História O Olho de Jade - Capítulo 35


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
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Palavras 1.903
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Misticismo, Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 35 - Eve


O barulho da fonte que ficava atrás da casa era tranquilizante e tentava transportar Eve para as memórias de sua infância. Ela se forçou a encarar a mãe, não iria desviar o olhar, não iria demonstrar fraqueza. Queria deixar claro que suas ações não tinham sido deslizes de uma criança, mas escolhas de uma mulher.

— Não vejo motivos para estarmos aqui, quais segredos você poderia ter que seu pai não deve ouvir? — Eve havia insistido que as duas saíssem da casa e fossem para os jardins, abandonando Elias, Liam e Shae na sala. — Se bem que, nem a reconheço mais, deve estar cheia de segredos.

— Essa foi uma escolha sua.

— Que escolha?

— De me afastar, quando eu ainda era uma criança. Caso contrário nada disso teria acontecido e você me conheceria tão bem quanto a qualquer um de seus filhos.

— Você nunca entendeu o motivo de tudo isso, não é? — A voz de Charlotte era um misto de irritação e cansaço.

— Você nunca me deu um motivo! Mas também, qual pode ser a razão para uma mulher abandonar a própria filha, ainda uma criança, em um templo para servir à uma divindade?

— Não foi abandono. — As palavras foram ditas com intensidade.

Ela não parecia querer dizer mais nada sobre o assunto, mas Eve forçou.

— Não? Não diga besteira, pode não ter significado nada para você, mas aquilo acabou com a minha vida. Eu não estaria nessa situação se não fosse por você! — A emoção saia a cada palavra dita. Ela não queria, não iria se conter. A maior ferida de sua vida estava sendo novamente aberta e ela não iria deixar fechar novamente até colocar tudo para fora. — Passei toda a minha infância tendo visões horríveis, vendo pessoas morrendo, tendo medo de dormir para não ter pesadelos e de ficar acordada para não ver o futuro. Eu não fui atormentada e privada de várias coisas para você me dizer agora que não foi abandono!

— Não grite comigo — a mulher trovejou. — Você acha que eu queria abandoná-la? Abandonar o meu lindo bebezinho? Depois de tanto tempo eu finalmente estava feliz, eu finalmente tinha conseguido uma menina. E eu tive que abrir mão de toda essa felicidade por que se eu não tivesse feito isso, você nem ao menos estaria viva hoje! Você realmente acha que é abandono quando uma mãe faz isso para salvar seus filhos?

As duas soluçavam, sendo atingidas uma pela palavra da outra. Eve limpou as lágrimas e decidiu que era melhor seguir até o fim.

— Para mim foi. Por que não houve explicação, não houve palavra de consolo. Eu não precisava de você, entende? Você nunca esteve ali, nunca demonstrou essa felicidade a qual se refere agora. Mas eu precisava do meu pai, dos meus irmãos, eu não queria que você tivesse tirado isso de mim. Não posso perdoá-la por isso.

— Eve, você foi a maior alegria da vida de seu pai e poderia ter sido a da minha também, mas algo aconteceu, algo relacionado a um de seus irmãos.

— Liam?

Ela assentiu com a cabeça. Finalmente, Eve sentou-se no chão, pronta para escutar a explicação que esperara sua vida inteira.

— Quando Liam tinha apenas um ano, foi acometido por uma grave doença. Ele mal conseguia comer ou beber, passava dias com febre e vomitando. Eu via a vida de seu irmão se esvair diante de mim, ninguém sabia o que ele tinha, nenhum remédio podia curá-lo. Imagine abraçar o seu filho e só sentir seus ossos. Eu não conseguia mais suportar aquilo, então, numa noite, eu sai de casa e carreguei Liam junto comigo.

“Eu ouvira falar de um feiticeiro na cidade. Diziam que ele podia curar tudo, e ele realmente podia, desde que se pagasse um preço. Naquela noite eu não imaginava que o preço seria tão alto. Quando eu encontrei o homem e ele aceitou tirar o mal que sugava a vida de Liam, eu não pensei duas vezes em aceitar. Veja, eu estava desesperada e ele não pedia muito: caso eu tivesse uma filha, deveria entregá-la para ele e ele a tornaria sua esposa. Para mim era um preço baixo por que eu já tinha três filhos e não pretendia ter nenhum outro, se tudo ocorresse como eu imaginava eu teria meu filho curado e não pagaria nada por isso.

“Mas não foi assim que as coisas aconteceram, cinco anos depois você nasceu. Enquanto eu estava grávida de você eu ouvi coisas terríveis sobre o feiticeiro: ele já tivera diversas esposas e em sua noite de núpcias ele sempre as matava e devorava, ele acreditava que consumindo suas almas viveria para sempre. Eu imaginava se ele ainda se lembrava de nosso acordo, para me tranquilizar eu pensava que talvez ele poderia ter esquecido, mas nos meses próximos ao seu nascimento eu comecei a ver vultos rondando nossa casa, eu sabia que era ele.

“Eu não podia deixar isso acontecer com você, então rezei para as deusas e, numa manhã ensolarada, encontrei uma senhora que havia visto potencial no ser dentro de minha barriga, ela me garantiu que, como eu temia, era uma menina e que ela tinha chances de ser aceita por Cersey. Foi aí que tomei minha decisão, no templo você seria intocável. Seu pai não queria aceitar, mas eu contei a história e consegui convencê-lo. Quando você foi escolhida para servir Cersey o feiticeiro apareceu para mim, ele confirmou que seria obrigado a ficar afastado, mas se caso você, por algum motivo, retornasse para essa casa, seria dele. Entende por que quero afastá-la? Por que não posso permitir que fique aqui? Eu nunca contei isso por que não queria que sentisse raiva de seu irmão ou me julgasse pelos meus erros, mas, Eve, eu sempre, sempre, te amei e quis que permanecesse comigo.”

Eve não sabia como responder a tudo aquilo, apenas uma pergunta possível escapou de seus lábios, em um fio de voz.

— Mas tinha que ser tão fria esse tempo todo?

— Não queria me apegar a você ou fazê-la gostar de mim se iria aban... — Ela pensou melhor. — Se a entregaria para Cersey depois.

Ela ignorou que a mãe quase havia admitido que a abandonara, naquele momento não era isso que importava mais.

— Meu pai...

— Seu pai — a mulher interrompeu — e eu sempre tivemos visões diferentes das coisas, ele queria aproveitar ao máximo o tempo com você. Eu o invejo por isso, gostaria de ter tomado essa decisão naquela época.

— Se você pudesse voltar no tempo, ainda me entregaria no lugar de Liam?

— Sinto muito, sei o que quer ouvir, mas eu não mudaria nada. Graças ao que fiz, todos os meus filhos estão vivos.

Eve assentiu e deixou a mãe sozinha no jardim. Ela tinha muito o que pensar, mas sabia que logo teria que continuar a conversa.

 

[...]

 

Eve ignorou as batidas na porta novamente, Shae estava insistindo cada vez mais, mas ela não queria ver ninguém.

— Abra a porta, Eve — a menina gritou mais uma vez.

Ela ouviu um cochicho atrás da porta e passos se afastando. Houve uma nova batida, diferente das anteriores, mais delicada e, dessa vez, foi a voz de Liam quem falou.

— Irmã, abra, por favor.

Se ela já não tinha vontade de ver Shae, só a possibilidade de olhar para Liam a abalava. No fim, acabou cedendo, girou a chave e deixou que o irmão entrasse no quarto.

 — Eu não sei o quanto você sabe dessa história, mas eu... — Antes que pudesse terminar, foi surpreendida por um abraço. Sufocada na camisa do rapaz, ela começou a chorar.

Não era culpa de Liam. Não era culpa de sua mãe. Não era sua culpa.

Quem não faria o mesmo no lugar de Charlotte? Ela não podia afirmar se ela mesma não o faria.

Ainda que aceitasse isso, não podia evitar que a magoa se instaurasse dentro dela. Por anos ela havia sonhado com o dia em que a mãe a buscaria no templo e explicaria o porquê de tudo aquilo. Em sua imaginação tudo acontecera por amor e era muito fácil perdoar.

Mas na realidade, também não o fora? Sua mãe havia feito o acordo com o feiticeiro por amor a Liam e a havia deixado no templo por que a amava também.

Ainda assim, algumas coisas a machucavam.

Sinto muito, sei o que quer ouvir, mas eu não mudaria nada.

As últimas palavras tinham sido as piores. Saber que a mãe a jogaria nesse destino cruel de novo, acabava com ela. Mas o que ela poderia esperar? Que ela escolhesse que seu filho padecesse pela doença? No fim das contas, bem ou mal, ela tinha conseguido que os dois sobrevivessem.

— Não chore. — A voz de Liam a despertou de seus pensamentos. Eve ergueu os olhos e ele secou uma lágrima em seu rosto.  — Eu nunca tinha entendido o porquê de você ter ido para o templo. Bem, agora eu entendi. Me desculpe, de certa forma, a culpa foi minha.

Ela balançou a cabeça.

— Não, não foi. Não houve culpado nessa história. Eu só queria que alguém tivesse me contado.

— Eu também. — Ele suspirou. — E agora?

— Eu não sei, Liam. As coisas estão complicadas.

— Quão complicadas?

— Muito. — Ela se afastou e fechou a porta. Passou a sussurrar. — Eu e Shae fomos presas.

Ele apenas concordou com a cabeça, não disse nada.

— Não posso explicar como nem o porquê, mas aconteceu e nós fugimos. Segundo a mãe, não posso ficar aqui. Não sei se Shae ainda vai me querer por perto, mas se ela me chamar, eu voltarei com ela para o Primeiro Reino. Independente disso, espero ir embora amanhã.

— Já? — Ele escutava atentamente tudo o que ela dizia. — Você nem chegou a ver Mason e Casen, ambos estão casados. Mason já tem até filhos.

— Sim, sinto muito por não poder ficar mais tempo com você. E sobre Mason e Casen, por mais que eu sinta saudades, não sei se é seguro procurá-los. Não acho que as pessoas esqueceram o que eu fiz.

— Também não acho. — Seu rosto se abriu num sorriso. — Posso trazê-los aqui, o que acha?

Por um momento ela pensou em recusar, mas então se lembrou de quem era e do que aconteceria em seu futuro, provavelmente não teria outra chance.

— Acho ótimo. Além de Mason e Casen, poderia trazer outra pessoa?

— Quem?

Eve explicou a Liam sobre Kaylan. Por mais que a história dos dois tivesse acabado, ele ainda era importante para ela e não queria enlouquecer sem dizer um último adeus.

—  Eu o procurarei — Liam garantiu.

— Liam... — Ela chamou quando o silêncio ficou constrangedor. —  Você sabe o que acontece com aqueles que traem Cersey, não sabe? — Ele assentiu. — E, como eu disse, não posso voltar para casa. Então, você entende que essa é a última vez que irei vê-lo? Que irei ver todos vocês?

— Eu entendo. — Ele a abraçou novamente. — E espero que você saiba que eu te amo e não só eu, todos amamos você, independente de não te ver, independente de como você estiver ou o que estiver fazendo.

Ela o abraçou mais forte. Liam se afastou e saiu do quarto, mas voltou um minuto depois.

— Aquela garota... Shae... Você confia nela?

— Confio — ela disse com convicção, pois realmente confiava.

— Há algo entre vocês?

— Não.

— Mas...

— Sim, Liam, eu gosto dela, mas como eu disse, não há nada.

— Eu só...

— Não se preocupe. Eu estou bem. — Ela sorriu, mas naquele momento, sorrir era tudo o que ela não queria fazer.


Notas Finais


Depois do esclarecimento do passado de Eve eu tenho que confessar que a história já está encaminhando para o final (e eu nem tinha percebido isso).
Mesmo assim ainda tem muita coisa para acontecer.
Espero que estejam gostando da história até aqui!
Bjs <3


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