História O Relâmpago que ilumina a Terra - Capítulo 1


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Categorias South Park
Personagens Butters Stotch, Kyle Broflovski
Tags Butters Horny Angel, Dah4, Kyle Racional Dork, Kytters, Primeira Vez, Shakespeare, Slow Burn
Visualizações 71
Palavras 5.000
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oieeee!!

Esta fic foi escrita para atender ao "Desafio Aprendi Algo Hoje 4", cuja tag é #Dah4, meu casal sorteado foi Kytters [Kyle x Butters], o tema geral é "Inspirado em Filmes" e da lista eu escolhi: "PRIMEIRA VEZ"!

Minha escolha foi porque eu não poderia encaixar a dinâmica canônica desses dois em outra situação...

A fic terá 3 capítulos, e começo postando hoje, para terminar a postagem até sábado (provavelmente na sexta); mas espero que eu ganhe o coração de vocês com esse shipp NOVINHO EM FOLHA! 🧡💙

E sim, eu não queria, mas, apesar de menor que as outras fics do Dah, ficou ENORME!

Algumas explicações nas Notas Finais, sobre trechos marcados com * para os desavisados!

* A capa eu mesma fiz, com imagens tiradas do pinterest, e vou dizer que eu amei ela apesar de simples *

BOA LEITURA!!

Capítulo 1 - O Jardim Secreto


North Park era tão frio quanto qualquer outra cidade das Montanhas e ele sabia, porque recentemente viera do Hawaii quando seus pais decidiram que se mudar para este lugar poderia ser bom para o filho único...

E por um tempo parecia ser, porém rapidamente entendeu que suas aspirações artísticas soavam para os caipiras sulistas como apenas “merda purpurinada”, como um colega dissera entre sorrisos.

Ainda assim ele encontrou o Clube de Teatro da escola, e as reuniões pareciam tão boas quanto poderiam ser para um formando do Ensino Médio, e ele suportava algumas chatices cafonas para poder ler um monólogo ou outro.

Mas, quando Butters Stotch aceitou vir a tal festa dos amigos dele, não era exatamente isso o que esperava encontrar.

Havia pessoas envoltas em névoa brincando e nadando em uma piscina aquecida, outros jovens espalhados pelo jardim conversavam ignorando o frio que fazia a pele dele arrepiar, mesmo que fosse início de junho. Butters viu o amigo que o convidara para a festa conversando com um cara loiro de cabelos bagunçados, Stotch rodopiou os olhos.

 

Definitivamente não fora para isso que ele viera até ali.     

 

Pensou que estaria em um sarau, com pessoas lendo poemas, e mesmo que a escrita não fosse a praia dele, às vezes poderia se imaginar “performando” os trechos do livro que carregava na bolsa, ele mesmo escolhera uma cena de “A Tempestade”, e daria um dos rins para poder interpretá-la frente a qualquer plateia.

Todavia, ao olhar para o lado, tudo o que enxergava eram jovens americanos comuns se divertindo como em uma festa surreal saída diretamente de algum filme adolescente.

Contrariado apanhou a bolsa atirada no banco ao lado e jogou-a no ombro esquerdo, passou a alça em transversal pelo peito e, a passos firmes, caminhou até o portão principal.

Seu andar era rápido e decidido, no entanto, parou ao ver uma trilha encimada por árvores, um tipo de túnel verde irregular. A curiosidade levou a melhor quando se aventurou por ali, alguns passos depois, vencendo a grama fria da noite.

E no meio do percurso, deparou-se com algo um tanto... inesperado.

A imagem totalmente o cativou conforme seus pés trilhavam pela estradinha, o céu estrelado escondido pelo teto natural proporcionado pelas árvores, ele se questionou rapidamente que espécie botânica era capaz de ser tão verde apesar do frio, e até mesmo possuir flores que caíam em pequenos cachos rosados.

E teria observado a cúpula botânica, se um monólogo não o surpreendesse.

 

— Então, todos estão errados quando dizem isso, não sou um esquerdo-macho, só que... UGH...

 

Butters estancou no final da trilha, havia um rapaz caminhando em círculos e falando sozinho, ou talvez estivesse interpretando algum papel. O sujeito passou a mão pelo rosto e Butters poderia ler frustração em cada parte da face que a lua iluminava.

Os olhos de Stotch correram por toda a extensão, um jardim secreto era o que parecia, toldado por um céu estrelado e rodeado por árvores que derramavam suas flores rosadas pelo gramado.

Por um momento pareceu a Butters um estranho palco com um exótico adereço, alto e com nuca raspada encimada por cabelos encaracolados, andando de um lado para o outro conversando com o celular.

 

— É só que... quero apoiar a causa... mas não... estar no foco, entende? Só quero que me ouçam... — Ele parou de falar e de costas para a trilha que trouxera Butters, ergueu a cabeça como se falasse com a lua. — Mas... que merda eu to fazendo...

 

As mãos correram para os cabelos e Butters ergueu a sobrancelha percebendo que, conforme se aproximava, dava para ver que os fios tinham um brilho acobreado.

Se isso era um tipo de “performance”, apesar da ótima cenografia, era muito ruim, Butters poderia dizer só de olhar.

 

— Realmente, o que você está fazendo, amiguinho?

 

O som da voz de Butters fez o cara pular dois metros adiante, ele tropeçou e caiu, as costas bateram na grama com um som oco. Stotch se aproximava o encarando, a luz de um poste de jardim iluminava um rosto sardento, mas Butters não via nada além de confusão e desconforto.

— Isso foi um tombo e tanto. — Butters falou esticando a mão para que o outro se erguesse, mas o cara ficou encarando-o, os lábios se separaram, mas nada saiu. Stotch inclinou a cabeça para o lado e aprofundou as sobrancelhas. — Você é desses caras que gostam da natureza ou coisa assim? Eu acho a natureza legal e tudo, só não sei se a terra desse gramado vai combinar com a sua camisa clarinha.

Ele tentou sorrir reconfortante, mas o sujeito caído aos seus pés o encarava como se Butters fosse a coisa mais surpreendente jamais vista no universo, em contrapartida Stotch alcançou-lhe a mão, pois novamente sua curiosidade levou a melhor e se viu querendo saber mais sobre essa estranha interpretação.

 

 

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

 

 

 

Os olhos árticos caíram sobre ele como um banho de água fria, distraído como estava, Kyle Broflovski não percebeu a aproximação, a agora estava deitado de costas no chão macio, o cheiro de terra perdia em evidência para o aroma suave de algo doce, amadeirado, que vinha do cara que acabara de aparecer.

A lua emoldurava o rosto sorridente dando aos cabelos muito loiros um brilho semelhante a uma auréola angelical, embora parecesse haver um tipo de censura nos lábios apertados e olhos luzidios que encaravam Kyle.

 

— Você não fala com pessoas, ou interrompi algo importante?

 

Agora a voz meiga soava com um real toque de ironia entediada, e automaticamente isso fez com que Kyle apanhasse a mão que se estendia ao alcance da sua.

— Me desculpe, eu... — O rapaz o puxou e Kyle notou que não era exatamente tão alto quanto pareceu, os olhos azuis claros o observavam como se o julgassem e automaticamente o ruivo se viu procurando por alguma desculpa.

— Você é de North Park? — A voz soou novamente, interrompendo Kyle tanto em seu embaraço, quanto no raciocínio.

— Não, South Park. — Kyle se viu respondendo. — E você?

— North. — O rapaz disse com lábios róseos apertados. — Você é do Clube de Teatro?

— O quê? Não! — Kyle se apressou em dizer.

Por um momento a expressão no recém-chegado mudou de curioso para ofendido.

— Tem algum problema com o Clube de Teatro? — A voz dele parecia contida quando os olhos se apertaram.

— Não! Não foi o que quis dizer! — Kyle ergueu as duas mãos frente ao corpo apaziguando. — Eu só... sou meio péssimo nessa coisa de interpretação... como você acabou de presenciar.

Kyle sentiu que não havia mais orgulho para proteger quando o sujeito deu um passo à frente e o encarou sob a luz de um poste do jardim, de perto Kyle notou que ele tinha uma suave cicatriz que atravessava do supercílio até um centímetro abaixo do olho esquerdo.

— E o que você quis dizer... amiguinho?

 

A brandura na voz em nenhum momento convenceu Kyle.

 

— Tem... tem essa garota... que estou... sabe...? — Kyle disse, seu olhar percorrendo toda parte, menos o rosto sereno que pairava perigosamente rente a ele. — Uma garota que gostaria de me explicar...

— Oh, então você não está fazendo uma releitura de Othelo, nem nada assim? — O loiro deu um passo à frente.

— Releitura de... cara! — Kyle se viu desesperado. — Não! Tem essa garota... e parece que ela não entendeu meu posicionamento com um assunto, então...

Kyle Broflovski era um aluno do último ano, e prestes como estava de se formar, com pelo menos três cartas de aceitação em faculdades de diferentes estados do país, ele tinha assuntos que não queria deixar para trás quando embarcasse em um avião rumo ao seu futuro.

Mais cedo, quando seus amigos resolveram entrar em uma caminhonete e vir até essa festa, Kyle não pensou que pudesse dar de cara com a garota, e agora aqui estava, escrevendo um tipo de discurso no celular, apenas para que não pensassem mal dele.

— Então — o sujeito continuou, sua voz era encorajadora, embora de alguma forma Kyle o achou entediado. — Você pretende falar?

Olhos verdes focaram no sujeito recém-chegado, a luz do poste de jardim lançava-se sobre ele formando uma sombra logo atrás, além de fazer com que esse cara parecesse um tipo de modelo em uma passarela. Kyle não tinha nada a perder, talvez o cara nem pudesse ajudá-lo, mas sentiu uma estranha vontade de se abrir, os olhos azuis eram simplesmente muito simpáticos, até mesmo ingênuos, e Kyle passou as mãos pelos cabelos novamente.

— Em um debate recente pode ter parecido que eu... queria ser o centro de um discurso feminista. — Ele admitiu derrotado. — E agora uma garota que eu... sabe? Ela acha que sou um “esquerdo-macho”.

 

Ele fez aspas com os dedos para a expressão que fazia seu estômago embrulhar, seus olhos caíram para o gramado, a lua alta e cheia no céu fazia um bom trabalho iluminando sua vergonha assim que admitiu, por isso sentou no chão e começou a acariciar a grama, humilhado demais para continuar naquele momento, deitou a cabeça nos braços e observou o chão como se pudesse assistir os gramíneos crescendo.

O sujeito sentou ao lado dele, cruzou as pernas no estilo borboleta, em uma demonstração de elasticidade impressionante, e a mão gentil cobriu o ombro de Kyle.

— Sei o que você quer dizer. — O cara apontou mais cordial do que acolhedor, mas Kyle se viu sorrindo. — Qual é o nome dela?

— Sally...

— Sally Darson? — O loiro ofereceu animado.

— Turner. — Kyle o encarou por baixo do antebraço. — E o seu nome, qual é?

— Butters! — Ele falou animado pela primeira vez, e Kyle ergueu o rosto para observá-lo. — Leopold Stotch! Mas todos me chamam de Butters no Clube de Teatro.

O sorriso era radiante quando o sujeito se levantou, novamente dando a mão para Kyle

— Prazer, Butters... — Kyle esticou a mão e o outro o puxou sob seus pés, os peitos ficaram a poucos milímetros de distância e os olhos árticos ergueram-se acima como se o analisassem, o ruivo sentiu-se corar sob o olhar. — Sou Kyle... Broflovski.

Butters o observava atentamente, os olhos passeavam pelo rosto de Kyle e o ruivo sentiu o rubor se espalhando das faces em direção ao pescoço, mas tentou apenas desviar o olhar para não parecer nervoso.

Acostumado aos debates fervorosos, porém, distantes de plateia, Kyle não sabia como reagir quando o observavam tão de perto, e neste momento, os olhos azuis estavam o fitando com interesse genuíno.

O que era definitivamente algo que Kyle não estava habituado.

O som de uma música calma vinha da festa, mas Kyle estava concentrado demais tentando se misturar com o fundo estrelado daquele jardim que ele achou que era secreto.

— Quer ler aquele discurso? — A voz era suave, mas saiu quase como uma ordem, e Kyle sentiu a bolha do torpor estourar e o sacudir. — Esse que parecia uma cena de Othelo?

Kyle aprofundou as sobrancelhas.

— Oh... hm... não. — Falou, e quando as sobrancelhas do outro se ergueram, se viu desesperado para consertar. — Acho que... não. É idiota. Queria só que ela me entendesse, sabe? Que entendesse que não quero o palco do discurso, só quero que me ouçam. Não estou aqui para fazer o discurso, só quero colaborar com algumas coisas...

— Contraditório, não acha...? Talvez precise só de uns reajustes. — Butters o interrompeu, eles ainda estavam muito próximos e Kyle deu um meio passo para trás.

— Talvez eu precise só calar a boca. — O ruivo falou passando as mãos nos cabelos, o garoto inclinou a cabeça loira daquele jeito parecendo um cachorrinho confuso.

A música chegou ao refrão e não poderia ser um plano de fundo melhor quando Kyle observava os olhos brilhantes sob a luz do luar, o encarando com expectativa.

Butters parecia interessado e Kyle se viu gostando de receber essa atenção, o loiro deu um meio-passo à frente e ficou bem perto outra vez, parecia desconhecer tudo sobre espaço pessoal quando ergueu os olhos e estudou a expressão de Kyle.

— Isso também. Quer dizer, não quero ofender nem nada, mas você fala demais, parecia se achar o centro das atenções, você é meio cheio de si, não é? — A resposta parecia pronta demais para Kyle não se surpreender. — Quer dançar? Adoro essa música.

— Ah... o quê?!

 

 

 

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

 

 

 

Butters rodopiou os olhos, o cara era bonitinho, mas muito arrogante e tinha zero expressão corporal, a música que vinha da festa estava dominando Butters, e de repente ele só sentia que seu corpo começaria a se mover sozinho.

— Dançar... — Ele falou devagar, talvez assim o cara entendesse. — Se expressar com seu corpo.

O outro coçou a nuca e atirou um olhar de lado para Butters, a face dele corava e isso era algo bem interessante, Butters não se lembrava da última vez que alguém corou perto dele.

— Eu... não faço isso, não na frente de pessoas.

Butters largou a bolsa do lado e esticou as duas mãos apanhando as do cara, os dedos elegantes do loiro escorregaram pelo relógio de pulso do ruivo, quando Stotch puxou-o para si.

— Sou uma pessoa só, e você não vai dançar na minha frente. — Explicou. — Vai dançar comigo, Kyle. Só uma dancinha.

Ele pronunciou o nome do sujeito tentando ao máximo deixar o sotaque havaiano escorregar. Filho de pais americanos, Butters tinha um sotaque híbrido que não se encaixava em nenhum lugar, mas quando queria chamar a atenção, o sotaque era sua melhor arma.

E assim, os olhos verde esmeraldas estavam nele, sem desviar, as mãos frias do ruivo contornaram a cintura de Butters.

Então, um pouco desconfortavelmente o cara se deixou levar pelo passo dele, a música os cobriu quando Butters fechou os olhos, ele ergueu as mãos pousando-as na nuca quente, o cheiro era agradável quando o nariz dele tocou de leve no ombro de Kyle.

Esse sujeito não era tão ruim ao se expressar com o corpo como era falando sozinho, talvez porque deixava que Butters tomasse a liderança, e isso era algo que ele poderia lidar, rapidamente, ao som da música, seus corpos começaram a entrar em sincronia.

Butters sentiu que o outro o apertou um pouco, as mãos que estavam às suas costas já eram mornas quando o loiro ergueu o olhar e se deparou com olhos semicerrados o fitando, um vento sacudiu os cabelos acobreados e o coração de Kyle batia descompassado contra o tecido da camisa de Stotch.  

Foi enquanto eles se encaravam que repentinamente a música se extinguiu e a luz do poste de jardim desligou deixando tudo na penumbra. No reflexo, Butters apertou a nuca do cara, puxando-o mais para si sem querer, o que fez com que os dois se desequilibrassem, Butters apertou os olhos esperando o chão tocar suas costas.

No entanto, o jogo de pés de Kyle foi fantástico e ele se aprumou mantendo Butters firme em seus braços, assim que conseguiu abrir os olhos, o loiro se viu sob observação intensa de um par de olhos arregalados.

Ele saiu do aperto, as mãos correram pela lateral do corpo como se conferisse se tudo estava ali, então Butters viu a bolsa atirada ao lado e esticou a mão para pegá-la.

— Você vai embora? — A voz ecoou na escuridão, mais assustada do que ele esperava.

— Oh, bem, sim. — Butters falou. — Quer ir comigo?

A pergunta foi feita apenas porque Butters imaginou que o cara não queria estar sozinho ali, e o próprio Stotch nem mesmo sabia como sair desse jardim.

Kyle esticou a mão, apanhando a de Butters e o puxou para algum lugar no fundo do Jardim Secreto, eles correram e passaram por um vão na cerca viva, Kyle o ajudou e ambos ganharam a rua escura.

 

 

 

— O que acha que aconteceu? — Butters se viu perguntando depois de alguns minutos de caminhada silenciosa.

— Alguém cortou a luz. — Kyle encolheu os ombros. — Eu diria que foi o Cartman, porque Mark Costwolds, além de não gostar de gatos, estava saindo com a Heidi um dia desses. E parece que o gordo odeia as duas coisas em igual proporção. Falei para o Stan não trazer ele, mas Kenny também queria vir, então o Cartman achou que tinha direito...

Eles se entreolharam, durou tempo suficiente para que Butters notasse as sardas na ponta do nariz de Kyle, que passou a língua brilhante sobre os lábios avermelhados, o loiro desviou o olhar primeiro.

— Cartman? Stan? Kenny? Não me lembro de ninguém com esses nomes na minha escola. — Butters manteve a conversa. — Conhece?

— Ah, sim. — Kyle olhou de lado. — Todos eles.

Butters caminhou silenciosamente, a mão de Kyle bateu na dele acidentalmente, e apesar de ambos estarem usando jaquetas jeans, os dedos do ruivo estavam frios, o loiro observou-o e Kyle afundou as mãos nos bolsos da calça escura, a orelha dele estava com a ponta corada por baixo dos cachos acobreados, e Butters notara mesmo sob a luz fraca da rua.

O loiro era perceptivo o bastante, e podia muito bem ver onde isso poderia levar.

— Não estou procurando um namorado. — As palavras apenas saltaram dos lábios de Stotch. — Nem um caso, tenho outras prioridades.

Kyle parecia ter levado um tapa na cara, não era dado à aventuras nem atos não planejados, mas a decepção foi como algo quente escorregando em seu interior.

— Oh. — O ruivo ergueu a mão fechada em direção à boca e mordeu o nó do dedo indicador, a luz de um farol refletiu no relógio de pulso enviando um brilho cegante que o loiro usou como desculpa para desviar o rosto.

— Sim. — Butters se viu obrigado a ressaltar. — Tudo o que quero é mostrar minha performance no Clube de Teatro...

— E você veio nessa festa fazer isso? — O ruivo franziu o cenho.

— Qualquer plateia é boa para treinar. — Butters palestrou. — Faltam apenas algumas semanas para o final das aulas e ainda não recebi uma carta afirmativa que me interesse.

— Você... já vai para a Faculdade? — Kyle parecia genuinamente impressionado.

— Vou sim. — Butters atravessou a rua. — Mas, as cartas de aceitação que recebi não eram de nenhuma escola que me interesse. Por quê?

Kyle parecia realmente impressionado quando desviou o rosto.

— Nada. Você só não parece ter idade para se formar. — Foi a resposta simples.

Butters pensou sobre isso, Kyle andava lançando olhares por baixo dos cílios, as mãos voltaram para dentro dos bolsos da calça larga.

— Tenho 18 anos a tempo. — Respondeu. — E você?

Os olhos verdes focaram nele e Butters inclinou a cabeça não compreendendo por que o sujeito parecia constrangido.

— Fiz 18 na semana passada.

— Então, sou mais velho que você! — Butters apontou um dedo no peito de Kyle, rindo. — Precisa me respeitar!

Em resposta os lábios do ruivo se esticaram sorrindo, e ele ergueu os braços parecendo rendido a esta verdade, além de muito desajeitado.

— Tem razão.

Butters parou olhando para o lado, em seguida voltou-se para Kyle.

— Você tem aquela cara de que já tem uma carta de aceitação na mão. — Ele falou e Kyle sorriu.

— Três, na verdade.

 

Por que Butters não estava surpreso?

 

— Essa é minha casa. — Butters anunciou, o rosto de Kyle pareceu decepcionado por um momento. — Obrigado por vir até aqui.

— Nós... — O ruivo observava os tênis, mas seu rosto ergueu-se e os olhos focaram em Butters. — Poderíamos sair um dia e conversar...

— Acabamos de fazer isso. — O loiro aprofundou a sobrancelha.

— Bem... — Um dedo de Kyle brincava enrolado nos próprios cachos ruivos. — Então...

— Você quer meu número? — Stotch questionou esticando a mão. — Anoto no seu celular.

Kyle entregou o aparelho, mas antes de soltar por completo, Broflovski o segurou, mantendo Butters em expectativa.

— Eu poderia ver... sabe... — E frente ao silêncio de Butters, Kyle completou. — A sua performance.

Os olhos verdes correram para a casa e depois voltaram para Butters, o loiro o encarou até compreender.

 

 

 

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

 

 

 

— Eu não quero um namorado. — Kyle ouviu seguindo o rapaz pelo corredor. — Nem um caso.

— Por Abraão, eu sei. — O ruivo sussurrou. — Só... fiquei curioso.

Os olhos árticos o encararam por cima dos ombros quando o loiro andava na frente de Kyle, puxando sua mão.

— Tudo bem. Pode ser legal mostrar para alguém.

— Sim... foi o que pensei... você saiu hoje porque queria mostrar para alguém, certo?

Kyle notou que eles não estavam subindo escadas, mas sim descendo em direção a um porão escuro, quando chegaram à porta, Butters apertou o indicador quente nos lábios do ruivo para que ele parasse de falar.

Em seguida entraram e o anfitrião pressionou um botão que fez a luz noturna azulada banhar o local, Kyle se viu um pouco impressionado demais para falar, mesmo sob a parca iluminação podia ver baús transbordando itens como boás de penas azuis e verdes, outros tecidos cravejados de lantejoulas rebrilhavam à luz fraca.

— Vou vestir o figurino. — Butters abriu a bolsa que trazia a tiracolo e apontou para um canto. — Coloque para rodar o disco três na primeira faixa, por favor?

Apanhando algumas coisas pelo caminho ele se afastou desaparecendo atrás de um biombo, a Kyle restou se dirigir até o outro canto do cômodo, onde se deparou com uma vitrola antiga.

Impressionado encarou os discos de vinil, que estavam cuidadosamente organizados em uma pilha, escolheu aquele que tinha uma etiqueta delicada com um número três escrito com alguma caneta com tinta que brilhava no escuro.

Kyle acomodou o disco no suporte e intuitivamente pressionou os botões necessários, um som instrumental começou baixo e aumentou aos poucos como se a música se espalhasse pelo cômodo.

Mas, outro som se misturou a esse, e Kyle procurou pelo cômodo meio escuro, seus olhos varreram cada canto até notar uma luz azul de Bluetooth piscando, onde descansava um celular e dali vinha o som que parecia colidir direto no peito dele.

Sons de uma tempestade inegável: Relâmpagos que pareciam colidir com a terra, trovões, chuva... embora mais baixos que a música do disco de vinil, mas tão contundentes quanto.

Um holofote improvisado iluminou a figura no centro de um tablado no fundo do cômodo que Kyle não notara antes, e ali estava Butters, vestindo uma roupa com franjas por toda a extensão, o fazendo parecer um homem-pássaro e um anjo ao mesmo tempo.

A música do celular ficou mais alta enquanto Butters fazia movimentos com as mãos como se ele fosse um tipo de divindade manipulando algo pequeno na Terra.

 

Então o celular se calou e Tchaikovsky tomou todo o ambiente, a música instrumental acertou em cheio os ouvidos e o peito de Kyle.

 

“Enfiei-me a bordo do navio do Rei, ora na proa, ora no convés, no tombadilho, com todos os camarotes, em todo o canto eu cintilei, enchi-os de pasmo, às vezes dividindo-me e queimando em vários lugares”. — Butters ecoou, lentamente, fazendo gestos, parecendo arrogante e satisfeito consigo mesmo, ele olhou direto para Kyle através do holofote. “No mastaréu, mas vergas, no gurupés, lá estava eu, centelhas distintas, depois reencontradas, unidas numa só. Os relâmpagos de Júpiter, precursores de terríveis trovões, não teriam sido mais momentâneos; fui mais rápido que a visão”.*

A música cresceu e Kyle olhou para trás na penumbra para ter certeza que estava sozinho, o escuro combinado com a interpretação de Butters, fazia parecer que havia uma plateia escondida nas sombras.

O loiro correu sobre o tablado, abrindo os braços e Kyle pôde ver que a roupa dele continha alguns brilhos que o faziam parecer altivo como uma força natural.

 

“O fogo e os estrondos crepitantes e sulforosos pareciam sitiar até mesmo o poderosíssimo Netuno, e faziam estremecer suas corajosas ondas.” — Butters parou, pendurando-se em um pedestal que Kyle não notara que estava li, ele apontou direto para o ruivo, os olhos árticos brilharam lascivos. — “Sim, faziam seu medonho tridente tremer.”*

 

 

A música calou e como por mágica o holofote improvisado desligou, mas nas retinas de Kyle o sorriso satisfeito de Butters ficara cravado como ferro em brasa.

O ruivo se viu desnorteado por um momento, então, através da escuridão e do silêncio, Butters surgiu na frente dele.

— O que achou, amiguinho? — Os olhos azuis o observavam, cheios de expectativas. — Teria sido melhor se eu tivesse tempo para me maquiar, e o figurino não está completo, mas foi o mesmo que levei à festa, o que pude improvisar.

Apontou com as mãos para um tipo de blusa colada ao corpo, que abria um pouco alargando abaixo da cintura dando movimento à roupa, havia finas franjas penduradas por toda a peça. Kyle não suportou a curiosidade e tocou nelas para descobrir que era um tecido áspero. A impressão de que eram penas aumentava com tênues brilhos, colado por toda a extensão do peito e abdômen de Butters, mostrando os músculos sutis que Kyle não esperava ver.

Uma calça preta colada e os pés descalços completavam a imagem de um tipo de anjo.

— Isso era Shakespeare, não era? — Kyle falou baixo, por algum motivo seu coração estava acelerado. — Você... quer interpretar Ariel?

O sorriso de Butters fez o rosto de Kyle aquecer.

— Exatamente! — O loiro respondeu e suas faces avermelharam. — Interpretar Ariel é o que me faz mais feliz! Ele me dá essa sensação de liberdade!

Kyle franziu o cenho, não tinha tirado um “A” em Literatura à toa, conhecia bem a obra de Shakespeare.

— Ariel é um escravo, tudo o que ele quer é a liberdade.

Butters acenou se afastando para o biombo, e Kyle lamentou quando ele surgiu de lá puxando a camiseta azul celeste de manga longa através da cabeça, a pele muito branca da barriga dele ficou visível por uma fração de segundo suficiente para Kyle engolir seco.

— Ariel é muito complexo. — Butters disse parecendo contente. Kyle observou-o sentar no chão, e acompanhou. — Acho que falta nele experiência de liberdade, uma vez que nunca foi livre na verdade. A ele faltou contato físico, apreço, atenção.

O loiro observou Kyle com grandes olhos cintilantes e apanhou as mãos dele nas suas, o ruivo tentou ignorar a maciez delas, tanto quanto o choque elétrico que sentiu.

 

Butters, por sua vez, sentiu que podia dizer qualquer coisa para Kyle, que o assistia atentamente.

 

— Como um espírito do ar é irônico que Ariel dependa de ordens para fazer as coisas, ele deixa assim mesmo sua ira escapar em alguns momentos e eu gosto de dar a ele essa doçura e ao mesmo tempo, a vivacidade.

O loiro explicou passando as mãos nos cabelos muito loiros.

— E a malícia. — Kyle completou sem pensar.

A declaração fez algo aquecer dentro de Butters, que se aproximou mais de Kyle, o nariz a centímetros do seu.

— Acha que dei malícia para Ariel?

 

 

Os olhos dele brilharam quando encarava Kyle de perto, o cheiro doce e amadeirado de Butters ficou tão presente ali no espaço escuro quanto fora quando o loiro o ajudou a se erguer no Jardim Secreto. Kyle o observou, as bochechas sardentas aquecendo gradativamente.

— Um pouco... sim. — Kyle respondeu não se afastando, não desviando o olhar.

Butters sentiu o próprio corpo estremecer e seu rosto corar, não tirando os olhos das faces avermelhadas de Kyle, causar isso em alguém estava muito além das capacidades de Stotch, e isso o fascinou tanto...

Kyle passou a língua nos lábios, por algum motivo os olhos de Butters o prendiam, e ele observou a boca rósea que parecia macia demais.

— Você já fez sexo? — A voz meiga de Butters era tão íntima quanto a posição que eles estavam.

— O... quê?

O porão ficou excepcionalmente quente e Kyle se viu ofegante, Butters diminuía a distância, já mínima entre eles.

— Só curiosidade. — Butters sorriu, Kyle podia ver o vermelho transbordando no rosto do loiro sob a luz noturna que os banhava.

Os olhos árticos caíram nos lábios de Kyle e o ruivo mordeu o lado interno das bochechas, em uma pífia tentativa de calar seu nervosismo.

— Bem... não...

Kyle desviou o olhar, mas Butters tocou o queixo dele mantendo seus olhos nivelados, o loiro sentiu uma vontade infinita de observar Kyle de perto e tentar decifrá-lo.

— Eu também não fiz...

O dedo quente de Butters subiu do queixo e tocou os lábios de Kyle.  

— Por quê? — Kyle se viu perguntando.

— Não tive uma real oportunidade... ainda. — Estava tão perto dele que Kyle quase podia sentir a maciez dos lábios quando a língua umedeceu a boca rosada.

— Que tipo de oportunidade você procura?

— Alguma insuportavelmente impossível de ser negada.

Kyle fechou os olhos quando Butters enrolou a outra mão por trás da nuca dele, seu coração batia tão alto que sentia que estouraria a caixa torácica, e seus peitos estavam tão próximos, sentados ali no chão frente a frente, que Butters estava confuso sobre qual dos corações estava mais acelerado.

 

 

Então, o som de batidas na porta arrancaram Kyle de seu torpor, ele abriu os olhos para ver os de Butters arregalados um segundo antes dos gritos começarem.

— BUTTERS?! — Mais batidas. — BUTTERS VOCÊ ESTÁ AÍ?? BUTTERS ABRA A PORTA!

Kyle se levantou desajeitadamente, sem saber o que fazer ele atirou um olhar desesperado para Butters.

— Você precisa ir!

— Mas, como?

— JÁ VOU PAPAI! — Butters gritou em resposta, depois voltou para Kyle. — Não sei! Pela janela?

— BUTTERS, VOCÊ ESTÁ FAZENDO ALGO ERRADO?

— SÓ TROCANDO O FIGURINO. — Butters lançou um olhar para Kyle. — Mas não teria sido nada errado, se acontecesse algo.

Ele sorriu, Kyle não suportou seu olhar e correu os olhos pelo porão até ver uma janela, que mais parecia uma passagem de luz. Ele pegou um banco e descobrindo uma abertura que poderia usar, içou o corpo e rolou pela grama fria da noite.

Quando conseguiu olhar para dentro da escuridão do porão, viu os olhos luzidios de Butters.

— Não foi como eu gostaria. — Butters falou passando a língua nos lábios. — Se pudesse teria te mostrado tudo.

Mais batidas ecoaram vindas da porta e Kyle não sabia se Butters falara do quase beijo ou da performance, mas era tarde para perguntar quando o loiro acenou, fechando a janela.

Kyle se viu sozinho, com o coração disparado, de pé e trêmulo em um gramado úmido. A sensação de ter perdido alguma coisa era tão grande dentro dele que não conseguia calar a decepção enquanto puxou o celular para pedir um Uber.

 

E esse sentimento aumentou quando percebeu que nunca pegara o telefone de Butters.

 

 


Notas Finais


Oieeee!!

*Trecho de “A Tempestade”, de William Shakespeare

Foi bem divertido pensar e repensar em como esses dois interagiriam em situações específicas, e sim, eu assisti episódios onde eles tem alguma interação, relevante ou não, e assisti mais vezes do que é normal contar... hehehe... fato é que esse é um casal que estou gostando ainda mais agora!!

Se leram até aqui, deixem um comentário, EXCETO SE VOCÊ É DO DAH, se for, VOLTE A ESCREVER, ESTAMOS NO LIMITE DO PRAZO!!!

Mil Bjs, e até breve!!


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