História O Rei dos Serpentes: A Seleção - A Elite - A Escolha - Capítulo 13


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Categorias A Seleção, Riverdale
Personagens Alice Cooper, Antoinette "Toni" Topaz, Archibald "Archie" Andrews, Cheryl Blossom, Elizabeth "Betty" Cooper, Forsythe Pendleton "FP" Jones II, Forsythe Pendleton "Jughead" Jones III, Hal Cooper, Josephine "Josie" McCoy, Kevin Keller, Polly Cooper, Veronica "Ronnie" Lodge
Tags Bughead
Visualizações 350
Palavras 4.696
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


HEEEEEEEEEY MENINES,

Pedi 80 e somos 85! Gratidão é a palavra. Obrigada por abraçarem essa história tão linda que é a minha preferida!!!
Vocês explodiram os comentários man... Nem em MW1 eu tive tanto comentário em um cap, vou responder todos ainda.

Então tomem ai de presente:

Capítulo 13 - A Seleção - Capítulo13


NÃO TIVE MUITO TEMPO para me sentir envergonhada ou preocupada. Quando as criadas vieram me vestir de manhã sem nenhum sinal de apreensão, entendi que minha presença na sala de jantar seria bem-vinda. O fato de Jughead me deixar tomar café foi um gesto de generosidade que não esperava dele: eu teria direito a uma última refeição, um momento final como uma das Selecionadas. Eu sabia que iria embora.

Já estávamos no meio do café quando Toni finalmente juntou coragem para perguntar sobre o encontro.

— Como foi? — ela perguntou discretamente, como deveria ser durante as refeições.

Essas duas palavrinhas espicharam orelhas à minha esquerda e à minha direita. Todas ao redor começaram a prestar atenção. Respirei fundo e respondi.

— Indescritível.

As garotas se entreolharam, querendo mais detalhes.

— Como ele se comportou? — indagou Molly.

— Humm... — procurei escolher bem as palavras. — Bem diferente de como eu esperava.

Dessa vez, escutei resmungos pela mesa.

— Você faz isso de propósito? — irrompeu Raven. — Porque, se faz, é muita maldade.

Balancei a cabeça. Como poderia explicar?

— Não, nem um pouco. É que...

Mas escapei de tentar formular uma resposta em virtude do barulho que vinha do corredor.

Estranhei os gritos. Ao longo de meu breve período no palácio, não me lembrava de nenhum som que chegasse perto de ser alto. Além disso, o ruído dos passos dos guardas, o abrir e fechar das enormes portas e o bater dos talheres nos pratos compunham uma espécie de música. Tratava-se do mais completo caos.

A família real parece ter compreendido tudo antes de nós.

— Para o fundo da sala, senhoritas! — gritou o rei FP, correndo até uma janela.

As garotas, confusas e obedientes, avançaram lentamente até a mesa principal. O rei descia uma persiana, que não servia apenas para diminuir a luz. Era feita de metal e rangia ao fechar. Ao lado dele, Jughead baixava outra. E ao lado dele, a amável e delicada rainha corria para baixar a seguinte.

Foi então que uma onda de guardas invadiu a sala. Vi alguns deles se perfilarem do lado de fora um pouco antes das monstruosas portas serem fechadas, trancadas e reforçadas com barras.

— Eles invadiram a propriedade, Majestade, mas conseguimos conter o avanço. Seria bom que as senhoritas saíssem, mas estamos muito próximos da porta...

— Entendido, Mark — o rei respondeu, cortando a frase do militar.

Não precisei de mais para entender. Havia rebeldes dentro dos muros do palácio.

Eu imaginava que isso fosse acontecer. Tantas hóspedes no palácio, tantos preparativos. Claro que alguém ia se distrair em algum ponto e relaxar a segurança. E, mesmo que não fosse fácil entrar, era o momento perfeito para protestar. A verdade era que a Seleção era um tanto perturbadora. Com certeza os rebeldes a odiavam, como odiavam tudo em Riverdale.

Entretanto, a opinião deles em si não era importante. O importante é que não seria calada facilmente.

Eu me ergui tão depressa que minha cadeira tombou. Corri até a janela mais próxima para baixar a persiana de metal. Outras meninas que também tinham percebido a gravidade da ameaça fizeram o mesmo.

Um instante foi suficiente para descer aquela coisa, mas encaixá-la no lugar certo era um pouco mais difícil. Eu tinha acabado de prender a trava do jeito correto quando algo atingiu o palácio, fazendo com que eu me afastasse da janela aos gritos até tropeçar em minha cadeira e cair.

Jughead surgiu imediatamente.

— Você está ferida?

Fiz um diagnóstico rápido de minha condição. Eu devia ter sofrido um arranhão no quadril e estava assustada, mas nada pior que isso.

— Não, estou bem.

— Para o fundo da sala. Agora! — ele ordenou enquanto me ajudava a sair do chão.

Depois, correu pelo salão despertando as garotas paralisadas de medo e as conduziu para o canto.

Obedeci e disparei para o fundo da sala, rumo à aglomeração de meninas encolhidas. Algumas choravam; outras, em choque, olhavam para o vazio. Molly estava desmaiada. A figura mais tranquilizadora era o rei FP, que falava atentamente com um guarda no canto oposto, longe o bastante para não ser ouvido por nós. Um de seus braços envolvia a rainha para protegê-la, e ela permanecia ereta e calma a seu lado.

A quantos ataques teria sobrevivido? Recebíamos notícias de que eles ocorriam várias vezes ao ano. Aquilo inevitavelmente acabaria com os nervos de alguém. Suas chances de sobrevivência ficavam cada vez menores... assim como as de seu marido... e de seu único filho. Os rebeldes com certeza chegariam em algum momento às circunstâncias perfeitas para obter o que queriam. E, mesmo assim, ela permanecia ali, de queixo erguido e rosto sereno.

Corri os olhos pelas outras garotas. Por acaso alguma delas tinha a força necessária para ser uma rainha? Molly ainda estava inconsciente nos braços de alguém. Cheryl e Barbie conversavam. Cheryl parecia à vontade, mas eu sabia que não estava. Ainda assim, comparada às outras, ela escondia muito bem suas emoções. Ponto para ela. Outras estavam quase histéricas, molhando os vestidos com lágrimas. Algumas ficaram catatônicas e se recusavam a aceitar a situação. Seus rostos não tinham expressão, e elas apertavam as próprias mãos à espera do fim.

Veronica estava chorando, não a ponto de parecer acabada. Segurei seu braço e a levantei.

— Enxugue os olhos e fique direito — eu disse no ouvido dela.

— O quê? — ela gemeu.

— Confie em mim. Faça isso. — Ela precisava demonstrar força e eu a ajudaria ao máximo.

Veronica secou o rosto no vestido e ergueu-se. Ela tocava vários pontos do rosto, talvez para conferir se a maquiagem não estava borrada. Então se voltou para mim em busca de aprovação.

— Muito bem. Desculpe ser mandona, mas confie em mim desta vez, por favor.

Eu não gostava de dar ordens em meio a algo tão preocupante, mas ela precisava se parecer com a rainha Gladys. Com certeza Jughead procuraria isso em sua escolha, e Veronica tinha que ganhar.

Ela concordou com a cabeça.

— Não, você está certa. Quer dizer, por enquanto estamos todos a salvo. Eu não deveria ficar tão preocupada.

Concordei, embora ela estivesse errada. Não estávamos todos a salvo.

Havia guardas ao pé das enormes portas, e coisas pesadas eram atiradas contra as paredes e as janelas. A sala de jantar não tinha relógio. Eu não fazia ideia de quanto tempo o ataque já durava, o que me deixou ainda mais ansiosa. Como saberíamos se eles tinham conseguido entrar? Talvez quando começassem a arrombar as portas? Será que já tinham entrado e não sabíamos?

Não pude suportar o peso da preocupação. Fixei o olhar em um vaso de flores ornamentais – cujo nome ignorava completamente – e roí uma das unhas feitas com perfeição pelas manicures do palácio. Fingi que aquelas flores eram a coisa mais importante do mundo.

Jughead acabou por aparecer para verificar se eu estava bem, como tinha feito com as outras. Ele se pôs ao meu lado e começou a observar as flores também. Nenhum de nós sabia o que dizer.

— Tudo bem com você? — ele finalmente perguntou.

— Sim — sussurrei.

O príncipe se deteve por um momento.

— Você não parece bem.

— O que vai acontecer com as criadas? — perguntei, manifestando minha maior preocupação.

Eu sabia que estava a salvo, mas onde elas estavam? E se uma delas estivesse caminhando perto do muro quando os rebeldes entraram?

— As criadas? — ele perguntou com um tom de voz que dava a entender que eu era uma idiota.

— Sim, as criadas. — Me identificava com elas, eu poderia ser uma delas.

Olhei nos olhos dele, forçando-o a reconhecer que somente uma privilegiada minoria entre os que moravam no palácio tinha proteção de verdade. Eu estava a ponto de chorar, mas não queria que as lágrimas viessem. Acelerei a respiração para manter as emoções sob controle.

Jughead me olhou nos olhos e pareceu entender que por apenas um degrau eu mesma não era uma criada. Não era esse o motivo da minha preocupação, mas era muito estranho que um sorteio fosse a principal diferença entre mim e uma pessoa como May.

— Elas devem estar escondidas. Também têm onde esperar o fim dos ataques. Os guardas avisam rapidamente todo mundo. Elas vão ficar bem. Costumávamos ter um sistema de alarme, mas na última invasão os rebeldes o destruíram completamente. Estamos tentando consertar, mas... — ele suspirou.

Olhei para o chão, na tentativa de aplacar todas aquelas preocupações na minha cabeça.

— Elisabeth... — Jughead clamou.

Levantei o rosto.

— Elas estão bem. Os rebeldes agiram devagar, e todo mundo aqui sabe o que fazer em caso de emergência.

Concordei. Permanecemos ali, em silêncio, por alguns minutos, até eu perceber que ele estava pronto.

— Jughead — sussurrei.

Ele se voltou para mim, um pouco surpreso de ser tratado com tanta familiaridade.

— Sobre a noite passada. Eu quero explicar. Quando foram nos preparar para a viagem, um homem disse que eu jamais poderia rejeitar você. Não importava o que pedisse. Em nenhuma hipótese.

Ele ficou espantado.

— O quê?

— Pelo que ele me disse, parecia que você ia pedir algumas coisas. E você mesmo me contou que não conviveu com muitas mulheres. Depois de dezoito anos... E você dispensou as câmeras. Fiquei com medo de que chegasse perto demais. — A verdade me faria sentir melhor, tinha funcionado até agora e éramos amigos, não devia esconder as coisas dele.

Jughead balançou a cabeça na tentativa de processar toda aquela informação. Seu rosto, geralmente tranquilo, contorcia-se de ódio, humilhação e incredulidade. Claramente ele não sabia daquilo, não o culpo.

— Disseram isso a todas? — ele perguntou, aparentemente abismado com a ideia.

— Não sei. Não conheço muitas meninas que precisam desse tipo de aviso. Elas provavelmente esperam uma oportunidade para atacar — comentei, apontando a cabeça para o resto da sala.

O príncipe soltou uma risada sarcástica.

— Mas você não é como elas, até porque não teve receio de me acertar uma joelhada bem ali, certo?

— Eu acertei sua coxa.

— Por favor. Um homem não precisa de tanto tempo para se recuperar de uma joelhada na coxa — ele argumentou com a voz cheia de ceticismo.

Deixei escapar uma risada. Felizmente, Jughead me acompanhou. Foi então que outro projétil atingiu a janela e interrompemos o riso ao mesmo tempo. Por alguns instantes, eu esquecera onde estava. Precisava de um pouco mais de tempo. Minha saúde mental exigia.

— E então, como é ter que lidar com uma sala cheia de mulheres em prantos? — perguntei.

Sua expressão assumiu uma perplexidade cômica.

— Nada no mundo pode ser mais confuso! — ele cochichou rapidamente. — Não tenho a menor ideia de como fazê-las parar.

Eis o homem que ia liderar nosso país: alguém que era vencido por lágrimas. Era engraçado demais. E talvez preocupante.

— Você pode tentar pôr a mão no ombro delas e dizer que vai ficar tudo bem. Quando choram, as mulheres nem sempre querem que você resolva o problema. Elas só querem ser consoladas — sugeri.

— Sério?

— Sim.

— Não pode ser tão simples — ele disse com um misto de dúvida e interesse na voz.

— Eu disse “nem sempre”, e não “nunca”. Mas provavelmente funcionaria com várias garotas aqui.

Ele torceu o nariz.

— Não tenho tanta certeza. Duas delas já perguntaram se eu as deixaria ir embora quando isso chegasse ao fim.

— Pensei que não tínhamos permissão para fazer isso.

Na verdade, eu não deveria estar surpresa. Se ele tinha autorizado minha permanência como amiga, não podia dar muita importância a detalhes técnicos.

— O que você vai fazer? — completei.

— O que posso fazer? Não vou manter ninguém aqui contra a própria vontade.

— Talvez elas mudem de ideia — propus com alguma esperança.

— Talvez — ele concordou e fez uma pausa. — E você? Já está suficientemente assustada para sair? — o príncipe perguntou com ar quase brincalhão.

— Para ser sincera, pensei que me mandaria embora depois do café — admiti.

— Para ser sincero, também pensei.

Um sorriso tranquilo nasceu no meu rosto e no dele. Nossa amizade – se é que podíamos chamar assim – era estranha e cheia de furos, mas pelo menos era honesta.

— Você não respondeu. Quer sair?

Outro abalo na parede. A ideia era tentadora. Em casa, o pior ataque que tive que enfrentar tinha sido James tentando roubar minha comida. As garotas ali não se importavam comigo, as roupas me sufocavam, as pessoas queriam ferir meus sentimentos e toda aquela história me deixava desconfortável. Além de Jughead que me mantinha constantemente confusa. Mas era bom para minha família, e eu achava ótimo comer bem. Jughead parecia, de fato, meio perdido, e eu tinha prometido ajudá-lo. Quem sabe eu mesma não escolheria a próxima princesa?

Olhei bem nos olhos dele.

— Enquanto você não me enxotar, vou ficando aqui...

Ele sorriu.

— Bom. Você precisa me passar mais dicas, como essa da mão no ombro.

Devolvi o sorriso. Sim, estava tudo dando errado, mas algo de bom sairia disso.

— Elisabeth, você poderia me fazer um favor?

— Depende. — Ele sorriu levemente — Mas antes faça-me um favor, quando estivermos conversando só nós, me chame de Betty.

— Tudo bem, Betty. — Ele disse pausado, como se estivesse apreciando o som das palavras, significava um passo a mais na nossa amizade, uma intimidade a mais. — Então, me escute e me faça esse favor.

Assenti.

— Para todos os efeitos, passamos muito tempo juntos na tarde de ontem. Se alguma garota perguntar, você poderia explicar que eu não... que eu jamais...

— Claro. E sinto muito mesmo pelo que aconteceu.

— Eu devia saber que se uma das garotas fosse desobedecer a uma ordem seria você.

Uma série de objetos pesados acertou a parede de uma vez, fazendo um punhado de meninas gritar.

— Quem são eles? O que querem? — perguntei.

— Quem? Os rebeldes?

Confirmei com a cabeça.

— Depende de quem responde. E de que grupo você fala — ele explicou.

— Quer dizer que há mais de um grupo?

A informação fez toda a situação piorar. Se esse era o ataque de um grupo, o que poderiam fazer dois ou mais juntos? Pareceu-me extremamente injusto que não explicassem melhor o tema para nós. Até onde eu sabia, um rebelde era um rebelde, mas Jughead fez parecer que havia uns piores que outros.

— Quantos grupos existem? — perguntei.

— Basicamente dois: os nortistas e os sulistas. Os nortistas atacam com muito mais frequência. Estão mais perto de nós. Vivem no chuvoso território do distrito 6, perto de nós. Ninguém quer morar lá, quase tudo são ruínas. Eles se estabeleceram ali como puderam, embora eu ache que vivem migrando. Essa é uma teoria minha que ninguém escuta. Mas é raro que consigam invadir a propriedade. Quando conseguem, os resultados são... quase modestos. Acho que este ataque de agora é obra dos nortistas — Jughead explicou em meio ao barulho.

— Por quê? O que os faz diferentes dos sulistas?

Jughead pareceu hesitar. Não tinha certeza se eu podia saber aquilo. Olhou para os lados para ver se alguém estava ouvindo. Eu também olhei, e vi várias pessoas nos observando. Cheryl, em especial, parecia soltar fogo pelos olhos. Não consegui sustentar meu olhar por muito tempo. Ainda assim, mesmo com toda aquela gente observando, ninguém estava suficientemente perto para ouvir. Jughead tirou a mesma conclusão e se inclinou para cochichar ao meu ouvido:

— Os ataques dos sulistas são muito mais... letais.

Estremeci.

— Letais?

Ele confirmou:

— Eles vêm apenas uma ou duas vezes por ano, acho. Todos tentam evitar que eu saiba as estatísticas, mas não sou idiota: quando eles vêm, pessoas morrem. O problema é que os dois grupos parecem iguais para nós: esfarrapados, constituídos na maior parte de homens esguios mas fortes, sem insígnias que possamos distinguir. Por isso, não sabemos quem está por trás do ataque antes do fim.

Corri os olhos pela sala. Muita gente estaria em perigo se Jughead estivesse errado e os rebeldes da vez fossem sulistas. Lembrei-me novamente das pobres criadas.

— Ainda não entendi. O que eles querem?

Jughead deu de ombros e respondeu:

— Os sulistas querem nos derrubar. Não sei o motivo, mas imagino que estejam insatisfeitos, cansados de viver às margens da sociedade. Quer dizer, eles nem são Oito, em tese, porque não têm nenhuma participação nas relações sociais. Os nortistas ainda são um mistério, afinal moram no Norte, mas as vezes são migrantes do Sul. Meu pai diz que querem apenas nos incomodar, perturbar o governo, mas não penso assim.

Ele pareceu bastante orgulhoso de si mesmo por uns momentos.

— Tenho outra teoria quanto a isso também — concluiu.

— Posso saber qual é?

Jughead hesitou novamente. Dessa vez, talvez não por receio de me assustar, mas por receio de não ser levado a sério.

Ele aproximou os lábios do meu ouvido mais uma vez e sussurrou:

— Acho que eles estão à procura de alguma coisa.

— De quê? — indaguei.

— Isso eu não sei. Mas é a mesma coisa sempre que os nortistas são expulsos: os guardas são derrotados, feridos ou amarrados, mas nunca assassinados. É como se os rebeldes não quisessem ser seguidos. No entanto, sequestram algumas pessoas de vez em quando, o que é preocupante. E os quartos – bem, aqueles em que conseguem entrar – ficam uma bagunça. Todas as gavetas arrancadas, prateleiras reviradas, tapetes jogados longe. Muita quebradeira. Você não acreditaria se eu lhe dissesse o número de câmeras que tive de substituir ao longo dos anos.

— Câmeras?

— Sim... — ele disse, um pouco encabulado. — Gosto de fotografia. Mas, apesar de tudo isso, eles acabam não levando muita coisa consigo. Meu pai acha minha ideia inútil. O que um bando de bárbaros analfabetos procuraria? Ainda assim, deve haver alguma coisa.

Era uma teoria intrigante. Se eu não tivesse um centavo e soubesse como invadir o palácio, acho que pegaria todas as joias que encontrasse, qualquer coisa que pudesse vender. Aqueles rebeldes deviam ter em mente mais que mera afirmação política ou sua própria sobrevivência quando invadiam o palácio.

— Você acha tolice? — ele perguntou, tirando-me de minhas divagações.

— Não, não é tolice. É confuso, mas não tolice.

Sorrimos juntos. Dei-me conta de que se Jughead fosse apenas Jughead Jones e não Jughead, o futuro rei de Riverdale, seria o tipo de pessoa que gostaria que morasse na casa ao lado, um vizinho com quem conversar.

Ele limpou a garganta.

— Suponho que eu deveria ver como estão as outras garotas.

— Sim, imagino que muitas delas estão se perguntando por que está demorando tanto.

— E então, parceira, alguma sugestão de quem deve ser a próxima?

Sorri e olhei para trás, para conferir se minha candidata a princesa ainda aguentava firme. E ela aguentava.

— Está vendo aquela morena ali, de rosa? É Veronica. Um doce. Ela é muito gentil e adora filmes. Vá.

Jughead deu uma risadinha e caminhou na direção dela.

O tempo parecia demorar uma eternidade para passar, mas na verdade o ataque durou pouco mais de uma hora. Descobrimos depois que ninguém tinha entrado no palácio em si, apenas na propriedade. Os guardas só dispararam contra os rebeldes quando eles se dirigiram à porta principal. Isso explicava os tijolos – arrancados dos muros do castelo – e a comida estragada atirados contra as janelas.

No fim, dois homens chegaram perto demais da entrada principal, os guardas atiraram e todos fugiram. Se a classificação de Jughead estivesse certa, deveriam ter sido nortistas.

Permanecemos escondidas por mais um tempo enquanto as imediações do palácio eram revistadas. Quando tudo voltou ao normal, enviaram-nos de volta para o quarto. Andei de braços dados com Veronica. Apesar de ter aguentado firme na sala de jantar, a tensão gerada pelo ataque me deixara exausta. Era bom ter alguém com quem espairecer.

— Ele deixou você usar calça mesmo depois de perder? — ela perguntou.

Eu tinha começado a falar sobre Jughead logo que pude, porque estava ansiosa para saber detalhes da conversa entre os dois.

— Sim, ele foi muito generoso.

— Acho que o príncipe é charmoso e sabe ganhar.

— Sabe mesmo. E consegue ser até mais gracioso quando descobre a dura realidade do que ganhou.

“Como uma joelhada nas joias reais”, acrescentei mentalmente.

— O que você quer dizer?

— Nada.

Eu não queria ter que explicar o que tinha acontecido.

— Sobre o que vocês conversaram hoje? — continuei.

— Bem, ele perguntou se eu queria vê-lo esta semana.

— Veronica! Isso é ótimo!

— Quieta! — exclamou, conferindo se as outras garotas já tinham subido as escadas. — Estou tentando não alimentar esperanças.

Ficamos em silêncio por um momento até que ela explodiu.

— Quem estou querendo enganar? Estou tão empolgada que mal posso parar em pé! Espero que ele não demore muito para me chamar.

— Se já chamou, tenho certeza de que logo virá atrás de você. Quer dizer, assim que terminar de administrar o país.

Ela riu.

— Não acredito! Quer dizer, eu sabia que ele era bonito, mas não tinha ideia de como se comportava. Tive medo de que fosse... pomposo ou coisa parecida.

— Eu também. Mas na verdade ele é...

O que Jughead era de fato? Ele era meio pomposo mesmo, mas não de um jeito irritante como eu tinha imaginado. Sem dúvida se comportava como um príncipe, mas mesmo assim, era tão... tão...

— Normal — completei para Veronica.

Ela já não prestava atenção em mim. Estava perdida em seus sonhos enquanto caminhávamos. Eu desejava que esse Jughead ideal que ela tinha construído na cabeça correspondesse ao real. E também que ela fosse o tipo de mulher que ele procurava. Dei um tchauzinho quando chegamos à porta do quarto dela e segui para o meu.

Os pensamentos sobre Veronica e Jughead deixaram minha cabeça assim que abri a porta. May e Mary estavam agachadas ao lado de Helena, extremamente abalada. Seu rosto estava vermelho e lágrimas rolavam por suas bochechas. Suas pequenas tremidas tinham se convertido em tremores violentos que sacudiam todo o seu corpo.

— Acalme-se, Helena. Está tudo bem — dizia May em voz baixa enquanto acariciava os cabelos desgrenhados da amiga.

— Já passou. Ninguém se feriu. Você está segura, querida — murmurava Mary, segurando sua mão tensa.

Fiquei chocada demais para falar. Aquela era a luta particular de Helena; não era para meus olhos. Comecei a sair do quarto, mas a criada me segurou antes de eu cruzar a porta.

— P-p-perdão, senhorita, p-perdão — gaguejou.

As outras duas observavam com rostos apreensivos.

— Não se preocupe. Você está bem? — perguntei antes de fechar a porta para que ninguém mais pudesse ver.

Helena tentou recomeçar, mas não conseguia juntar as palavras. As lágrimas e os tremores tomavam conta de seu pequeno corpo.

— Ela ficará bem, senhorita — interveio May. — Leva algumas horas, mas ela acaba se acalmando depois que tudo volta ao normal. Se continuar neste estado, podemos levá-la para a ala hospitalar.

Depois, baixou o tom de voz e acrescentou:

— Só que Helena não quer isso. Se eles julgam que não serve como criada, acabam escondendo você na lavanderia ou na cozinha. E Helena gosta daqui.

Será que May achava que estava sendo discreta? Estávamos todas ao redor de Helena, que ouviu perfeitamente essas palavras.

— P-p-por favor, senhorita... Nã-não...

— Ninguém vai denunciá-la — garanti a ela. Depois, dirigi-me a May e Mary: — Me ajudem a deitar Helena na cama.

Pensávamos que seria fácil carregá-la em três, mas Helena se contorcia e escorregava de nossas mãos. Deu um pouco de trabalho, mas conseguimos. Com Helena embaixo dos cobertores, o conforto tratou de fazer mais por ela do que nossas palavras conseguiriam. A tremedeira se tornou mais lenta, e ela mantinha os olhos fixos no dossel da cama.

Mary se sentou à beira da cama e começou a cantar baixinho, o que me fez lembrar muito do jeito que ninava Ana quando ela ficava doente. Puxei May de lado, longe dos ouvidos de Helena, e perguntei:

— O que aconteceu? Alguém entrou?

Se tinha sido esse o caso, gostaria ao menos de ser informada.

— Não, não — assegurou Anne. — Helena sempre fica assim quando os rebeldes vêm. Só falar neles já faz com que chore incontrolavelmente. Ela...

May baixou a cabeça e olhou para seus sapatos pretos engraxados, tentando decidir se devia contar mais. Eu não queria me intrometer na vida de Helena, mas queria entender. Ela respirou fundo e começou:

— Algumas de nós nasceram aqui. Mary nasceu no castelo e seus pais ainda moram aqui. Eu sou órfã, fui acolhida porque o palácio precisava de mão de obra.

Ela endireitou o vestido, na tentativa de se desprender dessa parte de sua história que parecia incomodá-la.

— Helena— prosseguiu — foi vendida para o palácio.

— Vendida? Como assim? Não há escravos aqui.

— Oficialmente, não. Mas isso não quer dizer nada. A família de Helena precisava de dinheiro para a cirurgia da mãe. Então ela e o pai ofereceram seus serviços a uma família de Três. A mãe nunca melhorou, e eles não conseguiram pagar a dívida. Helena e o pai serviram aquela família por anos. Pelo que sei, a vida deles não era muito melhor que a de animais em um estábulo. Mas o filho dessa família se afeiçoou a Helena, e eu sei que algumas vezes o amor não olha castas, mas a distância entre os Seis e os Três é bem grande. Quando a mãe do rapaz descobriu suas intenções, vendeu Helena e o pai para o palácio. Eu me lembro de sua chegada. Ela chorou por vários dias. Os dois deviam estar muito apaixonados.

Olhei para Helena. Pelo menos no meu caso, um de nós tinha tomado uma decisão. Já ela não teve escolha quando perdeu o homem que amava.

— O pai de Helena trabalha no estábulo. Não é forte nem rápido, mas tem uma dedicação incrível. E Helena é uma criada. Sei que pode parecer tolice, mas é uma honra ser criada do palácio. Somos a linha de frente, consideradas suficientemente aptas, inteligentes e bonitas para serem vistas por qualquer visitante. Levamos nosso emprego muito a sério por um motivo: se fizermos alguma besteira, acabamos na cozinha, onde as mãos ficam ocupadas o dia todo e as roupas são uns farrapos. Podemos ainda acabar cortando lenha ou recolhendo folhas de árvores no chão. Não é pouco ser criada.

Eu me senti bem burra. Para mim, todas eram apenas Seis. Mas existiam ainda subdivisões, hierarquias que eu ignorava.

— Há dois anos, o palácio foi atacado no meio da noite. Rebeldes tomaram os uniformes dos guardas e todos ficaram confusos. Tamanha foi a bagunça que ninguém sabia quem atacar ou defender, e as pessoas caíam em buracos cavados na linha de frente. Foi terrível.

Tremi só de pensar. A falta de luz, a confusão, a imensidão do palácio. Comparado ao ataque da manhã, parecia ser obra dos sulistas.

— Um dos rebeldes capturou Helena.

May baixou os olhos por um minuto. E pronunciou em voz baixíssima as seguintes palavras:

— Não sei se eles têm muitas mulheres à disposição, se é que a senhorita me entende.

— Ah...

— Não vi pessoalmente, mas Helena contou que era um homem imundo. Disse que ele lambia o rosto dela.

May retesou o corpo ao imaginar a cena. Meu estômago deu voltas, ameaçando devolver o café da manhã. Era uma das coisas mais revoltantes em que eu conseguia pensar, e compreendi então por que Helena, depois de sofrer tanto, desmontava com ataques como o daquele dia.

— O rebelde arrastou Helena para algum lugar. Ela gritava o mais alto que podia, mas era difícil ouvir em meio àquela agitação. Um guarda que estava no corredor escutou os gritos. Mirou e acertou uma bala bem na cabeça do homem. O rebelde caiu por cima de Helena, e ela ficou presa embaixo dele. O corpo dela ficou coberto de sangue.

Levei a mão à boca. Não podia imaginar a pequena e delicada Helena passando por tudo aquilo. Não era de estranhar que tivesse reagido daquela forma.

— Os machucados foram tratados, mas ninguém cuidou de sua mente. Hoje ela é uma pilha de nervos, mas faz o possível para esconder. Não apenas para seu bem, mas também pelo bem de seu pai. Ele tem orgulho de saber que a filha é boa o suficiente para ser criada. Tentamos manter Helena calma, mas sempre que os rebeldes chegam ela pensa que vai ser pior, que dessa vez vão pegá-la, feri-la, matá-la. Ela está tentando, senhorita, mas não sei por quanto tempo vai aguentar.

Concordei com a cabeça e voltei os olhos para Helena na cama. Ela tinha fechado os olhos e adormecido, apesar de ainda ser bem cedo.

Passei o resto do dia lendo. May e Mary limparam coisas que não estavam sujas. Ficamos quietas enquanto Helena se recuperava.

Prometi a mim mesma que, no que dependesse de mim, Helena nunca mais passaria por aquilo.


Notas Finais


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