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História O que a liberdade é - Capítulo 1


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Notas do Autor


Primeiro de tudo eu gostaria de dizer, voltei com os meus projetos pós-Frozen II! Quem diria? Não posso fazer nada, minha cabeça borbulha em ideias.

Gostaria de dizer que esta é uma one-shot focada na questão da liberdade da Elsa. Não é uma fic propriamente Elsamaren, embora a Honeymaren tenha sua de aparição.

É um projeto feito para ser um pouco denso, então espero que fique bom. São bastante caracteres, porém acho que o resultado valeu a pena.

Ah, e o fato de ser postada em pleno Valentine's day foi COMPLETAMENTE aleatório. Coincidências do destino...

Obrigada pelo apoio. Boa leitura 💖

Capítulo 1 - Capítulo Único




E os medos que uma vez me controlaram
Não podem me pegar de jeito nenhum
É o tempo de ver o que eu posso fazer
Testar os limites e superá-los
(Let it Go, Frozen, 2013)


•| ⊱✿⊰ |•

Liberdade. Era uma palavra interessante a ser analisada pela garota que agora encarava um rio sereno e tranquilo, enquanto uma melodia agitada e feliz ditava o movimento contínuo dos seus pés. Por muitos anos aquilo foi apenas um sonho. Estar livre, sem amarras causados pelo medo de quem era? Uma completa utopia. A liberdade já tinha sido apenas um conceito para ela, uma ideia de estar fora daqueles muros e barreiras que a sufocavam. Por meses. Anos. Décadas.

Anos achando que sua vida nunca seria nada além de portas fechadas e oportunidades limitadas por quem ela era. Alguém que ela não sabia quem era, algo que ela nem sequer conhecia. Presa por ser alguém que ninguém compreenderia.

Moveu as mãos lentamente, observando a geada que se formava entre elas. Sorriu ao encarar a magia liberada pelos seus dedos, notando em como aquilo tinha sido temido. Ainda podia sentir as camadas de cetim das luvas que deveriam contê-la. E podia sentir quando elas foram, finalmente, retiradas, libertando toda e qualquer sensação de repreensão. Lembrou da sensação daquela liberdade que achou ter quando estava longe de todos, quando na verdade, tinha apenas medo. Os grilhões, que a perseguiam durante toda sua vida, ainda estavam ali, apenas um pouco maiores e com um grande alcance, mas permaneciam.

Medo. A palavra que a regeu por tantos anos.

Ouviu o som contagiante de uma risada, enquanto sua cabeça virava-se em direção a ela. Observou uma cabeleira ruiva e frenética sobre camadas de uma capa quente que se movia de um lado para o outro, junto com as muitas outras pessoas ao redor da fogueira alta. Hoje era um dia importante para os Northuldra, O dia em que o frio do inverno se dissipava e a primavera fazia sua entrada triunfal e como Anna poderia perder? A rainha de Arendelle fez questão de organizar sua agenda para estar ao lado da irmã e porque precisava daquilo. Precisava saber como era o equinócio em meio a floresta encantada, junto as raízes de sua mãe. E é claro, relaxar a tensão causada pelos deveres reais.

Elsa pode ver a harmonia no sorriso dela estar por estar tão solta e livre de olhares atentos e prontos para ordens, apenas compartilhando um momento feliz, saltitando de um lado para o outro com o noivo. Aquela que era a sensação que ela tinha perseguido por tanto tempo. E agora podia vê-la em Anna.

Voltou os olhos ao rio e encarou o próprio reflexo no lago parcialmente congelado. Todo o cenário estava começando a mudar aos poucos, mas ainda era possível notar alguns pontos brilhantes em meio ao céu; as estrelas, mais cintilantes que nunca. E seus olhos se prenderam durante alguns instantes, mas logo se voltaram ao seu próprio reflexo. E ao ver as mechas loiras, iluminadas pela luz da lua e uma tênue sombra da fogueira, ela sorriu. Elsa se sentia muito além do monstro acreditou ser por tanto tempo, ou dos demônios que a atormentavam. Ela era muito além do que achara que era. A liberdade não era mais apenas um conceito, pois ela já tinha a experimentado. A liberdade era entender quem ela era verdadeiramente. Ver que ela era muito além do que achou por muitos anos. Ela não era nada do que tinham dito. Ela era mais.

Ela era o que via no seu reflexo. Apenas isso. Os fantasmas tinham finalmente partido e libertado algo que ela achara que tinha perdido por tanto tempo.

Sua identidade.

—Ei, por que está tão quieta aqui? —Uma voz familiar a chamou, fazendo com que seus olhos se levantassem, lentamente e sem nenhum tipo de pressa. As coisas estavam tão diferentes ultimamente. Ela não tinha que prestar contas a alguém quando ficava fora de sintonia, ou ter que fazer coisas apenas porque era a rainha e todos a seguiam. Ela se sentia livre de toda e qualquer barreira invisível a qual estava submetida anteriormente.

Ela não tinha responsabilidades e deveres e devia muito àquelas pessoas que a rodeavam. Devia muito aos Northuldra.

Era um grande recomeço e ele cheirava a terra e tinha um calor gostoso que emanava da grande fogueira próxima.

—Eu só... estou aproveitando—Deixou escapar, enquanto seus olhos não desviavam por um instante do rio que se estendia a sua frente. Suas águas eram calmas e pareciam apenas refletir seu estado neste instante.

A garota atrás dela deu alguns passos à frente e sorriu. Seu reflexo apareceu logo atrás do quinto espírito, trazendo sua expressão sorridente e serena ao alcance da visão.

—Pois eu fico feliz com isto—A garota Northuldra disse e abriu um grande sorriso. Ela parecia um tanto receosa em se aproximar, mas não porque temia o que a outra garota podia fazer a ela. Pelo contrário, Honeymaren já tinha provado que os poderes de Elsa eram tão tranquilos e naturais quanto qualquer outro Espírito.

Às vezes o Elsa se perdia em devaneios e se colocava a pensar como teriam sido as coisas se ela tivesse lidado com suas origens anteriormente. Vivido entre a Floresta Encantada onde magia era tratado como algo tão natural quanto a troca de estações ou o céu azul. Houve épocas em que aquilo conseguiu tirar sua atenção e causado a ela muita ansiedade, mas não importava mais. Todos os dias ela repetia a si mesma que o mais importante era o que estava vivendo agora. Ela estava pronta para desfrutar de sua liberdade.

Retornou ao momento em que estavam alguns segundos depois, observando em como a garota retorcia as mãos de uma forma um tanto nervosa. Certamente, Honeymaren não a temia pelos poderes nem pelo fato da garota ser o quinto espírito. Mas a temia de uma forma diferente que ela não conseguia entender. Como quando Elsa a cumprimentava sob Nokk enquanto se dirigia a Ahtohallan e ela sempre ajustava a postura, ou como parecia medir as palavras ao se dirigir a ela.

A mulher tentava não pensar muito em determinados assuntos, já que relacionamentos não eram bem o seu forte. Ela era bastante polida e treinada para manter relações comerciais entre reinos, mas amizades próximas e pessoais ainda eram complicadas. Então as vezes, seus bilhetes entregados por Gale em Arendelle eram repletos de dúvidas sobre por que as pessoas ficavam nervosas em sua presença, especialmente Honeymaren. O que ela estaria fazendo de errado?

E as respostas eram sempre bem direcionadas. "Deixe de ser tão intimidante, Elsa. Parece que você está indo fazer um acordo toda vez que ela se aproxima!" Disse Anna, em meio a um passeio com a irmã. Elsa franziu o nariz e não compreendeu muito bem, mas apenas seguiu o conselho da irmã. Desde então, ela estava tentando ser mais casual, mas mesmo assim era um tanto complicado. Anna sempre tinha sido melhor com relacionamentos de todo jeito, então deveria possuir pelo menos um pouco de razão.

Estar em meio aos Northuldra significava liberdade para ter amigos próximos, caso quisesse. Nunca mais ela estaria sozinha por quem era. E ela almejava ter amizade daquele povo, pois eles a faziam se sentir bem e conhecer cada vez mais de quem era.

—Então, está gostando da festa? —Elsa perguntou, enquanto a outra a olhava pelo reflexo. Ela sorriu, um tanto desajeitada, mas não demonstrou muito— pelo contrário— apenas cruzou os braços rente ao corpo de uma forma casual e tranquila, mas algo no castanho dos seus olhos demonstrava um pouco de insegurança. Elsa tentou desligar sua análise a ela, mas era complicado. Aquela garota era uma guerreira, uma líder nata e uma grande mulher e não deixaria que suas fraquezas fossem evidenciadas. Elsa conhecia bem aquela postura, pois fora a que ela exerceu durante muito tempo da sua vida.

Mas não deixou que Honeymaren percebesse que tinha entendido. Ela devia isso.

—Com toda certeza, não mais que Anna—ela brincou e Elsa riu ao ouvir mais um dos gritinhos animados da sua irmã. Honeymaren se atentou ainda mais a sua expressão, enquanto o quinto espírito relaxava os ombros de forma serena, virando o rosto de uma forma tão casual e bonita que chegava a ser hipnotizante. E o mais bonito é que ela mal parecia notar em como aquilo era incrível de se observar. Havia algo de mágico em como as mechas se moviam na brisa ou em como os cristais do vestido cintilavam em meio a luz noturna.

Ela não duvidaria em um momento que aquela era uma visão divina. Não sabia como não tinha notado antes que aquela garota era especial em um nível espiritual.

—Vocês deram algo muito forte para minha irmã beber? —Perguntou, enquanto a garota arregalava os olhos de uma forma um tanto preocupada. Ela certamente estava nervosa e Elsa segurou a risada em um esforço muito grande. Ela tinha consciência que Anna era uma mulher adulta agora, mas os outros não sabiam disso, então a expressão de Honeymaren beirou o pânico total.

—É mais uma tradição Northuldra do que formalidades, mas se quiser eu posso dizer a Yelana que não foi uma boa ideia fazer isso à rainha...—A garota disse, tensa e até mesmo um pouco desesperada. Seus olhos estavam tão arregalados que o quinto espírito percebeu que tinha que interceder antes que ela realmente tentasse proibir a irmã de sua folga de rainha.

E isso seria um tanto perigoso.

—Honeymaren, está tudo bem—Ela começou, não contendo uma risada. Puxou o próprio copo para as mãos, estendendo-a para a garota, que relaxou os ombros—Vou contar um segredo de rainha. Quando nós vamos a festas chatas e desinteressantes, sempre temos que cuidar de tudo. Seja da nossa postura, aparência e gentilezas. Por isso sempre ordenam que bebamos apenas um gole bem pequeno a cada cinco minutos—Disse, e levantou o pequeno copo moldado nas pequenas mãos pálidas. Honeymaren o encarou, enquanto Elsa o estendia para ela com um aceno de cabeça.

A garota sorriu nervosamente ao pegar em suas próprias mãos e tombou a cabeça ao lado, uma expressão divertida nos lábios.

Cheio—Constatou, enquanto Elsa sorria.

—Algumas coisas nunca mudam—ela disse enquanto a outra concordava efusivamente. De repente, as águas do rio pareceram um pouco agitadas e turvas, enquanto os olhos castanhos da Northuldra seguiam observando a garota de Arendelle—Nem imagino como deve ser esgotante para ela estar nessa posição.

—Às vezes é bom alguns momentos para apenas relaxar e se permitir ser algo além do que as pessoas esperam de você, certo? —Ela divagou, encarando a loira a sua frente, que possuía a cabeça baixa. Elsa passou as mãos por trás dos ouvidos, deixando algumas mechas caídas ali, enquanto parecia alheia a tudo e todos. Honeymaren apenas a respeitou e esperou o momento em que ela quisesse falar.

—Você acha que ela está se saindo bem? —Deixou escapar, entre um suspiro. As vezes ela se questionava se tinha tomado uma decisão correta. Anna era jovem e as vezes, mesmo que inconscientemente, Elsa a enxergava como alguém tão inocente, como se ainda fossem crianças. Ela sabia que tinha assuntos para cuidar e que Anna fazia parte da ponte que ambas formavam, mas mesmo assim, as vezes ela pensava demais. E pensamentos eram difíceis de serem controlados. Tais como situações.

—Ela está fazendo tudo com maestria, se me permite dizer—Honeymaren disse, com um tanto de reverência. Pareceu hesitar antes de sentar-se próximo a antiga rainha e sorrir, enquanto mantinha o corpo virado contra o rio, apenas para observá-la melhor. A mulher a encarou, sua expressão indecifrável. Ela nem se dava conta do quanto era boa em esconder—Sabe, nós visitamos Arendelle uma vez, durante o inverno. E ela estava muito bem, se me permite dizer. Fez chocolates para todos nós. O reino estava muito bem, Elsa. Sua irmã é uma rainha por excelência.

A garota loira encarou notando como suas palavras pareciam seguras. Seu peito apertou um tanto, mas ela suspirou e apenas confiou no que ela tinha a dizer.

Mas a Northuldra não tinha acabado. Apenas tombou a cabeça e levantou as mãos, gesticulando enquanto sussurrava.

—Vou te contar um segredo de chefe. Bom, futura chefe, se os deuses assim quiserem—ela começou, dando um pequeno sorriso—O fardo nunca é pesado demais quando se tem pessoas que você ama e confia por perto. Anna tem você, o Kristoff e todos nós, ainda que indiretamente.

A garota de Arendelle levantou os olhos azuis e gélidos, enquanto percebia a aparência despreocupada da outra tremer um tanto. Pensou no que poderia estar fazendo apenas com um olhar, mas respirou fundo.

—Relaxar é algo humano e necessário, então apenas aproveite com ela. Não se preocupe, Elsa. Sua irmã é uma das pessoas mais fortes que eu já conheci—Ela disse e houve algo na sua expressão que foi totalmente adorável. Talvez a forma como suas bochechas se contraíram ou como seus olhos se fecharam abaixo de sua franja. Talvez fosse somente a atmosfera, mas aquilo fez as indagações pausarem por um instante e o rio voltar a estar cristalino—Você também. São exemplos para todos os Northudra.

—Obrigada, Honeymaren. De verdade—Elsa disse, sentindo seus ombros relaxarem finalmente, enquanto a outra garota sorria.

—Disponha. Espero ter ajudado—ela disse e pareceu um tanto deslocada, sem saber ao certo o que deveria fazer agora. Nenhuma das duas sabia ao certo e não entender os motivos pela qual a Northuldra estava ali só tornava tudo mais incerto.

Seja casual, a voz de Anna soou em sua mente. Fale sobre o que você acha, ou o que pensa.

—Acho que a confiança de se estar livre é algo que nós conquistamos aos poucos. Anna ainda é meu ponto fraco—Confessou, enquanto os olhos da outra brilhavam em algo que ela não conseguiu compreender totalmente. Talvez se abrir tivesse causado essa reação adversa.

—Pois bem, um dia você estará livre de tudo que ainda te prende indiretamente, eu tenho certeza. E estaremos aqui para ajudá-la—Ela retrucou, lançando um olhar sereno em direção a outra—Eu estarei aqui para ajudá-la. Você tem a mim.

—Igualmente—Elsa disse—Não precisa temer.

—Eu nunca temeria—ela disse e a certeza nos seus olhos fez com que algo acendesse no coração da garota. Ela estava descobrindo vertentes da liberdade que desconhecia completamente. Como confiar em alguém e ter esta confiança retribuída.

—Muito obrigada. Por tudo. Fazia muito tempo que eu não me sentia assim—A mulher agradeceu.

—Ter sua confiança é importante para mim. Eu só... obrigada— Honeymaren mal conseguia se mover. Permanecia com os olhos fixos nas mãos, desviando-os as vezes para as botas ou para o fogo que crepitava em um ponto próximo de ambas.

Foram alguns momentos em silêncio, quando a Northuldra finalmente se sentiu à vontade para voltar os olhos para algum ponto que não fosse as próprias mãos. Ela levantou o olhar algumas vezes, procurando algo no céu, e Elsa permitiu olhar o encanto da garota com cada astro celeste que parecia novo ao alcance.

Honeymaren tinha os olhos fixos nas estrelas brilhosas no céu inteiramente pontilhado e o quinto espírito se sentiu sortudo por ter a oportunidade de ver aqueles pequenos momentos de um povo notando as maravilhas do céu pela primeira vez. Ainda se lembrava de como todo o povo se dirigiu ao ponto mais ao norte apenas para ver as luzes de inverno tomarem o céu e em como todos eles pareciam boquiabertos com a sensação de notá-las pela primeira vez. Coube a ela e aos espíritos guiá-los e nada poderia se comparar ao brilho no olhar dos Northuldra aquele dia.

A Northuldra pareceu tirar os olhos dos céus pelo primeiro momento e voltá-los para a outra mulher, que a encarava com um sorriso a sua expressão maravilhada. O constrangimento foi como uma sombra em sua face, mas a expressão de êxtase ainda seguia em seus olhos castanhos e em meio a um sorriso pequeno e tímido.

—O céu é simplesmente uma das coisas mais fascinante a qual eu já tive contato—Ela sussurrou, enquanto a rainha concordava, sem desviar seus olhares. Se Honeymaren estava incomodada com aquele gesto, não demonstrou em momento nenhum.

As casualidades das suas palavras foram completamente impensadas. Quando percebeu, abriu um sorriso e já estava narrando sobre si mesma.

—Sabe, quando eu e Anna éramos mais novas, não fazíamos a menor ideia do que eram constelações ou que elas possuíam nomes—Elsa começou, atraindo o olhar de Honeymaren para si—Então nomeávamos nós mesmas. Apenas apontávamos e dizíamos os nomes que elas tinham na nossa mente.

A mulher virou seus olhos e começou a encarar os pontos brilhantes no céu e o brilho que o quinto espírito emanava era simplesmente hipnotizante e nostálgico. Suas mãos estendidas para o céu enquanto o tecido branco do vestido que usava caía sob si. Seus olhos brilhavam quase tanto quanto as estrelas no céu.

—Anna deu àquela o nome de brilhinhos, porque ela era simplesmente a estrela mais brilhosa do céu, muito original. —Disse a garota, enquanto a outra dava uma risadinha. Honeymaren encarou os dentes brilhosos e quase fechou os olhos para ouvir a risada sincera—Nas nossas mentes, aquela parecia com a espuma do mar de uma história que o papai nos contava, então chamamos aquela outra de sereia.

—Isso é muito interessante. —Deixou escapar, enquanto Elsa voltava o olhar para ela, parecendo um tanto mais contida e triste. Suas próximas palavras evidenciaram as razões pela qual seus olhos azuis caíram.

—Depois eu tive tempo de sobra para descobrir seus nomes verdadeiros. Sírios, da constelação de Cão maior ou Cassiopeia—Ela disse e suspirou. Ainda permanecia com as duas orbes azuis sob o céu—A vida era mais simples quando o céu acordava, e não quando aconteciam auroras boreais.

Honeymaren respirou fundo, observando como as mãos dela se agarravam ao tronco tombado, suspirando profundamente.

—Eu queria ter tido oportunidade de nomeá-las mais cedo. Porém, aqui estamos nós e finalmente a névoa se foi. Somos gratos a você—Ela disse e baixou a cabeça levemente, deixando a outra constrangida com o ato. Louvores e agradecimentos não eram coisas a qual ela estava muito acostumada. O mérito não era dela e de verdade, Elsa se sentia mais grata a eles do que o contrário—No entanto, não faço ideia do que são constelações, me perdoe.

Elsa riu, tirando o olhar do passado e encarando o presente, que se encontrava nos olhos castanhos da outra.

—Eu posso compartilhar meu conhecimento sobre astronomia, embora não seja lá a melhor nisto—ela deixou escapar —Um ritual noturno entre nós e quem mais quiser, o que acha? Sei que os Northuldra são o povo do sol, mas os astros noturnos são tão agradáveis e úteis para navegação quanto os do dia.

Honeymaren permaneceu em silêncio, a observando boquiaberta.

—Isso seria tão maravilhoso! Pelos deuses, você faria isso mesmo? —Honeymaren disse, levantando do pequeno tronco tombado onde elas se encontravam. A forma como seus pés se uniram rapidamente e as mãos penderam sob o corpo foi nada além de adorável.

—Mas é claro. Eu estou aqui para isso.

—Eu não sei como agradecer, apenas... obrigada por isso—Ela disse e seus olhos esbanjavam felicidade, enquanto intercalavam seu olhar entre os astros e a rainha, dando um sorriso verdadeiro —Eu queria retribuir!

—Isso realmente não é necessário...

—Só me deixe dizer, por favor— a menor disse com um olhar brando com um pedido silencioso. Elsa não seria capaz de dizer não naquele instante, então apenas assentiu com a cabeça—Seria muito ruim se eu a convidasse para um ritual? Nada de álcool, eu juro

—Terei que usar minhas formalidades de rainha?

Talvez... Gostaria de chamá-la para dançar. Mas não se preocupe, eu também não sei, então vai ser algo interessante para as pessoas olharem. —Ela disse e sorriu ainda mais, mas sua empolgação não foi retribuída.

Elsa travou. De repente, sua mente estava em todos os momentos em que ela temeu estar em contato com professores de dança em meio as fortalezas do seu quarto e outros príncipes e membros da família real e na cerimônia de coroação. Ainda lembrava das desculpas educadas que tivera que dar, escondendo o que era por medo. Ela não temia pisar em seus pés ou ser deselegante, mas tinha medo de congelá-los como tinha feito com Anna quando eram crianças. E a cena se repetiu em sua mente, como um filme em looping. Sentiu a respiração falhar ao procurar os cabelos—Agora completamente ruivos— de Anna em meio à multidão. E os encarou, enquanto a garota levantava as mãos e acenava para ela, em uma animação infantil.

Elsa respirou fundo. O primeiro passo para se libertar, era deixar o passado para trás. O passado é passado agora. Não havia mais o que temer.

—Você pode esquecer esta ideia, foi estupidez da minha parte—Ouviu a afirmação em um fio de voz quase inaudível.

A outra garota voltou a si e balançou a cabeça negativamente. Hesitou em levantar do tronco tombado aonde estava sentada, mas assim o fez. Respirou fundo antes de se aproximar e tentou esquivar os pensamentos do passado e deixá-los para lá. Estendeu as mãos e tocou levemente nos braços da garota Northuldra, que permanecia atenta a cada movimento da outra. Seu casaco de pele era suave e macio e foi apenas isso que ela sentiu. Nada de gelo, nada de tragédias pelos seus poderes. O passado estava no passado. Repetiu consigo mesma e abriu um sorriso fraco.

—Está tudo bem. Acho que vai ser uma ideia interessante—ela disse e sorriu. Honeymaren encarou as mãos dela, depositadas sob as mangas, fazendo com que ela se sentisse um tanto estranha e suas bochechas coraram levemente. Elsa percebeu, se sentindo uma tola por invadir o espaço dela de tal forma. Respirou fundo, mas manteve as mãos ali—Você se importa?

—Não, eu não me importo—Honeymaren disse, mas algo em sua expressão parecia o contrário. Ela parecia tensa e extremamente nervosa ao caminhar entre as folhas com os braços da loira sob si. As vezes dizia algo como desculpas pelo farfalhar das folhas serem alto demais ou em como seu senso de direção era terrível.

E Elsa sorriu, pois pareceu desvendar o mistério da garota. No fundo, a conexão entre elas poderia ser pelo fato de ambas serem extremamente semelhantes e parecidas, cada uma em seu respectivo modo. Elsa sempre achou que o fato de Honeymaren estar próxima a ela era o fato de ser uma das futuras líderes daquele povo, como um ato cordial entre duas governantes. Mas era além daquilo. Era uma tentativa de se aproximar da garota não pelos seus títulos ou posições e sim por ela ser uma pessoa como qualquer outra. E o quinto espírito podia sentir que no fundo, ambas não eram muito boas nisso.

Então resolveu facilitar como pode. Abriu um sorriso, enquanto afagava ainda mais seus dedos sob o braço da garota.

—Só gostaria de avisar que sou péssima dançarina, nunca nem ao menos tentei pelas... Bom, pelas luvas e em como eu sempre vivi distante de pessoas —ela deixou escapar, vendo como a outra parecia mais tranquila em andar lado a lado com ela. O rio se distanciava e a música ficava cada vez mais alta.—Isso me deixou um pouco nervosa e quando percebi, minha mente estava no passado novamente.

—Eu só podia treinar com Ryder entre os pastoreios e as caças e ele era um péssimo dançarino—ela disse e fez com que a antiga rainha soltasse uma risada melodiosa e extremamente agradável—Vamos ser ruins juntas.

—Isso é algo que me conforta—ela brincou e fez com que Honeymaren risse. Verdadeiramente.

E Elsa se sentiu bem com aquilo.

Andaram um pouco mais até uma região um pouco mais vazia da fogueira. Anna seguia animada, enquanto Elsa a encarava pelo canto do olho, apenas se divertindo enquanto observava a irmã se jogar sob um Kristoff que parecia cansado e esgotado para tais movimentos. Achou que ambas passariam despercebidas entre a multidão, porém os olhos atentos da rainha de Arendelle pousaram sob ela antes mesmo que pudessem escapar.

—Fomos pegas—Honeymaren deixou escapar, enquanto Anna largava as mãos de um Kristoff extremamente aliviado, enquanto corria em direção a irmã.

A rainha se jogou sob Elsa, cabelos fora do lugar, sua capa jogada em alguma parte da festa que ambas desconheciam. Anna sorriu, enquanto pegava pelos braços, tentando arrastá-la para mais próximo da fogueira.

—Irmã, você não sabe o que vamos fazer. Dançar! Não é maravilhoso! —Anna gritou, enquanto nem ao menos parecia se dar conta que sua irmã tinha companhia.

—Isso é maravilhoso, Anna. Mas...—Ela tentou calmamente, mas o furacão que era sua irmã não deu muito tempo antes de cortá-la.

—Vai começar agora. Você é meu par, já que o Kristoff não aguenta nem sequer uma dança mais rápida—ela desabafou, enquanto o homem sequer se importava com os comentários.

O quinto espírito sorriu, um tanto constrangido para a mulher Northuldra, tentando passar um pedido silencioso de desculpas.

—Anna, seu comportamento foi rude—Elsa repreendeu, percebendo como a garota ruiva já puxava as mãos pálidas e gélidas em direção as suas, seguindo as outras pessoas que se posicionavam estrategicamente ao redor da fogueira. Assim que estavam ambas com as mãos acima da cabeça, Anna finalmente olhou nos olhos da irmã e pareceu prestar atenção em suas palavras.

—O que eu fiz dessa vez, Elsa—a garota cantarolou o nome da irmã, com um biquinho extremamente cômico e nem um pouco condizente com a sua postura de uma mulher adulta, no auge da idade.

—Você nem ao menos cumprimentou a Honeymaren ou pareceu notar que ela estava com a gente—Elsa brigou, enquanto a garota ruiva seguia procurando a tal garota no meio da multidão. E quando a encarou encostada em algum lugar, levantou as mãos e gritou seu nome, enquanto a Northuldra somente levantava a mão e cumprimentava ambas as garotas. E o quinto espírito suspirou. Não era muito efetivo brigar com sua irmã que estava claramente alcoolizada.

—Honeymaren é legal. Ela gosta de você e eu gosto dela por isso—Ela deixou escapar, suas palavras soltas, melodiosamente narradas, quando a música suave começou. Os olhos dela se arregalaram, enquanto permaneciam firmes no casal ao lado delas, que começavam a girar com as mãos acima da cabeça ao ritmo suave da canção.

Os passos de Anna eram incertos e Elsa percebeu que realmente existia alguma dançarina pior do que ela em toda Noruega. Seus passos eram pesados e elas estavam sempre atrasadas em comparação aos outros Northuldra, mas Anna estava rindo tanto ao girar com as mãos na cintura da irmã que a garota não teve outra opção senão se divertir e tropeçar enquanto a música se tornava mais frenética e rápida. A mulher mal conseguia acompanhar a irmã, quando um grito alto se fez presente e todos os casais se separaram para irem a lados opostos.

—Troca de pares! —Anna gritou e encarou alguém a sua frente, apenas um pobre adolescente que parecia assustado pelos passos frenéticos da rainha.

Como um raio, Kristoff apareceu em frente a eles, tomando as mãos de Anna para si, enquanto ela resmungava em meio aos giros que o noivo a guiava. Ela disse algo incompreensível a ele, enquanto o homem apenas encarava o Quinto Espírito.

—Eu assumo daqui—ele disse e Elsa agradeceu silenciosamente por Anna ir sem questionar e sair da roda onde todos dançavam.

Assim que ambos saíram, a mulher se sentiu um tanto deslocada e uma sensação familiar se apossou do seu corpo. Se sentiu novamente em meio a um salão de baile, observando tudo sob um trono, longe de tudo e de todos, separada apenas pelas camadas de tecido entre os dedos. Uniu os braços sob o peito, abraçando seu próprio corpo em meio a tantas pessoas. Seus olhos estavam fixos nas botas que usava, enquanto a palavra medo se repetia em sua mente. Se sentia vulnerável em meio a todos aqueles pares, mas antes que seus pés se movessem para sair do centro de dança, ela encarou outro par de botas a sua frente.

—Dançou muito bem, se me permite dizer. Acho que estava escondendo o jogo para gente—Honeymaren disse seus olhos se depositaram sob as mãos dela, presas sob o corpo. Respirou fundo antes de puxar as mãos dela para si e as esfregar lentamente, em um ato tranquilizador, que fez com que os olhos dela subissem rapidamente. Sua respiração descompassou ao pensar que a garota poderia ter percebido tudo e como ela ainda agia como alguém assustado, dominado pelo medo.

Mas seus olhos estavam serenos. Eles expressavam tanta ternura que os batimentos voltaram ao normal. Ela não precisava mais temer.

—Está tudo bem?

—Está, foi apenas uma sensação ruim—Deixou escapar e suspirou—Me perdoe pela Anna, ela estava apenas bêbada.

—Eu entendo. Ryder estava falando com a sua rena, então Anna não está tão ruim—A garota disse, enquanto a outra soltava uma risadinha—Você quer tentar dançar?

—Isso realmente vai dar certo? —Elsa brincou, enquanto se deixava levar pelo posicionamento de mãos da garota a sua frente. Ela apenas depositou as duas mãos juntas sob a cabeça,

—Eu não faço a menor ideia—brincou enquanto a outra baixava um pouco o rosto para rir.

Moveram-se lentamente, enquanto o coro de vozes ficava um tanto mais calmo e suave, mas ainda sim, um tanto rápido. Elsa não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas seguiu encarando as botas enquanto sorria, soltando algum tipo de comentário sobre como aquilo era fácil.

Em determinado momento, desviou o olhar de suas botas e encarou os dedos sob os ombros da garota. Eles estavam bem. Ela estava bem. Nenhum rastro de neve, nenhum congelamento acidental. Tudo estava bem.

Tudo cheirava a libertação.

E ela notou em como a liberdade estava em um rio, em uma gargalhada nos braços de uma garota.

E quando Honeymaren sorriu para ela. Ela sorriu de volta, pois não havia nada a temer naquele momento.

O passado está no passado

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Notas Finais


Obrigada por ler! Do jeito que minha mente está funcionando, é provável que desenvolva mais histórias, então... Isso não é um adeus!


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