1. Spirit Fanfics >
  2. O santo do meu vizinho >
  3. Opróbrio

História O santo do meu vizinho - Capítulo 4


Escrita por:


Capítulo 4 - Opróbrio


Mãos apressadas enterraram-se dentro do emaranhado de trapos dentro do guarda-roupa; mordendo a parte interna da bochecha direita cujo tecido já despontava a impressão distorcida dos dentes; forçando-se a manter o rosto virado para o lado,  Meng Yao continha a vontade de olhar para suas escolhas.

De punho fechado sobre uma porção de roupas aleatórias, Meng Yao caminhou até a cama ainda desarrumada; sobre os lençóis floridos largados à sorte, jogou as peças com cuidado singular. Tendo finalmente contornado o rosto para encarar o fruto do sorteio, seus olhos, ainda escuros e caídos, aumentaram de tamanho.

Não mais sabia dizer se tinha bom gosto, pois ao seu ver, todas as roupas no depósito eram bonitas e combinavam com tudo. Mas pondo os olhos no conjunto, não deixou de sentir o rosto empalidecer; arriba da cama encontrava-se uma calça amarela Tactel com duas listras pretas, por natureza folgada e desbotada, cheias de dobras e contornos mais escuros; também, descansando sobre o ninho de trapos, uma camisa vermelha manga longa destacava-se; um casaco cinza, como o céu num dia chuvoso, e um gorro, semelhante a um saco de coar café, complementaram a vestimenta.

Como nas fanfics e originais das plataformas de leitura, não somente no Wattpad, todos os personagens, principalmente o protagonista, exibiam, em todos os capítulos, roupas pretas. Isso ia desde a peça íntima ao sapato. E o que Meng Yao esperava, dentre todas as suas roupas misturadas no guarda-roupa, era capturar pelo menos duas peças pretas. Nisso, percebeu que 'pegar qualquer roupa' poderia gerar um resultado desastroso e muito diferente do que era descrito nas narrativas.

E, pondo de lado a insegurança ácida a causar-lhe desconforto no estômago, pôs-se nas roupas de cores protestantes.

O amarelo néon da calça mais se parecia com a pintura de uma placa de estrada iluminada por um farol à noite e, posta sob domínio dos raios solares, doía na vista de quem olhasse por mais de dois segundos. Confrontante. O vermelho maduro gritava no alto do cós elástico; eufóricas, as mangas de tecido frio seguravam seus braços intimamente deixando metade das mãos cobertas.

Depois de tentar desamarrotar a calça, Meng Yao realizou os toques finais — o que não era muito, diga-se de passagem; percebendo que os fios de cabelo jamais se juntariam num coque frouxo, agrupou as mechas para trás e pôs um grampo para segurá-las; molhou a mão e passou por cima das guitas rebeldes; encarou-se no espelho e sentiu-se congelar; desde quando começou achar tudo isso tão ridículo?

Em que momento deixou-se influenciar pelas coisas sérias da vida? Bem, o pobre coitado não sabia responder. Num dia escrevia horrores, noutro já se encontrava indícios de vergonha; num dia xingava quem pensava diferente de sí, noutro já conseguia ficar calado quando se via disposto para brigar.

Mas agora, vestido de maneira tão peculiar, ele só pensava em terminar logo com isso.

Solas brancas, como listras pontilhadas sobre o asfalto, pisavam vagarosas na margem da calçada de um estabelecimento qualquer; o par de sapatos pretos foi a única peça escura do conjunto, esta escolhida por Meng Yao, já que o probre coitado não se queria comparar à um animador de festas infantis. Mas nem mesmo o calçado lustroso, recém-comprado, foi capaz de bloquear olhares desagradáveis para o corpo pequeno do rapaz.

Os transeuntes, aqueles que paravam para olhar ou simplesmente continuavam caminhando com a cabeça virada para a figura hiperbólica, preferiam reparar nas duas únicas cores discrepantes em íntimo contato. Era como se somente vislumbrassem um tronco pintado de vermelho e amarelo perambulando pelas calçadas, sem reparar no rosto enrusbecido de quem procurava não ser reconhecido.

O tiro saiu pela culatra! Ah, e como! Não esperava por isso, não pensou, em momento algum, vestir roupas tão chamativas; sabia que deveria atrair olhares, mas não de forma vergonhosa. A situação chamou-lhe um questionamento; por que se escreve isso? quem as escreve, as histórias, já passou por isso? qual é o sentido de vestir-se de qualquer maneira?

Meng Yao, experimentando o cenário, não conseguia encontrar uma resposta adequada. Logo, com um estalo, percebeu o lado bom daquilo que se estava fazendo; nunca, em hipótese alguma, cometeria o erro de ortografar uma descrição como essa; higiene matinal e pegar qualquer roupa certamente não devem ser incluídas como detalhamento de arrumação, e nisto ele mantinha firme convicção.

Atravessando os olhares curiosos e acusatórios, manchados por receosa aproximação e zombaria, Meng Yao colocou-se a caminhar depressa rente a calçada. Seus pés, pequenos para um homem de vinte e dois anos, avançaram sobre as rachaduras a se estender no concreto por todo o quarteirão, algumas tão grotescas a ponto do rapaz tropeçar e quase cair.

Ele nunca permanecera naquela parte da cidade por muito tempo; geralmente pintava o ar da graça por aquelas bandas quando, nos finais de semana, voltava de limpar, empilhar e organizar um agregado de livros nas prateleiras de uma biblioteca na qual trabalhava.

Em frente às vitrines do estabelecimento, com as mãos e pés a suar frio, observando os contornos verdes nas letras brancas do logotipo Starbucks, Meng Yao armava uma contagem regressiva de preparação psicológica.

Por trabalhar cerca de sete horas por dia, funcionando como atendente de balcão na franquia, o jovem estava habituado ao ambiente; mas não estava em seu local de trabalho. Não! Ali, parado no meio da calçada e de frente para a porta giratória de vidro, encontrava-se no centro da cidade. O Starbucks no qual atendia à tarde, todos os dias após sair da faculdade, localizava-se perto de sua casa; questão de uns trezentos metros.

Ao adentrar o estabelecimento, sentiu mais uma vez, e com intensidade, os olhares beliscarem a sua pele já abusada pelos punhados de radiação solar.

Contraiu os lábios e seguiu, com passos vacilantes, para a recepção; seguro da múltipla atenção que atraía, puxou o gorro do casaco para esconder-se. Já bastava de atenção! Ainda mais uma atenção negativa; queria d'outro tipo, d'outro jeito; desejava, ao menos, que alguma alma penosa virasse para sí e o elogiasse.

Limpou a garganta, "o de sempre, por favor".

Um rapaz, cuja identidade não vale a pena revelar, virou-se das máquinas para o sujeito a sua frente; com as sobrancelhas a se junatarem na linha média da testa, perguntou com hesitação: "desculpa, mas, quem é você?"

E naquele momento Meng Yao sentiu a primeira rajada de vergonha desferir-lhe um tapa no rosto. Estava começando a envolver-se no personagem, usando falas e recursos que o mesmo utilizaria nas fanfics e originais, que por um instante esqueceu onde estava; estivera alí uma única vez na vida; não conhecia ninguém e, obviamente, ninguém o conhecia.

Mas, retornando as lembranças de um antigo sonho,  não pôde afastar-se do personagem. De maneira alguma! Cá estava a oportunidade de reviver uma de suas fantasias; sonhou, no primeiro ano do ensino médio, em ser ator; as características não negam o talento. O garoto, desde muito cedo, quando acidentalmente quebrava os pratos e copos de sua madrasta, elaborava uma cena digna dum óscar.

Desconversava, inventava um motivo tosco para quebrá-los acidentalmente, chorava e implorava por perdão; como seus irmãos sempre estavam lá para observar, e aprender — diga-se de passagem—, a mulher simplesmente saía batendo com os pés em tudo pela frente. E Meng Yao, certo do que fazia, divertia-se com a careta que se formava no rosto da desgraçada.

"Com açúcar ou sem açúcar?", o balconista aguardou com os dedos no teclado do aparelho de comandas.

"Sem açúcar, por favor, porque de doce já basta eu", Meng Yao sorriu cativante a mostrar as sombras que despontavam no canto de seus lábios. "Ah, só mais uma coisinha… você saberia me dizer se tem algum CEO frio e calculista rondando por aqui hoje?"

"Pelo que eu saiba… não. Eles não têm tempo para tomar café aqui, então geralmente pedem para alguém vir comprar"

Efetuou o pedido, fez o pagamento e esperou no balcão. Enquanto aguardava ser respondido, correu os olhos pelo ambiente. Objetivo. Procurava dentre as pessoas que se encontravam acomodadas às mesas, algum infeliz que lhe chamasse a atenção; de preferência bonito, culto, elegante e misterioso.

"Aqui está o seu pedido!", o atendente exclamou pondo a bandeja em cima do balcão.

O jovem de roupas coloridas sorriu meigo e se estendeu para pegar o copo de estampa conhecida. Premeditado. Largou a bandeja sobre o balcão e saiu do ponto de atendimento apenas com o copo de café; andando a passos de tartaruga, com as duas mãos a segurar o depósito térmico em uma distância considerável de sí, Yao mantinha os olhos em cinesia.

Aqueles que o olhavam, analisando o posicionamento das mãos e o distanciamento do corpo, concluiam que, decerto, o café estava quente.

Ah, Qual! Tudo não passava de um teatro, uma mera armação para pegar o maldito que se encontrava a alguns metros de sí.

Por mais que não tenha encontrado o CEO frio e calculista das fanfics, avistou um homem com as mesmas características. Poderia até não estar vestindo um terno engomadinho, uma camisa com os primeiros botões abertos e sapatos lustrosos, mas a presença esmagadora, imposta como o levantar do sol numa manhã de verão, remetia uma austeridade sem igual.

O corpo parrudo, abrigado por um denso tecido cinza com traços verdes, imponente como um navio cargueiro que destroça ferozmente volumosos lençóis d'água, de membros firmes e mãos calejadas, estas nóduladas por um saco de pancadas artificial, ou, quem sabe, humano; de olhos rudes, sobrancelhas franzidas e lábios crispados; sobressaído como uma mancha de óleo sobre o mar, assim se via o homem caminhar para o balcão.

O conjunto da obra fez Meng Yao suspirar.

P'ra que! Onde o sujeitinho com roupas de treino estava a se meter? Aquele que agora caminhava no mesmo percurso que Meng Yao, não tinha, tampouco considerava, a ideia de esquivar-se; suas feições fechadas, a face carrancuda, os dedos sofregos num aperto de punhos; toda a fisionomia do infeliz punha ali, com a mesma intensidade d'um golpe final, o porquê da desconsideração.

"Qual é! Olha por onde anda, rapaz!"

Foi questão de segundos. Quando deu por sí, Meng Yao encontrava-se de frente para o sujeito corpulento; suas mãos trêmulas abraçavam o copo agora banhado por café; na parte inferior da camisa do homem, destacava-se uma bela mancha amarronzada sobre o tecido.

"Olha só o que você fez! E agora, como eu vou tirar essa macha de café sem estragar minha camisa? Você tem noção do que fez?! Por que não responde?", a voz grossa, levada por arrogância, disparava perguntas ao culpado por tudo aquilo.

Meng Yao, por hábito, manteria os olhos abaixados, mas o seu personagem não agiria assim; não! se fosse agredido, iria agredir também; se fosse humilhado, iria humilhar também; se fosse bem aceito, iria ser afável também; e, claro, se fosse amado, como queria há muitos, amaria também. Amaria na mesma intensidade. Queria amar mais que tudo, amar.

"Você que não saiu do meu caminho! E agora vem reclamar pra quem?", sua voz atingiu tons que habitualmente não estava acostumada chegar.  "Vai continuar dizendo que estou errado?"

Ele simplesmente poderia desculpar-se, procurar uma mesa e esquecer a situação; poderia… mas a 'diferentona' do Starbucks jamais faria algo assim. Mesmo estando errada não deixaria de ser arrogante. Não mesmo! Arrogância acima de tudo; e Yao precisava tirar a prova disso, tanto que queria ver o resultado do joga-pra-cá e joga-pra-culá.

"Ah! Agora que vi seu rosto sei quem você é", o homem soltou com ar de surpresa.

Meng Yao nada respondeu. Ele sabia, desde o início, quando pôs os olhos nos ombros largos, quem era aquele sujeito; Nie Mingjue, o vizinho da casa atrás da sua; irmão mais velho de Huaisang; o homem mais respeitado da vizinhança, ou, quem sabe, temido; aquele que alguém jamais derramaria café nas roupas por pura diversão. Ah, sim. Alguém com juízo, é claro.

"Se você me conhece, ou não, pouco importa"

Nie Mingjue estreitou os olhos, "sujeitinho insolente"

Por um momento, Meng Yao sentiu o tremor apossar-lhe as pernas.

"Não vai pedir desculpas?", Yao apertou o copo na mão.

"Por que diabos eu pediria desculpas a você? A vítima aqui sou eu!", Mingjue apressou-se mais alguns passos em direção ao rapaz. "Qual é o seu problema?! Você não se envergonha? Anda, peça desculpas a mim"

Nos primeiros dias após a mudança, pelo vidro puído da janela da sala, com uma xícara de café ou garrafa de água gaseificada, Meng Yao espreitava os dois irmãos Nie. O irmão mais velho, desde o nascer do sol até o cair da noite, sempre estava a agredir um saco de pancadas suspenso por armações de ferro no meio do quintal; debaixo do calor ardente, a camisa fazia-se desnecessária para ele, pudera; e no ápice do treinamento o suor descia pelos contornos do corpo fazendo Meng Yao morder os lábios.

Mingjue foi uma das primeiras aspirações de Meng Yao; foi um dos primeiros rostos que viu naquele quarteirão curioso e, por alguns dias, achou que não existia tamanha beleza nos demais… bem, isso até conhecer os irmãos Lan.

"Olha, não quero problemas… então, você pode sair da minha frente?"

O rapaz não mais queria discutir, pois ali, parado com as mãos sujas de café, percebeu que Mingjue não seria o seu CEO frio e calculista. Estava quase dizendo: essa é a parte que você se apaixona por mim, a gente vai pra minha casa, transa, briga e depois volta de novo.

Riu ao imaginar tudo isso com o vizinho do fundo.

"Vamos, saía da minha frente. Já acabei com você", Meng Yao disse importunado, frustrado.

"Não, não acabamos. Nem pense!", Mingjue se aproximou ainda mais impondo sua altura sobre o rapaz.

Meng Yao encontrava-se prestes a responder quando, através do vidro temperado, capturou a imagem imprecisa do que parecia ser a silhueta de Lan Huan.

O vizinho da casa ao lado não parecia disposto a entrar no estabelecimento, não, seu comportamento dizia que ele estava andando ocasionalmente pela calçada; a face despreocupada, as mãos tomadas por sacolas de plástico biodegradável e sandálias comuns, tudo isto compunha a definição de um homem regido pela simplicidade.

"Aqui! não importa mais", Meng Yao alcançou as mãos do vizinho enfezado e entregou-lhe o copo de café.

Se não teria o CEO frio e calculista, de quem tanto se falava nas fanfics e originais, então ficaria com o vizinho esquisitinho da casa ao lado. Não esquisito no sentido pejorativo, mas sim curioso; buscava entender como aquela criatura sobrevivia tão bem num mundo cheio de maldade; como mantia intactos os costumes da família e religião; sofria para compreender de onde viera aquele ser tão enigmático.

Por um lado, Meng Yao detestava sentir-se padecer nas mãos de Lan Huan. Por outro, estimava-lhe os mínimos gestos de atenção que recebia dele. E sem saber o que fazer, impaciente na infeliz ingenuidade da criatura, procurava divertir-se como meio de garantir um colchão para sua queda — caso acontecesse. Observar Mingjue, e às vezes Xue Yang, trazia-lhe oportunidades; além de conhecê-los como a palma das mãos, sentia-se mais livre para aproximar-se deles.

Voltando-se para Lan Huan que estava prestes a desaparecer na dobra do quarteirão, pôs os sentidos em alerta e correu até onde pudesse chamá-lo.

"Lan Huan!", o rapaz de roupas coloridas encontrava-se parado há alguns metros do vizinho. Este levantou os ombros de súbito e voltou-se para trás.

Os orbes escuros desceram pelas cores berrantes no corpo estreito de Meng Yao. O último, mais uma vez, via-se envergonhado perante o olhar viajante de Lan Huan. Gostaria, como a promessa de um derradeiro desejo, saber o que se passava na cabeça do vizinho misterioso; era tão difícil quanto ler sentimentos num rosto impassível, porque, em todo momento, faça chuva ou faça sol, os lábios  estavam lá com um belo sorriso atenuando o semblante.

"Yao, que surpresa… não esperava te encontrar por aqui", o budista sorriu ao encontrar a face avermelhada de Meng Yao.

"Ah…", desviou os olhos sentindo-se desconcertado, "pensei que nem ia te ver hoje, pois fui na sua casa de manhã e você não estava…"

Huan chamou a atenção de Yao dizendo que saiu para fazer a compra da semana e que sentia muito por não o ter levado para a faculdade; ainda sem saber para onde olhar, já que a maneira como estava vestido não passou despercebida pelo outro, Yao concentrava-se apenas em retribuir os sorrisos que ele imaginava estar recebendo. Que diabos! Por que Huan estava o encarando de cima a baixo? Estava achando estanho? Que vergonha.

Um verdadeiro opróbrio.

"Está escurecendo… se quiser, posso te acompanhar até em casa", a voz branda de Lan Huan convidou Meng Yao a olhá-lo.

Com isso, os dois voltaram a caminhar em direção ao bairro no qual residiam.

Abraçando o telhado das inúmeras casinhas perfeitamente alinhadas, a trazer nas mãos um buquê de dálias frescas, o céu veranil despedia-se para dar lugar ao monótono cair da noite. O vento, ainda quente, soprava no meio da rua, levantando a poeira sobre o asfalto e vibrando as sacolas nas mãos de Lan Huan. Este mantinha os olhos fixos na estrada e, distante, observava a tela alaranjada adquirir uma nova tonalidade.

Ao subir a calçada que dava na casa do vizinho, Meng Yao considerou uma ideia — mais uma tentativa de aproximar-se do outro homem, "Huan, vai fazer alguma coisa hoje à noite?"

"Não, por que?", o homem mais alto parou em frente  da casa colocando as sacolas no chão enquanto procurava a chave dentro do bolso da calça.

"Então… ontem acabou o gás lá em casa e, bem, eu esqueci de comprar", encarou o vizinho, fazendo a melhor expressão de coitadismo que conseguiu, "seria incoveniente jantar na sua casa hoje?"

Lan Huan capturou a chave dentro do bolso e voltou sua face sorridente para Meng Yao. "Claro que não, você sempre será bem vindo aqui"

O rapaz fingiu não perceber o coração batendo descompassado, estava conseguindo se sair bem mais do que imaginava naquele dia. Sem falar muita coisa, Yao ajudou o vizinho a colocar as compras para dentro da casa; já estivera ali várias vezes, mas nunca por muito tempo; sempre quando ia ter com o vizinho, nada mais fazia do que pedir algo emprestado para depois ir embora.

Correu os olhos por todos os cantos da sala, guardando na memória todos os traços de Lan Huan espelhados pelo cômodo. Ele podia ser encontrado em tudo, absolutamente tudo. Os móveis de algumas décadas atrás, a tinta azul sobre as paredes lisas, os jarros e cerâmicas em tons claros dispostos nas prateleiras de madeira vermelha, as estatuetas de Buda e o piso polido traziam toda a maneira de viver daquela criatura divina.

Ao respirar fundo, Meng Yao sentiu o perfume de ervas frescas espalhar-se por seus pulmões; o cheiro característico do chá de hortelã estava impregnado por todas as partes da casa.

Um pensamento saltou na mente do rapaz, "quem consegue gostar de chá quando se tem café e refrigerante?"

Para todos os efeitos, Lan Huan estava longe de ser compreendido. Com gostos peculiares e ações surpreendentemente ingênuas, conseguia atrair todos os tipos de olhares; mas, dentre todos eles, o único o que não incomodava era o de Meng Yao.

"Yao, pode arrumar a mesa enquanto eu termino de fazer o jantar?", Lan Huan perguntou lavando algumas folhas de alface na pia.

"Claro! Onde eu pego os pratos?"

Apontado o local, Meng Yao foi buscar as louças. A princípio, o vizinho misterioso queria incluir o convidado na preparação dos aperitivos, mas, depois de uma fracassada tentativa de cozinhar arroz, percebeu que era melhor não arriscar a integridade de suas panelas bem areadas.

Depois de arrumar as peças de vidro sobre a mesa, tratou logo de sentar-se numa cadeira qualquer. Aos poucos os pratos coloridos começaram a decorar o pano bordado em renda sobre a redonda; o cheiro parecia tão apetitoso quanto a aparência; parecia tão bom.

"Quer alguma coisa para beber?", Lan Huan deixou o último prato sobre a mesa, dirigindo um sorriso gentil para sua visita.

Ah, pra que perguntar isso? Coitado, nem sabia que resposta aguardava-lhe.

"Sim", disse Yao fixando os olhos esverdeados no homem a sua frente, "quero leite, e de preferência direto da fonte"

Lan Huan estreitou as sobrancelhas, torcendo o rosto levemente para a esquerda.

O vizinho atrevido sorriu com o canto dos lábios, "então, o que me diz?"

Após alguns segundos em silêncio, a pobre criatura balançou a cabeça de um lado para o outro como se  tentasse afastar algo que estivesse o incomodando; e por mais que a ação tenha sido leve, Meng Yao não a deixou passar despercebida.

"Venho há algum tempo querendo saber que gosto tem…", passou a língua suavemente sobre os lábios.

Lan Huan engasgou-se em falso, desviou o rosto na direção contrária a que estava antes e pigarreou. "Infelizmente esqueci de comprar quando fui ao supermercado, e o meu tio ainda não voltou da fazenda, então… não tem leite natural"

"Ah! É uma pena… porque, bem, você me deixou com uma vontade…", Meng Yao contraiu os lábios em sorriso ao ver um fino vermelho traçar o pescoço e orelhas de Lan Huan.

"Quando o meu tio trazer as coisas da fazenda, farei questão de separar umas garrafas de leite p'ra você", Huan abandonou a posição e sentou-se de frente para Yao.

Algumas partes visíveis de seu corpo ainda apresentavam coloração rubra, o que trazia divertimento ao responsável por aquilo; de certa forma, ele sabia que não estava desperdiçando suas palavras. Não. Ali, quase imperceptível, encontrava-se um acanhamento inesperado, talvez uma reação fisiológica. Não se sabe.

"Não sei se ainda conseguirei esperar…"

Audacioso, Meng Yao aproximou um de seus pés à perna do outro homem. Não queria ser invasivo. De maneira alguma! Iniciou sutil, um opaco encostar de pernas, nada muito alarmante. Ele não recuou. Meng Yao sorriu ávido. Poderia subir mais?

Após permanecer num silêncio constrangedor, Lan Huan decidiu intervir no monólogo, "a comida está esfriando"

Como se escutasse algo extremamente absurdo, Yao capturou uma das pernas do sujeitinho esquisito entre as suas — claro, apenas a porção até a joelho. "Acho que ela está esquentando cada vez mais, não concorda?"

Lan Huan, que acabrunhado mastigava as folhas de alface, se assustou com o toque cínico em sua perna. Com um reflexo inato, levantou a perna antes detida e deixou o olhar repousar sobre o prato. "Por favor, não podemos deixar o alimento abandonado sobre a mesa… é pecado"

"Ha! Também conheço outro pecado que provavelmente você nunca ouviu falar; não podemos deixar a comida ir embora sem antes dar uma provadinha", Yao sorriu para o próprio comentário; até porque improvisou o ditado. Ele nunca existiu.

Lan Huan manteve os olhos naquele verde sem-graça destacado no prato; não havia outra cor se não verde. 

Por um momento, quando observou o vizinho esquisitinho pôr somente folhas para comer, Meng Yao logo deduziu: "me apaixonei por um gafanhoto"

O infeliz passava longe das folhas. Se havia alguma coisa verde no prato, ou era o cabo da colher, ou era o fundo da toalha de mesa através do utensílio; não que detestasse, não, apenas mantinha certo receio por legumes e vegetais. Tudo isso porque a madrasta o obrigava a comê-los todos os dias. E que mal tem? Talvez se não fossem praticamente empurrados garganta abaixo, o rapaz até poderia gostar.

O suco de beterraba com maçã verde desmontava-lhe o estômago.

"Vamos comer, certo? Continuamos depois"

O que recebeu de Lan Huan foi apenas um murmúrio.

Foi obrigado a interromper suas provocações quando percebeu que não mais chamava a atenção do vizinho; este parecia perdido, forçado a se manter longe, como se houvesse um livro sobre todo aquele arranjo de verduras. Algo o afastava d'ali.

Meng Yao, mesmo não querendo, sentiu o peso da culpa. E por esse motivo, não mais, não menos, manteve-se calado durante toda a noite. Mas, bem, que pensamento não está correto na mente de quem o pensa? Meng Yao só conseguia imaginar o quanto foi atrevido, e, talvez por isso, tenha afastado o outro.

Lan Huan, mesmo não querendo, sentiu o peso da culpa. E por esse motivo, não mais, não menos, manteve-se calado durante toda a noite. O que seu tio diria? Ah, não! Estava envergonhando sua família. Desejava esconder no mais profundo esquecimento aqueles pensamentos estranhos, incondizentes com sua crença e seus ensinamentos.

Ai, ai!  O que será de mim?


Notas Finais


Desculpa a demora galera. Eu trabalhei nele durante três semanas, queria que saísse melhor, cada vez melhor. Então, espero que gostem.
No próximo vamos ver um pouco da mudança de Meng Yao para o bairro. Uma viagem ao passado...
Obrigada!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...