História O safado do 105. - Karmagisa - Capítulo 1


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Palavras 4.460
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Deixo claro que esta é uma adaptação de uma das demais obras de Mila Wander, (uma escritora das "horas vagas", que eu admiro tanto)

Nagisa nessa fanfic é mulher para se encaixar um pouco melhor na estória.
boa leitura, vou tentar atualizar duas vezes por semana. Mas não garanto nada.
kissus.

Capítulo 1 - Capítulo um.


Os anjos gritaram amém. Os pássaros cantaram no ritmo do “aleluia, aleluia”, e o meu sorriso evidente quase fez as minhas bochechas arderem de tão esticada que ficou a minha pele. Desci do carro bem devagarinho, como que para saborear lentamente o gostinho doce da mudança. Lembro-me até de ter fechado os olhos e inspirado profundamente.

O vento era fresco, e soprava com uma tranquilidade que invadia o meu peito. Havia muitas árvores na rua, nada de gás carbônico em demasia. Crianças brincavam de queimada mais adiante.

Uma casinha estilo Barbie bem bonitinha estava diante de mim, parecida com a que eu implorei para que a minha mãe comprasse quando tinha sete anos (ela não comprou, que isso fique claro).

Estava tudo mais do que perfeito. O bairro era perfeito, a rua era perfeita, a casa era perfeita, a vida era perfeita, o mundo era perfeito, e eu, Nagisa Shiota, finalmente estava livre de toda aquela gente doida que compunha a minha família. Nada contra, só que não dá para viver em um lugar onde não se sabe quando exatamente estão conversando ou discutindo.

Foram vinte e oito anos. Vinte e oito anos de muitos: Nagisa, vai lavar os pratos! Nagisa, passa pano na casa! Para onde pensa que vai a essa hora, Nagisa? Nagisa, já disse que não gosto dessa sua amiga. Nagisa, esse seu namorado é irritante. Nagisa, cuida da Hirano, ela é tão pequena! Nagisa, você não pode dormir tão tarde. Nagisa, sai deste computador! Nagisa, sua aula é daqui a uma hora e você ainda está aí? Nagisa, você só pode estar louca se pensa que vai comer chocolate no jantar!

Nagisa, Nagisa, Nagisa, Nagisa!

Na moral, naquele instante, esperava nunca mais ouvir o meu nome de novo. Eu ia morar sozinha (ops, deixe-me repetir: sozinha! Mais uma vez: sozinha! Outra: SOZINHA! Ok, ok... Acho que me empolguei) e muita coisa iria mudar. Teria as minhas próprias regras, planos, horários e responsabilidades. Pagaria todas as contas, precisaria lavar meus pratos, fazer a minha comida e lavar a minha roupa, mas cara... O preço da paz não pode ser quitado com um cartão de crédito. Tudo vale a pena quando é a liberdade e a privacidade que está em jogo. Só de pensar que teria um banheiro só meu, a felicidade era tão grande que dava vontade de chorar.

Nunca queira morar com pais malucos, uma avó com amnésia, uma irmã solteira com uma filha pequena e um irmão adolescente em plena ascensão da puberdade. Só da confusão.

A minha antiga casa devia ter um alerta do Ministério da Saúde bem na placa de boas-vindas. Tenho certeza de que, depois de vinte e oito anos de doideira, o meu cérebro não funcionava como o das pessoas normais. A minha única esperança era aquela nova fase da minha vida, que estava começando com estilo. E, claro, com um emprego novo (e bom), casa nova (e linda), tranquilidade, calmaria... Seria quase como se eu tivesse me mudado para a montanha dos monges, no Tibete.

Já me sentia bem mais zen enquanto percorria o pequeno jardim da frente. Podia ouvir até o “aaaaummmmmmmm” ressoando ao longe, provavelmente alguém meditava diante do silêncio da rua. Ou era apenas o meu cérebro perturbado imaginando coisas.

Querendo ou não, este é o começo da minha história. Havia uma Nagisa radiante, sorrindo para os ares, ouvindo meditações alheias e pássaros em sinfonia. Foi comigo, mas podia ter sido com você.

Imagine-se em um processo maravilhoso de mudança; aquela que você estava esperando há muitos anos. Imagine que nada no mundo poderia estar mais perfeito, procure em sua mente o dia mais lindo da sua vida. Era o que eu estava vivenciando naquele momento. Afinal, tudo havia saído do jeito que quis: a casa estava à venda por um preço tão pequeno que nem acreditei. Quando fui visitá-la, realizei a compra na hora, sem ao menos pensar duas vezes. Tudo bem que era pequena. E tudo bem que era dupla.

Certo, deixe-me explicar.

A casa na realidade era enorme, só que dividida em duas. Mal dava para perceber por causa da reforma que o antigo dono havia feito. Como a planta era toda simétrica, e ele precisava de dinheiro, teve a grande ideia de dividi-la em duas e alugar a outra parte. Funcionou. Bom, não deve ter funcionado tanto assim, visto que comprei a parcela que pertencia ao antigo dono. O vizinho acabou comprando de vez a outra. Mas sério, nem parecia que eram duas casas em uma. Havia duas varandinhas logo na frente, e a divisão era bem clara: a de número 104 era uma casinha cor-de-rosa, meio salmon, e a 105 era toda azul. Uma barra de proteção branca e bem bonitinha separava as duas singelas varandas.

Subi o degrauzinho até a varanda da casa de número 104. As instalações já eram todas distintas; as contas de água e luz vinham separadamente. O muro gradeado era baixo, e a portinha de madeira na frente ficava sempre aberta. Até porque não adiantaria muito trancá-la, qualquer sujeito podia atravessá-la com um pulo. Precisava me lembrar de não esquecer a porta aberta, nem as janelas. Ainda bem que o bairro era seguro. Até guarda noturno havia, daqueles que apitam durante a madrugada. Coisa de tempo antigo mesmo!

Sorri pela milésima vez enquanto virava a chave (a minha chave) na maçaneta (a minha maçaneta).

– Vida nova... Aqui vou eu! – murmurei e ri baixo, abrindo a porta no mesmo instante em que a porta vizinha foi aberta.

Ouvi risadas. Parecia um grupo de mulheres. Decidi esperar para saudar o meu vizinho. O corretor disse que era um homem que morava ao lado, e que ele morava sozinho, mas devia estar recebendo visitas, sei lá. Enfim, queria falar com o sujeito. Morar ao lado de um cara poderia ser bom, traria mais segurança e eu ficaria menos neurótica. As risadas continuaram enquanto três mulheres desciam a escadinha da varanda vizinha e seguiam até a portinha de ferro. Nem olharam para a minha cara. Sequer notaram a minha presença. Estava desistindo de dar um “alô” para o vizinho quando um sujeito alto, ruivo, com as costas largas e com a bunda maior que a da Carla Perez foi até a portinha. Não sei o que me deixou assustada tão depressa. Não sei se foi assistir ao cara beijando as três mulheres de uma só vez (e na boca!), se foi o seu corpo estupendo ou o fato de ele estar trajando apenas uma cueca boxer cinza.

Meu queixo caiu. E caiu mais ainda, acho que a minha língua se apoiou no chão de madeira da minha varanda, quando o sujeito se virou de frente depois que as garotas foram embora, mostrando

uma protuberância óbvia na parte da frente da cueca.

Foi só isso que consegui visualizar, juro. Não

consegui tirar os meus olhos do saco do cara, foi mais forte que eu.

– Ei, você é a nova vizinha? – o homem gritou, aproximando-se. Eu ainda olhava para o saco dele.

– Ei! Como é mesmo o seu nome? – parou bem na minha frente, e me vi obrigada a encarar o seu rosto.

Minha língua dançou a macarena no chão da varanda. A baba escorreu pela beirada da minha boca, e achei que o dia estava quente demais para o meu gosto. Devia fazer tipo uns... quinhentos graus Celsius.

O homem sorriu de um jeito malicioso, notando o meu estado de transe imediato. Dentes brancos maravilhosos se puseram à mostra. Olhos escuros um pouco caramelizados e sobrancelhas grossas incitaram a mais profunda sacanagem.

Ele chacoalhou uma mão na minha frente.

– Ei! Acorda!

– Puta que pariu.

– Hã?

– Meu nome é Nagisa... – Consegui erguer uma mão para frente. Ele a apertou utilizando mais força que o necessário. Como sua mão era quente!

Minha língua continuou fazendo a dancinha ridícula da macarena. O cara sorriu ainda mais maliciosamente. Sinceramente? Não dá para descrever o que foi a visão daquele homem de cueca, rindo daquele jeito na minha frente. Era um absurdo. Uma afronta contra toda a comunidade feminina.

– Muito prazer, Nagisa. Prazer até demais... Ah! – ele soltou um gemido? Sério, produção?

Não soube responder na hora, mas o sorriso sacana não desapareceu do seu rosto por nada.

– Pensei

que uma velhota tivesse comprado o 104.

– Acho que eu sou a velhota – murmurei, ainda sem acreditar nos meus olhos que a terra há de

comer.

O cara gargalhou. Tipo, mesmo. Colocou até uma mão na barriga, composta por um tanquinho

que me fez perceber que lavar roupa não seria algo tão ruim assim.

– De modo algum, Nagisa! Você tá no ponto.

No ponto de quê, Senhor?

– Desculpa, como é seu nome mesmo? – fechei os olhos e balancei a cabeça em negativa.

Tomei fôlego e os reabri. Precisava me concentrar. Aquela energia que fazia os meus olhos serem atraídos para a cueca do homem não podia ser mais forte que eu.

– Você pode me chamar do que quiser... – falou com a voz nitidamente afetada e piscou um

olho. Depois, passou a língua por seus lábios grossos.

Achei que fosse desfalecer. Passei séculos traduzidos em um segundo tentando assimilar o que tinha sido aquela passada básica de língua.

– Ok, vou te chamar de Calvin. – falei sem pensar.

– Calvin? – o cara fez uma careta divertida.

– Calvin Klein. – olhei para a sua cueca, e ele gargalhou alto.

Era a marca da maldita. Sei disso porque tinha uma faixa com o nome rodeando a sua cintura definida.

Sem conseguir reagir a mais nada, simplesmente virei as costas e entrei na minha nova casa sem sequer olhar para trás.

Como eu estava dizendo... Podia ter sido com você. Mas foi comigo. E, dali em diante, descobri que morar sozinha podia significar tudo, menos tranquilidade. A minha mudança necessária não podia ser normal, afinal, eu não sou normal. Tenho uma família doida que me fez desenvolver distúrbios psicológicos irreparáveis.

Juro que só queria paz. Queria tédio. Queria um domingo de pura morgação diante do Faustão, comendo pizza requentada e esperando pela segunda-feira como quem espera pela morte. Mas não. Nada seria igual e, ao mesmo tempo, seria tão louco quanto. Não podia esperar pelo diferente, não depois de ter conhecido o Sr. Calvin Klein, mais conhecido como o safado do 105.

Passei a manhã e a tarde inteira organizando os móveis, que ainda estavam na caixa, pois os havia comprado durante a semana. Não tinha onde guardá-los na antiga casa – não sem causar verdadeiro rebuliço –, portanto deixei mesmo para o último instante. As entregas foram realizadas gradativamente, e ainda tinha muitas coisas a caminho.

A minha cozinha estava incompleta, bem como a sala de estar. O único cômodo pronto de verdade era o quarto, composto pela minha maravilhosa cama de casal (só para mim!) e o meu guarda-roupa cor-de-rosa com seis portas (só para as minhas roupas!). O meu banheiro também estava pronto. Espalhei sabonetes decorativos na pia e nos diversos compartimentos do móvel novo que comprei para colocar toalhas e alguns produtos de higiene. Ficou uma maravilha, tudo branquinho e na cerâmica... Ai, como adoro banheiros limpinhos e cheirosos!

Era impossível ter um daquele antes, pois meu irmão adolescente é um moleque que não sabe usar nada sem sujar de um jeito irreparável.

Nunca fiquei tão feliz em fazer cocô. Sério, mal dava para acreditar quando fiz a minha estreia sensacional no meu próprio banheiro. A alegria não coube em mim, e me vi rindo sozinha enquanto caga...defecava.

Enfim, vou mudar de assunto, a coisa está ficando meio nojenta.

Fiz uma limpeza geral ao som do Linkin Park. A casa não estava tão suja assim, mas guardava um pouco do cheiro do antigo dono. Queria que a minha casa tivesse o meu cheiro e, mesmo sabendo que levaria um tempo, aquela limpeza inicial seria muito necessária para que atingisse os meus objetivos.

No fim da arrumação, achei que o cafofo já estava com cara de casa, afinal. Não poderia receber os amigos ainda, pois estava sem sofás ou qualquer lugar onde pudessem se sentar, mas para o meu dia a dia estava ótimo. O meu lar precisava primeiramente me receber, depois que receberia os outros. Tudo tem seu tempo. Além do mais, era uma ótima desculpa para não receber nenhum membro da família. E isso era uma notícia muito boa.

Organizei as minhas roupas no armário com a maior dedicação possível. Retirei lençóis e edredons novos, com cheirinho de limpo. Fiz tudo com tanta dedicação que me esqueci totalmente de comer. Quando fui sentir fome eram quase sete horas da noite. Não sabia onde arranjaria comida tão tarde em um dia de domingo, por isso me lembrei do meu vizinho.

O senhor Calvin Klein.

Ele poderia me dizer se tinha alguma pizzaria ou delivery por perto. Só esperava não encontrá-lo usando apenas cueca de novo. Não estava tão preparada assim para mais doses de sedução e sacanagem. O cara era doido, mas eu precisava me acostumar com ele rápido. Não tenho preconceitos ou comentários depreciativos para fazer, por mim o cara pode realizar as suas orgias dentro de casa – com direito a quantas mulheres quiser –, não vou me incomodar. Não sou nenhuma mulher quadrada que fica horrorizada com a sexualidade alheia, cada um faz o que quer da própria vida e do próprio prazer. Considero-me uma pessoa bem mente aberta. Tanto, que às vezes sou confundida com uma tapada lesada.

Saí da minha casa e logo senti um frio absurdo. Não sabia que a brisa fresca da manhã se transformaria em um vento frio irritante, mas não achei de todo ruim. A minha antiga casa era naturalmente quente. Não sei se o inferno era ali ou se havia algum outro tipo de explicação, mas às vezes o tempo estava bom e a casa continuava abafada, cozinhando-nos como pedaços de carne bovina.

Sorri ao descer o degrau da minha varanda e subir o da varanda do vizinho. Não sabia o que esperava daquele novo encontro, mas estava um pouco mais preparada para eventuais surpresas.

O cara era gostoso e voluptuoso. Além de muito safado. Ficava jogando indiretas.

Enfim, eu precisava me adaptar com o seu jeito safado de ser. Ele era novo – talvez até mais do que eu –, precisava mesmo curtir a vida e dar em cima da vizinha novata.

Eu realmente não me importava. Se ele quisesse viver eternamente imerso no máximo teor da luxúria, o problema era dele. Desde que me fornecesse um pouco de segurança e civilidade, estaria ótimo para mim. Seria bom também se não andasse de cueca enquanto eu estivesse com visitas. Pelo menos isso. Mas bem, achei que o fato de ele fingir não ser um galinha assumido para a minha família pudesse fazer parte de uma conversa futura. O primeiro dia precisava ser mais light, sem regras e mimimis.

Não estava a fim de me tornar uma vizinha chata logo de cara. Preferia esperar para ver o seu comportamento no dia a dia para começar a tomar alguma atitude a respeito. Para mim, não existe essa de “a primeira impressão é a que fica”. As pessoas mudam o tempo todo, além de que, sei lá, ele podia estar bêbado ou sob efeito de alguma droga mais cedo. Vai saber. Eu não o conheço, assim como as pessoas, de modo geral, não se conhecem. É ridículo julgar por apenas uma atitude, ainda mais sendo a primeira e única que você acompanhou.

Soltei um suspiro, tentando me preparar para sentir uma vontade louca de dar. Sei que ele me faria sentir aquilo, afinal, não sou cega, surda ou muda, e tenho hormônios que funcionam muito bem, obrigada. Sou extremamente heterossexual, adoro homens de todos os tipos, mas tenho uma queda por homens grandes. O safado do 105 era enorme.

Não encontrei campainha, por isso dei algumas batidas na porta. Esperei por alguns segundos, e nada aconteceu. Bati novamente, desta vez com mais veemência. Nada.

Sabia que tinha gente em casa, pois as luzes estavam acesas. Decidi verificar na janela ao lado da porta. Sei que é feio bisbilhotar o interior da casa alheia, mas eu realmente queria uma orientação sobre como arranjar comida no bairro àquela hora da noite. Não me lembro de ter passado por uma padaria ou mercadinho pela manhã, mas posso ter me distraído de tão excitada com a mudança que estava.

A janela da casa 105 estava fechada, mas dava para ver perfeitamente o interior.

Diferentemente da minha janela ao lado da porta – que dava para a sala de estar –, a do vizinho dava para a cozinha.

Devo confessar que soltei um arquejo maluco de surpresa quando visualizei o meu querido Calvin.

– Tá de brincadeira... – murmurei baixinho logo após a minha quase engasgada.

O Senhor Calvin Klein estava trajando um short preto por cima da cueca, que não soube dizer se era a mesma, mas a tarja da Calvin ainda se fazia presente. Só isso. Mas ver o seu corpo digno de galã exposto não foi tudo. O cara estava com fones de ouvidos enormes, cantando alguma música com muita empolgação – não dava para ouvir sua voz dali –, enquanto batia uma colher de pau dentro de uma vasilha grande.

O sujeito estava cozinhando?

Só me restou pensar sobre o que iria fazer. Podia dar meia volta e pegar o meu carro, seguir sem direção pelo bairro até achar alguma coisa. Ou podia dar umas batidinhas na janela, vai que ele perceba a minha presença.

Olha, vou te dizer, às vezes faço coisas sem medir as consequências. Quando vejo... Bum! Está feito. Devo ter pirado ou algo assim, pois as minhas mãos bateram na janela com força, e o vizinho boy magia se assustou no mesmo instante. Ainda pensei em sair correndo, mas era tarde demais.

Calvin me acharia muito louca se eu simplesmente sumisse, do nada. Não podia dar uma de louca logo no primeiro dia.

Ele sorriu daquele jeito sacana quando percebeu que era eu. Deixou a vasilha em cima de uma mesa que havia bem no meio da cozinha, estilo bem americanizado.

Tirou os fones de ouvido e veio até a janela, abrindo-a através de um trinco na lateral. A janela era igualzinha a minha.

– Nagisa! A nova vizinha do 104, o que é que manda? Quer açúcar? Ou quer algo mais? – o maldito teve a cara de pau de me olhar como se eu fosse um pedaço farto de bisteca suína ao molho barbecue. Senti fome só de pensar nisso, mas acho que devo ter corado tanto que o barbecue virou molho de tomate.

– Er... Sabe o que é, Calvin... – ele gargalhou diante do apelido que eu coloquei nele. Parei de falar e esperei que terminasse de rir da minha cara.

– Ai, desculpa, Nagisa. Você é engraçada além de gata. Pode falar.

Prendi os lábios e fiz uma careta. Sério, não estava acostumada com tanta cara de pau. Ele me deixava desconcertada só com um olhar. Ficava parecendo uma menininha virgem diante dele. Que merda! Ele devia estar me achando a maior quadrada!

Respirei fundo e tentei me controlar. Ele agitou os cabelos castanhos entre os dedos e se apoiou na parede ao lado da janela, deixando o músculo definido do braço esquerdo bem destacado. Continuou me hipnotizando com aquele jeito cafajeste malicioso.

– Estou com fome e me esqueci de fazer compras... – Fui rápida e séria. – Pode me dizer onde tem algum mercado por aqui?

Ele não respondeu logo. Continuou me olhando como se eu não tivesse dito nada. Pensei em perguntar novamente, mas aí ele abriu a boca e soltou um suspiro que mais pareceu um gemido.

Alguma parte sugestiva do meu corpo deu uma vibrada bem básica. O frio foi embora de repente, como se a lua tivesse virado sol.

– Você está com muita sorte, Nagisa. Aliás, a sua maior sorte foi ter comprado a casa de número 104. Sou um ótimo vizinho, sabe? – continuou sorrindo “sacanamente”. – Sou muito prendado, adoro cozinhar. Não há um dia que eu não prepare um prato novo, e hoje estou fazendo nhoque. Gosta?

Arregalei os olhos.

– Gos... Gosto.

Ele se aproximou da janela até deixar a cabeça do lado de fora. Precisei dar um passo para trás, pois a impressão que tive foi a de que o sem-noção iria me beijar ali mesmo, como se eu tivesse acabado de dizer que gosto dele e não do maldito nhoque.

– Com molho de queijo – murmurou sem se abater. – Muito queijo derretido. Receita da minha mãe, ela é italiana. Que Deus a tenha!

Fiquei meio sem graça. Ele não pareceu nada abalado.

– Sinto muito.

– Ah, eu nem a conheci. – gargalhou. – Morreu assim que me teve. Enfim... Nagisa, minha querida vizinha, gostaria de dividir o nhoque comigo?

Abri a boca, sem saber o que responder. Não podia aceitar, podia? Eu só queria saber onde era a padaria mais próxima.

Não estava a fim de comer com um cara safado soltando indiretas, ou melhor, diretas. Apesar de ser mente aberta e de não me importar com as safadezas dos outros, gosto de manter a cordialidade, o respeito e a normalidade, na medida do possível.

– Eu só... Só queria saber se há uma padaria...

Calvin bufou, parecendo indignado.

– Amanhã eu te mostro, Nagisa. Venha, vizinha, juro que não vai doer. – dei alguns passos para trás, sentindo-me um pouco perdida. Ainda estávamos falando de um convite para jantar? – Espere aí, não fuja! Eu não mordo... Bom, posso morder se você quiser. – Piscou um olho. Fiz uma careta. – É sério, Nagisa, fica aí. Vou abrir a porta.

Eu, hein? Não consegui raciocinar muito enquanto esperava o doido varrido abrir a porta de sua casa. Também não pensei quando entrei devagar, sendo assistida por aquele cara enorme e gostoso, que não parava de sorrir com malícia.

A casa dele era quase a mesma coisa que a minha, só mudava a disposição dos cômodos. Sua cozinha estava no lugar da minha sala e a sua sala no lugar da minha cozinha. O resto era tudo igual. E meio bagunçado também. Quero dizer, tinha roupas espalhadas pelos móveis. Algumas até femininas. O sofá estava meio fora de posição, mas, tirando isso, a casa dele era bem normal. O que chamou a minha atenção foi um mural de fotos na parede da sala. Calvin Klein posava em fotos loucas, uma mais engraçada que a outra, na companhia de amigos, amigas – muitas, muitas amigas – e pessoas que achei que fossem familiares, por serem mais velhas. Precisei desviar o rosto quando percebi algumas fotografias em que ele estava nu, rodeado de mulheres gatas, todas nuas.

Resfoleguei.

– Então... Faz o quê da vida, vizinha?

Ele perguntou da cozinha. Já tinha voltado a machucar a massa com força, utilizando-se daqueles braços fortes e grandes como ele. Um cheiro delicioso subiu, e consegui identificar: era queijo sendo derretido.

– Sou ginecologista – respondi.

O safado gargalhou alto.

– Puta merda, é o emprego dos meus sonhos! Como se sente admirando todos os tipos de vagina do mundo?

Comecei a rir sozinha. A cara de vislumbre do Sr. Klein foi muito engraçada, do jeito que a minha mente perturbada supôs.

– Estava brincando, Calvin! Sou analista de sistemas.

Ele deu de ombros.

– Ah... Legal. Danadinha, me pegou de jeito! Vai ver, um dia vou te pegar de jeito também!

O maluco continuou rindo, mas parei no mesmo instante. Tipo, como reagir diante das diretas que me soltava? Não pude evitar; meu rosto esquentou de novo.

Arrependi-me de ter feito aquela piada. Não devia brincar em terreno desconhecido. O cara podia ser um ninfomaníaco, sei lá.

Fui até a cozinha e me sentei em uma cadeira de perna alta. Tentei não olhar para o corpo perfeito dele, nem observar o modo delicioso como se movia enquanto colocava a massa em um aparelho que fazia o nhoque ter cara de nhoque.

– E você, o que faz? – Arrependi-me de ter aberto a minha boca assim que o fiz.

Preparei-me para outra piadinha.

– Sou chefe de cozinha em um restaurante.

Quase engasguei com a minha baba.

– Sério?

Olhei-o sem querer, e ele já estava me olhando. Desta vez, seriamente. Não, digo, não foi seriamente, foi com uma expressão além da seriedade. Parecia desejo. O doido estava me secando.

Filho de uma mãe sem pai...

– Não, sou apenas um ajudante que fica lavando os pratos e preparando molhos. Mas sonhar é de graça! – riu de um jeito divertido, e acabei rindo também. Ele parou. – Ei, é legal quando você ri. Gostei, Nagisa.

Devo ter corado pela milésima vez.

– Então... Queria ser cozinheiro? – mudei de assunto.

– É. Ainda vou ser um dia. Quem sabe...

Era engraçado ver um cara do tamanho (e do corpo) dele querendo ser cozinheiro. Sempre achei que todos os cozinheiros fossem velhos, obesos e barbudos, mas pelo visto estava enganada.

– Vou provar o seu nhoque, aí te digo se você é bom mesmo.

Ele me olhou e sorriu com o modo cafajeste ativado.

– Sou bom em muitas coisas, vizinha. Basta que prove.

Uau! Aquela foi demais para a minha calcinha. Na moral, foi difícil ver aquele homem na minha frente e não imaginar as coisas nas quais ele pudesse ser bom. Confesso que, enquanto ele terminava de fazer o jantar – como se nada tivesse dito –, um filme pornográfico imenso se passou pela minha cabeça, com direito a tudo o que há de mais erótico. Rolou de tudo um pouco, acredite. As minhas ideias se transformaram em um bacanal.

Quando o nhoque foi servido, eu estava quase pirando por uma “sobremesa”, se é que me entendem. Mas fui me acalmando.

Precisava voltar a ser firme. Sr. Klein comeu no mais completo

silêncio, só me olhava de vez em quando. Ainda bem.

O nhoque ao molho de queijo estava divino. Aliás, não me lembro de ter comido um nhoque tão gostoso em toda a minha vida. Confesso que, enquanto comia, não conseguia parar de pensar no instante em que eu elogiaria o jantar. O doido certamente soltaria mais uma direta, e não sei até quando suportaria aquele joguinho idiota de sedução.

Só depois da nossa última garfada que ele voltou a falar:

– Nagisa, não me mate de expectativa. Eu sou um ansioso, não sei esperar por nada. – a careta que fez não negou a sua ansiedade. Parecia um moleque. – O que achou do jantar? Pode ser sincera.

Inspirei todo o ar que me foi possível. Meu coração começou a bater bem depressa, e nem sei dizer por que.

– Perfeito, Calvin. Você cozinha bem pra burro. Nunca comi um nhoque tão bom... E não estou elogiando só porque sou sua vizinha, juro.

Ele gargalhou e se levantou da cadeira. Deu-me um beijo bem demorado na bochecha. Quero dizer, acho que era para ser na bochecha, mas na realidade foi no canto da minha boca.

– Ei... Gostei de você, vizinha. Vamos ser ótimos vizinhos.

Disso eu não duvidava, Sr. Calvin Klein. Não dava para duvidar nem se eu quisesse.

Mas a coisa foi mais complicada do que pensei.



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