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História O Salão de Centipede - Capítulo 1


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Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único


A pequena cidade de Centipede sempre fora um local pouco visualizado pela população nacional. Ao oeste da nação, entre as montanhas inabitadas, tudo que ali ocorria, por ali permanecia. Tendo apenas dez mil habitantes, o minúsculo e pouco desenvolvido protótipo de município se sustentava através do comércio local e da agricultura. Havia tranquilidade nos olhos de todos aqueles que se instalavam em suas casas, assim como sentimento de desgosto por aqueles que não aprovavam sua simplicidade. Seus índices de criminalidade e seus problemas nem ao menos entravam nas estatísticas do país e estavam bem com isso. Haviam até mesmo aqueles, desavisados, que comparavam o povoado insignificante à utópica e irreal Omelas.

Ali, vivia Jeon Jungkook, que decidira em seu quinto ano de faculdade que não a faria mais, correndo da capital até o lugar mais improvável possível, fugindo de sua família e supostos amigos. Farto das falsarias e futilidades com as quais convivera por tempo demais, o rapaz encontrou seu canto de descanso e refúgio em uma das casas baratas e frágeis localizadas no centro de Centipede.

Diferente de si, próximo à sua morada havia um homem que não desejava a calmaria das ruas pouco habitadas da imitação da cidade citada em literatura. Park Jimin estava farto dos mesmo dias, mesmos clientes, mesmos sorrisos... Exceto de um em específico, mas nem este fora capaz de faze-lo desejar permanecer no burgo.

Em seu salão de beleza, que atendia desde crianças levadas que o faziam ter certeza que não queria ter filhos, até senhorinhas de idade que o enchiam de beliscões, Jimin passava seus dias trazendo um pouco de cor e leveza aos habitantes tão uniformes e cinzas que ali frequentavam. Apesar de sofrer diversas vezes dos mais infundados preconceitos, graças à sua sexualidade e profissão, seguia ali, vivendo o que podia, sorrindo para quem não o julgava descaradamente, ou o chamava de ingrato por não se ver futuramente ali.

Porém, além do que já estava habituado, havia algo pelo qual ainda acordava animado em manhãs aleatórias. Seu cliente favorito, que sempre lhe surgia com ideias mirabolantes sobre o que fazer em seus cabelos castanhos e acabava por apenas corta-los da mesma forma, tinha nome e sobrenome desconhecido por si, e isto o fazia ter um pingo de emoção em sua existência pacata. Afinal, aquele homem era tão bonito e diferente dos rostos forçadamente animados, ou desagradado com sua existência, dos outros ali.

E, para sua sorte, ou talvez azar, Jungkook resolvera visitar seu salão em um horário não muito convencional de uma sexta-feira. As luzes noturnas da cidade já haviam sido acesas e a lua escondia-se entre algumas nuvens carregadas, em um anúncio da iminência da chuva. As portas do salão se fechariam em breve, mas aquele sorrisinho tímido o fez ficar e esperar pelo o que se seguiria naquela noite chuvosa.

- Boa noite, Jimin.

Ah, sua voz quase falhara ao observar as feições bonitas do mais velho, que possuía seus cabelos azuis daquela vez. Na realidade, sempre falhava miseravelmente em todas as tentativas pífias de chamar atenção do único homem que fizera isto consigo. Tomar todo seu interesse que há muito não existia por uma pessoa real.

Park Jimin, para ele, era como uma incógnita brilhante no meio da serenidade que o cercava desde sua mudança, e ele gostou disso. Da forma que a simplicidade soava tão distinta no homem que lhe cumprimentava e sorria, solicitando que se sentasse em uma das cadeiras fofas, rosas e giratórias.

O cabeleireiro não gostava da cor rosa, principalmente da cor vibrante que boa parte de seu estabelecimento tinha, no entanto não haviam muitas outras opções de compra naquele lugar, limitando-o ao velho ambiente supostamente feminino.

O Bel Viso consistia em uma construção simples, de dimensão pequena e formato retangular, com largura mais curta que sua profundidade. Protegido por uma porta de vidro onde a estampa de uma mulher desconhecida fazia propaganda de um cabelo fantasioso, o salão não fugia muito do comum: cadeiras com chuveirinhos dispostas na lateral esquerda, espelhos à direita, cadeiras que rodavam, subiam e desciam, em frente aos espelhos, além dos pequenos armários onde todos os materiais do azulado eram guardados. Tudo absolutamente rosa. Jungkook achava fofo, até mesmo engraçado, já que o outro lhe dissera que não gostava da cor.

Contudo, algo sempre chamou atenção do moreno. O fato de haverem, não só naquele salão, sempre a imagem de dois animais específicos: Sapos e serpentes. Sejam fotos, esculturas ou até objetos cheios de imagens destes, eles estavam lá, em toda cidade. Chegava a ser brega, em sua concepção.

- O que deseja para hoje, senhor? – a voz doce de Jimin não era proposital, mas soou daquela forma, enquanto via o rapaz mais alto sentar-se em uma das cadeiras.

- Me chame de Jungkook. – pediu, sentindo as bochechas tremerem por segurar o sorriso. – Desculpe o horário. Estava procurando emprego. – sorriu então, observando o cabeleireiro pelo reflexo do espelho oval preso à parede de cor salmão. – Estive pensando em fazer um moicano.

Park riu das respostas, tanto por finalmente saber seu nome, quanto por já estar acostumado com aquele tipo de brincadeira. Pois, ele não poderia estar falando sério, não é?

Não é?

- Tem certeza que é isso que deseja, Jungkook? – disse, deslizando seus dedos gordinhos pelo undercut já crescido na nuca do rapaz, causando arrepios no corpo alheio. Aquela mão parecia tão macia e capaz. Atiçava a mente carente do moreno.

- Talvez fique legal, não? Eu tenho um rosto bonitinho.

O sorriso do mais baixo se abriu um pouco mais, enquanto causava a sensação gostosa de carinho nos fios castanhos e lisos de Jeon, enquanto deslizava seus dedos até aqueles que o cobriam a testa. Puxou delicadamente, revelando a pele pouco oleosa, porém bonita, presente. Seus olhos encontraram com os do outro, que o admiravam em expectativa nada oculta, ainda pelo reflexo, quando respondeu.

- É realmente bonito.

Sem jeito, Jeon desviou os olhos, sentindo a face ascender, evidentemente rubra.

- Acho... – gaguejou um pouco, tentando se recompor da vergonha súbita. – que pode ser apenas o de sempre.

As mãos que o tocavam deslizaram novamente por seu cabelo, delicadamente, até chegar aos seus ombros e aperta-los, massageando brevemente com os dedões, indicando com a cabeça que o moreno deveria ir ao lavatório.

Não era realmente necessário, mas Jimin gostava da sensação de toca-lo um pouco mais, assim como isto parecia agradar o cliente.

As ruas começavam a molhar-se na mesma proporção com a qual os fios castanhos escureciam em contato com a água. A chuva forte, recheada de ventos uivantes, aos poucos tomava cada canto da cidade, balançando as estruturas das construções simples, atiçando um medo escondido naqueles que viviam há tempo demais ali.

- Sabe, minha avó contava que noites chuvosas deveriam ser passadas com alguém... – Jimin disse, em um surto de coragem quase inexistente em si. – pois essa cidade prega peças em dias assim.

As mechas macias de Jungkook já estavam cheias de espuma, enquanto os dedos curtos esfregavam o couro cabelo da nuca com certa pressão, em uma massagem discreta e gostosa.

- Como assim peças?

- Já reparou que em toda a cidade há uma serpente ou sapo? – esfregou as laterais de sua cabeça, vendo-o assentir. – Os mais velhos contam que Centipede é amaldiçoada, e que em noites chuvosas um animal de mil patas persegue aqueles que não se protegem.

- Tipo uma centopéia?

- Sim. – molhou os fios, torcendo-os com cuidado, retirando o excesso de água. – O nome da cidade supostamente surgiu pelas gigantes centopéias que matavam os homens que tentaram coloniza-la. Assim, criaram a tradição de usar os predadores naturais delas como proteção. Acho que tornou-se até mesmo um símbolo das pessoas que moram aqui.

- Você acredita nisso tudo? – perguntou, sentindo-o espalhar o que imaginou ser condicionador.

- Eu evito esperar pela sorte.

Jimin apontou para o totem de cerâmica no canto do outro lado do local, de pelo menos 50 centímetros, que consistia em um sapo vermelho surgindo em meio às voltas do corpo de uma cobra completamente esverdeada e enrolada.

Alguns minutos se passaram até Jungkook finalmente perceber que perdeu algo naquela conversa. Jimin, que agora enxaguava novamente seus cabelos, talvez tivesse flertado consigo. Sentiu-se imbecil.

- Hum, sabe... – disse, já sentado corretamente, de coluna ereta, sentindo o tecido da toalha secar parte de seu rosto e cabelos. – Você tem com quem ficar nessa noite?

- Apenas meu sapo e minha cobra. – sorriu, rindo juntamente ao moreno, segurando seu braço para levá-lo novamente à cadeira.

- Pois, bem, eu não tenho exatamente para onde ir agora, além da minha casa, e, bem, não há proteção lá... Eu poderia, bem, ficar aqui, se você não se incomodar. Podemos nos proteger juntos.

Novamente sentiu os dígitos gordinhos dançarem por entre as camadas, agora molhadas, de suas mechas, encontrando seu olhar profundo diante do espelho. O lábio inferior e grosso foi mordido por Park, que arqueou um de suas sobrancelhas, antes de acenar afirmativo, com os olhos estreitos.

E, talvez, se Jimin não houvesse ligado a máquina de cortar logo em seguida, em meio ao silêncio entre eles e o barulho da chuva lá fora, um dos dois teria percebido que as ruas já não eram mais iluminadas, quando as lâmpadas dos postes explodiam e queimavam, e que em frente à porta de vidro não mais havia o vazio.

A porta destrancada fora aberta, enquanto o cabeleireiro finalizava o trabalho na nuca de Jeon, deixando a máquina sobre o pequeno armário ao lado e embaixo do espelho, quando finalmente visualizou a imagem deturpada do homem estranho e idade avançada que invadira seu estabelecimento.

De roupas rasgadas e ensanguentadas, pele suja, enrugada, e quase completamente a mostra, o desconhecido manteve-se de pé, de olhos arregalados, não realmente focado em algo ou alguém, com as mãos abrindo e fechando, assim como seus lábios, que mordiam o ar a cada segundo. O som de seus dentes colidindo era alto do suficiente para que a agonia tomasse a espinha do cabeleireiro.

Até a estrutura magra e maltratada fitar a ele, em um misto de repulsa e ódio, mordendo o ar com maior velocidade e força.

Com uma mão apertando o ombro de Jungkook, virou-se completamente para o homem desconhecido. Seria ali, naquele momento, que aquela cidade finalmente o consumiria? Não duvidava de que aquele era mais um daqueles lunáticos que o atacaram certa vez.

Assustado e pouco sem ação, o moreno tentou levantar-se da cadeira, guiado pelo aperto em seu ombro, mesmo sentindo suas pernas tremerem e a adrenalina não funcionar em seu corpo.

Antes que qualquer um dos dois pudesse reagir, o homem desviou seus olhos escuros e opacos em direção à entrada pela qual invadira o estabelecimento, pondo suas mãos sobre os cabelos sujos e lisos, gritando de forma estridente.

O grito reverberou não só pelo local, como também pelo interior desestabilizado de ambos os rapazes, que não tiveram reação ao ver o homem correr e jogar-se contra o totem, estilhaçando-o sob seu corpo, machucando-se ainda mais no processo, enquanto abraçava os cacos, gritando ainda mais alto, em um misto de dor, desespero e loucura.

Ele parecia chorar, insano, em seus próprios movimentos desprovidos de razão, deslizando a mistura pútrida de sujeira, sangue e a água que havia o molhado fora dali.  Era um choro amargo, escandaloso, similar ao lamento.

A chuva parecia mudar de direção lá fora, molhando diretamente contra as portas de vidro, chacoalhando a estrutura, infiltrando as estreitas aberturas. Não havia tempo para pensar apenas no homem que esperneava sobre o chão e cacos, muito menos sentir algo mais além de medo, então Jimin segurou o braço forte de Jeon, puxando-o da cadeira, na intenção de fugirem pelos fundos, onde ficava sua casa.

Em pé, Jeon deu o primeiro passo em direção à porta para a qual Jimin o puxava, tendo suas pernas pedindo para ceder, quando as luzes se apagaram e a mão macia deixou de toca-lo subitamente. Tentou alcança-la, mas apenas o ar passou por seus digitos.

Perdido, sentindo sua pulsação acelerada tentar fugir de seu peito, buscou com as mãos qualquer apoio ou o próprio azulado, chamando seu nome. Mas o som de sua voz não se propagou, e a escuridão parecia o empurrar ao limbo do afogo. Aquilo tudo não parecia real, como se sua existência estivesse sendo aos poucos tornada em algo abstrato, dependente unicamente dos eventos que viriam a seguir. Ao seu redor, não mais haviam cadeiras rosas, ou o sorriso bonito e atraente de Park Jimin. Não havia futuro emprego, não havia sequer o futuro. Então, abraçou seu próprio tronco, cedendo ao chão, agachado na superfície gelada e molhada, ouvindo apenas o som da chuva e movimentos incompreensíveis demais para seu estado letárgico de medo.

E, quando os gritos de Jimin soaram, ele já não reconhecia mais aquela voz. O pânico o deixou ainda menos provido de sentidos. Quando seu próprio corpo fora envolvido por estruturas fortes e ásperas, o pavor já havia o consumido o suficiente para impedi-lo de reagir. Ainda abriu sua boca, em um grito mudo, quando o que imaginou ser as presas de algo infiltraram-se em sua pele e músculos do ombro, inoculando algo viscoso e doloroso, que o queimou por dentro, transformando sua apatia em sofrimento excruciante, causando espasmos involuntários em suas pernas já moles.

Seu resquício de consciência servira-lhe apenas para quando, por segundos, um relâmpago clareou as ruas e casas de Centipede, fazendo-o observar o homem desconhecido morder e arrancar parte das entranhas expostas do corpo morto de Jimin, e sua própria vida ser tirada por garras que arrancaram-lhe os últimos suspiros de desespero e tristeza.

Os Centipedes fizeram a limpeza daquele lugar. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado e que não queiram me matar também k


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