História O que sabe o coração - Capítulo 3


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Adaptação, Bangtan Boys (BTS), Gay, Kookv, Taekook, Vkook, Yaoi
Visualizações 28
Palavras 2.371
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Nudez
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 3 - Capítulo 2


"O coração tem razões que a própria razão desconhece: disto sabemos de incontáveis maneiras."

— Blaise Pascal.

 

NÃO TEM ONDE manobrar nesta rua, mesmo que eu queira. Só há uma descida íngreme por uma encosta de morro de carvalhos cobertos de musgo que sobem da relva alta e dourada do verão. A rua segue assim por quilômetros, sinuosa, acompanhando o litoral, onde ele passou todos os seus dezenove anos de vida. Cinquenta e oito quilômetros de extensão.

Quando as árvores finalmente dão lugar à imensidão azul do mar e do céu na margem da cidade dele, minhas mãos estão tremendo tanto que preciso parar no mirante do acostamento da estrada. Uma faixa fina de neblina se agarra à beira do penhasco, derretendo sob o sol matinal que se espalha pela água abaixo. Desligo o carro, mas não saio de dentro dele. Apenas abro as janelas e respiro lenta e profundamente, numa tentativa de acalmar minha consciência.

Já estive ali, em Busan, muitas vezes. Eu passava de carro por esse local e ia à cidade nos incontáveis dias de primavera e verão, mas hoje é diferente. Não há nenhum sinal da expectativa eufórica que borbulhava entre mim e meu irmão, Seokjin, no banco de trás, ao seguirmos com mamãe e papai, o porta-malas lotado de toalhas de praia e pranchas de bodyboarding, o cooler explodindo de todas as porcarias que nunca podíamos comer em casa. Não há a emoção da liberdade que veio quando Hoseok tirou a carteira de habilitação e viajamos em sua picape para passar o dia, nos sentindo adultos e românticos. Hoje há uma determinação penosa e a tensão que a acompanha.

Observo a água e tenho um pensamento alarmante. Será que, em alguma das ocasiões em que estive aqui, já vi Jeon Jungkook? Será que Hoseok e eu já passamos por ele na rua, nos encarando por meio segundo antes de seguirmos adiante sem pensar nisso, como fazem os desconhecidos? Sem fazer nenhuma ideia de que um dia haveria esta ligação entre nós? Antes de tudo. Antes do acidente de Hoseok, de escrever cartas e de conhecer os outros, e antes de eu ter passado tantas noites com esperança de receber uma resposta de Jeon Jungkook, imaginando porque nunca recebi.

É uma cidade pequena. Pequena o bastante para que o tivéssemos visto em algum momento durante uma de minhas viagens. Mas, pensando bem, talvez não. Provavelmente ele não passava os verões como o restante de nós. Examinei a cuidadosa cronologia que o irmão dele publicou no blog, o que finalmente me levou a ele. Mas ele só começou quando Jungkook foi inserido na lista de transplantes, e sei que ele tinha catorze anos quando o coração começou o lento e torturante processo de deixá-lo na mão. Ele entrou na lista de transplantes aos dezessete. E teria morrido se não houvesse recebido o telefonema no último instante do seu décimo oitavo ano de vida. No último dia do décimo sétimo ano de Hoseok.

Afasto o pensamento e o peso que vem junto. Respiro fundo novamente e lembro a mim mesmo do cuidado que preciso ter com isso. Já infringi regras demais, escritas e tácitas, protocolos que têm o intuito de proteger do conhecimento excessivo as famílias de doadores e receptores. Ou de expectativas excessivas.

Mas quando encontrei Jungkook, e toda sua história ali, para todo mundo ver, substituí essas regras em minha mente por outras. Regras e promessas que repeti sem parar, e que me levaram tão longe hoje e que me fortaleceram o bastante para me segurar na estrada enquanto as repetia: vou respeitar o desejo de Jeon Jungkook de não ter contato nenhum, por mais que eu ache que nunca vou entender isso. Eu só quero vê-lo. Ver quem ele é na realidade. Talvez, então, eu consiga entender. Ou pelo menos fazer as pazes com isso.

Não vou interferir na sua vida. Não vou falar com ele, nem mesmo ouvir sua voz. Ele nem vai saber que eu existo.

 

+++

 

Estaciono do outro lado da rua da Good Clean Fun e desligo o carro, mas não saio de dentro dele. Em vez disso, levo algum tempo para absorver os detalhes da loja, como se de algum modo eu fosse ver algo que me diga mais sobre Jungkook do que contaram todos os posts do irmão dele. É idêntica às fotos que eu vi: pranchas de paddleboard e caiaques perfeitamente empilhados enchem as prateleiras de cada lado da loja, respingos de amarelo e vermelho contrastando com a manhã cinzenta. Atrás deles, vejo pela vitrine que há diversas roupas de mergulho e coletes de salva-vidas pendurados em fileiras arrumadas, prontos para os clientes em busca da aventura do dia. Nada além do que eu já esperava. Mesmo assim, é estranho vê-la agora, uma loja em que devo ter entrado várias vezes e nunca me chamou a atenção. Hoje é um lugar que tenho a impressão de conhecer, com uma história feita de muito mais do que o equipamento nas prateleiras.

A loja ainda não abriu e a rua está quase vazia; mais á frente, onde o píer se projeta no mar cinzento e agitado, os moradores saem, começando o dia. Surfistas pontilham a água de ambos os lados dos pilares cobertos de mexilhões. Um pescador coloca a isca no anzol e o joga por cima da grade. Duas idosas de moletom caminham em ritmo animado perto da água, conversando e balançando os braços com entusiasmo. E no estacionamento ao lado do píer, três caras de bermuda e chinelos se apoiam na grade, observando as ondas enquanto o vapor sai de forma indolente dos copos de café que eles têm nas mãos.

Decido que um café pode ser uma boa ideia. No mínimo, posso usar o copo para ocupar as mãos. Talvez seja o suficiente para firmá-las. E encontrar o que fazer, além de ficar sentado do outro lado da rua da loja, esperando, menos confiante a cada segundo que passa.

A algumas portas do meu lado da rua, há uma placa que me parece promissora: O PONTO SECRETO. Dou mais uma olhada rápida na locadora fechada, depois saio do carro e ando pela calçada, tentando parecer à vontade e relaxado, como se eu pertencesse àquele lugar.

O ar está denso por causa da neblina matinal e do cheiro do sal do mar, e o dia, embora vá esquentar, ainda está frio o suficiente para me causar arrepios nos braços enquanto ando. Quando abro a porta da cafeteria, o cheiro de café me envolve, junto com as notas suaves do violão tocando no pequeno alto-falante acima da porta. Meus ombros relaxam um pouquinho. Quase me sinto capaz de comprar um café, talvez dar uma volta na praia e ir embora sem ultrapassar o limite, se eu quisesse. Mas sei que não é verdade. Há muita coisa envolvida nisso, e nele, para que eu consiga agir assim.

Levo um susto com a voz que vem de trás do balcão.

— Bom dia! Já atendo você. — a voz é calorosa. Tranquila, como um sorriso.

— Tudo bem. — respondo, sabendo que pareço tenso em comparação aos outros.

Como se eu tivesse perdido a prática de interagir com as pessoas. Por um instante, tento pensar em algo mais para acrescentar, mas não me vem nada à cabeça. Em vez disso, recuo um passo e observo a cafeteria. É um lugar aconchegante, com paredes turquesa-escura que destacam as fotos de surfe em preto e branco. Acima de mim, antigas pranchas de surfe coloridas estão penduradas lado a lado, suspensas do teto por alças de corda gasta. Ao lado do balcão há outra prancha — esta com uma falha irregular — encostada na parede, servindo de suporte para o cardápio pintado à mão.

Não estou com nenhuma fome, mas dou uma olhada mesmo assim, procurando, por hábito, um café da manhã de burrito. O favorito de Hoseok, ainda mais depois do treino de natação pela manhã. Se ele saísse cedo e tínhamos tempo antes da escola, íamos ao centro da cidade e comprávamos um para dividir no nosso lugarzinho secreto: um banco escondido atrás do restaurante, com vista para o riacho. Às vezes conversávamos sobre a próxima competição dele ou minha, ou sobre nossos planos para o fim de semana. Mas meus momentos preferidos eram os que só ficávamos sentados ali, ouvindo o barulho suave da água passando pelas pedras e o silêncio confortável que paira com quem se conhece a fundo.

Um cara louro e de olhos castanhos brilhantes passa pela porta da cozinha, enxugando as mãos em uma toalha.

— Desculpe-me pela demora. — diz ele, me dando um sorriso branco que brilha em contraste com seu leve bronzeado enquanto seus olhos se fecham. — O ajudante ainda não apareceu. Não sei por quê. — ele aponta com a cabeça para o quadro-negro, que relata as condições do dia para o surfe: ondas de 2 metros ao sul, ventos para o mar... Saia daqui!

Quando ele olha para a praia pela vitrine e dá de ombros, entendo que não se importa.

Não digo nada. Finjo examinar o cardápio. O silêncio é meio constrangedor.

— Mas, então — diz ele, batendo palmas. —, o que posso fazer por você esta manhã?

Na realidade, não quero nada, mas estou aqui e é tarde demais para sair. Além disso, ele parece legal.

— Vou tomar um mocha. — digo, mas não pareço muito seguro.

— Só isso? — pergunta ele.

Faço que sim com a cabeça.

— Só.

— Tem certeza de que não quer mais nada?

— Tenho. Quer dizer, não, obrigado... Tenho certeza.

Meus olhos se fixam no chão, mas sinto seu olhar fixo em mim.

— Tudo bem. — diz ele depois de bastante tempo. Sua voz está mais gentil. — Vou trazer seu pedido em um minuto. — Ele gesticula para as cinco ou seis mesas vazias. — Tem lugar de sobra... pode escolher.

E eu escolho uma mesa lá no fundo, com vista para a vitrine. Lá fora, o sol derrete o cinza da manhã, infundindo o mar de luz e cor.

— Aqui está.

O cara do café traz uma caneca fumegante do tamanho de uma tigela e um prato com um muffin gigantesco.

— Banana com chips de chocolate. — diz ele quando levanto a cabeça. — Tem gosto de felicidade. Acho que você precisa de um pouco hoje, então é por conta da casa. O café também.

Ele sorri e reconheço o jeito cauteloso com que faz isso. Não é só esta manhã. É o mesmo sorriso que as pessoas me dão já há algum tempo, um misto do que parece compaixão e pena, e fico na dúvida do que ele viu em mim para achar que preciso disso. Minha postura? Minha expressão? O tom de voz? É difícil adivinhar depois de tanto tempo.

— Obrigado. — digo.

E então tento retribuir com um sorriso de verdade, para garantir a nós dois que estou bem.

— Viu só? Já está funcionando. — ele sorri. — A propósito, meu nome é Jimin. Me avise se precisar de mais alguma coisa, está bem?

Concordo com a cabeça.

— Obrigado.

Ele volta à cozinha e me recosto na cadeira, com a caneca quente aninhada nas mãos, já me sentindo um pouco mais calmo. Embora eu ainda veja a loja de caiaques do outro lado da rua, pareço estar a uma distância segura e adequada. Como se eu não houvesse feito nada de errado ao ter vindo até aqui. Um surfista passa pela calçada e vislumbro os olhos escuros em formas de amêndoas e a pele com um bronzeado suave que fazem meus olhos se desviarem rapidamente, baixando para a espuma do mocha. Ele é impressionante. É extraordinário, se faz notar, e isso me traz uma onda de culpa.

Um instante depois, a porta se abre e ele vai diretamente ao balcão sem olhar para mim no canto, e toca a sineta depressa cinco vezes.

— Ei! Tem alguém trabalhando aqui hoje ou estão todos na água?

Jimin volta da cozinha, com um sorriso de familiaridade.

— Ora essa, olha quem decidiu nos presentear com sua presença esta manhã. — eles dão um high-five e se aproximam por cima do balcão. — Bom te ver, cara. Já surfou?

— Vi o sol nascer da água. — diz o cara daqueles olhos. — Só entrei. Estava bom... Por que não vi você lá?

Ele pega uma caneca e se serve.

— Alguém precisa cuidar daqui. — responde Jimin, tomando um gole da própria caneca.

— As prioridades de alguém estão erradas. — brinca o outro.

Jimin suspira.

— Acontece.

— Eu sei. Quando você não está olhando. — diz o amigo simplesmente. Ele sopra de leve por cima da caneca. — Por isso você precisa estar aqui, para não perder essas coisas.

— Que profundo, cara. — Jimin sorri. — Mais algum conselho sábio que você queira esfregar na minha cara hoje?

— Não. Mas esse swell deve durar. Amanhã, ao nascer do sol?

Jimin inclina a cabeça para o lado, reorganizando as prioridades.

— Sem essa. — o amigo sorri. — A vida é curta demais. Por que você não iria?

— Tudo bem. — diz Jimin. — Tem razão. Cinco e meia. Quer comer?

Quando uma parte mínima de mim torce para que ele responda sim e fique aqui, percebo que estive acompanhando atentamente a conversa dos dois. E ele também. Constrangido, levo a caneca aos lábios, mais para ter onde me esconder do que para tomar um gole. Obrigo meus olhos a se voltarem para a rua, do lado de fora da vitrine.

— Não, preciso abrir a loja. Vou receber uma família de oito para alugar caiaques, e prometi ao meu irmão que estaria lá para preparar o pessoal.

As palavras dele, ditas de forma despreocupada, me atingem rapidamente, como uma saraivada de flechas: caiaques, loja, irmão. Meu estômago dá uma cambalhota com a possibilidade real demais de que esse cara seja ele. Parado bem ali, a uma curta distância. Inspiro bruscamente ao pensar isso e engasgo com o café. Os dois olham para mim enquanto tusso e tento pegar o copo de água na mesa. Em vez disso, derrubo a caneca, que cai no chão com estrondo. E o café espirra para todo lado.

O surfista dá um passo na minha direção quando me levanto de um salto da cadeira. Jimin joga um pano para ele pelo balcão.

— Pega, Jungkook.

Meu coração despenca do peito, levando junto todo o ar do salão, e não consigo mais respirar.



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