História O não dito - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias The GazettE
Personagens Aoi, Kai, Reita, Ruki, Uruha
Visualizações 44
Palavras 6.393
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Ooooooolá galerê saudável e bonito!

Estamos de volta para mais 6000 caracteres de puro drama e alegria!
Eu espero que vocês gostem bastante porque eu escrevi com todo o amor e capacidade de digitação que a vida me deu. Era pra ele ter saído ontem, porém, no entanto, contudo, todavia, eu tava TÃO podre dessa longa semana que eu simplesmente capotei em cima do note antes de conseguir finalizar a revisão.

Mas cá estamos nós! E de cá não sairemos até postar.
Boa leitura, chuchus '3

Capítulo 2 - Lugar errado, hora errada


Eu entrei, e ele estava lá, fumando encostado na parede de tijolos vermelhos. Observava um pássaro azul sentado no grosso galho da árvore que adornava aquele quintal improvisado. Os muros cobriam toda a parte externa, não dava pra ver movimento, mas ainda dava pra ver o céu dali, aquela árvore, a grama verde, e o pássaro.

Ele parou de ver tudo assim que a porta metálica fez um “click” com a minha entrada.    

- Ruki, preciso falar com você. – Antes que eu pudesse controlar, as palavras saíram voando da minha boca, se projetando sob o corpo dele. Eu queria me socar até a morte e fiquei pensando como era possível meu próprio cérebro me trair assim, sem interceptar o que eu tinha acabado de dizer. Por que eu não consegui controlar minha maldita boca? Para alívio do meu próprio desespero – afinal, o que eu tinha para ele? Um belo olá querido, vamos conversar sobre como você me ama -, ele não pareceu muito surpreso ou alterado. Apenas me olhou fechar a porta e voltou a encarar o pássaro. Tragou uma vez antes de falar, sem me olhar.

- Que você vai começar a se viciar em cigarros agora? Não te indicaria isso. – Não respondi nada, até porque eu nem sabia o que dizer, e ele me olhou, esperando que eu me comportasse como um ser humano normal e respondesse à pergunta, assim como qualquer diálogo pressupõe. – Vamos, você não precisa me dar desculpa nenhuma. Opa, te peguei em flagrante – Levantou as mãos, se rendendo, mas sorrindo pequeno no final. -, agora que já sei, pode fumar em paz.

Parei ao seu lado, segurando aquela caixa como se ela fosse uma bomba com a qual eu não sabia lidar. Tinha essa coisa estranha no ar, um clima denso que aparentemente só eu estava sentindo, porque ele não parecia nem um pouco incomodado.

Ou já estava acostumado.

Tentei, no entanto, prestar atenção em todas as suas reações. Não estava confiante no que minha percepção vinha me entregando, já que havia falhado durante os últimos extensos, tristes e solitários 5 anos.

- Mas acho que você vai precisar tirar um da caixa. Eles não vão automaticamente pra boca, o que seria uma benção quando você quisesse explicar pra sua mãe que começou porque não teve escolha.

Não pude deixar de rir. Ali estava ele, o mesmo Ruki de sempre, só que não. Não era o mesmo, não se sentia o mesmo, não fazia as mesmas coisas, e agora eu sei. Parece que saber acordou em mim uma consciência amarga que não me deixa mais vê-lo como estava acostumado, não que fizesse isso de propósito antes, claro. Só que é incontrolável, não dá pra parar, eu sinto um sabor ruim na boca e as vozes de Kaolu e Uruha ecoando na minha cabeça, trazendo uma dor de cabeça terrível à tona. Olhei pra dentro da caixa e tirei um. Em seguida, sua mão veio em direção a mim com o isqueiro acesso, e eu nem o tinha visto se movimentar para tirar o objeto de onde quer que ele estivesse. A chama brilhou na frente dos meus olhos ao mesmo tempo que seu ombro tocou no meu. Por um momento, pude ver o fogo voltar para dentro do isqueiro, passar por toda a extensão do seu braço, chegar aos ombros e entrar em mim, se espalhando.

O cigarro caiu.

- Meu deus, eu devo ser o pior fumante do mundo. Não sei nem segurar a porra de um cigarro.

- Não, você é pior aspirante a fumante do mundo. – Peguei a carteira do bolso, e ele soltou um muxoxo de descontentamento, quase desaprovação. – Credo, Reita, você tem dinheiro pra se matar com uma coisa melhor. Guarda isso aí. Toma. – E esticou um dos seus próprios pra mim. Para minha surpresa, não era mentolado.

- Pensei que você fumasse mentolado.

- Não, mentolado é cigarro de bicha. Preciso sentir a nicotina. Se eu quiser menta, compro uma bala.

- Certo – Ri e pus o cilindro entre os lábios, tentando descobrir como segurar aquela coisa. Ele achou graça, muita graça, e balançou a cabeça como quem diz “isso não vai durar um dia”. Acendeu meu cigarro e eu traguei, engasgando e tossindo, a conhecida primeira vez de todo mundo.  –, mas, sério, quero falar com você. Quer tomar um café?

E finalmente ele parecia surpreso. Acho que fazia muito tempo que não saíamos, ou que eu não o convidava pra nada. Podia ser a rotina do trabalho, mas eu sabia que não era. Agora eu sabia que não, que eu estava vivendo em um inacreditável ritmo automático com ele e que perdi um tempo precioso, um tempo que poderia ter usado para ajudá-lo. Não que ele esteja morrendo – não de imediato, claro -  nem nada assim, só que a culpa continua sendo minha e não posso apagar a ignorância com a qual encarei, ou melhor, NÃO encarei a situação.

- Ah, é mesmo? – Pareceu pensar e cruzou os braços de novo, mantendo a mão do tabaco erguida. – Desculpe, não.

- Não?

- Não, digo, gostaria de tomar um café com você, só que vou almoçar com Kai agora. À noite, pode ser?

- Não.

- Não?

- Não, quer dizer, sim, mas não café. Noite não é bom pra café. Vamos jantar.

- Jantar? – Ele mudou o pé que sustentava o corpo e deixou o outro joelho dobrar. – Claro, parece uma boa ideia.

Senti um sufocamento subir desde o meu pulmão até minhas narinas. Ficou abafado, quase como se não estivéssemos ao ar livre, mas presos em um cubículo de 4x4. Aquela sensação de que algo estava vindo e eu não ia conseguir segurar surgiu de novo, então movimentei meu corpo pra que passasse, chacoalhando tudo pra fora. Ruki me encarou intrigado, e eu me virei pra ele, só que quando o vi, as palavras pularam pra fora da minha boca de novo como dois paraquedistas no pico de uma montanha.

- Você já sentiu que precisava ser diferente?

 Tipo, gay?

- Diferente?

- É, talvez não ser, mas fazer algo diferente, mudar as coisas.

 Acordar de uma hipnose de 5 anos, como eu, por exemplo.

- Você tá bem? Acho que não foi uma boa ideia ter te dado o meu. – Ele fechou os dedos envolta do meu cigarro, e eu segurei seu pulso com a outra mão, sem pensar. Ele arregalou os olhos, indo da minha mão envolta na dele até meu rosto.

 - Desculpe – Soltei delicadamente o toque. -, tinha um inseto. Sabe como é, tenho uma visão boa.

- Claro... – Ele recuou sua mão também. Aliviou a expressão. Por dois segundos, vi um pouco de decepção ali, como quando você espera muito por algo, só que essa coisa não vem. – Bem, não faço a menor ideia do que você está falando Suzuki Akira, mas de uma coisa eu sei – Largou o cigarro no chão e pisou em cima. -, na verdade duas: você não serve para ser um viciado, e meu estômago está roncando de fome. Preciso ir.

Ele caminhou até a porta, o que deu um total de cinco passos – sim, eu contei enquanto tentava pensar em algo pra falar - e a abriu. Olhou para o corredor, deu mais um passo e se virou pra mim.

- Tem certeza que você tá bem? Podemos conversar, mas agora realmente tenho que ir.

- Não, tudo bem, pode ir. Sério, estou ótimo, me divertindo muito com meu mais novo amigo, tabaco – Analisei o cilindro na minha mão e ri, divertido, olhando para ele pensando em como eu podia ser idiota às vezes, cada vez tendo mais certeza de que eu tinha conseguido fazer aquela proeza mesmo. -, mas antes, me fala: por que não sirvo pra ser um viciado? Acho que tenho todos os requisitos. Digo, o cigarro precisa ser melhor e também preciso de um isqueiro próprio, mas estou quase lá.

- Te pego às nove, Akira. Esteja pronto. – Uma curva se formou em seus lábios quando perguntei. Sua cabeça estava baixa enquanto ele chutava uma pedrinha com o sapato bico fino, só que eu, no entanto, tive a certeza absoluta de que ele estava mastigando algum tipo de prazer, transformando-o em resposta. Algo ácido quase saiu dali.

- Ruki – insisti -, não seja covarde, diga. – E então percebi a burrada que tinha acabado de dizer: ele, logo ele, lutando contra toda a minha negação inconsciente, buscando se revelar pra mim por tanto tempo, dando a cara a tapa, um covarde.

- Você não sabe lidar com coisas novas. – De cara fechada em escárnio, ele cruzou a porta e gritou mais um “te pego as nove”. Sua voz não parecia afetada, embora ele tenha feito a cara mais assustadora que eu já o tinha visto fazer.

Quando a porta de ferro preencheu meus ouvidos com aquele “click”, talvez não exatamente depois, mas não muito mais tarde, tive certeza de duas coisas: aquela história toda era verdade, e eu não fumo.

Definitivamente não.

 

XX

 

Por mais que eu amasse aquele homem, tivesse um apreço e um respeito imenso por ele, não podia deixar de admitir que ficar sozinho foi um alívio. Eu não estava pronto para encontrá-lo tão cedo depois de descobrir todas essas coisas que ainda estou tentando absorver, então ficar a sós com ele foi como querer falar tudo que viesse a mente, mas sentir-se mudo.

Bem, eu queria?

Na verdade, estava mais pra “eu sentia que precisava”. Talvez me desculpar, pedir perdão por ter agido de forma tão inconsciente, por ter ignorado e negligenciado suas necessidades sem ao menos me dar conta do que estava fazendo. Não tenho certeza de que palavras usar, como olhá-lo. Só de pensar nisso, fico confuso de novo. Tudo isso parece uma bagunça imensa e inexplicável. Mas há uma única e constate certeza em minha cabeça: devo agir, preciso fazer alguma coisa.

Tomei o corredor em direção a sala de reuniões mais uma vez para pegar minha mochila. Ao mesmo tempo em que caminhava, pensei em como eu gostaria de ir pra casa agora e simplesmente tentar colocar a cabeça no lugar. As vozes de Kaolu, Uruha e Ruki ecoavam na minha cabeça; eram como avisos em placas de sinalização que você vê no meio da estrada tentando te instruir sobre aquele ambiente hostil de concreto.

 

Ele tentou te conquistar...

...só que você nunca correspondeu.

Você não sabe lidar com coisas novas.

 

 Te pego às nove...

 

Às nove.... O que eu diria às nove pra ele? Como eu poderia mudar aqueles sentimentos tão ruins que ele estava sentindo? De que jeito eu podia consertar? Será que eu sequer poderia consertar?

- Opa, cara, toma cuidado. – Fui despertado dos meus pensamentos com a voz de Aoi depois de trombar no corpo que vinha na direção oposta à minha. – Tá perdidão, é? – falou, rindo da maneira brincalhona que já era costume dele.

- Era com você mesmo que eu precisava falar. – Agarrei seu braço e o puxei pra dentro da sala de reuniões, trancando a porta atrás de mim. – Estamos sozinhos, né? – perguntei, checando todos os lados do cômodo.

- Ué, o que tá rolando? Tá virando aqueles malucos paranoicos?

- Aoi, escuta – Segurei em seus ombros com força e chacoalhei, tentando fazer com que ele saísse daquele papel de “palhaço da turma” que ele personifica desde o início dos tempos. Pelo menos dos nossos tempos. -, preciso que você pare de palhaçada, preste atenção no que eu vou te perguntar e responda o mais honestamente que puder. Acha que consegue fazer isso pelo menos uma vez na vida?

- Cara... – Riu com escárnio.

- Aoi!

- Tá, tá, calma! Eu posso, eu posso. Desembucha.

- Por que diabos você nunca me contou que Ruki gosta de mim? – Houve uma pequena pausa, e durante ela, o rosto dele mudou de sério para confuso e logo depois, zombeteiro. E então ele começou a rir da minha cara outra vez, como sempre fazia, e eu fiquei puto, muito puto. Empurrei seu corpo pra trás, soltando o aperto que fazia em seus braços, e peguei minhas coisas, indo em direção a porta.

- Calma aí, Reita. Calma – disse segurando meu braço. Ele parou de rir.

- Calma o quê, porra?! Você acha que eu tô brincando, todo mundo acha!

- É impossível não achar, mano. Você... Ah, Reita, você... – Ele abriu a boca e fechou várias vezes, conseguindo construir uma sentença nova apenas na quinta tentativa. – Não falei porque pra mim era óbvio que você sabia.

- Sim, e você achou o quê? Pensou como todos os outros? Que eu estava ignorando ele? Você sabe que eu nunca faria isso. Merda, você é o cara pra quem eu conto tudo. Merda, merda!

Minha visão ficou turva de raiva e eu chutei a quina da mesa de vidro. Senti todas as pequenas terminações nervosas do meu pé doerem furiosamente, e então minha visão ficou mais turva ainda, só que agora por causa da dor. Joguei a mochila longe e cambaleei, suprimindo um grito doloroso que se projetava da minha garganta para fora da boca. Aoi me olhou com pena, engolindo a nova risada que tentou se formar depois de me ver chutar com força o móvel e me foder. Esticou a mão para me ajudar a levantar, mas eu neguei.

Ele sentou no sofá a minha frente e aguardou até que eu voltasse ao normal para então dizer:

- Olha, pensei que essa era sua maneira de lidar. Já tava todo mundo nervoso com a situação, e eu pensei que essa era sua forma de não tornar as coisas piores. A galera me perguntava o que eu achava e eu...

- Você o quê? – interrompi. – O que você dizia?

- Ué, que você não era gay, vivia pegando mulher. Não era gay, mas também gosta muito do Ruki e não queria magoar ele.

Estalei a língua dentro da boca sentindo uma frustração imensa: eu não conseguia voltar atrás e resolver nada, nem mesmo essas coisas que ele disse e que provavelmente foram mal interpretadas por Ruki. Apoiei a cabeça nos joelhos e apertei o pé direito que latejava. Comecei a imaginar as vezes em que esse tipo de coisa era dita e chegava aos ouvidos dele, sua cara de decepção cada vez que algo assim era oferecido como resposta para “Por que Reita não diz nada?”.

 

Por quê? Por que ele não me ama, ou pelo menos não me dá uma resposta?

 

Porque ele não é gay. Reita é o maior mulherengo do mundo. Ele sai com todas. Ontem mesmo, saiu com uma ruiva maravilhosa do bar...

Mas ele gosta muito de você, Ruki, só que gosta como amigo.

Como era o nome daquela gata? Amélie, algo assim. Era Amélie,

Nunca te magoaria, entende?

Genevive,

Susen,

Ele nunca faria algum assim com você. Algo como...

aquele beijo, uau

Te magoar.

não, Susan, isso mesmo. Essa outra foi na QUINTA.

 

Minha cabeça começou a ferver. Os olhos arderam como se eu fosse chorar, não de raiva, mas de tristeza, uma daquelas bem profundas. Pensei em quantas vezes seu coração ficou partido pela minha falta, por sua imaginação e por esse tipo de comentário. Será que eu mesmo não teria dito algo assim, insensível? Será que não disse muitos “algo assim”?

- Reita...

- Vai se foder – respondi com a voz abafada e o rosto escondido entre os braços.

- Reita! Olha aqui, velho. Você queria que eu falasse sério, então olha pra mim porque isso só vai acontecer uma vez na sua vida.

Olhei para ele devagar, pensando que fosse encontrar aquele sorriso debochado, outra brincadeira idiota e inoportuna sendo bolada naquela mentezinha mirabolante, e, no entanto, encontrei apenas o rosto duro de Aoi me encarando.

- Fiz alguma besteira em dizer o que eu disse?

- Mas é claro que sim!

- E por quê? Você é gay por acaso?

- Não, eu... – Ele me olhou, como que se pedindo pra eu continuar. – Não sei, cara.

- Você não sabe? Então quer dizer que você se sente atraído por ele?

- Não, também não é isso.

- Não existe meio termo pra isso, não dá pra gostar mais ou menos. –Ele largou os dois braços sobre as pernas abertas e me encarou sério, o mais sério do que eu jamais vira e veria de novo em minha vida.

- Eu não sei, tá bom? Pelo menos nunca tinha parado pra refletir sobre isso. Não desse jeito.

- E de que jeito então?

De que jeito? De que jeito eu gosto de Ruki? Bom, eu o amo. Só que eu nunca pensei que teria que descrever isso pra alguém porque o amor que sinto por ele é tão simples, mas tão complexo ao mesmo tempo, que eu não sei enquadrar em nada que eu conheça. É quase como uma idolatria, e também como se isso fosse natural a mim durante a vida toda. Nunca precisei pensar sobre amar ele, apenas amá-lo.

- Eu amo Ruki. Ele é uma daquelas coisas essenciais na minha vida, uma daquelas que surgem, se encaixam e vão se enraizando de forma que você não percebe e quando vê, está feito. Boom. Mas eu nunca pensei nele assim, como homem. Eu nunca pensei em nenhum homem como “homem”, da forma que eu penso em uma mulher como “mulher”, porque nunca achei ter me interessado por nenhum. Só que eu nunca pensei em Ruki como um homem ou mulher, assim como você pensa quando está com alguém, seja amigo ou não. Sabe, “ah, fulano é um cara assim, assim, assado”, “ciclana é desse jeito”.

- Então como você vê ele?

- Acho que simplesmente o enxergo como uma energia, uma força pulsante, o enxergo como pessoa, não como gênero. Ele é como uma figura que você respeita, convive, pega apreço e passa a amar, e quando se dá conta, estaria disposto a dar sua própria vida pra cuidar e proteger. Eu faria isso por ele, com certeza. Faria, sem pensar duas vezes.

Suspirei. Colocar aquilo em palavras era cansativo, só que também era esclarecedor de alguma forma. Tem coisas que a gente nunca para pra pensar, assuntos sobre os quais não refletimos, coisas que não resolvemos dentro de nós, que nem sabemos que existiam. É esse tipo de coisa que acaba nos apavorando quando surge, porque são informações com as quais não costumamos trabalhar.

- Eu... Eu vi ele hoje. Pela primeira vez, depois de todos esses anos, me senti um moleque de novo. Minhas pernas tremiam, Aoi. A droga das minhas pernas bambas de 36 anos tremiam. – Ele me olhou com aquela cara de pena que eu já estava cansado de receber hoje, mas igualmente cansado para tentar rebater. – Vou resolver isso hoje.

- Como assim? – Aoi perguntou visivelmente alarmado agora.

- Vamos jantar juntos, e então vou falar com ele. Vamos resolver. – Levantei, bati as mãos na parte de trás da calça pra tirar a sujeira e juntei minha mochila de novo. Ele parou na minha frente, urgente.

- Espera. Olha, me desculpa cara, mas eu não acho que isso seja uma boa ideia.

- Ora, por quê? Quando eu finalmente posso resolver, você acha ruim? Acha que vou ficar esperando mais algum minuto sem fazer nada? Sabendo que ele está sofrendo? Pode esquecer. – Ele segurou meu braço. – Larga, Aoi. Anda.

- Eu sei que você tá surtado com essa história e só porque estou vendo com meus próprios olhos, porque se alguém me contasse eu não acreditaria. Só que pelo que vi até agora você não tem certeza de porra nenhuma. É, isso mesmo, não sabe se gosta ou não gosta, então pensa comigo: como você acha que vai ficar a cabeça do Ruki quando você chegar pra ele e dizer “Então, sei que você gosta de mim, descobri hoje ainda, quase agorinha. Mas eu ainda tenho que pensar sobre isso, okay? Fica de molho mais um tempo no meio das suas medicações”.

E ele tinha razão.

Eu estava prestes a despertar um assunto entre nós dois que estava tecnicamente “morto”. Falar sobre isso com ele sem ter uma resposta seria como torturá-lo mais ainda. Eu ia fazer ele sofrer mais – e de novo – sobre algo que ele estava tentando superar. Precisava pensar, pensar. Agir por impulso não ia resolver nada.

- Não o machuque mais. Ele já tem sofrido um bocado nesses últimos anos, então se é pra falar sobre isso, que seja quando você tiver algo pra dar a ele, mesmo que seja um não oficial.

Aoi caminhou comigo até a entrada da PS Company. Me ofereceu uma carona, e eu aceitei. Dirigir seria ótimo para esfriar a cabeça, deixar os pensamentos se organizarem direito dentro do meu cérebro antes de eu ter que trabalhar com eles, mas meu espírito pedia por alívio, que eu parasse um pouco de racionalizar, e estar com meu amigo pareceu uma boa forma de “deixar um pouco pra lá”, mesmo que eu não tivesse esse direito.

Desembarquei do veículo e agradeci, e aquele agradecimento era muito mais pela ajuda emocional do que pela carona em si. Antes de entrar em casa – porque mesmo que “fosse mais seguro pra um cara conhecido como você, Reita, morar em um apê”, eu preferia ter um espaço relativamente extenso de verde para acomodar Mecha, meu boxer -, Aoi perguntou:

- Hey, você chegou a falar com Kai sobre isso?

- Não, por quê? – Pensando bem, ele é o único da banda com quem não falei.

- Não vai me surpreender se você não souber disso, até porque você não sabia a coisa mais óbvia, mas – Ele pareceu pensar sobre a melhor maneira de me dar aquela informação e acabou desistindo depois de uns 10 segundos, antes que eu o pedisse “delicadamente” pra continuar. – Eles estão saindo.

- Eles quem?

- Porra, Akira, Ruki e Kai.

Eu não soube muito bem como responder aquela informação e fiquei com a boca semi aberta, o encarando como um retardado. Como assim saindo? O que exatamente queria dizer “sair”? Sair de casa, do estúdio, de uma aula de tênis, de uma partida de boliche?

- Como você consegue ser tão tapado, cara? Isso é inacreditável. Saindo, tipo, amorosamente, sexualme...

- Pode parar! Para para para! Eu entendi.

- Eles não namoram, entendem? Mas desde que Ruki percebeu que você não ia sair da moita mesmo, embora continuasse ocupando, Kai resolveu oferecer a solidariedade dele, se é que você consegue me entender dessa vez.

- Vai se foder. – Mostrei o dedo do meio em resposta.

- Bem, eu vou hoje de noite. Até convidaria você, não pra foder comigo, é claro, mas acho que o garanhão aí não parece muito disposto. – Ele soprou um beijo na minha direção e colocou o capacete. Ligou a moto e disse: - Não faz besteira, por favor.

Observei a fachada da minha casa antes de entrar. Todo mundo insistiu que eu deveria ter colocado grade aqui por segurança

Todo mundo sabe que você é famoso, e se alguém entrar aqui?

depois que insisti na ideia da casa, só que eu não queria. Se eu não podia ter o que eu quisesse com o dinheiro que conquistei, que graça tinha ficar rico, de qualquer forma? O meu plano, na verdade, era uma casa com aquelas cercas baixas e brancas pra poder tomar café e ver a rua da varando da minha casa. Mas como a insistência foi grande, e eu já não tinha escolhido a droga do apartamento – quem gosta de morar em uma caixa de concreto daquelas? -, resolvi pedir que colocassem uma cerca viva. Ela era menor do que me foi orientado,

Por segurança

mas pelo menos aquietou um pouco os ânimos. Eu ainda conseguia ver um pouco a movimentação da rua enquanto tomava meu café com Mecha na sacada, e o portão não era pequeno e charmoso como eu tinha imaginado, mas continuava sendo de madeira branca.

O destravei com a chave e entrei, sendo recebido pelo meu cachorro com saudades. E não tem sentimento mais caloroso do que ser recebido assim ao chegar em casa. Enquanto o acariciava, e ele babava na minha mão inteira, fiquei pensando em como Ruki d e t e s t a v a quando Mecha deixava sua trilha de baba nele e como ele saía reclamando do pátio para dentro da minha casa.

Parecia fazer tanto tempo desde a última vez...

- Eu sei, carinha, também estou com saudades de ver ele por aqui. – Beijei sua testa. Seus olhos estavam magoados, provavelmente porque eu tinha demorado muito pra voltar dessa vez. Ou talvez ele apenas quisesse comida, e eu sou o único que está vendo mágoa em todos os lugares.

“Tá tudo errado”, pensei. Essa falta que ele me faz está errada; a falta dele aqui também está errada; essa impotência que sinto é errada; o tempo que demorei pra perceber tudo é errado; a falta que acabei de perceber que fiz pra ele... Kai e ele,

Está muito, muito, muitíssimo e absolutamente errado.

parece errado também.

O que diabos eu tinha feito nos últimos 5 anos?

Não, isso não importava. Pouco importava agora.

O que eu iria fazer a partir de agora?

 

XX

 

Um garçom corria de um lado para outro tentando dar conta da quantidade de pessoas que estavam dentro do restaurante naquele dia. Era gente demais, tinha que admitir, mas estava mais concentrado na movimentação dele, que driblava as mesas com destreza e equilibrava a bandeja com um charme muito peculiar.

Ele foi até uma família que parecia muito animada naquela manhã em particular. Eles demoraram cerca de 10 minutos para liberar o homem por completo, mas antes disso o fizeram rir, conversaram, e o bebê, que estava no colo da moça mais jovem da mesa – deveria ter 25, no máximo – agarrou o avental dele, fazendo um sorriso se abrir. Ah, sim, era aquilo que ele estava esperando.

O sorriso é igual ao de Akira.

O próximo pedido era o seu. O garçom olhou-o com carinho, reconhecendo Ruki de outras vindas, e perguntou “O que vai ser hoje?” em um tom delicado, como de costume. Ruki quis responder “qualquer coisa” quando ele sorriu de novo, agora exclusivamente para si, somente para si, mas achou que seria demais devido a companhia que trazia junto.

- O de sempre, querido.

Depois disso, Kai pediu alguma coisa envolvendo peixe, mas Ruki não prestou muita atenção, pois estava muito concentrado nos gestos e na movimentação que o rosto do outro fazia enquanto ele simplesmente existia. “Seria ótimo me apaixonar por alguém como você. Seria fácil”, pensou. Seria....

- Ruki? – Os dedos de Kai estalaram na frente do seu rosto, e ele despertou daquele devaneio, assistindo o garçom já distante entrando pela porta que levava à cozinha.

- Sim?

- Você está distraído hoje. – Kai prendeu o cabelo, que se estendia até os ombros, meio liso, meio ondulado, em um rabo de cavalo. – Você ia dizendo que...?

O que ele estava falando antes mesmo? Não tinha certeza do que se tratava. Sabia que era algo que o levou a prestar atenção no garçom, alguma informação nova... Algo que mexeu com seu dia, na verdade. O que era mesmo?

Ah, sim...

- Falei com Akira hoje de manhã. Ele estava estranho.

- Ele é estranho.

- Não, ele estava muito mais do que o normal. Ele estava...

prestando atenção

...atento, entende?

Kai ponderou se continuaria a falar sobre aquilo porque sabia qual rumo a conversa tomaria. Sabia também como Ruki ficava sensível com aquele tipo de assunto – mais sensível do que o normal – e pensou que seria melhor desconversar. Não resistiu, no entanto, à tentação de lhe fazer uma pergunta.

- Conversaram sobre o quê?

- Nem me lembro. Não importa, na verdade. – Ruki ensaiou um sorriso que mal permaneceu nos lábios. Depois continuou: - Mas você disse que queria falar comigo. O que era?

- Ah, sim. Quer viajar hoje? Espairecer a cabeça? Podemos pegar o carro e dirigir até cansar e depois podemos parar e acampar.

- Me desculpe, acho que hoje não. Estou precisado de um tempo sozinho. – Ruki levantou os olhos, que até então mediam a aparência de suas próprias mãos em cima da mesa, para descobrir a reação da sua companhia. - Espero que não se importe.

- Não, claro que não. Sabe que esse é o nosso combinado: quando você não quiser, como você quiser. Não se sinta obrigado.

Ruki sorriu de novo, um pouco mais convincente dessa vez. Os dois mentiam o tempo todo um para o outro, e sabiam que a relação deles estava construída sobre esses frágeis alicerces. Abraçaram isso desde o início, estavam conscientes, mas ainda assim isso incomodava de alguma forma. Enquanto Ruki o olhava e pensava em como era injusto aquele homem bonito estar esperando por ele, mesmo que, naquela noite, ele fosse trocá-lo apenas pela simples esperança de se sentir vivo vendo Akira, Kai desconfiou que estivesse sendo substituído. Ele não ocupava nenhum espaço permanente na vida romântica de Ruki e, no entanto, não conseguia deixar de ficar amargurado por pensar que ele ainda esperava pelo outro, mesmo depois de tudo.

Pagaram a conta e foram embora.

 

XX

 

Ruki esperava do lado de dentro do carro, os dedos batendo impacientes na lataria que seu braço estirado pela janela conseguia alcançar. Ele não quis descer porque pensou que chegar perto demais daquela casa poderia trazer mais lembranças do que gostaria – e já era perto demais, na verdade.

Eram nove horas em ponto.

Ele pegou o telefone e deslizou os dedos sobre a lista de contatos, hesitando por um instante em cima do número em que se lia “Akira”, antes de clicar e ouvir o barulho característico da ligação. Demorou um pouco para que o outro atendesse. O que estaria fazendo? Será que ainda não estava pronto? Ou de repente esquecera de alguma coisa, como passar perfume, por exemplo? Ele nunca saía sem, Ruki sabia.

- E então, vai ficar se arrumando mais ou podemos sair?

- Ah, Ruki! – A voz de Reita saiu mais surpresa do que pretendia devido ao tom brincalhão que ouviu do outro lado da linha. Ele não sabia muito bem como dizer o que diria a seguir, e pensou em desistir e simplesmente mandar que Ruki entrasse e o esperasse ficar pronto, porque tinha se atrapalhado com alguma coisa e se atrasado. Agora ele olhava para sua própria figura no espelho e achou que aquela desculpa poderia funcionar, talvez Ruki nem mesmo percebesse, mas então as palavras de Aoi ecoaram em sua cabeça de novo, fazendo-o desistir. – Olha, me desculpe, certo? Juro que vou compensar você.

- Você vai furar?

- Eu tô com uma puta dor de barriga. Simplesmente não consigo sair.

- Ah, okay. Quer que... – Ruki temeu estar se expondo demais, mas seu instinto disse que alguma coisa seria diferente e que poderia arriscar. Quem sabe dessa vez... – Quer que eu entre? Posso fazer companhia pra você.

Do outro lado da linha, Reita prendeu a respiração: ele não esperava por aquilo. Sua boca foi quase mais rápida do que sua capacidade de raciocinar e um “sim”, alto e claro, se formou dentro da sua boca mais depressa do que uma explosão depois do acionamento de uma bomba. Quis dizer que sim mais do que tudo na sua vida, quis dizer um grande sim, mas sabia que qualquer contato o amoleceria, e isso não podia acontecer. Ele precisava ser racional agora, pelo bem de Ruki.

- Acho melhor eu não te prender aqui comigo, ainda mais com essa minha, digamos, condição – disse limpando a garganta e rindo, sem graça.

Dentro do carro, Ruki se sentiu decepcionado e aliviado ao mesmo tempo. Queria muito poder ter a chance de conversar com Reita a sós, fora dos estúdios como faziam antigamente, mas não sabia se saberia se comportar normalmente perto dele.

Depois que se despediram, e o telefone foi desligado com a promessa de saírem outro dia, Ruki permaneceu em frente àquela casa cheia de lembranças sem conseguir dar partida no carro. Dentro da casa, Reita apoiava os braços e a cabeça no espelho, praguejando por ter tido que mandá-lo embora e por ter a mais absoluta certeza de que aquilo apenas o magoara mais. Sentiu culpa, quis voltar atrás e se amaldiçoou outra vez por isso.

O curioso, no entanto, é que a vida prega peças na gente, não é mesmo?

O que poderia ter acontecido, por exemplo, se Reita tivesse deixado Ruki entrar? Talvez eles apenas conversassem e saíssem de casa, iriam até algum restaurante ou bar... Ou talvez eles não conseguissem deixar a casa e se descobrissem absolutamente apaixonados, como de fato estavam.

Mas a vida prega peças.

Enquanto esperava mais alguns instantes para se acalmar, Ruki viu uma mulher loira se aproximar do portão da casa de Akira. Ela apertou o botão da campainha, que ficava do lado de fora, meio escondido pelas cercas vivas, o que indicava que ela já frequentava aquele lugar, pois achou o botão muito mais rápido do que um simples visitante acharia.  E esperou, e esperou, e esperou. Depois de praticamente enterrar o dedo no botão, a menina sacou o celular da bolsa e começou a discar furiosamente. Não dava pra ouvir o que ela disse, mas dava pra saber que a conversa não estava sendo nada agradável pela expressão que ela tinha no rosto.

Ruki abriu a janela do carro apenas um pouco do lado do passageiro, se inclinando para ouvir, e percebeu que ela estava gritando, mas não entendeu nada do que ela dissera porque logo o telefone foi jogado para dentro da bolsa novamente. Como se já estivesse preparada para aquela possibilidade, ela dobrou a barra da calça até quase abaixo dos joelhos e prendeu o cabelo platinado em um coque desajeitado. E então ela começou a escalar a cerca viva – que não era tão alta assim, como já sabemos – e, embora sua pele já estivesse visivelmente machucada pelos primeiros arranhões, ela continuou.

Se preparando para sair do carro e chamar a polícia, Ruki abriu a porta do motorista e saiu do veículo. Quando Reita abriu a porta de casa e gritou assustado, provavelmente por ter visto a garota ensanguentada no pé da sua porta, ele não conseguiu enxergar o amigo, que ficara escondido devido ao tamanho do carro, mas foi visto, bem e saudável, ao colocar a mulher estranha para dentro de casa e sumir por entre os cômodos.

Do lado de fora, o corpo pequeno permaneceu em pé atrás do carro enquanto seu dono digeria aquela cena - e a mensagem que ela transmitia.

Mais tarde, quando estivava com a janela bem aberta para que o vento lavasse o rosto vermelho e inchado, enquanto limpava com raiva as lágrimas que escorriam pelo canto do olho, enquanto gritava entristecido pelo trânsito e pela vida, ele se perguntou como poderia ter sido tão idiota outra vez.

É, a vida prega peças, não é mesmo?

 

XX

 

Kai bateu na porta várias vezes até ser atendido.

Olhou pra figura pequena estagnada em frente à porta, mirrada, deplorável, sentimental. Deu-lhe um beijo na testa e entrou.

A sala estava uma bagunça, cheia de lixo espalhado, folhas com letras indecifráveis, bitucas de cigarro, um cobertor vermelho estirado e garrafas de bebida, que era o que ele temia e previa ao mesmo tempo.

Ruki ficou sentado no sofá, aguardando ele, que foi primeiro ao seu quarto para verificar o que já tinha certeza: os remédios estavam todos ali, e cheios.

- O que houve? – Se sentou no sofá de frente para o outro, que estava encolhido e olhando pela paisagem através da janela. – Pensei que tínhamos um combinado sobre isso aqui tudo - completou, gesticulando para as garrafas diversas de whisky.

- Nós ainda temos. Foi só uma recaída. – Suspirou.

- Temos?

- Claro que sim – E Ruki finalmente olhou para ele, magoado.  -, só tive um dia muito ruim.

- Como foi que seu dia conseguiu ficar tão péssimo assim? – Ambos se olhavam, e Ruki torcia para que aquilo fosse uma pergunta retórica. – Hey – Kai trocou de sofá e sentou ao se lado, segurando seu queixo e pedindo que ele lhe respondesse.

- Eu só... Eu achei que fosse ser diferente dessa vez. Eu senti que era, entende? Senti que dessa vez ele ia acabar com a ânsia. Eu vi os olhos dele, Kai. Ele sabia do que estávamos falando dessa vez. Ele sabe do que sinto por ele, e eu apenas achei que finalmente fosse receber uma resposta.

Kai estava cansado. Estava definitivamente cansado por perceber que Ruki, mesmo depois de todas as tentativas e falhas, continuava acreditando que Akira simplesmente não tinha percebido seus sentimentos ainda. Ele achava que era um mal entendido, o que, de fato, estava correto, mas todos os outros conseguiam sentir apenas pena ao vê-lo tentando de novo, e de novo, e de novo.

Só que ele nunca diria isso. Não diria porque eles tinham um trato. Não diria porque não queria chateá-lo ainda mais. Não diria porque provavelmente o afastaria mais da realidade. Mas principalmente, não diria porque o queria de verdade, e falar o quanto ele estava sendo estúpido por acreditar em toda aquela merda outra vez apenas estragaria a máscara de bom samaritano que Kai vinha construindo nos últimos tempos.

Ele também não é uma má pessoa. Apenas está cansado. Muito, muito cansado.

Kai segurou as duas mãos de Ruki, chamando sua atenção.

- Você precisa tomar os seus remédios, meu bem. Lembra como foi da última vez que tentou parar?

Foi feio, muito feio. Isso é tudo que você precisa saber.

- Você me acha idiota, não?

- É claro que não.

- Eu sei que acha. E sei que nunca vai admitir.

De alguma forma, Ruki sentia no ar que alguma coisa estava diferente dessa vez. No início, ele pensou que fosse coisa da sua cabeça - como todos já o tinham feito acreditar -, mas quando eles estavam juntos, quando dividiram aquele cigarro, e quando Reita lhe tocou, ele sentiu uma corrente penetrar sua pele e se espalhar por cada canto do seu corpo em uma velocidade extraordinária.

Muito mais fácil do que o remédio, inclusive.

Ninguém ia acreditar, é claro.

 

É só a imaginação dele trabalhando de novo.

Meu deus, será que ele não vai desistir?

 

- Menti pra você.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...