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História O Safado do 105 - Beauany - Capítulo 20


Escrita por:


Notas do Autor


O último de hj
Mas amanhã eu volto
Boa leitura
Bjosss

Capítulo 20 - Capítulo 19


Nenhuma escolha é completamente vantajosa; sempre há o que perder

quando se ignora um

caminho

Lembro-me de, naquela fatídica noite, ter passado pelos momentos mais

solitários e sufocantes

de toda a minha vida. Fui ao hospital, como prometi, constatando que os

meus pais, bem como os

meus irmãos, estavam completamente desestabilizados. Não espera

encontrá-los lá – não estavainteirada sobre as escalas –, mas até o Bailey não foi poupado.

O coitado não parava de chorar. Estava muito angustiado com o estado de

saúde da nossa avó.

Por ser o caçula e o único menino, obviamente foi tratado com muito mais

mimo tanto pelos meus

pais quanto pela minha vozinha querida. As coisas começaram a sair do

controle quando Bay

simplesmente surtou; ficou murmurando sem parar que a vovó ia morrer a

qualquer instante. Ninguém

entendeu, mas foi um choque. Papai, sem saber o que fazer, levou-o para a

lanchonete do hospital. Bay

nunca teve um comportamento emocional muito bom, desde criança.

Mamãe chorava muito, e piorava quando via seus filhos sofrendo. Diarra

tentava como podia

acalentá-la, mas o seu desespero também era evidente. A minha ausência

havia sido sentida durante

todo o dia, e me lembrar de que estava evitando a dor só fez com que ela

fosse intensificada. Fiquei

sentada em uma cadeira desconfortável, deixando a vida passar enquanto

nenhum pensamento me

acometia.

Quando um médico apareceu do nada, buscando por um representante da

nossa família, mamãe

se desesperou de vez. Estava quase fazendo um escândalo, querendo saber o

que tinha acontecido. Omédico pediu para que ficasse calma, mas só piorou. Diarra, por fim, quase

implorou para que eu fosse

falar com ele, já que o papai tinha saído com o Bailey. Por incrível que pareça,

eu era a pessoa mais

centrada disponível. E isso só podia ser uma piada.

Uma parte do meu cérebro não conseguiu entender por que todo mundo

tinha ficado tão nervoso.

Tudo bem que a minha família sempre foi louca, mas o comportamento

anormal, mesmo diante de

uma situação igualmente anormal, deixou-me assustada. Tomei fôlego,

como quem está prestes a dar

um mergulho e acompanhei o doutor.

Caminhamos por alguns corredores até chegarmos a uma sala de

atendimento privado. Imaginei

que ele ia propor alguma espécie de cirurgia, e que para isso seria

necessária a assinatura de alguns

documentos, ou algo assim. Enfim, sabia que o assunto era sério, só não

fazia ideia se conseguiria

ouvir tudo.

– Qual é o nome da senhorita? Sente-se... – Apontou para uma cadeira

alcochoada.

– Any... – Observei sua barba e cabelos grisalhos. O doutor era um

senhor com uma aparência

bem simpática, mas o olhar permaneceu firme. Meus olhos se encheram de

lágrimas, nem sei dizerpor que.

– Qual é o seu grau de parentesco com a paciente?

– Neta. Sou neta. O que aconteceu, Doutor? Por favor, diga logo.

Ele reafirmou as expressões. O olhar premeditou a tragédia. Senti as

lágrimas rolarem pelo meu

rosto, mas prendi os lábios e tentei me controlar. A minha família estava

contando comigo.

– Any, vou falar tudo de um jeito que entenda.

– Por favor... – Senti meus dedos congelarem de medo.

– Nesta tarde, percebemos que os antibióticos geraram um quadro de

melhora na sua avó.

Estávamos positivos com a recuperação dela, mas... – Soltou um suspiro, e

mais lágrimas se fizeram

presentes. Não fui capaz de falar nada. – Controlamos as doses para que

seus batimentos cardíacos se

mantivessem constantes, porém a sepse, ou seja, a infecção, estava em um

estágio muito avançado.

Levei uma mão à boca, soltando um soluço que partiu do fundo da minha

alma. Eu sabia que

tinha acontecido. Contudo, a esperança é mesmo traiçoeira; teima em não

nos abandonar até o ultimo

segundo. Pena que aquele instante em que tudo desmorona veio depressa

demais.– Fizemos o possível, Any, mas a sua avó sofreu uma falência múltipla de

órgãos. Eu sinto

muito.

Deve ter passado um filme na minha cabeça. O médico continuou me

olhando, desta vez com

pena. Perdi a fala e a capacidade de me mexer. Até as lágrimas cessaram.

Meu mundo inteiro

congelou apenas para tentar suportar a carga emocional jogada em minhas

costas.

Pode parecer esquisito, mas coloquei a culpa de tudo em mim. Jamais devia

ter saído de casa.

Não devia tê-los abandonado. Se eu ainda morasse com a minha família,

teria levado a minha avó para

um hospital desde o primeiro espirro. Eu sempre fui mais exigente com

relação a tudo.

Balancei a cabeça afirmativamente na direção do médico. Ele avisou que

nos daria um tempo,

mas que dali a alguns minutos alguém apareceria para resolver a situação

dos documentos, bem como

a liberação do corpo.

Voltei para a sala de espera em câmera lenta. Via tudo embaçado – não por

causa das lágrimas,

visto que tinham secado, era a minha mente que não conseguia registrar

tudo. Meu corpo entrou emtranse, uma espécie de estado que associei como sendo um pesadelo. Nada

parecia real.

Voltando à sala de espera, sentei-me ao lado da Diarra e da mamãe, que me

aguardavam ansiosas.

Minha mãe ainda quis se levantar quando me viu, mas Diarra a controlou.

Ambas souberam o que tinha

acontecido quando meu olhar cruzou os delas. Mesmo assim, esperaram o

veredito. Maldita

esperança!

– Vovó está no céu agora – murmurei quase sem voz. A continuação da

frase “e a culpa é minha”

circulou apenas no meu cérebro. Somente eu sentiria aquela dor, era a

minha responsabilidade lidar

com ela.

Mamãe desabou, literalmente. Não me surpreendi. Por mais difícil que seja

perder uma avó,

deve ser ainda pior perder uma mãe. Eu não queria fazer ideia disso nem tão

cedo. Chamei uma

enfermeira com urgência, que por sua vez chamou uma equipe. Levaram a

mamãe em uma cadeira de

rodas; ela estava imersa em um meio desmaio esquisito.

Pedi a Diarra que a acompanhasse, alegando que avisaria o acontecido à

família. A minha irmã

estava desesperada, mas pelo menos eu soube que se manteria de pé para

suportar toda a rebordosa demamãe.

Liguei para o papai. A notícia o abalou muito, porém senti que lamentou

mais por nós do que

por si mesmo. Sobretudo pelo Bay que, quando soubesse, reagiria ainda

pior. Depois de pelo menos

umas cinco ligações – de acompanhar muitas lágrimas e desespero por parte

dos meus familiares –, o

meu mundo se transformou em uma espera.

Senti o frio que fazia no hospital congelar tudo de bom que existia em mim.

Só conseguia pensar

na última vez que vi a minha avó. Aquela visita egoísta – afinal, só fui vê-

los por causa da minha

solidão – havia sido a nossa despedida, e eu nem sabia. É duro demais

aceitar um adeus, e pior ainda

um que poderia ter sido evitado.

Eu devia ter ido visitá-la durante a semana. Devia ter lhe falado mais coisas.

Tê-la tratado com

mais paciência. Devíamos ter ido a mais lugares juntas, e ela devia ter me

contado mais histórias. Não

importam os momentos que passei com a minha avó, nem a eternidade faria

que eles fossem

suficientes.

Lembrei-me de suas últimas palavras direcionadas a mim. Eu havia dado

um beijo em sua testae murmurado o famoso “bença, vó”. Ela sorriu, como sempre, e respondeu

(como sempre também):

– Deus te abençoe, minha filha.

As recordações me fizeram cair em um choro silencioso e constante. Fui

envolvida pela

nostalgia completa, que se dividia com a tristeza, e depois se somavam,

multiplicando a dor no meu

peito. Chorei tanto que já estava cansada de fungar e tentar limpar o meu

rosto com a gola da minha

blusa.

Fiquei imaginando se a Clarice tinha uma frase boa o bastante para me

trazer conforto. Depois

de dois segundos, decidi parar de pensar nisso. Mesmo existindo uma boa

citação, não havia ninguém

ali para proferi-la.

A minha família se reuniu na recepção, pelo menos três andares abaixo da

sala de espera da UTI.

Diarra me ligou depois de quase duas horas (que usei apenas para sentir a dor

da perda), avisando-me

que o corpo já havia sido liberado para o IML fazer o serviço. Meu pai e o

meu tio se juntaram para

organizar tudo o que seria necessário para fazer o velório. Como já era

tarde, certamente as coisas só

seriam resolvidas de verdade pela manhã.Eu não queria saber ou decidir sobre nada daquilo. Perguntei se a mamãe

estava bem e,

recebendo uma resposta razoável, sequer os procurei para me despedir.

Desci pelo elevador, seguindo

diretamente para a garagem do hospital. Fugi mesmo. Fui egoísta e, mais

uma vez, abandonei as

pessoas que amava. Avisei a Diarra que iria para casa, mas que no dia

seguinte arranjaria uma folga no

trabalho para ajudar no que fosse preciso. Ela estava tão aérea que sequer

ligou para o meu

distanciamento.

Simplesmente fui para casa. Dirigi como uma tartaruga paraplégica até

estacionar em frente

àquele jardim, que já não me era estranho. Nunca o número 104 me foi tão

atraente. Pensei que não

fosse capaz de chamar aquele lugar de lar, mas depois que percebi que

havia trocado a companhia dos

meus familiares por aquelas paredes, compreendi, pela primeira vez desde

que me mudei, que ali era a

minha casa.

Deitei-me no tapete consolador e chorei. Chorei alto, de um jeito que não

pude fazer no hospital.

A sensação de alívio trazida pelo desabafo foi muito bem-vinda. Entendi os

motivos da minhaescolha: eu só queria ser eu diante daquela dor. Não queria precisar me

controlar, muito menos

consolar alguém. Não queria a cura para aquela dor, apenas senti-la como

um mal necessário.

Arrastei-me até a minha cama, tirando a roupa pelo caminho. Os soluços se

intensificaram

quando afundei o meu corpo no colchão, e a cabeça na camisa do Calvin

sobre o meu travesseiro.

Ouvi gemidos curtos. Droga! Puta que pariu! Dia errado, Calvin Klein.

Nada abafaria o meu

choro. E, de fato, eles conseguiram ser mais intensos do que aquilo que

acontecia no quarto ao lado.

– Any? – ouvi a voz ofegante dele.

– Com quem está falan... – uma mulher tentou dizer.

Soltei um soluço ainda mais alto.

– Shhh... – Calvin mandou a maldita calar a boca. – Any, o que houve?

Continuei a chorar desesperadamente. Soquei o travesseiro com raiva,

sentindo que ia explodir

de dor, ódio, frustração, tudo junto e misturado.

– Any, fala comigo... Por favor! – Balancei a cabeça negativamente. – Eu

vou aí, agora!

– Não! – gritei. – Respeite a minha dor, pelo amor de Deus! Deixe-me

chorar na minha própria

casa! – A minha voz saiu esganiçada, até mesmo meio malcriada.– Mari, preciso que vá embora – ouvi-o dizer para a vadia que estava

comendo. – Eu te ligo. É

um assunto importante.

– Tá... – A chateação da mulher ficou evidente. Não me pronunciei a

respeito. – Me liga mesmo,

gato.

– Pode deixar...

Nojo. Vergonha. Ódio. Medo. Dor. Devia existir um nome que definisse

tantos sentimentos ruins

juntos, assim quem sabe eu pudesse me compreender. No entanto, a palavra

que chegava mais

próxima era: catástrofe.

Um acidente emocional gravíssimo acontecia dentro de mim.

– Any? – Ouvi batidinhas na parede, depois de alguns minutos. – Foi a

sua avó?

Soltei um grito indefinido.

– Ela morreu! – decidi defini-lo, mas me arrependi. O meu berro foi capaz

de me deixar ainda

mais assustada.

– Ah, meu Deus... Any, estou chegando aí. Abre a porta, por favor.

– Não! Por favor digo eu! Poupe-me de você.

– Any, eu sei como é isso. Acredite. Sei o que é perder alguém

importante... Deixe-me ajudá-la.

Soquei o travesseiro, depois o atirei contra a parede.

– Não! Eu não preciso de você, Calvin. Eu te usei tanto quanto me usou.

Fingimos que nos

conhecemos, mas somos dois desconhecidos. E eu não quero te conhecer,

pois já sei tudo o que

preciso saber para ter a certeza de que te quero bem longe de mim.

Calvin entrou em um silêncio profundo. Chorei e chorei em cada segundo

sufocante que se

arrastou. Às vezes, parava só para ouvir a sua respiração pesada, certamente

causada pela irritação que

lhe provoquei de propósito. Os serem humanos têm o péssimo hábito de

serem cruéis quando algo lhe

dói, só para terem o prazer de fazer o outro sofrer também.

Se bem que, naquele caso, não consegui definir quem estava sendo mais

cruel. Só havia uma

certeza: ali estavam duas pessoas extremamente magoadas com a vida.

– “Você pensa que nunca vai esquecer, e esquece” – sussurrou suavemente.

– “Você pensa que

essa dor nunca vai passar, mas passa. Você pensa que tudo é eterno, mas

não é”... Vou te deixar em

paz, Any. Fique bem.

Ouvi a porta de seu quarto batendo. Tranquei a do meu coração apenas para

conseguir respirar.Joguei a chave pela janela e me preparei para uma noite longa.

A solidão, a dor e eu. Isso sim era um sanduíche de Any aceitável.



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