História O SAFADO DO 105 - Capítulo 40


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook)
Visualizações 48
Palavras 4.153
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 40 - Cap 40 Por Calvin


Fanfic / Fanfiction O SAFADO DO 105 - Capítulo 40 - Cap 40 Por Calvin


CAPÍTULO 40 

“O fim talvez não seja uma escolha, mas o que fazer depois dele é”

Devo ser anormal por cruzar a porta de uma emergência àquela hora da manhã, explicando que

tinha entrado em uma briga e que provavelmente havia quebrado o nariz. Uma enfermeira bem jovem,

que visivelmente estava me paquerando – fazendo piada sobre o tamanho dos meus músculos e o fato

do meu oponente certamente estar pior do que eu –, levou-me para a enfermaria e me ajudou a tentar

conter o sangramento no nariz enquanto esperávamos o médico.

Sentia-me meio desnorteado, como se nada estivesse acontecendo comigo. Um pouco tonto

também. Deixei-me ser cuidado porque a minha única opção era ficar quieto, esperando o tempo

passar para que pudesse finalmente deixar a ficha cair. Pelo visto, o nariz não era o meu único

problema. A enfermeira começou a mexer em vários pontos doloridos do meu rosto com um algodão,

contendo algum líquido que só fazia minha cara inteira arder como se tivesse dentro de uma fogueira.

Foi neste instante que descobri não conseguir abrir o meu olho esquerdo até o fim. O inchaço foi

piorando até que se tornou ainda mais difícil, e a dor física intensificou a psicológica até não

conseguir me controlar; meu corpo começou a tremer sem pausas por causa dos soluços que tentei

abafar. Recusei-me a chorar na frente da enfermeira, mas ela ficou preocupada tanto com o meu

silêncio quanto com os espasmos bizarros que me faziam pular na cadeira.

Não respondi quando perguntou o meu nome. Ela acabou conferindo nos meus documentos e,

com cara de espanto, perguntou se eu tinha algum parente para quem ela pudesse ligar. Neguei,

balançando a cabeça – e me desesperando mais ainda por realmente não ter ninguém para um maldito

telefonema –, enquanto a tremedeira não cessava por nada. Comecei a ver as coisas girando dentro da

enfermaria, e tentei respirar fundo para me acalmar.

A falta de ar advinha de um nó horroroso implantado no meu pescoço. Segurei a corrente que a

S/N tinha me dado, afastando-a um pouco da minha pele. Ela era folgada, mas naquele instante

mais me pareceu uma coleira. Mesmo assim, não ousei retirá-la.

Uma segunda enfermeira apareceu para medir a minha pressão e verificar os meus batimentos. A

pressão estava um pouco elevada, porém nada tão alarmante, só que o meu coração quase saía pela

boca. Estava perto dos cento e quarenta por minuto. Como eu não conseguia falar e parecia em estado

de choque, elas acharam por bem me deitar em uma maca.

Só me lembro de visualizar o médico entrando na enfermaria e uma das enfermeiras dizendo que

achava que eu ia desmaiar. Assim que fiz o pequeno esforço de me levantar da cadeira, o mundo se

tornou ainda mais surreal até que nada mais conseguiu ser visto.

Devo ter acordado alguns minutos depois. Estava deitado na maca, e a enfermeira que havia me

ajudado nos ferimentos terminava de aprumar uma agulha que havia enfiado na minha mão e ligado a

um tubo. O médico estava ao meu lado, analisando-me com um estetoscópio.

– Senhor Jungkook... O senhor se alimentou esta manhã? – perguntou-me. Dei de ombros. Não me lembrava de ter comido nada. Na verdade, estava tão desnorteado que sequer sabia que dia era aquele.

– Creio que entrar numa briga tão cedo lhe colocou sob muito estresse... Sua pressão está normal, por

isso vamos te dar apenas um pouco de calmante no soro. Fique tranquilo por algum tempo e, caso

volte a sentir vertigem, avise-nos. Tudo bem?

Balancei a cabeça, concordando. Acho que eu precisava mesmo me acalmar. Nada seria

resolvido se eu não estivesse inteiro. O pesadelo que vivi não podia ficar se repetindo na minha mente.

As duras palavras da S/N precisavam parar em algum ponto seguro dentro dela, um lugar onde eu

possa analisá-las sem me sentir tão angustiado, perdido e temeroso.

– Quer ligar para alguém? – continuou o médico. Chacoalhei os ombros. – Cida, acho melhor

algum familiar acompanhá-lo – falou para a enfermeira. – Ele parece em choque... Veja o número

mais usado no celular dele e peça para Samanta ligar com urgência. – A enfermeira terminava de

organizar a bolsa do soro em um artefato comprido de metal. – Aumente a dosagem.

Passei alguns minutos olhando para o teto. As palavras da S/N se misturaram a algumas frases

da Clarice, então a minha cabeça dolorida se tornou uma zona de conflito difícil de suportar. Foi assim

até que o calmante fez efeito, deixando-me meio grogue. Fui vencido por ele aos poucos, até que

simplesmente adormeci.

Não sei por quanto tempo apaguei. Deve ter sido um tempo considerável, já que quando acordei

estava em outro lugar; parecia a mesma enfermaria, mas em um guichê diferente. Cortinas brancas o

rodeavam, deixando-me alheio ao que acontecia do lado de fora. A agulha ainda estava injetada na

minha mão.

Pisquei os olhos, meio tonto ainda. Olhei ao redor e percebi uma pessoa sentada na única cadeira

que havia ao lado da maca onde eu me encontrava deitado. Era a S/N. Soltei um espasmo tão grande

ao vê-la que acabei chamando sua atenção. Ela me olhou sobressaltada, e se levantou no impulso.

Chegou muito perto, tocou-me um pouco no braço e, com o olhar vago, distanciou-se.

– S/N... – falei normalmente, mas a voz rouca acabou saindo em forma de sussurro. Tentei

alcançá-la com a mão livre. – Você está aqui mesmo ou fiquei louco de uma vez?

Um pequeno passo nos distanciava, mas pareciam quilômetros. Meu corpo estava pesado.

Mesmo assim, tentei me levantar. S/N se aproximou novamente e me impediu, empurrando-me de

leve pelos ombros.

– Fique aí.

Obedeci-a. Ela me soltou, porém decidiu ficar mais perto, encarando-me. Analisei seu rosto

absolutamente abatido. Havia olheiras ao redor de seus olhos amendoados, e os cabelos cor de terra

estavam um pouco despenteados, amarrados de qualquer jeito em um rabo de cavalo. Sua pele pálida

quase me fez voltar a surtar.

– Você está bem? – perguntei.

– Não sou eu que estou em um hospital. – Sua voz firme mostrava o quanto ainda estava puta de

ódio de mim. – Meu número era o único que estava na agenda do seu celular.

Ah, isso. Eu realmente tinha salvado apenas o número do celular dela na nova agenda. E a

coitada estava ali porque foi obrigada. Não havia mais ninguém no mundo por mim.

– A gente precisa conversar. – Tentei pegar em sua mão, a que estava esticada na maca, mas ela

a afastou.

– Não. Não enquanto estiver aí.

– Quando?

– Não sei, Jungkook. – Sua rispidez me deixou uma sensação horrível de solidão.

– Eu posso explicar tudo, S/N... Eu...

– Pare... Pare, não comece... – Deu alguns passos para trás, angustiada.

– Foi um mal entendido...

Bufou. Lágrimas se formaram em seus olhos.

– Eu vi, está bem? – falou um pouco mais alto, depois olhou ao redor e controlou o timbre de sua

voz. – Eu vi você beijando a Lilian. Resolvi passar lá no restaurante e... – As lágrimas caíram. Sua

expressão dolorida cortou o meu coração pela milésima vez naquele dia. Ele havia sido estilhaçado e

pisado, mas alguém lá em cima não queria me dar trégua.

Nem percebi quando minhas próprias lágrimas começaram a cair também. Foi um movimento

tão involuntário que não foi preciso qualquer tipo de esforço.

– Caralho... Eu não nasci pra ter sorte. – Não podia acreditar que a S/N tinha visto aquela

cena. Era azar demais para uma pessoa só.

S/N enxugou as lágrimas com as mãos e desviou o rosto.

– Olha, Jungkook... Entendo que deve ser difícil para você. Mas... É muito mais difícil para mim. Eu

não vou aceitar isso. Aceito que esteja inseguro, que tenha medo, que não tenha a capacidade de dizer

que ama alguém, mas eu... – Parou, pois tinha começado a alterar a voz de novo. – Não aceito traição.

O que você fez com a Lilian foi... – Arquejou. – Uma facada... Uma... coisa nojenta que...

– S/N, eu não fiz nada. Foi um mal entendido.

Encarou-me. Abriu a boca e ficou me olhando como se eu fosse doido.

– Um mal entendido – murmurou. – Eu... Eu só não termino de quebrar a sua cara porque tem

um monte de curativo aí atrapalhando. Sério.

– Estou falando a verdade. Você precisa saber a história do começo ao fim. Por favor.

Ela fechou os olhos e cruzou os braços. Levantou uma mão para passá-la pelo seu rosto, em um

gesto nervoso, irritado e impaciente.

– Acabei de dizer que vi, Jungkook. Eu vi você aos beijos com a minha prima. Não foi um beijinho

qualquer, um tropeço, um esbarro... – Respirou fundo, acho que para não explodir de ódio. – Foi um

beijo, cacete, você estava amassando a minha prima como se ela fosse massa de modelar. – Fez um

gesto apertando as mãos. – Jogou fora tudo... Tudo... – Parou de novo. – Todo o respeito que eu

teimava em ter por você.

Senti todo aquele rancor no nível máximo. Meus batimentos voltaram a acelerar drasticamente,

e a sensação de torpor retornou. Tentei controlar a minha respiração, pois o fato de ela estar ali

precisava significar alguma coisa além de tanto ódio direcionado. Sua fúria me travou de novo, porém fiz o máximo de esforço que pude para não sucumbir ao medo.

– Sei que... Que deve ter sido difícil de entender...

– Difícil? – Voltou a me encarar. – Ah... Foi pior que vestibular. Olha, Jungkook, eu só estou aqui

porque o seu irmão não quis vir, e com total razão. A cara dele está pior que a sua. Você afasta todas

as pessoas que sobraram na sua vida e que poderiam ter algum tipo de consideração por você.

O pavor me travou de vez. Senti-me piorando ainda mais, porém não arriscaria dizer nada.

Precisava ter aquela conversa, aquela chance de tentar me explicar. Se não fosse ali, onde mais seria?

Ela não tinha apenas ouvido falar algo da Lilian, ela tinha visto a cena toda, e achado que eu realmente

quis traí-la.

Puta merda... A situação só fazia piorar.

– Obrigado por ter vindo – consegui murmurar. Tentei pegar sua mão de novo, porém S/N deu

mais um passo para trás.

– Não me agradeça. Só estou aqui porque é impossível deixar de amar alguém de um dia para o

outro. – A sinceridade da S/N era uma coisa impressionante. – Mas se eu pudesse... Aliás, eu vou.

Vou arrancar isso de mim como se fosse... uma farpa no dedo. – Ela riu sozinha. Eu só me senti ainda

mais arrasado e perdido. Morto de medo.

– Você nem quer me ouvir... – falei. Os soluços voltaram com força total. – Droga, você nem

quer ouvir a minha versão! Sou tão filho da puta assim? Que merda, S/N, não confia nem um

pouquinho a ponto de me deixar falar? Essas três semanas que passamos não foram o bastante para

você entender que eu jamais faria algo assim contigo?

– Não, você não é um filho da puta, Sra. Klein nada tem a ver com isso. E, sabe, não sei se você

se lembra, mas nessas três semanas você teve um monte de surtos por causa do medo.

Calei-me. Abri a boca e fiz novo esforço para continuar:

– Tive medo de te perder, e te perdi mesmo assim.

– É isso aí. Você me perdeu. E a culpa é sua.

– É. – Balancei a cabeça freneticamente. – Toda minha.

– Agora, trate de mandar esse povo ligar pra Lilian, porque eu não quero ficar fazendo papel de

idiota neste lugar.

Fiz uma careta.

– Lilian? Puta que pariu, S/N, me escuta! – Sentei-me de uma vez, mas me deitei de novo

porque quase tive um desmaio. Fechei os olhos com força. – Ela me chantageou! Droga! Não a beijei

porque quis, ela disse que se eu não a beijasse, contaria para você que... que...

Tudo ficou muito silencioso. Abri os meus olhos lentamente, e confirmei que a S/N ainda

estava lá. Encarava-me com lágrimas nos olhos e uma expressão que misturava revolta e surpresa.

– Que o... Que o quê? – Arfou.

– Quando... Me escute. Por favor, me escute até o fim.

– Que o quê, Jungkook?

Tentei reunir um pouco de coragem. Sabia que aquele instante seria decisivo. Se contasse com a

minha sorte, S/N iria embora e nunca mais olharia para a minha cara de novo.

– Prometa que não vai embora.

Ela balançou a cabeça, negando.

– Por que a Lilian te chantageou, Jungkook?

– Depois... Depois daquela noite da nossa despedida... Eu surtei. Tive... Não sei, eu dormi com

um monte de mulher. Não conseguia te tirar da cabeça... Fiquei louco... – S/N fez careta de nojo. O

medo me travou por uns instantes, mas busquei força para concluir. – Lilian me procurou e... Nós

transamos.

S/N se sentou na cadeira ao lado da maca. Tirou os olhos de mim e encarou o além. Lágrimas

escorreram pelo seu rosto perfeito.

– Ela me procurou ontem, no restaurante... Disse que, se eu não a beijasse, contaria tudo para

você. Fui um idiota, sei disso... Não devia ter caído na armadilha dela, devia ter te contado antes que

isso tudo precisasse acontecer. Mas é que... Tive tanto... Tanto medo... Tanto medo de te perder,

S/N. – Ela conteve um soluço. Ainda olhava para o além. A expressão indecifrável quase me matou

ali mesmo. – Nunca quis te magoar... E, ao mesmo tempo, sabia que ia acabar acontecendo.

– Aconteceu – murmurou.

– Lembre-se... “Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também

me dói quando percebo que feri”.

S/N bufou.

– Duvido que Clarice tenha transado com alguém sem ser de propósito. Não se transa sem

querer, Jungkook. Você dormiu com a minha prima.

– Não éramos nada, S/N. Não te enganei. Foi passado. Um erro, uma noite nada a ver, como

todas as outras que vivi sem ter sido contigo.

– Na casa dos meus pais... Você... Tratou a Lilian muito bem até... – Ficou protelando aos

murmúrios, como se eu não estivesse ali para ouvir sua linha de raciocínio. – E eu, toda abobada, sem

saber o que tinha rolado. Ela estava toda afobada pro seu lado, doida pra dar aquele cu seco de novo...

– Riu sozinha. Tive certeza de que S/N não estava no seu estado normal. Ela sempre foi engraçada,

mas aquela espécie de humor negro era assustador. – Fui feita de besta... Meu Deus... Como fui

otária...

– S/N... Eu a tratei normalmente porque não queria confusão na casa dos seus pais. O respeito

que tenho por eles é enorme...

– E o respeito por mim ficou onde? – continuou aos murmúrios, sem me olhar. Acho que ela

estava em estado de choque. Fiquei cada vez mais espantado. – Enfiado no rabo de alguém... Não no

meu, claro.

Fiz uma careta, e meu rosto inteiro doeu.

– Eu devia ter te contado. Teria evitado toda essa confusão, toda essa dor.

– Você não me conta que fodeu a minha prima... Cai numa chantagem ridícula... E ainda me

acusa de ter dormido com seu irmão...

Lembrei-me de que ainda não sabia o que aquele filho de uma égua tinha feito na casa dela.

Morri de medo de perguntar e piorar a situação. Melhor seria tentar esquecer aquela merda toda.

– S/N... S/N, olha pra mim.

Ela não me obedeceu. Começou a murmurar bem baixinho. Não consegui ouvir nada. Parecia

imersa em uma onda de reflexões, que só teve fim quando fechou os olhos e apoiou a cabeça entre os

dedos. Fiquei tão apavorado que só consegui tremer por inteiro, absolutamente travado pelo desespero

de vê-la daquele jeito tão esquisito.

O medo total se apossou do meu corpo, assim como todo o autoflagelamento que tentei evitar.

Cada lágrima que saía do meu rosto era um motivo óbvio que eu ganhava para me afastar de vez

daquela mulher; ela não merecia tanta merda. Em contrapartida, um pedacinho de mim dizia que

quem não merecia tanta merda era eu.

– Me perdoa... – falei em um soluço sofrido.

S/N passou mais alguns minutos naquela posição. Depois, ergueu-se e parou do meu lado.

Segurou a minha mão livre com as duas mãos. Sorri. Um resquício de esperança foi o suficiente para

aquecer uma chama dentro de mim. Ela continuou séria.

Cruzamos nossos dedos.

– Pensei no seu bem o tempo todo... Desde o início. Tentei te entender... Tentei justificar o seu

comportamento... Eu te conquistei de propósito, Jungkook. – Sua seriedade me arrancou o sorriso. – Tive

consciência de tudo o que estava fazendo, pois me parecia a coisa certa... Salvar aquele menino

perdido que fodia com mulheres para encobrir frustrações. – Ela fez uma pausa e beijou os meus

dedos. – Eu acredito no que me falou, mas... Sabe... Neste momento, não acredito que haja felicidade

para nós dois.

– S/N... Não.

– Jungkook. Uma relação precisa de confiança acima de tudo. Não entende? Eu não confiei em você,

e você não confiou em mim. – Suas lágrimas começaram a molhar o mesmo ponto que foi beijado. –

Esse medo doentio que você tem, essa falta de fé... Essas burradas imaturas. Eu também tenho medo

que você faça merda, e, sinceramente, como continuar nessa instabilidade? Eu te peço perdão por ter

mexido no que não devia.

– Não fala assim. Não fala assim, por favor. Me perdoa.

– Não é mais questão de perdoar, Jungkook. É o futuro. Você precisa aprender a confiar em si

mesmo... A se amar. Eu não posso te ajudar nisso. Ninguém pode além de você mesmo.

Fui tomado pela já conhecida série de soluços.

– Me ajuda.

– Não posso... – Ela começou a chorar bastante. – Eu também tenho que me amar.

– Você foi a melhor coisa que já me aconteceu – falei desesperadamente. – Nunca quis tanto

viver... Juro que não.

– É disso que estou falando... “Não procure alguém que te complete. Complete a si mesmo e

procure alguém que te transborde.”

– Você me completa até me transbordar, S/N... – Usei a mão espetada para tocar seus cabelos.

Puxei-os, e ela veio para mais perto. Guiei as mesmas mãos para seus lábios.

– Vai ser melhor para nós dois.

Uma mágica impressionante aconteceu dentro de mim assim que aquiesci, concordando e

percebendo a sinceridade do meu ato. Pode parecer esquisito, mas me senti diferente ao perceber que

ela estava certa. Não sei o que foi aquilo que me invadiu, talvez um pouco de maturidade.

Eu a amava. Muito. Queria-a para mim mais do que tudo. Só que faltava algo em nós. Algo em

mim, principalmente. Eu não a deixava segura, afinal, não tinha segurança nem para mim mesmo.

S/N jamais se convenceria do meu amor se eu não me amasse. E bom... Nunca aprendi a gostar

verdadeiramente de mim.

Que tipo de futuro teríamos desse jeito? Não podia ficar com alguém sem merecer, e nem

machucá-la durante o tempo que não a merecesse. Ao contrário de mim, ela se ama e sabe o que

precisa para si mesma. Não fazia ideia de como eu sairia daquela situação, mas o meu desejo não me

deixava recuar: eu a queria, e faria o possível para tê-la e merecê-la. Não como um menino birrento

que toma para si um brinquedo caro, mas como um homem que trabalha arduamente para obtê-lo e

poder usufruir dele.

Nós permanecemos mudos por alguns minutos – eu até me senti um pouco mais calmo –, até que

vi alguma coisa se mexendo por trás da cortina. Uma pessoa apareceu de repente.

– S/N? – Ela deu um pulo e me largou depressa. – Achei vocês!

Fiquei parecendo um bobo quando vi a mãe dela. Devo ter feito uma expressão muito esquisita,

pois meu rosto doeu completamente, sobretudo o nariz. Não entendi o que estava acontecendo.

S/N a abraçou meio sem jeito, e logo em seguida ambas me olharam com atenção.

– Ah, Calvin... Isso está feio – sua mãe se aproximou e, contra toda a lógica, começou a alisar os

meus cabelos e analisar o meu rosto. – Meu filho, por que foi brigar com seu irmão? Você é tão

inteligente, tão atencioso...

Uma grande interrogação foi implantada no meu cérebro. Acho que travei. Não pelo medo ou

desespero – mesmo eles estando em algum ponto fixo dentro de mim –, mas por uma coisa diferente.

Não sei explicar direito o que senti, só sei que não fui capaz de falar nada.

– Ele é bem explosivo também, mamãe – S/N falou, voltando a se sentar na cadeira. Parecia

exausta.

– Não pode ser assim, meu filho.

Abri a boca, porém só consegui gaguejar.

– Que bom que veio, mãe. Não achei que viria. – Claro que vim! Calvin já é da família. – Sua mãe lhe olhou com um pouco de chateação, e

voltou a me encarar. Sorriu. – Sara foi a uma reunião na creche da Clara e o Gui está na escola. Seu

pai está trabalhando, então, em nome de todos, estou aqui.

Aquiesci. Pisquei os olhos. Pronto... Caí no choro. A mãe da S/N ficou muito assustada com a

minha reação exagerada, mas fez o que eu estava precisando desde que briguei com meu irmão. Aliás,

desde sempre. Uma coisa simples que faz diferença para muita gente, e que fez toda a diferença para

mim: deu-me um abraço bem forte.

Chorei como se fosse uma criança, sentindo-me acolhido, amado... Sei lá, o fato de ela se

importar comigo me trouxe uma esperança diferenciada. Nem tudo estava perdido. Eu podia ter feito

muitas merdas e machucado a S/N de diversas formas, mas aqueles sentimentos maravilhosos

ninguém poderia ser capaz de tirar de mim. Pela primeira vez na minha vida, senti que tinha uma mãe.

Ou algo bem próximo a isso.

– Obrigado por ter vindo – choraminguei, afastando-me para não assustá-la mais. Tentei enxugar

umas lágrimas, mas os curativos arderam. Desisti.

Olhei para a S/N atrás de sua mãe; ela também chorava.

– Estamos bem emotivos hoje, não? Vamos melhorar esse clima? Eu trouxe bala de cereja e

chocolate. – Ela abriu a bolsa enorme e retirou de lá um monte de guloseimas. Senti-me um garoto

com cinco anos de idade. Ri sozinho. – O médico disse que você teria alta assim que acordasse. O que

acha de passarmos em uma lanchonete? Está com fome?

– Mãe... – S/N intercedeu. – A gente só quer ir pra casa.

– Ah... Tudo bem. Não faz mal. Nos vemos no sábado, Calvin?

Fiquei um pouco incomodado por ela ainda não saber o meu nome. Tentei ignorar, pois seria

esquisito dizer ali. Não sabia também como a S/N reagiria ou se pretendia contar... Talvez fosse

uma coisa que ela precisasse resolver, não eu. Se bem que... Àquela altura, não importava tanto assim.

Dei de ombros.

– É que eu vou precisar trabalhar... – neguei a contragosto. Não ia forçar a barra. S/N não

achava que nós deveríamos ficar juntos. Eu precisava fazê-la mudar de ideia do mesmo jeito que ela

tinha me feito mudar: com dedicação e paciência. – Quem sabe em breve...

– Estaremos esperando! – O silêncio que se fez naquele pequeno espaço da enfermaria foi muito

desconfortável. A mãe da S/N que resolveu nos tirar do constrangimento. – Vou chamar o médico.

Detesto cheiro de hospital! Coma um chocolate, filho, vai te fazer melhor.

Peguei um doce e o abri sorrindo, enquanto ela atravessava de novo as cortinas.

– Obrigado, S/N.

– Eu não sabia pra quem ligar.

Coloquei o chocolate todo dentro da minha boca, lembrando-me que estava morrendo de fome.

– Nem eu – falei com a boca cheia.

– Vai ficar bem?

– Vou – respondi no automático. Eu não ia ficar bem. Só tentaria ficar bem. E a tentativa

advinha da minha mais recente vontade de vencer. Todas as minhas pequenas dores me

enfraqueceram, chegava a hora de deixar uma grande dor me fortificar. – “E assim como a primavera, eu me deixei cortar para vir mais forte...”

S/N sorriu de um jeito lindo, deixando uma lágrima rolar com beleza sublime em seu rosto.

– Amém – murmurou.

O médico mediu a minha pressão de novo, e fez um monte de perguntas. Tentei aliviar tudo,

dizendo-lhe que só havia tido muita raiva por causa da briga e acabei surtando. Realmente, só queria ir

para casa. Sei que o meu corpo ficaria bem assim que a minha mente ficasse.

Depois de um raio-x, ouvi um bocado de recomendações para o tratamento do meu nariz – não é

que ele tinha quebrado mesmo? –; a recuperação levaria um tempo, e eu ficaria com um curativo

horrível no meio da minha cara, mas quem liga?

S/N tinha ido ao hospital de táxi, bem como a sua mãe. Depois de me acompanharem com

dedicação, não me deixaram dirigir de modo algum, tudo porque o médico me recomendou repouso –

até me deu um atestado de três dias que eu ia ignorar, pois só ficaria mais louco se passasse tanto

tempo sem fazer nada – por isso foi ela quem dirigiu o meu carro. Fui deixado em casa, percebendo

que já era quase noite. S/N deixou o meu carro estacionado e pegou o seu, a fim de levar a mãe em casa.

Agradeci como pude. Queria ter um tempo a mais na companhia da S/N, mas ela não me deu

brecha. E, pelo visto, não me daria mais. Comprovei isso quando cheguei a minha varanda e levei um

susto: o tapete da mamãe estava enrolado e apoiado na minha porta.

Fiquei sem reação. Nem sei medir quanto tempo fiquei parado na varanda como uma estátua,

olhando para o tapete como se fosse uma coisa extraterrena. Cerrei os punhos e os dentes ao mesmo

tempo, controlando uma explosão interna. Expirei todo o ar dos meus pulmões, e depois inspirei

fundo. Nada de autoflagelamento. Nada de desespero.

Puta que pariu...

Juntei força e coragem para abrir a minha porta e entrar em casa junto com o tapete. Não podia

deixá-lo lá fora. Não o tinha guardado durante tantos anos para estragá-lo. Também não podia forçar a

S/N a ficar com ele. Tenho certeza de que ela tinha pensado muito antes de deixá-lo ali, portanto eu

precisava aceitar. Aceitar que a perdi, que chegamos ao fim; aceitar que eu tinha errado e que

precisaria muito mais do que seduzi-la para realmente tê-la.

Sei que eu devia tomar um banho e comer algo mais saudável do que um simples chocolate e

algumas balas de cereja – que comi no carro –, mas o cansaço, mesclado com a tristeza, só me fez ter

vontade de dormir. Empurrei os móveis da sala e abri o tapete da mamãe no chão.

Um alerta conseguiu ser processado pela minha cabeça: foi o meu pai me dizendo que ter um

tapete cor-de-rosa era coisa de veado. Balancei a cabeça. Papai ia me perdoar daquela vez, porque

nada me faria deixar de sentir o conforto que aquele simples objeto sempre foi capaz de me trazer.

Não importava a cor ou se eu deixava ou não de dar o meu rabo, peguei um travesseiro, um lençol e simplesmente desabei.

Chorei até pegar no sono.



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