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História O Outro Lado - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Capítulo 4


 

Abaixo do castelo real de Genópila, nas masmorras, havia um pequeno salão secreto onde alguns autaques costumavam se encontrar. Naquela noite, Hiugo tentava convencer alguns de seus companheiros a seguirem ao seu lado na jornada que estava disposto a fazer.

Ali se encontravam Éfis, autaque manto vinho da guarda real; Petros, manto azul e Neemi, manto azul. Bebiam rum e comiam pão ázimo feito com trigo serpentiano.

Hiugo sabia que o número era muito pouco, mas precisava tentar. De todos os autaques, apenas quatro demonstravam se opor ao rei. Ele não encontrou confiança nos outros soldados, pois cada um era ambicioso o suficiente para alcançar seus objetivos e subir na patente real.

Salatiel que o diga, um rato a serviço do rei Morgan, e que se fosse pela sua vontade, as cabeças de todos naquela sala estariam em estacas nos portões do reino.

Mas encontrou naqueles humildes soldados corajosos a força para pelo menos tentar. Eles ainda se mostravam indecisos a seguirem a jornada. Porém, Hiugo compreendia a importância de homens fortes como eles estarem ao seu lado. E afinal, eram todos amigos.

 

- Eu sei que o que estou pedindo é muito. – Hiugo dizia aos amigos. – Sei que terão que abandonar seus lares, renunciar aos seus títulos e se auto condenar à morte. No entanto, eu não tenho mais ninguém com quem eu possa contar, e por isso peço a vossa ajuda entregando a mim mesmo. Não podemos continuar desse jeito.

 

- Conhecemos a atual situação do reino, amigo. – Éfis então se pronunciou. – Mas nós quatro não seremos o bastante para combater toda a força militar de um rei. Estamos atirando para o espaço com os olhos vendados.

 

- Sem contar que a vida pelas florestas, trilhas e lugares remotos de Crivium não é nada fácil! – Petros erguia as mãos tentando justificar seus medos. – Sabemos dos perigos que rondam esse mundo.

 

- A minha vida darei de bom grado. – Neemi levantou-se, desembainhou a espada e a pôs sobre a mesa gentilmente. Um sorriso doce e feliz surgiu nos lábios de Hiugo. – Quando eu era pequeno não tinha nada. Nem casa, família ou profissão. Você me ensinou tudo o que sei mestre Hiugo. O seguirei até os confins deste mundo.

 

- Tenham coragem! – Hiugo tentava animá-los. – Dessa vez tenho um motivo sólido para afirmar que devemos embarcar nessa jornada! E que poderemos ser bem sucedidos!  

 

Os autaques então direcionaram sua atenção a Hiugo.

 

- Hoje mesmo eu soube pelas mãos de um mensageiro confiável do rei Morgan, que uma antiga profecia que atormenta a ascendência do rei durante dois séculos  irá se cumprir ainda neste ano. A profecia fala a respeito de um guerreiro prometido que viria de uma terra distante para trazer justiça ao reino. Há pouco é mantida uma prisioneira na Torre Proibida, uma feiticeira poderosa, uma seinban, e a profecia continua com ela. Ela pode reconhecer o guerreiro!

 

- Bendito Criador...  – Éfis tremeu diante da notícia. – Se a lenda é verdadeira, e se a garota for realmente uma seinban, o rei tentará absorver os seus poderes, e não haverá força no mundo capaz de detê-lo.

 

- O que isso significa? – Petros indagou confuso.

 

- Significa que se o rei absorver os poderes da garota se tornará um imortal. – Neemi afirmou convicto. – Não podemos deixar isso acontecer.

 

- E não iremos.

 

Disse a voz de Ilí, que rompeu a sala carregando um saco preto em mãos. Ilí reverenciou Hiugo e os outros amigos autaques.

 

- Um presente de Morgan. – Disse, arremessando o saco sobre a mesa entre os outros.

 

Hiugo abriu o saco revelando seu segredo, uma cabeça decapitada. Os pobres olhos inchados, com glob escorrendo por entre os vasos e contornando as pupilas.

 

- Bendito Criador! – Petros assustou-se, remexendo-se na cadeira. – O que é isto, Ilí?

 

- É a cabeça de um feudal que o rei mandou executar agora há pouco. Ele exigiu que queimassem a sua casa e trouxessem sua esposa e filhas, duas crianças, uma de doze e outra de treze anos, para o seu deleite. Neste exato momento devem estar sendo estupradas nos aposentos reais.

 

O silêncio pairou sobre a sala, e Ilí estava decidido a prosseguir com aquela conversa pelo maior tempo possível.

 

- Se querem se esconder atrás de seus medos, eu entendo. – Dizia aos amigos. – Não irei julgá-los, mas eu seguirei este homem para onde ele for. – Apontou o dedo em direção a Hiugo. – A escolha é de vocês.

 

Éfis e Petros se olharam por um segundo, e corajosamente se levantaram. Ambos desembainharam suas espadas e as ofereceram a Hiugo.

Petros então se pronunciou.

 

- Se a garota existe há cem anos, por que então o avô de Morgan não absorveu os seus poderes?

 

- Não é tão simples quanto parece. – Ilí procurou um lugar à mesa, sentando-se ao lado de Neemi e comendo um pedaço do pão ázimo enquanto se servia com rum. – Absorver os poderes de um seinban não é nada fácil. Ele precisa ser enfraquecido, e só assim haverá a possibilidade de absorção. O seinban também precisa alcançar uma maturidade elevada, o que no caso pode levar até dois séculos.

 

- Então capturaram a garota quando ainda era criança, e estão a mantendo prisioneira na Torre Proibida por quase cem anos? – Éfis questionou pasmo.

 

- Parece que a menina veio de um continente desconhecido e distante, ainda na época do avô de Morgan. Foi encontrada em meio a destroços nas praias da Quinta Ponta por autaques reais. Estava confusa e balbuciava coisas sem sentido. Quando os autaques tentaram capturá-la ela revelou a sua magia, e como estava enfraquecida não conseguiu resistir por muito tempo, sendo levada para a Torre Proibida. Como o avô de Morgan não podia absorver seus poderes, a manteve cativa para que a próxima geração o fizesse. O avô de Morgan morreu jovem, assim como o seu filho. – Hiugo dizia. – Os seinban são profetas, conseguem ver o futuro e tem magia avançada. Como a garota está enfraquecida o suficiente para uma absorção, Morgan pretende tomar-lhe os poderes dentro de poucos meses.

 

- E como saberemos de fato se ela está enfraquecida? E caso ela saia do cativeiro, isso poderá ser revertido? – Neemi questionava bebendo um pouco de rum e comendo um pedaço do pão.

 

- São lançadas três maldições no seinban. O preparo de cada maldição leva em torno de meio século. A partir da segunda maldição a absorção dos poderes é possível, mas não garantida. – Hiugo explicava. – O pergaminho dizia que a garota está prestes a ser amaldiçoada pela terceira vez. O rei deve estar desesperado para consumar o ritual. Somente um seinban pode retirar as maldições de outro. Se isso não for feito, ela carregará as maldições pelo resto de sua existência, correndo o risco de seus poderes serem absorvidos.

 

- Isso complica as coisas. – Ilí olhou firme para os amigos ao dizer. – Temos que sair o mais rápido possível.

 

- E para onde vamos? – Petros questionava confuso.

 

Hiugo sorriu para os amigos, pôs um pergaminho sobre a mesa e o desenrolou, revelando um mapa.

 

- Para a Torre Proibida, é lá que ela está. Iremos resgatar a garota.

 

...

 

Passaram-se duas horas, mas Gum ainda não havia retornado. O estranho visitante respirava com dificuldade e perdia a consciência com frequência.

Lum sentou-se ao seu lado por um tempo, mas ele não pareceu melhorar, e começou a ficar preocupado, pois seu amigo ainda não havia retornado com a ajuda.

Abrindo o baú do quarto, retirou de lá um instrumento semelhante a uma lira e começou a dedilhar as cortas, tocando uma melodia triste e sombria.

Uma nova chuva de pedras de gelo voltou a cair. Ouvia o som das pedrinhas se chocando com os instrumentos de trabalho lá fora. A melodia triste lhe causava sonolência. Por um instante pensou que iria cochilar, mas a batida amigável na porta o despertou rapidamente.

Pôs a pequena lira dentro do baú e correu para atendê-la. Pela batida, tratava-se de um amigo. Provavelmente seria Gum retornando com a ajuda.

 

- Vocês demoraram! – Disse Lum com um sorriso animado nos lábios.

 

Ao abrir a porta apenas encontrou Ernesto, trajando uma túnica azul púrpura e olhando-o confuso.

 

- Desculpe o atraso. – Ernesto ia entrando. – Mas avisei ao seu amigo que iria demorar. Onde está o paciente?

 

- Gum não está com você? – Lum estranhou.

 

- Por óbvio não! Ele partiu antes de mim. Pelas horas já deveria estar aqui. E não está?

 

- Na verdade, não. Ele sequer deu as caras.

 

- Humm, isso é péssimo! Desaparecer assim do nada! – Ernesto alisou a grande barba branca. – O paciente, rapaz! Eu não tenho a noite toda!

 

- C-Claro, por aqui.

 

Lum conduziu Ernesto até o quarto onde o estranho visitante estava. O sacerdote mago entrou no pequeno cômodo, aproximando-se do homem deitado sobre a cama. Olhou para as suas vestes, e depois encarou Lum curioso. Pôs sua mão direita sobre a testa de Arturo, medindo a sua temperatura.

 

- Está muito quente. Tem febre. Preciso que me ajude.

 

- O que posso fazer?

 

- Abra a boca dele. Vou derramar a poção Celta.

 

Lum obedeceu às orientações de Ernesto e abriu a boca de Arturo. O sacerdote removeu a tampa do elixir e derramou uma quantidade significativa em seus lábios.

Arturo tossiu, mas Ernesto ergueu a parte superior de seu corpo lhe estapeando as costas. O paciente gemeu, pois seus ossos estavam quebrados.

 

- Hum... Isso não é bom! Tem diversos ossos fraturados. Vamos ter que colocar cada um de volta ao seu lugar.

 

- Bendito Criador! – Lum olhou para o sacerdote com ceticismo.  – E como vai fazer isso?

 

Ernesto abriu a sua bolsa medicinal e retirou de lá uma adaga pontiaguda com a figura de um ninño esculpida na haste. Os olhos de Lum se arregalaram.

 

- O-O que vai fazer com isso?

 

O sacerdote procurou em sua sacola de vigem por uma de suas runas de trabalho, e escolheu a que tinha o desenho de uma folha talhado na rocha. A encaixou sobre o pomo da adaga e a ergueu verticalmente. A lâmina brilhou amarelada. Ainda incandescente Ernesto rasgou a camisa de Arturo e fincou a lâmina em seu ombro esquerdo com brutalidade.

Arturo gritou de dor, mas o sacerdote continuou a magia. Fez três sinais com os dois dedos eretos na testa e nas duas bochechas de Arturo, e voltou a pronunciar palavras.

A lâmina estava enterrada profundamente na carne de Arturo, alcançando a divisão dos ossos dos ombros. Ela brilhou e então setas amareladas começaram a se espalhar pelo corpo dele. Queimavam feito brasa.

Gritando de dor, o sacerdote repousou sua mão sobre a testa de Arturo ainda pronunciando as palavras estranhas. Quando as setas desapareceram e a lâmina perdeu a incandescência, Ernesto a removeu do ombro, e não ficou cicatriz alguma.

 

- Traga lenços umedecidos. Ele precisa descansar.

 

Lum assim o fez. Logo depois ofereceu um chá ao sacerdote, e conversavam na sala de estar.

 

- Ele aguentou bem. A maioria não conseguiria nem beber a poção Celta. – Gargalhou alto. – De onde ele veio?

 

- Não sei. Uma nave caiu na floresta de caça e ele apareceu nela. Não conhecemos nada sobre ele.

 

- Não ouvimos nada lá de Yum. Disse que uma nave caiu. Será que ele não veio de outra Ponta?

 

- Não sei. Viu as roupas que ele estava vestindo? Quem em Crivium se veste daquele jeito?

 

- Ficaria surpreso com as minhas histórias de viagem. Érr... – Pigarreou se levantando. – Dê isto a ele. Três vezes ao dia. É extratus de morfus. Atenuará as dores, e ele ficará bem.

 

- Obrigado. E quanto foi pelos seus serviços?

 

- Duas moedas vermelhas e as dívidas estarão quitadas.

 

Lum pegou seu saco sobre a mesa e de lá recolheu duas moedas vermelhas, entregando-as a Ernesto.

 

- Agora preciso ir. Se ele piorar, me chame de novo.

 

...

 

 

A escuridão afastou-se das terras de Crivium, e o primeiro sol brevemente nasceu. No entanto, o céu abraçava o cinza mais os ventos gélidos que balançavam a relva do vale.

Lum passara a noite acordado, aguardando Gum voltar ou dar sinal de vida. No entanto, nada aconteceu. Daí preocupou-se, porque desaparecer em Crivium não era coisa boa.

Ele não poderia sair à procura de seu amigo e deixar o estranho visitante sem cuidados. Sem alternativas, permaneceu esperando. E ele preparou um pão cevado com alguns ingredientes que sobraram em sua dispensa.

Lançou algumas toras de madeira na lareira para alimentar o fogo até que as labaredas começaram a surgir e as chamas se espalharam.

O pão assou em alguns minutos. Ele cortou uma fatia, e abriu um pequeno barril que continha chá forte para servir ao visitante. Caminhava em direção ao quarto, e paralisou na porta como um rilonche empacando ao ver o estranho visitante sentado sobre a cama com uma expressão vazia nos olhos.

 

- Está tudo bem?

 

Arturo foi tirado do transe ao ouvir a voz de Lum. Quando deu por si, o homem que lhe salvara a vida estava ali, de pé, com uma comida estranha em um prato de cor enferrujada, e um copo esculpido em algum tipo de madeira que Arturo desconhecia a procedência.

 

- Para você. – Disse, aproximando-se e lhe entregando o prato com o pão e o copo com a bebida. – Vai ajudar a recuperar as suas forças.

 

Arturo cheirou a estranha bebida, e assustou-se com o odor forte fazendo uma careta que arrancou um riso de Lum.

 

- O que é isto?

 

- Chá forte, acalma os nervos. Pode comer o pão também. Fui eu que fiz.

 

- Obrigado. Por quanto tempo eu dormi?

 

- Umas doze horas. Você precisava descansar. Para ser sincero, achava que demoraria mais tempo para conseguir se movimentar, mas o velho desgraçado tem mãos boas para poções!

Arturo pôs o prato sobre o colo, pegou o pão cevado e lhe arrancou um pedaço com desconfiança. Ao provar, viu que o gosto era fascinante, e com fome, passou a devorar o pão desesperadamente, e até mesmo com certo furor, o que arrancou outro sorriso de Lum.

 

- Vejo que gostou!

 

- Isto é muito bom! – Falava com a boca cheia. - Do que é feito?

 

- Trigo serpentiano, por isso o odor forte. Minha mulher fazia para mim.

 

- É casado? E onde ela está? Gostaria de conhecê-la.

 

Os olhos cansados de Lum encheram-se de melancolia, deslocando o brilho que antes ali estava.

 

Percebendo a tristeza repentina do gentil estranho, Arturo se pôs a dizer...

 

- Desculpe.

 

- Tudo bem. – Sorriu com esforço, devolvendo uma gigantesca gentileza. Mas dentro de seus gestos havia um esmorecimento simulado. – É que não costumo falar muito sobre isso.

 

- Ficaria ofendido se eu perguntasse o que houve?

 

- Não. Elas estão mortas.

 

- Elas? Você tinha duas esposas?

 

- Uma filha. Minha esposa e minha filha foram assassinadas, por um mestiço.

 

- Mest... O quê?

 

- Mestiços. São feras diabólicas. Homens selvagens que se transformam em feras diabólicas, vindas de algum lugar desconhecido.

 

- Eu sinto muito.

 

- Não sinta! Elas estão em um lugar de paz, eu gosto de acreditar. E você? Tem alguma esposa?

 

- Eu? – Arturo riu. – Sou sozinho. Perdi minha mãe quando tinha quinze anos, e meu pai... Nunca o conheci.

 

- Heh... – Lum sorriu conformado. Observou aquele estranho, e inexplicavelmente sentiu que ambos compartilhavam sentimentos semelhantes. – Entenda uma coisa, Arturo. Eu aprendi algo com essa vida. Ela vai te arrasar em alguns momentos, te decepcionar. Ela vai agir como uma assassina feroz contra os seus sentimentos e a sua moralidade, mas você tem que ser forte e se guiar para a luz.

 

Arturo observava o estranho que lhe ajudara, e percebeu que ele era um homem culto para o lugar onde morava.

 

- Você me parece um homem estudado. O que está fazendo morando nessa pequena cabana? Pela sua inteligência e visão de mundo, deveria estar morando em um palácio!

 

- Esse homem faz parte do meu passado. – Ele sorriu triste. - E o meu passado não existe mais.

 

...

 

Nuvens alaranjadas coloriam o firmamento gerando extratos imutáveis sombreando o céu. A energia do segundo sol aquecia a muralha de pífia que cercava a capital da Terceira Ponta, Suzero.

Naquele entardecer, às quinze horas da tarde curandeiros ladeavam o leito da rainha Miranda. Uma doença lhe afligia há três anos lunares. Impedia-lhe de andar, restringindo todos os movimentos de seu corpo. Sua pele enchia-se de escamas vermelhas separadas, e seus olhos sangravam. Seus órgãos começavam a parar de funcionar, um a um.

Os curandeiros detectaram uma doença antiga, chamada de “Fícera”. A rainha sabia que tempo era algo que ela não teria mais, e  angustiada com o futuro da Terceira Ponta, chamou o maior líder religioso de Suzero, o Primus, para que realizasse o ritual de passagem antes que seus olhos se fechassem para sempre.

 

- Ajude-me a levantar. – Ela disse as suas duas servas de confiança. – Estou sem forças.

 

Três serviçais aproximaram-se da rainha e afastaram os cobertores de pele quentes para ajudá-la a se levantar. Duas lhes seguravam os braços, enquanto a outra suas pernas.

O Primus havia chegado carregando consigo um cajado feito de asdro, adornado com pedras preciosas achadas no oceano e no mar vermelho.

O Primus vestia-se com um hábito vermelho, com um cordão também de asdro prendendo-lhe à cintura. Trazia consigo o livro dos antigos mistérios e um frasco contendo um azeite especial, removido dos frutos que nasciam com as candências silvestres.

 

- Primus, permita-me orar pela última vez, pois já não tenho forças para fazer isso sozinha.

 

- Então que o Bendito Criador a abençoe em sua passagem. Repita comigo a prece. Bendito Criador...

 

A rainha então fechou os olhos.

 

- B-Bendito Criador...

 

- Perdoe-me por minhas transgressões.

 

- P-Perdoe-me por minhas transgressões.

 

- Ajude-me a fazer a passagem.

 

- A-Ajude-me a fazer a passagem. – Nesse instante, a voz da rainha tornou-se trêmula e um choro sincero apossou-se de sua voz.

 

- E me conduza ao descanso no primeiro céu.

 

- E me conduza ao descanso no primeiro céu.

 

O Primus então removeu a pequena rolha que tampava o frasco de vidro com o azeite de cadências, e o derramou sobre a cabeça da rainha Miranda, lhe perfumando os cabelos castanhos.

 

- Levem-me de volta para a cama. – Pediu.

 

- O que deseja majestade? – Um de seus serviçais lhe questionou.

 

- Chame minha filha. Ela precisa saber de suas obrigações daqui pra frente.

 

O Primus fez uma breve reverência e se retirou. Alguns serviçais o acompanharam, para cumprir o desejo da rainha.

 

...

 

Éfis e Petros aguardavam em frente a uma das armarias de Genópila. Não trajavam suas armaduras emborrachadas, mas vestes comuns com capas negras cobrindo-lhes o dorso, ombro e cintura. Aguardavam por Hiugo, Neemi e Ilí.

 

- Eles estão demorando! – Petros praguejou inquieto.

 

Mas Éfis não prestava atenção às suas palavras. Estava mais preocupado em observar os civis passeando e verificar se alguém havia seguido ambos.

 

- Por que não enviamos mensagens pelo sendí?

 

- Está muito quieto.

 

- O quê?

 

- Preste atenção nos civis! – Retrucou nervoso. - Qualquer um deles pode ser um espião vira casaca da guarda real de Morgan. Ponha o seu capuz.

 

Petros cobriu seus cabelos negros com o capuz de sua capa, e Éfis fez o mesmo. Enquanto aguardavam, pedras de gelo começaram a despencar do céu, indo de encontro ao piso de arítio da capital.

Uma mão então tocou o ombro de Petros, que assustado, imediatamente segurou no pomo de sua espada. Porém, ao ouvir a voz...

 

- Acalme-se. – Era Neemi, e ao seu lado Hiugo e Ilí.

 

- Graças ao Bendito Criador! – Petros suspirou aliviado, e uma gigantesca gota de suor escorreu de sua testa. – Pensei que tivesse dado merda!

 

- Estamos bem. Até onde eu sei, conseguimos sair da brigada sem sermos notados.  – Neemi assegurou.

 

- E quanto às armaduras?  - Éfis questionou.

 

- Não era prudente vendê-las. As pessoas começariam a se perguntar. Estão guardadas em um local seguro. – Ilí afirmou.

 

- Então vamos ao que interessa. – Hiugo tomou à frente. - Me acompanhem.

 

O grupo de cinco homens seguia em direção à ferraria de Hinoi. Passaram por becos e ruas estreitas, desviando de tabernas e prostíbulos.

Ao chegarem à forja, tudo estava silencioso. O forno aceso com chamas grandes cuspindo labaredas, e espadas feitas de asdro se aquecendo até arderem em brasa.

 

- Hinoi! – Hiugo chamou, aumentando o tom de sua voz.

 

Um homem de baixa estatura, gordinho, de cabelos loiros, olhos castanhos e coberto por um avental escuro veio lhes receber.

 

- Seja bem-vindo, Hiugo! O que quer de minha humilde pessoa? – Coçou a cabeça sujando seus cabelos com algum pó preto.

 

- Preciso que remova emblemas de nossas espadas. Pagaremos bem.

 

Petros então se aproximou de Neemi, sussurrando em seu ouvido direito.

 

- Tem certeza de que ele é confiável? – Encarava Hinoi com severas dúvidas.

 

Hinoi lhe devolveu um olhar duro e impaciente.

 

- Mestre Hiugo confia nele. Então, eu também confio.

 

Hinoi dirigiu-se ao forno e de lá retirou uma das espadas de asdro, enfiando a extremidade em brasa num balde de água gelada. O contato da lâmina com o líquido fez o som de um breve chamuscar.

 

- Entrem. Cobrarei dez moedas vermelhas, de cada um. – Sorriu maldoso.

 

- É o que?! – Petros indignou-se. – Acha que cagamos moedas vermelhas?

 

- Nós pagaremos. – Hiugo adiantou-se, erguendo um saco e lançando-o sobre os pés de Hinoi. – Aí tem o bastante para nós cinco. Cinquenta moedas vermelhas.

 

- Tem certeza, Hiugo? – Éfis questionava duvidoso. - São muitas moedas.

 

- Não se preocupe, tenho mais guardadas.

 

Hinoi agachou-se coletando o saco. Encarando Petros com desdém, derramou as moedas sobre uma mesa de madeira com algumas ferramentas. Cinquenta moedas, como Hiugo havia prometido.

 

- E quais emblemas querem remover?

 

- O da guarda real. – Hiugo adiantou-se, provocando certa curiosidade em Hinoi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

...

 

 


Notas Finais


Glossário:


Ritual de Passagem: É um cerimonial religioso feito antes da morte.


Trigo Serpentiano: Espécie de Trigo com sabor mais forte e odor chamativo.


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