História O Príncipe de Kimono Rosa - Capítulo 1


Escrita por: , Gonseok e Anchovinha

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Park Jimin (Jimin)
Tags 2sides, Fem!taehyung, Histórico, Kim Namjoon, Kim Seokjin, Namjin, Slow Burn, Swu, Ucnamjout, Ycnj
Visualizações 235
Palavras 8.599
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Fluffy, LGBT, Misticismo, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Slash, Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Nossa! Vocês não sabem a minha felicidade de trazer essa fanfic pra vocês!
(ela me deu vários problemas ao longo do mês porque parecia que não iria acabar mais) Mas desde já agradeço a Anchovinha que foi minha companheira (mesmo que sumida) e deu a ideia principal para conseguirmos formar esse plot maravilhoso!
Talvez a fanfic esteja conectada com a dela de alguma forma, como se a dela acontecesse antes dessa, então vocês podem dar uma passadinha lá antes, ou não, ler a dela não vai interferir nessa, mas talvez vocês consigam achar algumas... Referências! (vou deixar o link nas notas finais!)
Espero que vocês gostem!

Capítulo 1 - Aquele Que Sentia


Fanfic / Fanfiction O Príncipe de Kimono Rosa - Capítulo 1 - Aquele Que Sentia

Em todas as gerações havia a criança que era tocada pela chama vermelha.

Aquela que se encontrava mais perto de Deus.

Ela deveria ser bondosa e pura.

Assim como saber arcar com o peso de suas responsabilidades.

O Deus Raposa olharia para ela e ficaria feliz.

E assim o povo e os espíritos seriam protegidos e abençoados.

 

Essas eram apenas algumas das profecias que Namjoon costumava ouvir pelo templo quando era pequeno.

 

— Mais rápido! Mais rápido! — a criança tentou sussurrar um grito para que só a outra próxima a si ouvisse, essa que vinha toda desajeitada tentando tirar a roupa pesada que usava da frente do caminho para que as pernas fossem mais rápidas.

— O que você achou dessa vez? — perguntou assim que pararam perto das grandes três pedras do jardim.

O mais novinho entre eles sorriu, com um dente faltando e os cabelos curtos todos em pé, o rosto queimado pelo sol e alguns riscos cobertos de terra pela bochecha, que deveria ter sido causado por uma recente queda. Ele se abaixou pegando algo escondido ali e estendeu para o amigo. As mãozinhas pequenas, sustentavam uma pequena pedra e ela tinha um formato que lembrava um coração, além da coloração diferenciada entre um transparente esbranquiçado. Os olhos do mais velho brilharam enquanto ele admirava a criação da natureza, única como só o Deus Raposa poderia colocar no mundo.

— Eu achei enquanto colhia aquelas flores que você gosta perto do rio, daí acabei não trazendo elas.

— Eu já disse que não precisa me trazer flores — o pequeno cobriu metade do rosto com as longas mangas do kimono simples, não querendo que o amigo visse as bochechas coradas.

— Hoje é sábado e sábado é dia de flores! — riu e estendeu os braços, primeiro tirando o braço do mais velho da frente e depois passando pela cabeça dele uma cordinha, onde nela estava presa a pedra como um pingente.

Os cabelos longos do mais velho, que batiam um pouco depois do ombro, atrapalharam um pouco o processo, mas assim que estava feito os dois passaram a admirar o pingente que brincava entre a abertura do kimono, até tocar a pele do garoto. Os dois sorriam sem jeito em mais um daqueles momentos raros e especiais que eles tinham a oportunidade de passar juntos, não apenas trocando olhares e fingindo que nunca haviam tomado banho no rio juntos sem a permissão dos pais.

— Muito obrigado — disse o, agora, dono do colar e estendeu a mão, cobrindo o polegar com o pano da manga e passando sobre o rosto do menor delicadamente, tirando um pouco da sujeira ali presente — Eu vou cuidar muito bem dele.

A intensidade da troca de olhares era tão grande que o mais novo quase se perguntou a que ele estava se referindo e do fundo desejou ser a pequena pedra, a única que poderia estar sempre tão próxima a seu melhor e único amigo. Mas passos apressados contra o assoalho do templo fizeram as duas crianças acordarem e se distanciarem rapidamente.

— Kim Seokjin! O que está fazendo aí no meio da terra!? Está sujando o kimono todo — a mulher bonita e de expressão altiva parou com as mãos na cintura, uma roupa de tão boa costura quanto a que o pequeno de cabelos compridos usava — Volte já para dentro, o ritual já vai começar e você sequer está com o cabelo arrumado. Venha, vamos — ela apressou o garoto, que correu para dentro sem olhar para trás, focado novamente em sua missão.

 

 

O vento passava forte entre qualquer espaço que achava livre, balançando as folhas verdes das diversas árvores espalhadas ao redor do templo, não havia um muro que bloqueasse a entrada, não precisavam, a própria montanha fazia aquilo bem melhor que qualquer bloco de pedra, o único meio de chegar ali era enfrentar a longa subida e depois uma íngreme escadaria, esta que já acumulava musgo pelo pouco uso. O templo se encontrava vazio de visitas naquela época do ano, só abrindo as portas verdadeiramente para os aldeões dos vilarejos próximos em épocas festivas, poucas vezes ao ano, os mais fervorosos eram os primeiros a chegar, mas ninguém deixava de vir, inclusive os bebês nos colos das mães, época em que Seokjin mais trabalhava tendo que dar atenção a vários ao mesmo tempo, entretanto, ele preferia o silêncio dos dias normais e tranquilos em que consistia em acordar junto ao sol para prestar suas orações ao Deus Raposa.

Arrumou o kimono simples ao se sentar sobre as pernas e prendeu o longo cabelo para trás, num rabo de cavalo frouxo e baixo. Acendeu uma vela depositada ao seu lado e depois uma vela perfumada feita com as flores próximas ao rio, seu cheiro preferido. Os dois braços do rapaz traziam luvas que tampavam apenas o dorso da mão, presas ao dedo do meio, e seguiam protegendo o pulso até o meio do braço, por cima delas, enrolado, ele tinha, na esquerda um nenju* e na direita um juzu*, ambos feitos de sementes da árvore de Bodhi, o que facilitava as orações matinais, mesmo que andasse sempre com elas. Sorriu um momento antes de se concentrar e fechar os olhos, ficando apenas a mover os lábios enquanto traziam as bênçãos para si e seu povo.

Os joelhos treinados sequer precisavam mais de almofadas para, após minutos longos demais, levantar como se nada tivesse acontecido ali. O sacerdote fez uma última reverência e saiu da sala especial de orações, deixando o sol tranquilo da manhã lhe banhar o rosto e fazer brilhar a pele. Não havia nada melhor que manhãs bem aproveitadas no templo do topo da montanha, ele poderia afirmar que eram as melhores horas, além do nascer do sol mais bonito — mesmo que raramente o visse, preferindo estar na presença do Deus Raposa.

— Passou do tempo hoje — a voz grossa não assustou o moreno de cabelos longos, este apenas continuou com os olhos fechados recebendo do sol, mas sorriu.

— Eu sei que passei, Namjoon, a vila está com alguns problemas na colheita e eu decidi dedicar um pouco mais de tempo a eles hoje. Aliás, bom dia.

— Bom dia, Seokjin — sorriu observando as feições delicadas do mais velho serem acentuadas pelo jogo de luz e sombra e estendeu a mão para este, que finalmente abrindo os olhos, aceitou a ajuda e desceu os poucos degraus da varanda da sala para o chão de pedra — O desjejum está pronto e logo a  carruagem também.

Enquanto andavam para outra sessão do templo, próximo as acomodações de dormitórios, Seokjin soltou o longo cabelo, o cheiro forte das flores do rio impregnados nele, mesmo que só perceptível quando o vento lhes balançava os fios, mas era um detalhe que não passava despercebido por Namjoon, que inalou profundamente, soltando o ar pela boca em seguida, um ato simples, mas que o deixava com um incômodo no cantinho da cabeça sempre que o fazia, deixando sem perceber a vontade de tocar as madeixas e inspirar o cheiro o mais de perto possível crescer. Ainda se lembrava quando os dedos pequenos passavam pelos fios macios para fazer tranças no amigo de infância quando eles estavam entediados e Seokjin não calava a boca, irritado demais com a própria família e rotina. Estranhamente, depois de ser proclamado oficialmente sacerdote, aqueles momentos pararam de existir, assim como as reclamações do mais velho. Namjoon sentia falta.

— Você desceu toda a vila novamente para pegar essas frutas, não foi? — Seokjin se acomodou sobre uma almofada na sala de jantar e olhou para as diversas porções em pratinhos separados e cobertos por um pano acima de uma pequena mesa.

— Você sequer tirou o pano de cima deles ainda, como pode saber? — diferente do amigo que tinha uma postura perfeita, Namjoon optava por se sentar, em cima do tapete que cobria quase todo o assoalho, de qualquer jeito, curvado demais e apoiando um dos braços em uma das pernas dobradas.

— Os morangos haviam acabado, e eu consigo ver daqui a coloração deles sujando a toalha que você não colocou direito — respondeu simplista juntando as mãos e agradecendo a refeição.

— Merda…! — se apressou para tirar o pano de cima da comida e se lamuriando baixinho por todo o trabalho que teve e estragar a própria surpresa enquanto o outro apenas ria dele.

Namjoon não desgostava como a relação deles estava, haviam se aproximado muito desde a sua proclamação como guarda oficial do sacerdote, porém, havia um vácuo ali entre eles que parecia ter crescido a ponto de formar um abismo, e nenhum deles conseguia segurar o ar o suficiente para atravessar. O mais novo sempre soube de seu destino, o motivo para o qual havia nascido, crescido, treinado e alimentado. A família real do templo, acolhiam a sua — que por esse motivo ganhou o mesmo sobrenome — desde tempos que nenhum deles sabiam contar, era necessário que o sacerdote, e logo príncipe, do pequeno conjunto de vilas próximo a montanha, tivesse uma proteção que ao mesmo tempo pudesse lhe servir com confiança a todo momento, e era ali que Namjoon entrava.

Completado 20 anos, e passado por todos os treinos, ele estava apto a cuidar do sacerdote, assim como zelar pelo templo tanto quanto o outro. Devido a isso, o que Namjoon e Seokjin tinham entre si, a amizade querida e alimentada por anos, se tornou mais íntima, ao mesmo tempo que mais fria. O soldado conseguia dizer que todos os sermões da mãe do menino haviam dado certo, hoje em dia ele estava tão dedicado e delicado em todos os movimentos quanto ela, por mais que o mais novo desgostasse da mulher quando criança, nada o impedia de concordar que ela era uma mãe e serva do Deus Raposa dedicada. Ele também prestava seus pequenos cultos ao Deus, porém, eles jamais seriam tão bonitos ou adequados quanto aos que a família real eram capazes de fazer, principalmente se comparado a Seokjin. Aquela admiração havia feito com que o posto do mais velho se elevasse na visão de Namjoon, o que tornara difícil até mesmo um leve toque entre eles.

“Ele é puro, e deve continuar puro. É sua obrigação facilitar esse caminho e o proteger de qualquer mancha.”

As palavras do pai ainda permeiavam-lhe a cabeça sempre que pensava no assunto, se lembrava de antes não entender exatamente o que aquilo tudo queria dizer e costumar entrar em desespero quando via qualquer parte da roupa do amigo suja, mas com os anos ele pode compreender e não mais conseguir tocar o outro sem que um leve arrepio não lhe corresse a espinha ou a frase viesse a si. Ainda assim, as mãos do sacerdote eram tão macias — diferentes das do soldado, calejadas demais — que apreciar qualquer pequeno toque era inevitável.

— Abra a boca — o mais velho falou pela primeira vez desde que começar a comer.

Namjoon observou os hashis estendidos para próximo dele, estes prendiam um pedaço de morango na ponta e Seokjin usava uma das mãos para impedir que ele ou qualquer gota do ralo suco que este formava, caísse no tapete.

— Abra logo — reiterou com mais potência e impaciência na voz, a que o outro obedeceu recebendo a fruta na boca — Estão deliciosas, e você poderia muito bem ter esperado até irmos lá hoje a tarde.

— São suas preferidas, eu sei que o seu dia não fica lá tão completo sem elas. Pequenos prazeres.

— Podia ter esperado também — continuou ignorando a fala do amigo, mesmo a previsão desta fosse certeira — Para comer junto a mim.

— Você sabe que não posso e não devo…

A resposta veio baixa o suficiente como se fosse um tópico delicado demais para se tocar, como a pele do sacerdote. Seokjin continuou a comer, sem mais motivos para discutir ou para encarar aquele ao seu lado. Namjoon por sua vez permaneceu quieto olhando dos próprios pés, para as copas verdes das árvores do outro lado do jardim.

 

 

O suor escorria pelo rosto do rapaz enquanto ele tentava controlar a respiração e o tremor no braço que erguia um copo de água até a boca, e o sol sequer estava forte ainda. A espada de madeira havia sido encostada por alguns momentos ao lado do acabado boneco de palha improvisado.

— Olha o seu estado — Seokjin se sentou na beira da varanda ao lado de Namjoon, fingindo uma expressão de desgosto, nas mãos uma garrafa de água de barro.

— Olhe o seu estado — Namjoon arremedou com um sorriso brincando nos lábios ao que a mão subiu para arrumar alguns fios fora de lugar da cabeça do amigo — E você ainda tem alguns minutos para dormir, deveria aproveitar.

— Sempre acordando cedo… Me recuso a perder pra você sempre — afastou a mão de si para esconder o rosto corado atrás das longas mangas do kimono.

O príncipe observou o amigo rir, uma risada baixa, porém gostosa que lhe deu vontade de acompanhar ou apertar as covinhas formadas na bochecha só para o ver se irritando. Mas nada fez além de servir mais água no copo deixado na bandeja. Os dois caíram em um silêncio agradável enquanto assistiam o nascer do sol, Seokjin sentado na varanda e Namjoon em pé, com a cintura encostada nela. Estavam na primavera de seus 15 e 16 anos e com as responsabilidades aumentando, o tempo para se verem e passar tempo junto havia diminuído muito, mas nenhum deles ousava reclamar ou comentar, entraram em um consenso silencioso achando na madrugada da troca da noite para o dia, um momento em que podiam ficar juntos sem olhares e pessoas ditando o que deveriam fazer, lhes atrapalhando.

— É hoje… Não é? — a voz baixa de Namjoon foi aquela que caminhou entre o ar silencioso da manhã. Com a sede saciada e a respiração normalizada, fez a pergunta mais óbvia, que já sabia a resposta, apenas para iniciar uma conversa calma que há algum tempo ele queria ter com o mais velho.

Seokjin inspirou e suspirou fazendo alguns fios dos cabelos, que batiam agora no meio das costas, caírem de seus ombros encolhidos para o peito quase descoberto pela forma relaxada de colocar o kimono de dormir. Ele olhou para os pés descalços balançando para só então falar:

— Minha primeira cerimônia… É hoje… — o volume era o mesmo que o mais novo usara, contudo, havia um tremido leve na voz que dizia muito para quem conhecia o rapaz.

— Suas olheiras me contam que você deveria ter me chamado para te contar uma história…

— Ou fazer carinho no meu cabelo? — riu debochado e empinou o nariz — Não sou mais uma criança, Namjoon!

— Mas não dormiu essa noite — apesar do tom engraçadinho de Seokjin para ele, o rapaz continuara com o tom sério e preocupado na voz, não querendo desviar do assunto como sempre acontecia, estavam muito próximos do evento para evitar mais uma vez.

— Não dormi… — cabisbaixo, o escolhido pelo Deus Raposa se aproximou mais de Namjoon até poder se encostar nele e apoiar a cabeça no ombro forte, procurando ali algum conforto sem sequer se importar se este estava suado e sujo, passou os braços pelo braço dele e apertou — Juro que tentei, mas… Não consegui… — fungou tentando esconder as poucas lágrimas que queriam cair — Jonnie! Isso é tão… Tão… Eu não sei se consigo! É tanta coisa, tantos movimentos, uma oração enorme, e se eu esquecer alguma linha, alguma fala e se-

— Shh… — assoprou ao acariciar a cabeça do mais velho e lhe ofereceu o copo de água que ainda estava pela metade — Eu sei que deve ser assustador, eu sei. Mas você estudou e treinou a sua vida inteira para esse momento e muitos outros que ainda vão vir. Você é o escolhido pelo nosso Deus e por isso mesmo está apto para fazer o que ele pede, ele te dá a sabedoria suficiente para que você faça o que precisa ser feito, então… Hm… Apenas se concentre e você consegue.

Ganhou um soquinho no abdômen ao terminar a fala. Os dois se olharam e riram cúmplices, sabiam que só eles podiam se confortar, apenas eles entendiam o peso de gerações que carregavam.

— Desde quando você tem palavras tão bonitas aí dentro? — Seokjin enxugou as poucas lágrimas do olho e voltou a se recostar no ombro alheio.

— Desde o momento em que você precisa delas — Namjoon esperou mais um momento, até pelo menos a vergonha daquelas palavras baixar, para tomar coragem e continuar — Mas você não é o único, sabe Jinnie… Os dias estão passando e eu tenho dormido menos também para poder treinar mais, eu quero ser útil para você e… Cuidar de você…

Iria continuar, abrir o coração como nunca havia feito, contudo, ao olhar para baixo o amigo já dormia, respirando profundamente e com o rosto um pouco amassado pela posição nada favorável, Namjoon poderia rir e beliscar o amigo, mas o rapaz merecia as poucas horas de sono que teria a oportunidade de ter até os momentos antes da cerimônia de purificação, e talvez, fosse pelo Deus Raposa que ele tivesse dormido e não ouvido nada daquilo.

 

 

— Tem certeza que não quer voltar e vestir um yukata*? — Namjoon estendeu mão.

— Eu já disse que estou bem, Namjoon. Não posso parecer para o nosso povo vestido de qualquer forma — Seokjin aceitou a ajuda para iniciar a descida dos lances da íngreme escada.

O sol já brilhava alto no céu, irradiando raios dignos de um quente dia de verão e era acompanhado por uma leve brisa, mas que não ajudaria em nada na longa caminhada até os pés da montanha que Seokjin insistia em fazer andando, deixando o bonito kimono — de coloração rosinha preenchido por desenhos de diversas flores multicores que alcançavam um pouco além dos joelhos — arrastar a barra pelo chão de terra. Eles atravessaram o imponente torii*, que destoando do templo trazia consigo uma coloração forte em vermelho, indicando a entrada e seguiram pelos degraus com certo cuidado, mesmo que já acostumados com o caminho da escada à muito não mais uniforme e preenchidas por camadas grossas de lodo. Em cada lateral da escada, seguindo a mesma com espaçamentos idênticos entre cada, permaneciam pequenas estátuas de animais, que, diziam as lendas, eram as representações de espíritos abençoados pelo Deus Raposa e ajudavam a cuidar do templo como agradecimento.

Continuaram a andar mais alguns passos além do fim dos degraus e só estão Seokjin deslizou a mão de dedos finos do aperto da grande de Namjoon.

— Com licença, e obrigado — disse ao completar o ato.

O príncipe soou totalmente indiferente, fazendo Namjoon parar a caminhada por alguns momentos enquanto sentia uma pontada de dor começar a se espalhar do peito até atingir o estômago com uma sensação incômoda, mas esperada. Outro ponto que havia mudado muito no sacerdote com o passar do tempo desde a cerimônia. Os dois passaram a entender que a tal “pureza" que tanto falavam não se tratava de manchas nas roupas ou muito menos apenas da pureza física que o escolhido pelo Deus Raposa deveria ter, era um conjunto de sensações e emoções das quais ele deveria se abster a fim de se doar totalmente ao ato de purificar as terras, necessitava de um equilíbrio constante que não envolviam desvios ou emoções fortes demais tais como amor ou ódio. Era dar àquela missão uma parte fundamental de sua vida mundana. Seokjin sempre fora uma pessoa boa por natureza, gentil demais para o próprio bem e por isso às vezes se deixava levar por Namjoon, mas nunca se aproximando em demasia, e se afastando quando o mais novo começava a apreciar ou nutrir alguma esperança dentro de si, como fazia naquele momento enquanto andavam e o mais velho mantinha uma distância de um braço entre eles, quase usando o guarda sol, que havia aberto, de escudo.

Namjoon respirou fundo, segurando tudo que estava na ponta da língua para si mesmo, o que seria ele para o príncipe além de um mero mortal e plebeu que lidava com a segurança? Ou pelo menos ele queria responder que era apenas isso. Porém, quando olhava para o homem ao seu lado via seu amigo — seu melhor amigo —, um dos seres vivos a quem mais admirava e confiava, via a luz atravessar o guarda sol com um tom rosado e lhe colorir o rosto sem tirar qualquer traço de beleza ímpar e única, como os lábios grossos e os olhos cheios de compaixão ou a pele perfeita demais para ser real. Via quem havia se tornado o amor de sua vida sem sequer perceber ou pedir permissão para tal. Algumas vezes no passado, o soldado se martirizava por sentir, temia que o Deus Raposa jogasse a ira não somente sobre si, mas sobre Seokjin também, e com isso muitos mais sofreriam. Pediu ao Deus inúmeros perdões e que tirasse o sentimento pecaminoso de si, entretanto o mesmo só crescia e crescia, e foi quando percebeu que não era totalmente errado amar, o próprio Deus em seus ensinamentos ensinava o amor. Não sabia se estava sendo cético demais virando as coisas para seu lado ou “próprio bem e benefício”, mas já havia desistido de tentar mudar quem era e a quem o Deus lhe permitira sentir mais do que deveria.

A descida acabou sendo o mais silenciosa possível, inconscientemente os dois aproveitavam a presença um do outro e a paisagem. O caminho não era estranho para nenhum dos dois, as idas e vindas feitas por eles, repetidas pelo menos uma vez a cada semana, seja por um, por outro, ou pelos dois, Seokjin geralmente estando em uma carruagem ou sobre um cavalo. Caminhar era algo raro vindo do príncipe devido a falta de preparo físico que o deixava facilmente cansado em caminhadas muito longas, como no momento em que ele já começava a respirar com mais dificuldade e dar algumas pequenas goladas de ar pela boca.

— Quer parar um pouco? Ali tem um tronco, podemos nos sentar — Namjoon apontou onde algumas plantas abriam caminho nas laterais de um tronco caído próximo a beira da estrada.

— Se não queremos voltar no anoitecer, não podemos ficar parando — alegou, mesmo que o houvesse parado para olhar com tentação para o lugar onde poderia descansar.

— Alguns minutos não vão fazer diferença, eu trouxe água, pão, algumas frutas e arroz — o soldado mexeu na bolsa de viagem como se realmente não soubesse de cor o que havia ali dentro, a cada palavra olhava para o companheiro, para dar tempo dele se imaginar comendo cada uma das opções, como sabia que ele fazia ao passar a língua discretamente pelos lábios — Mas já devemos ter passado a metade, ou será que não? Bem, mas podemos-

— Eu acho que… — Seokjin não deixou que o outro continuasse a frase, o atropelando com as palavras que seguiram uma tosse fingida e a movimentação do guarda sol sendo fechado — Eu acho que podemos sentar e beber um pouco de água, afinal não podemos nos desidratar — seguia a passos pequenos para próximo do tronco.

Namjoon não mais discutiu, deixando que um sorriso sutil fosse a comemoração silenciosa de mais uma vitória — mesmo que ele conhecesse demais o Kim para perder nos próprios jogos mentais —. Seguiu o mais velho e se sentou no tronco, colocou a bolsa no chão e dali tirou um pano simples para cobrir a superfície da madeira um pouco úmida e o outro poder se sentar, só então, depois deste estar confortável, foi que ofereceu-lhe um cantil de tamanho mediano cheio de água. Parou para observar quando a face do outro adquiriu um leve tom rosado nas bochechas ao satisfazer a sede que nem deveria saber ter — ou simplesmente não querer admitir estar — e foi lhe oferecendo aos poucos os alimentos que tinha na bolsa. O vento mais fresco ajudava a aliviar o cansaço, assim como a vista para além da montanha, era possível ver outros vilarejos não pertencentes à região e destinadas aos cuidados de outros príncipes e templos.

— Seokjin — chamou sem virar o rosto para olhar, a visão periférica apenas pegando os pés esticados do mais velho ao obter um “hm” como resposta — Você já se imaginou longe daqui? Digo… Não tendo mais a responsabilidade de purificar ou cuidar do templo, ser apenas mais alguém no mundo, poder viajar, conhecer novos lugares e pessoas e… Sei lá, talvez ter uma família ou… Amar?

Aos poucos Namjoon criou coragem para levantar a cabeça e encara o perfil do amigo, este parecia sequer ter ouvido a pergunta, mais ocupado em saborear um morango em suas mãos por partes, deixando apenas as pequenas folhas na última mordida, mas ao virar para Namjoon, o olhar mostrava um brilho diferente, como se os olhos estivessem lacrimejando sem motivo aparente, porém carregados de uma seriedade distante que fez o mais novo segurar a respiração ao entender que sim, Seokjin já havia pensado — e talvez até parado para imaginar — aquilo antes. Poderia ser uma coisa boba para muitos, afinal pessoas normais costumavam pensar no futuro e como a vida poderia e poderá ser diferente de acordo com a escolhas feitas nela. Contudo, ali estava o ponto: “pessoas normais”. Seokjin e Namjoon, estavam longes de ser pessoas normais, porém, Namjoon ainda poderia escolher, Seokjin não. 

— Acho que já descansamos o bastante, podemos continuar — o sacerdote levantou abrindo novamente o guarda sol e esperando que o soldado fizesse o mesmo.

Não havia nenhum compromisso em imaginar, sonhar fazia parte do ser humano, alguns estudiosos falavam ser um mecanismo de defesa e fuga das dificuldades cotidianas. Porém, observando onde eles pisavam diariamente, talvez aquela pergunta fora pesada demais e o soldado estava longe de conseguir aguentar a tranca em sua garganta e a dor se espalhando.

— Desculpe — foi a palavra final antes de se juntar ao lado do mais velho e continuarem o caminho.

Os dois tinham certeza que caminhadas como aquelas seriam esquecidas por algum tempo.

 

As vilas, como sempre estavam pacíficas e produzindo bem. As pessoas que passavam na rua expressavam alegria aparente pelo olhar, confiantes de que estavam seguras e protegidas dentro e fora das pequenas casinhas frágeis produzidas de madeira — e muitas ainda feitas de palha e argila —, e sem mais preocupações, enchiam as ruas principais com barraquinhas simples de comércios variados, conseguindo alargar ainda mais o sorriso ao saber que o sacerdote estava a caminho para a visita semanal. Para tantos era uma honra recebê-lo no humilde vilarejo que chamavam de lar e se sentiam envergonhados por não terem se preparado para tal encontro, mesmo não sendo algo com que o homem mais próximo do Deus se importasse, seu principal objetivo ao descer a montanha, era saber se o povo precisava de algo e agradecer pelo trabalho duro que eles continuavam fazendo todos os dias para ajudar a manter o templo e outras vilas.

— Príncipe, como é bom o tê-lo em nosso meio novamente! — um homem de vestes coloridas e chamativas gritou chamando a atenção de outros.

— Sacerdote, soube que apreciou a última safra de morangos! — uma mulher de feições mais magras que o recomendado se aproximou, limpando as mãos compulsivamente no avental manchado.

— Mais já foram encaminhadas, senhor! — outro homem elevou a voz atrás dela.

— Mas também temos um estoque! — outro levantou os braços e pulou querendo, além de ser ouvido, também visto.

— Logo as folhas vão cair, senhor, nos recomenda algo? — uma moça mais jovem se precipitou fazendo uma reverência em respeito ao conseguir abrir caminho para estar frente a frente com o Kim.

— Devemos começar a preparação para o festival? — abriram espaço para um ancião que se trajava de forma tão berrante quanto o primeiro.

Seokjin não havia andado mais de dez passos além de pórtico improvisado feito de pedras que marcava a entrada do vilarejo e já se encontrava cercado pelos aldeões de diversas classes, se amontoavam feitos galinhas em busca de milho ao redor do rapaz, porém nunca o suficiente para que — qualquer um daqueles homens simples de mãos sujas e não dignas — o tocasse realmente, ninguém tinha coragem para cometer tal ultraje.

Namjoon se encontrava um pouco atrás do purificador, preparado para qualquer passo imprevisto dos aldeões ou de seu protegido, mas bastou um olhar discreto do outro para que soubesse que seus serviços ali não eram tão necessários, que o próprio príncipe lidaria com a situação. Aceitou, com um menear de cabeça, o guarda sol já fechado e aos poucos se afastou dando espaço para mais pessoas se aproximarem e ficarem confortáveis. Assim como conheciam Seokjin, todos da vila conheciam o cuidador dos Kim, a presença dos dois ali era totalmente normal quanto a solitária do soldado, contudo poder se dirigir diretamente ao sacerdote era sempre um competição implacável a quase todos.

— Bem vindo de volta — a voz feminina atrás de si lhe chamou a atenção, fazendo com que se virasse com um sorriso no rosto, deixando a mostra as famosas covinhas que abriam um sorriso retangular da moça. De aparência jovem, deveria ser ainda mais nova do que os moradores do templo, não usava roupas tão chamativas quanto a das outras mulheres, porém as curvas do corpo e o cabelo longo volumoso faziam qualquer dos acessórios que ela usava, nas orelhas e em volta da cintura fina, desnecessários — Não esperava que aparecesse por aqui duas vezes no mesmo dia — De braços cruzados e postura empoderada ela tratava o outro de igual para igual, sem se preocupar com as amarras lhe impostas desde pequena.

— Até parece que não está feliz, Taehyung — Namjoon entrou na brincadeira junto a ela e os dois riram baixinhos dissipando o fingido ar de tensão.

— Talvez esteja mais feliz em ver o príncipe do que em ver você.

— Vou me lembrar disso da próxima vez que pensar em trazer uma dessas coisas pra você das minhas viagens — ele tocou a própria orelha indicando para um dos exemplares brilhantes que ela usava, presente do amado amigo.

— Vou me lembrar disso da próxima vez que você chegar em minha tenda todo injuriado e eu não cobrar nada pelos cuidados.

— Você sabe que vamos ficar nisso a tarde inteira se continuar assim.

— Você sabe que me deve muito mais do que a sua derrota em nossa discussão infantil pode pagar.

Novamente os dois se puseram a rir quase descontroladamente como sempre acontecia quando juntos. Taehyung deveria ser a pessoa mais amigável de todos os vilarejos pelo qual o soldado já passara, e também a qual com quem ele tinha mais contato. Era geralmente ela quem cuidava dos ferimentos e doenças dos aldeões, uma curandeira de mão cheia, da qual Namjoon também usufruia do trabalho mais vezes do que deveria ser recomendado. E muito além disso, Taehyung era uma das pessoas que tiveram o privilégio de se deixar abençoar por algum espírito da floresta, talvez até mesmo pelo Deus Raposa, mas não se sabia ao certo, ela jamais chegaria aos pés de Seokjin, mas ela tinha seus “dons”.

— Namjoon… — a curandeira chamou mais séria quando a crise de risos entre eles finalmente se findou — Você pode me acompanhar por um instante? Eu preciso falar com você sobre uma coisa.

— Hm? Sobre o que seria? Eu estou acompanhando o príncipe, não posso ficar muito distante.

— Prometo que vai ser rápido — deu um passo para mais perto, conseguindo tocar o braço do amigo — É que noite passada e também de madrugada antes de você sair-... — ela parou arregalando os olhos fazendo o homem ficar confuso com o corte da fala, mas logo entendeu pelo afastar do toque quente e da reverência exagerada — Sacerdote! 

Com o silêncio repentino entre os dois, o farfalhar das pequenas pedras contra o chão de terra ficou mais aparente, identificando a movimentação logo atrás dos dois. Seokjin se aproximava com uma cautela supérflua que quase deixou o outro ansioso para que este parasse de arrastar os pés e estivesse ao lado deles de uma vez para que a mulher também pudesse se levantar. Entretanto, ele parou um passo atrás, passou o olhar entre os dois e então sorriu, um sorriso que Namjoon reconheceu como forçado e estranhou no mesmo momento, preste a comentar sobre, mas o outro foi mais rápido:

— Namjoon, estamos de saída — chamou com um mover de mão.

— Ah, senhor, esta…

— Vamos, devido a parada que fizemos está mais tarde do que o esperado e não podemos deixar o templo só —  novamente a fala do soldado foi cortada, resultando na falha da apresentação de Taehyung e Seokjin apenas virou o corpo rumando em direção a saída da vila.

Houve tempo ainda para uma rápida troca de olhares entre os outros dois, Taehyung expressando apreensão e preocupação junto a um leve mover de dedos numa despedida muda e Namjoon expressando desculpas e desentendimento junto a um pequeno sorriso de despedidas antes de correr para alcançar o protegido.  

 

— Vocês pareciam muito próximos… Aquela com quem você estava conversando, e rindo — o mais velho só voltou a falar quando já se encontravam na metade do caminho do caminho de volta, surpreendendo tanto o acompanhante que o fez perder o final mais baixinho acrescentado no final da frase.

Diferente da vinda, os passos eram se encontravam mais rápidos, como se o templo realmente estivesse chamando pela presença deles, e mesmo que Namjoon estivesse acostumado a andar com ainda mais pressa em suas solitárias viagens, a atmosfera pairada entre o dois, até aquele momento tornava a respiração dificultosa e as ações cansativas. Era ele agora quem segurava o guarda sol aberto sobre a cabeça de Seokjin, enquanto este tinha as mãos unidas e escondidas pelas mangas, e diferente de si não expressava qualquer fadiga, só uma séria e leve curiosidade, pelo pouco que podia ver, já que acaba por ficar alguns passos para trás — não sabia quando havia perdido tamanha preparação física por parte do sacerdote.

— Você está se referindo a Taehyung? — perguntou apenas para ter certeza, pois a resposta era óbvia, sendo a moça a única pessoa com quem Namjoon teve contato durante a visita e o olhar lançado pelo Kim representava bem isso, fazendo com que continuasse — Acho que dá pra dizer isso sim, a conheço desde que comecei a treinar — passou a mão sobre o queixo rindo ao se lembrar — Você deve se lembrar que a minha mãe era péssima com cuidados de feridas, nem sequer beijinhos em ralados ela sabia dar direito — riu mais alto, mas ao ver que não era acompanhado apenas continuou meio sem graça — Então a primeira vez que eu acabei me machucando de verdade fui levado até a família dela, os curandeiros da vila, e foi quando nos conhecemos, ela herdou as habilidades deles e, com a morte dos pais, passou a cuidar da vila. Ela é bem legal e gentil, mão de seda, que chamam, você nem sente quando ela cuida de você. É ela também quem guarda os morangos pra mim, aqueles que eu trago pra você, ela sempre faz questão de reservar os melhores! Vocês se dariam muito bem.

— Sei — a face de Seokjin pareceu ficar carrancuda, mas apenas durante um segundo não deixando o mais novo ter certeza do que viu — Não sei se nos daríamos tão bem assim…

— O que está dizendo? Vocês têm muito em comum e-...

— O que ela queria te dizer quando cheguei? — mais uma vez a língua afiada fez o favor de cortar a fala, mandando a conversa para outro rumo.

— Hm… Não sei exatamente, ela não me disse — disse pensativo.

— Hm… — e com um murmurar a conversa se deu por finalizada o restante da viagem para o templo.

 

 

Namjoon observava de longe as acomodações do templo ficando cheias com o passar das horas do dia, os Kim tinham o costume de acolher a família de outros sacerdotes para o festival de outono, ou como ele gostava de chamar: “o festival do fogo”, devido ao festival ser feito ao redor de uma enorme fogueira representando a comemoração ao Deus Raposa e seu elemento, em meio as bonitas árvores de coloração alaranjada da época. E devido ainda não ser oficialmente o cuidador do sacerdote, só tinha a permissão para se chegar mais perto da família real quando fosse chamado ou estivesse ajudando nas preparações da festa. E no momento ele se mantinha rastelando, retirando todas as folhas caídas do caminho a fim de manter o templo limpo. Com certeza uma das coisas que mais gostava daquela estação era o barulho das folhas secas abaixo dos sapatos a cada passo.

Um monte grande já havia se formado quando ele deu uma parada, se sentando para beber água do cantil que trazia consigo na cintura. Foi quando quase engasgou ao ouvir a voz lhe chamar o nome baixinho no pé de seu ouvido e logo depois risadas com um corpo magricelo caindo sobre o monte e reclamando.

— Ah! Isso dói! — Seokjin reclamou erguendo uma das mãos para ser ajudado. 

— É claro que isso dói… Seu bobo — deu uma pequena pausa para não expressar um xingamento mais forte, mesmo que por brincadeira — Ou você achou que um monte de folhas secas, só porque você quer, ficaria mais fofo de um ano para o outro, você não se cansa?

— Eu achei que seu coraçãozinho teria um pouco mais de esperança! — Seokjin riu sendo ajudado pelo mais novo ao levantar.

— O que isso tem a ver?! — riu junto, mas diferente do outro ano, sentia o peso do amigo mais leve em suas mãos com certeza — Olha a sua roupa, está toda suja agora, e você nem deveria estar vestindo um yukata* nessa ocasião.

— Por que acha que eu o vesti? — boleou as sobrancelhas tirando uma cara de nojo fingida do outro — Mas enfim, eu não estou aqui para você ficar reclamando de tudo que eu faço.

Seokjin não se fez de inocente ao esperar uma resposta do amigo, sabendo que este faria qualquer besteira consigo desde que pedisse com jeitinho. Então, sem dizer mais nada, estendeu a mão até alcançar a do mais novo e acariciou antes de puxá-lo consigo para em meio às árvores que serviam de muro definindo onde começava e terminava o terreno do templo. Os dois conheciam muito bem a floresta em que adentravam, logo Namjoon não precisava fazer perguntas, para onde quer que o outro o levasse, saberia para onde estava indo, assim aguardava com curiosidade se deixando guiar pelos dedos delicados e sorriso faceiro, que a cada cinco segundos era possível ver pelas viradas de pescoço do aprendiz de purificador.

Chegaram em uma pequena clareira, dava para identificar que pouquíssimas pessoas vinham ou sabiam do lugar pela grama alta crescente dividindo espaço com flores e outras gramíneas que nenhum dos Kims jamais saberia o nome, ou se importariam com eles. O principal dali era que podiam sentar e conversar sem o medo de serem ouvidos. Quando crianças era um costume deles, o qual se perdeu à medida que a adolescência foi chegando e os olhares de um pro outro serem as poucas coisas que trocavam durante a semana.

— Você não tem saudade desse lugar? — Seokjin perguntou fazendo o amigo se sentar ao seu lado.

— Eu estou deixando essa sensação para mais tarde.

Os dois trocaram olhares por longos momentos refletindo com cautela e sem palavras o que o peso daquela frase, para eles, poderia conter. Até Namjoon lembrar que precisava voltar para suas atividades antes que alguém desse falta de sua presença e lhe culpasse por “estar intervindo no caminho do jovem escolhido”.

— Então, para o que me trouxe aqui?

— Ah, sim — o príncipe limpou o canto dos olhos, se atrapalhando um pouco, antes de pegar algo no pequeno bolso colocado a pedido seu na roupa — Eu ganhei isso, há alguns minutos atrás e queria que você fosse o primeiro de fora da família pra quem eu vou mostrar! E eu queria também que só você visse, só porque é você — sorriu ajustando as mãos e as estendendo delicadamente para o mais novo, como se tivesse medo de quebrar o que estava ali sobre elas.

— Está começando a ser egoísta, Jinnie, pare com isso, sabe que não pode ser assim — afagou a cabeça dele.

— São dois na verdade… — diminuiu a voz em um sussurrar leve, mesmo que não houvesse ninguém por perto além deles, os espíritos e o olhar do Deus Raposa, escolhendo por ignorar o outro, afinal era claro que ele sabia — Esse aqui, foi meu pai quem me deu.

Nas mãos ele trazia um colar longo feito de contas de madeira de tamanho pequeno, tendo entre algumas umas menores ainda. As contas não aparentavam ser novas, e Namjoon reconhecia bem o formato de alguns pergaminhos que já havia estudado na biblioteca do templo quando lhe permitido. Seokjin tinha nas mãos um Juzu, mas não qualquer um, aquele que era passado de purificador para purificador quando estavam aptos o bastante para assumir verdadeiramente a posição.

— E este… — devagar Seokjin continuou e colocou outro ao lado do que já tinha em mãos — Eu ganhei da família que veio nos visitar para o festival. Minha mãe disse que eles são os que vivem no outro templo mais próximo daqui e que é o purificador deles quem vai sempre vir nos visitar daqui em diante.

— Eu vi — Namjoon tomou uma pausa para limpar a garganta que se encontrava um pouco seca, mas sem tirar os olhos dos objetos sagrados — Eu vi um garotinho com eles, que deveria ter quase nossa idade, é dele quem você está falando, né?

O futuro purificador apenas concordou, e novamente os dois caíram em silêncio enquanto encaravam os rosários que deveriam provavelmente ficar enormes contra o pescoço fino do Kim.

— Então, agora é pra valer… — Namjoon forçou os pulmões a se encherem de ar pelo que parecia anos depois da última inspiração.

— Sim…

O jovem sacerdote abaixou as mãos, sentindo os objetos pesados demais para que continuasse com os braços erguidos.

 

 

Namjoon corria pelo templo, tentando refrear as passadas o máximo que podia e ainda assim continuar rápido o bastante para terminar o que deveria ser feito antes do tempo da cerimônia dar início. Aqueles dias eram de tamanha correria que o deixavam pedindo pelo conforto de sua cama. Mesmo que estivessem acostumados e tentassem arrumar a maioria das coisas importantes no dia anterior, os preparativos não pareciam ter fim, e o soldado não queria que a roupa — já pronta para prestigiar a purificação — estivesse suja quando chegasse a hora.

Arrastou a porta da sala especial sem fazer muita força, equilibrando nas mãos as velas que continham pétalas diversas dentro da cera, não podia ser o desastrado da última vez que quebrou algumas, então se concentrava no serviço, pelo menos até bater os olhos na pele clara que via o sol diretamente poucas vezes na semana. Seokjin, com cuidado despejava o óleo perfumado pelo ombro, deixando com que escorresse pela pele exposta e ao se sentir satisfeito corria os dedos pela região espalhando mais o líquido e fechando os olhos apreciando a sensação. Se parasse para pensar era uma imagem comum quando ainda eram crianças, porém na cena também havia a mãe do menino esfregando com certa força o óleo nele e uma carinha feia de desgosto por parte do mini sacerdote, com certeza as coisas haviam mudado muito, principalmente ao presenciar aquela preparação após tantos anos sem vê-la.

Namjoon deixou cair uma vela, gelando no mesmo momento que Seokjin parou os movimentos e olhou para ele por cima dos ombros. A imagem lhe esquentou de tal maneira que achou que teria o perigo de derreter as velas mais próximas de seu corpo, entretanto as pontas dos dedos continuavam duras no estado gélico, prontas para começar a suar pelas sensações tão distintas vividas juntas.

— Seja mais cuidadoso, mais gentil — soou a voz doce.

E sem se importar mais com o outro, o purificador voltou a se mexer, dando uma última volta no ombro com os dedos e se levantou ajeitando o kimono de modo adequado a ocasião. Diferente dos kimonos que o rapaz costumava usar, aquele em específico era feito apenas e exclusivamente para a cerimônia. Em um tom de rosa pastel, ele amarrava muito bem todo o corpo do sacerdote e descia como cascata, se tornando mais frouxo a partir da finalização da cintura do laço grande. O tom de rosa se misturava com alaranjados, vermelhos e amarelados ao chegar na barra que subiam formando labaredas quase reais, e destas se desenhavam uma enorme raposa que dava uma volta, abraçando-lhe a parte de trás do corpo, a lateral e metade da parte da frente. Elegante, charmoso, delicado, expressivo e puro, todos os adjetivos que descreviam igualmente o homem dentro da vestimenta, bem mais brilhante na visão do jovem soldado.

— Tudo preparado?

A virada repentina lhe descobriu observando, chocando olhar com olhar e trazendo um rubor desconfortável para Namjoon, este que rapidamente baixou a cabeça e o corpo para recolher a vela esquecida no chão.

— S-Sim, vou apenas acender as velas — limpou a garganta para não correr o risco de engasgar na própria saliva produzida em excesso no curto período de tempo. Por sorte, a vela com lilases dentro não havia quebrado na queda.

Se apressando, mais uma vez, ele colocou todos os objetos nos devidos lugares e se dirigindo para o outro cômodo onde um pequeno contêiner com fogo já estava preparado, acendeu cada uma das velas com extrema concentração enquanto Seokjin se posicionava no meio da sala. As velas serviam como uma representação do que um dia foram as chamas usadas pelo próprio Deus Raposa, totalmente menos destrutivas, eram boas para identificar a pouca força que humanos comuns tinham comparado ao Deus.

Namjoon se posicionou no canto mais escuro da sala, deixou o rosto se cobrir de sombras — e se pudesse prenderia a respiração até que estivesse finalizado — tudo para permanecer o mais invisível possível enquanto a cerimônia se sucedia. Era sua missão permanecer ali para caso algo desse errado ou viesse a atrapalhar, mas como já vinha acontecendo, sua atenção desviava erroneamente para o sacerdote e ele se perdia nas costas largas e posição ereta, quase altiva, mas também respeitosa perante a presença da divindade.

A cerimônia se deu início. Diferente das orações matinais, com cuidado Seokjin retirou as contas de seus braços e a posicionou no meio de suas mãos, unidas em frente ao corpo. Poucos centímetros a frente estava uma máscara com o formato quase humanoide da face de uma raposa, possuía tons vermelhos e dourados — e em algum momento, diziam que, ela havia pertencido ao próprio Deus Raposa. Talvez um presente dele para o primeiro homem mais próximo de si.

Oração após oração a cerimônia seguia junto com a leve brisa que adentrava pela porta principal aberta com a visão para o pátio principal do templo. Seokjin moveu as mãos separando os dois rosários e um vento mais se espalhou, trazendo junto a ele um pouco de areia, algumas folhas e apagando duas das velas, uma de cada lado. Namjoon, focado demais no amigo de infância e como o ombro do kimono dava sinais de que iria deslizar do lugar a qualquer momento, se lembrou tarde demais de sua verdadeira função ali, apenas quando uma folha pareceu ameaçar lhe cortar os olhos ao passar na frente do mesmo. Se levantou e devagar veio com o longo palito com a chama na ponta para acender as velas. Entretanto, Seokjin, sem parar a oração, lhe encarou nos olhos com um virar de cabeça mínimo na direção dele. Meros segundos, talvez não mais do que dois, porém o bastante para fazer o soldado criar raízes formadas de dúvidas e esperanças bem ali onde estava.

O soldado apenas se moveu quando os dedos queimaram e ele percebeu estar sujando o chão da sala com as cinzas. Ainda com a estranheza lhe apertando o coração e lhe dizendo para não fazer nada do que fosse se arrepender depois, ele voltou o mais rápido e silenciosamente para a posição da qual não deveria ter saído por mais de vinte segundos. Depois disso não houve mais concentração alguma por parte dele, ouvia os murmúrios distantes do purificador e sentia os olhos se irritarem mais e mais a cada esfregada que ele dava sobre as pálpebras, deixando que um pouco de areia acumulada nas mão entrasse em contato com o órgão sensível.

“Servo. Você não é nada mais que um servo” as palavras ásperas da matriarca dos Kim lhe vinham à mente, lutando contra seus mais diversos pensamentos.

Com um suspiro, Seokjin deu fim a cerimônia. Devagar enrolou o juzu e o nenju novamente contra os braços e sorriu, agradecendo ao Deus uma última vez junto a uma profunda reverência que quase lhe fez tocar a testa no assoalho. Ao tentar se levantar, no entanto, ele foi novamente ao chão, indo contra uma das pernas e batendo o cotovelo na superfície do tapete no qual se sentara. O barulho pareceu finalmente despertar Namjoon do turbilhão que se encontrava seu ser no momento e em uma ação impensada ele se aproximou estendendo a mão para o mais velho.

— Está tudo bem? Consegue se levantar? — a pura ingenuidade de não perceber onde estava e o que fazia caiu ao perceber o olhar analítico do outro da mão estendida, para o rosto despido de qualquer malícia.

O príncipe não deveria ser tocado, não por qualquer um. Até a idade em que precisava ser cuidado ele poderia receber toques dos meros seres humanos que estavam ali pelo templo em cargo de lhe servir e servir o Deus, mas com a maturidade, mais nenhum toque deveria ser recebido a menos que o próprio Deus Raposa viesse a terra para lhe abençoar. Namjoon já havia quebrado aquela regra tantas e tantas vezes que passou a ser um ato que ele nem sequer tinha mais consciência de que fazia por fazer — ou guiado pelo poderoso desejo carnal de sentir mais perto aquele que tanto admirava — , um ato que Seokjin erroneamente permitia mesmo sabendo das consequências. Mas eram duas as ocasiões que o mais novo se mantinha afastado: quando estavam em público, não querendo espalhar qualquer falácia ou fofoca, e quando estavam na sala da cerimônia, diante a presença e olhos do Deus Raposa mais fortes do que nunca.

E qual não foi a surpresa quando Seokjin lhe segurou firme as mão e sorriu da forma mais doce que ele já havia visto. Namjoon estava, mais do que nunca, encantado.

— Estou sim. Minhas pernas… Apenas ficaram um pouco dormentes, obrigado.

 

Aquele era só o início.


Notas Finais


Waaa~ Obrigada por chegar até aqui!
Esse foi só o primeiro capitulo e eu sei que ele ficou extremamente longo aaaaaa! Mas era pra ser uma one-shot! Me desculpem! Acabei por dividir ele em 3 capítulos já que ficou desse tamanha :") Não desistam de mim! uahauhauh
Quero agradecer imensamente ao apoia da @niihchan que betou essas tantas páginas e ainda deu vários gritos comigo sobre a fanfic me fazendo pensar em várias coisas auhauahu Obrigada mulher! Você é linda! Também agradecer a @Jeongukiss que fez ESSA CAPA MARAVILHOSA! Vocês viram esse Jin de cabelo comprido que maravilhoso!? Ela se esforçou muito e eu aprecio todo o carinho que você colocou ali!
Beijos de luz a todos! E até a próxima! Que Namjin e o Deus Raposa abençoe vocês! uahauhau

Fanfic da @Anchovinha:
https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-raposa-de-kimono-vermelho-13847539

* Significados:

Juzu e Nenju - Rosário budista. O objeto em si é chamado Juzu  珠 数, que significa literalmente “contar contas”, ou seja, contas para contagem de recitações. Igualmente comum é o sinônimo nenju 念珠, “contas da atenção plena”, um lembrete de que recitar é um auxílio à meditação e até mesmo uma forma dela. (fonte: Nichiren Shu Brasil)

Kimino -  É um estilo de vestimenta tradicional que se tornou parte do guarda roupa dos japoneses, durante o período Muromachi (1392 - 1568). Durante essa época, o modo de se vestir denominava o rank social e a ocupação. O kimono pode ser confeccionado de diferentes materiais, cores e estampas (mais simples e mais complexas) dependendo da ocasião para que é usado. (fonte: From Japan Blog) Há também formas específicas para o cinto usado (Obi) e o colocado no pé (Zori), mas não especifiquei isso, então se quiserem podem entrar no site e dar uma olhada!

Yukata - É basicamente um kimono casual usado durante o verão, geralmente feito de algodão. Também são muito populares em festivais (matsuri). Eles eram adquiridos pela nobreza como roupas de banho antes das toalhas específicas serem usadas no Japão, mas por serem mais baratos de se adquirir, se tornaram populares durante a Era Edo. (fonte: From Japan Blog)

Torii - (Basicamente um pórtico) É uma construção típica do xintoísmo, e representa a entrada em território considerado sagrado. Quando feito de madeira, o portal geralmente é pintado de vermelho – segundo a tradição japonesa, tal cor tem o poder de espantar doenças. Existem torii feitos de pedra, bronze e outros materiais também. (fonte: Made In Japan)

Futon - Um colchão fino, geralmente cheio de camadas de rebatidas de algodão e envolto em tecido de algodão, colocado no chão para dormir, especialmente em interiores tradicionais japoneses, dobrado e guardado durante o dia. (fonte: Dictionary)


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