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História O Renascer - Capítulo 3


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Notas do Autor


ainda tem alguém aí? espero que sim! <3

Capítulo 3 - Ligação


— Eu sinto que alguma coisa dentro de mim se foi, meu irmão fazia parte de mim, entendem? – uma moça que aparentava ter no máximo 25 anos falava enquanto o restante prestava muita atenção, já minha cabeça martelava o motivo, além do real, de ainda estar aqui.

Ela continuou seu depoimento e resolvi reparar no restante do grupo. Não tinha uma média entre os homens e as mulheres, era metade de cada um. Jovens, adultos e idosos. Olhei, pelo canto dos olhos, com a intenção de não virar muito o rosto, a loira que depois de negar o café resolveu se sentar ao meu lado. Ela fungava, emocionada.

No centro da roda havia uma mesa com água e uma caixa com lenços, levantei o suficiente para alcançar o meio e puxei um lencinho.

— Emma? – chamei ela baixinho pra não atrapalhar a moça que ainda falava. Estiquei o lenço em sua direção, oferecendo.

Sorrindo, ela pegou o lencinho e silabou “Obrigada!”.

— O que acham da próxima pessoa a falar ser uma que ainda não deu um depoimento? — Gold, o diretor do grupo, perguntou olhando em nossa direção. Rapidamente abaixei minha cabeça tentando me esconder, fui salva desse momento quando a Senhorita Swan se pronunciou.

Deixei o ar sair, sem ter percebido que estava preso.

— Boa tarde, pessoal. Meu nome é Emma. – “Boa tarde, Emma!” responderam em uníssono. Dessa vez, virei um pouco o corpo para o seu lado, sem tentar disfarçar e tive uma visão melhor dela.  — Bom, quem eu perdi foi o meu namorado. Marido. Namorido? – brincou soltando uma risada pelo nariz. — Alguns meses atrás recebi a notícia. Estava no meu trabalho quando uma de nossas vizinhas me telefonou, contando o que tinha acontecido.

— Você gostaria de compartilhar com a gente? — Gold falou.

— É, pode ser. – seu peito subiu e desceu, em uma respiração profunda. — Estava perto do meu expediente acabar quando uma vizinha me ligou dizendo que ele tinha se machucado. Saí às pressas. Quando cheguei em casa, a ambulância já tinha chegado e estava prestando os primeiros socorros. – fez uma pausa antes de continuar a contar. — Elora, a vizinha, tinha ido nos pedir alguma coisa emprestada, que agora não lembro o que era, e ela não foi atendida. Bealfire, meu ex marido, geralmente chegava primeiro que eu. Daí, Elora estranhou e resolveu dar a volta pela casa e olhar pelas janelas, quando chegou na cozinha, ela o viu caído no chão com o pano de mesa e as coisas caídas também. – assim que terminou de contar, Emma levou o lenço no nariz, assoando a meleca causada pelo choro e eu fiz uma careta internamente. — Segundo a perícia, ele passou mal perto da mesa e provavelmente tentou se apoiar, quando seu corpo caiu aconteceu de puxar a toalha e tudo que estava em cima. 

— Sinto muito pelo que aconteceu. – "Sentimos muito!", o grupo respondeu. Eles sempre faziam isso? Que coisa patética! — Obrigada, Emma, por compartilhar conosco. – prosseguiu. — Semana passada, entramos em um assunto que para muitos, é algo muito duro. Perdão. Perdoar pode levar uma vida inteira, não é? Mas não importam as circunstâncias, todos merecem perdão.

— Você acha mesmo? – perguntaram.

— É o que Jesus dizia. 

— Amém! 

Revirei meus olhos ao ouvir tal resposta e respirei fundo, tentando não deixar o estresse subir a cabeça.

— Licença? – levantei a mão, pedindo vez para falar. — Como eu poderia perdoar alguém, que por exemplo, sequestrou e matou a minha filha? – todos me encararam, depois encararam o diretor e voltaram a me encarar, esperando que eu continuasse. — É só isso. 

— Essa é a sua história, Senhorita Mills? 

— Não, foi só uma queixa.

— Às vezes não sabemos lidar com algumas situações, tudo bem se sentir raiva, estar na defensiva…

— Não estou na defensiva, okay? – o cortei. — Só… estou cansada.

— Eu também! – Emma cochichou para mim, oferecendo um sorriso reconfortante e voltou a se recostar na cadeira.

— Quer falar mais? – balancei a cabeça em sinal de negação, meio desesperada, para a minha pouca sorte, todos  ainda me encaravam em silêncio.

— Ah, eu… Eu não tenho dormido. Nunca dormi muito bem, mas… desde que Daniel morreu, não durmo. Não vou me dopar para isso, não gosto. Não quero virar uma zumbi. – ri assim que falei a última frase, olhei para o outro lado e uma senhora me encarava com o ar de "Sério?". Engoli meio sem graça. — É isso. Essas questões tem me deixado nervosa.

Depois de mais alguns depoimentos, a terapia em grupo chegou ao fim.

— Bom pessoal, acho que por hoje é só. Emma, ficamos feliz em poder saber mais um pouco da sua história! – ela assentiu, sorrindo. — Regina, espero que você fique bem e saiba que aqui é no seu tempo, quando se sentir a vontade, é só iniciar, tá bom?

Levantei as mãos e lhe mandei um joinha, em sinal de confirmação. Senti meu rosto queimar. Idiota.

Por mais que eu saiba que ele está tentando me ajudar, quero ir embora. Isso aqui não é pra mim, se for preciso prefiro começar uma terapia individual.

— Vamos finalizar? Todos de pé, por favor.

Assim fizemos, eles esticaram a mão para unir todo mundo e eu fiz a minha parte. Esperei por mais alguma instrução, mas não veio. Todos estavam de olhos fechados. 

— Até o próximo encontro! Não esqueçam, respirar é sempre uma boa maneira de se acalmar. – Gold finalizou.

Soltamos as mãos e algumas pessoas se fecharam em rodas para continuar as conversas que, provavelmente, foram interrompidas na hora que o grupo teve que se formar.

Me virei para a cadeira em que estava e peguei minha bolsa. Caminhei em direção a saída, assim que ia passando pelas pessoas, acenava com a cabeça. Avistei meu carro e puxei minha bolsa pra frente, procurando logo minhas chaves.

— Senhorita Mills! – me virei e Emma vinha andando às pressas na minha direção. — Desculpa, pode ser inconveniência minha, mas… – coçou as sobrancelhas fazendo uma pausa e eu ergui as minhas. Puxou um cartãozinho do bolso de trás de sua calça, me entregou. — Tem meu número aí, qualquer coisa, sei lá, qualquer coisa mesmo, pode me ligar. Eu também durmo mal a noite, podemos não dormir juntas.

— Olha, Senhorita Swan, não sou muito chegada a mulheres não. – rindo, peguei o cartão e coloquei no bolso do meu sobretudo. Suas bochechas ganharam um tom avermelhado e eu ri ainda mais. — Estamos em um grupo de apoio e não de paquera. – vi que ela ficou sem graça. — Estou brincando!

— E-eu… eu sei, só achei que seria legal a gente se conhecer, você parece ser uma boa pessoa e nada impede da gente virar amigas.  – disse nervosa, meio atrapalhada. — Ok. Se quiser me ligar, já sabe.

A loira deu meia volta e eu destravei o carro, entrando e dando partida para o trabalho.

x

— Bom dia, Belle! – falei passando por minha secretária, indo em direção a minha sala.

— Bom dia, Senhorita Mills! – escutei os passos apressados atrás de mim. — Hoje a sua agenda está bem cheia, tá lembrada? 

Joguei minhas coisas em cima de mesa e a contornei, me sentando.

— Não sei se lembro de todos, mas estou ciente que tenho muita coisa pra fazer. Passa pra cá! – estiquei a mão e Belle me entregou o tablet, olhei de relance e tudo estava organizado. — Pode ir, Belle. Qualquer coisa te chamo. – Ela assentiu e se retirou.

Coloquei meu celular em cima da mesa e comecei a organizar por ficha cada visita que eu precisava fazer, no final do dia tinha reunião. 

Depois de organizar tudo peguei o que precisava, fui para a sala de Graham mas antes de bater em sua porta ele saiu.

— Preparada para mais um dia? – ele perguntou e me abraçou.

— Nem me fala… 

— Chegou atrasada hoje, eu vi! – seu olhar era sugestivo e eu o ignorei. — Me conta, estava acordando na cama de quem? 

— Por favor, eu tenho mais o que fazer. – falei irritada.

— Hum… e?

— Fui no grupo. – passei meu braço no dele e sorri. — Obrigada! Não foi muita coisa, mas…

— Mas? Me conta, poxa. Como foi?

— Eram só pessoas desabafando e o diretor do grupo mandando boas mensagens. Conheci uma mulher que parece ser legal e foi isso.

Ele ficou me encarando, prosseguiu.

— E essa mulher?

— O que têm? Ela é do grupo, também perdeu o marido. Antes de ir embora ela me entregou o seu número. – soltei uma risada pelo nariz.

— E vem uma amizade nova por aí! – comemorou, mais animado que eu.

— Talvez...

A primeira casa que levamos os supostos compradores para visitar, foi um sucesso. Resolveram fechar o contrato e depois ele só precisariam me encontrar para terminar de assinar as papeladas. 

Já o segundo imóvel que visitamos, o casal dispensou e pediu para agendar outra visita em outra casa. 

Depois que os dois foram embora, olhei o relógio e já beirava às 17h. 

— Graham, precisamos ir. 

— Nós perdemos a reunião, puta que pariu! – ficou nervoso

— Não é nossa culpa, estávamos trabalhando.

Voltamos para a empresa e realmente tínhamos perdido a reunião, Belle já não estava mais. Não havia mais nada para fazer.

Ofereci carona para o meu amigo e ele logo aceitou, precisava passar no supermercado e era caminho da casa dele. 

Depois das compras, achei um restaurante noturno e comprei três pratos feitos. Para Henry, Alice e eu.

Muitas pessoas acham que na idade do meu filho, 15 anos, eles são incapazes de qualquer coisa, inclusive de cuidar da irmã de 4 anos. Não que eu os deixe sozinhos, mas por um curto período de tempo como irem da escola para casa e me esperar chegar, não vejo problema. 

Entrei em casa e deixei meus sapatos ao lado da porta, no hall de entrada. As luzes estavam apagadas e o som da tv era o único barulho presente. 

Passei antes na cozinha para deixar as compras lá e fui para a sala.

Os dois estavam deitados, um em cada sofá, concentrados na série que passava.

— Será que eu não mereço nem um oi? – falei fingindo braveza. Os dois me encararam mas nem se mexeram. — O que foi?

— Mami, a gente tá com preguicinha. – Alice respondeu, me fazendo rir. Fui até ela depositando um beijo em sua bochecha. 

— Você tá com preguiça também? – belisquei, de brincadeira, a barriga do meu filho e ele se contorceu. 

— Quer ajuda na cozinha? – perguntou já se levantando.

— Quero, vou só subir, tomar um banho e desço. – beijei sua bochecha. — Obrigada!

x

Estávamos sentados na mesa, encarando os pratos.

— Era pra ser uma lasanha de frango… – comentei.

Tudo estava péssimo. Dinheiro gasto atoa.

— Por que tem passas nisso? – Henry perguntou.

— Sinceramente, não sei. 

— Eu gostei! – Alice falou, era a única que ainda comia. 

— Saudades da comida do papai.

— Ah, não. Eu acho que o papi não fazia comida boa não. – minha filha torceu o nariz. — A mami, sim. A lasanha da mami dá de 10 à menos 0 nessa aqui. 

— Para de puxar saco da mamãe! – nós rimos — É tão injusto, por que tinha que ser com a gente? Por que não morreu o pai do Tyler, ou dos babacas da escola? 

— Henry, por favor, de novo não… – pedi, esse assunto já estava me esgotando. Levei a taça de vinho a boca e terminei com o que tinha em um só gole.

— Eu gosto do Tyler.

— Cala a boca, Alice.

— Parem! – falei mais rude do que eu planejei. — A gente pode, por favor, jantar pelo menos uma vez em paz, sem implicâncias e sem ficar lembrando da morte do seu pai? 

Todos concordam e terminamos de comer. Henry foi o primeiro a se retirar da mesa, levando os pratos e os lavando. Tirei as toalhas e subi com Alice. As horas passam tão rápido. 21h.

Fiquei sentada em sua cama enquanto ela escovava os dentes. 

— Vem, vou te ajeitar. – bati na cama em sinal pra ela se deitar.

— Mami, tem que ficar aqui até eu dormir. – ia se ajeitando embaixo dos cobertores.

— Eu sei, bebê. – me alinhei ao seu lado e fiz carinho em seus cabelos, esperando que o sono a derrubasse. 

— Posso ir para o seu trabalho com você amanhã? – pediu baixinho.

— A gente precisa voltar ao normal, não acha? – acariciei seu rosto.

— Eu sei, mami. Mas tenho medo de você não voltar mais pra casa. – Alice envolveu meus braços, me abraçando e senti meu coração apertar.

— Olha, o que aconteceu com seu pai foi um acidente. Eu tô aqui, nunca vou deixar você e nem seu irmão. Tá bom? 

Ela assentiu e se ajeitou.

Não foi preciso muito tempo para escutar sua respiração pesada. Me levantei devagarinho e desliguei a luz mais forte do abajur, deixando meia luz para que tudo não ficasse escuro demais. 

Passei pelo quarto do Henry e ele já estava deitado, mexendo em seu celular. Joguei um beijo e puxei a porta. 

Fiz minha higiene na suíte e tirei a calça moletom antes de deitar. Eu amava usar uma lingerie, ou uma camisola. Mas esses tempos tudo que vem me deixado confortável é uma blusa e uma calça moletom.

Me ajeitei na cama e logo fechei os olhos, esperando que o sono viesse.

Mas não veio. Me virei pro outro lado e busquei por uma posição confortável. Nada.

Bufei nervosa. Olhei para a mesinha ao lado da cama e o relógio digital marcava 12:17.

Emma.

Será que ela ainda estaria acordada? Será que ela acharia loucura minha ligar a essa hora? A gente nem se conhece. 

Apesar que foi ela quem me incentivou...

Okay. Acendi o abajur e entrei no banheiro procurando meu sobretudo, encontrei o cartão no bolso e sorri satisfeita.

Sentei-me na cama de novo, encarando o número gravado no cartão que estava em uma mão, e na outra, o celular.

Tomei coragem e disquei o número. Chamou e senti meu coração acelerar. 

Chamou uma. Chamou duas. Três, quatro, cinco.

"Sua chamada está sendo encaminhada para caixa postal. Deixe…" 

Porra, onde eu estava com a cabeça? Deixei o celular de lado na cama e antes que apagasse a luz, ele vibrou. Olhei para a tela e o número desconhecido me ligava, provavelmente o que eu tinha acabado de ligar. Atendi e levei o aparelho à orelha.

Alô? – uma voz se pronunciou depois de um breve silêncio. 

— Emma? – "Isso." — É a Regina… – silêncio novamente. — Do grupo de apoio.

Ah, oi, Regina! Eu nunca esqueceria. – respondeu mais atenciosa e eu sorri.

— Me desculpa, eu nem sei por que estou ligando. – mordi meu lábio, comecei a me sentir uma completa idiota.

O quê? Para com isso, eu disse que podia

— Você acha que tá muito tarde? Podemos fazer isso outro dia… – perguntei.

Realmente estava me achando uma idiota.

Não! Juro, relaxa. – escutei uma risadinha. — Tá deitada?

 — Estou! Não durmo de jeito nenhum… – funguei e Emma pareceu pensar. 

— O que você vestindo?

— Oi? 

O que você tá vestindo? – repetiu.

— Hã… – olhei para o meu corpo. — Uma blusa de manga sobre corrida que era do meu marido e uma calça moletom. – menti, não queria dizer que estava só de calcinha. 

— Seu marido gostava mesmo de correr ou ele só ia de vez em quando pra compensar o tempo perdido? – me ajeitei melhor na cama antes de responder. — Desculpa, a gente pode não falar dele se preferir. 

— Ah, tudo bem. Ele gostava de correr. Começou tarde, já estava com a pochete formando na barriga. – ouvi a risada dela do outro lado da linha.

— Oh, merda! Acho que preciso começar a correr também! Daqui a pouco estou com aquela barriguinha de meia idade. – brincou.

— Duvido, você me parecia tão em forma! – “É?” - me arrependi no mesmo instante. — Quer dizer, você parece normal.

Ah, obrigada? Eu faço luta, na verdade. – me contou.

— Por que decidiu pela luta? – fiquei surpresa. — É tão violento.

— Ah, é violento quando tem campeonato. Mas lá é uma academia, tem luta, os campeonatos, têm as pessoas que só querem ficar bombadas.

— E em qual desses você se encaixa?  – perguntei curiosa.

—Hum… por que você não vai um dia lá me visitar? 

— Sério? Não sei se é uma boa ideia, Emma… – pigarreei.

— Por que não seria? Vamos! – pediu.

— A gente mal se conhece… vou chegar em um espaço que é “seu”, assim, sem mais nem menos? 

— Eu já acho uma ótima oportunidade pra gente se conhecer melhor! – era como se eu conseguisse ver que ela estava sorrindo lá do outro lado.

— Ok! Me convenceu! – como resposta, recebi um gritinho de comemoração, o que me fez rir. — Depois a gente marca um dia.

Swan me respondeu com “uhum” feito com a garganta e o silêncio se fez presente. Não era um silêncio desconfortável, só… estávamos ali.

— Bom, acho que vou desligar… se você não se importar.

— Tudo bem, ia dizer o mesmo agora. – silêncio novamente. — Boa noite, Senhorita Swan.

— Boa noite, Senhorita Mills.







 


Notas Finais


até breve!


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