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História O mundo como eu vejo - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


Ooooooooooi, meus amores, tudo bem?

Eu sei que tô um pouquinho atrasada, geralmente costumo publicar meia noite em ponto, mas tive alguns problemas pra escrever essa semana e acabei atrasando. Espero que me perdoem.

Mas, como o prometido, estou aqui trazendo pra vocês o último capítulo de mcv, espero MUITO que vocês gostem e tenham uma ótima leitura. Sem mais delongas, vou deixar vocês a vontade pra ler... nós vemos de novo mas notas finais!

💖💖💖

Capítulo 4 - O rosto mais belo que eu nunca vi.


Oh Sehun era realmente um ser humano muito paciente e qualquer pessoa que tivesse convivido com o garoto nos últimos anos confirmaria aquilo. 


Permaneceu morando no mesmo lugar por muito tempo, na esperança de que, talvez um dia, Junmyeon aparecesse em sua porta e pedisse por uma chance, e Sehun tinha a completa certeza que lhe concederia seu pedido sem pensar duas vezes. Mas isso nunca aconteceu, então resolveu que seguiria em frente. O primeiro passo foi alugar um apartamento — não muito longe dali — com o dinheiro que estava guardando de seus salários não muito generosos, tinha começado a trabalhar logo que terminou o ensino médio no intuito de ajudar sua mãe com as despesas, mas depois que a confeitaria da senhora Oh começou a fazer sucesso ela quase não parava em casa, isso foi um grande argumento para convencê-la de que seu filhote estava mais do que pronto para morar sozinho.


2016 trouxe a notícia da morte do padrasto de Junmyeon e, com isso, a esperança de que o Kim poderia finalmente voltar para aquela pacata cidade. Foi essa mesma esperança que fez com que Sehun fosse até o cemitério naquele dia, ele nem sabia o que estava fazendo ali, mas fez questão de acompanhar o enterro de longe, os olhos atentos na procura do corpo baixo ou do perfume que ainda parecia cravado em suas narinas mesmo depois de tanto tempo, mas não encontrou nada, pelo contrário, ninguém compareceu ao enterro e isso fez com que o Oh tivesse a certeza do quão horrível aquele homem era. Mas ele estava morto, Junmyeon iria voltar agora, certo? Errado. Essa foi a primeira vez — de muitas que viriam depois —  que Sehun duvidou da palavra de Junmyeon. 


Em 2017, Sehun resolveu que investiria num tratamento recém chegado no mercado e que se esforçaria mais do que nunca para se curar da cegueira facial. Foi um longo ano. Não era nada fácil para o homem ter que voltar ao passado e relembrar de suas dores, reviver cada uma delas para, só então, superá-las com calma, era uma tarefa dolorosamente árdua. Mas o Oh se manteve forte, queria virar aquela página de sua vida e sentia que só conseguiria seguir em frente se tivesse aquela parte de sua infância superada. 


E no primeiro dia do ano de 2018 que o resultado de um trabalho demorado e lento finalmente apareceu. Quando acordou naquela manhã, decidiu que faria uma visita para sua querida mãe — já que tinha passado a virada do ano na companhia de seus três melhores amigos, Kim Jongdae agora fazia parte do grupinho — e, assim que entrou na casa, subiu para o quarto de sua progenitora e a encontrou ainda deitada na cama com o cobertor até o pescoço, puxou o pano quentinho com rapidez e não pôde evitar o grito que saiu solto pela garganta assim que viu o rosto de sua mãe, totalmente nítido. Mãe e filho correram mais do que nunca até o médico já tão conhecido apenas para receber a notícia de Sehun estava, parcialmente, curado. Ainda não reconheceria o rosto de todas as pessoas, mas, talvez, das mais próximas, mas aquilo já era um grande passo para Sehun.


O Oh chegou a pensar que tudo se resolveria dali para frente e muitas coisas realmente deram certo. Sua visão cada vez melhor, já conseguia até enxergar o rosto de pessoas desconhecidas. Mas parecia que algo ainda estava faltando e ele sabia muito bem o que era. Kim Junmyeon fazia falta mesmo depois de sete anos sem nenhuma notícia. É claro que, depois de tanto tempo, conheceu outras pessoas, se envolveu tanto com homens como com mulheres, mas tudo parecia ser tão raso. Para Sehun, ninguém nunca seria tão interessante como Junmyeon, nenhum relacionamento tão intenso e cheio de carinho escondido em cada palavra. Foi uma relação tão rápida, mas demorou tempo o suficiente para que não pudesse nunca duvidar da conexão que tiveram — e ainda tinham, mesmo depois de tanto tempo separados. 


E foi com a chegada de 2020 que Sehun — no auge de seus vinte e sete anos — passou a duvidar que encontraria novamente Kim Junmyeon algum dia, tinha perdido as esperanças e ninguém o julgaria por isso, passou tempo demais sem nenhuma informação, sequer poderia afirmar com certeza que o mais velho estava vivo. Kim Junmyeon tinha sumido no mundo sem deixar pistas.


Ainda não se sentia completo, mas conseguia sentir os resquícios de felicidade assim que colocou os pés para fora do hotel onde estava hospedado, respirou fundo e sentiu o ar entrar de forma diferente por suas narinas, tudo culpa do clima de Dublin. As ruas molhadas denunciavam as chuvas recorrentes por ali, e como se não bastasse, uma fina garoa caía naquele exato momento, forçando Sehun a usar um guarda chuva e roupas bem quentinhas, odiaria chegar todo molhado ao salão onde aconteceria o ensaio do casamento, não se sentia nem um pouco disposto a ouvir um daqueles sermões insuportáveis de Jongdae, não depois de uma noite de sono tão mal dormida.


Por esse motivo, tratou de apressar os próprios passos enquanto caminhava pelas calçadas escorregadias da cidade desconhecida. Não era necessário tanto para perceber as diversas árvores ao seu redor, por que tudo parecia ser tão verde ali? Sehun poderia se sentir tonto se olhasse por muito tempo e, na velocidade em que estava, foi exatamente isso que aconteceu. Ainda não tinha entendido por qual motivo secreto Chanyeol e Baekhyun teriam escolhido aquela cidade dentre tantas outras. Tudo bem, o casamento gay não era permitido por todo o mundo, exatamente por isso foi necessário que saíssem da Coreia para realizar tal evento, mas haviam outras opções, certo? Até onde iria aquela paixão estúpida de Chanyeol por todas as lendas irlandesas? 


Sabia que não adiantaria correr, já tinha atingido um tempo de atraso considerável e a chuva estava, aos poucos, aumentando. Precisaria alcançar uma marquise que pudesse cumprir o papel que seu guarda chuva não estava cumprindo, e assim que avistou aquele toldo vermelho vivo correu em sua direção, sua salvação estava bem ali.


Puxou o ar com força assim que se viu livre das gotas mais grossas e sacou o celular do bolso do moletom com destreza, discando o número de Jongdae o mais rápido que pôde mesmo sabendo que as chances de que o mais velho atendesse eram cada vez mais remotas, o Kim não atendia o aparelho nem em ocasiões normais e aconteceu exatamente a mesma coisa daquela vez. Chamou, chamou, e ninguém atendeu.


Sehun suspirou se sentindo cada vez mais frustrado, por que tudo parecia estar dando tão errado naquele dia? Já estava na cidade a três dias, mas a merda toda só começava a acontecer no dia anterior ao casamento de seus melhores amigos.


Foi só depois da terceira tentativa sem sucesso que desistiu de uma vez por todas e guardou o celular no bolso novamente, prestando um pouco mais de atenção às pessoas que corriam por aqui e ali, observando atentamente as feições de cada um, todos completamente desconhecidos e com traços diferentes dos quais estava habituado. 


Sentiu uma movimentação leve atrás de si e concluiu ser apenas mais uma pessoa fugindo da água gelada que caia do céu, mas não pôde evitar deixar que sua imaginação o levasse por caminhos conhecidos ao sentir aquele perfume tão familiar. No fim, não deu tanta importância, quantas vezes já tinha criado esperanças de que Junmyeon estava por perto só por sentir aquele aroma? A fragrância do Kim se mostrou ser muito comum, na verdade.


Não imaginava, porém, que a pessoa misteriosa estava passando por maus bocados e precisava tanto de uma ajuda em suas emergências. O homem estava ligeiramente atrasado para o seu trabalho e sabia que não chegaria a tempo de escapar de uma bronca, também não podia arriscar uma demissão, aquele emprego era tudo o que tinha. Portanto, sua única opção era fazer uma breve ligação e avisar ao seu superior que o céu estava caindo do lado de fora da empresa naquele exato momento, certo? O grande problema era que seu celular tinha descarregado no instante em que tentava concluir sua ligação, fazendo o homem se xingar mentalmente de todos os nomes possíveis, por que tinha que ser tão desligado ao ponto de esquecer de colocar o próprio celular para carregar logo naquele fatídico dia? 


O destino é realmente sacana, caros leitores, ele prega peças que ninguém pode sequer imaginar. Talvez se o ensaio final do casamento de Chanyeol e Baekhyun não fosse naquele dia, Sehun não teria se forçado a sair debaixo dos cobertores e enfrentar aquela tarde fria e chuvosa. Se o serviço de quarto não tivesse demorado a ser servido, o Oh não teria saído do hotel bem na hora em que a chuva aumentou, não estaria bem ali, perderia a segunda chance que a vida lhe deu para encontrar — ou reencontrar — seu amor.


Naquele momento, tudo poderia dar errado. Ambos os homens poderiam jogar tudo para o alto e sair dali sem trocar olhares nem por um segundo, mas não era isso que o destino reservava para os dois.


O homem — que era um pouco mais baixo do que Sehun — se sentiu aliviado ao ver que dividia a marquise com uma outra pessoa e, na esperança de que seu colega de toldo fosse no minimo gentil como um tipico irlandes, se aproximou e cutucou o ombro do outro, todo acanhado, sentia suas bochechas esquentarem com a vergonha. 


Sehun se surpreendeu com o toque, mas se virou mesmo assim, com uma carranca no lugar de um sorriso, não estava muito para gentilezas. Sentiu todos os pelos do corpo se eriçarem ao encarar as feições suaves do homem à sua frente, tão estranhamente familiar. Buscou na memória algum rosto ao menos parecido com aquele, mas nada lhe veio à mente, então apenas esperou que o homem se pronunciasse, mas ele parecia bem distraído tentando ligar seu celular, sequer levantou os olhos para encarar Sehun de volta.


— Olá, desculpe atrapalhar, é que meu celular descarregou e eu tenho uma emergência, será que você poderia ajudar esse estranho e me deixar fazer só uma ligaçãozinha? 


Não foi necessário muito mais daquele inglês carregado de sotaque para que Sehun identificasse aquela voz. Também não era tão difícil juntar os pauzinhos, o perfume amadeirado, a voz suave que parecia massagear os ouvidos, o formato corporal que não tinha mudado tanto e o rosto, tudo era familiar o suficiente para que Sehun se desse conta que, aquela pessoa que estava em sua frente, era a mesma pessoa por quem passou tanto tempo esperando e procurando. Kim Junmyeon estava bem ali, com o mesmo tom gentil e misterioso de anos atrás, sedutoramente perigoso da mesma forma, tirando os músculos mais definidos, Sehun poderia afirmar que Junmyeon continuava a mesma pessoa de nove anos antes, sem tirar nem pôr. E no final, Junmyeon era bem mais bonito do que os mais criativos sonhos do Oh conseguiam projetar. Poder, finalmente, contemplar a beleza dos traços marcantes era uma grande vitória para Sehun.


— Junmyeon? 


Foi a única coisa que conseguiu pronunciar, ainda se sentia em estado de choque, completamente letárgico e sem ação, mas o sorriso estava presente em seu rosto dessa vez. Mas foi o suficiente para que o Kim elevasse os olhos, assustado por reconhecer a voz que lhe chamava pelo nome com aquele tom tão gostosinho, pensou até que estivesse delirando, não seria a primeira vez, afinal. Só depois de uma rápida olhada pelo rosto do mais jovem pôde concluir que não estava em mais um de seus sonhos, era Sehun ali em sua frente e os traços tão conhecidos — afinal, estavam cravados em sua memória — não negariam isso.


Os olhares mais conectados do que nunca, tentando decidir o que fazer. Sehun analisava cada detalhe do rosto tão novo para si, sentia que poderia se perder facilmente em qualquer um daqueles traços. Enquanto Junmyeon lutava contra a vontade de correr para o corpo mais alto e se agarrar confortavelmente a ele, tinha medo de que Sehun fugisse caso tentasse um contato mais brusco, tantos anos tinham se passado.


— Você me reconheceu, uau! — disse Junmyeon, cada vez mais envergonhado, tinha tanta coisa para dizer mas nem conseguia se manter em pé direito, sentia suas pernas cada vez mais bambas e teve medo de que elas o deixassem na mão.


— Não vou entrar em detalhes mas, depois de um longo tratamento, agora eu consigo ver o rosto de qualquer pessoa da forma mais nítida possível. Meu médico diz que agora eu vejo melhor do que qualquer outra pessoa, ouviu? Talvez eu enxergue melhor do que você agora, Junmyeon. — Sehun disse animado, e foi o suficiente para que o Kim percebesse o quanto aquele garoto havia crescido, estava bem mais falante agora. Abriu um sorriso quando pensou que adoraria conhecer cada uma das novas características que formavam Sehun.


— Acho que temos muito o que conversar, Sehunnie! — Como num passe de mágica, o Oh arregalou os olhos e se afastou, quase caindo pra trás, como se ter sido chamado por aquele velho apelido tivesse o acordado para a realidade.


— Eu… acho que preciso ir. — Os olhos de Sehun demonstravam tristeza e confusão, e foi o suficiente para que Junmyeon percebesse o erro que tinha cometido.


— Eu sei que, muito provavelmente, você deve me odiar agora, talvez nem sinta mais o que sentiu a anos atrás, mas eu ainda sinto e posso explicar cada…


— Explicar? — Foi interrompido por uma risada sarcástica — E o que exatamente você vai dizer para se defender, Junmyeon? Eu já sei que não podia voltar enquanto o babaca do seu padrasto estivesse lá, mas ele morreu tem quatro anos, cara, e você recebeu a notícia, tenho certeza disso, fiz questão de gastar a porra de uma dinheirama para avisar o mundo inteiro — fez um gesto exagerado com as mão para encenar — sobre a morte daquele cara porque tinha esperança de que você voltaria se soubesse, mas não voltou. 


— Eu soube, mas eu ainda não tinha me estabilizado financeiramente e não podia trazer você comigo. — Até tentou se explicar, mas a carranca no rosto do outro só pareceu aumentar.


— E você achava mesmo que iria me bancar? Conta outra, Junmyeon! Se você não sabe, eu não sou mais um garotinho, tenho vinte e sete anos, uma casa própria e um trabalho que me dá dinheiro suficiente para viver uma vida até luxuosa. Resumindo: Eu sei muito bem como me sustentar. — Sentiu os olhos de Junmyeon pesarem sobre si, não sabia o motivo, mas o Kim se sentia repleto de orgulho pela pessoa que Sehun tinha se tornado, queria tanto dar um abraço nele e sussurrar em seu ouvido o quanto estava orgulhoso, mas se repreendeu assim que viu o outro começar a falar novamente — O gato comeu sua língua? Vamos logo, Junmyeon, se explique! Eu não tenho o dia todo, cara.


— Mas você acabou de dar a entender que não queria que eu me explicasse. — O Kim franziu as sobrancelhas, claramente confuso.


— Porra, Junmyeon, nem eu sei o que eu quero, só se explica logo antes que eu me arrependa, caralho! — Sehun exclamou irritado enquanto via as feições de Junmyeon quase se desmancharem em uma risada.


— Vou ter mesmo que ensinar um marmanjo de vinte e sete a lavar a boca? — Junmyeon disse, sem nenhuma conotação sexual, mas mesmo assim as bochechas de Sehun se esquentaram violentamente enquanto o homem arregalava os olhos. Aquela frase era realmente tão íntima quanto parecia ou era só a mente carente de Sehun dando as caras? — Sabe, eu acho melhor conversarmos outra hora, você parece atrasado e eu também estou. Podemos trocar nossos números e marcar num café aqui por perto, o que acha? — Sehun riu, sempre tão certinho e polido, o velho Kim Junmyeon estava ali. 


Da forma mais desajeitada possível, trocaram os números e aproveitaram que a chuva tinha dado uma trégua para se despedir e seguir seus próprios caminhos, mas antes de ir, Sehun não poderia perder uma oportunidade como aquela.


— Vê se não some dessa vez! Já foi ruim o suficiente ter que te esperar por nove anos, eu não sei se aguento mais tempo sem poder dizer o que sinto. — Sorriu na direção do mais velho, que arregalou os olhos e assentiu de forma rápida — E, ah, você é realmente muito bonito, Kim Junmyeon. 


Foi a deixa para que saísse correndo pelas ruas encharcadas sem nem olhar para trás, como o jovem de dezoito anos que ainda estava dentro de si e se sentia cada vez mais vivo. O coração batendo a mil e o sorriso no rosto denunciavam que não importava quanto tempo tinha se passado, o sentimento ainda permanecia o mesmo.


~x~ 


Se pudesse escolher, não sairia da cama naquele dia nem que fosse arrastado por Chanyeol. Quem diria que Oh Sehun, no auge dos seus vinte e sete anos de idade e sustentando uma pose de homem focado e super responsável, teria exagerado tanto na bebida logo no casamento de seus dois melhores amigos? Bom, foi exatamente isso que aconteceu. 


O resultado? Uma bela dor de cabeça acompanhada por dores nos lugares mais remotos do corpo. Tinha realmente dançado tanto naquela festa ou seria apenas a velhice já dando seus sinais? Não saberia dizer já que não se lembrava de nenhum acontecimento com detalhes. Pegou seu celular e mandou uma mensagem perguntando a Baekhyun como tinha chego no hotel na noite anterior, a resposta não tardou a vir, Sehun tinha entrado num táxi com Jongdae e carregado pelo amigo mais velho até o quarto — que estava de pernas para o ar, diga-se de passagem. 


Se aquele fosse apenas mais um dia normal e sem compromissos durante a sua estadia em Dublin, sequer teria levantado da cama. Mas bastou que olhasse a data e a hora para que se lembrasse de que teria um encontro muito importante naquela manhã. Tinha marcado de se encontrar com Junmyeon as 9hrs em uma cafeteria perto do hotel e se sobressaltou ao perceber que já estava em cima da hora e teria pouco tempo para se arrumar, por que raios tinha marcado tão cedo mesmo? Aos domingos ele só acordava depois das 10hrs, e aquele parecia ser um ótimo domingo para se enrolar nas cobertas quentinhas. Chegou até a pesar se realmente valeria a pena ir — o que nós não fazemos no auge da preguiça? —, mas concluiu que já tinha esperado tempo demais para que aquela ladainha se resolvesse, o pior que poderia acontecer seria ele ficar sozinho para sempre, certo? 


Se forçou a levantar, tomou um banho gelado na tentativa de despertar — bom, funcionou — e vestiu a primeira roupa que viu pela frente. Se sentiu ridículo quando olhou no espelho e viu o cabelo bagunçado, o rosto pálido, as olheiras profundas e as roupas que sequer combinavam, mas não tinha lá muito tempo para melhorar sua apresentação, Junmyeon teria que se contentar com aquilo. E foi pensando nisso que pegou seu celular, calçou seu velho tênis de guerra e saiu apressadamente dali.


Correu o máximo que conseguiu até o local combinado e, assim que atravessou as portas de vidro do ambiente quentinho, avistou Junmyeon sentado em uma mesa mais ao canto do estabelecimento que não estava lá muito cheio.Sentiu o estômago reclamar assim que se sentou em frente ao Kim e nem o cumprimentou, já foi chamando um dos rapazes com uniforme e pediu por um café bem forte — daqueles que curam até o pior tipo de ressaca. Só depois levou os olhos até o rosto do Kim, que já o encarava com um sorriso terno.


— Bom dia, Junmyeon. — disse retribuindo o sorriso. Junmyeon não pôde deixar de notar que o outro parecia muito mais calmo dessa vez, o casamento de Chanyeol e Baekhyun estava mesmo deixando Sehun uma pilha de nervos.


— Muito bom dia, Sehunnie. Você parece cansado, ‘tá tudo bem? 


— Ah, não é nada demais! Ontem foi o casamento de Chanyeol e Baekhyun, é por isso que eu estou aqui em Dublin. Sabe como é, festa, bebida e tudo mais. ‘Tô numa ressaca da porra! — Sehun estreitou um pouco os olhos e levou a mão até a cabeça, indicando o que estava sentindo — Mas nada que um café forte não resolva.


— Bom, espero que ajude. — Junmyeon disse, tenso.


— Sabe, Junmyeon, eu acho que fui um pouco injusto com você naquele dia, posso dizer que fui injusto até comigo mesmo, fiquei nervoso e quase desperdicei a chance pela qual eu ‘tava esperando durante todos esses anos. Você merece uma chance de se explicar e eu mereço saber porquê você não voltou. — A voz firme de Sehun pegou Junmyeon de surpresa, mas ele gostou de saber que tinha uma chance, agarraria ela com todas as suas forças.


— Quando eu era criança, minha mãe sempre me contava estórias sobre Dublin, ela me fazia imaginar uma terra onde duendes e elfos eram reais, e eu amava toda essa aura mitológica. Com o passar dos anos, parei de acreditar em tudo isso e mergulhei de cabeça no mundo real, sem fantasias ou contos de fadas, virei apenas o garoto do clube de literatura que era zoado pelos suéteres estranhos e o cabelo repartido no meio. Logo depois minha mãe morreu, e foi aí que o inferno começou na minha vida. Os livros passaram a ser o meu refúgio, Jongdae era meu único amigo e a única coisa que ainda me mantinha na realidade, a fantasia foi o meu jeito de fugir, sempre foi. No dia em que nos conhecemos, eu estava prestes a desistir de tudo, não queria morrer, mas não tinha dinheiro para fugir e via aquilo como minha única opção mas, graças a você, eu não tive coragem e, quando eu cheguei em casa depois da festa, descobri que meu padrasto guardava um bom dinheiro escondido debaixo do colchão, o dinheiro que era da minha mãe e deveria ser meu por direito, dinheiro suficiente para ir embora, e foi aí que eu planejei tudo isso. — Junmyeon fez uma pausa e respirou fundo, não gostava de lembrar daquilo, sentia que vivia uma outra vida agora, mas sabia que era necessário — Quando cheguei aqui, descobri que minha mãe tinha parentes distantes na cidade e por isso falava tanto daqui. Eles me abrigaram e me ajudaram a arrumar um emprego para ajudar a pagar as contas e ingressar numa faculdade, como bolsista, claro. Demorou bastante até que eu conseguisse me estabelecer, mas hoje eu moro sozinho em um apartamento de tamanho suficiente para mim e tenho um cargo excelente no maior jornal da cidade, consigo me sustentar e ajudo aqueles parentes que fizeram tanto por mim quando eu precisei. 


— Uou, isso é muita coisa, Jun! — exclamou Sehun sem nem tentar esconder seu encantamento pela superação do outro.


— Dublin fez muito por mim, sabe? Acho que vir pra cá fez com que eu estivesse mais conectado com a minha infância e, consequentemente, com minha mãe. É bom poder dizer que conheço a cidade como a palma da minha mão, agora. — O sorriso de Junmyeon deixava claro o quanto estava satisfeito com o que tinha alcançado. Mas, de alguma forma, Sehun pôde perceber em seu olhar que faltava alguma coisa, e foi o necessário para que o Oh identificasse a mesma dor que vinha sentindo durante aqueles nove anos, a dor da saudade, de um amor que lhe foi negado.


— Foi por isso que você não podia voltar, não é? — perguntou sem precisar de uma resposta, tinha finalmente entendido os motivos do Kim.


— Eu precisava me conectar com a minha família de verdade, até com esse lugar talvez, e sabia que não conseguiria isso se voltasse para a Coreia tão cedo. — O sorriso de Junmyeon morreu aos poucos, enquanto seu olhar recaia sobre a mesa — Foi tudo muito difícil, Sehunnie, mas pensar em você me deu forças para suportar cada dia, pensar que você ainda poderia estar me esperando, que eu teria ao menos uma chance de voltar para os seus braços, por menor que ela fosse. — Sehun assistiu com curiosidade o momento em que Junmyeon se mexeu no banco apenas para puxar um papel do bolso traseiro de sua calça jeans — Olhe!


Sehun pegou e analisou com cuidado, abrindo a boca num perfeito “O” ao perceber que se tratava de uma passagem só de ida para a Coreia, agendada para o dia 30/07, faltava exatamente um mês.


— A data de impressão está lá no finalzinho, caso queira conferir. — Junmyeon voltou a falar e Sehun não se conteve ao confirmar que a passagem tinha sido comprada no mês anterior, embora acreditasse na palavra do Kim — Eu ia voltar para a Coreia, Sehunnie, já tinha tudo planejado, minhas malas já estão até prontas lá no apartamento de tanta ansiedade que eu tava. Eu precisava de você, ainda preciso!


Foi o suficiente para que o coração de Sehun amolecesse como o manteiga derretida que ele sempre foi. Abriu um sorriso e pegou a mão de Junmyeon, que antes estava largada em cima da mesa, entrelaçando os dedos. 


— Kim Junmyeon, você aceita voltar pra casa comigo? Aceita voltar para os meus braços e nunca mais sair? — Sehun perguntou sentindo seus olhos marejarem, por quanto tempo esperou para dizer aquilo? Quantas noites passou em claro chorando de saudades e agora estava nem ali, de frente para o homem que amava praticamente se declarando para ele.


— Eu aceito, Sehunnie, é claro que eu aceito! — Junmyeon sorriu e os dois se lavantaram desajeitadamente, os corpos se encontrando em um abraço a muito tempo desejado por ambos.


Kim Junmyeon sentiu seu coração se aquecer como já não sentia a muito tempo, estava tão feliz que poderia sair por ali correndo e gritando, mas ficar nos braços de Sehun era muito mais confortável. O sorriso no rosto demonstrava a felicidade que sentia, o coração acelerado, se sentia em casa, o abraço de Sehun era seu lar e isso nunca mudaria, tinha certeza disso. Da mesma forma que tinha certeza do amor que nutria pelo mais novo, tudo o que queria era poder envelhecer ao lado dele e amá-lo incondicionalmente, assim como ele merecia. Junmyeon queria provar a Sehun que ele merecia o mundo e, se fosse possível, daria o mundo para ele, apenas para ver o seu sorriso mais bonito e sincero todos os dias.


Não muito diferente, Sehun se sentia o homem mais feliz e realizado do universo. Agora sim, poderia dizer que sua vida estava completa. Sua segunda chance, outrora tão desejada, agora tinha sido alcançada, não o perderia dessa vez.


Nenhum dos dois sabia o que aconteceria dali pra frente, ainda teriam muito o que enfrentar, mas sentiam que juntos poderiam fazer qualquer coisa. Decidiram não apressar as coisas, iriam com calma, se conhecendo de novo, teriam paciência um com o outro, afinal, todos aqueles anos tinham mudado algumas coisas em ambos os homens. Mas se tinha algo que os dois tinham certeza era que não desperdiçariam aquela segunda chance que a vida lhes deu.


Depois de toda aquela experiência, Junmyeon tinha aprendido que existem maneiras diferentes de ver o mundo, sejam elas impostas por pensamentos e opiniões ou por uma força maior — como era o caso do seu amado. E, bom, Sehun tinha entendido que é possível amar alguém em qualquer situação e, depois de anos, percebeu que o rosto de Junmyeon era o mais bonito que nunca tinha visto.


Notas Finais


Então, o que vocês acharam? Eu tô mega ansiosa pra saber se vocês gostaram e suas opiniões sobre tudo o que aconteceu.

Eu resolvi deixar o final meio aberto porque fiquei realmente apegada a essa estória então pode ser que role um extra... mas nada confirmado rsrs.

Bom, acho que chegou o momento de se despedir. Eu quero agradecer a cada um de vocês que me apoiou pra escrever essa shortfic, me incentivou, seja com comentários, favoritos e até interações no twitter, podem ter a certeza de que foi muito importante pra mim.

Confesso que tá sendo difícil me despedir dessa fic e de vocês também, mas espero vê-los novamente em projetos futuros que com certeza acontecerão.

Fiquem ligados no meu perfil e também lá no meu twitter: https://twitter.com/sehunlysh?s=09

No mais, é isso. Sou muito grata a cada um de vocês e espero que o desenvolvimento da estória tenho agradado, comentários e críticas construtivas são sempre bem vindos.

Até a próxima, meus amores.

Amo vocês, beijão 💖


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