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História O Outro Lado - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Capítulo 5


 

Quatro rilonches marchavam pelos campos livres. À frente seguia o líder do quarteto “b”. Cantarolavam algum lirismo e jogavam conversa fora.

Amarrado ao rilonche do líder estava Gum. Suas duas pernas atadas por uma corrente de asdro, enquanto o seu corpo era arrastado pelo chão. Ele estava desacordado e com os braços abertos.

À medida que o rilonche caminhava, o corpo de Gum era arrastado consigo deixando uma pequena trilha na terra que desaparecia com o tempo.

Doze horas de viagem sem descanso, e com segurança conseguiram passar pela primeira parte da Xéptãm. O quarteto evitava as trilhas pelos campos onde muitos civis transitavam.

Chegaram ao final da Quinta Ponta, indo para o norte da Xéptãm em direção à Arena da Dor.

 

- Estou com fome! Não paramos nem para mijar! – Disse um dos mercenários da Liga Atai, aborrecido. Ele cavalgava bem atrás, evitando que seu rilonche esmagasse o prisioneiro.

 

- Pare de choramingar seu idiota! – O líder praguejou irritado. – Quanto mais cedo chegarmos lá, mais rápido receberemos as moedas vermelhas.

 

- Por falar nisso, Chefe, quanto acha que receberemos por esse daqui? – Outro que cavalgava à esquerda questionou.

 

- Ele é pesado. Eu senti o cheiro nele! – O que cavalgava à direita dizia, removendo os vermes que circulavam por seus dentes e os esmagando enquanto os descartava na relva.

 

- Não temos certeza. Só saberemos quando chegarmos lá. – Dizia o líder.  – Ele é forte e tem saúde. Fizemos uma excelente aquisição! Podemos conseguir cinquenta moedas com ele mas, vai depender do humor do publicano da arena. No entanto, pelo seu porte e raça, acho que sobreviverá às primeiras lutas.

 

- Esses filhos da puta cobram taxas altas para os outros assistirem às batalhas... – O que cavalgava à direita praguejava. Os vermes estavam começando a incomodá-lo. – Deviam nos pagar mais! Acham que é fácil transitar pela Quinta Ponta se desviando de postos militares? Correndo riscos? Procurando pelos melhores produtos?

 

- Fora, os mestiços e as criaturas da noite! – O que cavalgava atrás berrou.  

 

- Lembram-se daquele useras que arrancou metade do meu braço? – O da esquerda ergueu a maneta, revelando apenas a pequena mica que ficara. – Não é fácil sobreviver só com um braço! A hora de mijar é a mais difícil!

 

Passavam por um templo de oração próximo à trilha que conduzia ao norte da Xéptãm. Nenhum sacerdote regava as candências pelo lado de fora.

Devagar Gum abriu seus olhos. Seu corpo estava dolorido. Sentia pequenos tufos de grama presos às suas vestes, e estava com sede.  Não lhe restavam forças, mal conseguia mexer suas pernas. Seu joelho doía tanto como facas sendo enfiadas em sua carne.

A última coisa que conseguiu ver e assimilar foi o céu. Olhou para o segundo sol e para as nuvens alaranjadas, e voltou a desmaiar.

 

...

 

Um doce bafejo lhe atingiu os cabelos castanhos, bagunçando-os. Da varanda de seu quarto ela observava o segundo sol e o céu, mais o grande rio esparso. Uma horda de ninños sobrevoava cortando o horizonte.

Perfumada com as melhores essências, lia contos de Crivium sentada em uma cadeira acolchoada direcionada à varanda. Então, um dos serviçais do castelo principal de Suzero bateu a sua porta. Ela sussurrou um breve “entre” e permaneceu lendo.

 

- Princesa Lia, o fim de sua amada mãe está chegando. – Ele a reverenciou brevemente mas, Lia permaneceu observando a paisagem. – A rainha está lhe chamando.

 

Tempo, ela pensou. O tempo era um mistério para Lia. Ele passava devagar quando ela desejava que passasse rápido, e rápido quando ela desejava que passasse devagar. Era a breve ironia dessa vida, machucada por feridas que demoravam a cicatrizar.

E ela iria, iria ouvir as últimas palavras de sua mãe. E apesar de desejar uma vida que fosse apenas sua, dentro de pouco tempo estaria cedendo ao que não queria, porque sentia uma leve inclinação em atender às expectativas dos outros.

Em uma queda bruta seus olhos azuis esverdeados desejavam morrer lentamente, ou mudarem de tonalidade, para dizer o quanto estava triste. No entanto, ela não sabia mais o que era chorar.

Lia então se levantou pondo o livro sobre a cama, e acompanhou o serviçal. Ela caminhou por alguns corredores com estatuetas e arranjos de candências silvestres de diferentes tonalidades, até chegar ao quarto de sua mãe com autaques reais guardando a porta. Sentiu-se numa prisão.

Ao entrar, aspirou o cheiro das candências silvestres se misturando com inguentos e remédios fortes. A rainha Miranda jazia numa cama, com escamas vermelhas já tomando conta de sua face, deformando-a. Ela sussurrou algo, pedindo a Lia para que se aproximasse.

Um dos servos da rainha se dispôs a trazer uma cadeira mas, Lia recusou, preferindo se sentar ao lado de sua mãe na cama.

 

- Você sabe de seus deveres... – A voz de sua mãe parecia cansada, quase um sussurro. – Não durarei muito, e é bem provável que eu parta ainda hoje.

 

- Mãe... – Sussurrou pesarosa segurando as lágrimas.

 

- Crivium enfrentará uma guerra precoce minha filha. Mais uma vez o pecado da ambição falou mais alto nos corações. A Quinta Ponta tem a Quarta Ponta como aliada bélica, mas possui muitos desafetos. Ainda assim possui grande número de florestas e um numeroso exército que quase não se pode contar. A Quarta Ponta domina o mar vermelho e o oceano em nome de Morgan. E nós... Nós somos grandes exportadores de arítio, possuímos grandes reservas de água com o grande rio esparso e temos grande volume continental. No entanto, estamos no meio do conflito bélico. A Primeira e Segunda Ponta não gostam de Morgan, e a conquista pelo Novo Mundo parece iminente.

 

- De que isso serve mãe? – Revirou o rosto esperando pela resposta. - O que deseja de mim?

 

A rainha a encarou com firmeza, até que os seus olhos inicialmente lacrimejaram e as lágrimas se converteram em glob intenso escorrendo por sua face.

Lia assustou-se e ergueu uma de suas mãos, removendo um lenço que estava ao lado do criado mudo da cama da rainha para limpar o rosto da mãe. No entanto, ela a impediu com um sonoro não, e continuou a falar.

 

- Você têm responsabilidades com o seu povo. Você deve se casar com o Rei Morgan da Quinta Ponta, e cumprir a promessa que seu pai e eu fizemos. Unirá as forças de nosso império com as do dele. Se nos unirmos a Morgan, teremos chances de evitar alguns problemas no futuro. A Segunda Ponta detém grande parte da reserva de asdro deste continente mas, Morgan cortou provisões para a mesma devido a desentendimentos entre ele e o rei Nero. A Segunda Ponta tem escassez de água, pois são homens do deserto. Já nós, temos um acordo comercial com a Quarta, que apoia Morgan. Se nos opusermos a Morgan, ficaremos no centro do confronto bélico. Infelizmente, não estamos cobertos por camadas gigantescas de gelo para nos proteger, como a Primeira Ponta. Se você disser não, ele destruirá todo o nosso povo e o nosso império.

 

 

- Quer que eu me venda? – Questionou indignada.

 

- Não, quero que proteja o império. E se o império não existir, proteja o povo. Uma guerra acontecerá, mais cedo ou mais tarde. A Quinta Ponta almeja ampliar o seu território continental, e não seremos uma opção de ataque quando o rei Nero se recusar a entregar os mapas do Novo Mundo a Morgan. É bem melhor unir forças do que dividi-las. Você já é prometida de Morgan desde que era pequena. Apenas honrará com o acordo. Prometa-me.

 

- Mãe... – Lia tentou se esquivar.

 

- Me prometa! – A voz da rainha foi dura.

 

Ela meneou a cabeça concordando.

 

- Sim.

 

E a tonalidade de seus olhos mudou para uma cinza intenso, que possuiu a esverdeada esmeralda, refletindo a tristeza consumindo o seu coração.

 

- Ótimo. Assim protegeremos o nosso povo e ao mesmo tempo manteremos a independência de nosso império.

...

 

Ao norte da Xéptãm uma chuva de pedras de gelo intensa despencava sobre a floresta sombria e sem vida. As árvores mortas, com galhos secos e sem vida se conglomeravam com a escuridão, apaixonando-se pela mesma feito amantes.

Estava tão frio, que a relva acabava por petrificar e morrer no escuro solitário. E ainda ao norte, onde ficava a Arena da Dor, escravos sequestrados eram vendidos para lutarem até a morte. Escondida na negritude da floresta, permanecia uma das tribos mais temidas da Quinta Ponta.

A extensão da Xéptãm impedia que fossem rastreados, e eram muito sorrateiros, não deixando pistas de sua localização. Motomonos de energia não conseguiam chegar ao norte, e apenas por naves era possível fazer patrulha. No entanto, naves era um tipo de tecnologia recente produzida pela Primeira Ponta, e que ainda não havia sido contrabandeada.

A tribo era um cerco com algumas ocas. No centro, permanecia uma jaula feita com a madeira seca da floresta. O acampamento era iluminado por tochas constantemente acesas, porque ainda na escuridão havia luz.

Quando a Lua Crescente estava a pino, eles prendiam algum prisioneiro de uma casta diferente dentro da jaula, para a carnificina. E quando a lua crescente emergia manifestando-se na escuridão, os iniciados eram soltos na floresta para concretizarem a transformação.

Sua forma humana transmutava-se. As mãos medianas alteravam-se para uma forma e tamanho anormal. Suas unhas comuns cresciam, tornando-se afiadas como agulhas enormes. Suas estaturas alargavam-se, evoluindo, assim como os seus músculos. E os pelos possuíam seus corpos com diferentes tonalidades.

As orelhas mudavam de tamanho, sempre eretas. As irises de seus olhos se trasmudavam, ficando finas e horizontais. Seus dentes tornavam-se presas gigantescas, sendo lambiscados por suas línguas extremamente finas.

E nada se comparava a sua sede por glob e carne. Eram demônios da escuridão. Rápidos em seus movimentos, ardilosos na caçada e silenciosos em combate. Mestres em camuflagem, seus movimentos eram rápidos, como feras imbatíveis.

Seus maiores inimigos eram os wolflongs. Sim, as castas não se entendiam. Odiavam-se. E não havia amor entre eles, não havia orações ou súplicas. Eram tão frios quanto à Xéptãm, e além deles, somente eles. Egoístas e maus. Assim eram descritos por todos os azarentos que tiveram a oportunidade de cruzar com um leomen ou qualquer outro mestiço, e sobreviver.

Naquela noite uma reunião acontecia na tribo. O chefe, Malco, negro e de olhos amarelados, discutia os planos para aquela grande casta. Alguns meninos sentavam-se em pilhas de pedras, e algumas meninas se escalavam nas grades da jaula no centro do acampamento, para ouvirem o chefe falar.

Duzentas ocas formavam a tribo, feitas de palha selvagem e algum tipo de madeira nativa da Xéptãm. Tochas circundavam a aldeia, com sentinelas transmutadas a protegendo. Alguns corpos estavam encravados em enormes estacas numa gigantesca fogueira. A tribo toda se alimentaria da grande caçada da noite passada.

 

- Nossa tribo existe há mil anos neste continente, desde que os primeiros mestiços surgiram. No entanto, a intenção do rei dessa terra é nos extinguir. Nós matamos ou morremos, e isso não é uma opção, mas é a lei do que sobrevive. – Ele então ergueu uma das mãos para o céu em direção ao segundo sol. – O rei dessa terra não nos aceita. É cruel conosco, e nós também não o aceitamos. Somos tratados como intrusos, mesmo estando todos debaixo do segundo sol.

 

- Malco, o que sugere que façamos? – Um dos leomens questionou. Estava abraçado a sua filha, uma menina loirinha e franzina. Seu nome era Velos.

 

- Rebelião.

 

Então toda a casta começou a murmurar ao mesmo tempo.

 

- Eu sei o que estão pensando. – Malco dizia. – Mas magia é real! Somos seres místicos!

 

- Nem todos nós somos seinbans como você, Malco. Podemos ampliar nossas forças com a magia de nossa evolução mas, a maioria de nós não passou da segunda hierarquia. O rei possui um numeroso exército de autaques reais, além de soldados dos povoados e mais uma horda inteira de crivianos que pegariam numa espada sem hesitação para protegerem sua Ponta. Somos, em nossa maioria, transmutados comuns, e alguns são crianças ou não alcançaram a trigésima.  Precisamos de apoio das outras castas.

 

- Eu concordo. – Malco falou, e chocou os outros. – Será difícil mas, precisamos tentar.

 

- Não acho prudente. – Outro da multidão falou. – Nos juntarmos àqueles wolflongs inúteis e fedorentos!

 

- Uma aliança militar pode mudar tudo. Talvez essa seja a oportunidade que estávamos esperando. União entre as castas é o que as pontas mais temem. Nossos antepassados não foram bons nisso, é fato. Porém, isso não significa que tenhamos que ser assim também.

 

- Se quisermos aliados, devemos começar pelos mais próximos. – Velos sugeriu. – Os useras não ficam muito distantes daqui. Dividimos a floresta com eles durante milênios, e só nos matamos de vez em quando. Acho que não será um problema.

 

- Acha que pode fazer isso? – Malco questionou.

 

- Eu irei mais outros. – Sua sugestão atraiu a atenção dos outros tribais, mais voluntários. – Iremos à forma criviana para que entendam que a visita é de paz.

 

- Caso alguma coisa venha a dar errado, não hesitem em se transformar.

 

- Não iremos.

 

- Eu soube que trouxeram carne fresca! – Malco virou-se para uma linda moça que girava um dos corpos espetados. A carne já começava a dourar na fogueira. – Hum, vejam só! – Dizia com sadismo. - Um autaque manto verde. Onde conseguiram este?

 

- Estavam acampados na entrada da Xéptãm. O outro escapou. – Um dos leomens falou.

 

...

 

 

Duas horas haviam se passado desde a retirada dos emblemas. A escuridão possuía Genópila, engolindo-a por inteiro. Algumas lojas estavam com as luzes acesas mas, as placas diziam que já estavam fechados e poucas pessoas transitavam pelas ruas.

Após percorrerem becos e vielas, chegaram ao ponto estratégico da muralha de pífia que protegia Genópila.

 

- Se saltarmos, chamaremos atenção. – Petros alertou.

 

- Não precisaremos saltar. – Hiugo dizia caminhando em direção à muralha. – Atravessaremos pelo subsolo.

 

Hiugo passou o pé direito protegido por uma bota de cor marrom sobre o chão calçado com arítio, levantando as folhas das árvores, poeira e revelando a existência de um alçapão.

 

- Este túnel nos levará para fora de Genópila, para perto de um dos feudos.  - E Hiugo permanecia conversando. – Me sigam.

 

- Aqui, pegue. – Petros entregou a Hiugo uma tocha apagada.

 

Hiugo pegou o objeto pela haste de madeira, segurou-a com firmeza e com a magia da runa de demisera (fogo) acendeu a tocha.

 

- Acendam a de vocês e me sigam com cuidado.

 

Eles prosseguiam por um túnel comprimido com altura suficiente para um homem de um metro e oitenta passar. As paredes eram sustentadas por madeiras para que a terra não cedesse e soterrasse o túnel. Hiugo ia à frente, Ilí era o último, Éfis ia ao meio da fila, e atrás de si Petros. Atrás de Hiugo e na frente de Petros, seguia Neemi.

 

- Morei a minha vida inteira em Genópila e jamais soube da existência desses túneis. – Neemi falava.

 

- O conhecimento desses túneis é dado a poucos. Foram criados para evacuação de autoridades da capital, como o rei e o Primus, e também para conduzir pergaminhos e documentos em segurança. – Hiugo dizia. - Apenas algumas pessoas sabem da existência deles.

 

- Deles? – Petros encarou o teto e as paredes com insegurança. Pequenos gominhos de terra caíam sobre sua tocha e cabeça. – Tem mais de um?

 

- São vários! – Ilí sorriu brincalhão, pois quase não sorria. Era um homem sério e centrado. – A dinastia Morgan era precavida.

 

- Filhos da mãe! – Éfis praguejou. – Quanto tempo a mais teremos de perambular por aqui? O ar já está ficando rarefeito.

 

- Estamos no final. – Hiugo alertou. – Tenham apenas mais um pouco de paciência.

 

 



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