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História O Problema - Capítulo 1


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Notas do Autor


Antes fazia parte de minhas Crônicas, porém é uma obra de ficção, diferente do que é suposto estar lá.

Capítulo 1 - Capítulo Único


O problema nunca foi minha aparência, nem minha personalidade. Sempre tive facilidade ao fazer amigos, mas a solidão me envolvia mesmo que estivesse rodeado de pessoas que se importam, ou que parecem se importar. Sonhava com o momento que desvendaria o problema por trás da minha percepção totalmente adulterada da realidade – como a única pessoa para quem contei isso havia descrito. Deixei o assunto para outra noite quando meu irmão entrou no meu quarto, odiava essa falta de privacidade, mas o quarto era dele também. Botei o travesseiro sobre minha cabeça para a luz não alcançar meus olhos, meu irmão começou a falar enquanto tudo o que eu mais queria era dormir. Ele não tinha essa noção, era tagarela desde quando começou a falar. Nem consigo contar quantas vezes tive que calar a boca dele para não me encrencar, talvez algo entre trinta e quarenta. Enfim, o bendito teve a capacidade de deixar a porta aberta e a luz acesa e eu, que não consigo dormir com claridade e barulho como havia, levantei para arrumar a bagunça do meu irmão, como qualquer irmão mais velho deve fazer, mesmo que não por vontade própria. Aproveitei o trajeto para ver meu reflexo para a superfície espelhada do meu guarda-roupa, comecei a olhar para meus próprios olhos, tentando resolver seus mistérios, como se faz com uma pintura abstrata. Meu coração parou por um instante, havia visto um vulto atrás de mim. Uma figura humanoide com antenas desapareceu à minha reação, acabei quase quebrando um machado de madeira que meu irmão havia ganho de um índio, sabia que se tivesse acertado não o nocautearia, mas sentiria uma baita dor. Fechei a porta e logo após fechar os olhos cai no sono.

Acordei tarde, mas ainda me sentia a cama me puxando como se eu não devesse sair de lá. Era sábado, então não tinha motivos para sair mesmo. Abri a janela e vi a Lua iluminando toda a cidade, o relógio marcava doze horas, mas o Sol estava longe do nascer. Minha memória se acendeu, aquele relógio foi enviado por meu padrinho da Bélgica. Era meia-noite, não meio-dia. Mas então, onde estaria minha família? Era cedo demais para se preocupar com isso, voltei para minha cama e senti uma brisa a irritar minha orelha. Que sensação mais desgostosa, fechei a janela e me cobri inteiramente com três camadas de cobertores. Queria eu poder sentir como se meus amigos realmente estivessem lá a cada precioso momento, além daqueles em que eu mais necessito. Todos que eu amava ou estavam ocupados demais com seus próprios problemas ou já havia se esquecido completamente de mim. Às vezes eu duvidava de minha própria sanidade por amar quem não sentia nada por mim. Mas acontece que eu fiz uma promessa, na verdade eu fiz várias. Porém se eu não puder cumprir todas, então pelo menos a promessa de continuar amando-as para sempre eu gostaria de manter. Teimosia, não paro de pensar nessas coisas, até sentir uma gota salgada entrar em minha boca, fazia tempo que eu não soltava uma lágrima. Devia fazer apenas algumas semanas, mas o tempo que passa pra mim faz tudo parecer distante. Como a distância que realmente estou de todos aqueles que me cercam.

Um barulho infernal transformava a trilha sonora normalmente composta da chuva em algo semelhante a um filme de terror, não tinha percebido porque estava perdido em meus melancólicos pensamentos. Eram bombinhas jogadas atrás de meu prédio, provavelmente adolescentes como eu que acharam passatempos mais divertidos que ficar deitado pensando em sua própria existência. Acho que estou ficando louco, mas não posso contar a ninguém senão minha liberdade corre perigo, ao invés disso poderia contar a alguém que não conhece minhas verdadeiras origens. Resolvo entrar em um site para encontrar amigos, encontro alguém que parece um mínimo normal. Sempre detestei aqueles que tinham algum tipo de preconceito, embora eu tivesse um pouco dentro de mim. Me incomodava com aqueles que não aceitavam meus – não poucos – amigos virtuais. Faziam pouco de mim, como se eu não pudesse me cuidar, estava tão ciente dos perigos da internet quanto eles – talvez até mais de acordo com a minha experiência na Deep Web, que não é tudo aquilo que eles dizem. Então depois de um bom papo com o “Anônimo1432” contei o que me afligia. A mensagem do bate-papo não desaparecia, já sentia um texto enorme vindo. E minha previsão estava correta, aparentemente haveria um benfeitor nesse site cheio de pervertidos e desinteressados. Ele me recomendou um livro que eu nem sequer sabia da existência, mas o título me chamou a atenção. Certamente “O Protagonista de Sua Própria História” poderia ser de alguma ajuda, porém já havia algumas sagas a pôr em dia.

O Sol alcançava meus olhos, que já muito acostumados com a escuridão cederam à luz e tive que fechar as cortinas. Pensei em ir comprar pão e frios para poder tomar café, algo que não é de costume em minha família. Vesti qualquer coisa que achei no armário e peguei minha carteira. As caixas falando de como me pegavam no colo quando eu era bebê achando que eu ia me lembrar de algo é uma das coisas mais estúpidas pelas quais vou passar, fato. Críticas às atitudes sem-noção das pessoas à parte, parece que uma nova loja havia inaugurado no “shopping” da esquina. Uso as aspas porque é um edifício com uma concentração de lojas mas não chega a ser um shopping de verdade – pode ser preconceito mas é a verdade.

Resolvi dar uma olhadinha na loja, estava mesmo precisando andar mais um pouco. Uma loja de fantasias, nada convencional. Mas nada surpreendente também. Ao olhar no espelho do vestiário vi o mesmo vulto da noite passada, tive a mesma reação. Felizmente não tinha um machado de madeira à disposição, senão haveria deixado alguém bem machucado. Pareceu que a pessoa fantasiada também se assustou, ela deu um pulo e eu sorri. Por algum motivo aquela situação me pareceu engraçada, a pessoa a minha frente começou a rir, enquanto a dona da loja ficava confusa com o que estava acontecendo. Digo dona porque eu a conhecia, era uma velha amiga da minha mãe. Minha mãe mencionara algo sobre ela começar uma loja, só não imaginava do que seria. Gostei tanto da loja quanto gostei da garota que assustei. Parecia um sonho, coisa de filme mesmo. Ela não parava de sorrir pra mim. Cheguei a achar que tinha algo em meu rosto, mas após uma breve olhada no espelho minhas suspeitas se foram. Na verdade me encontrava com um brilho que nunca vira, acreditava já ter ouvido falar de algo assim antes. Provável que em um romance de minha tia, aquela velha adorava escrever tanto quanto gostava de mim. Queria que ela ainda pudesse me dar livros como dava antes, era minha única fonte de cultura. Agora deve estar apodrecendo dentro de um caixão de madeira no terreno baldio ao lado de sua velha casa. Entretanto aquela garota me lembrava ela, não eram os traços de seus rostos, nem seu jeito – pelo menos o que vi nesses poucos momentos que notei a existência dela – não era também por sua maneira de falar, que era doce mas guardava um remorso, timidez talvez.

Me despedi e fui direto para casa, a imagem da árvore destruída atrás de meu terreno me trazia cansaço e alívio. Como se ali houvesse depositado todos os meus pensamentos, sinto que agora estou livre para criar novas experiências e determinar meu caminho de novos ângulos. O dia chegava ao fim assim como minha energia para aquele dia. Minha família parecia bem, acho que só queriam tirar um tempo longe de mim, não tive coragem de perguntar. Deitado em minha cama penso em meu ordinário dia. Se todos os dias pudessem ser assim não me importaria de abrir mão de bons momentos. Aquilo que tinha já estava bom. Aquilo que tinha era suficiente.


Notas Finais


Espero que tenham gostado. Muito obrigado por ler!


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