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História O que ficou (KakaSaku) - Capítulo 2



Notas do Autor


Olá!

Eis aqui o segundo (e último) capítulo dessa história, onde novamente pude contar com a betagem da minha amada @_Lunary
Sem mais delongas, porque esse capítulo já tá pra lá de atrasado

Boa leitura!

Capítulo 2 - De volta pra casa


Fanfic / Fanfiction O que ficou (KakaSaku) - Capítulo 2 - De volta pra casa

 

Kakashi seguia a sua frente orientando o caminho, desviando habilmente de cada poça na estradinha enlameada com sua Ducati Diavel. Era, sem dúvidas, uma motocicleta muito mais luxuosa que aquela Suzuki Inazuma que ele pilotava quando estavam juntos. Sakura se perguntou se Genma estava com as coisas dele ou algo assim, pois o Hatake não carregava nada consigo. Riu sozinha ao pensar na grande possibilidade de que o amigo tivesse, ele mesmo, arrumado a mala do Hatake. Seu ex-namorado odiava fazer isso e houve um momento em que ela começou a inspecionar todo o processo de organização das bagagens, para garantir que Kakashi não esquecesse nada de essencial; como os calções de banho numa viagem à praia, ou o carregador do celular num feriado prolongado.

Esse último esquecimento, na verdade, rendeu uma boa viagem no fim das contas. Sakura decidiu que também deixaria a bateria do seu aparelho acabar e não o carregaria novamente até o dia em que precisassem voltar. Então eles passaram quatro deliciosos dias afastados de notícias e memes em grupos, apenas aproveitando a companhia um do outro.

Lembrar disso fez despertar aquele sentimento tão conhecido: saudades. As saudades estavam sempre lá, quando andava pelas ruas que eles andavam, quando revia um filme que viram juntos, quando abraçava seu travesseiro depois de algum sonho confuso demais. Saudades eram suas companheiras cotidianas.

Mas agora, além de saudosa, Sakura estava ansiosa. Muito ansiosa. Se perguntava onde raios estavam indo, pois se afastavam cada vez mais da estrada principal. Tamborilava os dedos agitados na direção, o som ritmado e seco quebrando aquele silêncio quase opressor que a cercava no mesmo ritmo em que suas têmporas latejavam.

De repente, foi invadida por todas as coisas que jamais diria a Kakashi. Sabia que ele estava sofrendo naquela época, possivelmente mais do que ela mesma. Mas isso era desculpa para expulsá-la assim da sua vida? Num dia ele a amava, no outro ela era uma estranha? É assim que se trata quem se diz amar? Porém, antes que Sakura pudesse se afundar ainda mais no lamaçal da autopiedade, aquela voz apareceu. Aquela, que soava como Kakashi e que muitas vezes se manifestava quando ela pensava muito sobre o rompimento. Então ele respondia: e a forma como você me tratou? Você acha que é forma de tratar quem se ama? Fui mesmo eu que te expulsei da minha vida?

— Mas que bosta! — ela repreendeu a si mesma — O que você tá fazendo, Sakura?

Para essa pergunta não houve resposta de voz alguma, fosse dela, de Kakashi ou de qualquer outro. Em um lapso de desespero, Sakura quis acreditar em anjos da guarda, pedindo baixinho que, se houvesse qualquer um cuidando do seu caminho, a ouvisse e ajudasse naquele momento de provação que enfrentaria em breve.

Com um riso irônico se lembrou de Mebuki sentada à mesa da cozinha, afirmando que ninguém morre ateu. É, parece que sua velha mãe insistia em estar sempre certa.

Conforme a vegetação ao redor diminuía, abrindo espaço para campos cobertos por intermináveis parreirais, Sakura entendia melhor onde estavam: aquelas já eram as terras Yamanaka. Eles contornavam a propriedade, indo para o lado oposto ao da casa da família.

Quando Kakashi parou para abrir uma porteira pequena e eles seguiram por uma estrada de chão batido, Sakura pediu novamente que os tais anjos lhe dessem força e coragem, porque desde agora ela lutava contra o medo que remexia seu estômago e as lágrimas que teimavam em brotar de seus olhos.

Chegava o momento de compartilhar com Kakashi tudo o que percebeu sobre seus atos cinco anos antes e, finalmente, se responsabilizar pelas decisões que tomou. Não contava com o perdão daquele que tanto amava e que tanto magoou, queria apenas que ele soubesse que nada do que decidiu fazer tinha a ver com ele, ou com eles. Aquela decisão sempre foi, pura e simplesmente, sobre ela. Isso era o que ele precisava saber, era disso que ela precisava se livrar. E assim, talvez, ambos pudessem se perdoar e se libertar finalmente.

Continuaram por poucos minutos, até que um antigo chalé de pedra surgiu em seu caminho. Perplexa, Sakura assistiu enquanto ele estacionou ao lado de um pequeno canteiro de hortênsias multicoloridas e caminhou até a porta daquele lugar.

Estava muito diferente do prédio meio abandonado do qual ela se lembrava, mas tinha certeza que se tratava dele, o esconderijo secreto onde os dois casais se refugiavam na adolescência.

 

E aí, então, estamos bem

 

Seis intermináveis minutos se passaram até que Sakura desligasse seu minúsculo cinquecento, e outros dois até que ela descesse do carro. Enquanto pacientemente esperava que ela viesse, Kakashi se perguntou se havia desaprendido a respirar. Não havia padrão nenhum entre suas inspirações e expirações, todo o processo era ruidoso e quase dolorido.

Observava aqueles finos raios de sol que escapavam, tímidos entre as nuvens cinzentas, quando Sakura finalmente veio em sua direção. Esperou que ela chegasse e parasse ao seu lado para só então pegar as chaves no bolso e abrir a porta, pois tinha um medo irracional de que ela desaparecesse se não estivesse em seu campo de visão.

Empurrou a porta e permitiu que Sakura passasse primeiro. Ela parecia apreensiva, hesitante; mas por fim entrou, olhando tudo ao seu redor com expressão impenetrável. Caminhou até o meio da sala, girando enquanto olhava para o velho tapete persa que dominava o cômodo inteiro, o aparador, a televisão pendurada na parede, o sofá e, finalmente, para a velha cadeira de balanço ao lado da janela.

Sakura conhecia bem aquela cadeira, era seu lugar favorito para uma cochilada após os almoços de domingo na casa da família Hatake.

— Kakashi, por que isso tá aqui? — Ela apontou para a cadeira, com um olhar exasperado para ele.

— Porque eu sempre amei essa cadeira e quis ela como herança quando a mãe se foi.

— E por que a tua herança tá numa casa dos Yamanaka?

— Essa casa não é dos Yamanaka, é minha. Eu comprei todo esse hectare do Inoichi há alguns anos.

O suspiro dela era um misto de surpresa e aborrecimento. As sobrancelhas franzidas continuavam ali, e Kakashi lembrou que ela não tomou nada para a enxaqueca desde que se encontraram. Então ele saiu pelo corredor em direção à cozinha para buscar um copo d’água e o comprimido que Sakura precisava. Fazia o que devia fazer, mas sempre prestando atenção aos mínimos ruídos que vinham da sala, como se a qualquer momento a mulher pudesse se desfazer em fumaça ou sair correndo porta afora. Contudo, o único som vindo daquele cômodo foi o ranger da velha cadeira, quando ele já retornava. Chegou à sala e ela estava ali, embalando levemente enquanto olhava pela janela.

— Toma. — Entregou o copo e o remédio enquanto se apoiava nas costas do sofá — Você tá precisando.

— Obrigada. — Ela murmurou — Minha cabeça tá me matando mesmo.

— Você não devia dirigir quando tá assim. — Não pôde evitar o tom de repreensão naquelas palavras.

— Sem sermão, por favor. — Sakura apertou levemente a ponte do nariz, mostrando que aquele assunto não estava ajudando. Ficaram em silêncio por alguns longos segundos até que ela olhou diretamente em seus olhos, tão séria e tão linda. — Por que você comprou esse chalé?

Por onde começar essa história? Kakashi mordeu os lábios, num último esforço de manter as palavras para dentro, mas logo abandonou-se a um suspiro pesado, dando a volta no sofá e sentando de costas para ela. Talvez fosse mais fácil falar assim.

— Quando tudo acabou com a Hanare eu tava… mal. Bem mal mesmo. — ele contava olhando para a televisão, vendo os contornos de Sakura refletidos na tela desligada. — Acho que o Genma tava com pena de mim e me chamou pra passar um fim de semana na vinícola. A Ino tava indo pra um congresso e os pais dela tavam viajando, então seria só nós dois e eu gostei da ideia. Você sabe como o Genma é, ele nunca me obriga a falar nada, fica só ele falando como uma velha fofoqueira. — escutou o risinho baixo de Sakura e acabou rindo junto, desviando os olhos para as mãos que esfregava num gesto ansioso — Um dia a gente saiu à cavalo e veio parar aqui. Esse lugar tava muito pior do que era quando a gente vinha, Sakura. Completamente abandonado, metade do telhado já tinha caído, o piso tava apodrecendo… ver isso me pegou. Eu nem sei por quê… mas voltei pra casa e só conseguia pensar no estado deplorável desse lugar. Então, assim que o Inoichi voltou, eu procurei ele e pedi pra comprar essa área…

— Você reformou tudo isso? — a voz dela parecia embargada, mas Kakashi preferiu não prestar atenção nisso.

— Me descobri um ótimo marceneiro — riu olhando para o aparador, uma obra sua — Tem gente que diz que eu devia abandonar o escritório e me dedicar só pra isso.

— Mas você ama advogar! — Sakura exclamou.

— Amo mesmo. Mas hoje eu também amo um malho e um formão. E um bom saco de esterco de galinha — Sakura riu alto dessa vez, uma gargalhada que se enfiou como uma flecha de contentamento em seu peito. Virou instintivamente na direção dela e viu que o riso era acompanhado de lágrimas que escorriam por seu rosto; mas não havia dor em seus olhos, então ele continuou sorrindo — É sério, ele faz milagre num jardim!

— Eu sei — Ela respondeu, ainda sorrindo — A mãe da Ino ensinava tudo isso pra gente quando éramos pequenas. Mas a Ino foi bem melhor aluna do que eu.

— Você sempre achou jardinagem coisa de gente velha, eu lembro.

— Eu já não tenho moral pra falar de hábitos de gente velha, sabe? — Como se confessasse um crime, ela cochichou — Eu comecei a tricotar quando tava morando em Helsinki. E eu amo!

— Eu não acredito! — ele exclamou, apoiando o braço no sofá para virar o corpo na direção dela — Uma vizinha aqui me ensinou a fazer massa caseira.

— Eu aprendi a fazer sushi! — Ela contou, sorrindo.

Ambos pararam de falar, mergulhados um nos olhos do outro. Restos dos sorrisos ainda estavam em seus rostos, mas aquela melancolia se espalhava novamente. Kakashi sentia o nó se formando na garganta; a aflição por perceber que, apesar de toda a saudade, coisas boas também nasceram no tempo que estiveram separados.

— Você foi muito corajosa. — Ele declarou, desviando os olhos para a barra da cortina que dançava suavemente com o vento.

— Se você visse as fronhas dos meus travesseiros naquela época, não diria isso. — Havia um sorriso triste acompanhando essas palavras.

— Você foi muito corajosa. — Ele repetiu, ainda mais resoluto.

Pensou em todas as coisas que achava que precisava dizer, todas as coisas que achava que pensava, que achava que sentia, e percebeu que muitas delas já não faziam sentido. Ver Sakura novamente, sentada em sua velha cadeira de balanço, mudava sua perspectiva de tudo o que passou. Os sessenta e três meses que passou longe dela ganharam outros significados no exato instante em que aquele par de esmeraldas reapareceu à sua frente.

— Me perdoa, Kakashi — Sakura sussurrou, curvando o corpo na direção dele, mas desviando os olhos para o chão — Eu nunca quis te abandonar.

— Você não me abandonou, Sakura. — E nesse momento Kakashi não tinha dúvidas sobre a verdade em suas palavras — As coisas aconteceram muito rápido naquela época, um caminhão atropelando os nossos planos… os meus planos… eu perdi o chão. Mas eu também podia ter escutado o que você tava me dizendo.

Uma pergunta muda surgia nos olhos da mulher quando voltou a fitá-lo. Aqueles olhos que sempre ofereceram tanto e agora pareciam tão somente pedir algo. Uma confirmação? Um perdão? De quê, exatamente, Kakashi não sabia; porém, seguiu falando, na esperança de que ao recordar tudo aquilo com ela, as coisas se tornassem menos confusas para ambos.

— Eu sempre quis que você seguisse os seus sonhos, mas nunca me perguntei o que eu faria caso eles te levassem pra longe de mim. E o que eu fiz foi me comportar como um garoto mimado…

Você? — Ela o interrompeu com indignação — Kakashi, você ofereceu inúmeras soluções e eu coloquei empecilhos em todas!

— Pois é. E eu nunca te perguntei qual seria a tua solução.

Sakura arregalou os olhos e inspirou fundo, recostando-se na cadeira novamente. Desviou os olhos para as escadas e, com um sorriso leve ressurgindo, perguntou:

— O que você fez com os quartos?

Acompanhando aquele sorriso, Kakashi levantou do sofá, contornando-o e parando em frente a ela. Estendeu a mão em sua direção, vendo certo choque em seu rosto.

— Vem, deixa eu te apresentar o restante da casa.

 

Mesmo com tantos motivos

Pra deixar tudo como está

E nem desistir, nem tentar

 

A mão quente de Kakashi a guiou pelo corredor em direção à ampla cozinha. Havia uma longa mesa ali, como aquela que sua avó tinha quando ela era pequena. Era tão colorida, cheia de temperos amarrados em pequenos molhos para desidratar, espalhando aromas frescos. A portinhola estreita que havia ali quando eram jovens, dando acesso a um pequeno pátio, foi substituída por uma ampla porta envidraçada, e as janelas também eram maiores que as originais; isso permitia que a claridade do dia entrasse intensa pelas aberturas e banhasse todo o cômodo.

— Eu tô começando uma horta aqui atrás. — ele apontou, encostando o dedo no vidro da porta — Por enquanto só os temperos tão vindo bem, mas logo vai dar pra colher mais coisa.

Eles seguiam de mãos dadas. Em algum lugar, no fundo de sua mente, Sakura se perguntava se isso estava de fato acontecendo, se ela estava mesmo sentindo aqueles dedos nos seus. Havia uma familiaridade óbvia na forma como suas mãos se encaixavam, ao mesmo tempo que a textura áspera dos dedos dele era completamente nova.

O Kakashi do seu passado tinha mãos suaves, com um único e pequeno calo na ponta do dedo médio da mão direita, e vivia com os dedos sujos de tinta azul que vazava de suas canetas esferográficas; o Kakashi do presente tinha aquela pele espessa, endurecida pela lida com a terra e a madeira. Sakura percebeu que gostava daquela textura, que ela a fazia sentir um atrito diferente entre suas mãos, como se todo o toque dele se tornasse mais intenso. Ou essa intensidade seria apenas resultado de tanto tempo sem sentí-lo? Ela não sabia. Nem sabia se era certo estar tão focada e entregue àquele mínimo toque. Mas não podia se impedir de sentir a quentura daquela mão irradiando por todo seu braço e, mesmo sem perceber, ela buscava por mais contato; esbarrava seu antebraço contra o dele, roçava seu ombro contra ele enquanto se moviam para fora da cozinha pelo corredor estreito.

Não sabia como era para Kakashi lidar com aquela aproximação, se estava sendo invasiva ou inconveniente. Ela também não queria submetê-lo ao seu desejo, então afastou seu corpo do dele, mantendo apenas as mãos juntas enquanto subiam as escadas. Assim que chegaram ao topo, Kakashi segurou sua mão com mais firmeza e a puxou de encontro a si. Foi um movimento suave, quase imperceptível, mas Sakura ainda conhecia muitas coisas daquele homem e bastou essa sutileza para que ela experimentasse uma dúvida que era quase um frenesi: ele sentia o mesmo que ela?

Kakashi abriu a primeira porta do corredor, onde havia amplas estantes, algumas caixas no chão, livros espalhados pela ampla mesa, que era equipada com um belo computador de última geração.

— Logo que terminei o grosso da reforma, eu me mudei pra cá. Não tinha sentido manter meu apartamento e só vir de vez em quando, saca? Essa aqui era a minha casa. Então eu conversei com o pessoal do escritório e a gente reorganizou minha agenda. Hoje eu faço mais da metade do trabalho em home office.

— E um preguiçoso como você deve estar mesmo amando tudo isso — riu, debochada.

— Eu consigo dar conta do trabalho e ainda tiro uns cochilos. É perfeito!

Sakura acabou gargalhando. Ria do tom de satisfação dele, ria da naturalidade com que estavam juntos ali, ria das mãos unidas. E foi rindo como ela que Kakashi fechou aquela porta e abriu a porta ao lado.

O cômodo estava mais escuro, as cortinas meio fechadas, mas Sakura viu claramente os contornos de uma bela poltrona em estilo vitoriano; uma cômoda rústica, provavelmente feita pelo próprio Kakashi, e uma imensa cama, imaculadamente arrumada. Antes que pudesse comentar sobre a beleza da cômoda, contudo, uma vívida lembrança dos dias e noites que passaram naquela casa se atravessou e escapuliu.

— Esse era o quarto em que a gente ficava. Ele é menor que o outro, porque você não fez o escritório aqui?

Kakashi apenas a olhou, mas o ar ao redor dela se adensou com aquela intensidade que escapava pelos olhos negros.

— Eu pensei nisso. Mas eu já tinha feito as pazes com as nossas lembranças.

Foi a vez de Sakura apertar a mão dele. Apertou tanto que teve medo de acabar machucando. Era a hora, ela sentia em cada pelo arrepiado. Precisava dizer o que sentia, e depois, se precisasse, juntaria seus próprios cacos do chão de pedra daquele quarto.

— Você disse que nunca me perguntou qual era a minha solução para nós, e pra falar a verdade, eu não tinha uma. Até hoje eu não sei qual teria sido o melhor caminho, só sei que passar tanto tempo sem falar contigo foi pesado demais — pousou a mão livre no rosto dele, que se inclinou na direção do toque enquanto concordava em um assentir silencioso — E eu ainda acredito no que eu disse, nem todos os amores são eternos, mas nesses cinco anos eu pude perceber que, em mim… em mim…. droga Kakashi, eu ainda amo você. Eu nunca deixei de amar você. — Sua voz começava a falhar, a visão turvando pelas lágrimas, e as pernas bambearam a ponto de fazê-la cair se não estivesse de mão dada com ele. Ancorada nele em meio à tempestade que essa confissão causava em seu peito — Eu amo você como no dia em que eu fui embora, e como no dia da sua formatura, e como no dia que eu quebrei a perna andando de patins. Eu amo você, como eu sempre amei. O meu sentimento nunca mudou.

Kakashi pareceu cair em algum tipo de transe, os olhos vidrados nela perdendo o foco por um breve segundo, para então despertar e puxá-la para seus braços, apertando-a junto a si e beijando-a com uma intensidade que Sakura pensou ter esquecido, até sentir outra vez — Sim, sempre foi intenso.

Sentia cada dedo de Kakashi em suas costas e em sua nuca, sentia a textura de cada fio de cabelo dele enrodilhado em seus dedos e, de novo, havia algo de conhecido mas também algo de inédito em seus lábios e línguas que se reencontravam. Estava tão entregue àquelas sensações que mal percebeu quando ele a ergueu do chão. Quando viu estava deitada naqueles lençóis que tinham o cheiro dele — e esse era o mesmo cheiro de sempre.

Foram mil novecentos e dezoito dias sem vê-lo, mas ali, enquanto sentia os beijos que ele espalhava por seu rosto e pescoço, todos sumiram. Sakura já não era a mesma, Kakashi já não era o mesmo, e já não importava se as coisas poderiam ter sido mais fáceis para eles, se o certo era que jamais tivessem se separado ou, ao contrário, fosse imprescindível que se separassem para perceberem o quanto aquilo que tinham juntos era raro e imperecível. Enquanto seus corpos trêmulos guiavam aquele momento de redescoberta, Sakura soube que a única coisa realmente importante era que agora eles estavam juntos.

E essa seria a segunda vez que eles viveriam uma primeira vez naquele quarto.

 

Agora tanto faz

 

Kakashi não conseguia tirar os olhos das costas nuas de Sakura. Desde sempre ela teve essa mania de dormir de bruços, “uma das vantagens de ter seios pequenos”, dizia. E ele apenas ria daquilo e pensava que, pequenos ou não, eram perfeitos para ele, como todo o resto.

Havia uma tatuagem nova ali, no flanco, logo abaixo da curva do seio esquerdo. Um símbolo do infinito feito em delicado pontilhismo cor-de-rosa e azul-marinho. O mesmo tom de azul das canetas baratas que ele gostava de usar e que ela sempre reclamava por deixarem manchas em suas roupas brancas.

Com a ponta dos dedos ele contornou aquele símbolo várias e várias vezes, até que aquele toque tão ameno começou a angustiá-lo. E se fosse um sonho? E se na verdade ele tivesse sofrido um acidente na estrada em meio ao temporal de mais cedo e agora estivesse preso em um maravilhoso devaneio cedido como conforto em meio a um desmaio? Precisava se certificar, então colocou a mão inteira no topo das costas dela e deslizou para baixo e para cima; como ela às vezes pedia que ele fizesse, quando chegava muito cansada de um dia estressante no trabalho.

Logo Sakura se mexeu e soltou um suspiro pesado, abrindo aqueles preciosos olhos em sua direção.

Ei — sussurrou, com a voz ainda embriagada de sono — acho que acabei cochilando.

— Você tava cansada, meu bem.

— E você ficou aí me espiando? — perguntou em um tom envergonhado, corando e se encolhendo nos lençóis, mas ele a puxou para mais perto e sorriu, ladino.

— Você ainda é meu horizonte favorito, Sakura. — Enquanto a beijava suavemente, completou. — Eu amo te olhar.

Ela se encolheu em seus braços, escondendo o rosto corado. Sakura sempre ficava tímida ao acordar, especialmente quando ele a surpreendia com declarações como essa. Kakashi nunca foi de falar muito, e agora pensava que essa era uma das coisas em que poderia ser melhor dessa vez. Com aquela cabeça cor-de-rosa aninhada em seu peito, ele pensava no quão especial era a segunda chance que o temporal lhes trouxe; no quão valiosa era a oportunidade de conhecer de novo aquela mulher, em cada uma de suas novas facetas.

— Eu tava aqui pensando — Sakura falou, erguendo o rosto e apoiando o queixo em seu peito — se você mora aqui agora, porque tava naquele restaurante?

O sangue de Kakashi gelou.

Puta que pariu, que hora é agora? — Exclamou, sentando-se instantaneamente e buscando o relógio na mesa de cabeceira — Me desculpa, amor, mas eu preciso correr.

— Pro jantar? — Perguntou, olhando confusa para ele — Mas ainda faltam quatro horas e nós estamos à o quê? Quinze minutos da vinícola? Calma, amor, temos tempo de sobra!

— Eu não tenho! — Respondeu enquanto buscava suas roupas, quase desesperado, e conferia no celular as muitas mensagens enfurecidas e chamadas não atendidas de Genma — Eu preciso buscar as alianças no ourives!

O grito surpreso dela se espalhou pelo quarto antes de se transformar em uma gargalhada quase histérica que afirmava, aos solavancos, que Genma e ele ainda seriam os responsáveis pelo falecimento de sua melhor amiga. E aquele riso, Kakashi logo percebeu, ainda era um dos sons mais encantadores do mundo.

 

Estamos indo

De volta pra casa

 

Quando Kakashi chegou ridiculamente atrasado àquela recepção, uma intensa vaia se espalhou entre uma parte dos convidados. No caso, entre todo o pessoal da velha guarda do colégio e alguns outros, poucos e bons amigos que vieram depois disso. Sakura apenas sorria, incapaz de acompanhar aquele coro sabendo-se responsável, ao menos em parte, por aquele atraso. Ele também parecia alheio a todo o alvoroço, mantendo os olhos fixos nos seus mesmo quando cumprimentava o casal anfitrião.

Estavam todos reunidos na adega principal daquela grande casa em estilo colonial, a sede da vinícola Casa Yamanaka. Haviam lindas flores da estação decorando o espaço e uma longa mesa, coberta com uma belíssima toalha de linho, exibia dezenas de queijos, pães e geléias, além das inúmeras garrafas de vinho das mais variadas uvas. Mas, ao contrário do que planejara para si naquela manhã, Sakura estava bebendo apenas água mineral. Queria estar sóbria, capaz de reter na memória cada detalhe da primeira noite em que estaria novamente ao lado de Kakashi.

Os amigos do passado seguiram observando os passos do Hatake conforme ele se aproximava de uma Sakura com um sorriso cada vez mais largo, ignorando todas as outras pessoas ali reunidas. Mesmo os noivos haviam cessado seus risos e falatórios, focados em entender o que se passava. Quando finalmente chegou a um passo dela, Kakashi se explicou:

— Desculpa ter demorado ainda mais, mas eu precisei de um tempinho extra no ourives. — Assim que terminou de falar, tirou do bolso interno de seu paletó uma pequena caixinha azul marinho e ficou deslizando-a entre os dedos até conseguir retomar. — Sakura, você quer namorar comigo?

Por longos segundos, Sakura não conseguiu responder. Todos ao redor estavam fazendo um silêncio descomunal em frente àquele encontro dos dois, ou ela que estava tão vidrada que não conseguia perceber o mundo externo? Um pouco hesitante, mas ainda exibindo o sorriso plantado em seu rosto desde que Kakashi pôs os pés naquela sala, Sakura pegou a caixinha de suas mãos e a abriu.

Um delicado pingente no formato de uma taça de milkshake, com um pequeno símbolo do infinito gravado na parte posterior, pendia de uma fina corrente em elos portugueses. Sakura riu ao ver aquilo, mas estava mesmo emocionada.

— Você vai fazer massa pra mim? — Perguntou em tom solene.

— Só se você fizer sushi pra mim. — Ele barganhou, igualmente sério.

— Fechado.

Selaram seu acordo com um aperto de mão firme e enfático, como aquele do dia em que prometeram juntar seus melhores amigos. Sakura lhe deu as costas, puxando a complexa trança dos seus cabelos consigo; Kakashi entendeu a deixa e fechou nela o colar. Não se importava que não combinasse com o elegante vestido vermelho ou as pérolas que já estavam ali. Seu novo pingente era um tesouro.

Qualquer outro presente soaria piegas, exagerado ou desesperado naquele momento; mas aquele singelo colar, a representação da divergência fundamental entre eles, lhe parecia uma verdadeira promessa de que as suas diferenças, as velhas e as novas, não seriam esquecidas. E isso era um alento para Sakura.

Não queria esquecer de quem se tornou quando estavam separados, não queria perder nada do que aprendeu naqueles tempos tão árduos. Sakura não poderia simplesmente retomar uma relação de onde parou; ela desejava descobrir como seria uma nova relação com o homem que ainda amava.

Retribuía o olhar inquisitivo de Ino com outro, que jurava logo lhe explicar tudo, mas por hora ela só queria abraçar Kakashi e ficar assim por um bom tempo.

A festa retomava seu ritmo. Os amigos ainda riam e erguiam taças na direção do mais-novo-velho casal — ou mais-velho-novo casal, não conseguiam decidir qual era a melhor denominação — mas os noivos logo voltaram a ser o centro das atenções. Enquanto ouvia o burburinho reviver entre os convidados e sentia os braços de Kakashi enlaçando sua cintura com firmeza, ela se lembrou dessa manhã, quando realmente acreditava que as coisas não poderiam piorar. Ela só não imaginava que o oposto disso pudesse acontecer.

Eles haviam, enfim, reencontrado seu caminho de volta.

 

 

 


Notas Finais


Muito obrigada por ler!

E fique a vontade pra vir papear comigo aí nos comentários ;)


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