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História O Passado Não Condena - Capítulo 3


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Notas do Autor


Oii, tudo bem com você?

Já adianto, de antemão, que nesse capitulo de hoje teremos uma pequena reflexão sobre o passado de Sakura, mas claro que ainda tem muito a ser contado, como todo o drama com Sasuke e mais alguns personagens que aparecerão.

Bem, a musica da vez é Because of you da Kelly. Boa leitura!!!!!!!

Capítulo 3 - Capítulo 3


 

Por sua causa, eu nunca ando muito longe da calçada

Por sua causa, eu aprendi a ser cautelosa, pra que eu não me machuque

Por sua causa, eu acho difícil confiar

Não só em mim mesma, mas em todos a minha volta

Por sua causa, eu tenho medo

Terminei de calçar o meu último sapato e me pus de frente ao espelho. Chequei mais uma vez minha roupa repensando bem se aquilo continuaria sendo uma boa ideia.

Não que sair com um homem fosse algo que repudio, quer dizer, tirando toda aquele cavalheirismo exagerado que só vemos enquanto eles ainda querem nos conquistar e a obrigação que nós mesmas nos fazemos de estarmos sempre perfeitas aos olhos deles porque, não importa qual seja o mísero erro, tudo cairá por terra e aí podemos considerar a missão fracassada, realmente não há nada de tão exorbitante. Além de que, pensando racionalmente, isso não se trata de um encontro.

Mas não se deve excluir a paranoia sempre presente em nossas cabeças. Por mais que eu, como uma mulher adulta e racional, saiba muito bem como deixar claro a uma pessoa quais são minhas intenções, ouvir Sasori dizer que aquele seria um passeio somente de duas pessoas sem vínculo no trabalho, me assustou. Quer dizer então que, por não estarmos sendo chefe e funcionária não haverá nada que impeça esse passeio de ser um encontro?

Não que eu ache que ele realmente vá ter algum interesse em mim. Não mesmo. Mas possibilidades surgem em minha mente, fazendo-me repensar pela centésima vez se é certo ir ou não.

Respirei fundo mais uma vez e assenti encarando o meu reflexo do outro lado do espelho. Não vi beleza, nem nada que pudesse me agradar de algum modo. Sorri tentando passar tranquilidade, mas o que deveria ser agradável me soou melancólico demais.

Insegurança sempre foi um problema para mim. Desde muito nova, nunca consegui acreditar em cem porcento do meu potencial. Não importava o que fizesse, mesmo me dedicando e tirando de letra qualquer que fosse a coisa, não conseguia acreditar que pudesse ser realmente boa naquilo. No entanto, isso nunca me impediu de fazer. Mesmo sabendo que não iria ter êxito, eu me esforçava para ao menos tentar. Mas, em relação a minha aparência, as coisas sempre foram bem diferentes.

Não que eu fosse uma maluca doida por autoestima. Na verdade, sempre fugi de pessoas que as carregam em demasia, porque, por mais que a intenção delas seja boa ao querer te mostrar que pode sim existir beleza em tudo, o modo como te forçam a engolir isso sempre me assustou. Não é fácil se olhar no espelho e enxergar algo de bom no que te reflete. Mas isso também não quer dizer que eu odeio como eu sou. Isso é só, simplesmente, nada. Eu não sinto nada quando me produzo, quando coloco minha melhor roupa ou arrumo o meu cabelo de modo diferente. Eu não vejo nada de relevante em minha imagem e por isso, apenas por isso, não acho que sou capaz de marcar a vida de alguém como uma paixão ou de faze-la ter interesse em me conhecer e querer estar perto de mim.

E nem mesmo palavras de terceiros são capazes de me ajudar. Elogios parecem tão vazios e não por eu acha-los falsos demais para acreditar. Na verdade, eu confio na boa intenção das pessoas. O problema é que a insegurança me faz pensar que aquilo não pode ser real, que estão me elogiando somente por pena.

E você percebe que eu cheguei ao fundo do poço quando eu prefiro que me ofendam por achar que assim eu não corro o risco de estar sendo enganada somente por pena.

Mas não é como se eu tivesse forças para mudar isso, de qualquer jeito.

Larguei os pensamentos auto-depreciativos no fundo do meu ser e sai de casa. Depois de uns dez minutos andando devagar, cheguei no centro de Tokyo, em um dos parques onde ainda existe verde em meio ao cinza dos prédios e cores artificiais dos letreiros, e pude sentir uma discreta euforia me dominar, fazendo com que as famosas borboletas fizessem a festa em meu estômago. O parque estava cheio e de longe podia-se ouvir a música indie sendo tocada por uma banda desconhecida.

Adentrei o portal decorado com ramos de rosas e folhas verde escuro, trançadas em luzes pisca-pisca que com certeza seriam acesas de noite. Mais a frente da entrada, algumas barracas de comidas e bebidas, adornadas com flores de cerejeiras e mais além, no meio do parque, onde há um coreto extremamente antigo, adornado com mais flores e bandeiras brancas ao seu redor, uma banda tocava sua música, sendo acompanhada de casais apaixonados dançando timidamente, como se aquele fosse o melhor momento de suas vidas.

Um sentimento amistoso me dominou. Há quanto tempo não vinha em um festival desses? Quase pude me enxergar correndo por entre as pessoas com um sorvete na mão e rosas presas no cabelo.

Claro que os festivais de Konoha são menores e menos amontoados de pessoas, mas, mesmo assim, o sentimento ainda é o mesmo.

Passei a caminhar por entre as pessoas, observando a decoração do local. Aquilo tudo me pareceu tão mágico. Como se ali ninguém pudesse ser infeliz.

É engraçado isso.

Quando você está feliz, nada parece ser capaz de te derrubar. Tristezas parecem tão distantes e lágrimas frescura. Você chega até a ser um pouco egoísta e, não me entendam mal, eu não sou contra a felicidade. Na verdade, sinto inveja de quem a tem. Mas o problema é que, do contrário, quando estamos tristes, tudo parece não ter cor.

Quando estamos mal e caminhamos pela rua, por exemplo, ver o sorriso das pessoas parece cruel. Não por sentirmos inveja delas ou achar injusto elas estarem felizes enquanto nós sofremos, mas sim porque, em nossas cabeças, somos os únicos, no universo inteiro, a merecer sofrer. Tudo parece ser tão maior, mais importante do que você e isso só te faz afundar ainda mais na melancolia.

E então perguntamos a nós mesmos “Por que? Por que que todos podem sorrir e eu continuo a sentir dor?” mas eu nunca encontrei respostas.

Fui desperta de meus pensamentos quando o vi perto do lago. Ele trajava um conjunto social azul e, por baixo do blazer, uma blusa branca extremamente engomada, deslocando-o de todos vestidos tão casuais. Inclusive de mim, que trajava um jeans velho e uma blusa lisa de mangas médias com a estampa desbotada do Another Brick in The Wall.

– Por um momento eu achei que tinha se arrependido de aceitar vir. – Desencostou do balaústre acima do lago, consertando sua postura que, diferente do de costume, estava mais relaxada. Ainda que fosse possível enxergar nele o quão destoado do ambiente é com toda sua sofisticação.

– Eu não gosto de descumprir com as minhas promessas, senhor. – Sorri simplista.

– Não estamos em uma situação formal, Sakura. Pode me chamar somente de Sasori.

–Certo, senhor! – Respondi automaticamente, percebendo o erro logo em seguida. – Desculpa, é o hábito.

Ele sorriu de forma adorável, como se sua figura sempre tão marcante e autoritária não existisse. Senti o desejo de lhe devolver o sorriso e o fiz.

– Certo, Sakura, vamos ver a banda? – Estendeu a mão e, depois de refletir sobre aceitar ou não ter esse tipo de contato físico porque, afinal, eu não sou aleijada e sei andar sem que ele segure minha mão, me dei por vencida e lhe entreguei a minha, sentindo-a ser coberta pelos longos e fortes dedos masculinos.

Andamos por todo o festival. Olhamos as barracas, jogamos em algumas delas e até assistimos alguns velhinhos dançarem apaixonadamente em baixo do coreto, onde tocavam alguma música saudando a primavera. Depois de um tempo, ele insistiu para que comprasse um sorvete para mim. Eu, é claro, achei absurdo, mas não consegui aguentar firme até ele desistir e acabei por aceitar, considerando que aquele poderia ser somente um presente por todo o estresse que já me fez passar naquela empresa. Eu só não poderia deixa-lo saber disso.

Deixa-o pensar que é um agrado mesmo.

Já com os sorvetes em mãos, nos sentamos em um banco mais afastado do barulho. Eu já estava mais à vontade de estar com ele e, inclusive, não poderia negar o quão agradável consegue ser sua presença longe de todas aquelas obrigações e a opressão que é o relacionamento entre um chefe e seus subordinados. Por mais ético e educado que ele fosse, seu cargo exige seriedade e por isso o desconforto. Mas durante o festival eu pude enxergar apenas o Sasori e não o senhor Akasuna, filho do grande diretor da companhia, sempre tão austero e intocável.

– Por que você nunca veio a esse tipo de festival? – Não que eu quisesse criar alguma espécie de intimidade entre nós dois, compartilhando fatos de nossas vidas, mas, até então, ele foi o único a realmente se expressar durante o passeio, então achei certo demonstrar um pouco de interesse. Além da curiosidade, é claro.

– Meus pais nunca tiveram o costume de sair comigo quando criança e eu estudei quase que a minha vida toda na Europa, então nunca fui a festivais. Pelo menos não nos daqui.

Senti a magoa em sua voz. Não me pareceu triste com o que disse, mas sim irritado. E eu pude entende-lo. É claro que nascer privilegiado em uma família rica, crescendo nas melhores camadas da cidade, podendo estudar na Europa ou em qualquer lugar que quiser sem mesmo pensar no quanto de dinheiro terá que sacrificar de seu próprio conforto é uma grandessíssima vantagem, mas, ainda assim, nada disso é capaz de superar o vazio em nossas vidas.

Tudo bem, eu preferia estar triste e rica e não triste e pobre, mas, de qualquer modo, sou capaz de entender que as melhores coisas não são compradas pelo dinheiro.

– Eu costumava ir com os meus pais em Konoha, mas depois que terminei o ensino médio parei.

– Mas por quê?

– Eu resolvi sair de casa e deixar de ser um peso financeiro para meus pais, então precisei trabalhar para me sustentar. Não tive tempo algum de sair e me divertir nos últimos quatro anos.

Ao terminar de contar senti seu olhar de pena. Mas não aquele que nos faz sentir acolhidos e sim, aquele que ofende. Tudo bem, eu sei que ele não fez por mal, afinal, não como se eu estivesse contando a melhor parte da minha vida, mas, ainda assim, não gostei disso. Se eu cheguei aqui onde eu estou, embora não seja lá grande coisa, foi porque eu mesma me dediquei, sem precisar nem merecer nada de ninguém.

Nem todos são capazes de seguir destinos tão semelhantes aos dos outros. Terminar a escola, faculdade e emprego dos sonhos, isso não é regra. E o pior é que criam uma pressão tão grande em nossas costas, como se, caso não cumprirmos isso, estaremos longe do que dizem ser ideal para a nossa vida. E não é assim. Ninguém precisa estudar para ser uma grande pessoa, nem mesmo ter o melhor dos empregos para estar satisfeito com a própria vida.

– Nossa, mas você não chegou nem a fazer faculdade?

– Não. – É claro que ele entraria nesse assunto.

Eu até passei para uma boa faculdade, mas não cheguei nem a me matricular.

Eu estudei na única escola de Konoha junto a muitas pessoas de alto padrão, que tiveram a sorte de fazer cursos de pré-vestibulares além da escola, mas eu nunca tive dinheiro para isso. A escola já era cara demais para os meus pais e pensar na possibilidade de investir o dinheiro que não tínhamos em algo que nem era certo de conseguir estava longe de cogitação. Por isso eu estudei sozinha. Me dediquei durante todos os anos do ensino médio, com a cabeça enfiada em livros e, pelo meu próprio mérito, passei para a universidade.

Mas a vida é uma grande sacana, como de praxe.

No final do ensino médio, em meio a toda a pressão de passar para a faculdade, dramas escolares, problemas em casa e uma porção de acontecimentos que só fizeram destruir todo o resto de psicológico que ainda me restavam, eu simplesmente deixei ver razão nisso tudo. Rasguei a carta de aceitação da faculdade antes que meus pais a vissem, peguei minhas economias e vim para Tokyo sem nem mesmo olhar para trás.

Desde então se foram quatro anos, fingindo não me lembrar de onde vim nem do que eu passei para chegar a esse ponto.

–E não tem vontade de fazer algum dia?

Ele parecia interessado demais em saber sobre o assunto, a ponto de esquecer o sorvete em sua mão, que derreteu um pouco sujando sua calça. Quando percebeu, limpou com o guardanapo que enrolava a casquinha. Por sorte fora pouco e não sujou tanto. Senti pena do tecido certamente caríssimo. Se fosse minha roupa eu estaria chorando no chão por imaginar o estrago que o alvejante faria na calça que eu provavelmente não teria nem terminado de pagar.

– Não, eu não tenho.

– Não tem vontade de fazer faculdade? – Questionou como se fosse algo absurdo. Do mesmo modo como todos sempre reagem.

Como eu disse, é um absurdo você querer seguir um futuro diferente de todos os outros. Deve ser o fim do mundo para eles.

– Não é questão de simplesmente querer. – Lhe olhei nos olhos e me senti feliz por não estarmos em condição de chefe e funcionária, caso contrário não teria coragem de falar deste modo. – Para algumas pessoas a vida não é fácil, sabe...

– Eu não estou pensando em condição financeira, Sakura.

– Nem eu. – Desviei meu olhar para o guardanapo amassado em minha mão. – Às vezes a gente tem a chance de crescer, tem capacidade e condição, mas existem forças maiores nos impedindo.

– Se algo te impediu, então por que não tenta agora que pode?

– Porque eu não quero. – Dei de ombros e ele me olhou desconfiado. Senti como se estivesse falando a pior coisa do mundo, mas não me abati por fosse lá o que ele pensou de mim. – Eu não quero me formar e me tornar uma pessoa bem sucedida quando a minha vida continuará amarga. Eu estou bem do jeito que estou agora. Trabalhar na Aka Company é uma honra e a remuneração me agrada, então prefiro não mexer no que está quieto.

– Entendo. – Pareceu me avaliar por um momento, mas, graças a Deus, não falou mais nada.

Iria ser complicado se acabasse por falar mais do que deveria. Não que minha vida fosse um grande segredo capital e meu chefe não pode saber, mas é que não falar sobre as coisas ajuda a não pensar nelas com tanta frequência, além de que, me abrindo para ele, uma pessoa que eu sei que não será capaz de me compreender com exatidão, abrirá portas para uma intimidade que não desejo ter.

Olhei para o céu e pude notar que seu tom alegre e claro dava lugar a um mais escuro e triste. Estava anoitecendo.

 –O festival não vai durar muito mais, acho que já é hora de ir. – Me levantei tentando parecer que não estava querendo fugir. É que, de fato, estava ficando tarde e o cansaço pela semana agitada bateu.

– Está ficando escuro, não acho seguro que ande sozinha. Vamos, o meu carro está aqui perto.

– Relaxa, eu já estou acostumada a ir sozinha para casa todos os dias e eu moro perto daqui.

Ele não me deu ouvidos. Pegou em minha mão e saiu me puxando delicadamente, mas quando parou para jogar o guardanapo no lixo eu me soltei.

– Não se preocupe, como eu disse, sei me cuidar. – Respondi me recordando do acontecimento de noites atrás.

A imagem dele ressurgiu em minha mente. Me olhando com aqueles olhos negros e penetrantes. Mesmo que ele tenha mostrado não se lembrar de mim, eu me lembro muito bem dele. Inclusive, se eu pudesse faria o mesmo que ele porque pensar naquele rosto e no tanto de memorias que ele me remete é doloroso e o pior é saber que não existe nada que possa curar essa dor.

– Eu insisto! – Pegou em minha mão mais uma vez e me puxou até seu carro. 

Eu não posso chorar, porque eu sei que isso é fraqueza aos seus olhos
Eu sou forçada a fingir um sorriso, uma risada, todos os dias da minha vida
Meu coração não pode se partir quando ele nunca esteve inteiro para início de conversa


Notas Finais


Bem, vocês puderam ver que foi um capitulo bem melancólico kkkkk, eu tentei não pesar a mão, mas não deu para evitar.
Sobre essa questão da insegurança dela, eu me inspirei muito em mim mesma e a questão da faculdade e futuro foi algo que eu quis abordar. Porque muita gente sofre com essa pressão e eu quase não vejo ninguém falando sobre isso. Então serio, se alguns de vocês sentirem que algo dito na fic representou o que sentem dentro de vocês e quiserem desabafar com alguém, podem me procurar. Seja nos comentários ou por mensagem privada. Será um prazer ser um ombro amigo.


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