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História O Sacerdote Maldito - Capítulo 6


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Notas do Autor


Mais um capítulo saindo quentinho do forno! E como as coisas estão esquentando por aqui!

Espero que gostem da leitura. :)

Capítulo 6 - No fundo do eu


Lortan estava deitado em um poço fundo e escuro. Ao seu redor não havia nada além do vazio, mas lá no alto ele podia ver uma saída de luz. Tinha o corpo magro e pequeno, no auge dos seus treze anos. Mas, seus músculos doíam tanto que ele não ousava se mover. Ficava apenas ali deitado olhando para a luz. E conversando com ele.

-- Qual o seu nome? – Lortan indagou, pela centésima vez.

-- Você me irrita. – a voz cavernosa retrucou e o pequeno noviço sentiu um ar quente comprimir o seu corpo.

Lortan se virou de lado olhando para a escuridão.

-- Até quando vou ficar aqui? Estou tão cansado...

-- Até quando eu quiser. Até eu me cansar. – foi a única resposta do além.

Lortan deu um sorriso triste. Pensava agora em seus amigos, como gostava deles! Sentia que eles eram o melhor grupo iniciante, que poderiam fazer qualquer coisa juntos. Até enfrentar os perigos de Glast Heim. Glast Heim. Essa palavra lhe trouxe duras lembranças. Havia gárgulas e almas penadas... E foi tão difícil, muito mais do que eles imaginavam. E então... e então... Ah, como era difícil de lembrar!

-- Onde estou?

A voz riu maliciosamente. Parecia estar tão feliz e satisfeita, se divertindo com tudo aquilo. Alimentando-se do desespero de Lortan.

-- Você não foi a lugar algum, mero noviço. Continua onde sempre esteve. Em você mesmo. Só que mais fundo.

-- Em mim, só que mais fundo. – Lortan repetiu em voz baixa, tentando entender. Desistiu então suspirando e olhou mais uma vez para a luz. – Está tão longe...

Esticou com dificuldade seu braço para o alto e fechou sua mão para tentar, de alguma maneira, agarrar a pequena luz no alto.

 

Lentamente Lortan abriu seus olhos para a claridade ao seu redor. Viu primeiro o céu azul e o alto das copas das árvores. Tentou se levantar e sentiu o peso do seu corpo com todos os seus músculos rígidos e doloridos.

-- Lortan!

Alice veio ao seu encontro e o ajudou a se sentar. Estavam em uma clareira, a fogueira próximo a eles já apagada com resquícios de cinzas e madeira queimada, e se aproximando deles Helm e Luka.

-- O que aconteceu? – o sacerdote perguntou colocando a mão na cabeça.

-- O que você se lembra? – Helm perguntou, se agachando a sua frente.

Lortan sentia sua cabeça latejar enquanto tentava se lembrar do passado, com extremo esforço.

-- Estávamos andando, próximo ao rio. E então... uma valquíria. Apareceu uma valquíria.

-- Só isso? – Alice questionou, preocupada.

-- Sim... – ele disse, receoso. Olhou para as expressões dos aventureiros. – Eu... Eu fui possuído.

Não era uma pergunta. Eles ficaram um instante em silêncio. Então, Luka disse:

-- Você derrotou a valquíria usando uma maça. Com apenas um golpe.

De alguma maneira aquilo não pareceu impressionar o sacerdote. Ele suspirou tocando seus braços doloridos e tentando mover um pouco suas pernas.

-- Eu... feri algum de vocês?

-- Não. – Alice falou. – Quer dizer, quando eu tentei me aproximar, você quase me... feriu. Então, disse para a gente se afastar.

Lortan concordou com a cabeça pensativo.

-- O que está acontecendo, Lortan? – Helm disse, impaciente.

Eles ouviram um som entre as árvores e viram Matt e seu lobo adentrarem a clareira, o caçador carregando alguns coelhos abatidos.

-- A princesa finalmente acordou! – ele exclamou se aproximando. Jogou os coelhos próximos a fogueira e colocando as mãos no quadril continuou. – Você é mais perigoso do que a gente imaginava, Lortan. A questão é se é seguro andar com você. Destruiu a cabeça da valquíria com um golpe e quase fez a mesma coisa com sua querida irmã.

Lortan olhou para Alice surpreso. Então abaixou a cabeça.

-- Me desculpem. Coloquei todos em perigo por egoísmo meu. – ele refletiu por um instante escolhendo bem as palavras. – No monastério, além de aprender a diminuir a frequência das possessões, os monges também me ensinaram outra técnica. Um treinamento especial que ainda está em fase de testes. Consiste em ter um controle e uma presença maior durante a possessão. Apesar de eu ter treinado por anos, nem sempre consigo e o controle não é completo variando muito de acordo com a situação. – ele analisou seus amigos por um instante. – O problema é que, quanto mais próximo de Glast Heim nós estivermos, maior será a probabilidade de eu ser possuído, por ser o local de origem do demônio e despertar inúmeras lembranças e traumas.

-- Você acha que tem alguma chance de usar essa técnica, ou o que quer que seja isso, contra o bispo? – Matt perguntou.

-- Eu gostaria que sim. Mas, nada é certeza. Durante a luta o demônio pode acabar tendo um poder maior sobre mim e eu não conseguir agir. Só saberemos na hora.

-- Se o demônio dominar a possessão, você será mais um inimigo. – Luka disse com um tom sério e um olhar penetrante.

Lortan hesitou por um instante.

-- Sim. Eu posso acabar atacando vocês.

-- Qual a chance de isso acontecer? – Matt questionou, parecendo um pouco irritado.

-- A chance de eu atacar vocês é maior.

O caçador caminhou a passos firmes em direção ao sacerdote e segurando com força suas vestes o levantou do chão.

-- Qual o seu problema, Lortan?! Como pode nos dizer isso só agora? – ele exclamou furioso enquanto encarava seus olhos.

-- Há um jeito de vocês me impedirem. – Lortan respondeu rapidamente, remexendo seus bolsos. Então, mostrou um frasco de água benta para Matt. – Se eu fugir do controle é só vocês jogarem água benta em mim, ou me atacarem com uma arma abençoada. Isso vai imobilizar o demônio.

O caçador olhou para o frasco, não parecendo se convencer. Então, soltou o sacerdote e se afastou.

-- Então, dê várias dessas águas bentas para cada um de nós e reze bastante, padre.  

 

Misa se levantou atordoada e olhou ao redor. Estava caída sobre uma relva macia e esverdeada, em um bosque com árvores altas e esbeltas, e no alto estava um céu azul claro, porém com rachaduras e fendas por onde passavam imensos feixes de luz. O ar ali era frio e úmido, mas sem uma brisa de vento sequer, e não havia o som de pássaros ou do balançar das copas das árvores como em uma floresta normal.

Ela ouviu um som em suas costas, mas antes que pudesse se virar, sentiu uma mão agarrar sua sobrepeliz e a erguer no ar. Ela virou a cabeça e viu um rapaz alto e magro de cabelos castanhos espetados que, pela armadura e a espada no cinto, aparentava ser um cavaleiro.

-- Ei, que raios você está fazendo aqui? – ele perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas.

-- Me solta! – Misa exclamou sacando sua espada.

Mas, antes que ela pudesse tentar cortá-lo com sua lâmina, o cavaleiro a jogou de bruços no chão e torcendo seu pequeno bracinho, a fez soltar sua arma. Ainda segurando-a contra o chão, ele tomou sua espada rindo.

-- Você é muito criança pra brincar com espadas. Vai se cortar.

-- S-solte ela!

O cavaleiro e Misa olharam para o lado e viram Samuel a alguns metros de distância armado com seu machado. Apesar de estar preparado para inferir um golpe, segurando o cabo da arma com ambas as mãos, tinha uma expressão de medo e hesitação.

-- Eee? Outra criança? – o cavaleiro parecia confuso.

-- O que está acontecendo aqui, Hiel?

Caminhando lentamente na direção deles, vinha uma mulher negra de cabelos vermelhos cacheados e olhos grandes e pretos. Ela usava um vestido marrom coberto por uma sobrepeliz vermelha com dentes sobre seus ombros e um pesado machado pendurado na cintura. Misa não fazia ideia de qual classe ela seria.

-- Eu sei lá. – o cavaleiro disse rindo. – Encontrei estas duas crianças. Acho que passaram no portal depois de nós.

A mulher lançou um olhar frio para Misa e Samuel. Este já tinha deixado cair no chão a lâmina de seu machado, aparentemente desistindo de qualquer combate.

-- Vamos levá-las até os outros. – a mulher falou agarrando as vestes de Samuel e o arrastando.

Após alguns metros de distância eles chegaram onde os outros se encontravam. Tratava-se do grupo que Misa viu se preparando para passar pelo portal, incluindo o ferreiro que havia entrado dentro da fonte. Os outros dois eram uma sacerdotisa e um bardo. Quando eles se aproximaram todos ergueram os olhos. Misa e Samuel foram jogados a seus pés como se fossem uma caça abatida.

-- Olhem o que encontramos. – Hiel exclamou, visivelmente se divertindo.

-- Passaram pelo portal também? – a sacerdotisa indagou, olhando as crianças chocada.

-- Nós... nós só viemos dar uma olhada. – Misa disse, um tanto nervosa, corando levemente. – Foi legal conhecer vocês mas... já vamos voltar para Geffen.

-- Ah, coitadinhos. – o bardo disse sorrindo e tocando uma nota grave com seu alaúde.

-- Para sair daqui vocês precisam encontrar o portal. – Hiel explicou, erguendo o dedo indicador de maneira didática.

-- Deve estar por aqui, não? – Misa perguntou olhando ao redor. Não havia sinal de portal algum.

-- Creio que não. Geffenia é grande e fomos teletransportados para um local aleatório. – o cavaleiro olhou para seus companheiros. – Não é fácil encontrar o portal, né? Demoramos mais de uma semana da última vez.

Misa sentiu seu rosto empalidecer enquanto Samuel começou a choramingar ao seu lado.

-- Meus pais vão me matar...

-- Vamos seguir. – o ferreiro disse, dando as costas e analisando as árvores a sua frente.

-- E as crianças? Vão morrer se deixá-las aqui. – a sacerdotisa falou, olhando com pena para elas.

-- Acho que morrerão de qualquer jeito. – Hiel disse sorrindo, como se aquilo fosse uma piada.

O ferreiro olhou por cima do ombro e disse friamente:

-- Se quiser, proteja-os você mesma, Ane. Mas, eles só serão um peso morto para nosso grupo.

Sem dizer mais nada, o ferreiro adentrou a floresta e os demais o seguiram logo em seguida. Misa se levantou apressada e puxando o braço de Samuel disse:

-- Rápido, Samuel. Precisamos segui-los.

-- Você matou nós dois. – ele choramingou com o rosto já molhado pelas lágrimas.

-- Não! Não vou deixar você morrer. – ela disse firmemente.

Samuel levantou-se ainda chorando, e mesmo sem se convencer seguiu ao lado da amiga o grupo de aventureiros. 


Notas Finais


É isso ai, pessoal! A possessão de Lortan está ficando um pouco mais clara, algumas verdades estão sendo aos poucos reveladas e a aventura que Misa tanto sonhou está enfim começando.

Muito obrigada pela leitura!


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