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História O que der e vier - Capítulo 7


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Capítulo 7 - Isabel e Paulo


Isabel
Era um péssimo dia quando Paulo me contou sobre a proposta de trabalho. Proposta ótima por sinal, o cargo que ele sempre sonhou mas que teria de ocupar na sede de Washington. Não era um dos melhores momentos no nosso casamento, todos os assuntos acabavam em discussão, os problemas do cotidiano refletiam em absolutamente tudo. Na minha cabeça, sua ida era um jeito de solucionar os problemas escapando deles. Discutimos feio naquele dia, não nos falamos direito pelas próximas semanas. Ele disse que meu trabalho era diversão e eu lhe disse que nosso casamento acabaria se ele fosse embora.

E ele foi. Ficou na casa de Gabriel enquanto preparava os detalhes da viagem e eu decidi me mudar da nossa antiga casa. Nesse ponto todos da família estavam um pouco brigados, levou bastante tempo até que as coisas voltassem parecer as mesmas. Vendi a casa e usei minha parte do dinheiro para investir na minha carreira. Muita coisa mudou dentro de mim, coisas diferentes ocupam espaços diferentes depois do fim do meu segundo casamento. E como eu esperava, Paulo acabou se tornando apenas um rosto virtual na tela do celular. Em um conjunto de meses, os vinte e cinco anos que passei ao lado dele se desfizeram nas assinaturas de um papelzinho besta no cartório que ficou marcado como responsável pela nossa união.

As coisas estavam esquisitas quando Paulo foi pro exterior.

- A menina do Paulo estava com sangue nos olhos - Leonora entra esbaforida na sala, interrompendo de maneira divertida meu fluxo de pensamentos tensos - Você tinha que ver a cara dela dentro do carro.

Solto uma risadinha pelo tom exasperado de minha amiga.

- Coitada. Ela está doida para ir embora - observo, ainda largada no sofá de Leonora. Ela se aconchega na poltrona de Gabriel - As meninas estão pesando na dela.

- Elas vão surtar quando descobrirem que o Paulinho fica - Leonora comenta e eu concordo imediatamente.

Olho para a tela da TV por um tempo e percebo que minha amiga me encara de um jeito esquisito.

- Que foi? - pergunto, numa mistura de riso e curiosidade. As taças de vinho fizeram efeito por aqui.

- Sabe que esses dias eu me encontrei com o advogado da família do Gabriel? - ela levanta o assunto e dessa vez sou eu quem a encara de maneira esquisita - Aquele que eu falei que a Dora odiaria?

- Ah, sei... O machista - falei, servindo um pouco mais de vinho na minha taça. A garrafa acabou antes mesmo de completar um gole.

- Lembra que eu falei que precisava de um advogado para me ajudar a lidar com ele? - ela deixa escapar um risinho no fim da frase. Estava tão bêbada quanto eu, com o rosto totalmente corado, passando sem parar as unhas vermelho vinho pelo cabelo loiro.

Desviei o olhar da taça e encarei minha amiga com os olhos arregalados.

- Você não contratou o Paulo, né? - perguntei com um leve desespero embriagado na voz. Ela soltou mais uma risada involuntária que deixou seu rosto ainda mais vermelho. Alguma coisa me cutucou por dentro e preferi não investigar. Comecei a ameaçar minha amiga com uma almofada - Fala que você não contratou o Paulo!

Arremesso a almofada e ela se defende como um profissional dos esportes.

- Você daria uma carona pra ele até a editora? - ela faz uma vozinha delicada escondendo metade do rosto atrás da almofada.

- Eu vou matar você, Leonora! - enterro o rosto nas mãos, abafando minha exclamação. Ela ri novamente.

- Você me ama demais pra isso - minha amiga se levanta da poltrona e se senta ao meu lado no sofá, me abraçando de lado - E além disso, eu sou viúva. Preciso me divertir às custas dos casais vivos...

- Então, a senhora trate de ir atrás de um casal de verdade - lanço um olhar quase maternal e ela me lança um olhar engraçado - Eu sou divorciada.

Ela continua me olhando mesmo depois que volto a encarar a televisão e noto que sua expressão muda um pouco. Sua mão alcança a minha e a acaricia.

- Você sabe que eu posso indicar ele pra alguém que eu conheça... Ajudar de algum outro jeito, não sei - ela explica - Eu não vou contratar ninguém se fizer você ficar mal.

- De jeito nenhum! - afirmo - Ele com certeza quer te ajudar e é a melhor pessoa pra isso. Não tem essa de ficar mal. Eu sou bem grandinha, vou conseguir conviver normalmente com meu ex marido.

Sinto o peso dos olhos negros preocupados de minha amiga em cima de mim e olho para ela com a expressão totalmente despida. Leonora me conhece como ninguém. Compartilhamos os últimos vinte anos no trabalho e na vida e acabamos nos tornando quase irmãs.

- Eu conheço esses olhinhos - ela argumenta sem me dar muita chance de defesa - O casamento de vocês acabou de um jeito muito repentino. Ficou muita coisa no ar.

Tiro da minha cabeça os pensamentos que as palavras de Leonora me causaram e acionei a mulher madura e bem resolvida que habita em mim. Ajeitei a postura e girei um anel no dedo indicador.

- Repentino ou não, acabou - afirmo, com uma firmeza surpreendente até para mim. Leonora não acredita tanto nessa firmeza e eu nem tento forçá-la a acreditar. Nada nesses últimos cinco anos conseguiu convencê-la de que meu divórcio é definitivo. Ela dá de ombros e se levanta do sofá, juntando as coisas acumuladas na mesinha de centro.

- Vou fazer um chá pra gente - avisa, séria - do meu jeito. Com um pouquinho de whisky.

Dou risada e me aconchego melhor no sofá enquanto minha amiga maluca prepara nosso chá na cozinha.

Olho para o teto pensando nos acontecimentos dos últimos dias. As coisas estavam esquisitas quando Paulo voltou do exterior.

Paulo
- Me desculpa - respondi, recebendo um olhar pior que o anterior. Memorizo novamente o caminho da casa de Ana - Me desculpa mesmo... Eu ia te avisar. A gente ia conversar direito sobre isso.

- Quando? - ela pergunta friamente. Me sinto um lixo. Minha cabeça estava tão cheia de coisas nesses últimos dias. Recebi o aviso da demissão no mesmo dia em que soube da morte de Gabriel. Depois tudo pareceu uma avalanche com aeroportos cheios de gente, lágrimas, sentimentos misturados e um monte absurdo de coisas para resolver em menos de uma semana.

- Agora. Não sei... Antes que a gente fosse embora, lógico - me embaralho um pouco.

Ela exala forte e afunda mais o corpo no banco do carro como uma adolescente irritada.

- Olha, Paulo, eu tô no saturada disso aqui - ela gesticula como se englobasse todos os últimos acontecimentos nas mãos. Não percebeu que se referia a toda a minha vida - Esse clima esquisito, esse drama todo... ficar pisando em ovos. Tô tentando o máximo ser agradável com todo mundo, aceitei a carona da sua amiga. Não falei nada sobre o jeito absurdo que vocês estão ignorando a paranoia dela... Eu pensei que ia acabar tudo isso na sexta-feira, sabe?

Desvio meu olhar para ela por um segundo para que ela possa perceber o quão insensíveis foram suas palavras. Não funcionou.

- Entendo que você está chateada. Eu não precisava te envolver nisso - argumento - Mas não fala assim, Maitê. Meu erro não te dá o direito de falar desse jeito da Leonora...

- Não é disso que a gente tá falando - Maitê me corta, mas ainda decide se defender - E tá na hora de vocês aceitarem que ela tá ficando totalmente...

- Você não conhece a Leonora. Ela não é paranoica, nem está ficando - falo mais sério na esperança de que ela entenda que ofender minha amiga não vai fazer com que ela tenha mais razão. Já sabemos que quem vacilou aqui fui eu - Ela chegou em casa numa quinta à noite e encontrou o marido quase morto...

- Não é esse o assunto, Paulo - seu tom de voz murcha um pouco.

- Ela perdeu o amor da vida dela e ainda fez de tudo para nos agradar a semana toda - encaro o rosto dela novamente quando paramos no sinal vermelho - Me desculpa, mas eu não consigo escutar você dizendo que eu estou ignorando a paranoia dela.

Ela bufa e solta uma risadinha debochada quando damos partida no carro novamente.

- Esse é o problema! - ela exclama, como se me revelasse algo óbvio - Eu não posso falar nada! Tudo vai magoar você... vai ofender seus amigos, deixar sua família desconfortável. É claro que eu não conheço a Leonora, porra! Eu não conheço ninguém.

Penso em dizer algo quando ela para e encara a janela um pouco, mas ela decide continuar antes que eu possa formular alguma coisa.

- Tudo o que eu faço tá errado - seu tom continua subindo, tento entender sua frustração - Eu sou uma intrusa na sua família, fica cada dia mais ridículo! E você não podia pelo menos me avisar que ia ficar?

- Olha... eu sei que minhas filhas são difíceis... o clima esteve meio pesado mesmo, mas nós estamos fazendo o máximo para te deixar confortável - tranquilizo meu próprio tom na tentativa de deixar a conversa mais tranquila - Ninguém quer te fazer sentir intrusa...

Ela ri novamente, dessa vez com mais deboche.

- A única pessoa confortável aqui é você, Paulo - resmunga - Tá tão confortável que decidiu até ficar.

- Eu não disse que ia ficar pra sempre - rebato, um pouco ofendido - Só vou passar mais uns dias aqui... Eu preciso...

- Você quer - ela corrige - É diferente.

- Eu não quero magoar você, Maitê - tento olhar em seus olhos mas ela não permite. Toco delicadamente sua mão apoiada no estofado - Não queria tratar desse assunto desse jeito.

- Você não quer me magoar. Uhum - ela reflete, e finalmente volta a encarar meu rosto seriamente - Então volta comigo.

Encaro seu rosto todo, um pouco sobressaltado com a proposta.

- Olha pra minha cara e diz que vai voltar comigo pra nossa casa, pra nossa vida - ela continua, num pedido que me lembrava as expressões de minhas filhas no dia em que me mudei para os Estados Unidos. Maitê é muito jovem ainda, mais de vinte anos mais jovem que eu. Sua vida real envolve apenas o bege das paredes de nossa casa em Washington, os processos da empresa, o café que tomávamos depois do almoço e tudo que nosso cotidiano estadunidense engloba. Para ela não fazia sentido algum a ambiguidade da minha vida real. Eu a entendia. Às vezes não fazia sentido nem para mim.

Pigarreio, inevitavelmente desviando os olhos do rosto dela. Percebi sua expressão se dissolvendo em frustração e raiva.

You're an asshole - o sussurro raivoso de Maitê é acompanhado pelo fechar abafado da porta do carro, me causando um pulinho involuntário de susto.

Viro o rosto e acompanho em silêncio o corpo de Maitê entrando na casa. Essa cena não se encaixava em nenhum dos meus planos.

 



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