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História O que eu vejo - Capítulo 46


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Capítulo 46 - Neji


– Você está sorrindo demais hoje. – Disse a garota de cabelos castanhos e olhos escuros, Tenten.

Era uma tarde de sábado. Neji Hyuuga, que até aquele momento achou que estava conseguindo disfarçar muito bem, cobriu a boca que mastigava uma porção de batatas fritas. Ele olhou um pouco para os lados, mas desistiu. Encarou os olhos brilhantes e sorriu. Passou pela sua cabeça, pela milionésima vez naqueles dois anos, o quão bem ela lhe fazia.

– E eu tenho culpa? – Ele se defendeu, como se fizesse esforço para acreditar no que tinha acontecido apenas a alguns minutos. – Quer dizer... no banheiro do cinema?

– Que besteira... – Ela tentou parecer indiferente, ainda que por dentro estivesse tão incrédula quanto ele.

Tenten sorriu. A ponta dos lábios estava com uma pequena mancha de Ketchup.

– Ah, está sujo aqui... – Ele gesticulou no próprio corpo para que ela identificasse o lugar. Movia o dedo como se coçasse o canto da boca.

– E você só avisa agora? – Nervosa, ela foi rápida em deixar o prato descartável sobre a mesa da praça de alimentação e tratou de pegar um guardanapo.

– Calma. É ketchup! – Neji alertou, com um risinho.

– Claro. E o que mais poderia ser? – Ela olhou para os lados, com uma voz meio estranha, mas ninguém parecia prestar atenção neles. Por sorte, tinham se sentado em um lugar mais afastado. – Puto.

Depois de ouvir o xingamento sussurrado para ele, Neji não se aguentou e caiu na risada, que contagiou acabou por contagiar a namorada.

– Não achei graça nenhuma... – Ela disse, pouco convincente.

– Como é que a gente fez isso?

– Você que estava no Cio hoje.

– Quer dizer que a culpa é minha?

– É. Eu só cedi. Você sabe que eu não funciono sobre pressão.

– Lá trás você funcionou muito bem.

– Fale mais alguma coisa e eu vou terminar arrancando esse cabelo com uma peixeira.

Neji riu, arriscando alcançar a mão da garota, que estava livre sobre a mesa. Ela recuou na hora.

– Não. Estou com raiva.

– De quê.

– Das suas brincadeiras.

Neji sabia que ela não falava sério, tanto que instantes depois a própria Tenten já estava puxando assunto. Ela estava doida para comentar as coisas que algumas amigas dela andavam fazendo.

Quando terminaram o lanche, retornaram para a fila do cinema. Mesmo com medo, já que estavam em um lugar público, Neji estava levemente esperançoso, mas nada aconteceu quando as luzes se apagaram.

Neji não gostava muito do falatório do cinema, mas ainda assim era bom poder passar uma hora e meia abraçado à Tenten.

Depois que o filme, que não tinha sido lá grande coisa, terminou, saíram do shopping e foram direto para a praça que ficava entre o estabelecimento e o ponto de ônibus. Aquele era o ritual deles. Sempre davam um tempo do lado de fora antes de se separarem. Como ambos tomavam linhas diferentes, Neji costumava esperar até que o de Tenten aparecesse.

Era um espaço mais ornamental, então não era muito movimentado. Sentavam afastados da área dos brinquedos porque sempre era meio constrangedor namorar com uma plateia de crianças.

Escolheram um banco coberto, por causa da sombra. Ela cruzou as pernas e sentou de frente para ele. Neji costumava manter a mão na cintura da garota e vez ou outra roubavam um carinho do outro, entre os curtos períodos de silêncio entre as suas conversas.

O rapaz suspirou.

– O que foi?

– Eu tenho que começar a fazer um currículo. Os professores pediram para montarmos um básico. No próximo semestre começam os estágios.

– Que bom.

– “Que bom”. Entre aspas. O Hospital filiado à universidade paga pouco.

– Mas já é alguma coisa. E tem muita gente que tem que estagiar de graça. Isso sim é pior.

– Verdade. – Neji sorriu de canto, ainda insatisfeito com a própria situação.

– Você não pode procurar em outro lugar?

– Só a partir do oitavo período. Eu já pesquisei.

– Que triste. Mas fazer o quê?

– Você que tem sorte. – Ele falou, depois de um beijo rápido. – Minha trabalhadora.

– Finalmente o Lee vai parar de te chamar de gigolô, né? – ela brincou.

– Aquele filho da mãe... – Ele brincou. – Mas agora eu não quero pensar nisso.

– E você quer pensar em quê?

– Em você.

***

Neji não gostou nada do silêncio que encontrou em casa assim que abriu a porta.

Seu tio estava sentado no sofá, encarando a tv. Seus olhos se encontraram rapidamente, mais por reflexo do que qualquer outra coisa.

– Tio. – Um cumprimento rápido e suficiente.

Esticou o pescoço sutilmente e espiou a cozinha, mas ver as três mulheres reunidas no mesmo local não lhe deu uma pista. Sentou no sofá para tirar os sapatos e as meias, esgueirando o homem, que tinha um semblante ríspido, quando tinha chance.

– Quanto foi o jogo? – Perguntou, sem muita curiosidade.

– 2 a zero para a Akatsuki.

– Que merda.

– É.

Uma resposta seca e que pôs fim ao diálogo.

Carregou os calçados entre os dedos. Deixaria as meias no cesto de roupa suja e guardaria o sapato no quarto. Espiou as três mulheres reunidas na cozinha. Hanabi, a menor, estava sentada a mesa, com os olhos inchados. Hinata estava ao seu lado, atrapalhando um pouco a passagem para o cômodo, mesmo que sem intenção, e Hitomi estava encorada na pia. Ela olhava para a menor com uma expressão de reprovação.

Apesar de achar que seria melhor não se envolver, apoio os sapatos no terceiro degrau da escada e olhou Hinata tempo o suficiente para despertar a sua atenção. Ela o encarou de relance mas voltou a olhar para Hanabi logo em seguida.

Voltou alguns passos e parou junto à parede, mas ainda sem entrar na sala.

– Tio.

Nada.

– Tio. – Insistiu novamente, um pouco mais alto. Fingiu não perceber que a prima espiava a cena de relance. – O que foi?

– A sua prima aí... – Ele falou, apontando a cozinha com o queixo. Isso não lhe deu muita informação, mas não precisava.

Retornou ao seu rumo original e seguiu para o seu quarto. Não queria se envolver nos problemas da família do tio.

Aquilo tinha que ser resolvido entre eles, e Neji não achava que tinha o direto de se envolver. E grande parte desse pensamento tinha origem do sentimento de não pertencimento que, no fundo, sempre sentiu em relação àquela casa.

Se preparou para tomar um banho e, apesar da fome, decidiu não descer até ter certeza de que as coisas tinham amenizado. E isso demorou um pouco.

Depois de quase uma hora, ouviu o chamado da sua tia, e sem muitas palavras, ela pediu ajuda para levar Hinata até o pavimento superior. Assentiu, como sempre, e subiu os degraus com a jovem nos braços, sendo seguido por Hitomi, que carregava a cadeira de rodas. Ele sentiu que deveria ajudar, mas não queria colocar a garota no chão, então apenas esperou.

Como tudo foi relativamente rápido, nem pensou pela cabeça de Hinata em pedir para o primo a colocar na cadeira comum que era deixada no meio do corredor e que normalmente era usada nos dias em que havia apenas uma pessoa em casa e ela precisava ser transferida de um piso ao outro.

Realizou o mesmo procedimento de sempre. Àquela altura, já tinha se acostumado.

– Tudo bem? – Perguntou. Sempre gostava de confirmar isso.

– Sim. Obrigada.

Ele não respondeu, mas tentou não parecer antipático. Hanabi já tinha ido para o próprio quarto e fechado a porta. Sua tia já estava descendo novamente, e Hinata parou em frente a porta de Hanabi.

– Eu vou para o meu quarto. – Disse, sem ter muita certeza de que tinha alguém prestando atenção. – Precisando de alguma coisa...

Ele torcia para que não precisassem, mas ainda assim quis parecer cortês.

– Eu vou terminar a janta. Vou fazer qualquer coisa rápida, tá?

– Não precisa fazer o meu... – Neji disse. Não queria dar muito trabalho.

– Não. Eu faço para todo mundo. Vou ver o que tem. – Hitomi falou, pensativa. – Daqui a pouco eu chamo.

Neji concordou e entrou no quarto em seguida. Enviou uma mensagem para Hinata perguntando o que tinha acontecido, e apesar de uma certa demora, ela respondeu a situação.

Estava um pouco surpreso, mas menos do que os outros. Ele já sabia do namorado de Hanabi a algum tempo, só que sempre achou que não era da sua conta e fingia-se de desentendido. E caso alguém lhe perguntasse, continuaria a agir daquela maneira, simplesmente por ser menos problemático.

Ele entendia que ocupava o lugar de um irmão mais velho na família, então não queria contrariar as expectativas do tio em relação a ele. Tinha certeza de que o homem acreditava que se ele soubesse de algo daquela natureza, a sua primeira atitude seria lhe contar. Mas Neji não era assim.

Respirou alto. Forçava-se a pensar de que não era um problema seu e que deveria ficar de fora o máximo possível.

Se jogou na cama. Encarou os livros na mesinha ao lado, mas não tinha cabeça, e muito menos vontade, de estudar naquele momento. Tirou o celular do bolso e puxou assunto com Tenten. Ela era a sua confidente nesses momentos.

Não sabia quanto tempo tinha se passado quando Hitomi o chamou. Ela estava terminando de guardar algo na geladeira quando desceu, e tiveram uma conversa rápida antes dela ir até à sala e sentar-se ao lado do marido.

Talvez era por ter comido algo durante a tarde, mas não tinha muito apetite. Apesar disso, conseguiu comer o que tinha no prato. Lavou o que tinha sujado e subiu com as refeições das primas.

– Hinata. – Chamou uma vez. Ouviu o som característico das rodas sobre o piso antes da porta se abrir. – Comida.

– Valeu.

– Como ela está?

– Calada.

Ele franziu o cenho e contraiu os lábios em uma expressão de pena e entregou as coisas a morena.

– Acho que ela nem vai comer. – A mais velha falou, espiando a silhueta deitada na cama.

– Depois ela melhora. Vai passar.

– É. Espero.

– Bom... Eu vou estudar agora, mas qualquer coisa... me chame.

– Eu sei. Obrigada.

***

Estava conversando com o amigo, Rock Lee, quando Neji Hyuuga olhou para o calendário. Foi só então que ele percebeu uma coisa.

Logo completaria 12 anos que morava com os Hyuuga. O aniversário de morte do seu pai estava próximo.

Tinha apenas 8 anos quando ele tirou a própria vida. Neji ainda era novo demais para entender o que tinha acontecido. Tinha muita gente na frente da sua casa. Foi a sua tia Hitomi que lhe viu primeiro e o impediu de entrar em casa.

– Não, meu amor. – Sua voz era doce. Não conseguia lembrar o que ela tinha dito depois, mas puxou a sua mão com força e o levou para longe.

O rosto devastado de Hiashi. A vontade gigante de dormir na sua própria casa. O travesseiro molhado por causa do choro. O som das suas primas brincando, Hinata fingindo se divertir, e Hanabi completamente alheia a tudo o que acontecia à sua volta.

O cheiro de leite morno quando lhe sentaram no sofá na manhã seguinte para uma conversa séria. Sua tia e o seu tio ao seu lado ao lhe dar a notícia. Uma Hinata devastada.

Um minuto de choque até processar a notícia. Nunca tinha tido contato com a morte até aquele momento. Sempre tinha achado que era uma coisa que acontecia com as pessoas na televisão e não com as pessoas que conhecia.

E o gosto amargo na boca. Quando tornou aquilo em palavras, seus olhos se inundaram. A realidade começava a se alinhar. Todos os detalhes se encaixavam no cenário.

– O meu pai morreu? – A pior pergunta que fez durante toda a sua vida.

Chorou alto. Não conseguiu dizer mais nada depois daquilo. Um nó na garganta. Olhos tremendo. Um frio descomunal. Respiração pesada. Falta de ar. Náusea. Tudo de uma só vez, atormentando a sua mente.

O mundo mudou. Do policromático para algo sem cor em uma fração de segundo.

Na época, ninguém lhe contou muito. Mas crescendo, ele captava uma coisa ou outra das conversas dos outros e acabou descobrindo por conta própria que o seu pai tinha tentado tirar a própria vida.

Ele tinha ligado para o irmão gêmeo para se despedir antes de engolir uma porção de veneno para ratos. Por sorte, seu tio Hiashi estava por perto e conseguiu chegar na sua casa a tempo de chamar uma ambulância.

Ele não morreu na hora. Chegou a ser encaminhado até o hospital e resistiu por oito horas antes de atingir óbito.

Tinha 13 quando juntou as últimas peças do quebra-cabeça e na época, não soube bem como se sentir.

Ninguém costumava falar muito sobre a condição do seu pai, ou a sua luta contra a depressão. Depois de entender tudo, algumas coisas sobre a sua infância fizeram mais sentido. As várias memórias em que o seu pai tinha que parar algo no meio para tomar os seus comprimidos.

Neji lembrava, agora com um sorriso amargo, que insistia para o seu pai comprar uma caixinha de tic-tac para que ele pudesse tomar um sempre à mesma hora em que o pai tomaria a própria medicação. Ele dizia, com um sorriso, que estava doente e que a bala o ajudaria a melhorar.

Odiava a sua inocência. Odiava rir daquilo. Odiava crescer vendo o seu pai se deteriorar e nunca nem perceber.

Foi o toque do seu celular que retirou a sua mente do limbo. Não estava chorando, mas isso não queria dizer que não estava triste. E confuso.

Mesmo depois de anos, não conseguia digerir bem a morte do seu pai, ou sabia como se sentir em relação a isso.

Tinha uma mãe, ou ao menos ele achava que tinha. Não sabia se estava viva ou morta, e também não tinha curiosidade.

Atendeu a ligação. Era Tenten.

Pigarreou alto. Ocultou qualquer coisa que alterasse o seu tom. Conversaram um pouco, e dentro de minutos, ele acabou por deixar aquela memória por trás. Quando desligou, tratou de se preparar para dormir.

Apagou as luzes. Mexeu um pouco no celular. Não ouvir as conversas paralelas o deixava inquieto, mas depois de um dia relativamente cansativo, acabou por ser vencido pelo sono que eventualmente chegou para tomar a sua consciência.


Notas Finais


Espero que tenha ficado bom. Acho que desde o começo o Neji o neji era bem distante da hina(e as vezes fdp), mas acho que o passado dele era um dos que eu mais queria contar. Sei lá, só por ter um tom mais diferente do resto da fic mesmo.
Eu tava bem perdido sobre como começar esse cap. e na real não sei se ficou bom, mas tá aí. E eu também não revisei. Um dia eu faço isso.
Estou ouvindo Gyakushuu(o tema do Kuroko. Muito foda).
Obrigado a todo mundo que comentou, leu, favoritou, adicionou nas listas e tal. E acho que é isso. A tv globinho fica por aqui e a gente se vê na semana que vem o/(nos seus sonhos. Saudades de assistir bob esponja de manhã e 3 espiãs demais kkkkk ah, e avatar. Não dá para esquecer de avatar. E sim, eu era daquele que ficava alternando entre a tv globinho e o bom dia e cia para companhar a maior quantidade possível dos desenhos kkkk, se bem que todo mundo devia fazer isso.)


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