História O Sangue da Heroína - Capítulo 7


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
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Palavras 5.093
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Fantasia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Espero que gostem ^^

Numb – Linkin Park

Capítulo 7 - Damien


Capítulo VI – Damien

 

A garota deu um passo para trás, defendendo competentemente uma estocada da espada de madeira de Damien. No entanto, apesar da determinação que brilhava em seus olhos, ela já estava no limite da sua condição física. Os movimentos estavam mais lentos, deixando a guarda aberta em pontos mortais. Ele queria que ela desistisse, que declarasse logo o término daquela aula. Contudo, mesmo cansada e ofegante, a garota continuava a desferir golpes lentos e desajeitados contra ele. Damien reconheceu o esforço dela e avançou, chocando a parte plana da madeira nas costelas da menina. Ela arfou e recuou em um movimento firme, mas as pernas falharam e seus joelhos dobraram-se. Damien encolheu-se em compaixão ao ouvir o nítido som dos ossos batendo contra as tábuas. A garota inclinou-se para frente, a espada ainda agarrada por uma das mãos.

Damien suspirou, alongando os braços e as pernas. A garota permaneceu no chão, o rosto escondido pelos fios castanhos que tinha se soltado da trança elaborada. Ele temeu que estivesse chorando, porém, quando ela ergueu-se sobre as pernas trêmulas, a expressão era de frustração.

— É melhor darmos uma paus...

— Uma luta. — Ela o interrompeu, os dedos cerrados no cabo de couro, a espada tremia de leve. — Mais uma luta.

Damien estreitou os olhos. Fazia duas semanas que vinha ensinando a Heroína e até aquele momento não notara nenhuma habilidade especial ou poder escondido. Ela era como uma pessoa normal, com mais determinação e garra que a maioria, porém fraca e de pouca resistência física. Alguns poderiam dizer que ela estava abaixo da habilidade de uma pessoa comum. Damien, por outro lado, observara o avanço estrondoso que a garota tivera em apenas duas semanas. Os movimentos estavam mais leves e ágeis e a vontade de lutar ficara mais forte. Na primeira semana, ela mal conseguia desviar-se dos golpes preguiçosos de Damien. O corpo dela não estava preparado para uma carga pesada de exercícios físicos e o cansaço fora um dos seus piores inimigos. Entretanto, com o aquecimento matinal — que ela estava conseguindo finalmente completar — e as aulas com os Cavaleiros e os Arqueiros, o organismo já estava adaptando-se a rotina em uma velocidade incrível para alguém que fora tão sedentária.

— Vamos descansar. — Disse mais uma vez Damien, com a voz firme e autoritária de príncipe. Entretanto, ao em vez de encolher os ombros e abaixar a espada, ela avançou, tentando um golpe diagonal pela direita. Ele, claro, defendeu a tempo suas costelas e deu uma rasteira nas pernas fracas da Heroína. A garota caiu para o lado e Damien agarrou-lhe o braço para não bater a cabeça no chão. Não precisava levar mais um sermão da mãe por estar “pegando pesado” com a menina.

Ele a largou com delicadeza e ela se sentou, a respiração irregular e acelerada. Damien pegou seu odre cheio de água e ofereceu a garota. Ela aceitou, dando um gole longo e desesperado.

— Não deveria forçar demais seu corpo. — Falou, deixando a espada apoiada em um canto e se sentou no chão, diante da menina sem nome. — Você tem que aprender a equilibrar o que consegue e o que não consegue. Não tenha vergonha de admitir isso. O importante é não sobrecarregar seus músculos e seus ossos.

Ela o encarou com interesse e franziu o cenho. Não disse nada enquanto voltava a beber da água no odre, dessa vez sem o desespero do gole anterior.

Damien coçou as pálpebras. Ela agia como seu irmão mais novo, Tayrone, calado e reservado, porém, diferente do garoto, era definitivamente mais teimosa. Se fosse uma Cavaleira como Alexia, os inimigos a temeriam, mesmo tendo o tamanho de uma criancinha. Talvez até ganhasse vantagem pela imprudência dos oponentes.

Ele observou o rosto da garota e deduziu que ela não era muito mais velha que ele. Talvez, se a própria soubesse, talvez até fosse mais nova. O rosto e o tamanho de seu corpo não revelavam sua verdadeira idade, mas deveria estar na metade da juventude, onde muitas garotas já estavam se casando e tornando-se mulheres com filhos. Damien não imaginava a Heroína diante dele casada, nem muito menos com filhos.

— Começaremos exercícios de respiração na próxima aula. — Disse, passando a mão enluvada pelas maçãs do rosto. Ela ergueu os olhos do odre para ele. Atenta e interessada, outros pontos que a diferiam de Tayrone. Ambos odiavam os treinos, estava óbvio isso, mas enquanto Tay fingia não ouvir Damien, a garota sem nome tentava ao máximo absorver suas observações e dicas. — Alguns movimentos necessitam de uma respiração controlada. Você ainda está inspirando e expirando pela boca, isso a faz arfar e atrapalha seus golpes. Precisão e controle são a base para nosso treino. A resistência também deixa a desejar, mas... — ele apertou os lábios e espalmou sua mão no chão. — Melhore sua alimentação e suas noites de sono, vai ajudá-la com esse detalhe.

A garota anuiu, sem expressão definida. Ela devolveu o odre vazio de Damien e se ergueu, as pernas mais firmes e equilibradas. Damien a observou espanar a poeira das roupas e esticar a mão em sua direção. Ela, por algum motivo, sempre fazia aquele gesto para ajudá-lo a se levantar sem que ele realmente precisasse — mesmo que no restante da manhã não demonstrasse nenhuma outra gentileza. Ele nunca recusava a palma estendida e erguia-se sem colocar peso no braço dela. O comportamento era estranho, mas não via motivo para ser mal-educado.

Eles recolheram as espadas e seguiram para o térreo em silêncio. Apesar das duas semanas juntos, eles não costumavam falar nada além do necessário. Damien às vezes achava que ela o odiava, outras, apenas o tolerava. Era difícil entendê-la.

O pátio estava lotado de espectadores. Tanto nobres quanto guerreiros estavam parados, enchendo a entrada e o interior do armazém. Damien franziu o cenho, estranhando o movimento dentro do Refúgio de Inverno. Nobres não-guerreiros não entravam em pátios imundos e os soldados não paravam de lutar por nada naquele mundo. Porém, ambos os grupos estavam quietos, presenciando algo. Damien entrou na multidão, pedindo educadamente passagem as pessoas e tentou ver além das cabeças o que estava acontecendo. A Heroína, claramente curiosa, colou em seus calcanhares, aproveitando o caminho que Damien liberava. Ela era um ponto perdido entre tantos corpos altos e músculos e roupas elegantes e extravagantes. No meio do percurso, a menina acabou pisando em diversos pés, sujou o vestido de uma dama escandalosa e chutou várias vezes o calcanhar de Damien. Quando ele ia virar-se para reclamar com a garota, ela agarrou seu pulso e ficou presa entre dois homens. Damien pediu aos dois cavalheiros que dessem passagem e arrastou a Heroína pela multidão, fazendo o possível para que ela não se perdesse ou esbarrasse em alguém.

Por fim, eles descobriram o motivo da comoção no pátio interno. Alexia e Klorn estavam lutando. Os dois eram tão rápidos que os olhos de Damien mal conseguiram acompanhar os movimentos dos corpos e das espadas. Era muita coisa acontecendo em pouco tempo. Alexia defendia e atacava, enquanto Klorn erguia espada e impedia uma estocada veloz com o escudo. Damien sabia qual era a sensação de lutar com os dois guerreiros, mas aquele combate estava além das suas habilidades. Klorn era experiente e tinha uma mente ágil, entretanto Alexia era uma Heroína e, mesmo sendo dez centímetros mais baixa que o irmão de Damien, era mais forte e rápida.

— Eles estão lutando há meia hora. — Gerard estava muito próximo de Damien e da garota, mas, diferente do resto da multidão entusiasmada, o Herói parecia ligeiramente entediado.

A garota, que tinha largado o pulso de Damien, exclamou algo em sua língua-mãe e encarou a amiga com os olhos cintilantes.

— Todos estão apostando quem vencerá. — Falou Bryan, ao lado de Gerard. Ele cumprimentou o príncipe e a Heroína com um sorriso amigável. — Eu acho que vai dar empate.

— Eles já lutaram antes? — perguntou a garota sem nome, erguendo o queixo para olhar o enorme Bryan.

— Uma ou duas vezes. — Admitiu o Herói, passando uma mão pelos cabelos castanhos arrepiados. — Mas nunca com tanta determinação.

— Alexia apostou alguma coisa, não foi? — soltou ela, um sorriso afetuoso surgiu de seus lábios ao citar a amiga. Ela nunca sorria daquele jeito quando eles estavam treinando.

Bryan riu, confirmando a suspeita da garota.

— Eles estavam discutindo por alguma coisa. — Soltou Gerard, sem sorrir. — Então de repente Alexia propôs um desafio e Klorn aceitou. E desde então estão lutando.

— Todo mundo parou para ver depois dos cinco primeiros minutos. — Comentou Bryan, os olhos castanhos muito claros estavam atentos na luta que continuava intensa. Nenhum dos combatentes estava perdendo o ritmo ou se cansando. — Quinze minutos depois, mais e mais gente veio ver o que estava acontecendo, até os membros da nobreza ficaram curiosos com a luta entre Alexia e Klorn.

Damien olhou ao redor. Reconheceu alguns rostos na multidão, entre eles tios, tias, primos e primas. Ele não desgostava dos parentes, mas ficou desconfortável com a visita em massa deles. Era óbvio que a Invocação dos Heróis em Entaarm causaria uma comoção entre os nobres, muitos deles ansiavam em conhecê-los e dezenas de bailes foram realizados com o único propósito de que cada membro importante e relevante conhecesse os dozes salvadores. A maioria dos Heróis adorava as festas e toda a atenção excessiva da aristocracia. Alexia, Barbara, Mayumi e Gerard eram o quarteto que mais aproveitava tais eventos. Porém, pessoas como Bryan, Ellen e Shin detestavam tais formalidades, embora comparecessem mesmo assim. A garota sem nome, que todos chamavam de Décima Terceira, não foi convidada a nenhuma dos bailes. Apesar dos esforços da rainha para incluir a menina, o rei estava determinado a ignorar a existência dela e convencer os outros a fazer o mesmo. Décima nunca pisaria no salão de festa. Ela não comentava sobre aquele fato e, pelo que tinha ouvido falar, passava as noites dos bailes na biblioteca, lendo e estudando com seu professor, Zyrah. Damien sabia que a garota não se importava de ser banida dos eventos sociais, até suspeitava que ela estivesse grata pelo rei poupá-la das falsas cortesias e sorrisos estáticos de nobres mesquinhos.

— Alexia vai vencer. — Declarou Décima, animada. Damien voltou à atenção para a luta. O irmão estava recuando, a espada mais lenta que minutos atrás. Por outro lado, a Heroína não demonstrava sinais de cansaço.

— Realmente. — Concordou Bryan, cruzando os braços. — Alexia é a mais resistente de nós. Aposto que ela pode durar horas nesse ritmo frenético.

Décima ergueu as sobrancelhas. O sorriso afetuoso tinha voltado a ser erguer, iluminando o rosto suado.

Klorn finalmente cometeu um deslize e a espada de lâmina cega de Alexia atingiu pesadamente a lateral do Príncipe Herdeiro. O impacto foi tão forte que o corpo grande e musculoso do irmão foi jogado para o lado. A espada voou das mãos do príncipe e atingiu um espectador distraído — felizmente, o homem não se machucara muito, mas, por precaução, foi levado a enfermaria para tratar o inchaço que crescia em sua testa. Damien se aproximou rapidamente do irmão caído, avaliando durando o percurso o local que a espada o atingira.

Alexia aproximou-se de Klorn e ofereceu-lhe a mão, assim como Décima fazia com Damien. O irmão aceitou sem hesitar a palma estendida e, com um puxão firme, foi erguido sem grande esforço pela Heroína. Damien notou como era assustadora a força dos Cavaleiros. Claro, existiam homens em seu mundo capazes de levantarem pedras pesadas e cortarem pessoas ao meio sem esforço, porém, a classe heróica de Alexia, Bryan e Gerard poderia fazer o impossível se tornar possível. De acordo com as lendas, um Cavaleiro Herói era equivalente há 200 cavaleiros comuns e bem treinados.

Apesar da força do golpe, o irmão não estava machucado, ainda bem. Um pouco tonto e dolorido, mas sem ossos quebrados.

— Alexia. — Cumprimentou Damien com um aceno de cabeça. — Irmão.

Klorn abriu um sorriso brilhante e alegre. Não parecia nem que tinha perdido uma luta há um minuto.

— Damien, o que achou? — perguntou Klorn, o rosto imundo de terra e poeira. — Da luta, eu quero dizer.

— Impressionante. — Decidiu ser sincero. — Estava na hora de alguém derrotá-lo.

Klorn riu, dando leves tapinhas em seu ombro. Alexia sorriu, limpando as raras gotas de suor da testa.

— Está me devendo uma recompensa, príncipe. — Disse ela, os olhos castanhos brilhando de entusiasmo.

— Não se preocupe, Heroína, um príncipe nunca volta atrás nas suas apostas. — Falou Klorn, inclinando a cabeça para o lado. Damien se sentiu um pouco desconfortável de estar entre os dois, porém a sensação sumiu quando a figura baixa e discreta de Décima surgiu com um sorriso e uma animação incomum depois de uma sessão dura de treino.

Alexia, vendo a amiga, imediatamente desviou os olhos do Príncipe Herdeiro. Ela fez menção de abraçar Décima — gesto bastante frequente das duas Heroínas —, mas a garota sem nome logo impediu o contato, exclamando que estava suada demais.

— Então, vai poder ir ao baile de hoje? — perguntou Alexia à Décima. A mais baixa encolheu os ombros, porém o sorriso não vacilou. Não parecia nenhum pouco decepcionada com a perspectiva de não comparecer a festança. Mesmo assim, a Cavaleira olhou para os príncipes, a testa franzida e os lábios crispados. Era uma expressão semelhante a que a mãe deles fazia quando os repreendia por causa de uma travessura.

— Não é nossa culpa. — Tratou de esclarecer Damien, na defensiva.

— Nosso pai... ele... — Klorn ficou um segundo em silêncio, procurando as palavras certas para dizer o profundo desafeto do pai por Décima.

Porém, antes que algo constrangedor saísse da boca do irmão, a pequena garota balançou a mão no ar, como se espantasse algum inseto irritante.

— Não me importo. — Declarou ela, olhando da amiga para Damien e Klorn. — Não se preocupem comigo, não é como se eu me sentisse triste ou desprezada. — O tom de voz dela era sincero e o semblante, sério. Não estava mentindo. — Eu odeio multidões e dançar, aliás, eu não faria à mínima ideia de como agir em um baile. Não conheço as suas músicas ou suas tradições. É melhor assim. — Ela abaixou os ombros e por um momento pareceu decepcionada com algo. Entretanto, como um raio, a expressão em seu rosto mudou para uma felicidade radiante. — Falando em baile, hoje Zyrah vai me ensinar zoologia! — Damien nunca vira ninguém tão animada com a ideia de passar a noite toda lendo e escrevendo sobre um assunto monótono e cansativo.

Alexia deu um sorriso educado para amiga, talvez pensando a mesma coisa que Damien.

A multidão demorou a se dispensar do pátio interno. Os nobres queriam falar com Klorn, Alexia, Damien, Bryan e Gerard. Os guerreiros também. Décima, desconfortável com os olhares estranhos, correu para longe, dando a desculpa que marcara com Tay na biblioteca antes do almoço. Damien achou a estratégia brilhante e, dez minutos depois da saída da garota, criou um motivo igualmente banal para se livrar de uma conversa enfadonha sobre a luta do irmão e de Alexia.

Estava nevando no lado de fora. A ventania fazia os flocos de neve dançarem furiosamente em voltada de Damien, ricocheteando em seu rosto e despenteando seus cabelos. Ele correu para o interior do castelo e atravessou os corredores a passos rápidos. Precisava urgente de uma roupa seca, uma lareira quente e uma xícara de café.

 

 

 

 

O banquete já estava sendo servido no Grande Salão, que era ligado ao salão de baile, a pista de dança e a área social. Mas Damien não estava aproveitando nenhum dos pratos magníficos da festa daquela noite. Ao em vez disso, estava encostado na parede de um quarto cheio de móveis pequenos e brinquedos de madeira, vendo o irmão Tayrone resmungar enquanto era vestido por duas criadas frustradas.

— Deixe de birra. — Falou, cruzando os braços e encostando a cabeça nas pedras frias. Tay lançou um olhar afiado em sua direção e crispou os lábios. Enfim, estava vestido com as cores de Entaarm: a camisa branca como a mais pura neve e o colete azul marinho como o mar aberto. Damien quase riu. Entaarm não tinha mar para chamar de seu. As calças eram muito brancas, destacando as botas muito pretas.

Ele deixou que Tay saísse primeiro do quarto, mas, por precaução, agarrou a gola do colete com firmeza, mantendo-o assim perto e controlado. Tay resmungou algo incoerente e girou a cabeça para trás, os olhos azuis cheios de raiva.

— Não me olhe assim. — Disse Damien, devolvendo o olhar com determinação. — Não foi minha ideia levá-lo ao baile.

— Então por que está me forçando a ir?! — exclamou Tay, as bochechas vermelhas.

— Porque foram ordens diretas da nossa mãe. — Damien respondeu, dando de ombros.

Tay bufou, batendo os pés.

— Odeio festas. — Declarou o irmão, cuspindo as palavras com desprezo. — Odeio, odeio, odeio do fundo do meu coração.

Damien suspirou, largando a gola do colete e pousando uma mão firme no ombro de Tay. Ele parou, mas não se virou para encarar o irmão mais velho.

— Eu sei. — Sussurrou Damien, o tom mais gentil e caloroso. — Também não é uma das minhas atividades favoritas. Odeio ser forçado a interagir com pessoas que não me importo, odeio fingir estar feliz com a presença deles, mas — Tay o olhou de soslaio, interessado. — Eu não faço isso por mim, nem por essas pessoas. Faço pela nossa mãe. Pelo meu dever como príncipe.

Os ombros de Tay relaxaram e o garoto girou os calcanhares, erguendo o queixo para encarar Damien.

— Tudo bem. — Falou ele. — Uma hora.

— Duas horas. — Damien retrucou.

— Uma hora e meia. — Tay inclinou a cabeça.

— Uma hora e meia. — Concordou, sentindo um sorriso brotar em seus lábios. Tay sorriu, satisfeito com a negociação. — Mas com uma condição.

— Ah, não. — O sorriso se desfez no rosto de Tayrone.

— Ah, sim. — Damien apertou delicadamente os dedos em volta do ombro do irmão. — Você pode sair depois de uma hora e meia, mas, quando sair, vai ter que ir direto para cama, dormir. Nada de ir perambular pelo castelo ou pela biblioteca. — Tay abriu a boca para reclamar, porém Damien o interrompeu com um gesto brusco de sua mão. — Ou isso, ou vai ficar duas horas e meia no salão, interagindo com os nobres e conversando com nossas tias.

— A tia Charlotte e tia Evandet não. — O menino empalideceu e levou as mãos as bochechas.

— Então vá direto para a cama quando sair do baile. Nada de ler ou procurar a garota sem nome.

— Décima. — Tay corrigiu, franzido o cenho. — O nome dela é Décima.

— Nada de procurar por Décima. — Repetiu Damien, com firmeza.

Tay crispou os lábios, os dedos ainda nas bochechas. Ele pensou por um momento até decidir que preferiria salvar a pele em volta do rosto.

— Tudo bem. — Emburrado, Tayrone deu as costas a ele, as mãos cerradas nas laterais do corpo. — Uma hora e meia e direto para cama.

Damien sorriu e despenteou os cabelos do irmão. Tay afastou a sua mão e, com passos largos e rápidos, atravessou o corredor.

A comida ainda estava sendo servida no Grande Salão, ainda bem. As pessoas cumprimentaram os dois príncipes, erguendo taças e sorrindo. Damien acenou com a cabeça para todos, mas não parou para se sentar com nenhum dos nobres que o convidavam a jantar com eles. Damien guiou Tay pelas mesas, evitando esbarrar em alguém. Klorn, que era seu porto seguro em eventos como aquele, estava sentado naquela noite junto com os Heróis. O irmão estava impecável como sempre. Usava um gibão azul marinho bordado com ouro nas extremidades das mangas e calças brancas. Damien achava aquela roupa horrível, apesar de nunca falar aquilo para o irmão. Ele agradecia aos Deuses pelos pais não o forçarem a usar aquele tipo de vestimenta. O colete e as calças de tecido fino eram confortáveis o suficiente.

Klorn acenou para Damien, que não pôde deixar de notar a bela dama ao lado do mais velho. Alexia usava um vestido verde-água discreto, mas bastante bonito e detalhado. Ela não usava joias e o cabelo fora elaborado de um jeito estranho. Era um penteado diferente das outras mulheres pelo salão, porém agradável e simples que realçava os cachos dourados-escuros. Os outros Heróis também ergueram os olhos para acompanharem os príncipes. Ellen, que usava uma túnica simples, sorriu para ele, enquanto Bryan se contentava com um aceno de cabeça.

Damien acomodou Tay entre Alexia e Ellen — as garotas logo viraram suas atenções para o principezinho encolhido na enorme cadeira — e se sentou ao lado de Bryan e Marcus, de frente para Klorn.

— Boa noite, príncipe. — Exclamou Marcus, com seu habitual tom alegre e animado. Nada parecia abalar o Arqueiro. — Perdeu o início do baile! Foi emocionante, Bryan quase caiu em cima de uma das damas com quem dançava. — Bryan lançou um olhar irritadiço para Marcus, mas o mesmo não notou. O Cavaleiro decidira manter-se calado. — E Ellen colocou fogo no vestido de Dalal.

— Eu já disse que foi sem querer, Marcus. — Exclamou Ellen, parando de ajeitar os cabelos de Tayrone para encarar o Arqueiro com raiva. Discretamente, Tay afastou-se da Feiticeira, os olhos arregalados para Marcus.

— Eu sei, eu sei. — O menino ergueu os braços como se defendesse de um golpe inesperado, todavia o sorriso brilhante continuava intacto. — Mas foi engraçado!

— Barbara quase não conseguiu apagar o fogo! Dalal poderia ter se machucado. — Ellen encolheu os ombros. — Acho que vou falar com ela depois dessa, espero que Dalal me perdoe.

— Não se preocupe. — Soltou Alexia, passando o braço por cima de Tay e deu leves tapinhas, que não tinham nada de leves, nos ombros de Ellen. A Feiticeira não reclamou dos golpes da amiga e até sorriu pela compreensão dela. — Eu só queria que a Décima estivesse aqui. Ela adoraria essa sobremesa de morangos silvestres. — A Cavaleira cutucou a torta pastosa com a colher, espalhando a massa fina em volta do prato, sem qualquer interesse na comida.

— Providenciarei uma bandeja delas mais tarde para ela. — Falou Klorn, bondoso. Alexia sorriu, agradecida pela gentileza do Príncipe Herdeiro. Damien olhou do irmão para a Heroína, que sorriam um para o outro, e quase revirou os olhos para dentro da caixa craniana. — Aliás, ela deve está em algum lugar, lendo.

— Provavelmente estudando alguma coisa sobre anatomia de algum animal qualquer. — Pontuou Damien, cutucando a torta com um garfo.

— Não! — Tay exclamou, de repente. Todos na mesa dos Heróis pararam de comer para encarar o príncipe. O garoto se encolheu, o rosto totalmente corado. — Ela disse que ia me esperar para estudar isso. — Resmungou mais baixo.

— Então não se preocupe. — Consolou Ellen, voltando a ajeitar os cabelos despenteados de Tay. Com se um choque tivesse atravessado seu corpo, o irmão ficou ereto e muito imóvel. Provavelmente passara pela cabeça do garoto a possibilidade da Heroína acabar colocando fogo sem querer em seu cabelo, contudo a educação fora mais forte e ele permanecera parado como uma estátua. — Décima é sincera e honrada demais para descumprir o que disse.

Tay deu um sorriso tímido e começou a devorar a sobremesa. Damien não o impediu e empurrou o seu prato na direção dele. O irmão aceitou a sua torta e comeu sem hesitar.

Marcus continuou a tagarelar os acontecimentos do início do baile. O menino, que tinha uma memória excepcional, contou em detalhes o desastre do vestido queimado de Dalal, a Curandeira. Bryan entrou na conversa, irritado pelo amigo ter contado sua participação em ajudar a garota em chamas... ou a ausência dela. O Cavaleiro desviou o assuntou para armas e técnicas de combates. Marcus esqueceu-se rapidamente de Dalal e animou-se em apresentar o novo arco que ganhara depois da missão que cumprira uma semana atrás. Ninguém na mesa parecia estranhar a arma nas mãos do Arqueiro... no meio de um baile formal.

Damien se divertiu por quarenta e dois minutos até a sombra do Capitão Allon pairar por trás da sua cadeira. Ele tentou não demonstrar decepção ao ver o homem de expressão emburrada.

— Meu pai está me convocando. — Adivinhou Damien, e o Capitão confirmou com um aceno curto de cabeça.

Damien suspirou.

Despediu-se dos Heróis e lançou um olhar de advertência ao irmão. Tay, porém, estava entretido com uma conversar entre Ellen e Alexia. Damien virou as costas para a mesa e caminhou atrás do Capitão Allon. O som e o cheiro da festa foram deixados para trás à medida que eles caminhavam pelo corredor.

O coração de Damien acelerou quando ele reconheceu o caminho para onde o homem estava guiando-o. Ele tentou esconder a ansiedade e conteve o impulso de esfregar os próprios olhos. Não era momento para pânico. Era só uma reunião particular, com o pai, dentro de um cômodo — o escritório do rei — que nunca tivera a permissão de sequer pisar.

Desde criança aprendera que o escritório era território proibido. Ele poderia vagar por qualquer parte do castelo, menos aquele cômodo longe da ala comum e dos quartos de hóspedes. Aquilo era uma tarefa fácil para um menino obediente, mas para Damien fora uma missão impossível. A curiosidade sempre gritava mais alto quando olhava para a torre isolada e para aquela varanda enorme com as portas frequentemente abertas. Porém, o medo da punição do rei era forte e absoluta. O pai nunca fora de perdoar, mesmo pequenos delitos, e Damien manteve-se longe do escritório, nunca esquecendo sua presença, mas sempre se lembrando da regra. Nunca pise no escritório do rei, nunca. Apenas, é claro, se ele convocasse sua presença até lá — o que nunca acontecera nos 16 anos de Damien. Então, enquanto subia as escadas em espiral, ele não pôde deixar de se sentir desconfortável e nervoso.

Quando por fim o Capitão parou diante de uma grande porta de madeira, Damien estava a ponto de ter um ataque de ansiedade. Contudo, ele conseguiu executar o milagre de parecer inexpressível e um tanto entediado. Afinal, era seu pai, o rei, e o território inexplorado.

O Capitão Allon bateu na porta e a abriu logo em seguida. Damien adentrou o escritório do pai a passos rápidos e o queixo erguido. Outra regra que aprendera: nunca demonstre fraqueza perto do rei.

O escritório era simples e pouco decorado. Inúmeras prateleiras cheias de livros e pergaminhos enchiam as paredes do cômodo largo e circular. O teto era alto e abobadado, diferente das outras torres com o estilo cônico. No meio do escritório, uma enorme mesa estava fixada ao chão. Havia diversas cadeiras em torno dela, provavelmente era o local das reuniões particulares do rei. Mais adianta, perto da varanda misteriosa da infância de Damien, estava uma escrivaninha feita de madeira escura. Atrás do móvel, o rei estava sentado.

O pai de Damien não ergueu a cabeça com a chegada deles. Ele estava concentrado demais em um pergaminho amarelado. O Capitão Allon fez uma reverência mesmo assim e foi embora. Finalmente, ao ouvir a porta se fechar, o rei levantou os olhos para o filho parado a sua frente. Damien ajeitou a postura e olhou para um ponto distante, além do cômodo decepcionante e a varanda agora sem nenhum mistério.

— Lamento por tê-lo tirado da festa. — Falou o Rei Otto sem um pingo de sinceridade. — Sente-se. — Ordenou e Damien obedeceu. Como um bom filho, ele observou o pai escrever sobre o pergaminho, guardá-lo em uma gaveta e por fim voltar novamente à atenção para o garoto a sua frente. — Soube que está treinando aquela... garota. — O som da palavra “garota” soou áspera e repugnante na boca do pai, como se Décima, a pessoa mencionada em questão, fosse uma pequena massa gosmenta e pegajoso entre os dentes do rei. — Relate-me o progresso dela.

E foi o que Damien fez. Não havia muito a esconder, além do incrível avanço de Décima em relação à espada e ao arco.

— Ela aprende rápido, apesar da falta de habilidade. — Disse Damien, com um pouco de orgulho na voz. Porém, a expressão do pai estava indecifrável.

Sem falar nada, o rei puxou uma folha em branco de pergaminho, molhou a caneta-pena no tinteiro e começou a escrever. Damien ficou imóvel na cadeira, os olhos vagando para qualquer lugar menos o pedaço de papel. Longos minutos de silêncio se seguiram até o rei bater com a caneta na escrivaninha, secar a tinta, enrolar o pergaminho e pingar cera quente em cima do papel, lacrando a carta com o símbolo real.

— Próxima semana, você, a garota e alguns dos meus homens vão para uma missão. — Declarou seu pai, o tom ríspido e autoritário.

Damien ficou alarmado.

— Ela não está preparada. — Disse, com urgência, sem se mexer na cadeira. — Não pode ir a uma missão, só tem duas semanas de treino! Alguns dos Heróis levaram um mês antes de saírem do castelo. Ela...

— Você, — voltou a falar o rei, os lábios superiores puxados para cima, revelando uma fileira de dentes muito brancos. — a garota e alguns dos meus homens sairão para uma missão. — Repetiu, uma veia saltava de sua testa. Damien engoliu em seco, cerrando uma mão contra a outra em seu colo. Esquecera da principal regra: nunca contrarie o rei. — Sem mais discussões. — Seu pai fez um gesto com a mão. Estava mandando-o embora.

Engolindo as palavras e a revolta, Damien abaixou a cabeça, submisso, e ergueu-se da cadeira. Passou a mesa de reuniões e abriu a porta, revelando o rosto escuro e barbudo do Capitão. Atravessou o homem sem olhá-lo uma segunda vez e desceu as escadas de dois em dois degraus. No final da escadaria, ele parou, o coração mais calmo.

Damien não sabia o que passava na cabeça do pai. Apesar do avanço rápido, Décima ainda não estava em condições de enfrentar uma missão. Ele esfregou os olhos. Deuses, ela nem pegara em uma espada de verdade ainda; como uma menininha como aquela conseguiria arrastar um pedaço de metal com metade de seu tamanho? Pior, será que aguentaria erguer e lutar contra alguém? As espadas de madeiras eram menores e mais leves, mas, mesmo assim, ela ainda sentia dificuldade em manuseá-la após alguns minutos de combate.

Aquilo era um desastre. A missão seria um desastre. E talvez aquela fosse intenção de seu pai. Mandá-la para uma missão já fadada ao fracasso só para humilhá-la diante da corte e desmotivá-la com o treinamento. Ele queria esmagar a garota em todos os sentidos. Entretanto... por quê? De onde vinha aquele fervoroso ódio pela Heroína? O rei se recusara a aceitar o título da garota, excluindo-a dos outros Heróis e dos nobres, maltratava-a com prazer e, agora, queria destruir a motivação dela. Por quê?. A pergunta rondou a mente de Damien, mas não havia resposta para ela. O ódio do rei por Décima era um mistério. E Damien iria descobri-lo. Afinal, nada era por acaso.


Notas Finais


Obrigada por ler o capítulo.
Bjs :* e até a próxima...


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