História O ponto, a vírgula e a vida - Capítulo 1


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Categorias Dragon Ball
Personagens Bulma, Goku
Tags Bulma, Bulmaxgoku, Gobul, Goku, Gokuxbulma, Gulma, Hentai, Romance, Universo Alternativo, Vida
Visualizações 18
Palavras 3.979
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Hentai, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


*Os personagens de Dragon Ball pertencem à Akira Toryiama e estão aqui apenas para ilustrar essa história.

Capítulo 1 - O ponto


Se Bulma soubesse que seu dia seria péssimo, mas mudaria toda a sua vida ou pelo menos parte dela, ela não teria levantado tão apressada. Se Bulma soubesse que seu dia seria péssimo, ela teria passado mais tempo sob a água morna, usado seu sabonete com a esponja massageadora, teria acariciado seu corpo devagar, enxaguado com calma e passado o óleo corporal novo. Se ela soubesse que o seu dia mudaria uma parte de sua vida, Bulma não teria se enfiado naquele uniforme de tecido áspero e mal costurado. Não teria prendido o cabelo naquele coque ridículo e teria passado seu perfume favorito. Se alguém tivesse alertado Bulma para um dia ruim, ela teria esperado o café passar, teria se sentado e cortado o pão em rodelas e comido com geleia de framboesa, como ela gostava de fazer nos dias de folga. Ela teria feito um suco de laranja natural, talvez ovos mexidos com manteiga e beberia o café enquanto fumava um cigarro bem devagar. Se Bulma soubesse que seu dia seria ruim e que sua vida mudaria em questão de horas, ela teria pego os fones de ouvidos para ouvir suas músicas preferidas enquanto encarava o metrô lotado e teria se lembrado do livro que estava na mochila há meses e a página 36 marcada com uma dobra na ponta da folha.

Bulma teria colocado os fones, selecionado a playlist de músicas que ela classificou como “músicas para ler”, dado play em “Creatures” de Shannon Saunders e tirado o livro da mochila. A música estaria no modo repeat e os dedos de Bulma dançando delicadamente pelas páginas até encontrar a marcação. “A Casa dos Budas Ditosos” de João Ubaldo Ribeiro, era o livro que ela tentava ler, mas toda vez o celular tocava, uma mensagem chegava ou ela dormia quando conseguia um lugar para sentar. 

Se Bulma soubesse que seu dia estava esperando para acabar com seu humor, ela teria dormido mais. Teria se espreguiçado antes de levantar. Não teria ligado o rádio na estação de notícias para ouvir sobre como tudo estava ruim no país. Ela teria calçado seus tênis favoritos e não aqueles sapatos de meio salto horrorosos e pesados que estavam deixando seus calcanhares com calos. Ela teria trocado os brincos de argola pelos minimalistas em formato de triângulo comprados em uma dessas lojas vintage. Teria trocado a mochila por uma bolsa pequena e transversal. Teria trocado a maquiagem pesada pela cara lavada e passado apenas um brilho labial ou o lip tint vermelhinho. Teria acariciado Karin, o seu velho gato branco, por mais tempo do que ele sempre esperava pela manhã. Bulma teria enchido a garrafa de água, separado umas bolachinhas e as uvas verdes sem semente para comer quando desse vontade. Teria passado na doceira e comprado chocolate e um belo pedaço de merengue de morango para comer sentada no banco da praça que tinha um lago com patos. Uma família de patos que ficavam nadando preguiçosos durante o dia todo. Bulma teria percebido que sua roseira havia dado um botão e que o vaso das suculentas estava precisando de água.

Mas Bulma tinha pressa, como em todos os dias e ela não podia se dar ao luxo para essas coisas tão pequenas.

Bulma tinha que trabalhar.

 

 

 

 

 

Goku despertou como quem desperta de uma soneca leve em uma tarde quente de domingo após o almoço. Abriu os olhos devagar acostumando-se a claridade suave do quarto. Os olhos estavam pesados e inchados por conta das horas que passou chorando, mas Goku sentia-se bem. Virou o corpo sob o lençol e encarou o teto. Colocou os braços por baixo da cabeça e deixou que seus pensamentos vagassem livremente pelas horas que já eram passadas. Ele pensou que se soubesse o que estava por vir poderia ter aproveitado mais o tempo, as conversas, a companhia e tudo que lhe era oferecido. Goku sorriu, ele sabia que tinha aproveitado. Ele tinha a plena certeza que não perdera sequer um momento especial ou simples e virou-se novamente colocando um pé após o outro para fora da cama e tocou o chão de madeira do quarto. Sentou-se e apoiou os cotovelos nas coxas deitando a cabeça nas mãos em concha. Uma lágrima saltou para o abismo e se espalhou no chão. Era inevitável tentar contê-las, mas agora já estavam mais calmas. Ele escorregou os dedos entre os cabelos empurrando-os para trás e ergueu a cabeça. Levantou e foi direto para a janela, abrindo as cortinas de tecido leve e em seguida abriu o vidro. Respirou fundo de olhos fechados sentindo o ar fresco da manhã inundar seus pulmões.

O cheiro das coisas que também estavam acordando junto com ele. Era a vida. Já dizia o velho Son Gohan. Goku ouviu o canto dos pássaros que moravam na grande árvore que havia no quintal. Eram moradores antigos e grandes amigos do avô de Goku. Ele abriu os olhos e os viu em um dos galhos mais altos. Os filhotes já haviam partido há muito tempo, mas o casal permanecia como permanecem os pais na casa antiga e cheia de lembranças. O céu estava azul e sem nuvens, o sol já brilhava forte e o dia seria quente, mas naquele momento ainda estava fresco e Goku lembrou-se do conselho do avô sobre como cuidar das flores e regá-las pela manhã. Son Gohan tinha sempre um conselho sábio e Goku os ouvia com atenção, mesmo que não praticasse. Uma última olhada para o jardim e ele tirou a camiseta e foi para o banheiro. Estava acostumado a tomar duchas matinais geladas e ficou um bom tempo sob a cascata artificial do chuveiro. As mãos encostadas na parede, os olhos fechados e os pensamentos vagando livremente pela mente. Mais uma lágrima se soltou e se misturou com a “água doce” tornando-se parte da grande cascata. Goku pensou que se soubesse o que estava por vir teria feito um chá e sentado à mesa para comer bolinhos de chuva enquanto ouviam Baden Powell e falavam sobre as garotas do vovô. Ele riu. Son Gohan nunca se casou, mas nunca ficou totalmente solitário.

A água parou de cair e Goku puxou a toalha. Secou o rosto e os cabelos e depois o corpo. Secou-se devagar enquanto os pensamentos vagavam para longe. Ele não o impedia, não era possível. Tudo agora era diferente, ele sentia. E assim saiu do banheiro, deixando pegadas molhadas no piso e no guarda roupas escolheu uma camiseta mais larga e confortável. Uma calça jeans já um tanto surrada e macia e calçou os tênis que havia ganhado do avô em seu aniversário. Não se olhou no espelho, não precisava. Deixou a toalha na ponta da cama e foi para a cozinha. O cheiro de café o encontrou na metade do caminho e Goku respirou fundo prendendo o máximo do aroma que podia. O café tinha sido feito por Gine, sua mãe, mas ela já não estava mais na casa. Deixou um bilhete e saiu para terminar de preparar tudo. Goku pegou a xícara de louça e serviu-se devagar, observando o líquido escuro cair e a fumaça se espalhar. Misturou um pouco de leite e pegou um pão de milho redondo. Olhou para a cadeira da frente onde estaria Son Gohan fazendo a mesma coisa. Goku sorriu e os olhos lacrimejaram. Ele cortou o pão ao meio e passou manteiga devagar, observando como ela se espalhava fácil e as marcas do serrilhado da faca deixando vincos como uma terra sendo arada. Fechou o pão e tirou um pedaço. Comeu devagar, sentindo o gosto de cada alimento, da bebida meio parda, das frutas doces colhidas no pequeno pomar atrás da casa. Depois acendeu um cigarro e fumou devagar, enquanto tomava café puro e lembrou da última conversa que teve com o avô.

Son Gohan parecia saber que partiria naquela noite e chamou o neto para se sentarem embaixo da grande árvore. Gohan falou da vida, como sempre fazia, mas dessa vez ele falou sobre a vida quando ela começa e quando ela termina. Não falou sobre como ela se desenvolve e tudo que representa e apresenta para as pessoas. Apenas o começo e o fim.

Goku lavou a louça e deixou no escorredor em cima da pia. Alimentou o velho Shu, o cachorro de Son Gohan. O acariciou por um longo tempo enquanto se olhavam, olhos nos olhos. Goku se perguntou se o cachorro realmente o via, já que a catarata havia tomado conta dos olhos sempre atentos de seu fiel amigo. Shu já estava com 20 anos, quatro a mais do que o esperado, porém, Son Gohan dizia que o vira latas vivia plenamente, sem preocupação com o dia seguinte e era isso que tornava sua vida mais longa. Mas Goku se perguntava se agora Shu se entregaria e partiria, já que seu maior amigo não lhe faria mais companhia. Shu fechou os olhos aproveitando a carícia de Goku e o homem deixou que mais algumas lágrimas rolassem vagarosamente por seu rosto. O cachorro respirava devagar, deitado de lado. O pelo marrom e macio tinha um certo brilho e o focinho estava completamente branco. Goku sorriu, Shu ainda lhe faria companhia por algum tempo, ele tinha certeza disso, só não sabia por quanto tempo, mas como havia aprendido com Son Gohan, ele não deveria pensar nisso e sim aproveitar todo o tempo que teria. Goku se levantou e se despediu de Shu, prometendo voltar logo. Passou os olhos pela sala, abriu a janela para que o sol entrasse e saiu sem trancar a porta. Não havia perigo. Não precisava se preocupar.

Goku tinha um avô para se despedir.

 

 

 

 

 

Os olhos de Bulma doíam pela força que faziam para deter as lágrimas que teimavam em descer, mas ela não iria chorar. Não na frente dele. Poderia correr para o banheiro depois e gritar enquanto apertava a descarga e sentaria na tampa do vaso e deixaria que suas lágrimas se libertassem. Naquele momento Bulma tinha que lutar para não perder o trabalho e o mais importante para ela, suas pesquisas.

- Eu sinto muito Bulma.

- Mas..., - seu chefe não conseguia encará-la - por quê? O que fizemos de errado?

- Nada. E esse é o motivo. - o chefe olhou para Bulma - Nós fizemos tudo e agora os créditos são deles.

- Isso não é justo! - Bulma bateu no tampo da mesa de madeira maciça - Toda a pesquisa é nossa!

- E todo o dinheiro é deles Bulma. - o chefe baixou os olhos novamente - O dinheiro dita o que é justo.

“O dinheiro dita o que é justo.”, Bulma repetiu mentalmente. Ela desviou os olhos do homem à sua frente e passou a olhar para a sala que servia de escritório. Era uma sala relativamente grande, com móveis antigos feitos em madeira de lei. Deviam ter a idade da fundação da universidade, uns 150 anos, e ainda preservavam a imponência colonial como se tivessem acabado de sair da fábrica. O chão era forrado com um carpete escuro e duro, forte o suficiente para aguentar anos de pisadas e o peso dos móveis, mas o que Bulma mais gostava naquela sala eram as estantes. Iam do chão ao teto e estavam totalmente forradas de livros. Diversos temas, línguas, tamanhos, grossuras. Não eram organizados por assunto ou ordem alfabética, eles apenas foram colocados ali ao longo do tempo e permaneceram, depois de mais um tempo, intocáveis. Mesmo assim era uma bela moldura que Bulma não viria mais. Ela respirou fundo e soltou devagar. Sentiu o cheiro de madeira misturado com o lustra móveis misturado ao cheiro de pano velho do carpete e por último o cheiro dos livros. Bulma gostava de cheiro de livros, principalmente os velhos. Era como se ela pudesse sentir o tempo agindo sobre eles e as mãos que os tocaram muitas e muitas vezes. Algumas com cuidado outras nem tanto. Mas ela gostava disso, gostava de imaginar quantas histórias a mais, além do que tinha em cada livro, podiam ser contadas. Por onde passaram, por quais pessoas passaram, por quanto tempo ficaram. 

Havia um em especial que se destacava na prateleira do meio e que Bulma sempre olhava para ele, mas nunca o havia tocado. Ela não sabia o título e nem quem era o autor, apenas olhava curiosa toda vez que entrava naquela sala. A borda vermelha sobressaía entre as outras de cor preta, branca, amarela, marrom e talvez fosse por isso que chamou a atenção. Era cheio de páginas que o deixavam grosso e largo, ocupando um bom espaço perto de seus companheiros magricelas.

- Podemos fazer alguma coisa? - a pergunta saiu mais como um pensamento alto do que realmente uma pergunta.

- Não. - a voz do chefe soou baixa.

Bulma se levantou e foi até a prateleira que guardava o livro vermelho. Ela não o tocou logo que se aproximou, olhou por cima e depois leu o título que estava escrito em letras médias e brancas na borda larga. “O Cartaginês” de Nauaf Hardan. Bulma não fazia ideia de quem era o autor, mas isso não importava. Finalmente ela tinha conseguido saber o título do livro e talvez ele tivesse muito mais que mil páginas. Com a ponta do indicador ela puxou o livro, encaixou na mão e o tirou da estante. Todo o livro era de capa vermelha e papel comum rígido. Estava bem conservado, mas as páginas um pouco amareladas e graças a moça que cuidava da limpeza da sala, não havia poeira no livro, em nenhum deles. Mas Bulma considerou que aquele livro deveria ter ao menos um pouco de poeira. Na capa havia uma figura de um homem montado em seu cavalo que estava sobre as patas traseiras enquanto ele bramia a espada para cima. O homem usava um elmo grande e uma capa vermelha por cima de uma armadura tradicional grega. A edição era de 1985 e o livro tinha um pouco mais de 600 páginas, menos do que Bulma havia imaginado.

- E agora? - ela virou-se para o chefe e abraçou o livro.

- Você irá receber todos os seus direitos, mas se quiser ficar, pode trabalhar comigo em pesquisas patrocinadas.

- Não era isso que eu queria saber. - Bulma voltou a sentar-se e o homem a encarou - Nossa pesquisa, vai pra onde?

- Eu não sei. - o homem balançou a cabeça - Mas sei que será desenvolvida por Maki Gero.

Bulma riu. Não porque ela achou graça, mas pela ironia da circunstâncias. Maki Gero era um cientista conhecido, porém nunca desenvolvera nada útil e era por isso que ele era famoso. Já havia sido acusado de roubar estudos de outros cientistas e assinar como se fosse dele. Mas por algum motivo o governo o tinha contratado para continuar o desenvolvimento do projeto no qual Bulma havia trabalhado arduamente durante três anos com uma equipe de pesquisadores competentes e muito inteligentes. Ela era responsável por uma parte importante da pesquisa e chegou aos resultados sozinha, ganhando respeito e admiração dos colegas. Agora, tudo no que eles trabalharam estava indo para as mãos sujas de Maki Gero e ela não podia fazer nada.

- Eu agradeço por tudo, - Bulma apertou o livro nos braços - mas não vou continuar a trabalhar aqui.

- Eu entendo. - o chefe dela queria dizer o mesmo, mas ele já era considerado velho para o mercado.

- O que devo fazer? - as lágrimas voltaram com força total, mas Bulma as segurou.

O homem abriu uma pasta de papel pardo e tirou algumas folhas de sulfite impressas e as deslizou sobre a mesa para Bulma. Quando ela leu o termo de sigilo quis rasgá-lo, mas sabia que seria inútil. Ela leu tudo e assinou enquanto o chefe esperava em silêncio.

- Vou ficar com esse livro. - ela se levantou e estendeu a mão para ele.

- Obrigado por tudo Bulma. - o homem se levantou e apertou a mão de Bulma com firmeza - Você é uma ótima cientista, tenho certeza de que irá para um lugar bom.

- Obrigada. - ela forçou um sorriso e soltou a mão.

Caminhou devagar até a porta e girou a maçaneta de metal. Já não precisava segurar as lágrimas então as soltou. Abriu a porta e saiu sem olhar para trás. Deixou a administração e passou pelos corredores a passos largos. As lágrimas desciam rápidas e sem controle e Bulma encarava o chão com o livro vermelho preso no braço. Era como se alguém a estivesse abraçando, alguém que fazia parte daquele lugar e que ela estava levando embora consigo. Bulma desceu a escadaria que dava para a rua e alcançou a calçada colocando os óculos escuros. Não olhou para trás, mas sentia que sua vida estava ficando, ou uma parte dela. Uma parte importante. Para ela, naquele momento, tudo havia sido arruinado. Bulma sentia como se tivesse perdido tudo em questão de minutos. Não importava o valor que iria receber, não era exatamente para isso que ela ligava. Bulma olhou para o livro em seu braço e o apertou mais. Olhou para frente e não queria pegar o metrô de volta para casa, não naquele momento. Ela queria ir para um lugar tranquilo, onde ninguém a incomodasse. Queria se sentar em um banco e chorar até que suas lágrimas secassem. Ela continuou a caminhar em linha reta, desviando das pessoas como se desviasse de projéteis de bala. Andava rápido, olhando para o chão e vez ou outra para frente, mas se distraiu e trombou em um homem e o livro caiu. O homem não parou, apenas a olhou com reprovação e continuou andando. Bulma lançou um palavrão mentalmente e se abaixou para pegar o livro. O chão tinha pétalas de flores espalhadas e misturadas. Ela ergueu os olhos e leu as grandes letras metálicas no portão de entrada. “Cemitério da Saudade”.

Saudade.

Bulma achou um nome curioso para um cemitério. Já fazia um tempo que ela não sabia o que era sentir saudade e ler aquele nome a fez imaginar que ali se enterravam as saudades. Ela, que nunca havia entrado em um cemitério, imaginou as lápides de centenas de saudades, os nomes que elas teriam e a quem pertenciam. Bulma se deu conta que poderia ser ela a saudade de alguém. A saudade de seus pais com quem ela praticamente não falava por estar trabalhando ou por estar cansada demais para atender ao telefone e precisava dormir, não falar. Ela poderia ser a saudade dos amigos com os quais não saia mais ou não os recebia em casa por estar trabalhando ou cansada demais para uma passar algumas horas jogando conversa fora ou fazendo planos para uma viagem de final de semana. E Bulma percebeu que ela estava sendo a saudade de si mesma. Tentou lembrar quando foi a última vez que tirou uma folga e passou o dia comendo morangos com chantilly ou juntou pipoca com Coca Cola e selecionou dois ou três filmes e se jogou no sofá com Karin para assistir, comer e beber e arrematar com sorvete de baunilha e cobertura de chocolate direto no pote para depois dormir com o gato aconchegado em seu peito. Tudo isso se passou em segundos na mente de Bulma e ela resolveu que entraria no cemitério das saudades, mas antes compraria flores para dar à alguma saudade, mesmo que fosse a saudade de outra pessoa.

 

 

 

 

- Eu também vou querer cravos vermelhos.

Bulma olhou para o lado e um pouco para cima e o homem, dono da voz tranquila, lhe sorriu. Ela desviou o olhar, mas sorriu de volta um pouco tímida por trás dos óculos escuros. O vendedor de flores a chamou e entregou o pequeno buquê de cravos recém colhidos e de um vermelho vivo feito sangue. Pareciam ter sido tingidos pelo líquido vital que corre nas veias humanas e que também dá cor quando as bochechas coram, quando o coração bate mais rápido, quando a respiração acelera. Bulma agradeceu ao florista e se afastou da barraca que ficava próxima à entrada do cemitério. Respirou fundo e deu os primeiros passos em direção ao arco com as letras de ferro, logo passou por baixo dele e estava dentro.

Havia uma elevação pouco íngreme feita de cimento e cercada por grama de ambos os lados. Era a entrada. Bulma apertou o livro no braço e tomou cuidado para não apertar as flores na outra mão. O salto do sapato ditava seu caminhar vagaroso e os olhos curiosos passeavam pela paisagem silenciosa e cheia de árvores. Algumas delas eram frutíferas, mas Bulma não achou que seria bom comer nada que brotava ali. Os pássaros comiam, isso não era um problema para eles. O sol começava a esquentar e o frescor da manhã ia dando espaço para o calor do dia que avançava lentamente, preguiçoso sobre as horas. Ninguém ali tinha mais pressa, nem mesmo Bulma, mas ela tinha calor. Tirou a mochila das costas e colocou ao lado, no banco de concreto que ficava de frente para um pequeno prédio onde se lia “velório”. Era como uma praça de rua, tinha árvores grandes e suas raízes ficavam expostas. Bulma tirou o terninho do uniforme e lembrou da maquiagem que devia estar borrada por conta das lágrimas. Abriu a mochila e guardou o livro, tirou a pequena necessaire e limpou o rosto com o lenço demaquilante. Soltou os cabelos e abriu dois botões da camisa branca.

Estava confortável ali. Apesar de ser um lugar de saudades, Bulma sentia-se livre, sentia-se leve como há muito não se sentia. Olhou para cima e suspirou para o céu azul e sem nuvens. Era tão azul, tão profundo, que ela teve vontade de mergulhar para cima, mas um barulho chamou sua atenção e Bulma olhou para a saída do pequeno prédio e de lá saía um grupo de pessoas e entre elas estava o homem que havia comprado cravos. Ele estava abraçado com uma mulher mais baixa e mais velha e se parecia um pouco com ela. Em seguida saiu um caixão sendo puxado por dois homens em uma espécie de carrinho. Eles seguiram logo atrás do grupo de pessoas e todos desapareceram em uma curva alguns metros depois ao lado do prédio.

- Então é assim que a vida acaba?

Bulma perguntou para o silêncio das saudades. Quem quer que fosse naquele caixão, agora era a saudade daquele homem. E por pensar nisso Bulma chorou em silêncio, de cabeça baixa segurando nas mãos o pequeno buquê de cravos que ela não teve coragem de entregar a ninguém. Algum tempo depois Goku os encontrou no banco onde a vira sentada quando deixou o prédio e foi em direção ao crematório. Ele imaginou que ela estava ali por causa de Son Gohan, seu avô, e havia comprado a flor preferida dele. Goku as pegou e as cheirou. Ainda estavam vívidas apesar do calor e ele resolveu levá-las para casa, colocar em um copo com água gelada e deixar que elas decidissem quando partir.

 

 

Fosse para Bulma ou para Goku, aquele era o dia em que alguma coisa em suas vidas ganhou um ponto final. Algo que partiu e os partiu em pedaços que seriam reagrupados com o tempo e um pouco de paciência. Mas aquele foi o dia em que a vida de ambos mudou sem que eles tivessem percebido imediatamente, afinal de contas seria preciso que se encontrassem de novo, e iriam. E iriam se reconhecer e lembrar exatamente do dia em que se conheceram sem serem apresentados, porque ainda não era momento.

 

 

“- Escute Goku, escute com atenção, - Son Gohan olhou para o céu – a nossa vida é como uma estrela, um ponto brilhante no espaço em que às vezes é preciso que algo morra por dentro para voltar a brilhar com intensidade.”



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