História O ônibus da meia-noite e cinco - Capítulo 1


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Personagens Personagens Originais
Tags One-shot
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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ficção, Mistério, Misticismo, Sci-Fi, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Sentando-me à janela, ajeito minha pasta e busco, em meu pulso, o horário. Já se passam cinco minutos da meia-noite, e este é o último ônibus do dia. Aos meus lados, assentos vazios e sujos, ansiosos por alguém que possa esquentá-los. À frente, o motorista, quieto; na falta de um cobrador, ele que me cobrou a entrada. Atrás de mim, meu encosto, e o rastro de algo que uma vez esteve naquele ponto que o veículo deixa para trás. Checo novamente o horário no meu celular: 0h10. As ruas estão desertas, frequentadas por sacolas plásticas que voam e vacilam como as diásporas secas de salsolas e os fótons que vem dos seus lampiões elétricos acima. Coloco meus fones de ouvido e dou início à reprodução do oitavo episódio do meu podcast favorito. Ouço atentamente àquela orquestra de vozes ora mansas, ora agressivas, que rebatem em meus tímpanos como se já conhecessem o caminho da minha audição.

“[…]quando há uma distorção no espaço-tempo, seja ela pequena ou extremamente significativa, ocorre uma mudança na linha do tempo daquele universo. E dizem que essa alteração acaba gerando novos universos, onde este erro pode acontecer infinitamente, enquanto em outros já é resolvido. Se você estivesse num destes universos, nunca saberia, por que sua percepção de tempo é alterada constantemente. Claro, tudo é só uma teoria…”

Saio do transe auditivo que me envolvia e olho pela janela. Nos prédios, vejo luzes se apagando, ao passo que novas se acendem. Já é mais do que uma simples escuridão noturna: a madrugada torna-se um buraco que não tem começo ou fim, no qual pouco vejo além do que me é permitido. O céu está tão lúgubre que é possível enxergar Saturno sorrindo em minha direção. O ônibus freia bruscamente. Ficamos parados por um tempo até que eu perceba que não há semáforo nos impedindo. 0h10. Vou até a frente do ônibus e pergunto ao meu condutor:

—Senhor, por que paramos? Algum problema com o motor?

—Nenhum problema, amigo. Sente-se e espere até que eu possa passar.

—Veja bem, não há nenhuma sinalização que diz para que o senhor fique aqui. Você pode atravessar!

—Olhe no asfalto, por favor.

Fico na ponta dos meus pés e vejo o que está segurando nossa passagem: um pombo. Suas penas, cinzas e indefinidas, não dão margem para que seja feita nenhuma distinção entre onde ele começa e onde termina. Misturando-se ao piche, transformou-se num elemento da rua, e que agora faz dela o que bem entender. Assim que me viro para sentar-me novamente, o rapaz do volante pisa no pedal do acelerador e quase vou de encontro ao chão. Não esboço qualquer tipo de reação: já perdi todas elas há um tempo. Já de volta ao assento, encosto minha cabeça no vidro trêmulo da carroça mecânica. As pálpebras me vencem por um instante e são acordadas com um estrondo vindo da frente.

O ônibus, agora virado em torno do seu novo centro, que está — creio eu — bem ao meu lado, recebeu uma pancada de um caminhão, mais massivo e volumoso que o meu desafortunado motorista, que deixara de conduzir a sua própria vida. Desço cambaleando, com sono e corpo pesados. No relógio, os ponteiros me estalam seus dedos: meia-noite e vinte e oito. Corro até o ponto mais próximo. Machucam-me os pés, a pasta que carrego me puxa em direção ao solo. Jogo-me no banco do ponto de parada e espero a chegada de outro ônibus, chutando as sacolas plásticas à la faroeste que cruzam caminhos com meus pés. Levanto-me e, apertando os olhos, vejo que está para chegar o meu ônibus. Com os dedos indicador e médio juntos e em riste, sinalizo ao condutor que desejo subir.

As portas se abrem. Passo-a-passo, subo seus degraus. Ele diz que o cobrador não pôde vir — deveria pagar para ele. Entrego-lhe o dinheiro e ando, me balançando nos fixos cipós daquele barco sobre rodas, até alcançar os últimos assentos, os mais solitários de todos os lugares vazios que povoam a embarcação fantasma. Abraço a janela, colocando minha pasta no lugar. Viro meu relógio e busco nos seus ponteiros o horário: meia-noite e cinco.



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