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História O que direi às estrelas - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Andrômeda


Fanfic / Fanfiction O que direi às estrelas - Capítulo 4 - Andrômeda

Luzia certamente estava mais chocada do que eu, e deveria, pois o mistério sobre si mesma parecia deixá-la cada vez mais confusa, eu podia sentir que estava perturbada com a notícia. Não demorou para que passasse por mim e caminhasse até a garota, acenando repetidas vezes na frente dela.

 — Consegue me ver?

Obviamente, eu olhei para Luzia só pra ter certeza de que ela sabia o que tava fazendo.

Enquanto isso, a menina olhou para todos os lados antes de negar com a cabeça, como se já soubesse o que estava acontecendo.

Naquele instante, Luzia voltou a olhar pra mim, com um semblante meio indeciso, como se esperasse minha permissão.

— Você é Tatiana, não é? — Perguntei, ainda na mesma posição de antes, apenas inclinando a cabeça.

— Sou sim. — Ela afirmou com a cabeça e sentou em um banquinho que havia no corredor, perto de onde estava.

— S-Se não for incomodar, quer ir pro Carnaval de rua comigo? — Comecei dizendo meio baixinho e gaguejando, até criar coragem para aumentar o tom de voz.

— Não acho que eu deveria passar o carnaval com um conhecido que eu flagrei pensando nos plano pra mais tarde. — Ela riu, inevitavelmente Luzia riu junto.

— Aquelas camisinhas foram colocadas aqui pelo meu pai. — Revirei os olhos. — Mas de qualquer forma... 

Eu estava prestes a fechar a porta quando ela se levantou.

— Espera! Eu vou com você, não quero ir sozinha… Tava saindo do meu quarto quando ouvi a voz da minha amiga, mas já que eu fui estúpida e errei… Ter companhia não é uma opção ruim. 

Abri um sorriso de ponta a outra ao escutar aquilo, era como se tudo estivesse se alinhando para dar certo, e eu nem fui tão impulsivo assim, carnaval de rua tem muita gente mesmo, ela não iria tentar me matar ou me sequestrar.

— Me espera só meia hora! — Disse enquanto corri para o banheiro. Mas não sem antes dar uma última olhada em Luzia, que estava prestes a tentar contato novamente.

Essa foi a primeira vez que a garota espacial tentou se comunicar propositalmente com alguém além de mim. Eu dei espaço para ela não apenas por estar me atrasando, mas para deixá-la confortável sem que a única pessoa que pudesse vê-la estivesse ali xeretando. Até porque eu sabia que ela me contaria o que aconteceu. Sendo assim, ela descreveu a conversa assim:

— Tatiana, ainda consegue me ouvir? — Disse enquanto sentava do lado de Tatiana.

— Pode me chamar só de Tati. — A menina voltava a olhar para os dois lados do corredor, na busca incansável.

— Me chamo Luzia, ou melhor, é o nome que me deram.

— Não é um nome feio, eu particularmente acho mais bonito que Tatiana. — Riu fraco, olhando para o lado oposto ao dela.

— Tô do seu lado direito. — Luzia alertou — De qualquer forma, como você consegue me ver? Só Eliseu conseguia me ver.

— Eu não consigo ver você, só ouvir, já disse…

— É, mas mesmo assim. — Revirou os olhos.

— Por que eu senti uma chateação no seu tom de voz?

— Poderia só me responder? Por favor, eu preciso dessas respostas.

— Mas eu não tenho mediunidade desenvolvida, só posso te ouvir, Eliseu deve ter já que ele consegue te ver. — Inclinou a cabeça, pensativa.

— Não é possível, porque eu não sou um espírito. — Cruzou os braços.

— Tem certeza?

— Sim, digo, não, mas eu saberia se estivesse morta, não? Ao menos me lembraria, eu não sou um espírito porque eu NÃO morri.

— No centro espírita o meu pai falou sobre isso.

— Sério?

— É, ele disse que espíritos podem não saber que morreram até perceberem que morreram. — Falou enquanto ajeitava o óculos.

— Mas eu não morri! — Luzia se levantou tão bruscamente que assustou Tatiana, como se ela pudesse sentir o frio arrepiante da pele da menina em seu próprio corpo.

— Desculpa, eu não posso te ajudar então. — Se levantou, porém calma, diferente da outra.

— Por favor não vá! — Segurou no pulso dela, mas dessa vez Tatiana não parece ter sentido nada, conseguiu inclusive mover o braço livremente.

— Você vai ter que me contar essa história do começo se quiser que eu não ache que estou enlouquecendo. — Tati disse enquanto sentava novamente.

E foi assim pelos próximos vinte e cinco minutos, tempo suficiente para que eu saísse do banheiro. Fiquei parado na frente da porta para não atrapalhar a conversa que as duas estavam tendo, já que pareciam estar se dando bem.

Luzia me disse que contou absolutamente tudo que aconteceu, desde quando apareceu para mim e conversamos, até quando decidimos passar o Carnaval fora de casa. 

Depois de um tempo, elas perceberam que eu estava ali e resolveram voltar.

— Eis aqui sua Andrômeda. — Tati falou.

Eu, particularmente, fiquei surpreso quando ela disse isso.

— Isso foi extremamente rude de se dizer. — Retruquei.

— Do que vocês estão falando? — Luzia se meteu na conversa, completamente confusa.

— Andrômeda foi uma moeda de troca, usada para agradecer a Perseu por salvar todos. — Respondi, revirando os olhos — É como se seu único propósito aqui fosse servir a mim.

Tatiana gargalhou.

— Eliseu, desculpe interromper mas pelo que eu soube, você tá mais para um cidadão grego qualquer do que para um herói grego. — Olhou para Luzia, ou para o lugar que achava que ela estaria.

— Não muda o fato de ter dito aquilo. — Franzi a testa, a encarando.

— Não foi nesse sentido! Ou por acaso você esqueceu que Andrômeda escolheu aceitar a morte de bom grado? Ela foi mais corajosa que Perseu, pois preferiu se sacrificar sabendo que seria melhor para o seu povo. Ela que decidiu isso.

— Tá mas eu não entendi o que isso tem a ver comigo. — Luzia riu, meio sem graça, totalmente perdida na conversa.

— Significa que não tem nada de errado com você e que pelo que você me disse, não tem problema em se aventurar para descobrir mais sobre si mesma. Sendo assim, quando se conhecer melhor, terá a coragem de poder escolher o que é certo. — Tatiana explicou, pacientemente, enquanto eu observava um sorriso envergonhado surgir no semblante da minha amiga espacial.

— Sua amiga deve ser uma pessoa incrível, porque você é incrível também! — Respondeu, tentando abraçar ela e frustrando-se ao perceber que a garota não a sentia.

— Sim, ela é. Inclusive é uma pena que ela não tá aqui. — Suspirou, olhando para o chão.

— Achei que ela estivesse nesse prédio, não tava? — Fiquei extremamente confuso.

— Não, ela tá internada em um hospital. — Respondeu e começou a andar, indo na frente — Pensei que ela tivesse melhorado e vindo atrás de mim, mas enfim, vamos logo?

— Em qual hospital ela está? — Luzia perguntou.

— Não quero falar disso agora, pode ser outro dia?

Encarei Luzia com um olhar fulminante enquanto andávamos, pois estava nítido o desconforto da menina.

— Então vamos focar em dançar e beber hoje, certo? É pra isso que estamos aqui. — Disse, ficando entre Tati e Luzia.

— Na verdade estamos aqui pra você dar seu primeiro passo em um evento social de grande porte. — Luzia me corrigiu.

— Ou seja, dançar, comer e beber. — Respondi — Conversar faz parte disso.

Tatiana sorriu, ainda sem mostrar os dentes, mas já era um progresso.

— Ei, Tati, a gente nunca conversou direito. Você já fez amigos na sala? Porque eu ainda não fiz nenhum. — Puxei assunto, tentando não deixar o silêncio permanecer, ao mesmo tempo que sentia o olhar orgulhoso de Luzia e percebia que estava fazendo a coisa certa.

— Uns dois apenas, você é o terceiro e já falei mais com você do que com eles. — Disse enquanto olhava pra frente — Não sou de muitos amigos, na minha vida toda só tive três, uma quis ser aventureira, não foi pra faculdade e daí sofreu um acidente, o outro foi pra pedagogia e aqui estou eu.

— Eliseu também conheceu uma pessoa que faz pedagogia, inclusive tava disposto a ensinar algumas coisas pra ele.

Dei uma cotovelada no braço invisível de Luzia devido a última frase.

— Não sabia que você precisava de reforço. — Tatiana continuou.

— E não preciso, por isso neguei educadamente. — Forcei o riso mais parecido com o real que consegui.

— E a gente vai ficar parado no meio da rua? — Lu mudou de assunto novamente.

— Esse meu amigo de pedagogia me chamou pra passar o carnaval junto com ele e outros amigos numa casa de praia, eu disse que casa de praia nunca é uma boa ideia para jovens desocupados e acabei convencendo ele a arrastar os amigos para mais perto da multidão. — Continuou assim que começamos a adentrar a rua principal da folia.

— Desde que ele esteja em um canto legal... — Continuei seguindo.

— Ele tem senso, não parece quando você conhece mas depois você percebe que tem senso sim. — Riu, apontando para um grupo de amigos ali perto, provavelmente estando na metade da avenida principal.

Quanto mais apressávamos o passo, mais o frio na minha barriga aumentava, acreditava que eram pessoas novas, novas convivências e novas oportunidades de ser chamado de lesado ou destrambelhado. E se estivessem bebendo? E se eu quebrasse alguma garrafa? E se eu fosse a visita indesejada? Minha cabeça estava repleta de "E se?", Luzia percebeu isso e repousou a mão no meu ombro como um alerta de que ela ainda estaria ali, junto comigo.

Quanto mais a gente se aproximava, melhor pude ver as pessoas que nos aguardavam, o medo aos poucos foi dando lugar à ansiedade e a sensação de encarar o desconhecido.

Acontece que nem tudo era desconhecido, quando estávamos a alguns metros de distância, reconheci o cabelo encaracolado do pedaço de mal caminho que havia tentado me ensinar a seguir por um caminho inesperado e tentador.

— Eliseu, este é Pablo. Pablo, este é Eliseu, estuda comigo então por favor sem me fazer passar vergonha hoje. — Riu e depois mudou para um semblante sério — De verdade, não faça isso.

— Pode deixar. — Respondeu com uma voz melosa, certamente já havia bebido algumas latas, mas não o suficiente para estar bêbado, não parecia ser o tipo de cara que se embebeda com facilidade — Agora por que não vai falar com meus amigos enquanto eu dou as boas-vindas ao seu e ofereço uma cerveja?

Tatiana suspirou e concordou com a cabeça, pegando a latinha que já estava na mão de Pablo e deixando-nos a sós, ou quase isso.

— Prazer, Pablo. — Pablo estendeu a mão.

— Vai mesmo fingir que não nos vimos antes?

— Não sei, depende de você. Não sabia que conhecia a Tiana.

— Digo o mesmo. — Apertei a mão dele — Sou Eliseu, novo amigo da sua melhor amiga.

Ele riu.

— E desculpa ter te chamado antes, foi precipitado, você teve toda razão em recusar... — Prosseguiu.

— Porque eu impedi. — Luzia se intrometeu, sorrindo de ponta a outra.

— Ninguém teve culpa. — Ignorei Luzia e peguei uma latinha, teria que ir devagar porque não era acostumado a beber e não podia confiar que a menina que somente eu via iria conseguir ligar para alguém se algo desse errado.

— De qualquer forma, a oferta ainda está de pé. Na verdade, nem é a única coisa que já está de pé. — Disse e em seguida mordeu o lábio inferior.

Luzia protestou novamente:

— Ele é um oferecido, Eliseu! Me diz que você não tá cogitando isso de novo porque você não conhece, não sabe se ele tem preservativo e os casos de ISTs no Carnaval só aumentam!

— É com essa boca que vai ensinar as crianças? — Ignorei Luzia novamente, passando pela frente dela e a observando ir pra perto de Tatiana, furiosa. Daí aproveitei para começar a beber.

— Se você for a criança, a boca vai ser só o mínimo. — Riu, pegando outra latinha para ele.

— Você não dá uma fora!

— É que eu prefiro dentro.

— Para! — Ri.

— Você quer que eu pare? — Se aproximou e ficou numa distância tão curta que o único espaço que separava a gente era preenchido com o bafo de cerveja exalando da boca dos dois.

— Ok, vamos logo com isso antes que eu perca a coragem. — Segurei em sua gola com as duas mãos, agarrando forte, fechando os olhos e puxando-o para a frente até que nossas bocas se tocassem.

Sexualidade nunca foi um problema para mim, mas dar o primeiro passo em qualquer relacionamento interpessoal era, e por mais que meu corpo e minha mente gostassem daquela explosão de sensações ao beijá-lo, sentia que algo estava errado. Foi apenas quando abri meus olhos novamente que consegui enxergar o problema, literalmente.

Eu gostava de Pablo e do beijo dele, mas a minha conexão com Luzia naquele momento já transcendia limites que eu desconhecia. Limites que me fizeram enxergar o rosto dela na minha cabeça o tempo todo, era como se eu estivesse a beijando, isso fez o beijo durar por muito tempo, a imaginação vaga e fértil sobre como seria o momento em que eu beijaria a garota que não saiu do meu lado quando eu me sentia só, que conversou comigo há poucos dias mas que mais pareceram anos, com a garota que por mais que encarasse como obrigação, me ajudava.

Eu estava ficando louco? Provavelmente.

— Desculpa de novo. — Ri fraco — Isso foi bom, mas...

— Não servi, não foi? — Pablo fixou os olhos claros em minhas pupilas.

— Como assim?

— Reconheço quando alguém se arrepende de um beijo, a maioria das vezes é quando se dão conta que não mandamos nos nossos sentimentos. — Disse e colocou a mão direita sob meu ombro — E você provavelmente já gosta de alguém e percebeu isso agora.

— Desculpa de verdade. — Me afastei, totalmente envergonhado, interrompendo bruscamente a conversa e caminhando até Luzia com o coração quase saindo pela boca por causa da ansiedade e nervosismo, a puxando pelo pulso para um lugar mais escondido, afastado da multidão.

— Preciso te dizer uma coisa. — Ela disse enquanto encarava o chão, como se procurasse as palavras certas para falar aquilo.

— Não é a única. Primeiro, desculpa por ter agido de forma tão cruel te ignorando. A verdade é que...

Ela me interrompeu, dizendo em uníssono com o restante da minha frase:

— Eu acho que descobri quem sou.

— ...você não sai da minha cabeça.

Após jogarmos as cartas na mesa, encaramos um ao outro, esperando alguém dar o próximo passo.

 



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