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História O Plano do Herdeiro - Capítulo 1


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Notas do Autor


Sorry por mais uma história, mas eu irei escrever mais vezes nesta no que das outras.
Boa leitura. <3
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Capítulo 1 - Capítulo 1


Fanfic / Fanfiction O Plano do Herdeiro - Capítulo 1 - Capítulo 1

Seul, Coreia do Sul, janeiro de 2020

A maior parte dos números com que Mr. Park Jimin se deparara na vida tinham-se revelado inofensivos.Por exemplo, a costureira que fazia a prova do seu fato tinha-o picado sete vezes enquanto colocava quarenta e três alfinetes, mas a dor desaparecera rapidamente. Os doze buracos do seu espartilho eram mal, na verdade, mas um mal necessário;sem ele, nunca poderia ter reduzido o diâmetro deselegante da sua cintura de noventa e quatro centímetros para medir igualmente deselegante de setenta e oito centímetros.

O número dois não era um número particularmente horrível, mesmo quando descrevia o número das irmãos Kim que estavam atrás de si, observando a costureira a prender o fato com alfinetes à sua figura muito pouco elegante.

Nem sequer quando os referidos irmãos Kim tinham soltado risinhos abafados nada menos do que seis vezes na última meia noite. Estes números nada mais eram do que pequenas contrariedades - meras moscas que podiam ser espantadas com um leque dourado.

Não, a culpa de todos os problemas de Jimin podia ser atribuída a dois números específicos. Cem mil era o primeiro e era um verdadeiro veneno.

Jimin suspirou fundo o mais profundamente que conseguiu dentro do seu espartilho e acenou a Mr. Jin e a Mr. Taehyung. Aos olhos da sociedade, estes dois jovens senhores eram absolutamente irrepreensíveis. Traziam fatos de dia idênticos, umde musselina azul-clara e o outro verde-claro. Empunhavam leques idênticos, ambos cobertos de cenas pintadas que retratavam a indolência bucólica. Eram ambos belos dentro de género boneca de porcelana e o mais cliché que podia existir: olhos azul-acinzentado e cabelo loiro-claro que se enrolava em caracóis pequenos, fartos e brilhantes.As cinturas de ambos mediam muito menos de cinquenta centímetros. A única forma de destinguir os irmãos era através de um sinal perfeitamente natural colocando na face direita de Jin enquanto Taehyung tinha um sinal perfeitamente natural na face esquerda.

Eles tinham sido amáveis para Jimin nas primeiras semanas depois se conhecerem.

Jimin suspeitava que eram verdadeiramente agradáveis quando não eram levadas até aos seus limites mais extremos. Aparentemente, Jimin possuía um talento para levar raparigas e rapazes deveras simpáticos à indelicadeza.

A costureira o último alfinete.

- Muito bem- disse a mulher.- Agora, veja-se ao espelho e diga-me se quer que retire alguma coisa: talvez utilizar menos renda ou mudar alguma de lugar.

Pobre Mrs.Yuna. Dissera aquelas palavras como um homem preste a ser enforcado podia falar acerca do tempo que faria no dia seguinte - com melancolia, como se o pensamento de menos renda fosse um luxo, e algo que apenas ocorreria através de um ato extraordinário e improvável de clemência ditado por instâncias superiores.

Jimin pavoneou-se na direção do espelho e apreciou o efeito do seu novo vestido. Nem sequer tinha de fingir um sorriso - a expressão estava espalhada no seu rosto como manteiga derretida num pão quente. Meu Deus, o fato era horrendo. Verdadeiramente horrendo. Nunca antes na história tanto dinheiro tinha sido colocado ao serviço de tão pouco gosto. Ele fez olhinhos para o espelho, satisfeito; oseureflrxo namoriscou de volta com ela: cabelo escuro, olhos escuros, croquete e misteriosa.

-O que acham, meus senhores? - perguntou, voltando-se. - Devia ter mais renda?

Aos pés dele, a atormentada Miss Yuna deixou escapar um queixume.

Outra coisa não seria de esperar.O vestido já estava sobrecarregado com três tipos diferentes de renda. À volta do casaco, havia metro após metro obscenamente caro de ondas compactas de renda azul em ponto de gaze. Um pedaço transparente de renda duquesa belga acentuava o decote e tiras escuras e compridas de renda preta chantilly com um motivo floral dissonante percorriam as mangas do fato. O tecidodo fato era uma bonita seda com um padrão. Claro que ninguém seria capaz de o ver sob o peso das camadas de renda que levava.

Aquele fato que era uma abominação de renda e Jimin adorava-o.

Um amigo verdadeiro, pensou Jimin, dir-lhe-ia para se ver livre da renda, de toda aquela renda.

Taehyung acenou com a cabeça.

-Mais renda. Estou convencido de que precisa de mais renda. De tipo diferente das outras três,?

Meu Deus. Não sabia onde podia enfiar mais renda.

- Um pequeno cinto, feito de renda? - sugeriu Jin

Era uma amizade curiosa, aquela que partilhava com os gémeos Kim. Os irmãos eram conhecidos pelo seu gosto infalível; e, em consequências, orientavam sistematicamente Jimin na direção oposta.Mas faziam-no de forma tão simpática que era quase um prazer ser objeto de troça dos dois irmãos.

Como Jimin queria ser orientado para o desastre, agradecia os esforços de ambos.

Eles mentiam-lhe e ele mentia-lhes. Uma vez a intenção de Jimin era ser um objeto de troça generalizada, em relação funcionava perfeitamente para ambas as partes.

Por vezes, Jimin perguntava-se como seria se fossem sempre honestos uns com os outros. Se os irmãos Kim se tivessem tornado amigos verdadeiros em vez de inimigos encantadores e delicados.

Jin examinou o fato de Jimin e fez um aceno delicado com a cabeça.

- Apoio definitivamente a ideia de um cinto de renda. Daria a esse fato um ar de dignidade indefinível que neste momento não possui.

Miss Yuna fez um som estrangulado com a garganta.

Era só as vezes que Jimin se perguntava se podiam ter sido amigos. Normalmente, lembrava-se das razões pelas quais não podia ter amigos verdadeiros. Todas as cem mil razões para isso.

Por esse motivo, limitou-se a assentir com a cabeça às sugestões horríveis doa irmãos Kim.

- O que acham as duas daquela tira interessante de renda de Malta que vimos há pouco, a dourada com as rosetas?

- Com certeza - -respondeu Jin, com um aceno. - A renda de Malta.

Os irmãos olharam um para o outro por cima dos leques, numa troca de sorrisos maliciosos clara como a água, quem dizia: Vamos ver o que podemos levar o Herdeiro das Penas a fazer hoje.

- Mr. Park Jimin. - Miss Yuna juntou as mãos numa imitação inconsciente de uma prece. - Por favor, tenha em atenção que podemos alcançar um efeito deveras superior ao utilizar menos ornamentos vistosos. Uma peça bonita de renda pode ser a atração principal de um belo vestido, um pormenor deslumbrante na sua simplicidade. mas em demasia... - Ela deixou a frase por acabar com um gesto floreado sugestivo.

- Mas em falta - observou Taehyung calmamente - , ninguém saberá o que tem para oferecer. O Jin e eu...bom, apenas temos dez mil libras cada um, por isso, os nossos fatos devem refletir isso.

Jin agarrou o leque com força.

- Infelizmente - declarou ele.

- Mas Mr. Park Jimin... o senhor tem uma dote de cem mil libras. Tem de fazer com que as pessoas saibam disso. Nada afirma uma fortuna tão bem como a renda.

- E nada afirma tão bem a renda como... mais renda - acrescentou Jin.

Os irmãos trocaram mais um olhar entre si.

Jimin sorriu.

- Obrigada - disse. - Não sei o que faria sem os dois. Têm sido tão bons para mim, a orientar-me em todas estas coisas. Não faço ideias do que está em voga nem tão-pouco a mensagem que a minha indumentária transmite. Sem vocês os dois para me guiarem,quem sabe as gafes que podia cometer.

Miss Yuna voltou a fazer um som estrangulado com a garganta, mas não disse mais nada.

Cem mil libras. Era uma das razões pelas quais Jimin estava ali, a ver aqueles homens encantadores e perfeitos a trocar sorrisos maliciosos que achavam que Jimin não entendia. Inclinaram-se uma para a outra e falaram por murmúrios, com as bocas recatadamente ocultas pelos leques; de seguida, fitaram-no de novo e soltaram um risinho abafado em uníssono. Achavam-no um verdadeiro bobo da corte, desprovido de qualquer gosto, juízo ou senso comum.

Jimin não se sentiu minimamente magoado.

Não se sentia magoado ao saber que o tratavam como um amiga à sua frente ao mesmo tempo que tratavam de expor os seus disparates a todos que encontravam. Não se sentia magoado quando eles o incitavam  a comprar mais, mais renda, mais joias, mais pérolas,simplesmente para alimentar a diversão de ambos. Não se sentia magoado ao saber que a cidade inteira de Seul se ria dele.

Não o podia magoar. No fim de contas, aquela fora a sua escolha.

Ele sorriu-lhes como se os risinhos deles fossem uma prova sincera de amizade.

- Que seja a renda de Malta.

Cem mil libras. Havia fardos mais terríveis do que o peso cem mil libras.

- A próxima quarta-feira é uma boa altura para usar este fato - sugeriu Jin - Foi convidado para o jantar do marquês Taemin, não é verdade? Nós insistimos para que fosse. - Os leques continuavam a subir e a descer,a subir e a descer.

Jimin sorriu.

- É claro que sim. Não me passa pela cabeça não estar presente.

- Vai lá estar uma pessoa nova. O filho de um duque. Um filho ilegítimo, infelizmente, mas, ainda assim, reconhecido. É quase tão bom como um filho legítimo.

Maldição. Jimin odiava conhecer homens novos e o bastardo de um duque parecia-lhe a espécie mais perigosa de todas. Devia ter uma grande opinião de si próprio e uma opinião bastante menor da sua carteira. Era precisamente o tipo de homem que ia ver as cem mil libras de Jimin e decidir que podia ser capaz de fechar os olhos a toda aquela renda à sua volta. Esse tipo de homem fecharia os olhos a uma grande quantidade de defeitos,se isso significasse ver o dote dele na sua conta bancária.

- Sim? - disse ele, num tom evasivo.

- Mr. Jeon Jungkook - declarou Taehyung. - Vi-o na rua. Ele não...

O irmão deu-lhe uma cotovelada delicada e Taehyung pigarreou.

- Isto é, ele parece muito elegante. Os óculos dele são muito distintos. E o cabelo tem uma cor muito...viva e...acobreada.

Jimin conseguia imaginar este espécime de duque frustrado na sua cabeça. Devia ser barrigudo. Devia usar coletes ridículos e um relógio de bolso que consultava constantemente. Devia sentir orgulho dos seus privilégios e ressentimento de um mundo que o tinha levado a nascer fora do casamento.

- Ele seria absolutamente perfeito para si Jimin - declarou Jin - É claro que, com os nossos dotes menores, ele deve achar-nos bastante...desinteressantes.

Jimin obrigou-se a sorrir.

- Não sei oque faria sem os dois - afirmou, com bastante sinceridade. - Se não vos tivesse para cuidarem de mim, ora,até...

Se não tivesse os dois a tentarem fazer dele motivo de chacota generalizada, um dia até podia, apesar dos seus esforços, conseguir impressionar um homem. E isso seria um desastre.

- Sinto que os dois são como meus irmãos, vendo a forma a forma como cuidam de mim - declarou. Talvez como meios-irmãos num conto de fadas horripilante.

- Nós sentimos o mesmo. - Taehyung sorriu-lhe - Como se o Jimin fosse nosso irmão.

Havia quase tantos sorrisos naquela divisão como renda no fato dele. Jimin enviou para o céu um pedido de desculpas mudo pela sua mentira.

Estes homens eram precisamente o oposto de um irmão.Afirmar isso era insultar o nome da sororidade, e se existia algo sagrado na vida de Jimin, era isso. Ele tinha uma irmã pela qual era capaz de tudo. Por Jennie, ele mentia, enganava, comprava um fato com quatro tipos de renda...

Cem mil libras não era um fardo difícil de carregar. Mas se um jovem senhor quisesse continuar solteiro,se precisasse de ficar com sua irmã, até a dita irmã atingir a maioridade e poder sair do seu guardião legal, aquele número tornava-se uma impossibilidade. 

Quase tão possível como quatrocentos e oitenta, o número de dias que Jimin tinha que ficar solteiro.

Quatrocentos e oitenta dias até a irmã atingir a maioridade. Dali a quatrocentos e oitenta dias,a irmã poderia deixar a casa do seu guardião legal e Jimin, que estava autorizado a viver na mesma casa sob a condição de se casar primeiro pretendente adequado que lhe fizesse uma proposta de casamento, podia pôr de parte aquele fingimento.Ele e Jennie seriam finalmente livres.

Jimin não era capaz de sorrir, usar metros de renda e até tratar o próprio Napoleão Bonaparte por irmão se isso mantivesse Jennie em segurança.

Sendo assim,tudo aquilo que tinha de fazer durante os próximos quatrocentos e oitenta dias era procurar um marido - procurá-lo com todo o afinco, e não se casar.

Quatrocentos e oitenta dias nos quais não se atrevia a casar e cem mil libras para o homem que se casaria com ela.

Aqueles dois números descreviam a dimensão da prisão dele.

E, por esse motivo, Jimin sorriu para Jin mais uma vez, grato pelo conselho dele, grata por ser orientado na direção errada de novo. Sorriu e, daquela vez, era um sorriso sincero.

*     *     *       

Alguns dias depois

Para Mr. Jeon Jungkook, a ideia de prescindir do casaco quando entrou na casa do marquês Taemin era quase abominável. Conseguia sentir o frio atravessar as luvas, a corrente de um vento invernoso a sacudir as vidraças. O arame da armação dos óculos que levava parecia gelo junto às orelhas. Mas era demasiado tarde.

Taemin, o seu anfitrião, dera um passo em frente.

- Jeon - disse ele, num tom afável. - Que bom vê-lo de novo.

Jungkook entregou as luvas e o seu pesado sobretudo para apertar a mão que o marquês lhe estendia.

- Que bom vê-lo de novo igualmente,meu senhor. Já não nos víamos há muito tempo.

As mãos de Taemin também estavam frias. Tornara-se mais barrigudo naqueles últimos anos e o cabelo fino e negro recuara na sua testa, mas o sorriso que dirigiu a Jungkook continuava o mesmo: amigável, mas frio.

Jungkook conteve um arrepio. Era indiferente a altura de carvão preparada pelos criados ou o fulgor das lareiras que acendiam. Aquelas casas antigas e majestosas pareciam estar sempre habitadas por um frio invernoso. Os tetos elevavam-se demasiado; o mármore do chão parecia gélido mesmo através das solas dos sapatos. Para onde quer que Jungkook olhasse, via espelhos, metal e pedra - superfícies frias que se tornavam ainda mais frias pela vastidão ampla e vazia que se rodeava.

Ia aquecer assim que se afastassem da entrada, Jungkook disse a si próprio. Quando mais pessoas chegassem. Por agora, apenas estavam presentes Taemin, Jungkook e dois homens mais novos. Taemin fez-lhes sinal para se aproximarem.

- Namjoon, Beomgyu, apresento-vos Jeon Jungkook. Um velho amigo da escola. Jeon, este é o meu sobrinho Kim Namjoon, o mais recente conde de Busan. - O marquês Taemin fez um gesto para o homem que estava ao seu lado, com uma expressão grave e pálida. - E este é Mr. Beomgyu, o meu outro sobrinho. - indicou um indivíduo com um tufo de cabelo ruivo e suíças rebeldes condizentes. - Cavalheiros, este é Jeon Jungkook. Convidei-opara me auxiliar a completar a vossa educação, por assim dizer.

Jungkook inclinou a cabeça à laia de saudação.

- Fui incumbido de tratar da iniciação de Namjoon - explicou Taemin.- Ele vai ocupar o seu lugar na Câmara dos Lordes no mês que vem e nenhum de nós estava à espera disso.

Namjoon tinha uma faixa preta à volta do braço e as roupas que trazia eram escuras. Talvez houvesse uma razão para que a casa parecesse fria e sombria, no fim decontas.

- Lamento sabê-lo - afirmou Jungkook.

O novo conde endireitou as costas e lançou um olhar a Taemin antes de responder:

- Obrigado.Tenciono dar o meu melhor.

Aquele olhar, aquela deferência para com ooutro homem... Era esse o motivo pelo qual Jungkook estava ali. Não para relembrar amizades da época da universidade que tinham amornado com o passar dos anos. Taemin era o tipo de homem que protegia estreantes no parlamento. Protegia-os e depois esforçava-se por mantê-los dentro do círculo restrito. Tinha uma coleção impressionante.

- Gostava de ter um pouco mais de tempo para o preparar, mas está a sair-se bem. - Taemin deu ao sobrinho uma pancadinha aprovadora no ombro. - E Seul não é um dos piores sítios para fazer esse exercício. É um microcosmo do mundo lá fora. Vai ver que o Parlamento não é assim tão diferente.

- Um microcosmo do mundo? - Jungkook expressou as suas dúvidas. Nunca se cruzara com um mineiro em Seul.

Mas Taemin não percebeu o significado das palavras dele.

- Sim. existe uma pequena variedade representativa da ralé aqui. - Ele dirigiu o olhar para Jungkook.

Jungkook não disse nada. Para um homem como Taemin, ele era ralé.

- Mas, por norma, a ralé orienta-se a si mesma - prosseguiu Taemin. - É essa a razão de ser de uma instituição como Seul. Qualquer pessoa pode aspirar a uma formação em Seul, por isso qualquer pessoa que tenha aspirações escolhe começar ali. Se fizerem as coisas como deve ser, quando terminarem os seus estudos, os mais ambiciosos tornar-se-ão exatamente iguais a nós. Ou, pelo menos, querem entrar nos nossos círculos de forma tão obsessiva que, mal nos damos conta, toda a sua ambição foi subordinada a essa glória grandiosa.

Ele acenou enfaticamente com a cabeça para Jungkook.

 Em tempos, Jungkook teria ficado irritado com um discurso daqueles. A insinuação maliciosa de que Jungkook não pertencia àquele grupo, e a insinuação ainda mais maliciosa de que fora subordinado aos objetivos de Taemin em vez de ser uma pessoa por direito próprio...

Aos treze anos, teria atirado Taemin ao chão com um soco por cometer precisamente aquele pecado. Mas agora já compreendia. Taemin fazia-lhe lembrar um velho agricultor que calcorreava o perímetro da sua propriedade todos os dias para verificar as cercas e fitar com desconfiança os seus vizinho, certificando-se de que o seu lado e os lados deles estavam claramente demarcados.

Foram precisos anos para aprender aquela lição: manter-se em silêncio e deixar os homens como Taemin inspecionarem as cercas. Não lhes serviria de nada, e se tivesse cuidado, um dia estaria numa posição que lhe permitia comprar toda aquela maldita quinta dele.

Por isso, Jungkook manteve-se em silêncio.

- As senhoras e os senhores chegaram em breve - anunciou Taemin - ,por isso se quiserem começar por um brandy... - fez um gesto com a mão para se afastarem da entrada.

- Brandy - disse Beomgyu decididamente e o grupo passou para uma sala ao lado.

Taemin tinha uma divisão inteira reservada para nada mais do que aquilo - um aparador com copos e uma garrafa de cristal com um líquido âmbar. Mas, pelo menos, aquela divisão era mais pequena, e, por conseguinte, mais quente. O marquês serviu porções generosas em copos de vidro em pé.

- Vão precisar disto - declarou, oferecendo copos aos sobrinhos, em primeiro lugar e, a seguir, a Jungkook.

Jungkook aceitou a bebida.

- Muito obrigado, Taemin. A propósito do próximo mês de fevereiro. Gostaria de falar consigo a respeito de um assunto. A lei da reforma do voto, na próxima sessão parlamentar...

Taemin riu-se e deu um gole no copo.

- Não, não - disse ele. - Ainda não vamos falar de política, Jeon.

- Muito bem. Se não o fizermos agora, talvez o possamos fazer mais tarde. Amanhã ou...

- Ou no dia seguinte, ou no dia seguinte a esse - concluiu Taemin com um brilho nos olhos. - Temos de ensinar ao Namjoon como deve começar antes de lhe ensinar o que vai começar a fazer. Ainda não é o momento.

Aparentemente, aquela opinião não era unânime entre o grupo. Namjoon erguera o olhar com interesse quando Jungkook começara a falar, mas quando ouviu aquelas palavras, franziu o sobrolho e desviou o olhar.

Jungkook podia ter argumentado. Mas pensou duas vezes.

- Muito bem - respondeu num tom apaziguador. - Mais tarde.

Um homem como Taemin precisava de receber uma certa deferência. Precisava de saber que o vizinho se detinha a um metro e meio de vedação em vez de desafiar os limites da propriedade. Jungkook já persuadira aquele homem antes e sabia como fazê-lo. Taemin podia ser conduzido, desde que ninguém desfizesse a ilusão de que ele estava no comando.

Por isso, Jungkook permitiu que a conversa girasse à volta do assunto de amigos em comum e da saúde do irmão de Jungkook e da sua mulher. Durante alguns momentos, podiam fingir um ambiente acolhedor e íntimo. Mas depois Taemin, que estava junto à janela, ergueu a mão mais uma vez.

- Terminem as bebidas - declarou. - O primeiro senhor acabou de chegar.

Beomgyu olhou para a janela e deixou escapar um queixume.

- Meu Deus, por favor,não. Por favor, não me diga que convidou o Herdeiro das Penas.

- O culpado é o seu primo. Taemin ergueu uma sobrancelha. - Namjoon quer alguns minutos a sós no canto da sala com o noivo. E, por alguma razão desconhecida, Mr. Kim Seok Jin insiste que ele seja convidado.

- A propósito disso - afirmou Namjoon, com uma dignidade tranquila que parecia desajustada às feições juvenis - , preferia que não caluniássemos os amigos do meu noivo.

Beomgyu bufou de forma audível. A julgar pela expressão sinistra que exibia, pensou Jungkook, parecia acabado de ser condenado a três anos de trabalhos forçados.

- Desmancha-prazeres - disse por entre os dentes e depois aproximou-se de Jungkook. - Alguém devia avisá-lo - disse, no mesmo fio de voz.

- Avisar-me em relação a quê?

O homem inclinou-se para a frente e sussurrou num tom dramático:

 

- Em relação ao Herdeiro das Penas.

- A fortuna dele tem origem em... penas de ganso?

- Não. - Beomgyu não olhou para ele. - Teve origem em navios a vapor transcontinentais, na verdade. Chamam-lhe o Herdeiro das Penas porque estar ao lado dele é como ser sovado até à morte com penas.

A expressão no rosto dele era extraordinariamente séria. Jungkook abanou a cabeça, exasperado.

- Não se pode sovar alguém até à morte compenas.

- Por acaso, é algum especialista no assunto? - Beomgyu ergueu o queixo. - É para ver o pouco que sabe em relação a isso. Imagine em alguém que lhe começa a bater com uma pena. Imagine que nunca para, até que um dia, a irritação constante provocada pelas penas de ganso o leva até o limite. Num ataque de fúria, estrangula a pessoa que lhe tem estado a bater. - Ele fez uma demonstração com um movimento súbito com as mãos. - A seguir, é enforcado por homicídio. O senhor, meu amigo, foi sovado até à morte com penas.

Jungkook soltou uma exclamação desdenhosa.

- Ninguém é assim tão mau.

Beomgyu levou a mão à cabeça e esfregou as rugas em torno das sobrancelhas.

- Ele consegue ser pior.

- Vá - disse Taemin e ergueu um dedo. - Ele está quase a chegar. Isto não é de bom-tom, cavalheiros. - Ele deu ênfase à última palavra e depois pousou o copo. Fez um gesto e os seus jovens sobrinhos seguiram-no de volta à entrada. Jungkook seguiu-os igualmente, num passo lento.

Sim, Jungkook sabia o que era bom-tom. Estivera do lado de quem recebia aqueles quase insultos demasiadas vezes. A educação das classes mais altas calculava a crueldade não pelas palavras que eram ditas, mas pela duração do silêncio que passava.

Um criado abriu a porta e dois homem avançaram até à entrada. Um deles, envolta em dobras de lã escura à mistura com branco, era claramente um acompanhante. Baixou o pesado capuz que trazia, revelando um cabelo grisalho  encaracolado e uns lábios finos.

A outra...

Se alguma vez um homem anunciar que era um Herdeiro, aquele fazia-o com toda a pompa. Fizera todos os esforços possíveis para fazer gala da sua fortuna. Usava um manto debruado com pele, branco e macio, e luvas de pelica com pele de arminho nos punhos. Abanou a cabeça e depois abriu a fivela do pescoço, uma fivela que exibia um brilho dourado. Quando se mexia, Jungkook notou algo a cintilar nas orelhas dele, o brilho de diamantes e prata.

Como se fossem um todo, os homens deram um passo em frente para cumprimentar.

Mr. Park - declarou o marquês Taemin. - O tom da voz dele( Taemin) era agradável e jovial ao mesmo tempo que lhe inclinava a cabeça.

Meu senhor - respondeu ele.

Jungkook aproximou-se com o resto do grupo,mas deteve-se subitamente quando ele retirou o manto. Ele era...

Ele fitou-o fixamente e abanou a cabeça. Ele devia ser bonito. Os olhos eram escuros e cintilantes; o cabelo estava solto, numa profusão acetinada de caracóis destacados e engenhosamente em volta dos ombros. Os lábios eram rosados e cheios, suspensos num meio-sorriso recatado e a figura dele, ou pelo menos, o que conseguia ver dele, era precisamente o tipo de figura masculina que ele apreciava, macio e cheio, feito de curvas que até o espartilho mais determinado não era capaz de ocultar. Em qualquer outra circunstância, era provável que passasse o serão inteiro a roubar-lhe olhares.

Mas olhar para ela era como pegar num pêssego magnífico e descobrir que o bolor se apoderara de metade daquele fruto delicioso.

O fato dele era pavoroso. Não havia outra palavra para o descrever e mesmo aquela dificilmente fazia justiça ao arrepio de horror impotente que sentiu a atravessá-lo.

Um pouco de renda estava na moda. Punhos de renda, talvez, ou alguns centímetros na bainha. Mas o fato de Mr. Park tinha renda em todo o lado - camada após camada do material mais intricado feito à mão que se podia comprar. Renda preta. Renda azul. Um debrum de renda dourada. Era como se alguém tivesse entrado de rompante numa loja, encomendado cerca de trezentos metros de cada um dos tipo de renda mais caros que existam e depois enfiado cada centímetros de renda num único vestido.

Não era como estragar uma flor que já era bela. Se havia uma flor bela debaixo de tudo aquilo, há muito que fora esmagada sem dó e piedade.

O grupo deteve-se subitamente quando ele despiu o manto, paralisado numa contemplação muda de um guarda-roupa que fazia com que a palavra «berrante» se tornasse doce e modesta, em comparação.

Taemin foi o primeiro a recuperar.

Mr. Park - repetiu ele.

- Sim, o senhor já me cumprimentou. - Ela tinha uma voz muito bonita. Se Jungkook pudesse fechar os olhos... Ou talvez olhar para ele do pescoço para cima...

Ele avançou dengosamente para a frente, demasiado para a frente, avançando até Taemin ao ponto de ele se ver obrigado a dar dois passos para trás. Isto fez com que os brincos dele, pedras pesadas de diamantes com fechos de prata, ficassem a baloiçar apenas a alguns centímetros dos olhos de Jungkook.

Um daqueles brincos podia comprar três quintas iguais àquela que os seus pais possuíam.

Muito obrigado pelo convite - disse ele. Ao mesmo tempo que falava, dobrou o manto.

Um dos criados de libré cinzenta devia ter avançado e aliviado Mr. Park daquele peso. Mas eles, tal como todos os outros, tinham ficado momentaneamente aturdidos com a abominação da roupa dele.

Mr. Park não pareceu reparar nisso. Sem olhar uma única vez para o lado, nem sequer lançar um olhar superficial a Jungkook, passou-lhe o manto para as mãos. Os dedos dele agarraram no tecido antes de conseguir interiorizar o que ele fizera. Ele voltou-lhe as costas,cumprimentou Namjoon e Beomgyu com uma voz agradável e uma nuca tentadora repleta de pequenos caracóis.

Ele passara-lhe o manto para as mãos. Como se ele fosse um criado. Um lacaio pressuroso aproximou-se de Jungkook, tirando o fardo indesejado das mãos dele,como quem pede desculpa, mas era demasiado tarde. Conseguia ver o rosto horrorizado no rosto de Beomgyu, um sorriso que parecia não ser capaz de reprimir. Taemin brindou igualmente Jungkook com um sorriso demasiado expansivo.

Há muito tempo que ele não ficava zangado com pequenas desconsiderações e aquela nem sequer tinha sido intencional. Mas, meu Deus, ele era um desastre. Quase sentiu pena dele.

Taemin fez um gesto atrás de Jungkook.

- Mr. Park - disse ele -, está aqui outro homem ao qual ainda não foi apresentado.

Está? - Mr. Park voltou-se e pousou finalmente os olhos em Jungkook. - Céus. Nem sequer o vi quando entrei.

Ele tinha-o visto. Mas pensara que ele era um criado.Um erro simples; nada mais do que isso.

Mr. Park - proferiu Jungkook num tom untuoso - , é um prazer.

Mr. Park Jimin, apresento-lhe Mr. Jeon Jungkook -declarou Taemin.

Ele inclinou a cabeça para o lado e olhou para ele. Ele era bonito. Aquela parte irritante do cérebro dele não podia deixar de reparar nisso, apesar das opções chocantes que ele elegera no momento de se vestir. Bonito, se fosse um apreciador do tipo de homem tipicamente coreano, saudável e luminoso. Por norma, Jungkook era.

Perguntou-se quando é que iria aperceber-se do erro que cometera. Os olhos dele semicerraram-se, concentrados, e o sobrolho franzido fez surgir uma ruga no queixo.

Mas nós já nos conhecemos - disse ele.

Não estava à espera daquilo. Jungkook fez uma expressão de espanto, indeciso.

Tenho a certeza de que já nos conhecemos - continuou ele. - Parece-me familiar. Existe alguma coisa em si, alguma coisa... - Mr. Park bateu com um dedo no lábio, abanar a cabeça ao mesmo tempo. - Não - concluiu ele, com tristeza. - Não. Estou enganada. É simplesmente o facto de parecer tão comum com esse cabelo e esses óculos que me levou a confundi-lo.

Ele parecia comum ?

Outra mulher qualquer que lhe dirigisse um insulto daquela magnitude teria dado mais ênfase à palavra só para ter a certeza de que o seu propósito não era mal compreendido. Mr. Park, porém, não agiu como se estivesse a provocar uma humilhação. Parecia que estava a fazer uma observação a respeito do número de cachorrinhos de uma ninhada.

Perdão? - Ele deu por si a endireitar um pouco mais as costas, a olhar para ele com uma expressão vagamente gélida.

- Não há necessidade de me pedir perdão - disse ele com um sorriso. - Não pode fazer nada em relação ao aspeto, estou certo disso. Jamais iria recriminá-lo por esse motivo. - Ele acenou-lhe com a cabeça, de modo tão gracioso como um rei, como se lhe estivesse a fazer um favor tremendo. E, a seguir, franziu o sobrolho. - Peço imensa desculpa, mas podia repetir o seu nome?

Jungkook fez-lhe uma vénia excessivamente hirta.

Mr. Jeon Jungkook. Ao seu serviço Não interprete isso literalmente, quase que acrescentou.

Os olhos dele arregalaram-se.

Jungkook. Deram-lhe esse nome, quiçá, devido a Jeon Junghyun?

Aquele sorriso nos lábios dele não era definitivamente genuíno. O logro quase foi desmascarado pela tensão que sentia.

Não, Mr. Park. Não foi esse o motivo.

- Não lhe deram o nome do único Lorde Protetor da Coreia? Ora, imagino que ele seria um exemplo que os seus pais gostariam que procurasse igualar. Ele começou como uma pessoa comum como o senhor, não foi?

- O nome não pressupõe nada de tão grandioso - conseguiu ele dizer. - O pai da minha mãe chamava-se Jungkook.

Talvez a ele lhe tivesse dado o nome...

Não - interrompeu Jungkook. - Posso garantir-lhe que ninguém na minha família esperava ver a sua vida terminar numa execução póstuma.

Quase achou que ele sorriu depois daquelas palavras, mas a contração do canto dos lábios dele desapareceu antes de ele ter a certeza de que existiu. Naquele momentos, a conversa interrompeu-se.

Um, dois, três...

Em rapaz, Jungkook andara de um lado para o outro entre dois mundos, entre os círculos mais elevados da classe alta, tão gelidamente bem-educado, e o mundo mais animado da classe trabalhadora que os seus pais habitavam. Segui-se um silêncio gélico que Jungkook associava aos momentos de embaraço da classe alta. Era aquele momento em que todos os homens presentes efetuavam uma avaliação uma avaliação baseada nas novas maneiras e decidiram guardar os seus pensamento para si próprios em vez de falar em voz alta e arriscar cometer uma indelicadeza. Fora o destinatário daquele silêncio muitas vezes em rapaz: quando se referia à ocupação anterior pai como pugilista...Na verdade, durante aqueles primeiros anos até ele aprender as regras, aquele silêncio instalava-se invariavelmente de cada vez que abria a boca.

Muitos embora fosse algo supostamente criado pelas boas maneiras, aqueles silêncio podia cortar-se com uma faca. Jungkook tinha estado do lado de fora vezes suficientes para saber exatamente o quanto ele era cortante. Olhou para Mr. Park.

...quatro, cinco, seis...

Os lábios dela estavam serenos, numa aceitação plácida.  O sorriso era aberto e honesto. Não havia qualquer sinal de que se tivesse apercebido sequer da tensão que existia.

Quem mais se vai juntar a nós este serão? - perguntou ele. - Soobin? Yeonjun?

Não, bem... - Namjoon olhou em volta. - O Yeonjun não, ele está...indisposto.

Esse é um daqueles...como é que lhe chama, aquilo que alguém diz para evitar dizer a verdade? - Mr.Park abanou a cabeça, o que fez tremer os brincos de diamante. - A palavra está na ponta da minha língua. Consigo senti-la. É um...um... - Ergueu o queixo, com os olhos subitamente iluminados. - Eufemismo! - Estalou os dedos. - Isso é um eufemismo, não é? Diga-me, será que, na verdade, não estará apenas apenas ainda embriagado da noite passada?

Os homens trocaram olhares entre si.

Muito bem - disse Namjoon, devagar. - Mr. Park, por favor aceite o meu braço... - Ele conduziu-a para fora da entrada.

Pobre homem - declarou Beomgyu - Ele costumava fazer troça dele, até Mr.Jin o fazer parar. Não é nada divertido agora que está perdido de amores por Mr. Jin.

Por norma, Jungkook não aprovada fazer troça das pessoas nas suas costas. Era cobarde e cruel e sabia, por experiência própria, que nunca passava tão despercebido como as pessoas que o faziam achavam.

Pobre Mr. Park. Ela personificava o oposto da arte da conversa, o oposto do bom gosto. Eles iam arrasá-lo sem dó nem piedade e Jungkook ia ser obrigado a assistir a isso.

 


Notas Finais


Continua ( finalmente acabei o 1º capítulo)


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