História O SAFADO DO 105 - Capítulo 38


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook)
Visualizações 42
Palavras 7.661
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 38 - Cap 38 Por Calvin


Fanfic / Fanfiction O SAFADO DO 105 - Capítulo 38 - Cap 38 Por Calvin


CAPÍTULO 38 

“A inacreditável gota de sorte que cai sobre a testa de um homem de azar”

A beleza se resume nos olhos dela. São duas luzes castanhas, que me fazem lembrar avelãs, demonstrando a mais sublime verdade, enaltecendo o que é sincero e traduzindo o amor mais lindo que já recebi de alguém. Não que eu tenha recebido tanto assim; uma quantidade favorável deste sentimento é digna apenas dos que têm sorte, e eu nunca tive o prazer de me achar um cara sortudo. Até então. Agradeci ao Deus que ela acredita – e acredito nela – em silêncio. Não podia haver felicidade maior do que aquela que eu sentia quando a S/N dormia em meus braços. Seu corpo nu, a pele leitosa e as curvas femininas de seu corpo enigmático me levavam ao êxtase sem precisarem fazer esforço. Não tenho dúvidas de que a mulher que respirava tão perto de mim era a mais encantadora que já conheci. É lamentável que eu seja burro demais para merecê-la. Queria poder apagar as páginas da minha vida só para reescrevê-las a partir do momento em que aqueles lábios confessaram um amor que, não sei como, nasceu naquele doce coração. Talvez por isso mesmo que tenha acontecido: a bondade dela redime os meus pecados e seleciona apenas o que tenho de melhor. O pouco que me basta de digno. Como não ser o meu melhor, por ela? Como não buscar a dignidade que alivia a minha culpa por ter sido o canalha que sempre fui? Ela me fez mudar de ideia; mais do que isso, ela me fez mudar tudo o que sou. Porque seu amor me cura diariamente, porque me alivia, me traz paz, me faz esquecer o que sempre tentei e jamais consegui. S/N é a minha redenção, é o meu sentir, o meu transformar... Ela é a minha chance. A minha última chance de amar, e saber que não terei outras oportunidades – jamais permitirei que alguém que não seja ela me ame – me causa medo. Muito medo. Sei que vou acabar perdendo essa chance, exatamente do mesmo modo como perdi tudo na minha vida. Não, Jungkook... Pare de pensar nisso. Acredite nela. Confie. Tudo vai dar certo. Chegou o seu momento de ser feliz, de compensar tantos anos torturantes... Eu não posso magoá-la. Não posso fazer merda. Porra, eu sempre faço merda. Seja o seu melhor, Jungkook. Busque a força dos que não desistem. Seja homem como o seu pai foi. S/N só merece a sua força. Seus medos e fraquezas não podem ser revelados. Esconda-os. Escondaos para não perdê-la, e jamais os procure de novo, até que se esqueça onde os escondeu. Meus pensamentos se tornaram nebulosos quando a coisa mais linda que já me aconteceu abriu os olhos. Sorriu, mostrando dentes e lábios tão perfeitos que podiam se transformar em poesia.

– Bom dia, vizinha... – falei como de praxe, devolvendo o mesmo sorriso e sabendo que, se ela sentisse metade do que sinto quando a vejo sorrir, seria o bastante para que estivesse totalmente apaixonada. E a sua paixão por alguém como eu jamais seria meu mérito, e sim dela, por ser tão capaz de amar o que ninguém amaria. Acho que ela é como a Clarice: “o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão”. Não sei o que faz essas duas mulheres enxergarem beleza e sentirem deslumbre pelo que é fracassado. Longe de mim julgá-las. Muito pelo contrário, eu as admiro. Como não se apaixonar? S/N é tão perfeita quanto a minha louca Clarice. E eu só posso me achar um cara de sorte, por mais que a sorte jamais tenha estado ao meu lado. Ela e eu somos dois desconhecidos que se cruzam em uma rua com flores lindas que a S/N plantou.

– Bom dia, vizinho! Poxa, segunda-feira... Estou morta, mas feliz! – Seu sorriso amplo não a deixou negar. Abracei-a como se estivesse abraçando o mundo. E estava: o meu. Congelei diante da palavra morta. Preciso parar de pensar nisso. Preciso me livrar do medo que tira o meu fôlego. S/N não vai morrer. Não acontecerá nenhum acidente. Ela tem boa saúde... Observei seu rosto só para conferir se estava corado. Parecia meio pálida. Será que estava bem? Será que mantinha exames atualizados? Estava decidido: precisava fazer comidas mais saudáveis para gente, começando por aquela manhã. S/N anda comendo muita besteira, e a culpa é totalmente minha. Anotei na agenda mental: comprar beterraba, laranja, limão, hortelã e cenoura. Faria um suco bem forte na manhã seguinte.

– Como se sente? – perguntei, tentando disfarçar o desespero. Meu coração nunca bateu tanto quanto nos últimos meses.

– Cansada... – Meus pensamentos voltaram ao passado, como sempre. Os olhos cansados do meu pai quase imploravam para morrer. Ele vivia cansado o tempo todo. Até eu me contagiei com o seu cansaço, lembro-me de não conseguir fazer nada direito durante sua doença. – Mas pronta pro que der e vier! S/N se espreguiçou, separando-nos um pouco. Deu-me um selinho e pulou da cama, deixando-me louco ao permitir que sua bunda alcançasse o meu campo de visão. Que traseiro delicioso... Puta merda! Um dia ainda comeria aquele cu redondinho, meu pau já não podia se conter de tesão por ele. Fiquei duro só de vê-la se vestindo com as roupas que havia separado antes de vir dormir na minha casa. Sempre acordo excitado, mas respeito seu horário no trabalho. Jamais permitiria que se atrasasse. Espreguicei-me e fui me levantando também. Tinha polpa de maracujá na geladeira; pensei em fazer um suco misturado com chá de camomila. Traria tranquilidade e calma para a minha linda durante o dia. Mas não era o bastante, ela precisava de algo mais forte... Pensei por um instante e decidi fazer crepe com recheio de queijo e peito de peru. S/N come pouco de manhã, mas não me escaparia. Vesti uma cueca antes que percebesse o meu pau louco por uma foda bem dada, e fui à cozinha. Precisava ser rápido. Separei todos os ingredientes e comecei a preparar tudo ao mesmo tempo: coloquei água para ferver, pus a polpa de maracujá no liquidificador, cortei algumas frutas e

reuni os itens para a preparação do crepe. Estava acostumado com a rotina intensa do restaurante. Cozinhar profissionalmente exige competências como rapidez, habilidade e inteligência. S/N apareceu toda pronta meia hora depois. Sentei-a diante da mesa da cozinha e lhe servi o que já estava pronto. As frutas foram as primeiras, e a obriguei a comer tudo.

– Você vai me transformar numa baleia! – Riu. Ri também, ainda mais porque prefiro uma baleia a um peixe-agulha doente.

– Vai ficar linda do mesmo jeito. Pare de reclamar e coma, S/N. Quero você bem alimentada. – Queria isso uma parte pelo meu sangue Asiático, que não admite desfeitas, e a outra por pura paranoia. Vale salientar que a paranoia era a maior delas.

– Não vai comer? – perguntou com a boca um pouco cheia. Mais uma coisa que gosto na S/N: ela não tem cerimônia. Além de que tem um ótimo senso de humor; às vezes fico rindo sozinho me lembrando das coisas que fala, pareço um idiota. Isso sem falar da inteligência, da maturidade, da beleza única... Acho que me empolguei de novo. Tenho que aprender a me conter. Toda vez que penso em uma qualidade para ela, sempre me vem várias na mente. – Agora não, vou cuidar do jardim primeiro.

– Não vai dormir um pouco mais? Seu horário é estendido, lembre-se disso...

– Vou ficar bem. S/N sorriu mais uma vez. Cansei de resistir e lhe dei um beijo curto. Adoro o choque entre os nossos lábios; é uma carga eletrizante que me trouxe vício desde o primeiro. Bem que tentei resistir a tudo o que aquela louca me fazia, mas foi impossível. Ela chegou como um furacão, movendo tudo do lugar, mexendo com a minha história e praticamente me obrigando a mergulhar de cabeça em uma coisa que nunca conheci ou entendi. Acabei me lembrando de uma frase: “renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Clarice narra a história da minha vida e morreu sem saber disso. Enquanto a observava comendo e sorrindo para mim, uma dor de cabeça horrível, a mesma de sempre, quis se aproximar. Eu já era tão familiarizado com aquela dor que sabia que ela viria e que doeria pra caramba, antes que, de fato, viesse e doesse. Lembrar-me daquele mergulho me trazia uma angústia dilacerante. Não podia negar, como venho fazendo, ou me esconder, como sempre fiz; havia acontecido comigo o que prometi jamais deixar acontecer. Eu me apaixonei. Ou melhor, paixão é até simples de lidar, aquilo ia além... Paixão é o que sinto pelas plantas, pela gastronomia, pela academia, pelos meus livros... O que eu sentia pela S/N tinha outro nome. Quebrei a minha promessa. Meu pai deve estar decepcionado comigo. Ele me fez prometer tantas vezes que jamais amaria uma mulher... Mesmo que estivesse bêbado e pensando na mamãe, sempre achei que estivesse querendo o melhor para mim. Sei que o melhor é não se envolver, sei que não devia... Não devia. Como fui deixar que acontecesse? Onde estava com a cabeça? Triste momento aquele em que

percebi que... S/N tinha que ter saído da festa daquele jeito? Precisava estar tão linda, tão... Por que ela fazia tudo o que eu gosto, era tudo o que eu queria que fosse, falava tudo o que eu precisava ouvir, fazia qualquer coisa que me agradasse, até me convencer de que mais nada faria sentido sem sua presença? Ela me enfeitiçou. Sinto-me embriagado, vivendo uma ilusão que insiste em alegar que mereço ser feliz e parar de achar que vou morrer sozinho. Tudo ilusão... Ou não? A vida me deu mesmo uma chance? Uma real oportunidade? Ou só abriu um espaço dentro de mim apenas para que as feridas se aprofundassem, já que criei uma casca grossa na superfície do meu ser? Tive vontade de gritar quando a S/N precisou ir embora, e nos despedimos no jardim. Por fora, eu era o cara corajoso que ela merecia, mas por dentro eu estava gritando. “Porque há o direito ao grito. Então eu grito”. Pudera poder gritar de verdade. Clarice é a única que tem esse direito. Enchi o regador com água em vez disso. Suspirei de tristeza e solidão, depois sorri. Meu pai era o cara mais engraçado que já conheci. Ele ria, mesmo que sua alma estivesse em pedaços. Espalhava alegria mesmo não guardando sequer um resquício para si. Aquela promessa eu jamais descumpriria: seria uma pessoa alegre. Mesmo sendo mentira. Alegria inventada enlouquece menos do que tristeza real.

– Ei... – Segurei algumas folhas do pé de goiaba. Aquele estava vivo desde que eu era pequeno. Minha avó o adorava.

– Bom dia... Como estamos hoje? – Suspirei de novo. – Eu sei, vai passar. “Você pensa que essa dor nunca vai passar, mas passa”... – Ri de mim mesmo.

– Eu espero até hoje que passe, você sabe. – Peguei o regador e comecei a jogar água nas plantas que estavam por perto.

– Clarice sempre está certa. O problema deve ser comigo... Eu sei, não estou me autoflagelando de novo, não se preocupe. É só que devo ter uma memória muito boa. Comecei a rir de verdade, até virar uma gargalhada. A minha mania de inventar longas conversas com as plantas era engraçada. Se alguém me visse, acharia que eu era um louco ou um esquisitão. Não me importo. “E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.” O fato é que as plantas crescem mais saudáveis quando converso com elas. Foi a minha avó quem me ensinou isso. E ela está certa: uma vez salvei uma palmeira inteira só no bate-papo e muita paciência. Juro que ela estava desacreditada, quase cheguei a desistir dela. As plantas são mágicas. Queria que as pessoas fossem assim; uma bela conversa e pronto, ficam vivas de novo. Mas não são. Nada as traz de volta. Nada. E olha que eu já tentei de tudo. Estava pensando na morte – sempre penso nela – quando a S/N me mandou uma mensagem, a primeira do dia. Avisou que tinha chegado e me desejou um ótimo dia. Pude até visualizar o seu sorriso e o jeito incrível como seus olhos brilhavam. Sorrindo, respondi para que se cuidasse. Pensei em escrever mais coisas, porém travei. Quase nunca sei o que dizer a ela. Eu podia me acostumar se não fosse a frustração. Ficava decepcionado comigo mesmo quando não conseguia desabafar tudo o que tinha para lhe dizer. Fiquei me sentindo um lixo depois que enviei uma mensagem sem graça. Quase não pude conter a vontade de transar. Só sexo me faz relaxar de verdade. Só uma boceta bem molhada e apertada me

tira essa dor de cabeça, essa angústia, frustração, essa merda que massacra o meu peito e não me deixa respirar. Peguei o meu celular e dei uma olhada na agenda. Só tinha nome de mulher, de A a Z, cada qual disposta a ser fodida, bastava uma ligação. Naquele momento, só consegui visualizar nome de remédio. Era o que elas representavam; a cura para a minha capacidade de autoflagelamento. Nem cheguei a procurar muito, escolhi o primeiro nome: Aline. Ela atendeu bem rápido, até meio eufórica. Eu não fazia ideia de quem era aquela mulher. Havia umas dez Alines na agenda.

– Uau, que surpresa é essa, Jungkook? Me dê uma boa notícia! Suspirei. Que droga era aquela que eu estava fazendo?

– Desculpa, Aline, liguei errado – falei tão rápido e embaralhado que acho que ela não entendeu nada. Nem eu. Não dava para me entender. Era a terceira vez que aquilo acontecia. Isso sem contar com as ligações e mensagens que eu recebia o tempo todo. Meu celular andava no silencioso ultimamente. Só agradeço porque a S/N não o confiscou. Ela ia se magoar muito caso fizesse, e com razão. Sendo que, juro, faz três semanas que não atendo ninguém além dela. Não... Caralho, eu a estou magoando com esses surtos. Preciso continuar me mantendo fiel. S/N merece total fidelidade, assistência, enfim... Há uma lista imensa de coisas que ela merece, e em nenhum item é mencionado os meus distúrbios psicológicos. Eu não a mereço. Não consigo parar de fazer merda. Não consigo... Se eu não tivesse desligado? Porra... Nenhuma qualquer vai me satisfazer de verdade. Só a S/N me satisfaz. Só ela. Não adianta buscar conforto momentâneo e criar mais um motivo para dor de cabeça. Não suportarei me sentir pior do que já estou, e sei que ficaria se a traísse. Estou precisando de ajuda. Não consigo sozinho. Já provei a mim mesmo que não consigo superar, ultimamente só a S/N tem me convencido do contrário. Preciso ter paciência e continuar segurando as pontas, navegando contra a maré depressiva que me impede de ser eu mesmo. Já não sei mais onde me escondo. Meu eu permanece em um horizonte distante, alheio a mim, fora de qualquer realidade. Trabalhei nas plantas durante uma hora. Ignorei mais duas ligações neste meio tempo. Minha vontade de relaxar foi sufocada pelas aflições, e decidi parar quando a cabeça iniciou o seu processo de diário de perturbação mental. Tomei o suco que tinha feito para a S/N, além de uma série de suplementos. Coloquei uma roupa para ir à academia e simplesmente fui, porque se eu deixasse de fazer o que gostava por causa da dor, estaria vegetando vinte e quatro horas em cima de uma cama. Talvez a Clarice tenha errado quando me garantiu que a dor ia passar, porém estava certa quando disse que devemos viver apesar de. Lembrei-me da carta da S/N instantaneamente. Era impressionante como, mesmo sem conhecer um lado obscuro que habita em mim, ela me conhece. Toda a minha trajetória foi marcada pelo apesar de, sei muito bem como lidar com ele. Ou não. Às vezes me esqueço. Às vezes fantasio, maquio a realidade, entro em mundos que só existem na minha cabeça. O que sobra é apenas uma antiga tristeza que não consigo superar. Uma solidão que já virou companhia de tão reconhecida, e que só percebi o quanto a detestava quando a S/N mandou que fosse embora. Foi um alívio. Pensar nela me traz alívio também. E medo. E pavor. E uma alegria efêmera, um tesão louco, uma vontade de viver nunca sentida, de ser feliz, de ser forte, de sumir, de desistir. Sou um misto de contradições desagradáveis; um moleque que se esqueceu de “se ser”, e colocou a desgraça à frente de sua essência. As garotas da academia já não vieram mais falar comigo. Precisei de muita paciência para chutar uma a uma, até que parassem de me assediar. Malhar se tornou mais suportável. No começo foi horrível; assumir a S/N implica deixar de assumir o meu lado cretino, e é difícil demais deixar de agir do jeito como agi a minha vida inteira. O mundo parece não estar acostumado com as novas atitudes, mas não o culpo, porque nem eu mesmo estou, e sequer sei se um dia estarei. Tive uma ideia razoável quando voltei para casa e precisei ignorar a sexta ligação do dia. Tirei o chip do meu celular e o quebrei. Depois, apaguei todos os números da agenda eletrônica. Estava na hora de parar de viver por um triz. S/N merecia um recomeço completo. A minha vida precisava estar pronta para receber a dela. Só depois que quebrei o chip foi que me lembrei de que tinha que avisá-la quando comprasse um novo. Fiquei logo preocupado, pois haveria um espaço de tempo em que não estaria acessível caso alguma coisa acontecesse. Precisava sair de casa depressa. Tomei um banho revigorante e saí do banheiro me sentindo um pouco melhor. A academia sempre me faz bem. Apesar de estar com a cabeça pesada, o meu corpo agradecia o exercício. Senteime um pouco na cama e encarei a estante da mamãe. Eu podia lidar com a dor. Sobrevivi àquela manhã. Fiz tudo certo. Meu dever de casa estava pronto, agora era só respirar e me distrair fazendo o que mais amo fazer: cozinhar. Estava positivo como quase nunca fico, portanto não precisava descobrir o que acabei descobrindo ao olhar a estante com um pouco mais de atenção: faltava um livro. Meus batimentos aceleraram, e me levantei para conferir. Sabia a posição de cada obra que ali se encontrava, por isso a queda livre foi longa quando me dei conta que faltava justamente o livro de frases da mamãe. Procurei-o por toda parte. Não o encontrei em lugar algum. Descartei a ideia de que talvez a S/N tivesse pegado, pois ela nunca mexe em nada sem a minha permissão, por mais que eu diga para ficar à vontade. Revirei o quarto, a sala e até a cozinha. Não tinha outra explicação: alguém havia roubado o meu livro. Fazia muito tempo que eu não o via mesmo. Pensando melhor, nunca fiquei tanto tempo sem vêlo. Meus pensamentos rastrearam todas as lembranças, até que uma se tornou a mais satisfatória para explicar aquele sumiço: Karen. Ela esteve na minha casa e mexeu nas minhas coisas. Provavelmente o pegou. Karen sabe o quanto aquele livro significa para mim, e o mais difícil foi aceitar que estive tão enganado com relação a ela. E que o meu engano prejudicou muito a S/N. Pensei que a conhecia, mas pelo visto não. Pergunto-me se conhecemos de verdade as pessoas. Cada rosto me parece conter uma máscara, tudo se torna fingimento, falsidade, decepção. S/N tem total razão em não possuir amigos. Melhor estar só do que mal acompanhado; um ditado antigo e extremamente sábio. Puto de raiva – e não era para menos –, terminei de me arrumar e saí de casa antes da hora, já consciente das escalas que faria antes de chegar ao trabalho. A primeira parada era para resolver o

assunto mais importante do dia: precisava recuperar o meu livro o quanto antes. Meu coração não conseguiria se aquietar, sabia que só teria paz quando o tivesse em minhas mãos de novo. Estacionei em frente ao prédio da Karen. Sabia que estaria em casa numa segunda-feira pela manhã – ela estuda odontologia à noite e não faz mais nada da vida, vive da pensão gorda que seus pais ricos lhe dão todo mês –, curando a ressaca do que quer que tenha feito no domingo. O porteiro já me conhece de longas datas, por isso me deu livre acesso ao prédio como se eu fosse um morador. Desde que conheci a Karen – em uma festa patrocinada pelos estudantes da faculdade, que terminou no nosso primeiro ménage a trois juntos –, nunca tínhamos brigado. Nem mesmo uma discussãozinha sequer. É estranho estar com ódio de alguém que você confiava e gostava. Infelizmente, a vida tem dessas. Usei o elevador até o sétimo andar, e apertei a campainha umas dez vezes seguidas. Minha raiva e angústia eram tão grandes que por um instante não soube o que era capaz de fazer quando ela abrisse a porta. Assim que aconteceu, continuei parado, absorvendo a raiva para não fazer nenhuma besteira. No entanto, Karen sorriu amistosamente.

– Deli... Que bom te ver! – Ainda bem que ela não pulou no meu pescoço como sempre fazia. Acho que notou a minha expressão rígida.

– Onde está o livro da mamãe? – falei com a voz especialmente comedida.

– Eu não se... – Onde. Está. O livro. Da. Mamãe? – Explodi em um segundo, empurrando-a pelos ombros até fazê-la se chocar contra a porta. Não a larguei, continuei a imprensando.

– Devolva a merda do livro!

– Deli, eu...

– Devolva, Karen! – rosnei muito alto, de forma que o prédio inteiro deve ter escutado. Larguei os ombros dela, não queria que achassem que eu a estava machucando. – Sei que está com você. Devolva, agora!

– Calma, Deli, calma... – Ela parecia bem nervosa.

– Está comigo, sim. Tenha calma, por favor!

– Me dê! – berrei. Não conseguia me livrar da fúria. A sensação de vulnerabilidade sempre me deixou possesso. E eu ficava vulnerável demais sem aquele livro; na verdade eu não era nada sem ele. – Me dê, agora!

– Calma... Entra aí. Dei alguns passos para frente, até ser possível que fechasse a porta. Ela o fez. Passou por mim lentamente, caminhando até a sua sala. Abriu a primeira gaveta de um dos móveis e retirou o livro de lá. Bufei de tanto rancor. Prendi meus dentes contra o outro só para não começar a gritar.

– Deli... Vamos conversar.

– Me dê! Karen abraçou o livro.

– Por favor... Vamos con...

– Só vou falar com você quando essa porra estiver aqui, na minha mão. – Sentei-me em um sofá individual, ergui a mão e esperei. Karen me devolveu com ar temeroso. Conferi algumas páginas e, aliviado, soltei todo o ar dos meus pulmões. – Nunca mais faça isso.

– Desculpa, Deli, eu não queria...

– O que deu na sua cabeça, hein? O que significa tudo isso? Ameaçar a S/N, roubar o meu livro, agir como uma louca... Pensei que te conhecesse! Karen se sentou no sofá maior. Estava insatisfeita e nervosa, mas eu não me importei.

– Desculpa... Foi tudo tão rápido!

– Que história é essa de provocar um acidente? Ficou louca de vez e virou assassina? Karen fez uma expressão esquisita.

– Ela te contou.

– Claro que contou! Estamos namorando.

– Como é que é? – ela praticamente gritou. Karen sabe que eu não namoro, deve ter sido uma notícia e tanto. Nem eu estava acostumado com isso. Ainda tentava entender como deixei as coisas irem tão longe...

– Foi isso mesmo que ouviu. Estamos juntos. Agora me diz... Qual é o seu problema conosco? Porra, Karen, tem um monte de mulher te querendo. O que quer comigo, caralho? Não sei o que deu na maluca, mas ela começou a rir. Não encontrei graça em parte alguma, por isso apenas a observei e esperei o seu senso de humor dar lugar ao bom-senso.

– Inacreditável o que acabou de me dizer! É sério?

– Muito sério. Karen se aproximou e ficou me analisando. Não a culpei. É mesmo inacreditável, improvável, impossível... Só a S/N mesmo para fazer uma coisa tão impressionante acontecer.

– Sério... Até que ponto? Suspirei. Um segundo de coragem foi necessário.

– Eu a amo. Não sei direito como a Karen reagiu. Minha mente entrou em uma nuvem escura, fazendo-me regressar imediatamente ao passado. Lembro-me do meu pai como se o tivesse visto ontem. Os cabelos grisalhos, os olhos escuros pensativos... A barba curta. O velho era o meu melhor amigo, talvez o único que tive. Dava-me muitos conselhos, e os melhores sempre surgiam quando estava embriagado. Naquela tarde de domingo, depois que enchemos a cara no churrasco, senti o velho diferente. Introspectivo. Era comum que ficasse assim – ele sempre se recolhia quando pensava na mamãe –, por isso apenas me afastei. Meu pai me chamou para perto meia hora depois. Sentei-me ao seu lado, e ele afagou os meus cabelos como costumava fazer. Depois, deu algumas batidas no meu ombro e disse:

– Meu filho... Ouça o que o seu velho vai dizer agora... – Pausou durante um tempo elevado,

achei até que tivesse desistido de falar. Ou esquecido, já que estava bêbado. – No dia em que amar uma mulher... – Parou de novo. – Use todas as mulheres, meu filho, mas nunca deixe elas te usarem porque... No dia em que amar uma mulher... Este dia vai ser o dia do seu fim. Como não respondi nada, ele completou: – Prometa, filho... Que não vai cometer o erro de amar uma mulher. Eu tinha dezoito anos. Nunca havia me apaixonado. Era o maior canalha do Ensino Médio. Pegava geral, e nunca tinha namorado sério, só alguns rolos que nunca dei valor. Não foi difícil fazer aquela promessa. Meu pai tinha razão sempre. Se me disse aquilo era porque não passava da verdade. E continuava sendo, já que toda verdade é imutável – aquilo que muda nada mais é que uma mentira disfarçada. Diante do que falei para Karen, a sensação que me deu foi a de estar diante de um abismo. Não era incomum, eu atingia o meu limite o tempo todo, mas foi como se, além de estar diante do tal abismo, estivesse também sem o sentido da visão. Não sabia para que lado ficava o fim, e qualquer passo me levaria facilmente até ele. Era a consequência que eu sofreria por ter descumprido uma promessa tão importante. Pisquei os olhos e voltei para casa da Karen com o coração na mão, fazendo companhia ao livro da mamãe.

–... Juro que pensei que estivesse brincando com ela o tempo todo! – ela falava rápido e gesticulava de um modo agitado.

– Percebi que estava mudado e gostando de ficar com ela, você mesmo me disse que estava, mas não acreditei que fosse sério, Deli.

– Sabe muito bem que eu nunca mais brinco com ninguém. – Karen sabia o que tinha acontecido na última vez que brinquei com o coração de uma mulher.

– Eu sei, mas...

– Por que a ameaçou, Karen?

– Eu estava blefando, Deli! Ela ia me bater! Você sabe que sempre fui péssima em brigas. Não estava a fim de apanhar! Sorri instintivamente. S/N era uma guerreira mesmo.

– Deixa isso quieto. – Levantei-me do sofá, e ela também.

– Não fica bravo comigo, vai...

– Não estou bravo. Estou puto de raiva.

– Sei disso. É que... Poxa, ela estava te tirando de mim. E conseguiu. Não queria que a gente perdesse o que nos uniu até agora. Sabe que só gosto de dar pra você. Nem soube direito como reagir. Minha relação com a Karen sempre foi bem transparente, porém estava difícil voltar a confiar nela.

– Eu sei, mas você vai ficar bem. Será possível que sua amizade só significa sexo?

– Claro que não. Gosto de você, Jungkook. – Era raro que me chamasse pelo nome. Sua seriedade me deixou atento.

– A gente já se divertiu muito juntos... Você me conhece, caramba. Fiz merda e agi

como uma maníaca, mas eu estava brincando. Acho que fiquei com raiva porque a S/N não me quis, você sabe que fico chateada quando não tenho o que quero.

– Sei. – Karen é uma mimada. Uma vez passou uma semana sem sair de casa, na maior tristeza, depois que transamos com uma mulher que, em vez de ficar a fim dela, ficou a fim de mim. Tive que me livrar da maluca.

– Que isso não se repita. S/N não merece. Concordou comigo. Logo em seguida, sorriu e me olhou diferente.

– Estou feliz por você. Ainda nem acredito... Não vou me acostumar tão cedo! Meu Deli, amando? O que a S/N fez para conseguir algo assim? Estou curiosa!

– Acho que ela foi apenas... ela. – Dei de ombros. Tentei não me sentir tão perdido e não ficar com cara de bobo, mas acho que acabei fazendo os dois. Não tive certeza sobre a minha cara, porém a sensação de estar perdido se manteve presente. – Preciso trabalhar. – Podemos nos ver? Queria... Sei lá, pedir perdão a S/N. Não quero perder sua amizade, Deli. É sério. Era difícil saber a opinião da S/N quanto aquela situação, e acreditei que ela devesse ser consultada antes que eu tomasse qualquer decisão a respeito. – Vou conversar com ela. Enquanto isso, deixe as coisas esfriarem.

– Tudo bem. Desculpa pelo livro. Você tem ignorado minhas ligações desde a festa... Sabia que me procuraria atrás dele. Olhei-a com raiva.

– Golpe baixo. Não foi engraçado.

– Eu sei, eu sei... Fica bem.

– Você também. Karen andou até a porta, e fui junto. Pensei que ela forçaria uma despedida, mas ainda bem que se manteve distante, respeitando o meu espaço. Ainda não sabia o que fazer com relação a Karen; não sou tão bom de perdoar como a S/N é. Queria ser um pouco mais misericordioso, porém o rancor é um companheiro que não se afasta. Talvez seja só mais um sintoma da minha boa memória. Não esqueço a dor, os problemas, os traumas, o mal que fiz as pessoas e o mal que as pessoas me fizeram. Passei em uma loja de conveniência e comprei um chip novo. Dirigi as pressas rumo ao trabalho, pois do contrário me atrasaria. Ainda bem, consegui chegar na hora certa. Odeio me atrasar, sou um cara extremamente pontual. Falei com a rapaziada da cozinha e guardei minhas coisas em um armário especial para os funcionários. Tentei colocar o chip a fim de ligar para S/N, avisando do novo número, mas o meu celular só dava erro. Fiz de tudo para fazê-lo pegar, quase o quebrando, mas não teve jeito: o chip provavelmente tinha vindo danificado. Tentei não entrar em desespero. S/N estava trabalhando, e tudo ia ficar bem. Ela almoçava todos os dias no refeitório da própria empresa, em total segurança, e só saía de lá às seis. Pegaria o

celular de alguém emprestado quando fossem umas sete horas. Ela já estaria em casa e em segurança. Tudo nos eixos. Coloquei o uniforme do chefe de cozinha, contendo o orgulho por finalmente ter alcançado um bom cargo. A culpa de tudo, é claro, era de quem? S/N. Sempre a S/N. O bem que aquela mulher me faz é diretamente proporcional ao medo que sinto toda vez que penso na gente. Ou na saúde dela. Ou no futuro. Ou nas merdas que fiz e nas que vou fazer. Não sei o que seria de mim sem o meu trabalho. Pode parecer esquisito, mas é o único momento no dia em que me esqueço de tudo. É por isso que não ligo para a carga horária extensa; quanto mais trabalho, menos me preocupo e menos me martirizo. Cozinhar, para mim, é mais que uma profissão. É a minha terapia diária, a minha razão de estar no mundo. O dom de cozinhar foi herdado da minha mãe. Segundo o papai, ela o fisgou pelo estômago. Eu não duvido, já preparei quase todas as suas receitas e me surpreendi em cada uma delas. Claro que é diferente, tenho certeza de que os pratos feitos pela mamãe saíam ainda mais gostosos. Um dos meus sonhos secretos, e impossíveis, é poder comer alguma coisa preparada por ela. Sei que jamais o realizarei, por isso tento me contentar em seguir suas instruções à risca. Busco sentir seu amor através das delícias que me proporciona: as leituras, as plantas – mamãe era apaixonada por flores –, as receitas, e até mesmo o tapete, que agora estava em boas mãos. É estranho, porém sinto a presença dela o tempo todo. Acontece desde que me conheço por gente. Acho que não enlouqueci até agora por causa disso; alguma coisa me diz que ela está me guiando, acompanhando-me e me amparando quando preciso. Tenho certeza de que foi ela quem me trouxe a S/N. Sinto um poder mágico vindo do além, impulsionando o meu corpo a continuar apesar de todas as adversidades. Eu só queria que tudo fizesse sentido um dia. Queria entender o porquê de tanto sofrimento. Talvez alguém me devesse uma explicação. Ou talvez não houvesse uma: o azar não escolhe quem atingir. Talvez eu não passasse de um cara desprovido de sorte, um coitado que nasceu para experimentar todos os sentimentos ruins. Não duvido. Não duvido... O dia passou que nem percebi. A cozinha estava movimentada, mesmo sendo segunda-feira. Sempre tinha o que fazer, principalmente quando se trabalha como chefe. As responsabilidades são redobradas, as cobranças também, e eu só conseguia achar tudo bastante divertido. Dei uma olhada no relógio e percebi que já eram quase sete horas. Ia esperar apenas alguns minutos a mais para telefonar e confirmar se a minha linda estava bem. O desespero foi calado pela calma que a cozinha me passava, por isso estava zen, imune à angústia.

– Ei, Jungkook, tem uma garota lá fora te procurando. – Um dos garçons me procurou na cozinha. Era comum nos referirmos um ao outro usando o sobrenome, e o pessoal tinha gostado do meu por ser italiano, como era o restaurante. Dava mais moral ao estabelecimento ter um chefe descendente de Coreanos. Mais uma bela herança da mamãe. Foi difícil esconder um sorriso. A S/N havia finalmente vindo me visitar, como sempre prometeu. Fiquei logo empolgado, quase me esquecendo de retirar o avental, as luvas e a toca. Fiquei com a camisa branca e a calça, também branca, do uniforme.

– Onde ela está?

– Na entrada mesmo!

– Beleza! A ansiedade me acompanhou durante o tempo que levei para chegar à entrada do restaurante. A movimentação começava a aumentar de novo para o jantar. Cumprimentei alguns clientes e funcionários pelo caminho, tentando despistar o gerente. Escapuli para a saída e procurei a S/N em toda parte, mas não encontrei ninguém parecida com ela. Achei bem esquisito. Uma garota se aproximou de mim de repente, e demorei um pouco para reconhecer a Lilian. De uma coisa tive certeza: nada bom viria dali. Meu corpo entendeu no mesmo instante, fazendo-me reagir na defensiva.

– O que faz aqui? – perguntei logo. Ela balançou as mãos para frente, ainda se aproximando. Parou perto demais. Afastei-me. – Como descobriu onde trabalho? – Restaurante italiano badalado... Só existe um na cidade. Engraçado que o garçom não sabia quem era o Calvin. Tive que dar descrições. Ainda bem que a Sara comentou que você foi promovido, foi fácil identificar o chefe. Jeon Jungkook, não é? – Fez uma expressão indiferente. – Está se escondendo de quem mentindo o seu nome?

– De ninguém. Calvin é um apelido. – Nem sei por que estava dando satisfações àquela maluca. Tudo bem aturá-la na frente dos pais da S/N, não queria que tudo se transformasse em confusão, mas aquilo ali já era demais. Cansei de ser paciente.

– Conta outra. Por que não atende às minhas ligações?

– Por que será? – Ergui uma sobrancelha. Puta que pariu... Mais uma forçadora de barra no meu caminho. Elas estão por toda parte. Contudo, naquele caso, a culpa era totalmente minha. Só estava pagando pela minha própria estupidez.

– Qual é o seu problema, cara? – Empurrou-me de leve com uma mão. Ignorei sua agressividade e me afastei.

– Lilian... Já chega. Vá embora.

– Vamos ter uma conversa. Você não vai escapar desta vez. Olhei ao redor. O velho desespero retornou. Não sabia o que fazer. Falar com aquela maníaca era a última coisa que eu queria na minha vida. Mas ela não me deixava em paz nunca... Aquela bomba ia acabar explodindo, e pior, machucando a S/N. Eu não podia permitir.

– Me acompanhe – pedi, e fui caminhando nervosamente em direção aos fundos do restaurante, atravessando parte do estacionamento. Estava bem iluminado e vazio por ali, poderíamos conversar sem causar alardes. Junto com o desespero, a dor de cabeça voltou. Chegamos perto da entrada de um galpão, que guardava alguns materiais e suprimentos. Vireime para ela e parei. Uma sensação ruim fez a dor de cabeça piorar até me deixar um pouco tonto. – Fale o que quer. Lilian riu.

– O que eu quero? Você é muito cara de pau. S/N sabe o que anda fazendo pelas costas dela? Arquejei. Mal conseguia respirar.

– Do que está falando?

– Não seja cínico. Sara me disse sábado, depois que foram embora. É verdade? Estão namorando? Eu não queria dar informação alguma para aquela mulher, mas me vi sem escolhas. Quem sabe assim ela entendesse que eu não estava interessado?

– Sim. Há três semanas. Como vê, é recente. Gargalhou alto.

– Coitada! S/N se superou desta vez! Só escolhe cara errado, Deus me livre. Senti-me completamente ofendido, mesmo que estivesse com razão. O desespero começou a dar lugar à raiva.

– Fale logo o que quer. Não tenho tempo, muito menos para você. –

Ela sabe que a gente transou? Olhei ao redor. A filha da puta tinha falado alto demais. Passei as mãos pelos cabelos, desconcertado e com raiva não só dela, mas de mim mesmo.

– Me deixe em paz.

– Foi o que imaginei. Você não contou. É um covardezinho de merda.

– Escute aqui...

– Escute aqui você! – gritou. – Conheço vários do seu tipo. Acha que pode usar as pessoas. Comigo não cola, cara. Fiquei em silêncio. Meu cérebro se convenceu de que Lilian estava com a razão, que eu merecia cada palavra áspera. Eu a havia usado. A noite que passamos juntos foi um erro tremendo, um ato de desespero irreparável. Eu estava tentando esquecer a maldita noite de despedida que tive com a S/N, sendo um filho da puta só para me convencer de que devia deixá-la em paz de uma vez. Tentei chegar ao limite da canalhice, dormindo com mulheres quase sem distingui-las, morrendo de pavor por não conseguir sentir nem um pingo do que sentia quando estava com a S/N. Eu me arrependi de ter dormido com a Lilian antes mesmo de ter acabado. Aliás, acho que antes de começarmos, já estava arrependido. E mesmo assim a merda foi feita. Sou um idiota. Só fiz abrir a minha própria cicatriz. Aumentei a culpa e a lista imensa de coisas que tenho para me arrepender.

– Me desculpa – murmurei. – Eu não enganei ninguém. Nem você e nem ela. Não estávamos juntos. Éramos apenas amigos quando aconteceu.

– Você é um cretino. Não merece alguém como a S/N.

Aquiesci, concordando. Ouvir aquelas verdades doeu tudo o que havia dentro de mim.

– Quem vai decidir isso é ela. Não você.

– Ela vai decidir quando você contar que trepou como um louco comigo?

– Já basta, Lilian! Vá embora! – Perdi a paciência de uma vez.

– Eu vou contar! Vou contar tudo pra ela! Parei no tempo. Criei raízes no chão, sentindo a fumaça que saía do abismo diante de mim acariciando o meu rosto. Imaginei a S/N descobrindo tudo. Que golpe seria para ela... Nunca mais voltaria a confiar em mim. Jamais me perdoaria por aquele erro. Toda capacidade de perdoar tem limite, e sei que tinha ultrapassado qualquer limite do perdão dormindo com aquela filha da puta. Eu mesmo não me perdoaria.

– Não... Por favor, não.

– Vou dizer a ela, Calvin. Ou melhor, Jungkook. Vou dizer a S/N que nós já transamos. Acha que ela vai te perdoar? – Soltou uma risada cruel. – Eu a conheço. Eu também a conheço. S/N é o ser humano mais doce do mundo, mas jamais me perdoaria por ter transado com sua prima. Ela já estava morta de ciúmes da Lilian, não sou imbecil, percebi que soltaram farpas no sábado em que visitei seus pais. Depois ainda quis encrencar comigo, mas acabou desistindo. S/N jamais entenderia que antes dela eu não passava de um otário que não sabia sequer discernir com quem iria transar. Que tipo de valor um cara que come qualquer uma tem? Ela sentiria o mesmo nojo de mim que eu estava sentindo naquele instante.

– Não... Lilian, não faça isso. – Entrei em total desespero. A tontura piorou bastante. Aquela louca era capaz de tudo... E eu era mesmo muito imbecil, não acreditava que tinha feito aquela merda. Jamais podia ter dado corda para aquela mulher. Infelizmente, nenhum arrependimento muda os fatos.

– Há um modo de reverter isso, Jungkook. – Encarou-me de um jeito completamente esquisito. – Sabe, eu gosto da S/N. Ela não merece um cara como você, mas gosto dela. Não quero que sofra.

– Que... Que modo? – Só consegui pensar em besteira. Foi involuntário, imaginei a Lilian fazendo uma proposta bem indecente para me chantagear. Só me restava saber até onde chegaria com aquela situação lamentável.

– Beije-me.

– O quê? – Dei alguns passos para trás. Devo ter enlouquecido.

– Beije-me, Jungkook. Só um beijo. Quero me despedir de você.

– Você só pode estar de brincadeira, Lilian.

– Falo sério. Beije-me... Juro que irei embora. Juro que ficarei calada.

– Quem me garante? – desdenhei. A raiva se misturou com o desespero, e então me vi quase

explodindo de angústia.

– Não quero te beijar. Você me dá nojo. Ela pareceu magoada, mas a minha vida toda foi ver mulheres magoadas diante de mim. Uma a mais, uma a menos, não fazia a menor diferença.

– Ok, se assim prefere... Irei procurá-la agora mesmo... – Lilian se virou e foi andando na direção do estacionamento. Caralho! Eu precisava pensar rápido. Puxei sua mão com força, e ela veio com tudo. Nossas bocas se encostaram por um instante, de um jeito mecânico e ridículo, mas não consegui continuar. Repeli nossos corpos, morrendo de ódio do mundo.

– Não me faça rir. Este foi o seu beijo? Quero que me beije de verdade. Com pegada. Igual aos tantos beijos que me deu naquela noite. Lembra-se? Eu me lembro. Estava tentando esquecer. Queria deletar aquele erro da minha história, junto com tantos outros... Porra, eu só fazia merda!

– Lilian, se você contar... Eu juro que não respondo por mim. – Tentei ameaçá-la também, mas meu desespero evidente era uma piada para ela. Claro que não meti medo em ninguém.

– Não vou! Depois do beijo, irei te deixar em paz. É uma promessa. Vamos, Jungkook, beije-me!

– Lilian... Não faz isso. Por favor... Eu amo a S/N. – Minha voz saiu em tom de súplica. Odiava ter a minha única chance de ser feliz nas mãos daquela mulher, e saber que fui eu mesmo que a ofereci de bandeja para ela me enchia de horror.

– Ama porra nenhuma. Você não presta. Vamos, cara... Beije-me, agora. Eu mesmo não acreditei que tive a capacidade de fazer aquilo. Mas desconheci outra saída. Não conseguia pensar. O que podia fazer? S/N significa tudo para mim. Não podia sequer pensar na possibilidade remota de perdê-la, ou de magoá-la. A sombra da Lilian tinha que sair de nossas vidas, e depressa. Se aquela era a única maneira, então eu precisava apostar. Desesperado, engoli em seco e puxei sua cintura. Invadi a sua boca antes que desistisse e colocasse tudo a perder, tentando não me sentir o pior de todos os caras ao beijar aquela mulher imunda diante de mim. Não sei de onde tirei aquela coragem. “Eu tenho medos bobos e coragens absurdas”. Quando achei que o inferno já podia acabar, afastei-me depressa. Aquele beijo serviu para um propósito interessante: comprovei que jamais conseguiria ficar com outra mulher. Foi horrível. Trair a S/N era como trair a mim mesmo, e o mais decepcionado, abalado e destruído com certeza era eu. Lilian sugou toda a minha coragem com a sua chantagem maldosa. Jamais me perdoaria por aquilo. Por ser tão fraco. Tão trouxa. Tão errado o tempo todo. Por nunca saber o que fazer. Por jamais conseguir ser o que a S/N merece. Engoli o choro enquanto esperava pelo que a Lilian ia dizer. Prendi os lábios e tentei pensar em outra coisa. Os pensamentos sobre tudo aquilo estavam acabando comigo.

– Eu nunca falaria nada a ela – revelou com um sorriso cínico nos lábios. – Acha que vou me

queimar com a minha prima? Gosto da S/N, diferentemente de você. Isso foi pra você aprender a não brincar com quem não deve. – Aproximou-se um pouco e proferiu com raiva: – Otário! Eu que tenho nojo de você. Espero que a S/N te dê um pé na bunda. Sofrimento é pouco para um cretino da sua espécie! Lilian deu as costas e se afastou como se nada tivesse acontecido. No início, fiquei parado, calado e com receio até de me mexer. Depois, senti minhas pernas falhando, e precisei me apoiar na parede. Olhei para o céu escuro, sem estrelas, e me lembrei do meu pai. Devia tê-lo escutado. Jamais devia ter me aberto tanto com a S/N, permitindo que entrasse na minha vida. Sou um fraco. Um nada. Um cretino, um canalha covarde, imaturo... É por isso que só faço sofrer. É por isso que a dor não me abandona. Eu não presto. Enxuguei uma lágrima e suspirei, não queria ser um chorão também. Seria demais. O que eu podia fazer era assumir as minhas atitudes como um homem. Meu pai faria isso. Ele dizia a verdade, mesmo que doesse. S/N precisava saber de tudo, incluindo o que havia acontecido naquela noite. Chega de omissões. Ela saberia por mim antes que chegasse ao seu conhecimento por terceiros. Eu devia isso a ela. Só precisava ter coragem para dizer, e depois resignação para implorar pelo seu perdão. Pelo menos uma vez na vida, seria um homem corajoso. Faria as coisas certas. Eu queria tanto merecê-la. Tanto...



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