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História O Sacrifício de Ywa - Capítulo 1


Escrita por: EddieVann

Capítulo 1 - Uruk


Fanfic / Fanfiction O Sacrifício de Ywa - Capítulo 1 - Uruk

O povo Uruk

A tribo Uruk sempre foi forte e determinada. Porém, houve um tempo em que a caça começou a sumir, e o povo começou a passar fome. Muitos morreram por não ter o que comer, e até o Caçador Líder ficou doente, e certa noite, seu espírito foi levado para floresta. Quando tudo parecia perdido, a Grande Mãe, guiada pelos espíritos da natureza, descobriu que se alimentasse a terra com sementes, depois de um tempo, a terra daria muita comida de volta. E dessa forma, a tribo Uruk nunca mais passou fome. Passamos a chamar isso de agricultura. Por conta disso, a Grande Mãe se tornou a chefe da tribo Uruk, por seu conhecimento e poder de ouvir os espíritos da natureza, e o Caçador Líder, aquele que organizava a caçada, pois a terra não devolvia carne plantada, logo a tribo ainda precisa caçar para comer carne.

Alguns outonos depois, os caçadores da tribo encontraram um lugar perfeito para todos morar: um vale verdejante, protegido por montanhas de oeste, norte e leste. Do norte, corria um caudaloso rio, que descia das montanhas em forma de uma grande cachoeira, mas logo se transformava em um imenso lago, calmo e profundo. A beira do lago, a tribo Uruk construiu sua aldeia, no lado ocidental. Logo depois da aldeia, o lago voltava a ser rio e seguia para o sul, única direção aberta e sem montanhas. Isso tornava aquele local muito especial, um paraíso na terra, pois protegia a tribo e ao mesmo tempo era um vale fértil para as plantações e tinha muita caça em suas florestas. Aquele lugar era realmente um paraíso.

A aldeia agrícola Uruk floresceu em paz por vários invernos sob a liderança da Grande Mãe. Porém a ganância cresceu no coração de um dos filhos do Caçador Líder, que após a morte de seu pai, tentou tomar o posto de chefe da tribo, matando a Grande Mãe. Ele só não contava com um detalhe, que a Grande Mãe passava seu conhecimento à todas as mulheres da tribo, e o espírito da floresta não era restrito somente a uma pessoa. Seu golpe foi frustrado, pois ninguém o apoiou, com exceção de alguns seguidores. Diante disso, a tribo resolveu castigar o primeiro assassino com o banimento eterno, e lhe deram o nome de Korg, o maldito. Korg e seus seguidores, foram para o sul e nunca mais ouviu-se falar dos mesmos. Mas antes de sair da aldeia, o Maldito fez uma profecia, que seu espírito retornaria para tomar o que era seu por direito, e que jogaria no fogo todos aqueles que opusessem novamente ao seu poder.

O tempo passou e agora só alguns que viram o assassinato da Grande Mãe ainda estavam vivos. A história virara uma lenda e a profecia esquecida. A vida seguia simples mas muito segura na aldeia agrícola dos Uruk, que agora contava com um pouco mais que uma centena de pessoas. No entanto, haviam chegado nos últimos tempos, pessoas perdidas, que diziam fugir da Montanha de Casas, onde eram obrigados a trabalhar abaixo de chicotadas. Os donos desse lugar, adoravam deuses, mas um dos deuses morava com eles, na parte mais alta da Montanha de Casas. Chamavam de Anunnak, e ninguém podia olhar diretamente para ele quando O mesmo aparecia nos rituais de sacrifícios no Monte Sagrado. Alguns diziam que sacrificavam animais aos deuses, mas muitas vezes eram feitos sacrifícios humanos. Tudo pertencia ao Anunnak, as casas, as terras, as plantações e os trabalhadores. Diziam que se não O adorassem, terríveis pragas se abateriam sobre todos. Os Uruk sempre acolheram essas pessoas perdidas, e todas elas viraram irmãos dos Uruk, mesmo sendo muito diferentes as vezes, seja uns com pele mais escura ou seja com olhos diferentes e menores, todos se tornavam Uruk. Já as histórias contadas pelos fugitivos pareciam muito distantes para preocupá-los.

O inferno chega ao paraíso

As brumas espessas ainda cobriam o vale dos Uruk. Pássaros anunciavam o amanhecer e a claridade do sol já podia ser sentida. Skar, o Caçador Líder, e Yëwa, a Grande Mãe, ainda dormiam numa rede posicionada no centro da cabana, com visão clara da rede de sua única filha, com pouca idade ainda. A fogueira interna ainda fumegava, pois a noite no vale era frio. Lá fora, os cães estavam nervosos. Latiam incessantemente. Geralmente eles latiam para animais predadores, que circundavam a aldeia, mas como a mesma era protegida por uma paliçada de madeira de troncos robustas, ninguém se importava, pois todos estavam seguros lá dentro. Apenas a parte leste da aldeia, que margeava o lago, não tinha paliçada, pois o lago era profundo e impedia a entrada de predadores. Mas os cães não paravam de latir. Uma jovem da aldeia, estava indo em direção ao lago pegar água para as tarefas matinas. Ela já estava na altura do pequeno píer de madeira, quando algo a assustou de tal forma que seu balde caiu de suas mãos. 

Dentro da cabana, Yëwa, meio sonolenta fala para Skar:

Yëwa - Por favor, mata esses cachorros...é muito cedo, preciso descansar mais...

Skar acaricia os longos cabelos ruivos de sua esposa com carinho e dá um sorriso. A cor avermelhada em contraste com a pele clara dela, era uma das coisas que Skar mais gostava de admirar em sua esposa. Diferente dela, ele tinha sua pele caucasiana queimada pelo sol. Tinha cabelos castanhos e ondulados até abaixo da nuca e uma barba média e espeça. Ele tenta sair de mansinho da rede, quando ouve um grito. 

No píer, a jovem grita a plenos pulmões. Do meio do lago,  algo monstruoso rasga o véu de brumas. Era como uma enorme serpente deslizando sobre a água, levando sobre suas costas homens demônios. A mulher logo silenciou, pois uma flecha zuniu nos ares e instantaneamente ela foi arremessada ao chão. Os cães ficaram enfurecidos e latiam sem parar, denunciando a invasão eminente. 

O Caçador Líder pulou da rede em direção as suas armas. Yëwa também acordou com o susto, mas ainda estava desorientada. Skar se aproximou dela e falou rápido e com semblante preocupado:

Skar - Yëwa, tem algo estranho acontecendo na aldeia. Eu vou verificar, mas por nenhum motivo saia da cabana. Aqui é o local mais seguro de toda a aldeia! 

Yëwa - Tome cuidado! disse ela pegando em seu braço.

Skar saiu pela única porta da cabana circular, feita de costaneiras de madeira e telhado de palha. A cabana ficava bem no centro da aldeia, que possuía mais de uma dezena de cabanas semelhantes a dele. Logo que saiu para o exterior, encontrou Bukaba, o mais forte dos caçadores. Bukaba era diferente do povo Uruk, pois havia fugido do cativeiro da Montanha de Casas. Tinha pele escura e cabelos pretos como a noite. Ele carregava consigo uma clava com uma pedra enorme amarrada na ponta, como um grande martelo. Por ser muito forte, era chamado de Touro Furioso. Skar gesticulou em silêncio para segui-lo, enquanto se dirigia para o píer. Logo a frente, Wotar se juntou ao grupo. Nascido Uruk, Wotar tinha cabelos longos e lisos, da cor de trigais maduros.  Sua precisão com o arco lhe rendeu a alcunha de Olho de Falcão. Outros se juntavam ao grupo a medida que corriam até o lago. Quando quase alcançavam o final da aldeia, Xin Zê abordou o grupo. Xin Zê, assim com Bukaba, fora acolhido pelos Uruk. Ele tinha pele amarelada, olhos pequenos e puxados, com um cabelo preto e liso, o qual ele amarrava em forma de coque. Por ser sorrateiro, era o batedor dos caçadores, também chamado de Tigre Silencioso. Ele usava um nunchaku, uma espécie de tchaco, que em sua terra natal era utilizado para debulhar arroz, mas era uma arma letal nas mãos habilidosas de Xin Zê. Ele já fora investigar o que tinha acontecido, olhou para Skar e com a mão direita fez menção de que eram muitos. A partir daquele momento os caçadores Uruk entenderam que não se tratava apenas de investigar o que estava acontecendo, mas eles estavam em uma caçada, onde a sobrevivência dependia da organização e furtividade do grupo. Skar silenciosamente orienta o grupo para formar linha de ataque, dando comando para Wotar subir no telhado de palha da última construção da aldeia antes do lago, uma cabana comunitária onde era limpado os peixes pescados do lago. De lá poderia ter uma visão melhor para seus disparos. Alguns passos adiante e lá estava o lago, o píer, os cães raivosos latindo e aquela enorme monstruosidade encalhada a uns vinte passos do ancoradouro. Esta foi a vantagem que os Uruk tiveram diante aos invasores, pois como o lago perde profundidade muito rapidamente a medida que se aproximava do píer, o grande barco de remes dos invasores encalhou antes de aportar, o que deu uma pequena vantagem aos aldeados. Vários invasores estavam caminhando por dentro do lago em direção à margem e o píer com água acima da cintura. Skar deu comando para que Bubaka pegasse alguns homens e protegesse o lado direito do píer e o mesmo com Xin Zê para o lado esquerdo. Ele e resto foram pelo píer. Sua ideia era usar a vantagem de abater seus inimigos dentro da água, pois os invasores teriam que caminhar por dentro do lago e subir no píer. Skar era o Caçador Líder por ser astuto como um Lobo Líder, como era chamado na aldeia. Os Uruk confiavam nos seus comandos e seu discernimento para as caçadas.

Não demorou muito e o primeiro invasor tentou subir no píer, mas sua cabeça foi dilacerada por um golpe de tacape. Skar portava um tacape de madeira leve mas muito resistente, com lâminas super cortantes de obsidiana encravadas ao longo das extremidades. Era o tacape do Caçador Líder, uma arma formidável, passada por gerações e herdada pelo líder dos Uruk nas caçadas.

Quando o corpo do inimigo caiu de volta no lago, o barulho na água logo foi abafada pelo grito de guerra dos Uruk. Todos urraram junto, como forma de intimidar e amedrontar os invasores, o que deu certo, pois alguns deram meia volta e começaram buscar novamente o refúgio do barco. Nisso, se ouviu o som forte e grave de uma trombeta de chifre vinda do barco. Esse som fez os Uruk pararem de gritar e prestar atenção naquele som, esperando o que significava. Muitos dos que estavam retornando ao barco pararam, e com um temor indescritível, retomaram o caminho da invasão. Em questão de segundos a batalha pelo píer havia começado. Mais de uma dezena de invasores começaram a subir no píer ao mesmo tempo. Skar tentou abater dois, mas uma chuva de lanças inimigas, abateu metade de seus companheiros e logo o píer era uma praça de guerra desigual. Nas margens o número foi menor de invasores, porém como os caçadores não usavam escudos e as lanças atiradas pelos inimigos feriu muitos dos defensores. Bubaka com seu martelo de pedra estourou a cabeça do primeiro que pôs os pés na sua margem, e em seguida abateu o próximo com uma pancada no peito que o atacante caiu jorrando sangue pelos orifícios. Sua força era muito superior aos daqueles que tentavam tomar à margem direita, era como se ovelhas tentassem atacar um enorme touro. No lado esquerdo, Xin Zê fazia acrobacias no ar, enquanto desferia golpes fatais com seu tchaco nos seus inimigos. Sua agilidade era comparado a de um felino, pois os inimigos não conseguiam acompanhar suas manobras. Logo, meia dúzia de invasores vaziam no barro da margem do lago. 

Mas no píer a luta estava encarniçada. Skar era muito hábil com seu tacape de obsidiana, mas eram muitos inimigos. Os invasores vestiam roupas de lã simples em contraste com as roupas de peles dos Uruk. A maioria dos inimigos portavam machadinhas de pedra polida ou osso afiado, pois suas lanças de madeira e ponteira de osso, a maioria havia atirado nos defensores antes de tentar subir no píer. Um inimigo tentou desferiu um golpe de machadinha, de cima para baixo em Skar, que se antecipou com seu tacape, bloqueado para o lado. Nisso o torso do inimigo ficou exposto, e Skar com o mesmo movimento da defesa, voltou seu tacape mirando no pescoço do inimigo, abrindo um corte profundo na mesma. Espirrou sangue no rosto do Caçador Líder, que parou por um momento. Essa espera foi fatal, pois um inimigo em suas costas levantou sua machadinha para cravar no dorso de Skar, mas antes que pudesse terminar o movimento, uma flecha transpassou seu tórax e ele caiu nos pés de Skar. O líder olhou para a cabana perto da margem direita e acenou para Wotar. Seu olho de falcão não falhava. Porém a luta continuava, mas os Uruk mesmo em menor número, eram muito superiores à aqueles inimigos. Até pareciam que muitos deles nunca haviam lutado antes, e a maioria demonstrava que o medo de retornar ao barco era maior que o combate quase suicida. Alguns instantes depois, Skar já conseguira impor uma ordem no píer e seus amigos também. Uma segunda trombeta pode ser ouvida, e uma segunda onda de inimigos saltou do barco. Wotar aproveitou a vantagem e começou a disparar e derrubar vários inimigos. Skar, Bubaka, Xin Zê e os outro que sobreviveram a primeira onda, começaram urrar seu grito de guerra, levantado suas armas para cima. A luta anterior os haviam deixados cansados, porém agora eles sabiam como o inimigo lutava. Então Skar juntou um corpo de um inimigo e usou como escudo da chuva de lanças que os invasores iriam desferir a qualquer momento. E logo veio, mas poucas lanças conseguiram chegar até o píer. Eles haviam se precipitados. Eram realmente amadores. Agora era esperar a luta corpo a corpo e a confiança de destroçar o inimigo era uma realidade.  

Instantes antes de os inimigos chegarem até os defensores, um barulho muito forte no portão de acesso à aldeia foi ouvido pelos guerreiros Uruk. Com um grande troco de árvore, outra parte dos inimigos, invadiram a aldeia pelo único portão, que ficava na parte oeste. O ataque ao píer era só uma distração, um engodo, pois os inimigos que passaram pelos portões eram diferentes, vestiam couraças, elmos de ossos, escudos de couro e lanças com ponta de metal. Deviam ser a elite guerreira dos invasores. No entanto, os inimigos que vieram com o barco, eram pobres coitados obrigados a lutar, quem sabe agricultores ou mesmo escravos. Os inimigos que invadiram pelo portão, ignoraram a luta no lago. Correram para o interior da aldeia. Skar tentou ir atrás deles, mas já estava rodeado de inimigos no píer, e o mesmo com os outros caçadores. Logo se ouviu os gritos das mulheres e pode ser visto fogo ateado às cabanas. Um desespero tomou conta de Skar. Ele precisava salvar sua esposa e filhinha. Mas os inimigos pareciam que brotavam debaixo do píer. De repente um inimigo conseguir feri-lo no braço com um corte superficial. Sua resposta foi abrir a barriga de seu atacante com o fio da obsidiana, e tripas caíram no assoalho de madeira antes do próprio dono cair em cima delas. Mais gritos desesperados foram ouvidos, mas Skar e seus companheiros nada podiam fazer, estavam impotentes diante da desgraça aos seus familiares. Logo pode-se ver os inimigos saindo da aldeia em direção à floresta. Skar viu que Yëwa estava sendo levada amarrada e puxada por um inimigo, o maior deles. Ela olhou para o lago e gritou por ajuda. Skar tentou correr, mas uma pancada na cabeça fez tudo escurecer.

A Jornada ao Desconhecido

Alguns minutos depois, Skar acorda com sangue ainda quente escorrendo pelo seu rosto. O barco não estava mais ali.  Muitos corpos em volta dele, alguns de seus amigos, a maioria de inimigos. Não viu ninguém vivo no local da batalha. Logo pensou que todos haviam sido mortos. A aldeia ardia em chamas. Ouviu choro e lamentos, mas não conseguiu identificar de quem eram. Levantou-se ainda meio tonto, pegou seu tacape e caminhou para o interior da aldeia. No trajeto viu corpos de mulheres, de crianças, seus vizinhos e irmãos Uruk. Um frio passou pelo seu corpo. Lembrou que Yëwa fora raptada. Ou fora uma ilusão causada pela pancada na cabeça? Skar correu até sua cabana, com um desespero indescritível. Ao se aproximar viu que a cabana estava em chamas, quase em sua totalidade. Mas algo mais terrível lhe  chamou atenção. Ele caiu de joelhos. Era o corpo frio e imóvel de sua filhinha. Cabelos longos e cacheados iguais aos de Yëwa, mas com coloração ruivo escuro. Skar moveu cuidadosamente o corpo dela e logo viu o torso coberto de sangue; sangue de seu pequeno pescoço, que fora cortado como se faz a um animal. O Caçador Líder estava devastado, não pode conter as lágrimas e o pranto. Abraçou o corpo pequenino de sua filha e apertou em seu peito, enquanto olho para o céu e balbuciou como que uma pergunta do porque daquilo tudo acontecer. 

Bubaka se aproximou e pegou no ombro de Skar:

Bubaka - Temos um inimigo vivo...Xin Zê está tentando fazer o desgraçado dizer quem são, de onde vieram, mas o desalmado não quer falar!

Skar devolveu à terra com muito cuidado o corpo de sua filha. Levantou-se com furor e acompanhou Bubaka. Eles foram até a cabana perto do lago, onde um dos inimigos estava sentado no chão, escorado na parede de madeira da cabana, meio agonizando por causa dos ferimentos no tórax, um corte profundo, de onde saía sangue compulsivamente. Wotar e Xin Zê estavam tentando fazer ele falar, mexendo com pontas de flechas na ferida, o que causava muita dor no pobre coitado, tanto que que ele gritava de dor. Skar ao se aproximar não conteve o ódio que sentia, e chutou o rosto do moribundo com tamanha violência e alguns dentes se desprenderam de sua boca e caíram na terra. Ele se agachou, agarrou o invasor pela garganta e gritou em seu rosto:

Skar - Pra onde a levaram? Fala demônio! Pra onde a levaram?

O moribundo, meio perdendo os sentidos, com a boca cheia de sangue, fala pausadamente, olhando fixamente para o Caçador Líder:

Moribundo - Sua bruxa...vai morrer nas mãos...do deus verdadeiro... pagão impuro!

Skar novamente levado por impulsos de raiva, enfiou seu tacape na ferida do inimigo fazendo-o entrar uns 10 cm, o que fez o moribundo berrar e se contorcer de dor. Em seguida Skar puxou para fora a ponta do tacape, criando uma enorme abertura no abdômen daquela infeliz criatura, que caiu para o lado e começou a ter convulsões. O líder se levantou e olhou para o corpo de seu inimigo se esvaindo e disse aos outros caçadores:

Skar -  Temos que ir atrás deles. Precisamos salvar a Grande Mãe. Preciso salvar Yëwa...

Um dos Uruk, chamado Duk, que estava próximo ao grupo falou para Skar:

Duk - Não sabemos para onde foram, quantos mais eles tem. E se atacarem de novo, quem vai defender nossa aldeia? É muito perigoso ir atrás desses malditos...

Wotar interrompeu a fala do caçador:

Wotar - Eles desceram o rio, os que sobraram pelo menos. Contei uma dúzia que conseguiram voltar para o barco.

Xin Zê - O grupo que levou a Grande Mãe, eu segui eles de longe. Entraram no barco na primeira curva depois do lago. 

Bubaka - Você conseguiu contar quantos eram?

Xin Zê - Uns vinte guerreiros. Não pude chegar muito perto, pois muitos deles tinham arcos e usavam roupas grossas, difícil de penetrar e alguns até tinham umas proteções na cabeça, acho que era de osso!

Enquanto o grupo discutia sobre o ataque e a fuga dos inimigos, Skar caminhou para dentro da aldeia. Os outros quase não perceberam sua falta, pois enorme era o choque em que todos estavam. Uns minutos depois, Skar voltou com o amuleto protetor dos Uruk. Uma pequena estatua da primeira Grande Mãe, lapidada em pedra no formato de uma mulher com corpo protuberante, seios fartos e quadris largos. O Caçador Líder parou no meio dos caçadores e começou a falar:

Skar - Irmãos Uruk. Perdemos vários que amamos hoje...(Nesse momento ele olhou para o corpo de sua filhinha imóvel dentro da aldeia e deu um suspiro. Olhou para o amuleto e voltou a falar) - Eu sei que vocês estão com medo, com dor e com raiva, mas nossa Grande Mãe foi roubada de nós e será morta por esses malditos, se nós não fizermos nada. Pelo poder da primeira Grande Mãe -  e levantou a estátua acima da cabeça - eu prometo que vou salvar a Grande Mãe com a ajuda dos Espíritos da Natureza e de nossos Ancestrais. Quem quiser vir junto, saiba que a força da floresta caminha com os Uruk!

Wotar - Eu vou com você irmão! Se prontificou o arqueiro.

Bubaka - Eu também vou te ajudar! Disse o gigante cor de ébano com sua voz grave.

Xin Zê - Vão precisar de mim e não precisa nem pedir. Eu vou na frente. Completou o oriental de fala rápida.

Skar deixou Duk responsável por consertar o portão e agasalhar os sobreviventes nas cabanas não destruídas, além de iniciar a preparação dos falecidos. Ele e os outros três Uruk, pegaram suas armas, alguns mantimentos e embarcaram numa canoa de tronco de pinheiro, utilizada para pesca e começaram a descer o rio, rumo ao desconhecido, onde nenhum Uruk jamais tinha ido.

Na Montanha de Casas

Conforme desciam o rio, a paisagem mudava e o tamanho do rio aumentava. As florestas densas de coníferas davam lugar a grandes campos de vegetação rasteira e algumas árvores. Depois de meio dia de navegação rio abaixo, os quatro caçadores começaram a encontar as primeiras aldeias ribeirinhas. Todas em palafitas, denunciando as enchentes que o rio provocava. O clima também mudara. Começou a ficar quente e seco, o que levou os caçadores a tirarem suas proteções de peles pesadas. Também notaram, que nas aldeias ribeirinhas, só haviam crianças, mulheres e idosos. Nenhum homem de idade adulta. 

Algumas curvas abaixo, e surgiram grandes campos de trigo em fase de colheita. Haviam pequenas represas nas margens do rio, desviando água para canais que adentravam as plantações. Logo os caçadores Uruk viram o que os fugitivos chamavam de Montanha de Casas: uma enorme cidade murada. Na margem ocidental, um cais com o grande barco a remos. Não tiveram dúvidas que era aquele o local onde a Grande Mãe era cativa. Eles acharam melhor encostar a canoa ali mesmo, longe da cidade, para não serem detectados. Se esgueiraram pela plantação para evitar serem vistos por algum vigia ou um camponês. Caminharam muito, até encontrar uma pequena colina, onde terminava a lavoura de trigo. Agora rastejando, os quatro amigos tentaram ver mais sobre aquele lugar.  A cidade estava na margem ocidental do rio mas distante dele, devia ser para evitar as inundações. Eles estava um pouco distante, por isso era difícil ver com clareza, mas a o mesmo tempo era arriscado chegar mais perto, pois o sol ainda estava alto no céu e toda a região era descampada, sem árvores, pedras ou montes para dar cobertura, apenas trigo, e outras plantas que os Uruk não conheciam, mas que deviam ser de comer. O que deu para ver é que a cidade era toda murada, mas não tinha portão. Quem sabe ele estava do outro lado, não visível aos caçadores. E haviam pessoas caminhando por cima dos telhados, isso foi bem estranho para os Uruk, que não entenderam muito o que significava aquilo. Então eles esperaram o crepúsculo para poder explorar.

O Jovem Sábio das Estrelas

Quando o sol estava quase se pondo no horizonte, Xin Zê foi explorar o local. Já estava escuro, quando ele retornou. Skar, afoito por informações logo pediu os detalhes:

Skar - Então, como podemos entrar na Montanha de Casas? 

Xin Zê - Eu tentei encontrar algum lugar, mas eles não tem nenhum portão. Eles usam escadas de madeira para subir as paredes, e caminham pelos telhados, acho que não tem chão para caminhar...

Bubaka - O quê? Por onde eles passam com a lenha, as caças ou baldes de água?

Xin Zê - Eu já disse, acho que é pelo telhado.

Wotar - Mas como eles fazem para entrar nas cabanas?

Xin Zê - Mais pra dentro da montanha as cabanas vão ficando mais altas, então eu vi um dos moradores descer por um buraco no telhado. Acho que é isso...

Skar - Vamos deixar ele falar o mais importante pra pensarmos como entrar lá! Interrompeu o líder.

Xin Zê - Bom, eu acho muito arriscado tentar entrar sem saber mais como é lá dentro, porque vi que tem vários vigias armados, em todos os pontos da montanha.

Houve um silêncio, como se uma grande decepção se abatesse sobre os ouvintes. Mas o batedor sorrateiro continuo:

Xin Zê - Eu vi uma torre afastada da montanha, onde dois homens, que não pareciam guerreiros, foram pouco antes do sol ir dormir. Podemos tentar tirar informações deles, até pra saber onde está a Grande Mãe!

Os olhos de Skar brilharam, e sua mente voltou a ter esperança. Ele levantou e pediu para Xin Zê guia-los até a torre em questão. 

Quando se aproximaram da torre, notaram que os dois sujeitos estavam no topo. Era uma construção de pedras maciça, sem escadarias internas ou externas, mas apenas uma escada móvel de madeira, que estava encostada na parede, pelo qual os dois homens subiram. O topo não tinha proteção nem telhado. Os dois sujeitos estavam sem luz de fogo, até porque era noite de lua cheia, e enquanto um deles, mais idoso, observava o céu, o outro, mais jovem, desenhava com uma madeira num tablete de argila. 

Sorrateiramente os caçadores subiram a escada e agarraram os dois homens, que não puderam nem pedir socorro. Então, enquanto Bubaka segurava o jovem, Xin Zê e Wotar seguravam o idoso, Skar começou interrogar esse último:

Skar - Onde está a mulher de cabelo de fogo? O que vocês fizeram com ela? Apertando sua faca de silex na garganta do observador de estrelas.

Velho - Seu estúpido, o que pensa que está fazendo!? Como ousa ameaçar o astrônomo do Deus vivo! Respondeu em tom de ameaça mesclada com a mais profunda arrogância.

Bubaka - Devíamos cortar uns dedos pra encoraja-lo a responder! 

Wotar - Quem sabe se jogarmos ele aqui de cima, não vai morrer, só quebrar as pernas! 

Xin Zê - Acho melhor apenas enfiar espinhos em suas unhas, ajuda bastante!

O velho parecia não se importar com as propostas de tortura. Já o jovem começou a ficar impaciente.

Velho - Vocês pagãos, adoradores de espíritos impuros, acham que podem me amedrontar com suas provocações!? Eu sirvo ao Deus vivo Anunnak, o imortal, e a morte não é o fim, mas o começo de uma nova vida melhor. Já vocês irão apodrecer na terra e vagar cegos e mudos pelo mundo inferior...

Jovem - Pare Milkot! Eu e você sabem que Anunnak não é imortal e que ele usa os deuses para controlar os ignorantes! Interrompeu o jovem sábio à fala fanática do velho Milkot.

Milkot - Blasfêmia! Você está se corrompendo aos espíritos impuros. Não viu o que a falta de fé fez com nossa cidade sagrada!? Reze e peça perdão à Anunnak e quem sabe sua alma será...argh!

Skar resolveu calar Milkot com um soco no abdômen, ao que o velho se agachou de dor. O caçador levantou o astrônomo com sua faca puxando-o pelo queixo. Chegou bem perto de seu rosto e disse com tom de ultimato:

Skar - Última chance velho...onde está a mulher que vocês roubaram?

O velho se recompondo da dor, olhou nos olhos do caçador e não disse nada, só cuspiu nele. Skar limpou seu rosto com a mão, parou por um instante, olhou para o jovem amedrontado e com calma pegou a faca se silex e começou a cortar a garganta de Milkot, que até tentou gritar, mas foi abafado pelo cabo do tchaco de Xin Zê. Logo o sangue escorreu pelo peito do velho, e seus captores o jogaram torre abaixo. Então Skar olhou para o jovem enquanto limpava o sangue de sua faca no couro de sua espécie de calça. O rapaz estava apavorado e enquanto Skar se aproximava dele, foi logo se adiantando:

Jovem - Esperem, eu vou contar tudo o que vocês precisam saber, não precisam me machucar! Eu não sou um deles!

Os caçadores não entenderam. Como ele podia dizer que não era um deles, se estava junto, morava junto e se vestia igual a eles? Mas o jovem complementou:

Otzi - Meu nome é Otzi e eu não sou um Çatali eu sou um Ubaíd! Sou um serviçal, eu sou obrigado a viver longe da minha aldeia para servil os mestres çatali...

Skar - Ooooh...vai devagar aí! O que é Çatali, o que Ubaíd e por que você não fugiu como os outros? Interrompeu a explicação do jovem, pois muita coisa ele não tinha entendido:

Otzi - Çatali é o nome da cidade dos mestres - apontando para a Montanha de Casas - e Ubaíd é minha aldeia, a um dia de viagem pelo rio abaixo - apontando para o sul. Eu fui levado ainda criança da minha aldeia pelos Çatali, como forma de pagamento ao deus Anunnak...

Skar - Pagamento? - indagou o Caçador Líder - Que tipo de pagamento se usa crianças?

Otzi - Conta a lenda, que os deuses fizeram o mundo em 10 dias. Eles são chamados de Anunnak, porém um deles, desceu do céu e veio morar entre nós, ensinando uma forma de não passar mais fome, ensinou a plantar comida. Mas em troca, todos devem adora-lo, pois do contrário, a fome volta. Isso é o que contam, e todos acreditam que o Anunnak é imortal, mas eu vi ele morrer, pois fui seu criado e o vi morrer numa cama gemendo faz algumas luas, e um de seus filhos, assumiu suas vestes e aparece para o povo como se fosse o Anunnak de sempre, porque não tem com saber, o Anunnak usa uma máscara.

Wotar - Eles enganam todos passando a ideia que é sempre o mesmo, por isso acham que é imortal! Comentou o arqueiro  indignado com o engodo da história.

Otzi - Exato! Por isso, todas as aldeias a redor foram obrigadas a adorar o deus Çatali e abandonar seus espíritos ancestrais. Muitos foram convencidos que Anunnak é um deus, ou foram conquistados pela força, mas todos  os seus grãos são levados para o reservatório dentro da cidade. Anunnak controla tudo e todos. Seus soldados, funcionários próximos e familiares, comem muito bem. Já o resto da população fica com os restos. E quem se revolta é amarrado no meio do deserto, coberto de mel, para os vermes devorar. As aldeias também são obrigadas a dar um filho ou filha para trabalhar em alguma coisa na cidade, seja para ser guarda, ser ajudante ou no caso das meninas até uma concubina...

Bubaka - Garoto, você fala muitas coisas estranhas?! Eu não entendo quase nada do que você diz! Reclamou o possante caçador.

Otzi - Eles tomam as meninas para serem suas escravas de acasalamento, porém não cuidam dos filhos que nascem, só querem é continuar acasalando!

Os caçadores ficavam cada vez mais indignados com as informações que Otzi repassava a eles. 

Otzi - Na verdade, existe uma conversa, que o primeiro Anunnak era um homem comum, que fez algo muito terrível para sua mãe, e por isso foi expulso de sua tribo. Depois de vagar pela terra, sem lar e sem tribo, ele fez um trato com um demônio, de que se ele sacrificasse toda lua escura uma criança, o demônio faria ele chefe de uma tribo poderosa. E assim ele passou a ser chamado de ...

Skar - Korg! Complementou o Uruk, com o olhar fixo para a cidade Çatali, como se imaginasse toda a lenda ouvida desde garoto, contada pelo seu pai, sobre o primeiro assassino do seu povo.

Otzi - Você conhece a história? 

Skar - Sim...esse Korg é um maldito de meu povo, que matou a Grande Mãe, nossa líder, para ter o poder. Mas os espíritos da natureza negaram o poder a ele, e como castigo, foi expulso da aldeia. Mas ele não foi sozinho. Alguns que também participaram da sua traição também foram expulsos. Eles sabiam o segredo de plantar sementes. Usaram isso para enganar e se passar por um deus...que maldito! 

Otzi - Isso não é tudo! Existe uma profecia, que  uma grande praga virá, e só o sangue da última bruxa trará a cura. A meses que a cidade sofre de uma doença, onde as pessoas começam passar mal, com dores de barriga, vômito e diarreia e algum tempo depois morrem. Todos estão apavorados, e até há rumores de uma rebelião dos trabalhadores da cidade para confrontar o Anunnak. Mas, sabiamente, ele convocou todos para ir em busca da bruxa. Chegaram hoje de tarde, houve festa na cidade, pois amanhã, no nascer do sol, ela será sacrificada no Tepe, o monte sagrado.

Skar olhou para Otzi, com um olhar repleto de ódio e perguntou pausadamente:

Skar - E onde fica esse tal de Tepe?

O Sacrifício de Yëwa

A aurora ainda não havia surgido no horizonte e trombetas ressoaram convocando o povo de Çatati há se por em marcha para o monte sagrado de Tepe, distante meio quilômetro ao sul da cidade. Com tochas acesas para iluminar a caminhada, as pessoas se movimentavam em duas filas paralelas, em total silêncio. No fim das filas vinham os sacerdotes que traziam o Anunnak suspenso em um trono de madeira numa espécie de liteira primitiva. Atrás deles vinha a "bruxa"  que devia ser sacrificada. Amarrada pelas mãos, era puxada pelo guerreiro gigante e escoltada por uma dúzia de soldados. Yëwa vestia uma túnica longa de algodão branca que fora obrigada a vestir e tinha seu cabelo ruivo amarrado em duas tranças longas e separadas. O medo em seu semblante era perceptível. Quando chegou ao topo do monte chamado de Tepe, viu que havia uma construção de pedras em formato de um muro circular, com um grande portal de entrada direcionado ao sol nascente. O povo ficou do lado de fora do portal esperando o cortejo do deus entrar primeiro. Apenas quando o último dos soldados entrou é que o povo pode entrar. Quando Yëwa entrou, ela percebeu que o templo circular, era composto por outro muro de pedras circular, como se fosse um labirinto, pois o portal de acesso ao interior do último círculo, ficava do lado oposto ao portal de acesso principal. Quando ela entrou realmente no interior do último círculo, ela pode ver uma escadaria de pedras bem no centro do círculo de escalonada que dava pra subir de todos os lados, e  no topo um altar de pedra, que a essa altura já era iluminado pelos primeiros raios de sol.

Os sacerdotes baixaram a liteira e o Anunnak levantou-se de seu trono e começou a subir os degraus. Os soldados se posicionaram ao redor da escadaria e alguns ficaram em degraus acima, possivelmente indicando hierarquia. O gigante, que na verdade era o guerreiro mais alto e forte daquele povo, era assustador: cabelo raspado nas laterais em forma de um corte moicano, várias cicatrizes no rosto, como se ele mesmo tivesse feito e portando dois machados de silex presos na cintura, parecia um leão pronto para devorar sua presa. Ele  puxou Yëwa até o topo de forma bruta e a fez parar na frente do altar de pedra, onde ela pode olhar para o deus: ele era alto, vestia túnica dourada de linho com uma capa da mesma cor; usava uma espécie de coroa em forma de cone,  que se alongava uns dois palmos acima da cabeça, de onde descia um véu negro que chegava aos ombros. Mas o que mais chamava a atenção era sua máscara cerimonial, que tampava todo o rosto, tendo orifícios apenas para os olhos. Era uma máscara que imitava o rosto humano, mas com traços assustadores que geravam sensação de medo e intimidação.

Há essa altura do alvorecer, o sol iluminou o altar e esse foi o sinal para começar o ritual. O gigante rasgou as roupas de Yëwa, despindo-a totalmente, e rapidamente a colocou deitada sobre o altar segurando-a com força, enquanto os sacerdotes amarravam seus pés e mãos. Yëwa tentou se soltar, mas o gigante era muito forte. Mesmo se debatendo, ela pode perceber que um dos sacerdotes alcançou um punhal para o deus. Era uma peça única feita de osso, que começava com uma ponta fina e a medida que se aproximava do cabo ficava mais grossa e terminava com o encaixe da articulação. Era o punhal do sacrifício. Nesse momento, todos já estavam dentro do círculo central e o sol iluminava Yëwa deitada no altar. O Anunnak pegou a arma, levantou para o céu e começou a proferir palavras que ninguém entendia, ou seja, começou a se comunicar com os outros Anunnak. O sol iluminava seu torso fazendo brilhar pedras preciosas de seu colar enorme no peito. Yëwa estava em pânico. Sua morte era eminente e seria cruel. Seu coração batia muito rápido e sua respiração era ofegante. Ela tentava de soltar, mas as cordas estavam muito firmes. Então o Anunnak parou de falar aquelas línguas estranhas. Ouve um suspense e pareceu que o tempo parou. Logo em seguida o deus fez o movimento em descer o punhal e cravar no peito de Yëwa, mas foi interrompido por um berro. Todos olharam para o alto do muro leste e viram um vulto, pois a luz do sol impedia de ver claramente. Então o homem bradou:

Skar - Eu sou Skar, Caçador Líder da poderosa tribo Uruk. Nós sempre vivemos em paz, mas vocês invadiram nossas casas, mataram nossos irmãos e roubaram nossa Grande Mãe. Tudo por que? Porque um homem que se veste de deus, disse a vocês que nós somos culpados da doença que vocês sofrem. Mas eu digo que é mentira e - apontando para o Anunnak- ele é um mentiroso! Gritou de forma incisiva.

Os sacerdotes começaram a esbravejar e rogar maldições, mas Skar continuo:

Skar - O Anunnak não é deus, mas ele é um descendente do assassino Korg!

O povo começou a murmurar e o Anunnak percebeu que estava perdendo o controle, pois alguns começaram a empurrar os guardas. Então ele se antecipou para matar Yëwa com um golpe, mas antes que pudesse continuar o movimento, Wotar disparou uma flecha no pescoço, e o deus rolou escadaria abaixo, parando nos pés dos primeiros guardas e cidadãos. Houve novamente um silêncio para ver o deus se levantar, mas nenhuma reação aconteceu. Então, do meio do povo, Otzi incitou as pessoas:

Otzi - Ele não é imortal! Ele não é um deus! Fomos enganados! Morte aos mestres Çatali! 

E assim, muitos dos que eram escravos ou servos, pegaram suas tochas e usaram como armas contra os soldados e a elite da cidade. O tumulto estava criado, era o que os Uruk precisavam para libertar a Grande Mãe. Um dos sacerdotes correu pegar o punhal para terminar o sacrifício, mas Xin Zê como um tigre, surgiu do meio do povo e abriu a têmpora do infeliz com seu tchaco. Skar também já havia se antecipado e tinha pulado do muro e estava na base dos degraus. Os guardas tentaram barra-lo, mas foram dilacerados pelo seu tacape. Em questão de segundos ele estava no topo junto com Xin Zê, protegendo Yëwa dos malditos sacerdotes. No meio da multidão, Otzi clamava pela destruição do templo e seus mestres. Logo os soldados direcionaram suas lanças para matá-lo, mas Bubaka estava protegendo-o, e seu martelo bradou e cabeças explodiram.

Quando Yëwa viu Skar, ela não conteve a emoção e começou a chorar de alegria. Skar se aproximou dela e encostou sua testa na dela, e os dois se olharam por um instante, com as faces coladas e sorriram com lágrimas. Mas então Skar ouviu o zunido de uma flecha e em seguida um assovio. Era Wotar, como nas calçadas avisando de perigo. Skar olhou para trás e viu o gigante com um flecha cravada no ombro. Ele quebrou a parte exposta e pegou seus machados e partiu pra cima de Skar. O caçador conseguiu bloquear o  golpe do braço ferido, mas a pancada do outro braço do gigante foi tão forte que fez o tacape de Skar voar e cair no sopé da escadaria. Então ele pulou com seu corpo contra o monstro de músculos, mas foi inútil, era como ter se jogado em uma parede de pedra. O gigante largando o machado do braço ferido, deu um soco no rosto de Skar que o arremessou, fazendo ele cair vários degraus abaixo. Wotar mirou no gigante, mas teve que disparar em outro sacerdote que iria furar Yëwa. Então Xin Zê veio em auxílio à Skar, pegando impulso na lateral do altar, saltou e acertou uma paulada no pescoço do gigante, que sentiu uma dor enorme e por um tempo não conseguiu respirar direito. Mas mesmo assim, o gigante conseguiu acertar um corte na perna de Xin Zê, que caiu de mau jeito e rolou e escadaria abaixo, ficando muito machucado e fora de combate. Então o monstro virou procurando por Skar, mas uma nova flecha o acertou, desta vez no abdômen. Mesmo assim ele não caiu e nem parou. Mas mudou de direção. Resolveu matar Yëwa, que ainda estava presa no altar. Ele levantou seu machado acima de sua cabeça para cortar a Grande Mãe ao meio. Wotar desesperado atirou, mas o afobamento o fez errar, coisa que não acontecia com ele. O gigante olhou para o arqueiro e rir de seu erro fatal. Foi quando alguém lhe pegou pelas costas, puxando seu cabelo para traz e para o chão, fazendo-o desequilibrar e cair de joelhos. No mesmo instante uma lâmina entrou em seu pescoço pela lateral direita saindo na lateral esquerda. Era Skar usando o punhal de osso. Seu oponente se engasgou no próprio sangue e morreu ali mesmo, de joelhos, aos pés do altar. Skar correu para soltar Yëwa. Eles se abraçaram e choraram muito. Logo Otzi, Bubaka ajudando Xin Zê e Wotar, estava ao redor do altar. Os guardas haviam sido dominados ou mortos e o povo estava lá embaixo esperando o que iria acontecer em seguida. Otzi se aproximou dos Uruk e falou para o povo:

Otzi - Povo de Çatali, hoje começa uma nova vida! A tribo Uruk nos libertou da opressão e todos são livres para voltar as suas aldeias e famílias. Esse lugar nunca mais será de sacrifícios!

Então Bubaka, Skar e Wotar pegaram a pedra horizontal do altar e empurraram, fazendo ela cair e deslizar até o chão da plataforma cerimonial. Todos aplaudiram e festejaram, e desde aquele dia, Tepe caiu no esquecimento, até que num futuro muito distante, outras pessoas, de outra era a encontrariam, e cheios de dúvidas, tentariam imaginar o que poderia ter acontecido ali.

Já os Uruk, voltaram para sua aldeia. Antes porém, Skar agradeceu a ajuda de Otzi e o convidou para ir morar com eles. Otzi porém, precisava voltar para sua aldeia e ver sua família, mas ambos criaram um laço de amizade e respeito muito forte. Quando os Uruk chegaram em casa, houve alegria pela vida da Grande Mãe, mas também houve prantos pelas vidas perdidas, inclusive da garotinha de cabelos ruivos escuro. Eles aprenderam que os espíritos da natureza podem guiar as pessoas a fazerem grandes jornadas, vencer desafios enormes e ser benevolentes com seus semelhantes, mas também a não compreensão e a fanatismo podem levar à ignorância, ao medo e à morte. 

 



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