono assim.

Depois que a Jaqueline contou isso, explicou que o Nick tem um passado do qual não pode se afastar, e que era natural que ele estivesse daquele jeito.

Isso fez minha mente girar.

Oi? Que passado? QUE PASSADO, MULHER?

Ela não falou. Eu insisti, mas ela me deu um sorriso triste e fez um carinho no meu braço. Porra, ela espelhou a cara que o Nick tinha feito…

Eu estou ODIANDO ficar nesse escuro. Eu simplesmente DETESTO quando as pessoas sabem de algo que tem (de alguma forma) relação comigo, e que eu não possa saber! Ela só pediu desculpas, e disse que isso era algo que eu teria que conversar com o Nick. E ela perguntou “Você gosta mesmo dele, né?”, e eu respondi que sim, meio sem jeito. A resposta dela foi um abraço.

E só.

Eu sei que ela está com dó de mim.

Merda… Isso faz eu me sentir um miserável (não que eu não seja, mas… me sentir assim torna a coisa mil vezes pior). Sou tão digno de pena, assim?

E que passado é esse? Putz, e isso porque eu ia perguntar sobre o que ela tinha conversado com minha mãe, lá na prainha. Mas essa coisa de passado do Nick fez todo o resto desaparecer da minha cabeça, e acabei não perguntando.

O Nick está sempre trabalhando no mercado, ou nas flores dele. Nunca o vi com uma garota, nem vi uma galera vindo pegá-lo pra uma noitada (diferente da Jack, que vira e mexe está saindo com o pessoal místico). Ele é diferente em vários aspectos. E tem uma maturidade meio… melancólica. Que passado o Nicolas tem para que seja assim no presente?

Eu estou ensaiando ainda o que dizer. O que perguntar… E ainda nem decidi se eu devo pedir desculpas por ter dado um beijo nele. Mas, porra, o que eu dei foi um selinho, quase como o que a Jack me deu na festa (quase… eu disse que coloquei segundas intenções no meu selinho né?). Mas, o segundo beijo foi ele quem deu, e foi muito bem dado.

Eu não esqueci ainda o cheiro bom dele, perto de mim… a língua dele junto com a minha… A boca quente, molhada… Ahhh… céus… Eu nunca tive um beijo tão bom (nem tão rápido) na minha vida.

… e saber que eu talvez tenha que me desculpar por isso…

É… MUITO… RUIM!

Eu estou com uma ideia de passar lá amanhã cedo, que é quando o Nick tem folga do mercado. Posso falar pro Seu Antônio que chego mais tarde (e fazer mais horas-extra), e chamo o Nick pra… Sei lá, irmos na sorveteria… Não sei, o que acha?

Dá pra voltar a ser “apenas amigo” de alguém que te puxou pra um beijo daqueles?

Bom, a pergunta está lançada. A resposta ainda não sei, amiga.

E vou ver se sondo um pouco a Jack essa noite, pelo Whatsapp.

Agora tenho que me arrumar pra sair. Você sabe… Trabalho, cemitério, mato e sujeira nos túmulos de uma multidão em decomposição.

(eles que estão desmanchando, mas quem está se achando só o pó sou eu)

Até mais, minha queria amiga, irmã-anjo.

Gostei de te encontrar hoje, no sonho… =)

De verdade, amei isso.


Notas Finais


🌸 🌸 🌸

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Falta um pouco, ainda... Curte lá, e convide suas amigas(os) fujodanshis para curtir também *-*

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