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História O namorado do papai gosta de amarelo - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olhem só eu com a minha quarta fic em andamento nesse site!! Mas vejam bem, esta precisava ser postada e as atualizações dela serão bem mais demoradas que as outras até porque os capítulos são enormes e não rola ficar revisando o tempo todo, porque cansa, então vai demorar!
Espero que vocês gostem, que apreciem esse novo point of view de um romance e que se apaixonem por essas personagens como eu sou apaixonada. Amo todos.

A capa foi feita pela LadyVic, do Projeto Apolo, o link do twitter deles estará nas notas finais.

É isso, sem mais enrolação!

Capítulo 1 - De volta para casa


Jisung, a felicidade se torna efêmera quando não vem acompanhada de paixão.

Foi o que minha mãe disse quando eu tinha apenas sete anos, um pouco depois de anunciar que ela e eu estaríamos nos mudando para a Coréia do Sul, seu país natal. Naquela época, sendo apenas uma criança, eu não entendi o que ela queria dizer com aquilo, tudo o que me interessava era que, enquanto arrumava as malas sem nenhum tipo de planejamento ou cuidado, ela estava quebrando alguns brinquedos meus. Eu cheguei a chorar, fiquei com raiva por alguns momentos e até mesmo saí de perto dela. Corri para o meu quarto e me tranquei lá, dizendo que não iria embora da Inglaterra. Fiquei por tanto tempo lá, que ainda lembro-me de ouvir a voz do pai, chegando do trabalho bastante transtornado e tão irritado quanto a minha mãe. Quando eles começaram a gritar, a única palavra que consegui ouvir com clareza foi "abominável", gritada por ela com uma raiva implacável. Depois disso, a babá entrou no quarto e me impediu de ouvir o resto da discussão.

Hoje já fazem quase oito anos desde que tudo isso aconteceu, mas ainda lembro dos poucos detalhes desse dia como se tivessem acabado de ocorrer, a poucas horas. Viver em Seul é muito diferente de como era na nossa casa de Londres, ainda que eu pouco me recorde dessa época. Aqui, as pessoas vivem em um mundo no qual eu não me sinto bem-vindo, especialmente porque, a todo tempo, as circunstâncias me fazem manter em mente que eu não passo de um estrangeiro tentando me adaptar. Eu ainda não fiz amigos na escola, não consigo me dar bem com os meus familiares e nem mesmo posso ver o meu pai. Todo o meu contato com Na Jaemin, atualmente, resume-se à chamadas de voz e vídeo aos sábados, às dezessete horas em ponto, por cerca de quarenta minutos, que nós usamos para falar sobre nosso dia-a-dia, sem dar muitos detalhes e sem revelar demais sobre quem somos atualmente. Pode parecer raso e muito pouco, quase nada, perto do que um pai e um filho deveriam ter, mas ainda assim, é a certeza que tenho de que ainda sou amado e que ele seria capaz de qualquer coisa por mim. Ele sempre diz que me ama antes de desligar, e eu respondo com o mesmo entusiasmo de uma criança ao ganhar o melhor presente de aniversário de todos os tempos.

Eu vivo com minha mãe e meu padrasto, um homem bastante chato e com quem eu nunca me dei bem, afinal, ele realmente tenta, mesmo que implicitamente, ser mais rígido comigo, como um pai deveria ser, apenas para ver minha mãe sorrindo, imaginando que finalmente seríamos uma família feliz, do jeito que ela sempre desejou, mas obviamente isso não acontece. Meu pai me disse para jamais deixar que um estranho tome autoridade sobre mim para agradar a minha mãe, e mesmo que eu esteja colocando o conselho em prática da maneira errada – e assumo isso –, ainda é uma das coisas mais memoráveis que ele me disse.

Hoje é uma sexta-feira, provavelmente a segunda do mês. Isso significa que terei pouquíssima coisa para fazer na escola e também terei menos tempo lá do que o normal, então sairei mais cedo, até porque estamos no fim do semestre. Sexta-feira é o dia em que eu passo a tarde com Kim Jihyun, minha mãe, arrumando o que precisa na casa, ou então assistindo a algum drama sufocante e sombrio na tela plana da sala de tevê. A vida dela é basicamente resumida a isso. Passar o dia em casa, manter a ordem, ter todos os problemas familiares sob controle e manter-se sempre muito bem arrumada, enquanto o marido passa o dia todo no trabalho e só chega à noite, só tem uma folga na semana e aproveita o dia para descansar, chamar uns amigos para assistir um jogo de futebol e à noite levá-la a um restaurante caro. Eu posso passar horas divagando sobre o quanto esse tipo de comportamento, pelo menos para mim, beira o absurdo, e posso também, tentar convencer minha mãe a subverter tudo isso, mas não tem muito o que fazer, para ser sincero. É a vida que ela sempre quis, mas que meu pai nunca quis dar. Ou pelo menos é o que ela me diz.

Não sou o tipo de filho que guarda mágoas de uma das partes ou que se deixa levar pelas coisas que minha mãe diz. Na maior parte do tempo, quando o assunto é o divórcio deles, eu apenas me abstenho e evito falar, até porque, nem mesmo entendo o porquê de terem se separado. Meu pai apenas diz que para ele, não tinha mais como continuar, e minha mãe diz que meu pai nunca poderia ser o marido que ela queria, pois ele não a amava e era uma aproveitador. Obviamente, eu jamais acreditei nela, então seguia com a minha própria versão: falta de amor. Ainda que seja um casamento fora do que eu considero normal, posso ver que existe amor entre mamãe e Kim Jinheon. Talvez fosse algo que ela jamais conseguiria com meu pai.

Ao meu redor, certamente, de trinta a quarenta por cento das pessoas são filhos de casais divorciados. Lim Dayeon, por exemplo, a garota que senta ao meu lado nas aulas de química, é filha de dois professores divorciados, o que significa que ela precisa aguentar algumas histórias familiares sendo contadas em sala de aula e também as brincadeiras por parte dos outros alunos, que só não vão além, pois a hierarquia ainda existe aqui dentro. Se os professores são tão amados, respeitados e idolatrados, seus filhos terão o mesmo tratamento, afinal, são a linhagem daqueles que nos ensinam e nos colocam no caminho certo. Estudar em uma escola na área nobre de Gangnam tem seus imbróglios. Por esse e outros vários motivos, eu não me misturo com meus colegas de classe. Prefiro ficar sozinho e evitar ter que ouvir as piadinhas infames do que me submeter a certos desaforos apenas para ter com quem dividir a mesa do refeitório na hora do almoço. Minha única companhia é meu celular, com um adendo para os fones de ouvido. Eu posso também acrescentar algum álbum do Three Days Grace.

A música sempre esteve presente na minha vida graças ao meu pai, ele sempre me mostrou as suas favoritas, as mais odiadas e as que ele nem gostava tanto assim, mas se era um clássico, eu deveria conhecer, ainda que atualmente, nossos gostos sejam bastante divergentes. Mamãe gosta apenas de música tradicional e antiga da Coréia do Sul, que eu, particularmente, acho ruim até demais. Mas é claro, nunca disse isso a ela.

No momento, enquanto termino de comer o sanduíche natural bem caro que comprei para o almoço de hoje, a música que estou ouvindo é Gone Forever, da banda já citada antes. Provavelmente uma das mais tocadas no meu celular, e uma das que minha mãe mais odeia. As pessoas ao meu redor falam alto demais, sempre gritando ou rindo, batendo forte contra as mesas do refeitório, fazendo com que eu possa ouvi-las mesmo com a música no último volume, quase machucando meus tímpanos. Isso me deixa com a cara fechada e quase frustrado, encarando meu sanduíche e o copo de café gelado ao lado. Algumas me olham, vêem que estou sozinho e comentam algo com os amigos, e antes que possam fazer mais alguma coisa, acham um alvo melhor e mais interessante para poderem levar o que chamam de brincadeira além dos limites. Eu sento na única mesa para duas pessoas que fica próxima à cozinha, as outras estão todas próximas à entrada. As pessoas me olham e comentam sobre mim não só pela minha solidão, diferente do que fazem com os outros. Eu acabo me destacando em meio aos solitários e excluídos, mas não porque quero ou porque sou do tipo que chama a atenção, e sim porque os outros parecem se deslumbrar por qualquer coisinha. Eles apontam para mim, sem nenhuma discrição, e então para os próprios cabelos, certamente falando sobre o tom que escolhi para tingir os fios no último verão. Meus cabelos estão em um laranja claro, bem cuidado e que rendeu uma pequena discussão entre Kim Jinheon e eu.

A voz do vocalista invade meus ouvidos e eu tento me distrair, fingir que não sei do que estão falando. A única coisa que me consola é que assim que o sinal soar, anunciando o fim do almoço, será também o momento em que poderei ir para casa. Mamãe já deve estar me esperando, procurando os filmes que vamos assistir.

Assim que o sino toca, o caos começa.

As pessoas correm apressadas, de um lado para o outro, pegando duas mochilas, bolsas e o que mais forem precisar. Tudo o que eu faço é levantar, calmamente, ajustar a alça da minha bolsa transversal preta no ombro esquerdo e então pegar o copo de café mais os lenços de papel que usei para segurar o sanduíche, para pode jogá-los na lixeira ao lado da porta. A fila para a saída está grande e parece que todos ali estão desesperados para ir embora mais cedo, comentando sobre irem dali para um shopping ou então para o cinema, ter onde gastar a tarde. Eu só quero poder ir para casa.

Quando eu finalmente consigo sair e começo a caminhar pelos corredores enormes e lotados daquele lugar, recebo uma mensagem do motorista da minha mãe dizendo que já está me esperando do lado de fora, do outro lado da rua. Eu nunca entendi o porquê de nós precisarmos de motorista particular se minha mãe nunca sai, eu posso ir e vir andando e a única pessoa que depende exclusivamente de carros para alguma coisa diariamente é Jinheon.

“Bom dia, senhor Jisung.”, o homem diz assim que eu abro a porta de trás e me arrasto para dentro, quase deitando sobre o banco. Eu franzo o cenho para o honorífico que ele usa. Eu tenho apenas quatorze anos, faço quinze no próximo mês, por que diabos ele está me chamando de senhor? Até penso em questioná-lo e pedir para que pare, como já tentei da última vez, mas minha mãe praticamente o obriga a fazer isso. Ele, obviamente, preferirá manter seu emprego do que me ouvir. “Deseja passar em algum lugar antes ou podemos seguir o caminho direto para a sua casa?”

Ele sempre faz essa mesma pergunta, que para mim parece mais uma cordialidade do que qualquer outra coisa, afinal, minha resposta é também a mesma.

“Não, pode seguir para casa.”, minha voz soa baixa e sei que ele nem mesmo se esforça para ouvir o que eu realmente falei, apenas acelera com o carro, porque ele também sabe que não tenho nenhum lugar para ir.

Têm alguns dias, quando sinto muita falta do meu pai, sinto vontade de pedir para que ele me leve até a casa dos meus avós paternos. Eu só fiz isso uma vez, e minha mãe acabou descobrindo, pois eu acabei tirando uma foto com os meus avós e postando em uma rede social qualquer. Nunca mais eu pude vê-los.



Assim que passo pela porta de casa, a voz animada de minha mãe invade meus ouvidos. Ela está, muito provavelmente, na cozinha, conversando com a cozinheira, mas assim que eu adentro o lugar, a conversa se acaba e ela me encara. Seus cabelos curtos, lisos e bem negros estão impecavelmente arrumados, combinando com o vestido rodado, bem marcado na cintura, da mesma cor que ela usa. Ela está descalça, percebo isso quando ela caminha em minha direção, sorrindo e dando passos apressados. Posso ver que ela está nervosa, pois seu sorriso vacila quando seus olhos encontram os meus.

“Você chegou!”, exclama, animada, puxando-me para um abraço que eu quero recusar, pois não gosto de contato físico, mas ainda assim, acabo aceitando. “Eu estava pedindo para Kang Youngkyung preparar algo para que você possa comer. Aposto que não comeu na escola hoje.”

Ela mal termina de falar e já se vira, não olhando para o meu rosto, caminhando novamente para perto da cozinheira.

Eu olho para o chão, um pouco envergonhado, “Eu já comi.”

Não querendo ver a expressão decepcionada que eu sei que ela carrega no rosto, eu mantenho o olhar fixo no piso de porcelanato, tentando não ouvir a conversa baixa, quase aos sussurros, que ela tem com Kang Youngkyung. Pego poucas palavras no ar, e tomado por um certo arrependimento, decido ir até a geladeira, para pegar um pouco de água.

“Ah… Filho, você vai querer assistir a um filme? Vai passar Um Amor para Recordar na tevê agora.”, mamãe me chama de repente, sua voz exala o mesmo nervosismo que eu imaginei ter percebido antes.

Eu me viro para ela com a jarra de água nas mãos, prendendo a porta aberta com o pé. “Pode ser. Você quer assistir?”

Tímida, o que não é nem um pouco comum para a minha mãe, e parecendo até mesmo um pouco desconfortável, ela balança a cabeça positivamente.

“Termine de beber a sua água e vá se trocar, o esperarei na sala, com pipoca e suco.”, diz, e então se vira para a cozinheira.

Eu não perco muito tempo ali, apenas faço o que tenho que fazer e corro para o andar de cima, indo diretamente para o meu quarto. Minha cabeça está doendo um e mesmo sentindo vontade de tomar um banho e deitar para dormir, descansar um pouco, eu coloco em minha mente que preciso me manter acordado para ficar com a minha mãe. Meu padrasto nunca faz isso, então eu preciso pelo menos fazer algum tipo de companhia a ela.

Meu quarto é bem grande, as paredes brancas são decoradas com pôsteres das bandas que eu gosto, que parecem até muitas, mas na verdade se resumem ao Three Days Grace, Green Day, My Chemical Romance e Sleeping At Last. Ao lado dos posters – que são muitos –, está uma prateleira lotada com os álbuns e alguns mangás que eu nem sempre tenho a oportunidade de ler, muitas vezes pela preguiça. E tem a minha cama logo abaixo disso tudo, bagunçada, com os lençóis cinzas e os travesseiros bem brancos e macios jogados pelo colchão. E claro, ao pé dela, estirado sobre o chão, está o horroroso tapete azul-marinho que minha mãe me obriga a deixar aqui, talvez porque ela quer alguma cor na minha vida além do velho padrão cinza-para-preto. Além disso tudo, na parede oposta à porta tem a escrivaninha, e também tem a mesa do meu computador e do laptop. É tudo uma bela e grande bagunça, tem várias fotos de família sobre a mesinha e também coladas na porta do closet, na parede do lado direito, e ao lado dessa porta, tem a porta do meu banheiro, que é para onde eu sigo depois de tirar os tênis, deixá-los ao lado da porta de entrada e largar a minha bolsa sobre a cadeira da escrivaninha. Eu vou tirando minha roupa no caminho, deixando algumas peças sobre a pia e ficando apenas de cueca em frente ao espelho atrás da porta.

Eu realmente gostaria de dizer que sou parecido com o meu pai, mas somente porque quero ter o máximo dele possível comigo, mas, contrariando minhas vontades, acabei sendo uma cópia mais do que perfeita da minha mãe. Assim como ela, sou magro demais, e um pouco mais alto que os garotos da minha idade. Tenho a pele amarelada como a dela, e bem delicada, sem muitas imperfeições, mas também tenho a sua falta de força física, sem contar com o nariz afilado e os olhos pequenos. Pelo menos a cor dos meus olhos é parecida com a do meu pai. Um castanho muito bonito, terroso.

Acabo me perdendo por alguns momentos e em um estalo, lembro-me do compromisso que tenho com que tenho com a minha mãe e corro para o box.



Já devidamente vestido com um dos meus pijamas, eu finalmente saio do quarto, com meu celular em mãos e os fones de ouvido no bolso, para o caso da minha mãe dormir no meio do filme ou meu padrasto chegar mais cedo e resolver se juntar a nós. Suspirando, eu vou passando pelo corredor até chegar às escadas, contando mentalmente até cinco antes de descer, lentamente, degrau por degrau.

A sala de tevê fica no corredor ao lado direito das escadas, a primeira porta dupla à esquerda. É nela que minha mãe passa a maior parte do tempo, com o passar dos anos, aquela sala se tornou o lugar dela, praticamente, já que eu tenho a minha tevê no quarto e Jinheon não gosta de nada disso. Ela já está lá quando eu entro, arrumando dois grandes baldes de pipoca e uma jarra grande e cheia de suco de laranja bem gelado, com dois copos ao lado sobre a mesinha de centro em frente ao maior sofá dali, com seis lugares e tão branco que chegava a ser assustador. É o maior patrimônio dela.

Ela se vira para mim, está sorrindo e usando roupas mais confortáveis.

“Você demorou! Por sorte o filme está apenas começando.”, exclama, sorrindo da mesma maneira larga de sempre. “Vamos, sente-se.”

Eu vou para perto dela, que já está se sentando e me puxando para ficar ao seu lado. Acabo sorrindo diante da agitação dela, querendo mostrá-la que estou animado para o que está por vir, e também quebrar um pouco da minha camada de apatia, um pequeno problema que acabei desenvolvendo depois do divórcio dos meus pais. Eu costumava ser o tipo de criança que corria de um lado para o outro, todos os dias, e sempre tinha algo novo para contar ou descobrir. Até que fui tirado do meu mundo e tudo o que sobrou está aqui. Mamãe parece genuinamente feliz ao me ver sorrindo, finalmente, e então começa a servir o suco nos copos.

O filme não é nenhuma novidade, em questão de conteúdo ou qualquer outra coisa, é algo que nós já vimos mais de dez vezes juntos e ainda assim, consigo ver que mamãe está tão ansiosa por ele quanto estava da primeira vez. Por alguns segundos, vendo seus olhos brilharem para as cenas iniciais enquanto ela devora a pipoca e bebe o suco com uma certa pressa, às vezes olhando para o lado discretamente, eu penso que talvez, mas só talvez, o motivo da felicidade não seja a obra em si, ou a história contada, nem nada do tipo, e sim o fato de estou aqui, ao lado dela, disposto a assistir mais um drama romântico e pronto para consolá-la no final, como normalmente acontece. Acabo suspirando, imaginando o quanto ela possa ter esperado por esse momento e então foque-me completamente na televisão, tentando quebrar também a minha máscara de desânimo e desinteresse, querendo passar a ideia de que mal posso esperar pelo desenrolar da trama entre Landon Carter e Jamie Sullivan.

No entanto, conforme o filme vai passando e mamãe percebe que estou com os na tevê, ainda que minha visão periférica consigo captar suas expressões devido a posição em que estou sentado, quase de frente para ela, eu vejo a Jihyun agitada e animada aos poucos ir embora, dando lugar a, mais uma vez, uma mulher tímida, nervosa e aparentemente bastante decepcionada com alguma coisa. O filme não está nem na metade, mas pego o controle da tevê ao lado da jarra de suco na mesinha de centro e desligo o aparelho, fazendo-me minha mãe se espantar rapidamente e olhar para mim.

“Mãe, aconteceu alguma coisa?”, pergunto, com a voz calma e tentando passar alguma segurança. Com a minha mãe é assim, você precisa ter o mesmo cuidado que teria se tivesse que caminhar sobre uma enorme fileira de ovos bem frágeis. Ela me encara. “Você não me parece bem.”

Respirando profundamente duas vezes, ela se vira completamente em minha direção e seu olhar vai para o chão imediatamente, então eu franzo o cenho e acompanho-a, virando o rosto para ver se há algo de errado com o piso, mas é claro que não tem. Está liso e impecável como deve estar, sempre. Aí minha confusão cresce e eu volto a encarar o rosto inseguro da mulher à minha frente.

Ela volta e me olhar e desviar sua atenção para qualquer outro pronto, “Jisung, nós precisamos conversar seriamente.”

Ainda confuso, eu ajusto minha postura, visto que estou praticamente deitado, e peço para ela continue, mas parece ser bem mais difícil do que eu imagino, pois minha mãe demora bastante tempo, encarando as próprias mãos, cruzadas em frente ao corpo quase que em sinal de oração. Mamãe é uma mulher cristã, então provavelmente deve estar pedindo forças ao seu deus, e isso me deixa preocupado, ao mesmo tempo em que tento fazer minha mente trabalhar para descobrir o que ela pode estar querendo dizer. Mesmo sendo muito novo, eu preciso ter uma certa maturidade para lidar com ela. O tempo que passamos sem meu pai antes dela conhecer Jinheon foi crucial para isso. Precisei tomar conta de quem deveria tomar conta de mim.

“Filho, o seu pai me ligou no último mês.”, murmura, a voz quase embargada enquanto ela impede que o choro prestes a sair se intensifique.

No momento em que ouço suas palavras, a confusão em minha mente aumenta e eu sinto um arrepio passar por todo o meu corpo. Por um segundo, lembro da imagem do meu pai.

Nervoso, eu sussurro, “O que ele queria de você?”

Em quase oito anos desde o divórcio e da nossa mudança para Seul, essa é a primeira vez que eu sei que ele tentou algum tipo de contato com ela. Papai não ligou para a minha mãe vir embora, todas as vezes que Jaemin precisava falar com ela era quando queria falar comigo e eu era novo demais para ter um celular próprio. Depois que isso mudou, ele apenas se comunica comigo, nem mesmo pergunta como ela está ou sobre o casamento dela, como se nada sobre Jihyun o interessasse.

“Jisung, espero que você saiba que eu queria que fosse diferente, tudo bem? Por mim, nós não estaríamos nessa situação agora. Mas você sabe, por mim eu também ainda estaria casada com seu pai, então não tem muito que eu possa fazer.”, já começa se esquivando da culpa, e isso me preocupa ainda mais. Peço para que ela continue, novamente. Ela respira fundo antes de o fazer. “Seu pai e eu conversamos, discutimos bastante no fim chegamos a um acordo.”, ela faz uma pausa, longa. Então puxa mais o ar e fecha os olhos. Estou nervoso, sinto minhas mãos suando, meu coração está acelerado e eu aguardo por seu veredicto como se estivesse aguardando pela sentença de um grave crime. “Jisung, depois do seu aniversário, você irá para a Inglaterra, morar com o seu pai.”



Posso dizer que naquela tarde, quando minha mãe disse aquelas palavras, por alguns momentos, foi como se meu mundo tivesse desabado, especialmente quando ela chorou e começou a dizer que queria poder fazer diferente, mas que essa era a única solução para os problemas entre ela e meu pai. Disse que me daria um tempo para pensar e absorver toda aquela informação, sem dar muitos detalhes sobre o que poderia ser aquele tal acordo entre os dois que envolvia a minha mudança para o meu país natal e o porquê de acontecer de maneira tão repentina.

Agora, já é sábado de manhã. Sentado no chão do meu quarto, no espaço entre a cama e a escrivaninha, eu estou usando o tempo que foi dado, encarando a porta de entrada, mas mais especificamente olhando para o meu reflexo no espelho grudado à ela. As lágrimas molham meu rosto ao mesmo tempo em que as imagens da minha infância, as poucas que consigo lembrar com clareza, voltam. O sorriso do meu pai, seus olhos sempre muito expressivos e a felicidade que eu podia sentir quando o tinha por perto. A maneira que eu sentia que ele me amava. Mas logo essas eram apenas borrões apagados na memória, dando espaço ao fatídico dia em que minha mãe quebrou alguns brinquedos e então eles discutiram na sala. Lembro-me claramente de vê-lo abatido e quase derrotado, sem entender muito bem na época o que acontecia. Então viemos embora, e a última imagem que tenho é a dele chorando no aeroporto, vendo-me partir. Lembro do escândalo que fiz, de passar o vôo todo chorando, sentado no chão, do mesmo que estou agora, abraçando meus joelhos e quase gritando de dor.

No entanto, não estou triste ou sentindo dor por ter que ir morar com Jaemin, ou qualquer coisa do tipo, mas sim porque também terei que deixar a minha mãe, o que me leva a perguntar o que deu de tão errado com eles que me impedia de ter os dois. Para viver com um, sempre precisarei deixar o outro para trás, ainda que não intencionalmente. Por um lado, eu me sinto aliviado por poder saber que verei meu pai todos os dias e que não mais precisarei olhar para a cara de Jinheon e sua falsa simpatia para comigo, mas como poderei ir? Não é como se eu tivesse outra opção, mesmo que muito tenha acontecido em nossas vidas, ainda existe uma hierarquia na família, e as decisões dos meus pais sempre estarão acima de qualquer dúvida ou questionamento meu. Para minha mãe dizer isso depois de quase um mês em discussão com ele, provavelmente é porque não tem mais volta no tal acordo e eu vou ter que ir.

A música que soa da caixinha de som na escrivaninha está alta o suficiente para poder encobrir o barulho do meu choro, e eu já nem que canção é aquela, enquanto ainda luto com aquele garoto franzino e amedrontado que está me encarando através do espelho, com os olhos molhados e avermelhados. Hoje é, também, o dia em que preciso ligar para o meu pai. Passo boa parte da manhã, além de chorar, pensando em como vou iniciar a conversa com ele. Será que ele está animado para me ver, como eu posso sentir que estou para vê-lo?

Passo umas boas horas preso em meus devaneios, afundando-me em meus pensamentos e imaginando como poderá ser a vida com meu pai, se irei me encaixar na rotina dele. O choro chega a cessar por algum tempo, e eu tento me levantar para tomar um banho, finalmente, e me preparar para o que virá a seguir. Às vezes, mamãe vem até a porta do quarto e fica batendo, tentando conversar, mas eu não sei bem o que responder. De certo, ela pensa que eu irei me opor à ideia, mas sendo apenas um garoto de quatorze anos, sei que não tenho esse direito.

Volto a vestir um dos muitos pijamas que possuo, resultado de uma vida social quase nula, indo para a cama e me deitando lá, nem mesmo me importando com toda aquela bagunça, apenas me encolho para perto da parede me cubro com o cobertor. Minha cabeça está doendo e eu me sinto confuso, tudo gira e eu apenas encarando o resto do quarto, mergulhando naquele ambiente soturno, sem janelas, de luzes apagadas.

Um pouco antes das dezessete horas, minha mãe bate na porta mais uma vez naquele dia, dizendo baixo que eu devo sair pois o dia está bonito lá fora, e também, dizendo que posso acompanhá-la no cuidado de suas amadas flores no jardim. Não respondo, a deixo falar por alguns minutos até que ela se cansa e vai embora, mas antes de fazer isso em definitivo, Jihyun diz que o jantar será peixe.

Exatamente dez minutos depois que ela sai, meu celular começa a tocar em cima da escrivaninha. Mal deixo ir para o segundo toque e já me levanto em um pulo para pegar o aparelho e atender a chamada, não precisando olhar a tela para saber de quem se trata.

“Pai?”, minha voz sai mais exasperada que o planejado. “Pai, oi.”

Ouço um suspiro pesado de quase alívio do outro lado da linha. “Jisung? Oi, filho.

A voz dele parece serena e ao mesmo tempo ansiosa, o que pode significar que ele esperava pelo momento da ligação tanto quanto eu. Acabo sorrindo.

“Pai, como você está?”, pergunto, deitando-me de qualquer jeito na cama e encarando o teto.

Do outro lado, ele parece estar caminhando para algum lugar e então ouço o barulho de uma porta sendo fechada. Ele deve estar no escritório.

Bem, meu filho. Estou melhor agora que finalmente podemos nos falar; e você? Você está bem? Como foi na escola hoje?”, ele pergunta, ouço o barulho de algo sendo colocado sobre uma mesa e então imagino que ele esteja se sentando também.

Suspiro. “Estou na mesma. Na escola não tem novidade alguma, você sabe. Só que hoje eu pude sair mais cedo.”

É a vez dele respirar profundamente. Eu me viro na cama para encarar a parede.

Ainda não fez amigos, certo? Na verdade, você não quer fazer amigos.

Eu rio de sua afirmação, mas mais pelo fato de que ele a diz esbanjando convicção.

“Exatamente.”, respondo.

Às vezes quase esqueço o quanto você é parecido comigo quando eu tinha a sua idade.”, ele parece estar sorrindo, pela maneira divertida e quase satisfeita com a qual as palavras saem de sua boca, mas não tenho certeza. “Ah… Filho… Sua mãe me contou que conversou com você.”

Ele finalmente toca no assunto que está me deixando louco.

Eu desvio meu olhar para a minha mão livre, está espalmada contra a parede, sentindo o frio da superfície na minha pele. “Falou, sim.”

Minha resposta soa meio desanimada, então eu trato de ajustar minha postura.

Olha… Eu realmente não queria que fosse assim, filho. Mas preciso passar um tempo com você, preciso ver você pessoalmente e me sentir um pai de verdade. Sinto sua falta.”, papai parece prestes a chorar e eu sinto meu coração pesar no peito. “Sinto que lhe devo perdão pela situação em si, mas eu espero que seja um bom momento para você. Mas também vou entender se você se opor.

“Não, pai.”, eu o corto rapidamente. “Não precisa pedir perdão. Eu quero ir. Quero voltar para casa, para a Inglaterra, morar com você.”

É a primeira vez que verbalizo esse pensamento que passou por minha mente durante horas, chegando a me surpreender com a naturalidade com que as palavras saem da minha boca. Chego a me sentar na cama, encarando a parede branca.

Meu pai deve ter notado a minha agitação. “Você está bem? Tem certeza?

Respiro fundo. “Tenho. Tenho certeza.”

Uau.”, murmura e então solta uma risada quase maravilhada, que me faz rir junto e sentir algumas lágrimas encherem meus olhos. “Você dificilmente diz as coisas com tanta convicção.

Nós acabamos gargalhando novamente, e se eu fechar os olhos, por alguns segundos, posso até mesmo imaginar que Jaemin está aqui, sentado ao meu lado, conversando comigo de uma maneira descontraída, leve. Digo a ele que estou bem certo do que quero, mesmo que não seja tão verdade assim.

A conversa com meu pai é mais leve do que eu esperava, devo confessar. De fato, é mais fácil conviver com ele e tudo parece ser mais suave, mais divertido. Ele faz várias brincadeiras e diz que vai planejar um roteiro de fim de semana para nós passearmos por Londres, pelos lugares onde ele costumava me levar quando eu era pequeno, e também por novos pontos da cidade que ainda não conheço pessoalmente. Falamos sobre compras, sobre ir a London Eye, sobre a escola e vários outros assuntos que envolvem minha ida para casa. Dessa vez, passamos bem mais do que quarenta minutos, chegamos a nos falar por quase duas horas, ambos muito animados e muito felizes. Eu chego a passear pelo quarto enquanto conversamos.

Quando precisamos desligar, não consigo esconder o meu desânimo, sabendo que provavelmente só iremos nos falar novamente na semana que vem.

Como é de se esperar, Jaemin nota. “Não precisa ficar assim. Vou conseguir uma folga do estúdio nessa semana e talvez possamos nos falar mais vezes.”

Meus olhos chegam a se abrir e eu sorrio. “É sério?”

Mais do que sério. Mas agora eu preciso mesmo desligar e resolver umas coisas. Aí já deve estar perto da hora do seu jantar, então se alimente bem. Seja um bom garoto com a sua mãe, Jisung. Fique bem, e se precisar de alguma coisa, se tiver algum problema com a pensão, ou algo do tipo, ligue para mim. Eu te amo muito, filho. Daqui até Saturno.

“Você deve ficar bem também. Pode me ligar mais vezes. Eu te amo, pai. Daqui até Saturno. Nos vemos em um mês.”

Nos vemos em um mês, garoto.”



Falar com meu pai consegue me deixar mais leve e a vontade de chorar de antes simplesmente desaparece, junto com o peso que estava sentindo até algumas horas atrás e a incerteza sobre querer ir ou não. Amo minha mãe e amo morar com ela em Seul, mas nunca escondi dela ou de qualquer outra pessoa o desejo de ver meu pai novamente e quem sabe um dia ir para a Inglaterra novamente; mesmo que a afirmação tenha saído de maneira impulsiva apenas para impedir que meu pai se culpasse por me querer por perto, conforme o tempo passa, as minhas próprias palavras vão se tornando uma verdade concreta para mim. Eu passo um tempo analisando-as, mastigando e amadurecendo a ideia em minha mente, chegando sempre à mesma conclusão de que não existe algo que eu possa querer, nesse momento, além de rever o meu pai. Posso nunca ter entendido o que os levou a se separar, mas aquilo só se aplicava a eles. Já passou da hora de estar com Jaemin e fazer com que ele pare de ser apenas o homem em outro país que me paga uma boa pensão no fim do mês.

É nisso tudo que vou pensando enquanto saio do quarto, usando meu moletom surrado cinza e a calça preta dos pijamas, também lembrando-me do fato de que hoje terei que suportar um jantar com mamãe e seu marido. Poderia não ser nada demais, se esse tipo de coisa não se resumisse a Jinheon querendo se aproximar de mim à força e mamãe o bajulando como se ele fosse um homem perfeito.

O andar de baixo está mergulhado em um silêncio quase esquisito no momento em que chego ao pé das escadas, já que a sala de estar está vazia e nem mesmo meus pés no chão emitem algum som, os chinelos foram comprados pela minha mãe exatamente com esse propósito. Vou caminhando dali para o corredor que me levará até a sala de estar com passos mais lentos que o normal. Uma coisa sobre a casa em que eu moro, é o fato de que ela tem pouquíssimas janelas. Meu quarto, por exemplo, só tem uma pequena, no banheiro. É o tipo de lugar que por vezes me faz sentir sufocado, apesar de não sair muito de lá, ainda assim me deixa com a sensação de que estou em uma grande caixa. Já aqui, no andar de baixo, duas enormes janelas na sala de estar dão de vista para a rua. A sala de jantar é o único lugar da casa que não foi feito para tornar alguém claustrofóbico em menos de um minuto. Ela é ampla e tem uma parede-janela que dá para o jardim e que está sempre com as cortinas abertas, deixando a luz solar entrar. Assim que passo pela porta e adentro o local, meus olhos sentem um leve incômodo devido à iluminação forte do lugar. Mamãe e Jinheon estão sentados à mesa da mesma maneira de sempre: ele na ponta, de frente para a janela e de costas para a porta, como o bom e respeitado chefe de família que é, e ela à sua direita, como seu apoio. Ela realmente me disse que esse é o motivo para ambos sentarem-se dessa maneira – confesso que foi difícil não rir e acabar levando uns tapas.

Eu não falo nada quando chego, apenas vou até o lavabo que tem aqui, um pouco afastado da mesa, para poder levar as mãos, então volto para perto deles. Sei que para seguir as etiquetas particulares da minha mãe, devo me sentar à esquerda de seu marido, mas depois de conversar com o meu pai, que sabe muito bem do meu profundo desafeto pelo meu padrasto, sinto-me livre para poder sentar realmente à esquerda dele, mas a duas cadeiras de distância, tendo o trabalho de mudar alguns pratos de lugar e chamando a atenção de ambos pela minha atitude. Posso ver, ao levantar sutilmente o olhar, que mamãe até mesmo está mastigando de forma mais lenta, curiosa e um pouco confusa com a minha atitude. Ouço os hashis caros e de metal de Jinheon serem colocados de volta sobre o prato. Continuo em silêncio enquanto termino de me servir e só então os encaro, trabalhando a minha melhor cara de paisagem e tentando parecer normal, não querendo demonstrar que na verdade apenas quero voltar para o meu quarto e rir. Sim, rir das expressões em seu rosto.

“Jisung, finalmente estamos nos vendo neste fim de semana.”, diz o meu padrasto, com um falso sorriso de satisfação e um olhar duro sobre mim. Por quanto tempo ele ainda vai tentar agir dessa maneira comigo apenas para mostrar para a minha mãe que pode ser um bom pai? Isso definitivamente não está funcionando. “Por que não desceu para o jantar ontem?”

Eu bebo um gole bastante generoso da água em meu copo, chegando a precisar colocar mais um pouco para não ficar sem nada, enquanto me preparo para responder a sua pergunta, vendo mamãe aos poucos voltar ao seu normal, com um sorrisinho entristecido nos lábios. Suspiro. “Eu estava sem fome. Achei que você soubesse, pedi para a governanta avisar.”

Minha voz soa mais alta e mais firme que o normal, o que faz minha mãe lançar um olhar espantado em minha direção. Eu sou o tipo de pessoa que fala baixo e nem sempre tenho muita firmeza ou convicção de algumas coisas que digo, então essa deve ser a sua surpresa. Jinheon, por outro lado, quase permite que seu falso sorriso vacile e baixa o olhar rapidamente para o seu prato, parecendo pensar um pouco no que irá falar dessa vez. Mentalmente, eu apenas peço para que ele opte por ficar em silêncio e me deixe apreciar meu jantar em paz, enquanto começo a comer. Talvez isso o faça perceber que não quero conversar.

Uma pequena anotação sobre o marido da minha mãe: ele muito dificilmente irá respeitar uma decisão alheia caso ela não se encaixe no que ele quer no momento, é bem mais provável que pegue-a e ignore por um tempo indeterminado até perceber que existe uma situação em que tal decisão o favorece. Jinheon é um homem de negócios, afinal, talvez querer que ele respeite o espaço alheio seja um pouco demais. Por esse motivo, nem mesmo me espanto ou tento não ficar irritado quando ele começa a dizer que eu não posso me trancar no quarto e ficar sem comer daquele jeito, pois isso apenas me trará mais problemas, também dizendo que é por conta desse tipo de comportamento que eu não tenho amigos. Nesse momento, eu me vejo obrigado a interrompê-lo e dizer que, se ele prestasse um pouco mais de atenção nas pessoas ao redor dele, que vivem com ele, ele saberia que eu não faço amigos porque não quero e também porque não gosto das pessoas da minha escola da mesma maneira que elas não gostam de mim. Quando termino de falar, ele ainda está sorrindo falsamente, como se estivesse se divertindo em uma conversa super empolgante. Sei que nesse momento, ele quer passar uma imagem mais leve pois quer que minha mãe acredite que estamos apenas brincando e que temos algum tipo de entrosamento. Sinceramente, burra é a última coisa que minha mãe pode ser, ela jamais cairia nesse teatrinho de bom padrasto que ele está tentando montar, mas para agradá-lo, ela nada diz, apenas sorri e até mesmo finge entrar na brincadeira, soltando algumas frases soltas que o fazem rir, mas é nítido que para ela não foram engraçadas e que a situação em si não faz sentido. Seus olhos não brilham e o sorriso é forçado, permanece por mais tempo do que deveria em seus lábios, e ela nunca levanta muito o rosto, apenas o suficiente. Eu sinto vontade de rir, pois é nesses momentos que percebo que, nessa situação, a única pessoa que está sendo enganada, é o próprio Jinheon.

“Bom, Jisung, eu fiquei sabendo da proposta que aquele homem fez.”, ele começa, de repente, mas antes que possa continuar, tomado por uma certa raiva e vontade de sair dali, eu logo o interrompo:

Meu pai, Kim Jinheon. Aquele homem é o meu pai. Fale dele como deve.”

Ele ri, fraco. “Ele não o vê há oito anos e tudo o que faz é pagar uma pensão, não creio que você deva idolatrá-lo dessa maneira.”

“Como eu disse antes, ele é o meu pai, a relação dele é exclusivamente comigo. Quem decide como eu devo vê-lo sou eu, apenas.”

“Bem, não precisa me atacar.”, ele sorri. Vejo de canto de olho que mamãe está me encarando, brava, nem um pouco contente com a maneira com a qual estou tratando o coitadinho do Jinheon, mas eu nada faço em relação a isso. “Eu só queria dizer que sou contra a sua ida. Não acho que tirá-lo de sua casa, de sua família, irá fazer bem a alguém além dele. Ele está apenas tentando tirá-lo de sua mãe.”

Mamãe sente-se constrangida com o que ele diz. “Meu querido, por favor, não.”

“Seu filho precisa saber da verdade, Jihyun! Ele precisa de apoio.”

Irritado, eu deixo meus hashis caírem sobre o prato e causarem um pequeno barulho que interrompe ambos.

“Jinheon, as únicas pessoas que devem se opor ou apoiar alguma decisão feita sobre a minha vida, são os meus pais, e você está muito longe de receber qualquer tipo de promoção para esse cargo para mim, então não precisa ficar forçando nada disso. E preste muita atenção em como você fala do meu pai, pois pode ter certeza que mesmo não me vendo pessoalmente há tanto tempo, ele ainda consegue ser melhor para mim do que você jamais será. Ele não está me tirando de casa, e nem da minha mãe. Eu estou, na verdade, voltando para o lugar de onde jamais deveria ter saído. Minha mãe jamais irá me perder. Já de você, espero que ela se livre logo.”

E após dizer tudo aquilo, já de pé, eu apenas jogo o guardanapo que estava sobre o meu colo na mesa e saio da sala, deixando-os para trás sem nem ao menos lançar um último olhar em sua direção, pois não quero ver minha mãe bajulando seu imaculado marido e dizendo que eu estou apenas confuso. Corro para o meu quarto sentindo as malditas lágrimas escorrendo pelo meu rosto mais uma vez naquele dia, respirando fundo enquanto tranco a porta atrás de mim e me apóio no espelho nela, deslizando lentamente até o chão e continuando a chorar. Odeio aquele homem que está sentado na mesa de jantar e odeio ainda mais o que ele fez minha mãe se tornar. Sinto muita vontade de ligar para o meu pai, e mesmo sentindo medo de atrapalhá-lo, não consigo parar e tentar me acalmar, apenas pego meu celular do bolso e procuro pelo seu contato.

O celular dele toca duas vezes até que ele o atenda. “Meu filho? O que houve?

Ao ouvir sua voz, eu desabo em um choro forte, chegando a ouvir sua voz preocupada e quase desesperada, perguntando-me o que aconteceu e o que me deixou desse jeito. Não consigo encontrar forças para manter a calma e falar alguma coisa, apenas continuo a chorar e a colocar para fora toda a raiva que estou sentindo no momento. Papai não diz mais nada depois de um tempo, apenas fica ali, respirando de maneira descompensada e algumas vezes me pedindo calma, dizendo que está comigo. Pode parecer pouca coisa, mas considerando a situação, é o melhor que ele pode fazer, então eu me sinto consolado. A dor maior é lembrar que nesse exato momento eu não posso pegar o primeiro avião para Londres, para poder correr até ele e receber o seu abraço. Só de pensar nisso, volto a chorar ainda mais.

Filho, fala com o papai, o que aconteceu? Fizeram alguma para você? Por favor, tente manter a calma, respire fundo.”, ele volta a falar depois de um tempo, e por algum motivo, sua voz embargada, baixa e preocupada serve como a mão que me puxa para a realidade e aos poucos o meu choro vai cessando. Limpo meu rosto com as mãos e faço o que ele pede, ou pelo menos tento fazer, pois as lágrimas ainda insistem em cair. Puxo o ar profundamente e o solto. Ele conta comigo. Faço isso cinco vezes até me sentir menos agitado. Meu corpo tremia durante o choro. Era violento. “Está melhor agora?

Eu suspiro, ainda deixando as lágrimas rolarem. “Pai… Eu odeio esse homem.”

Ele parece confuso. “Que homem, Na Jisung?

Respiro fundo mais algumas vezes. “Jinheon. Eu o odeio, profundamente.”

Mesmo de longe, posso perceber a agitação que toma conta do meu pai quando digo aquelas palavras. Novamente, sei que ele está com raiva, caminhando de um lado para o outro, pois ouço sua respiração e consigo perceber sua exasperação. Ele também diz para alguém esperar pois está cuidando de uma emergência. Devem ser dez ou onze da manhã em Londres à essa hora, ele provavelmente está no trabalho.

O que esse homem fez? Ele gritou com você? Bateu em você?”, pergunta, baixo e tentando se controlar. Não era raro eu falar para o meu pai sobre desavenças com o meu padrasto, mas nunca chegara àquele ponto.

Respirando fundo, eu o digo que não foi tão grave assim e aos poucos vou lhe contando o que houve no jantar, precisando parar e me controlar em alguns momentos, para não acabar desabando em um choro ainda mais violento que o anterior. Até mesmo consigo me levantar e ir lavar o rosto no banheiro enquanto falo, percebendo bem que sua raiva não diminui diante dos acontecimentos, a pedido de Jaemin. Por saber que Jinheon não gosta realmente de mim e a maneira como ele age perto da minha mãe por minha causa, meu pai o odeia igualmente. Além de, claro, saber das coisas ridículas que o marido de Jihyun fala sobre ele.

Eu termino meu relato no exato momento em que deito sobre a cama e puxo o cobertor para me cobrir da cabeça aos pés. “Foi isso. Tudo na hora do jantar.”

Ouço-o suspirar pesadamente do outro lado da linha. “Sinceramente… Eu realmente não sei bem o que dizer. Esse cara não tem nenhum pingo de noção? Acho que eu poderia quebrar a cara dele sem pensar em nada agora mesmo. Espero que você não leve a sério as coisas que ele diz.

Eu rio, bem fraco, do que ele diz. “Não levo, você sabe. E não acho que você pode quebrar a cara dele, violência não resolve nada.”

Nesse caso resolveria, mas esqueça isso.”, nós dois damos risada. “Você está melhor mesmo? Eu queria poder sair correndo daqui e ir até você, meu filho, acredite.”

“Quero que esse mês passe voando. Eu estou melhor, não se preocupe.”, respondo. “Obrigado por cuidar de mim da maneira que você pode, e me desculpe se atrapalhei alguma coisa.”

Não me peça desculpas. Você pode me ligar a hora que quiser ou precisar. E também, eu sempre vou cuidar de você, Jisung, estando longe ou perto. Sempre. Lembre-se disso.”, sua voz sai baixa, ainda um pouco embargada. “Quando você menos esperar, estaremos juntos.”

“Eu te amo daqui até Saturno, pai. Tenha um bom dia.”

Eu te amo daqui até Saturno, Jisung. Tenha uma boa noite.”


Daqui até Saturno foi algo que lemos em um livro no início dos meus sete anos e nunca saiu de nossa memória. Papai começou a dizer que seu amor por mim só poderia ser mensurado se saísse da Terra e fosse até Saturno, desse uma volta ao redor dele e então voltasse para cá. E que ainda assim, não seria o suficiente. Virou a nossa marca registrada desde então, ainda que ambos saibamos que não existem idas e voltas de Saturno que possam mensurar nada disso.

Ainda que eu passe algumas boas horas chorando, consigo pegar no sono com uma certa facilidade.

Na manhã seguinte, sou acordado com mãos delicadas passeando pelos meus cabelos e deixando um afago neles um pouco antes de alguém se deitar ao meu lado e se enfiar entre os cobertores comigo. Acabo sorrindo antes mesmo de abrir os olhos, sentindo aquele cheiro característico de morangos frescos enquanto mamãe apenas fica ali, sem dizer nada, puxando-me para abraçá-la.

“Seus pés estão frios.”, murmuro enquanto passo o braço ao redor de sua cintura e vou para mais perto. Ela ri baixo, dando um tapa inofensivo na minha nuca. “Desculpa.”

Ainda estou de olhos fechados e minha cabeça está apoiada em sua barriga enquanto ela faz carinho em meus cabelos, então não posso ver a expressão em seu rosto. Mas ela sabe que não é pelo que acabei de falar que estou pedindo desculpas.

Ela apenas se mantém em silêncio, por alguns minutos, mas então, diz: “Não me peça desculpas por nada, nunca. Eu teria a mesma reação que você.”

“Eu te amo, mãe.”

“Eu te amo mais, Jisung.”

“Eu liguei para o papai.”, digo, um pouco apreensivo diante de qual pode ser a sua reação, mas ela permanece sem dizer nada, esperando que eu continue, mas opto por não dar detalhes da ligação. Sei que, ainda que seja mínimo e esteja sumindo, mamãe ainda sente algo por ele, mas também sei que por ele, eles não voltarão a ter nada.

Passamos mais um bom tempo calados, abraçados, e eu volto a pegar no sono, sentindo suas mãos macias ainda acariciando os fios alaranjados do meu cabelo, ouvindo sua respiração baixa e controlada. É um sono realmente rápido, e quando volto a acordar, mamãe ainda está aqui, mas suas mãos pararam e sua respiração está mais pesada, o que quer dizer que ela também está dormindo. Fico esperando para que ela acorde, em silêncio, pensando na noite anterior e também em tudo o que está prestes a mudar em minha vida. Ainda que eu me sinta distante, mesmo que não demonstre tanto quanto gostaria, amo minha mãe profundamente, gosto dos momentos que tenho com ela e de como ela cuida de mim, sentirei falta de seu abraço, de seu consolo, do sorriso verdadeiro e bonito que ela sempre dá quando me vê. Ela tem um jeitinho animado e um pouco infantil, quando está comigo ou com a cozinheira, conversando e trocando experiências de vida, está sempre sorrindo com os olhos brilhando e sorrindo junto. Isso me faz sentir em casa, querido e amado. É bom tê-la por perto, não poderia existir alguém melhor para cuidar de mim.

Não demora muito para ela abrir os olhos, eu já estou sentado na cama quando ela faz seu. Seus cabelos estão impecavelmente arrumados, sem nenhum fio fora do lugar, diferente dos meus que devem estar parecendo um ninho de passarinho.

“Vem, vamos comer as torradas que Kang Youngkyung fez.”, é a única coisa que ela me diz, já me puxando para descer, sem nem me dar chances de ir lavar o rosto no banheiro. Eu rio de sua animação e a sigo.



Os dias com a minha mãe são incríveis. Ela sempre me busca na escola com o motorista e nós saímos juntos para qualquer lugar possível na cidade, tiramos muitas fotos e até mesmo fazemos coisas que ela dizia fazer na adolescência, como correr perto do rio Han, comer alguns lanches de rua e passar um dia inteiro em um parque aquático fora da cidade. Jinheon e eu não nos falamos conforme os dias vão passando, o que para mim é mais do que ótimo pois me dá ainda mais tempo sozinho com minha mãe e eu posso aproveitar os últimos momentos ao seu lado antes da viagem. No dia do meu aniversário, ela me deixa faltar à escola, e também me permite ir visitar meus avós paternos. Eu até tenho um bom momento com eles e os dois ficam muito felizes ao saber que vou morar com meu pai, mas em alguns momentos, percebo que eles parecem querer me dizer algo, mas nunca dizem.

Depois da visita, ela me leva para visitar os seus pais e me despedir deles. Os dois parecem abominar a ideia da minha ida para a Inglaterra, mas bem mais pelo fato de eu estar indo para morar com o meu pai do que pela mudança em si. Eles lançam olhares de repreensão para a minha mãe, e eu posso perceber o esforço que ela faz para ignorá-los. Não digo nada sobre, sei que ela não vai querer conversar.

À tarde, passo boas horas no celular com meu pai, e ele diz que irá me dar meu presente quando eu chegar em Londres, o que me faz entender o porquê de não ter recebido nada na semana anterior, quando ele normalmente manda. Ele parece bastante ansioso e isso acaba me deixando do mesmo jeito, pensando no momento em que finalmente poderei vê-lo. À noite, mamãe e eu vamos a restaurante, sozinhos, comemorar e também ver algumas lágrimas rolando. Fazer quinze anos realmente deve ser uma maravilha, pois posso ver o quanto isso mexe com ela. Dificilmente a vejo chorar, as últimas vezes foi quando viemos de Londres, mas agora ela está chorando muito mais, especialmente quando estamos juntos. É nesses momentos que percebo que será bem mais difícil para ela do que para mim. Tento aproveitar ao máximo minha última semana em Seul ao seu lado. E no meu último dia, enquanto terminamos de arrumar as malas, ela não chora. Não derrama uma única lágrima. Tudo o que mamãe me oferece são sorrisos, genuínos, e abraços apertados acompanhados de beijos por todo o rosto, sem falar dos seus afagos em meus cabelos.

“Vai levar todas as suas roupas?”, ela pergunta enquanto me ajuda a fechar uma das últimas malas, onde vão todos os meus sapatos. “Talvez seja bom deixar algumas, caso você venha me visitar, então não precisará trazer tanta coisa.”

Eu penso um pouco no que ela diz e acabo concordando, deixando dois ou três pares. Viajo na madrugada, com a minha tia, irmã de Jihyun, já que não posso viajar sozinho e ela tem negócios para resolver na Inglaterra. É difícil para nós dois, minha mãe e eu, mas nós não falamos muito sobre despedidas enquanto as horas vão passando, nem mesmo Jinheon chega perto de nós. É um momento nosso.

À noite, depois de um jantar regado a bolos, doces e refrigerante, mamãe volta a dormir comigo, cantando baixinho no meu ouvido a música que ela e papai costumavam cantar juntos quando eu era pequeno. É muito bom poder me sentir protegido por ela. Acabo sonhando com o abraço do meu pai, também, imaginando como poderá ser o nosso reencontro. No entanto, não posso me perder muito no sonho ou no que vem a seguir, já que pouco tempo depois, minha mãe está me acordando, dizendo que eu devo tomar banho para não me atrasar. O voo sai às três da manhã, terei bastante tempo para dormir no avião, por isso não me sinto irritado quando preciso levantar. Mesmo sabendo que preciso estar acordado, ainda assim, tomo um banho bem quente e relaxante.

Mamãe está terminando de se arrumar quando eu o faço. Ela está no corredor, ajustando o vestido em seu corpo, enquanto eu termino de vestir o meu amado suéter de moletom cinza, ajustando também a mochila em minhas costas. Ela sorri para mim.

“Pronto?”, pergunta, um pouco incerta.

Respondo da mesma maneira. “Pronto.”

Minha tia dormiu em casa, então nós não precisamos esperar muito por ela, já que a encontramos na sala, prontamente arrumada para podermos ir. Jinheon e o motorista passaram as malas para o carro enquanto nós estávamos dormindo, por isso ele já está do lado de fora, nos esperando. Mamãe não sai do meu lado, está com uma das mãos no meu ombro, olhando para baixo e mesmo quando precisa parar para colocar o seu amado sobretudo bege, ela ainda fica por perto, olhando ao redor e me guiando até o carro.

Nosso caminho até o aeroporto é em silêncio, pelo menos da minha parte. Minha tia puxa assunto com a minha mãe e as duas estão conversando sobre o trabalho, a primeira sempre pedindo para que minha mãe volte e assuma os negócios de sua família ao lado dos outros irmãos. Meu avô era um renomado engenheiro e acabou fundando uma construtora conceituada no mercado, fruto de muito esforço e um sonho antigo. Por consequência, três de seus quatro filhos acabaram seguindo pelo mesmo caminho, e entre eles está a minha mãe, que se formou um pouco depois de se casar com Jaemin, mas exerceu a profissão apenas enquanto estava casada com o meu pai, com Jinheon ela não sabe o que é trabalhar, apenas cuida da casa e diz sempre que essa é uma boa vida. Meus tios, no entanto, nunca aceitaram bem essa decisão, então é comum vê-los tentar persuadi-la a voltar. Jinheon parece um pouco incomodado com a conversa, posso vê-lo se mexer um pouco no banco do carona, ao lado do motorista, com quem ele troca algumas pouquíssimas palavras. Para ele, empregados são apenas empregados e pessoas para quem não devemos dar muita trela, e mesmo que minha mãe tenha como sua melhor amiga a cozinheira, ela diz compartilhar do mesmo pensamento.

Minha tia, Park Jiyeon, diz que isso é um comportamento muito hostil e que se a pessoa está lhe prestando um serviço em tempo integral, praticamente, o mínimo que você deve fazer é permitir com que ela se sinta à vontade e entenda sua importância. Para ela, todos são iguais, ainda que algumas pessoas precisem trabalhar para outras, no fim, pouca coisa os difere. Ela sempre foi meio fora da curva entre os quatro, apesar de ser a filha mais velha. Depois dela vem meu tio Jihoon, então minha mãe e aí o meu tio Jihan, com quem todos têm pouco contato desde que ele decidiu largar tudo para viajar pelo Oriente Médio e a América do Sul. Da última vez que nos falamos, há quase dois anos, mamãe disse que ele estava no Brasil. Desde então, eu não sei dele, mas ele ainda manda algumas coisinhas soltas para os irmãos. Meus avós detestam esse estilo de vida, mas eu secretamente nutro uma certa admiração pela coragem dele de largar um futuro cheio de oportunidades e estabilidade por uma vida perigosa e sem nenhum propósito claro. É certo que eu jamais diria isso na frente de ninguém, é apenas um pensamento que tempos em tempos corta a minha mente, em especial quando alguém fala sobre faculdade, emprego e outras coisas do tipo.

A noite está fria e ao mesmo tempo agitada. No centro, as pessoas não parecem dormir, nunca, as ruas estão sempre lotadas, os bairros mais animados estão com seus bares cheios e tudo mais o que se pode encontrar em Seul. Eu me assusto um pouco com algumas coisas que vemos no caminho, como uma garota vomitando tudo o que pode no meio fio enquanto outras a ajudam, seguram seu cabelo e tentam fazê-la melhorar. Ouço minha tia rir e dizer que aquilo era quase uma rotina em seus fins de semana na época da faculdade, provocando minha mãe e insinuando que era para ela também. Jihyun apenas ri e diz que Jiyeon está louca e dizendo coisas sem sentido. Quando encaro o rosto da mulher que está sentada entre minha tia e eu, vejo em seus olhos um brilho nostálgico, enquanto que ao seu lado, Jiyeon conta algumas histórias de sua fase de adolescente rebelde que ficava bêbada no meio da rua. É engraçado e ao mesmo tempo reconfortante vê-las discutir sobre isso com tamanha naturalidade, especialmente porque minha tia faz minha mãe ignorar os olhares nada contentes que seu marido está lançando na direção delas. Por sorte, não estamos nos falando, e também eu estou me sentindo muito ansioso e ao mesmo tempo calmo, pensando que em breve estarei embarcando de volta para a minha casa, ou então teria me sentido tentado a pedir para ele as deixar conversar em paz.

O aeroporto de Incheon está praticamente vazio. Essa é a primeira coisa que noto assim que o adentramos, vendo pouquíssimas pessoas vagarem por ali, algumas muito cansadas, chegando a dormir nos bancos e também em cima das malas. Eu seguro o riso ao ouvir minha tia zombar de alguns, enquanto seguimos para o portão de embarque, visto que não falta muito para o nosso voo sair. Mamãe sempre nos repreende.

“Jisung.”, ela me chama, em um certo momento, enquanto estou rindo baixo de algo dito por Jiyeon. E a olho com um certo temor, imaginando que levarei uma bronca, mas no momento em que meu olhar cai sobre seu rosto, vejo que na verdade ela está se segurando para não chorar, ainda que seus olhos estão cheios de lágrimas, e que sua boca está fechada em um quase sorriso entristecido. “Dê-me um abraço, por favor.”

Sem muita reação e com vergonha, sem entender o motivo, eu apenas abro os braços e espero que ela venha até mim, não demorando muito para finalmente senti-la me envolvendo em seu enlaço forte e acolhedor. Ela afunda sua cabeça na curva do meu pescoço e eu aperto meus braços ao redor do seu corpo, puxando-a mais perto mesmo que não seja possível. Mamãe está se segurando para não chorar, sei disso porque estou na mesma situação, pedindo mentalmente que as lágrimas não caiam, ou então eu posso querer ficar, e agora já está tarde demais para desejar algo assim.

“Vou sentir sua falta, filho. Ligue assim que chegar e por favor, não perca o contato comigo, venha me visitar sempre que puder.”, Jihyun começa a dizer e sua voz já está falhando. “Eu vou sentir saudades, Jisung. Muitas saudades. Por favor, seja um bom menino, tudo bem? Não dê trabalho para o seu pai, respeite-o e o trate com carinho, como você sempre faz. Qualquer coisa, eu estou a uma chamada de distância, esperando por você. Eu te amo.”

“Prometo ser um bom garoto, mãe. Eu te amo mais.”

Ela começa a chorar e então se afasta, dando as costas para mim para poder limpar as lágrimas novamente se virar para mim. “Não faça o seu pai me ligar para reclamar, Na Jisung. Comporte-se.”

Eu sorrio fraco para ela. “Irei me comportar.”, por fim, minha tia me chama para irmos logo.

Mamãe e Jiyeon conversam rapidamente enquanto se abraçam, provavelmente trocando alguns conselhos. Ao lado delas, Jinheon olha para o relógio e então para ambas, logo depois direcionando sua atenção para mim. Tento parecer indiferente, mas enquanto ele se aproxima, eu começo a ficar nervoso.

“Faça uma boa viagem, Jisung.”, diz ele, parando ao meu lado. Não o olho. “Espero que possamos nos ver em breve.”

Murmuro um "obrigado" sem muita vontade e então minha tia volta para perto de mim.

“Vamos, Jisung. Até logo, vocês dois.”

Eu me viro para eles rapidamente, deixando uma lágrima solitária molhar a minha bochecha esquerda. Digo, sem som, tchau para a minha mãe, tendo o vislumbre de seu sorriso uma última vez, enquanto ela acena e diz tchau. Ao seu lado Jinheon a abraça. Ela pensa que eu não vejo quando ela dá as costas para mim e desaba nos braços dele, mas obviamente eu percebi, e por isso olho para frente, permitindo com que mais do meu choro saia.



Durante o voo, encarando a janela enquanto aos poucos vejo a Coréia do Sul me dar tchau, deixo a voz de Matthew Bellamy cantando Supermassive Black Hole relaxar meu corpo enquanto invade meus ouvidos, fazendo-me tentar pensar em outras coisas. Minha tia está dormindo ao meu lado. Serão quatorze horas dentro do avião, chegaremos em Londres por volta das oito da manhã do horário local. Consigo constatar isso ao pensar no horário em que meu pai e eu conversamos, o que me faz lembrar dele e imaginar se ele está, naquele momento, tão agitado quanto eu. Conhecendo-o como eu imagino conhecê-lo, posso dizer que ele deve estar uma pilha de nervos. Papai é ansioso demais, para qualquer coisa que seja, algo que feliz não herdei dele.

Tento pensar em outras coisas, distrair minha mente e quem sabe tentar imaginar situações um tanto quanto bizarras para que minha mente se foque em qualquer pensamento que não seja o dele. Até mesmo tento pegar no sono, o que dá certo por alguns minutos, e logo já estou acordado novamente, então isso se torna um ciclo preguiçoso.



Quando abro os olhos pela incontável vez após mais um cochilo, sentindo um incômodo nas costas por não ter ajustado a posição do assento, levo um susto ao olhar através do vidro ao meu lado e perceber que estamos prestes a pousar. Tia Jiyeon já está acordada, digitando rápido no celular e pouco presta atenção ao seu redor. As pessoas já começam a se agitar e as conversas paralelas começam a tomar conta do interior da aeronave, enquanto eu aumento o volume do celular e espero que o som saindo dos fones de ouvido bloqueie, pelo menos nesses últimos momentos, o barulho das vozes alheias. É Kill The DJ, do Green Day, que estou ouvindo, uma das músicas que minha mãe costumava ouvir bastante quando ainda morávamos sozinhos. Ela tem uma grande influência no meu gosto musical, se fosse pelo meu pai, eu estaria nesse exato momento ouvindo algo do John Mayer ou Tom Jobim.

Novamente, a imagem dele invade os meus pensamentos. Só de imaginar que em breve poderei, finalmente, abraçá-lo e olhar para ele, poder me curar das vezes em que precisei de seu consolo e ele não podia estar presente, já sinto minhas mãos suando, assim com meu coração acelerando. Olho novamente pela janela e vejo, aos poucos, meu país natal surgir por entre as nuvens, imaginando que nesse momento, em algum ponto dele, meu pai está parado, no portão de desembarque do aeroporto, esperando por mim. Titia também olha, parecendo animada.

Ela murmura algo sobre finalmente estarmos chegando e que não vê a hora de poder descansar na suíte do hotel onde ficará hospedada, coisa que só será possível à noite. Eu a digo que talvez seja bom ela sair um pouco para se distrair, coisa que ela responde com um "E o que você sabe da vida, Na Jisung?", e ri logo depois, dizendo que pode ser que ela siga meus conselhos.

A aeromoça diz algumas coisas enquanto passeia pelo corredor, mas eu apenas sei disso porque vejo seus lábios se mexendo, enquanto também sustentam um sorriso simpático, elegante e profissional. Acho engraçado a maneira como ela consegue se locomover nas roupas super justas e os saltos finos altíssimos, chegando a prender minha risada enquanto organizo algumas coisas dentro da mochila que sempre levo comigo. Dentro estão alguns objetos pessoais, produtos de higiene, passaporte, documentos e meu mais novo exemplar de O Pequeno Príncipe, que eu ainda não tive tempo de ler, mas digo a mim mesmo que o farei assim que estiver instalado na casa do meu pai. Minha nova casa. Por um lado é estranho pensar assim, mas tento fazer minha mente se acostumar à ideia. Rio de mim mesmo quando imagino como pode ser a casa de um fotógrafo.

Meu pai é viciado em fotografar todo e qualquer momento, por mais ordinário que seja. Tenho alguns flashes de memória, lembrando-me vagamente de algumas fotos que ele tirava de mim quando estava escovando os dentes, ou então me sujando de terra no jardim, tomando sorvete ou qualquer coisa do tipo. Em casa, era comum que ele estivesse sempre prestes a apontar sua câmera para alguém. Mamãe era a única pessoa de quem ele pouco fazia registros. Ela chegou a me dizer que ele mal tirou dez ou quinze fotos dele em todos os anos em que foram casados.

Assim que meus pés tocam o chão, sinto meu peito apertar ao mesmo tempo em que meu coração bate um pouco mais rápido do que deveria, enquanto minha mente trabalha o fato de que estou, finalmente, em meu país natal. Minha tia, ao meu lado, está agitada, dizendo que não vem a Londres desde que meu tio Jihan disse que estava por aqui, há uns seis anos, e ela precisou vir atrás dele para tentar convencê-lo a ir para casa, mas obviamente, ele lhe deu uma resposta negativa. Nós caminhamos pela plataforma até que rápido, não tendo muito tempo a perder ali, chegando a bater de ombros com algumas pessoas e precisando pedir desculpas quase gritando. Estar com a tia Jiyeon é como estar com uma pessoa da minha idade, só que um pouco mais agitada e fora da casinha. Enquanto saímos e nos dirigimos para o portão de desembarque, ela vai falando sobre algumas coisas de seu trabalho que eu não entendo, nem tento entender, mas ainda assim ela parece não se incomodar. Ela tem o mesmo sorriso que a minha mãe, por isso eu gosto quando Jiyeon sorri.

Diferente do aeroporto de Incheon, o de Londres está lotado. As pessoas passam de um lado para o outro, correndo, algumas falando bem alto e parecendo quase desesperadas para chegar a algum lugar. Em meio àquele tempestuoso mar de gente, minha tia e eu ficamos na ponta dos pés e com os olhos bastante atentos, procurando pelo meu pai.

Não é difícil encontrá-lo. A figura do homem alto, de cabelos pretos, vestido de forma despojada logo se mostra para mim, enquanto ele segura uma plaquinha branca com escritos em caneta preta que dizem: Meu filho lindo e amado e Park Jiyeon. A camisa branca, de botões, meio solta em seu corpo, a calça preta bastante juntas e os coturnos nos pés contrastam com os seus quase trinta e seis anos de idade, mas ainda assim lhe dão uma aparência jovial. Seus olhos brilham quando ele finalmente me vê e eu posso dizer que estou em situação semelhante. Sinto meu coração acelerar ainda mais, enquanto minhas mãos começam a suar. Ouço a voz de Jiyeon ao meu lado, mas o som de repente parece distante, assim como todos os outros ao meu redor. Mesmo que oito anos tenham se passado desde a última vez em que vi seu rosto pessoalmente, não tem como não reconhecer, é praticamente inesquecível.

Sem nem pensar direito, faço a primeira coisa que meu cérebro me diz: solto da mão de Jiyeon e saio correndo em direção ao meu pai, com os olhos marejados, a visão quase turva e a mente embaralhada. Meus pés mal parecem sentir o chão, é como se eu estivesse voando.

Assim que paro à sua frente, a placa em suas mãos vai ao chão e ele me puxa para um abraço, apertando-me contra o seu corpo enquanto eu faço o mesmo, deixando as lágrimas por fim molharem o meu rosto. Dentro do abraço do meu pai, sinto-me em casa, de verdade, com o mesmo cheiro de lavanda que ele exala, os biscoitos recém tirados do forno e por fim, aquele calor acolhedor em frente à lareira em uma noite fria. É nesse momento que eu realmente percebo o quanto senti saudades dele e o quanto ele fez falta em tudo, em cada mínimo detalhe da minha vida, mesmo que eu não tenha vivido tanto assim para poder dizer isso, ainda assim algo estava fora do lugar, mas agora não mais. Eu me dou conta de que finalmente estou completo, tudo está onde deveria estar.

“Olha só para você! Seu cabelo está muito bonito. Você realmente cresceu.”, diz ele contra os meus cabelos, fazendo-me rir fraco, estreitando um pouco mais o nosso enlace. Sua voz está embargada. “Senti sua falta. É tão bom poder tê-lo aqui, abraçá-lo.”

“Eu também senti a sua falta, pai.”, respondo, olhando o chão enquanto as lágrimas ainda caem. “E muito.”

Posso sentir seu corpo tremer sutilmente enquanto aos poucos nós vamos nos afastando, por isso chego a pensar que ele está chorando e tenho a confirmação da minha suspeita quando levanto o rosto para encará-lo e dou de cara com seu rosto molhado. O meu não está diferente, então não me incomodo. É perceptível pelo brilho em seus olhos que ele está tão maravilhado quanto eu nesse momento, parecendo até mesmo surpreso e incrédulo enquanto encara o meu rosto. Eu tento sorrir, mas as emoções são fortes demais para que possam ser controladas e tudo o que consigo extrair de mim mesmo são mais lágrimas e logo estou sendo abraçado pelo meu pai novamente, sentindo seus lábios depositarem um beijo de consolo no topo da minha cabeça. Ouço, mais uma vez, minha tia dizer algo a ele enquanto ambos se cumprimentam, mas eu não consigo prestar atenção na conversa, apenas penso no momento que estou vivendo e na paz que está se estabelecendo em meu coração.

Meu pai volta a se afastar e me olhar. “Precisamos deixar sua tia no hotel e seguir para casa, vamos.”

Concordo com o que ele diz e vamos correndo pegar as nossas malas, que por sorte não são muitas. Para mim, são apenas três malas e mais algumas bagagens que chegarão no fim da tarde com coisas importantes. Titia tenta recusar a carona que meu pai oferece, mas sua relutância dura apenas até nós pisarmos do lado de fora do aeroporto e ela perceber a dificuldade que será para conseguir um táxi ali. O carro do meu pai é um conversível branco muito bonito, de uma marca que eu desconheço mas que parece ser bem cara – digo isso porque minha tia encara o veículo boquiaberta. Jaemin parece mais leve conversando com ela, enquanto nós colocamos as malas no bagageiro. Meu pai e tia Jiyeon sempre tiveram uma boa relação e pareciam ser bons amigos mesmo após o divórcio, ainda que minha mãe não gostasse nada da amizade dos dois. 

Eu acabo optando por sentar no banco de trás e deixar que eles se sentem nos da frente. É tudo muito bonito até mesmo ali dentro, os bancos são de couro em uma cor de creme com detalhes pretos nas costuras, muito bem cuidados e o cheiro é o mesmo do perfume de lavanda que meu pai está usando, o que me faz rir um pouco. Papai parece mais relaxado ao volante, ainda que às vezes acabe não entendendo algumas coisas que minha tia diz em coreano. Jaemin nasceu e foi criado em Manchester, mudou-se para Londres na adolescência e foi quando conheceu a minha mãe, que na época fazia intercâmbio, e mesmo que seus pais agora estejam na Coréia do Sul, ele pouco sabe do idioma, por isso a conversa entre ele e Jiyeon acaba virando uma gororoba de idiomas. É divertido vê-lo perdido daquele jeito, mas ao mesmo tempo me sinto aliviado por ter treinado meu inglês durante os últimos anos e não ter deixado de falar, até porque é o meu único meio de me comunicar com ele.

Minha tia parece emocionada quando a deixamos no hotel e diz que podemos marcar um jantar antes dela voltar para Seul, o que meu pai aceita com um sorriso e então nós nos despedimos definitivamente dela, seguindo de Knightsbridge para Westminster, o distrito onde meu pai mora atualmente. Quando eu era pequeno, nós vivíamos em Soho. Nós conversamos sobre tudo o que podemos no caminho, especialmente sobre como anda a minha vida escolar e se eu estou bem em ter que mudar de escola no meio do semestre, mas digo a ele que não tenho problemas com ele e por um momento ele se diverte com o meu jeito de ser. Por algum motivo, eu sou mais parecido com ele na adolescência do que com a minha mãe, o que é até que engraçado porque convivi mais com ela do que ele.

O distrito de Westminster, o maior cartão postal de toda a Londres, é luxuoso e agitado, as pessoas são elegantes e ao mesmo tempo bastante animadas. As ruas não são estranhas para mim, como eu disse, papai é viciado em fotografar tudo o que esteja na mira de sua lente, então era comum ele me encher de fotos da cidade quando podia. Ele tem o dom de ver beleza onde ninguém mais poderia encontrar, no ordinário, no comum.

“Acho que por agora, você e eu podemos comer alguma coisa e quem sabe sair para dar uma volta.”, diz ele assim que adentramos a Great Smith Street, a rua em que fica o edifício onde ele vive, bem de esquina com a Tothill Street, exatamente de frente para onde fica a Abadia de Westminster. “Podemos almoçar fora, ou quem sabe ir a algum lugar que você goste, não sei. Ou você quer descansar antes?”

Sorrio para ele, analisando sua imagem pelo retrovisor quando seus olhos encontram os meus. “Eu adoraria almoçar e então voltar para descansar, podemos sair um pouco antes do jantar.”

Ele também sorri, mas posso ver por suas expressões que aparenta estar um pouco nervoso. “Ótimo, então.”



Confesso que, para alguém que aparentemente vive sozinho, meu pai vive bem melhor do que eu poderia imaginar. Ele adentra com o carro no estacionamento de um luxuoso edifício que traz em sua arquitetura os saudosos traços da era vitoriana e alguns detalhes mais modernizados. As cores vermelho e dourado são as que mais aparecem pelo local e tudo na construção parece ser grandioso. Olho para mim mesmo por alguns segundos, maravilhado, perguntando-me mentalmente como alguém como eu poderá se encaixar em um lugar como esse, mas para meu pai não parece ser um problema.

O estacionamento é amplo, bem iluminado e não parece em nada com os normalmente soturnos e apertados que se vê por aí. Papai dirige rápido pelo lugar até parar em uma vaga próxima ao hall de elevadores.

Tirar as malas do carro não é um problema, pelo menos, já que assim que meu pai faz isso, um homem usando roupas elegantes aparece com um carrinho de bagagem bem comum de hotéis e oferece ajuda. Por ter um crachá dourado em seu terno e pela maneira como se porta, é bem nítido que ele trabalha ali. Não é simpatia e sim obrigação. Eu aproveito o tempo em que ele está arrumando as bagagens para olhar ao redor. Próximo ao carro do meu pai, tem uma placa com o número quinze-zero-zero, que provavelmente deve ser o número de seu apartamento. Mas o curioso de verdade, é que na vaga ao lado, vazia, há uma placa idêntica. Chego a franzir o cenho enquanto me questiono o porquê de meu pai precisar de duas vagas no estacionamento se, aparentemente, ele mora sozinho. Tento não pensar muito nisso por achar ser algo irrelevante, então mudo minha atenção para os outros veículos ao redor. Todos aparentemente muito caros, bonitos e chamativos. O tipo de pessoas que moram ali certamente não devem ser das mais simpáticas.

Sou tirado dos meus pensamentos de pré-julgamento acerca dos meus futuros vizinhos quando ouço a voz do meu pai me dizer que devemos nos apressar. Eu o sigo até um dos elevadores do lado esquerdo enquanto o funcionário do edifício vai por outro. Na parede da caixa de metal está uma placa de vidro, com alguns dizeres desinteressantes e informações sobre o hotel. Royal Heart Residential – Um lugar para a família. Franzo o cenho. Nome sem graça e lema ainda mais sem graça.

Chegamos ao décimo quinto andar e assim que as portas do elevador se abrem, tudo o que se estende à nossa frente é um corredor largo e amplo, silencioso e bem iluminado e no fim deste uma única porta dupla, com uma menor ao lado, na parede à esquerda. Noto então que o edifício, muito provavelmente, oferece apenas um apartamento por andar. Papai sai e eu sigo atrás, olhando para cada detalhe ao nosso redor. As paredes são bege e com alguns quadros da família real na parede, juntamente com alguns casos de decoração no chão. Caminhamos sobre um grande tapete branco e raso, muito bonito, que segue até a tal porta. Alguns segundos depois, o funcionário finalmente chega com as malas e meu pai abre a porta do apartamento, dando passagem para o outro homem primeiro e só então me diz para fazer o mesmo e adentrar o lugar.

A sala de estar é esplendorosa, ao mesmo tempo em que é minimalista e bem discreta. Todos os móveis seguem os padrões de preto e branco, com algumas poucas exceções que chamam a minha atenção, como um pequeno vaso no centro da mesinha em frente ao grande sofá branco, que é amarelo. Uma escolha bastante interessante. Não tem nenhum aparelho como televisão ou coisa assim, apenas uma estante com um aparelho de som e algumas fotos minhas ao lado dele, em quadros divertidos que meu pai sempre gostou de ter. A sala dá para uma varanda que aparentemente é bem espaçosa, pelo que eu posso ver, afinal, as cortinas brancas estão fechadas. O lustre é tão luxuoso quanto o resto, caindo do teto como uma cascata de pequenas lâmpadas delicadas, bem distante do chão devido à altura do lugar. Tudo é grande demais e eu penso na possibilidade de me perder ali. À esquerda, ao lado de um pequeno corredor, há uma ante sala que parece levar para a cozinha ou coisa assim, enquanto à direita segue um corredor estreito comparado ao da entrada, e um pouco distante deste está a escada para o segundo andar, onde um mezanino bonito está bem decorado. A parede que dá para a rua e para a varanda é de vidro e muito discreta, mas apenas do lado direito. Há vários quadros na parede e todos, a princípio, parecem iguais. As telas pretas com respingos amarelos presas às paredes brancas, e só então eu percebo que ainda que todo o lugar pareça seguir um padrão, a cor amarela acaba predominando ainda que minimamente. Escuto papai e o funcionário conversarem sobre algo enquanto tiram as malas do carrinho e então o outro homem sai, deixando apenas Jaemin e eu na sala do enorme apartamento.

Papai para ao meu lado, analisando todo o redor, parando para olhar o meu rosto e então soltando uma risada baixa.

“Você parece uma criança em uma loja de doces.”, ele brinca e eu reviro os olhos. “Está surpreso?”

Penso por alguns segundos antes de responder, decidindo ser sincero com ele. “Um pouco. Confesso que não é bem o que eu imaginava.”

Novamente, Jaemin ri, mantendo o sorriso por mais tempo dessa vez enquanto adota uma postura mais relaxada. “Deixe-me adivinhar… Você esperava um apartamento apertado, todo bagunçado, comigo largado sobre o sofá assistindo a algum jogo de futebol na tevê?”

Acabo gargalhando do que ele diz, mesmo que no fundo esteja um pouco constrangido. Respiro fundo e volto a olhar ao redor. “Apertado não.”

“Entendi… Apenas a bagunça e o jogo.”

“Exato.”

Ele balança a cabeça negativamente e ri. “Tudo bem, garoto. Mas olha, agora você precisa ajudar o seu velho pai.”, eu ergo uma das minhas sobrancelhas enquanto lanço um olhar desconfiado em sua direção, fazendo-o revirar os olhos. “Pare de ser desconfiado de tudo. Apenas quero saber se você vai ficar no andar de cima ou aqui embaixo.”

“Existem quantos quartos nesse apartamento?”, pergunto, parecendo um pouco exasperado, mas é porque estou tentando calcular a área daquele lugar.

Papai me olha e diz, calmamente: “Cinco.”

Tudo o que me resta, diante dessa resposta, é balançar a cabeça positivamente.

“Está vendo aquele corredor?”, ele aponta para o da direita, perto das escadas. Confirmo com um aceno de cabeça mais uma vez. “Ele leva até um quarto, é a única coisa deste lado, do outro lado das escadas fica o meu escritório. Agora aquele, da esquerda, próximo à entrada da cozinha e da sala de jantar, leva para a sala de tevê e também para uma sala vazia que não é utilizada.”, ele vai explicando e apontando para cada lugar citado, e eu vou tentando gravar tudo. Por sorte, o apartamento parece ter uma estrutura bem simples e eu não vou me perder. “Já lá em cima, fica o meu quarto e mais três quartos de hóspedes, além de um outro escritório, nada demais. Todos os quartos são suite, e tem um lavabo atrás da escada.”

O discurso parece quase ensaiado mas eu nada digo, é perceptível o seu leve nervosismo e em alguns momentos ele parecia estar travando. Quando falou sobre o segundo escritório, deu de ombros e tentou ser vago, o que me deixou confuso. Enquanto ele me encara, depois que termina de falar, eu lembro também da segunda vaga no estacionamento, imaginando que talvez tenha algo que meu pai precisa me contar. No entanto, não tenho tempo para isso, preciso aproveitar meu primeiro dia com ele. Mamãe me disse que ele tirou um dia livre em seu trabalho para ficar comigo. Então, quando ele pergunta novamente sobre onde irei dormir, eu faço meus pensamentos tomarem outro rumo.

Talvez seja bom para ficar sozinho, ter um lugar mais reservado e também ficar mais perto de lugares como a sala de estar e a cozinha. Olho então para o homem ao meu lado e sorrio. “Vou ficar com de baixo.”

Jaemin para por alguns segundos enquanto seu olhar está no meu rosto. Eu franzo o cenho na direção dele, confuso com a parada repentina e ele parece finalmente voltar à realidade. Novamente, vejo o mesmo brilho de antes, de quando estávamos no aeroporto, cruzar os seus olhos.

Depois de um tempo, ele suspira pesadamente e então olha ao redor, parecendo um tanto quanto perdido, voltando a me encarar. Para falar a verdade, eu gostaria mesmo de entender o que está acontecendo nesse exato momento.

“Pode me dar um abraço?”, papai diz, repentinamente, deixando-me ainda mais confuso. “Eu só… Só não consigo acreditar que você está aqui.”

A vontade de chorar aperta a minha garganta enquanto eu sinto uma fisgada no peito, típica de um choro forte prestes a vir. Sem saber muito bem como agir diante disso tudo, eu demoro um pouco até assimilar suas palavras, mas assim que o faço, dou um simples passo para frente e logo meu pai está me abraçando apertado, mais uma vez. Eu devolvo o ato com o mesmo carinho que ele parece emanar. Essa é, definitivamente, a melhor coisa em ter vindo para Londres.

Quando nos afastamos, ele está sorrindo, mesmo que seu rosto esteja molhado. Eu acabo rindo disso, pois sei que estou do mesmo jeito.

“Não ria do seu pai, garoto.”, Jaemin diz, limpando os olhos com a costa das mãos. “Vem, vamos levar essas malas para o seu quarto.”

Ouvindo algumas piadas por causa do meu choro e devolvendo todas, ajudo meu pai a levar as malas para o corredor, dando uma última olhada na sala de estar, enquanto passamos pelo corredor ao lado da parede-janela. É possível ver a Victoria Street dali, parecendo tão pequena abaixo de nós. O pequeno corredor acaba quando outro se estende à nossa direita, e no fim deste, na parede à esquerda, há uma porta branca, de correr. Diferente do resto da casa, as paredes desse corredor não estão decoradas com quadros, elas estão bem vazias e lisas. A parede onde a porta está, está com as cortinas fechadas para o lado de dentro, o que me faz notar que essa também é de vidro.

Papai para e tira uma chave do bolso e então abre a porta, fazendo-a deslizar para a esquerda. Primeiro ele coloca as duas malas que está lavando para dentro e então entra, dizendo-me para fazer o mesmo. Um pouco hesitante, sem nem saber o porquê, eu o sigo, contando mentalmente até cinco antes de adentrar o quarto.

Não me surpreende que seja um cômodo amplo e aberto, bem iluminado, mas sim o fato de que assim que estou dentro, posso ver a cama de casal com a cabeceira apoiada na parede ao lado da porta, e oposto à entrada, está a porta dupla que certamente deve levar para o closet, enquanto que ao lado da cabeceira, está outra porta, menor, e também de correr, que eu suspeito ser o banheiro. O chão é em porcelanato e assim como o resto da casa o teto é bem alto, com lâmpadas de led bem dispostas e um lustre parecido com o da sala. A parede de frente para a cama parece até distante pelo tamanho do cômodo, com a porta francesa de vidro que dá para uma pequena varanda particular, o que me deixa bastante surpreso. Há também uma estante, ao lado dessa porta, na parte mais larga da parede, com uma televisão de tela plana e um aparelho de som, além de um videogame, outra coisa que me deixa bem maravilhado com tudo aquilo. E oposto a isso, na parede da porta, está a escrivaninha, com várias prateleiras acima dela, vazias, prontas para serem preenchidas e à sua frente a cadeira preta, confortável. A escrivaninha está parcialmente vazia. Há um laptop preto novinho sobre ela, juntamente com mais alguns aparelhos com um iPad. O quarto ainda segue o padrão da casa, entre preto e branco na decoração, mas ainda assim, parece perfeito. Eu olho para o meu pai, deixando clara a minha surpresa diante de tudo aquilo.

“Isso tudo é para mim?”, pergunto, parecendo bastante incrédulo e animado, olhando novamente ao redor. Ele ri, divertindo-se comigo, e balança a cabeça, confirmando. “Só pode estar brincando!”

Eu ando mais pelo quarto, vendo melhor cada detalhe, pensando em como poderei deixar a minha marca ali, ainda que eu não tenha tanta coisa assim. Papai está parado à porta, ainda sorrindo para mim.

Ele se apoia na parede. “Aquela porta ali, é do closet. Essa ao lado da cama é para o banheiro. Vou deixá-lo se acomodar e se arrumar para sairmos para almoçar.”

Quando ele se vira para sair, depois de deixar as malas ao lado da mesinha de cabeceira, eu o chamo, fazendo-o se virar para mim com o cenho franzido, um vinco se formando no meio de sua testa. Engulo em seco enquanto encaro meu pai, então respiro fundo e murmuro, torcendo para que ele ouça, “Obrigado.”

Jaemin parece sem reação, seu rosto aos poucos desmontando a expressão confusa e dando lugar a uma certa surpresa, misturada com o que imagino ser felicidade. Ele olha para o chão e então para mim, coçando a nuca e com o rosto avermelhado, o que me faz rir. Mesmo que estejamos confortáveis e felizes por estarmos juntos, ainda existe um nervosismo pairando no ar, afinal, foram oito anos separados e agora estamos aqui, morando juntos novamente. Eu também encaro o piso, sem saber mais o que dizer ou fazer.

“Tudo bem.”, diz ele, por fim, então eu o olho. “Não precisa me agradecer. Apenas não demore. Estarei o esperando na sala, sinta-se à vontade.”, e então ele sai.

Sozinho, no quarto, eu paro para pensar no dia que tive, demorando um pouco até me mover e sair de onde estou.



Já pronto, encarando-me no espelho do closet, eu analiso bem as minhas roupas. Uma calça preta, coturnos nos pés e camisa preta de mangas compridas. Mais básico que isso, impossível, mas eu não sei para onde vamos então é bom optar por algo mais neutro. Talvez não seja lá a melhor roupa do mundo, mas é o que tenho a oferecer.

Pego meu celular e meus fones e então vou até a sala de estar, encontrando meu pai já de roupas trocadas, sentado no sofá e enquanto manda mensagens para alguém. Eu o chamo e nós finalmente saímos.

Nosso caminho até um restaurante próximo de comida francesa é em um silêncio confortável, papai deixa uma música que eu não conheço tocando no sistema de som do carro enquanto dirige e eu vou observando as ruas. E espelhando nosso comportamento no veículo, o almoço também é calmo e silencioso, acolhedor e as poucas conversas entre nós são quando meu pai me pergunta sobre alguma coisa do dia-a-dia, quase como se nós já estivéssemos acostumados com aquela rotina, o que para mim é ótimo pois não estamos sendo estranhos como cheguei a imaginar que seríamos em alguns momentos antes de viajar. Durante a refeição, eu mando uma mensagem para a minha mãe, contando que já estou instalado na casa do meu pai e que estou comendo no momento, a assegurando que estou bem e que a ligarei após o jantar. Ela responde na mesma hora e diz que estava preocupada, também avisando que irá esperar por mim. É nítido, mesmo que por mensagens, o quanto ela deveria estar desesperada, esperando notícias minhas. Digito um "ok" e envio.

Na volta para casa, meu pai fala sobre fazermos um passeio no fim de semana, dizendo que quer muito sair comigo e resgatar o tempo que perdemos. Por estar cansado, eu apenas concordo e lhe digo que quero dormir, por isso quando chegamos, eu vou para o quarto, trocar a roupa por um par de pijamas. Papai parece nervoso enquanto manda mensagens para alguém quando vou até a sala lhe desejar uma boa tarde, e diz algo que me deixa um pouco mais nervoso do que eu poderia imaginar: “Tem uma pessoa que quero que você conheça no jantar, Jisung. Durma bem.”, com a voz ansiosa. Eu quase lhe pergunto como poderei dormir bem se no momento estou uma pilha de nervos, imaginando quem pode ser a pessoa a quem ele quer me apresentar, mas guardo a curiosidade para mim e volto para o quarto.



Já é noite quando abro os olhos.

A maciez do colchão é um belo convite para que eu permaneça ali, coisa que eu faria sem hesitar, mas meu estômago está roncando e o relógio na mesinha de cabeceira está marcando dezenove horas. Na Coréia, deve ser madrugada, por isso decido deixar a ligação para a minha mãe para outro momento. Levanto da cama ainda um pouco perdido, tentando me acostumar também com o fato de que é noite, e não manhã. Bocejo alto e volto a me sentar no colchão, sentindo meu estômago doer com a fome, lembrando-me de que àquela hora, meu pai deve estar me esperando para o jantar. O que me faz também recordar do aviso que meu pai fez, nervoso, antes de eu dormir.

Ansioso e cheio de expectativa, eu corro para tomar um banho e trocar de roupa, pegando as primeiras coisas que encontro quando procuro por algo nas malas, que no caso é uma calça de SST preta, uma camisa preta nova com o rosto do Peter Steele estampada. Não quero nada muito chamativo, afinal, é um jantar caseiro e pelo jeito do meu pai de se vestir, nada com ele é super elegante. Eu passo bons minutos secando os meus cabelos e depois os arrumando, fazendo de tudo para que os fios alaranjados fiquem no lugar, logo depois partindo para passar um bom perfume e pegar meu celular. Sinto que estou nervoso, meu coração está acelerado e minhas mãos estão suando, tanto que preciso esfregá-las contra o tecido da calça para tentar secá-las, logo depois respirando fundo, de olhos fechados, tentando criar coragem para abrir a porta e sair dali.

E mesmo quando o faço, ainda me sinto um covarde, pois passo alguns segundos no corredor, tentando me preparar para conhecer quem quer que seja, tentando também ignorar as possibilidades que minha mente tenta criar apenas para me deixar apavorado. Chego a ficar irritado comigo mesmo e decido acabar logo com tudo isso, caminhando até a sala.



Posso dizer, nesse momento, que todas as minhas expectativas foram jogadas pela janela no momento em que adentrei a sala de estar. Não por não serem atendidas ou decepcionadas, mas sim porque nada do que minha mente fértil e um pouco infantil pudesse pensar se assemelharia ao que eu acabo de encontrar. Sentado, ao lado do meu pai, rindo de algo que foi dito, está um outro homem, sentado de maneira confortável no sofá, com os cabelos castanhos bem claros, quase loiros e um pouco longos, traços asiáticos muito fortes, a pele um pouco mais bronzeada que a do meu pai. Ambos estão com uma taça cheia de algo que eu suponho ser vinho, de frente um para o outro e bem próximos. Nenhum deles percebe a minha presença, a princípio, afinal, ainda estou parado na entrada do corredor que dá para o meu quarto, então eu preciso forçar uma tosse para chamar sua atenção, fazendo ambos se virarem na minha direção.

O homem desconhecido, olha para mim e então para o meu pai, sorrindo minimamente enquanto se coloca ao lado de Jaemin, mostrando ser um ou dois centímetros mais baixo que ele; meu pai, por sua vez, está claramente mais nervoso do que eu jamais tinha visto em toda a vida, chegando a tremer, visivelmente. É nítida a certa tensão que está pairando no ar, ambos estão nitidamente tão nervosos quanto eu, fitando-me e então trocando alguns olhares. Minha mente tenta adivinhar o que pode ser tudo isso, mas é como se algo tivesse acontecido e limpado todos os meus pensamentos.

Jaemin dá um passo à frente e o outro homem o acompanha, sorrindo ainda, mesmo ansioso.

“Ele é tão bonito pessoalmente quanto pelas fotos que você me mostrou.”, diz o desconhecido, olhando para o meu e então para mim, ultrapassando meu pai e dando alguns passos em minha direção, curvando-se em um cumprimento formal – eu o imito. Ele estende sua mão em minha direção para um aperto. “Prazer, sou Lee Donghyuck.”

Mesmo sentindo-me tímido e receoso, aceito seu cumprimento e tento sorrir, não tendo muito sucesso, como é de se esperar. “Sou Na Jisung, é um prazer.”, digo, então franzo o cenho e tento ser mais ousado. “O que você é para o meu pai?”

Meu pai então se aproxima, parando ao lado de Lee Donghyuck e passando seu braço ao redor dos ombros alheios, deixando-me um pouco mais confuso do que já estou.

“Jisung, o Donghyuck é… Bem, filho, ele é o meu namorado.”


Notas Finais


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perdoem qualquer erro e até o próximo!!


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