História O Outro Mundo de Alice - Capítulo 17


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alice, Aventura, Fantasia, Magia, Originais, Romance
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Fantasia, Ficção Adolescente, Magia, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Quando postei o capítulo anterior, metade deste já estava pronto.
Me custou muito escrevê-lo porque tudo o que está aqui é muito pessoal e importante para mim! Foi por isso que resolvi escrever "O outro mundo de Alice".

Existe uma outra versão da estória que meu melhor amigo escreveu e resolvi usá-la neste capitúlo, mostrar o que se passava na cabeça dele na época em que as coisas se complicaram com a gente.

O próximo vai levar um tempinho, mas postar este cap significa muito, muito mesmo.

Capítulo 17 - Dor, perda e amor


Fanfic / Fanfiction O Outro Mundo de Alice - Capítulo 17 - Dor, perda e amor

 

Alice


— Não pode fazer questionamentos e jogos em uma situação assim — Otávio foi o primeiro a dizer — Contar uma história assim nos deixa sem saber o que fazer. — Ele estava confuso, todos ali estavam, mas eu não! 

Enquanto Morgana contava toda sua história, tudo o que tinha vivido e como as coisas aconteceram em sua vida, só consegui ficar em silêncio a encarando perplexa e surpresa. No fim, quando Azurine e ela entraram em uma discussão a única certeza que consegui ter e que sabia, ia me custar muito caro, era que acreditava nela. Sei que nunca fui o tipo de conhecer pessoas tão bem, mas ali, depois de absorver todas aquelas palavras repletas de dor e raiva, eu sentia… 

Alaric era o nosso inimigo. 

Azurine chorava horrorizada, estava em negação, não sabia o que fazer e todo seu corpo tremia. Mesmo que fosse difícil aceitar ela sentia o mesmo que eu. Olhei discretamente para Cennan e ele permaneceu parado onde estava. O rosto sem emoções ou lágrimas. Apenas alguém completamente fora de si. 

Sei que Azurine estava desesperada e que escutar tudo aquilo era como explodir uma enorme bomba em sua frente. Ela estava ferida, muito e isso me deixava com mais vontade de chorar do que tudo. Sei que ainda tinha uma conversa pendente com Morgana e que cedo ou tarde faria questão de tê-la, mas se quisesse “acabar” com aquilo tinha que falar algo e foi exatamente o que fiz: — Acredito em você!  

No momento seguinte os olhos de Azurine me encararam perplexos. Eles tremiam e sua expressão era de desentendimento: — Alice? 

— Sinto muito por isso, Azurine. Mas ela não está mentindo. 

— Como tem certeza? 

— Não tenho! 

Azurine deu um passo à frente e juro que todo meu corpo tremeu — Estamos falando da minha mãe, você ao menos tem noção do quão importante isso é? 

 — É claro que sim! 

— Então por quê? — Ela gritou! Azurine realmente gritou comigo. 

— Não sei explicar… só sinto que… — Não consegui terminar a frase, pois ela perdeu o controle e parou em minha frente. Fechei os olhos com instinto, tinha certeza que ela ia me esbofetear e não tirava sua razão. Acho que levar alguns tapas me faria acordar daquele pesadelo desconexo, mas ao invés disso as palavras que ela disse me feriram mais do que qualquer tapa. 

— Alice, não diga nada! Por favor. — Seus olhos me encaravam no fundo da alma — Não me faça odiá-la. Eu lhe imploro. 

Engoli a seco senti a lágrima escorrer em minha bochecha. — Sinto muito por isso. 

— Seu pai é o grande vilão da história e não existe nada que possa fazer para mudar a verdade. 

Com as sobrancelhas juntas, a princesa olhou para além de mim. Mesmo com o rosto vermelho tanto chorar vi sua pose mudar para a de alguém muito atenta. — Quem é você? — Perguntou com voz séria. 

— Ninguém que conheça. 

Mas eu sim! Foi o primeiro pensamento que surgiu em minha mente quando escutei aquela voz e por isso virei para trás no mesmo instante. E meu coração acelerou: — É você! — Pisquei forte, a voz falha e muito aliviada — É você mesmo... — Repeti e me afastei de Azurine para chegar mais perto. 

— Alice? — Sua voz me chamou com um tanto de emoção e foi então que soube que minha melhor amiga ainda estava ali. Era ela de verdade, corpo e alma. Ignorei a todos e saí correndo a curta distância entre Clarisse e eu. 

Minha melhor amiga e pessoa que mais senti falta nos últimos dias. Parei em sua frente e hesitei em abraçá-la, não porque não quisesse, mas ao chegar mais perto senti algo diferente, como se ela não fosse a mesma. Sei que nenhum de nós era, mas aquilo não me tranquilizou. — Clarisse? — Ela concordou em silêncio e me abraçou. Me derreti naquele gesto e foi como sentir o ar puro invadir meus pulmões me libertando de toda angústia que senti desde então. —Ah, Deus… — As palavras incompletas, meu corpo tremendo e o choro uma vez entalado na garganta — Eu não sei o que dizer… eu… 

— Alice! — Ela me apertou ainda mais e deixou claro que a saudade era recíproca. — Estou tão feliz, tão feliz… senti tanto sua falta, amiga. 

— Eu também. — Olhei em seus olhos, aqueles olhos castanhos, pequenos e preocupados. Sabia que ela queria dizer mais, contudo, em um pedido silencioso combinamos, do jeito que só amigos se entendem, de conversar mais tarde. 

— Veja bem, como posso ser tão má se um reencontro deste acontece bem aqui no meu castelo? — Morgana adotou sua boa e velha pose de rainha e sorriu ao chamar atenção de todos com suas palavras. 

— Eu perguntei, quem é você? — Mas não podia me esquecer de Azurine e todos nós sabíamos que ela esperava pela respostas, do mesmo jeito como eu. 

— Me chamo Clarisse — Minha amiga respondeu um tanto quanto séria e confesso ter sentido medo ali. Clari nunca teve o comportamento mais calmo. 

— O que acha saber a respeito de meu pai, Clarisse? 

E em um jogo de palavras minha amiga devolveu a pergunta — O que você não sabe sobre ele… — Seu olhar se estreitou. 

— Me chamo Azurine. 

O clima entre as duas não era dos melhores e se me lembrava bem Clarisse não era de falar muito. Por isso a encarei com angústia e aquilo foi o suficiente para que ela entendesse meu pedido. 

Todos nós ficamos muito constrangidos com a situação repleta de reencontros, verdades, descobertas e surpresas. Eu acreditava em Morgana, talvez pela pequena conexão privilegiada que tinha com ela ou talvez por instinto. 

Meus olhos vasculharam tudo ao meu redor, tudo mesmo. Até encontrarem-se com os de Otávio. 

Ele retribuiu o gesto e soube que estava tão chocado com tudo como eu. 

Depois de um instante de troca de olhares, ele resolveu falar: — Eu também acredito em você! 


 

Otávio

 

As coisas não estão nada bem. 

Quer dizer, isso não era novidade para ninguém, mas não imaginava que pudessem ficar desse jeito. Tipo uma novela das 9h. 

A bruxa tinha contado muitas coisas que deixaram todos nós confusos e desacreditados. Eu mais do que tudo. 

Antes de chegar ali, ao último desafio, já estava muito bem informado sobre qual era o objetivo e mais do que de acordo em cumpri-lo. Tínhamos que acabar com ela e trazer a “paz” de volta. Mas tudo começou a andar para o lado contrário e de repente o alvo era outro. 

Ainda que toda aquela conversa emocional sobre passado e traição não me deixou convencido, eu acreditava em Alice. 

Isso com certeza era resultado dos sentimentos que tinha por ela e que precisava dar um jeito, o mais rápido possível, ou estaria bem ferrado. Só que apesar de toda a confusão, da lerdeza dela em certas partes, notei que desde que chegamos aqui alguma coisa tinha mudado nela. Não digo fisicamente, porque nisso ela era a mesma Alice que conhecia, mas alguma no jeito como ela pensava. Alice parecia um pouco mais madura, mais decidida e mais atenta. Até mesmo o modo com que falava era diferente de quando não estávamos aqui. Alguma coisa tinha acontecido ou ainda acontecia e eu precisava descobrir o quanto antes. E por isso, ainda que com todos meus questionamentos, abri a boca e falei coisas que eram esquisitas até para mim: — Eu também acredito em você! 

A frase era para a bruxa, mas com ela todos me olharam perplexos e isso foi muito constrangedor. 

Alice sorriu em minha direção e aquilo encheu meu coração de esperanças. 

— Mais alguém? — Claramente debochando de nossa situação, a bruxa perguntou. 

Não gostava nadinha do jeito como ela lidava com as coisas. Só que ao mesmo tempo em que estava coberta de arrogância, ela também me parecia desesperada. E isso foi o que mais me deixou em dúvidas. Se a bruxa nos quisesse mortos tenho certeza de que estaríamos, então por que nos trazer vivos até aqui? Por que nos contar sua trajetória trágica? 

Existia muito dela que eu, em particular, queria saber. 

Olhei de lado por um instante e vi Alvaro com a expressão mais confusa de todas. Ele provavelmente sentia o mesmo, por isso, ajeitou os ombros e olhou para frente tentando parecer o mais decidido: — Nós acreditamos em você! — Em seguida, sem ninguém notar ele veio bem rápido até mim e sussurrou: — Que porra tá acontecendo aqui, irmão? 

Eu ri, é claro: — Vamos saber logo mais. Só fica esperto, mano. 

Alvaro concordou e continuou ao meu lado. 

Então quando Morgana se levantou de seu trono, todos ficamos tensos. 

— Entendo perfeitamente que sintam-se desconfiados. Mas eu não quero causar mal algum a vocês. E preciso compartilhar que fiquei sabendo dos planos de Alaric sobre trazer humanos para cá há pouco tempo — Ela esboçou um fraco sorriso — Não me espanta saber que ele está disposto a tudo para me derrotar. 

— Existe muito mais por trás disso — Começando a aceitar a situação, Azurine ressaltou — Mas não acredito em você... ainda. 

— Princesa! — O tom que a bruxa usou me causou arrepios — Se, minhas intenções fossem outras saiba que me vingaria de seu pai do melhor jeito possível. E isso significa que você não estaria respirando mais. Pense comigo, os dois filhos do rei em meu castelo, cercados pelos meus guardas e ainda vivos. — Ela encarou a princesa com olhar desafiador — Considere isso uma prova de minhas intenções. — Tenho certeza que aquele jogo de poder estava começando a deixá-la cansada, já que ela deixou escapar um suspiro de esgotamento — A escolha é de vocês. Não posso obrigá-los a lutar, não por mim. Mas saibam que Alaric está a caminho e a batalha vai acontecer com ou sem a ajuda de vocês. 

— Não pode nos mandar de volta? — Alvaro perguntou. 

— Sinto muito, mas não. O único que pode fazer isso com perfeição é o bruxo que os trouxe até aqui. — Com as sobrancelhas erguidas e bem desconfiada a bruxa encarou Azurine: — Você ao menos tem ideia de quem seja? 

— Não… — A princesa admitiu sem graça — Meu pai só me deixou a par de algumas coisas — Com o olhar triste ela fitou Cennan — Nem mesmo meu irmão sabe. 

— Vocês têm alguns dias para pensar melhor. Não posso mandá-los de volta, mas não pretendo deixá-los desamparados. — Descendo degrau por degrau, a bruxa continuou a falar — Acredito que precisem de um tempo para esclarecer as coisas entre vocês. Meus guardas vão mostrar os aposentos e Clarisse também tem minha permissão para ajudá-los. Estão livres para sair por aquele portão quando quiserem e lutar pelo que acham correto. — Com uma última frase e essa foi a que deixou geral assustados, a bruxa nos encarou, seus olhos azuis quase brilhando e uma centelha de desafio no rosto — Se escolherem continuar com Alaric serão meus inimigos e ainda que não seja o meu desejo, serão tratados como inimigos. Espero ter deixado bem claro. 

O vampirão ruivo e esquisito se colocou ao lado dela e cochichou algo que não consegui ouvir, e então a bruxa simplesmente desapareceu por um dos diversos corredores daquele lugar e nos deixou na companhia de alguns guardas e uma puta decisão a ser tomada. 

 

Alice 

 

Observei Morgana desaparecer por um corredor depois de deixar bem claro que tínhamos escolhas, mas que elas também trariam consequências. 

No meio disso tudo a única pergunta que surgia em minha mente era sobre o que devia fazer? O que podia fazer para mudar a situação? 

Cennan não tinha dito uma palavra sequer desde que a encontramos, Lir estava ao seu lado e agora tentava fazê-lo falar, ao menos para saber que tudo estava bem. Otávio e Alvaro conversavam e eu permaneci parada, quieta, até notar que recebia dois tipos de olhares ao mesmo tempo. 

O de Azurine, cheio de desprezo por minhas últimas palavras. 

E o de Clarisse, com alívio acompanhado de um meio sorriso. 

Pensei em dar um passo na direção de Azurine, mas não tive coragem. Sei que naquele instante a última pessoa que ela desejava falar era eu. E assim que ela foi até seu irmão, soube que seria bom ficarmos distantes por um tempo. Pelo menos até pensar como me desculpar. 

Até sentir um toque em meu ombro, olhei de soslaio e vi Clarisse sorrindo gentilmente para mim. Eu sorri também, afinal fui invadida por uma sensação muito boa de nostalgia e aquela dose de coisas boas era o que mais precisava. — O que você quis dizer quando falou do rei? — A perguntei. 

O desconforto em seu rosto era nítido: — Alice, eu… eu preciso te contar uma... — Ela fez uma pausa — Algumas coisas. 

— Pode me contar tudo, agora que estamos aqui, não quero mais segredos. — Só queria deixar claro que nada entre nós tinha mudado. 

Clarisse hesitou um pouco, mas logo começou a falar: — Eu posso ver coisas, quase como visões. Às vezes em sonhos, às vezes acordada, e na maioria como pesadelos, por isso soube quando vocês viriam. Não sei o que acontece comigo, só que de repente… é como se eu estive presente no acontecimento e foi assim que vim parar aqui. 

— Você não acordou aqui da primeira vez? 

— Não exatamente — Tive certeza de que seus olhos estavam perdidos em lembranças enquanto ela se esforçava ao máximo para me contar algumas partes. — Depois que desmaiei lá na casa do Alvaro, acordei em uma floresta. Foi assustador porque tudo era tão frio e medonho. Não tinha ninguém que pudesse me ajudar, e senti que as árvores tinham vida, que podiam me ver e isso me assustou tanto. Lembro de ficar andando um dia inteiro e não encontrar nada nem ninguém. Até que tive a primeira visão. 

— O que você viu? 

— Nós! Todos nós juntos, mas foi confuso… eu vi pessoas correndo, espadas se encontrando e você com roupas de guerra e um olhar muito tenso. Foi tudo muito rápido e então eu desmaiei. Não sei por quanto fiquei desacordada, até ele me achar. 

— Ele quem? 

— Kayn! — Nesse momento, pela primeira na vida, vi as bochechas dela ficarem vermelhas — Ele me encontrou na pior. Meus braços vermelhos com tantas picadas de insetos, o cabelo desgrenhado e com muita fome e frio. Kayn me ajudou a chegar aqui. Foi então que conheci a rainha e desde então tenho visto vocês… algumas vezes sei exatamente onde estão, outras tudo acontece como uma cena de filme e não sei dizer se é o futuro ou só um delírio.

— Você está bem? Quer dizer… podemos confiar nela? 

— Eu confio… — Ela diminuiu o tom da voz e ficou evidente que não queria que ninguém nos escutasse — Vi coisas sobre ela também, o passado e o que acho ser o futuro. — Clarisse ficou o mais perto que pôde — A rainha não mentiu ao contar a história a vocês. 

Mordi o lábio apreensiva. Já tinha me convencido de que acreditar em Morgana era o caminho certo. Eu sentia que ela falava a verdade. Algo dentro de mim sabia, de alguma forma, que aquilo era o certo. Mas com as palavras de Clarisse, dizendo o que já sabia, não podia negar que as coisas tornaram-se bem mais intensas. Precisava escolher um lado o mais rápido possível. Um lado que temia não ser o mesmo de meus amigos. 

 

Lir 

 

No final das contas era isso o que nos esperava? 

O que me esperava!

Só com os últimos instantes, minha cabeça doía, doía tanto e nada parecia ser a resposta ou solução que tanto procurei. E então é que percebi o quão angustiado estava. Eu não sabia o que fazer.

Em toda minha vida sempre consegui lidar com meus assuntos, sempre soube o que fazer e como fazer, mas agora era diferente. Agora tudo o que enxergava eram sombras confusas e medo, muito medo. 

Olhei para todos os lados confuso. Acho que mesmo querendo não sabia o que dizer e nem a quem. 

— Cennan! — Escutei Azurine chamar por seu irmão. A voz dela estava repleta de medo e só quando meus olhos o encontraram é que entendi o porquê. Corri até os dois e recebi um olhar de súplica vindo da princesa, só então é que percebi o que estava acontecendo ali. 

Cennan tremia muito e eu sabia que aquilo não tinha nada a ver com o frio ou clima. Ele estava com raiva, mais do que isso: ódio! Poucas vezes o vi daquela forma, mas quando aquilo acontecia eu sabia que ele tinha alcançado seu extremo. A testa de Cennan tinha suor acumulado e mesmo com os olhos fechados, todo seu corpo parecia descontrolado. — Cennan… — Chamei seu nome com cuidado, e finalmente ele se controlou. Os olhos dourados me fitaram muito sérios. 

— Lir… — Cennan me chamou — O que você vai fazer? 

Não esperava por aquela pergunta: — Eu não sei. — Resolvi compartilhar minha indecisão. 

— Acredita neles? 

Arregalei os olhos surpreso, o tom que Cennan usou não era dos melhores: — Você não? 

Endireitando as costas e suspirando profundamente ele analisou todos os outros de forma cautelosa e intimidadora — Alice… — O jeito como o nome dela foi dito me deixou assustado — Ela não está do nosso lado! 

— Cennan, entendo sua revolta… todos estamos confusos, mas está se precipitando ao dizer isso. 

— Você acha mesmo, Lir? Porque tudo o que vi até agora é uma garota indecisa correndo para o lado mais fácil. — Ele me encarou — Entendo que goste dela, mas isso já foi longe demais. 

— E o que pretende fazer? 

— Acabar com tudo de uma vez! Nossa missão é derrotar Morgana, foi por isso que chegamos aqui. 

Eu sabia muito bem o que ele queria dizer com tudo aquilo. E nada de bom vinha daquelas palavras ditas com tanta certeza. 

— Mas irmão, e nosso pai? E tudo o que ele fez? — Dessa vez Azurine foi quem perguntou. — E se eles estiverem certos… 

— Ah, pelo amor, Azurine! — Ele a fitou — Nosso pai está cansado e entendo toda sua revolta, o trono corre perigo. O que faria se estivesse no lugar dele? — A respiração de Cennan era forte, ele estava cansado, exausto e muito bravo. Talvez se pensasse com mais calma podia entender que as coisas não eram daquela forma. Só que agora, não adiantava discutir, ele não ia escutar mais ninguém. Todos estavámos confusos e perplexos. 

— Que seja! — Apesar de entender muito bem o ponto de vista dele, eu ainda precisava encontrar o meu e isso levaria algum tempo. Um tempo que felizmente nos foi “dado” por Morgana. — Vamos descansar um pouco. — Falei aos dois — Sei que estar aqui é muito difícil a vocês, mas se querem mesmo levar o plano adiante não podem levantar suspeitas. — Minhas palavras pareciam convencer ambos e isso me tranquilizou um pouco: — Cennan, prometa-me que vai descansar! 

Seus olhos estavam atentos a todos meus movimentos e sei que ele me analisava. Cennan queria adivinhar o que se passava em minha mente e decidir se  podia ou não confiar em mim. Meus sentimentos por Alice com certeza eram uma influência, mas a decisão final seria apenas minha e ainda que meu medo fosse incontrolável, precisava me preparar para tudo o que estava prestes a acontecer. 

Por ora, eu só desejava descansar e ficar sozinho até conseguir pensar com mais calma.


 

Alice 

 

Meu corpo inteiro doía e minha cabeça parecia querer explodir. A fadiga me dominava sem dó nem piedade. Eu já não tinha condições de fazer muito e a verdade é que não queria. Estava tão cansada, exausta e assustada que minha mente não conseguia absorver mais nada. 

Clarisse me mostrou onde meu dormitório ficava e confesso que não esperava tal recepção em nosso destino. Imaginei que quando chegássemos tudo ia se resumir em guerras, lutas e mais escolhas. Não que isso já não fizesse parte dos planos, mas não achei mesmo que teríamos tempo para refletir ou coisa do tipo.  

Mesmo que minha amiga insistisse em me ajudar, a pedi que esperasse um pouco, que me desse espaço. Eu precisava disso e só assim é que ia conseguir ter uma conversa decente com alguém. E foi exatamente o que houve. 

Claramente, Morgana já nos esperava e isso se tornou evidente assim que entrei em meu aposento e vi em cima da cama de dossel um vestido azul. Já tinha desconfiado pela maneira como Clarisse estava vestida que as regras de etiqueta eram bem rígidas por ali. O vestido de tecido azul e alças finas me lembrava o que camponesas costumavam usar. Era uma graça e o melhor de tudo: não era comprido! Uma quase versão do que minha colega de contos de fadas, Alice, costumava usar. Ao lado, um casaco preto de botões amarelos para completar. Eu já tinha me acostumado com quartos daquele estilo e por isso não demorei muito para encontrar tudo o que precisava. E, depois de um belo banho quente e minhas roupas limpas decidi que antes de lutar, precisava pensar. 

Eu não conhecia nada naquele castelo, mas minha experiência em lugares como aquele tinha aumentado alguns pontos. 

Abri a porta de meu quarto e olhei para o corredor com dois lados e que podia me levar a qualquer canto. Contudo, qualquer outro canto seria melhor do que ficar trancafiada. Pensando assim, decidi que o lado com decoração de flores, cerâmicas claras e paredes pintadas era o mais confortável. Caminhei pela direita sem saber ao certo o que estava procurando e só alguns instantes depois é que encontrei uma escada que levava a algum lugar no alto. Minha casa era repleta de escadas e sempre fui acostumada a subir e descer várias e várias vezes. Olhei os degraus de pedra e devagar subi um por um enquanto meus olhos procuravam pela saída acima. 

Cinquenta degraus ao todo. Fui contando só para manter a distração e assim que cheguei ao último, encontrei a saída iluminada em minha frente. Minha primeira reação foi engolir a seco e a segunda contemplar a beleza do cenário que tinha acabado de encontrar. 

Bem em minha frente um delicado e maravilhoso jardim existia. Ao menos foi o melhor jeito que encontrei para descrever o ambiente ao redor. 

O céu escuro e iluminado por infinitas estrelas brilhava bem acima da minha cabeça e alguns outros pequenos postes com luminárias cuidavam da fraca iluminação. Plantas e pequenas árvores cresciam nas redondezas. Uma linda estufa a céu aberto. E a mistura de diversos aromas fazia com que meu corpo aproveitasse cada instante de calma e paz e silêncio. 

Como podia imaginar que em um lugar tão vazio e solitário como aquele, um pequeno pedacinho do paraíso existia? Andando bem devagar entre a diversidade de plantas e flores comecei a pensar em minha mãe. Ela adoraria o lugar, sempre gostou muito de plantinhas e ficaria impressionada se tivesse a mesma chance que eu. Mas aquela simples e pura lembrança me fez sentir um aperto no coração, não era apenas saudade e sim falta. Eu sentia muita falta da minha casa, minha família e toda a vida que fui obrigada a deixar para atrás. A cada passo lento, olhar observador, deixava com que meus dedos tocassem as folhas bem cuidadas. 

Continuei andando bem devagar, às vezes parando para sentir o aroma das flores, outras para olhar o céu e balbuciar desejos às estrelas. Distraída, encontrei um único banquinho de madeira virado para o horizonte. Ao redor algumas colunas de gesso estavam repletas de plantas enroladas e dali, a vista que tive a frente era ainda mais magnífica. 

Uma muro não muito alto cercava as laterais do pequeno jardim. No chão de pedra, mais e mais vasinhos com mudinhas guiavam a pequena trilha. Me sentei no banco absorvi a paisagem no horizonte. 

A lua cheia era a maior fonte de luz e as estrelas também brilhavam lindamente. O azul da noite preenchia minha visão e deixava tudo mais calmo e notório. 

Suspirei aliviada e sentei no pequeno banco. Olhei para frente e fiquei em silêncio. 

Só por um instante deixei meus pensamentos flutuarem para fora e a calma invadir cada canto do meu corpo. Fechei os olhos e uma corrente de ar muito fresca acariciou meu rosto. Não era frio e sim fresco, tudo o que precisava para começar a fazer as pazes comigo mesma.

Abri os olhos devagar e perdida no meu próprio silêncio senti uma única lágrima escorrer em minha bochecha. — Eu só quero ir para casa. — Disse sozinha. 

— Eu também! 

A resposta inesperada me assustou no mesmo momento e quando olhei de lado vi Otávio parado só alguns passos perto de onde eu estava. Seus olhos castanhos admiravam a linda vista e o vento chacoalhou alguns fios de cabelo crespo das tranças que ele sempre usava. Suas roupas também eram limpas e me senti aliviada por vê-lo tão bem. 

— Não escutei você chegar. 

— Eu sei… não quis fazer barulho. Você parecia muito satisfeita, não quis atrapalhar. — Ele me encarou por um momento: — Está com saudade de Osasco? — Sorri só de escutar aquilo. Otávio sempre me fez rir das coisas e isso era o que fazia sua companhia sempre tão animada. 

— Eu tô! Você não? 

— Para caralho. Tá certo que a rotina seja sempre corrida e a gente nunca tem dinheiro para nada, mas mesmo assim não consigo deixar para lá. Acho que estou preso na realidade. 

Então seu semblante mudou.

Sempre vi Otávio bem, eram poucas às vezes em que o vi bravo, chorando e preocupado como agora. Sei que nossa situação naquele mundo era a responsável, mas vê-lo de tal forma me partia o coração. Sem dizer nada, ele andou até mim e sentou ao meu lado no banco. Tinha um bom espaço e apesar da proximidade cada um de nós tinha o espaço que precisava. 

Eu senti que devia dizer algo para ele, só não sabia muito bem o que. Por isso, esperei mais um pouco só para tentar encontrar algo que pudesse ser o começo de mais uma daquelas conversas gostosas que todos precisavam ter. 

Olhei de soslaio para Otávio reparando a manchinha rosa em sua bochecha e a pele morena. Então como em uma cena de filme, o vi dentro do uniforme da nossa escola e não com as roupas largas e tão peculiares que tínhamos que usar.  Fois só então que percebi sentir sua falta. Ele estava ali, bem ao meu lado, mas não parecia e uma centelha de agonia invadiu meu peito. 

Eu não vi, não senti Otávio. O deixei de lado e aquilo me deixou pensativa. — Desculpe… — Sussurrei. 

— Está sentindo o mesmo que eu? 

— No que está pensando agora? — Perguntei sem ter coragem de olhar para ele. 

— Em várias coisas, mas existe apenas uma que me deixa mais nervoso do que tudo. — Otávio suspirou pesadamente — Não sei se estou preparado. — Não que eu fosse a maior entendedora de situação, mas meu coração bateu mais forte quando ele disse aquilo. — O que vai fazer daqui para frente, Alice? 

— Eu não sei… acho que só estou vivendo e esperando o tempo passar. 

— Vai voltar para casa com a gente? 

— Sim! — Essa era minha única certeza. 

Nossa conversa não parecia ter muitos fundamentos, não que Otávio e eu precisássemos, mas aquilo começava a me deixar pensativa. Ele fazia algumas perguntas e assim que conseguia a resposta logo se calava. Sei que ele tinha muito mais a falar, só não tinha encontrado o melhor jeito.

E quando menos esperei, ele me surpreendeu: — Gosta dele, não é? 

Diante daquela pergunta  minha única reação foi a de surpresa, ainda que eu soubesse exatamente do que ele perguntava — Acho que sim. 

— Por quê? 

Me virei de lado para enxergar melhor seu rosto. Eu não sabia onde Otávio queria chegar com tais perguntas. — O que foi? 

— Eu… — Ele decidiu se virar também e assim ficamos um de frente ao outro — Alice, eu preciso te dizer algo que venho guardando há muito tempo. 

Eu não podia ver minha expressão, mas senti meus olhos tremerem e naquele momento percebi o que o deixava tão nervoso. 

— Eu… — Otávio engoliu a seco e pela primeira vez vi timidez em seu rosto. 

— Você não tem que dizer nada. — Parei de encará-lo. Achei que tentando evitar as situação seria melhor, mas estava enganada. Acabei sendo o gatilho para todas as palavras que meu amigo tinha guardado por tanto tempo. 

— Eu preciso — Ele sentou-se um pouco mais perto — Eu não posso mais guardar isso comigo, mesmo que as coisas não sejam mais as mesmas. 

— E o que espera que eu faça? — Era difícil até piscar. 

— O que achar melhor. — Otávio voltou a olhar para frente  e depois de um longo e cansado suspiro, falou: — Eu gosto de você, Alice. Sempre gostei… mas nunca pude dizer, nunca tive coragem e achei que devia contar. Não quero morrer sem poder dizer que, desde que a conheço, sou apaixonado por você. — Otávio se levantou apressado — Ainda que você nunca tenha percebido. 

— Otávio… — O nome dele saiu de meus lábios enquanto meus olhos enchiam-se com lágrimas — Me perdoe. 

— Sabe, eu sempre estive lá. Sempre fiquei ao seu lado e só Deus sabe o quanto me esforcei para fazê-la feliz. Mesmo que do meu jeito, mesmo com as piores piadas, mas saber que eu era o motivo do seu sorriso era… é incrivelmente esperançoso. — A brisa soprou em seu rosto e também bagunçou meu cabelos. Me levantei para ficar na mesma altura que ele e nesse momento ele se virou de frente para mim. — Você nunca quis ver.

— Não diga isso! — Ele não mentia e isso só me fazia ter mais certeza do quão horrível fui. 

Sempre que falava da minha amizade com ele, as palavras eram repletas de orgulho. Eu adorava contar a todos que nos conhecíamos há muito tempo e como era legal ter um amigo de longa data. 

Eu só estava sendo egoísta e metida. 

— Alice, eu não consigo mais esconder meus sentimentos, isso machuca. E me destrói ver que apesar de sempre ter sido eu, você se apaixonou por ele. Isso é humilhante! 

— Otávio, por favor! 

— Não… — Quase gritando, ele me interrompeu — Só me deixe falar enquanto ainda tenho coragem — Ele também queria chorar, estava nítido em seus olhos. — Sei que não posso fazer com que retribua o sentimento, mas preciso saber… só preciso saber se alguma vez, nem que por apenas um segundo, você pensou em mim como sendo mais que seu melhor amigo? 

Aquela pergunta me dilacerou. Eu não consegui, não consegui me controlar e comecei a soluçar — Sinto muito… 

Aquilo bastou para que ele entendesse — Sabe de uma coisa… eu ainda gosto de você. Mas vou me esforçar para não deixar que isso me magoe mais. Você nunca me viu, nem sequer pensou na possibilidade e sei que não será agora que mudará de ideia, não com aquele bruxo imbecil no caminho. Eu tenho fé, sei que vou superar. 

— Isso significa que não seremos mais amigos? — Mais uma pergunta infeliz. 

— Amigos? — Otávio respondeu com desdém — Alice, não consigo passar um minuto ao seu lado sem reparar o quanto te amo. É quase impossível respirar… 

— O que você disse? 

 

Otávio

Droga, mano… 

Eu tinha falado demais, muito mais do que planejei. 

Eu sabia que aquilo não daria certo e mesmo assim quis seguir em frente. Mas quem pode me julgar? Eu não aguentava mais, eu gostava tanto dela que aceitei a ideia de que minha vida tinha se tornado um clichê. Aqueles que todos dizem odiar, mas no fundo choram sempre que assistem. 

Sem poder controlar toda a angústia que me torturou durante todos os anos que estive ao lado dela, decidi que guardar aqueles sentimentos não levariam a nada. Eu não esperava uma mudança, contudo, precisava falar. Deu um longo passo em direção a Alice e isso fez com que ela ficasse surpresa. Me segurando para não chorar, comecei a falar sem freio algum: 

 — Sabe, Alice... lembra de quando a gente se conheceu? Na época do futebol, eu te achava meio louca e com o tempo, conforme fui te conhecendo confirmei que, realmente você é louca, mas sua loucura é legal. Naquela mesma época quis conhecer mais e mais dessa loucura, quis ficar com ela e ver se daria em algo. Depois de muito tempo quando me aproximei mais de ti é que minha ficha caiu. Olhei dentro de mim e percebi: eu estava apaixonado! E assim, assim comecei a incessante e interminável luta para conquistá-la junto com o medo da rejeição e de perdê-la de vez. Mas fiquei próximo, e então mudei de escola… a gente não se via muito e quando a encontrei de novo notei que tinha me tornado um louco. Ou talvez eu eu já fosse há muito tempo. — Minhas palavras saiam cada vez mais rápidas, eu sabia que minha coragem estava acabando, só que meus sentimentos imploravam por aquilo: —  Pela primeira vez na vida eu estava amando, eu queria mostrar a você o quão bem me fazia apenas com um simples gesto ou um tímido sorriso, como conseguia fazer meu coração ter mil batimentos por segundo, chegar a zero e novamente bater acelerado com apenas um “Oi”. — Só quando senti minhas bochechas queimarem é que dei conta de que estava chorando. Que a cada nova frase as lembranças me maltratavam e que não era capaz de me controlar… droga. Respirei fundo e mesmo com a visão embaçada, juntei minhas forças para dizê-la — Eu só quis mostrar o quão mal me deixava todas às vezes que me ignorava. O tempo passou e apesar de estarmos próximos eu sentia que estava mais distante do seu coração, ganhando algo e perdendo outro. Sei que temos nossas diferenças e não importa o que aconteça sempre ficaremos sem entender um ao outro… Alice, eu aceito você do jeito que é! Sem uma vírgula a menos ou um ponto a mais, pois foi desse jeito que me apaixonei por você. — Minhas mãos estavam fechadas ao lado de meu corpo. Nem uma gota de sangue passada por minhas veias. Eu simplesmente travei… e não havia como voltar a atrás. Meu último ato foi me aproximar ainda mais dela. Acho que Alice nem tinha percebido já que chorava mais que eu. Coloquei minhas mãos em seu ombro e a admirei por um instante. — Eu não sou capaz de ser apenas seu amigo, sinto muito por isso… 

— Otávio… — As mãos dela agarraram minha camiseta como se pedissem para que não a deixasse — Me perdoe, por favor… Nunca quis fazer você sofrer, eu… 

— Tarde demais, Alice. — Acariciei seu rosto com a ponta dos dedos. Era a primeira e última vez que tinha feito aquilo. O quanto esperei para poder tocá-la assim? Ah, Deus… — Isso é um adeus. — Me afastei dela, não havia nada mais que pudesse dizer ou que esperasse. Tinha acabado, era aquilo. Nossa amizade não existiria mais e ainda que meu coração se partisse, eu sabia que aquela era a melhor decisão. A decisão certa para mim. 


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Notas Finais




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