História .o primeiro clarão da manhã - Capítulo 1


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Categorias Black Pink
Personagens Jennie
Tags Jennie Kim, Jensoo
Visualizações 22
Palavras 1.448
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia)

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - .único


Jennie novamente andava sem rumo em meio àquelas ruas compridas e escuras. Quando parou para pensar, percebeu que caminhar tinha se tornado seu passatempo predileto, talvez o mais solitário de todos eles. Ela passou por paisagens semelhantes, veículos iguais. Figuras, sem feição e nome, usavam casacos, guarda-chuvas dobrados e botas sobre o concreto molhado daquele pavimento; suas falas voltando como vozes de espírito em eco.

Virando o intestino da terra, um glaucoma obscurecia seu mundo.

Mais um dia foi embora e nada havia mudado. Era uma espécie de disforia urbana onde absolutamente tudo parecia familiar, mas ao mesmo tempo desconhecido, como se ela não fosse nada além de uma alma, criada por outro tempo ou lugar, depositada entre essa metrópole de aço e luz difusa.

Alguém que não pertence mais. Que não pertencia há muito tempo. Cumprindo a mesma rotina sem parar. Indo e vindo. Se forçando a escutar pessoas conversando sobre assuntos que pouco lhe importavam. Pode ser que elas se vissem tão obrigadas a isso quanto ela. Era assim que vivia, dentro de uma obrigação social.

Seus passos paralisaram subitamente em frente a um bar e ela se olhou na janela do mesmo. Com um ato de mímica à vida, imitou todos os seus movimentos, alcançando a mão. Este outro "eu" vem do lado oposto da existência, é uma face de pedra semelhante a uma medusa silenciosa, fria e corada. Vermelha e perdida. Completamente perdida. Sem rosto em um mar de rostos. 

Depois de alguns minutos, chegou perto do rio, o qual ela visitava uma vez ou outra, e passeou pelas margens. Um vento suave se fez presente na vinda da noite. A chuva ainda era fresca nas calçadas e diversas rachaduras cobriam o concreto. Estradas fediam a gás e nelas haviam listras velhas de marcas de pneu. Jennie caminhava com a cabeça baixa perante o pôr do sol parecendo uma coisa maldita e desnorteada se movendo nas mandíbulas rosadas de algum destino indescritível, passo a passo, com o corpo inteiro tremendo violentamente. Já eram quase sete horas e aquela bola de fogo ainda brilhava no céu desenhado em tons de pastel. O último lampejo explodiu da crista do horizonte como um cataclisma de luz e símbolos num holocausto em chamas. 

Quando se aproximou à ponte do outro lado do rio, parou no meio-fio e observou a bela vista diante de si. Uma Lua, gigante e cintilante, tinha aparecido empoleirada feito um satélite ferido no espaço. Nas janelas, eram refletidas pequenas luzes indistinguíveis umas das outras, e o grande complexo de argamassa, aço e vidro se projetava para um infinito negro e encharcado. Uma ilha roxa de nuvens obscureceu as estrelas rapidamente e ela já não podia ver mais nada. Carros ainda passavam por ali, contudo, quase não havia tráfego algum, nem mesmo na ponte, porém vinha um punhado do outro lado da avenida de vez em quando, aborrecendo o véu que tentava esconder o brilho da luz, idêntico ao advento de alguma coagulação brusca de sóis que pairava no asfalto. 

Pouco antes das oito, Jennie encontrou um banco vazio e sentou-se nele, respirando calmamente enquanto assistia, com os próprios olhos, a reviravolta do cosmos. Sentia Órion, Rígel e as outras inúmeras estrelas que faziam parte daquela constelação em seus braços, suas formas e tendências ferinas se elevando, rindo e apontando para ela. 

De repente, uma multidão começou a se reunir no embarque, impressionando Jennie. Aquele lugar não parecia estar sempre cheio. Parecia mais um lugar feito para a solidão. De onde se encontrava viu um barco enorme flutuando na água pintada de preto fraco como grafite sobre a neblina e uma quietitude tomou conta do ar. Ouvia, de relance, alguns sussurros curiosos e ansiosos dos seguidores para o grande evento que estava prestes a acontecer. Ela chegou a tempo, afinal. 

Um pequeno carrinho de cachorro-quente se posicionou ao longo da passagem e dois garotos correram para pegar os pãezinhos frescos para si mesmos antes que qualquer outra pessoa tivesse chance. No outro extremo, um grupo se aglomerava numa barraca improvisada de hambúrgueres e batatas fritas. Por detrás, se encontrava uma van de sorvete parada no buraco do embaciamento com uma variedade de doces,  pirulitos e cones lustrosos rabiscada no vidro. Espectros luminosos silenciados na escuridão.

Com suas observações, acabou avistando uma garota sentada na grama ao pé do banco onde estava. Ela a analisou e um certo fogo começou a queimá-la interiormente. Um fogo da alma. O tipo de agonia eterna que se sente quando somos confrontados pela verdade muito provável de que o futuro mantém um propósito incerto para todos nós e não há como parar ou voltar a partir desse ponto. As investidas são bruscas em direção àquela singularidade, independente da intenção de fugir. Então você sente uma colisão oca no buraco onde seu coração deveria estar.

A garota ao seu lado parecia tão frágil, machucada e  que, por um momento, Jennie pensou estar olhando para o seu próprio reflexo. Esse espírito leptossômico à deriva dos mundos do sono. Mundos que vão além disso. Seus cabelos negros emaranhados sobre o rosto, bochechas avermelhadas e lábios trêmulos como se ela tivesse saído diretamente de um sonho. Seus olhos, fixos no céu, eram tão profundos e difíceis de ler que parecia que ela estava assistindo, em silêncio, a Lua em sua cama, onde dormia como uma grande coroa orbital de prata em algum lugar do universo, com seus espíritos presos a ela, alcançando uns aos outros. Temendo. Esperando e rezando pelo que está por vir

Foi com um estrondo eminente que o primeiro fogo-de-artifício entrou rapidamente no céu negro, assustando Jennie, que logo se recompôs. E, naquele instante, expelidos em um brilho forte, eles pareciam dolorosamente diferentes e em paz uns com os outros. Adultos, jovens, crianças e até mesmo seus cães estavam assistindo agora. Eles abanavam o rabo, choramingando e correndo em círculos, pois não suportavam barulhos altos, mas por um breve momento, também compartilharam um pouco da energia; desse amor e o que ele é verdadeiramente capaz de fazer. Uma curta compreensão do que é desperdiçado no processo.

Outros quatro ou cinco explodiram posteriormente e o ar foi imediatamente preenchido com o cheiro de pólvora e glicerina. O céu começou a se iluminar cada vez mais, fazendo com que todos eles pudessem ver, naquele espaço escuro, o advento de alguma erupção solar épica e oscilante como uma melodia, eclodindo e esculpindo a face da própria terra, suficiente para abrir uma ferida no estômago do mundo. Minúsculas bolinhas de papel percorriam alguma órbita distante, e pétolas brancas e douradas flosreciam pelos córregos que caíam na face do rio. 

Jennie sentiu alguns respingos no nariz e percebeu que mais uma vez choveria naquele chuveiro nebuloso de citrino e magenta. Então todo mundo bateu palmas, arfou de olhos arregalados e queixo caído, inconscientes do mundo que existe fora dessa esfera de influência, desse incrível espetáculo, como formas adeno-humanas cujo destino manifesto é testemunhar esta visão até que seja precipitada das rochas do tempo para sempre. E logo será.  

Enquanto outro tridente de serpentinas rasgava a noite, Jennie voltou a examinar a garota. Ela estava, pela primeira vez, sorrindo. Aproveitando aquele momento como se fosse a última coisa que faria em sua vida. Com isso, Jennie também se permitiu sorrir quando a tela definitiva se alastrou no céu como um trovão que ilumina a última de todas as luzes. Como um grande corpo elétrico ou alguma pipa do destino se desfazendo, depois desaparecendo inteiramente. Submersa onde estava, captou a última gota de zinco quente fervente. Eles finalmente foram deixados em um ruído estridente de suas próprias vozes.  

A multidão começou a se dispersar e, naquele instante, ela soube. Soube que este é o gênese de todas as espécies. O começo e o fim. O significado de ser verdadeiramente humano. Tudo é para o bem ou para o mal. Estes somos nós, a última luz da noite. A luz posta, sem falta, ao longo da borda do horizonte, ao longo de todos os horizontes. Uma lasca de escarlate fraca, lentamente se desfazendo, dando lugar a uma solidão fria até que não haja mais nada.

Mas às vezes, você pode enxergar isso no oeste, onde nenhuma outra luz existe ou deveria existir, e se você olhar mais de perto, poderá ver um pequeno lampejo pelo que ele realmente é, e o que ele contém — é o primeiro clarão da manhã, para nos trazer, sem cerimônias ou exibições, as escoras de um novo amanhecer. É o dia desperto, e você ainda pode ver de lá. Você pode ver de quase qualquer lugar.

E, como todo o resto, a garota se foi, deixando Jennie totalmente sozinha. Sozinha neste banco com um espaço vazio. Um espaço para um fantasma.



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