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História O Preço da Verdade - Capítulo 2


Escrita por: aboutswen

Notas do Autor


Segundo capítulo para vocês. Espero que gostem!

Capítulo 2 - Dois.


A entrevista foi conduzida, em suma maioria, por Zelena. Regina apenas me olhava de cima a baixo com os olhos semicerrados, como se tentasse descobrir meus segredos mais profundos. Poucas foram as perguntas feitas pela proprietária da Mills Co., maioria delas apenas voltadas para a minha formação acadêmica e idiomas nos quais eu era fluente.

- Vous voulez dire que vous parlez français? – Perguntou se eu falava francês, num francês impecável. Seu sotaque quase não aparecia, o que era bem difícil para um falante nativo da língua inglesa. Geralmente nós temos dificuldades com línguas latinas, o que não parecia ser difícil para ela.

- Oui, pas seulement français wie deutsch y español. – Respondi que não somente falava francês, como alemão e espanhol também. Zelena sorriu e continuou a anotar algo em sua prancheta de madeira.

- Isso é muito bom, senhorita Swan.- Ela olhou diretamente para mim, suas mãos cruzadas sobre as coxas. - Uma das atribuições de minha assistente pessoal é marcar reuniões para mim, o que eventualmente pode acontecer com um não-falante da língua inglesa. – Aquilo soou mais como uma provocação do tipo “eu espero que você realmente saiba o que você está dizendo que sabe”.

- Emma, seu currículo é perfeito, mas...

Eu sabia que haveria aquele momento. Me preparei para isso. Meu currículo possuía cursos extras, idiomas e experiência, mas não possuía o nome de uma universidade reconhecida. Em vez disso, apenas figurava a faculdade comunitária do bairro onde morei por alguns anos. Minha formação em administração dificilmente me colocaria no topo de uma disputa por um emprego em uma das construtoras mais promissoras do cenário nacional, considerando que haveriam diversas pessoas com diplomas da Ivy League se matando por um espaço na Mills Co.

- Nós temos uma política de contratação. De certo, a universidade em que uma pessoa estudou influencia em sua formação. Você entende, não é? – Zelena perguntou. Sim, eu entendia. Eu entendia que eles não poderiam pagar cinquenta mil dólares por ano a uma pessoa sem o mínimo de graduação que eles esperavam.

- Sim, eu entendo. Entendo também que a universidade de nada adianta se você não souber o que fazer com o que foi aprendido lá. – Regina e Zelena se entreolharam, e eu continuei. – Eu me formei numa faculdade comunitária, certo, mas minhas notas foram impecáveis assim como minhas cartas de recomendação mostram que eu sou a pessoa exemplar para esse emprego. Caso nada disso seja suficiente, eu aceito trabalhar por metade do valor anual. Vocês decidem, no final do contrato de experiência, se eu mereço ser efetivada recebendo o valor total ou se vocês preferem procurar por outra pessoa mais graduada do que eu.

Ouvi Regina murmurar um “presunçosa”, sem levantar os olhos do celular que agora ela encarava. Zelena aparentou pensar um pouco no que iria responder.

- Nós iremos considerar essa ideia, Emma. Prometo. – Ela levantou e se dirigiu à porta, claro sinal de que nosso momento havia acabado. Eu varri os olhos mais uma vez pela sala, tentando memorizar cada artefato que havia visto ali.

Regina não havia levantado os olhos do celular, deixando claro que pouco se importava se eu estava ali ou não. 

- Obrigada, Zelena. Obrigada, Senhorita Mills. – Falei ao me levantar e estender a mão primeiro para a morena sentada, recebendo apenas um olhar desdenhoso como resposta, e depois para a ruiva sorridente, que prontamente apertou a minha mão com a promessa de que em breve entraria em contato comigo.

A volta para casa foi rápida, mais rápida ainda do que a ida. O ônibus estava vazio, então pude me permitir sentar e colocar fones de ouvido para aproveitar a viagem. Minha cabeça voava a mil, sabendo que as chances de ser contratada pela Mills Co. não estavam tão altas quanto eu imaginava que estariam. Esperava que eu conseguisse conquistar a confiança das contratantes, mas agora tudo estava incerto na minha cabeça.

Enquanto o ônibus fazia o seu trajeto eu já conseguia me imaginar trabalhando de frente para o Lake Union, naquele bairro movimentado e boêmio. Quem sabe à parte de me vingar de uma empresa corrupta eu também conseguiria fazer amizade com alguém e, quem sabe, ter uma vida social?

Tantas pessoas bem vestidas e arrumadas, ricas, bem sucedidas. Era aquilo que eu desejava para mim. Eu queria poder voltar a estudar, me formar numa universidade de verdade, ganhar meu próprio dinheiro sem precisar pisar em ninguém e, quem sabe, formar uma família um dia.

Cheguei ao meu destino e entrei no prédio antigo em que eu morava. O prédio possuía quatro andares, com oito kitnets por andar. Pelo pouco que sabia sobre a história dele, antigamente ele era um prédio familiar, e, com o tempo, a família desmembrou os apartamentos e transformou em pequenos espaços para que pessoas que nem eu, solteiras, estudantes, sem família e sem dinheiro.

A parede já apresentava sinais de desgaste estrutural e a pintura feita na época da última passagem do cometa Halley na terra brigava com o mofo causado pela umidade. Não posso dizer que o prédio fedia, mas o cheiro não era dos melhores e casualmente fazia com que a minha alergia atacasse.

Não existia portaria, apenas um hall de entrada com uma enorme caixa de correio numerada e organizada por apartamento. Ao entrar, dei de cara com Elsa, uma mulher de aproximadamente vinte e quatro  anos que morava no apartamento exatamente acima do meu.  Ela pegava as suas cartas e sorriu para mim ao me ver passar pela porta de madeira que supostamente protegia o prédio.

- Oi, Emma, como vai?

Seus cabelos, quase sempre presos em uma trança lateral, conseguiam ser ainda mais loiros do que os meus e seu rosto ostentava traços finos, numa composição que a tornava uma mulher bonita. Não tanto quanto as que eu havia visto mais cedo, mas ainda assim bonita. Desde que me mudei para cá, alguns anos atrás, ela sempre havia sido extremamente solícita comigo, o que me fez desconfiar de que ela, na verdade, estava apenas dando em cima de mim.

Não que eu não namorasse. Eu tive namorados, namoradas, mas nada sério a ponto de me desviar do foco que era conseguir me infiltrar na Mills Co. Eu a achava interessante, porém não queria ter um relacionamento e tampouco desejava ter algo com ela que pudesse a deixar confusa ou magoada.

- Estou bem, Elsa, obrigada.

Segui sentido às escadas, mas ela continuou falando.

- Está arrumada hoje... Entrevista de emprego?

Girei nos calcanhares com um sorriso falso no rosto. Nunca fui mal educada, mas também não era uma pessoa de muitas palavras, principalmente com pessoas com as quais eu quase não tinha intimidade.

- É... sim. – Cocei a cabeça. – Olha, eu estou um pouco cansada e vou subir, ok? Ainda preciso me arrumar para o trabalho hoje a tarde.

- Tudo bem, vejo você por aí. – Ela mostrou um sorriso amarelado e eu voltei às escadas. – Quem sabe não marcamos algo, um café ou uma cerveja...

Continuei a subir as escadas e fingi que não tinha escutado. Do fundo do meu coração eu não desejava ser ruim ou cruel com ela, afinal ela não parecia ser uma pessoa má. Meu coração era a última coisa que eu precisaria que me atrapalhasse naquele momento tão decisivo e crucial para a execução do meu plano.

Eu precisava estar na Starbucks do Píer 55 em menos de duas horas e ainda iria preparar comida, almoçar e vestir a farda verde e bege que era característica da empresa. O tempo não era dos melhores, mas também não estava tão apertado assim. Consegui, com facilidade, fritar um bife de frango e esquentei um arroz que havia sobrado do jantar da noite anterior.

Minha alimentação não era das melhores, começava o dia com um copo d’água, almoçava ao meio dia e só voltava a comer novamente às oito e meia, que era o momento em que eu chegava em casa do trabalho. Não sentia falta de uma alimentação regrada, até porque isso nunca fez parte da minha vida e não era algo que me afetava tão grandemente. Tirando às vezes em que eu sentia tonturas e precisava colocar um pouco de sal debaixo da língua.

- Essa menina vai ficar doente e vai me deixar doente. – Dona Sheila dizia todas as vezes que percebia que eu não estava comendo direito.

Eu sentia falta dela. Não nos falávamos com frequência, mas eu precisava ser grata a tudo que aquela mulher havia feito por mim. Ela me ensinou muito do que eu sabia sobre a vida, e fez o papel de pai e mãe de diversos jovens que moravam junto conosco naquele lar adotivo. Saí de casa com a nota mental de que ligaria para ela assim que voltasse do trabalho.

As ruas de Belltown me encantavam. Por ficar perto da zona portuária, eu podia ver todo tipo de pessoa. Sempre gostei daquele clima movimentado, como se cada um ali estivesse atrasado para seu próprio compromisso particular. Além disso, ficava a apenas dez minutos de distância para o meu lugar de trabalho. O bairro era considerado industrial, ficava bem no centro da cidade e, a melhor parte: era extremamente acessível para o bolso de uma jovem falida como eu. Sem precisar ir muito longe do meu apartamento eu conseguia fazer as compras do mês, ir em barzinhos para ao menos tomar uma cerveja ou, simplesmente, passear pela rua para esfriar a cabeça.

Algumas vezes eu ia de ônibus, outras eu, simplesmente, decidia ir andando e apreciando o clima ameno. Geralmente dependia do meu atraso ou da chuva não atrapalhar o meu dia. Naquele, especificamente, não estava chovendo, mas meu tempo livre também não era dos maiores, então resolvi pegar o ônibus de sempre.

Às 13h eu estava no ponto.

Às 13h05 eu estava no ônibus.

Às 13h15 eu estava na frente da Starbucks do Píer 55, pronta para bater ponto.

Meu turno começava às 13h20 e terminava exatamente às 19h50. Eu trabalhava por seis horas e tinha trinta minutos de intervalo, tempo que eu usava para comer algo enquanto assistia aos barcos que navegavam pela zona portuária. Meu trabalho não era difícil, geralmente eu ficava cuidando do caixa e somente quando o movimento era intenso eu ajudava a preparar as bebidas.

A loja em que eu trabalhava ficava exatamente de frente para o mar, o que era ótimo quando o movimento estava baixo e eu queria aproveitar a vista. O grande problema é que, por estar justamente localizado no píer, raros eram os momentos em que a loja estava vazia. O cheiro convidativo do café alimentava o desejo dos clientes de entrar e servir de uma xícara.

Atrás do balcão eu trabalhava com Killian, gerente da loja e uma das poucas pessoas a quem eu poderia chamar de amigo, Belle, uma funcionária nova que também aparentava ser legal, embora fosse um pouco distraída e Lilith, uma mulher amargurada que gostava de criar caos e intriga entre os funcionários da loja.

Já estava perto da hora da saída quando meu celular tocou. O contato salvo como Mills Co. – RH piscou na tela e eu atendi rapidamente.

- Alô, Emma Swan? – pude ouvir a voz estridente de Zelena do outro lado da linha.

- Isso, é ela. – respondi calmamente.

- Você pode falar agora ou está ocupada?

- Posso falar sim. – Fiz sinal para o gerente da loja, indicando que eu sairia por alguns minutos. Por ser uma boa funcionária, às vezes Killian, o gerente, me liberava para algumas saidinhas.

- Então, Emma... Nós adoramos você e, surpreendentemente, você foi a única que apareceu na entrevista. – Sorri ao saber que minha habilidade em enviar e-mails falsos havia servido de algo. – Gostamos bastante do seu currículo, e o fato de você ser fluente em três idiomas além do inglês realmente foi um diferencial. O que realmente nos pegou foi a questão da universidade...

Certo, pensei. Então eu tenho um currículo impecável mas não posso ficar com o emprego porque não tive dinheiro o suficiente para bancar uma universidade da Ivy League?

- Nós prezamos por uma formação acadêmica que falta em você. Eu liguei apenas para informar, pois gostei de você. Infelizmente a vaga não poderá ser sua.

 


Notas Finais


Até o próximo capítulo 😊 Quem quiser falar comigo, meu twitter é: @aboutswen


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