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História O roubador de livros (História 2) - Capítulo 3


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Capítulo 3 - O eclipse


Depois de uma assinatura preta, para mostras os pólos da minha versatilidade, se assim lhe agrada. Foi o momento mais escuro antes do alvorecer.

Desta vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e quatro anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avião ainda tossia. A fumaça vazava de seus dois pulmões.

Quando ele caiu, fez três sulcos profundos na terra. Agora suas asas eram braços serrados. Nada de bater, nunca mais. Não para aquela avezinha metálica. 

"OUTROS PEQUENOS FATOS

 Às vezes eu chego cedo demais.

Apresso-me, 

e algumas pessoas se agarram 

por mais tempo à vida do que seria esperável."


Após uma pequena coleção de minutos, a fumaça se esgotou. Não restava mais nada para acontecer.

Primeiro chegou uma menina, com a respiração desordenada e o que parecia uma caixinha de ferramentas. Com grande inquietação, aproximou-se da janela quebrada e observou o piloto, avaliando se estava vivo, o que aliás ainda estava, àquela altura. O roubador de livros chegou talvez trinta segundos depois. 

Anos haviam se passado, mas eu o reconheci.

Estava arfante. 

Da caixa de ferramentas, a menina tirou, quem havia de lhe imaginar, um ursinho de pelúcia.

Estendeu a mão pelo pára-brisa partido e o colocou no peito do piloto. O ursinho sorridente sentou-se, aninhado entre os destroços amontoados do homem e o sangue. Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo. 

Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente.

Só restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaça e o ursinho de pelúcia sorridente.


Quando chegou toda a multidão, é claro que as coisas haviam mudado. O horizonte começava a se acinzentar. O que estava de negrume no alto já não passava um rabisco, e desaparecia depressa. 

O homem, em comparação, estava cor de osso. Pele cor de esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha os olhos frios e castanhos - feito manchas de café -, e a última garatuja lá do alto formou o que me pareceu uma forma curiosa, mas conhecida. Uma assinatura.


A multidão fez o que faz as multidões.

Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mãos, frases abafadas e guinadas mudas, constrangidas.

Quando me virei e olhei para o avião, a boca aberta do piloto parecia sorrir. 

Uma última piada obscena.

Mais um final de piada humano.

Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz mais cinzenta fazia uma quebra-de-braço no céu. Como acontecia com muitos outros, quando comecei a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra ligeira, um instante final do eclipse - o reconhecimento da partida de outra alma.

Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que afetam e se atracam com o que vejo nesse mundo, comigo é frequente captar um eclipse quando morre um ser humano.

Já vi milhões deles. 

Vi mais eclipses do que gosto de me lembrar. 



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