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História O Segredo Das Internas - Capítulo 12


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Capítulo 12 - Nada como um dia após o outro e uma noite no meio


Nada como estar em casa, poder tomar um banho, colocar uma roupa limpa, comer alguma coisa e dormir. Dormir uma noite inteira de sono finalmente! Depois de ver tanta destruição passou a valorizar essas pequenas coisas. Se sentiu ainda mais privilegiada por estar sendo treinada por Shaka, principalmente depois de vê-lo ajudando aquelas pessoas. Diziam que a vida de um defensor de Atena era marcada por lutas violentas, mas Shaka sempre lhe passava muita segurança, perto dele Jim sentia que nada no mundo poderia feri-la.

Terminou de comer e ficou esperando por Shaka que tinha ficado conversando com Mu na casa de Áries. Era alta madrugada quando voltaram para casa. Os resgates duraram a noite toda sem nenhum descanso. Ela estava toda ralada e exausta, mas valeu muito a pena participar daquela missão. Estava sentada na cama com o gatinho resgatado no colo quando escutou o chamado do mestre. Abriu a porta e encontrou Shaka sentado na cama ainda de armadura:

– Chamou, mestre? – disse sorrindo discretamente formando covinhas nas bochechas.

– Sim. Preciso que me ajude num serviçinho.

– Qual?

– Preciso que me ajude a tirar a armadura. Pode fazer isso?

– Posso sim...

Ela se sentou na cama e começou a ajudar o mestre a desmontar a armadura do corpo. Retirou primeiro a proteção do pescoço. Shaka ficou o tempo todo de costas para ela.

– Eu sempre achei que as armaduras se montavam e desmontavam sozinhas. – comentou Jim.

– Achou certo. Elas fazem isso de acordo com a vontade e as condições do cavaleiro que a veste. Se o cavaleiro não estiver em condições físicas satisfatórias, como é o meu caso, é preciso tira-la manualmente. É por isso que muita gente por aqui dorme de armadura depois de uma luta de tão cansados ou feridos. Você trouxe o gatinho resgatado para casa?

– Pois é. Eu ia falar sobre isso... Posso ficar com ele, mestre?

– Claro que pode. Nem precisava me pedir. – respondeu Shaka tirando as botas da armadura.

– Pensei que não eram permitidos animais aqui nas doze casas.

– E o Kanon é o que? – ambos riram do comentário – Antigamente não era permitido. – continuou Shaka lembrando da época que o Santuário era governado pelo ‘Gêmeo do Bem’, quando praticamente tudo era proibido. – Eu tinha vários animais de estimação antes da Guerra Santa. Sabia que o Mu tinha um carneiro quando era pequeno? Ele era fissurado no bicho, chorou uma semana quando ele morreu... – respirou fundo ao se ver livre da maior parte armadura. Faltava apenas o saiote. – Obrigada, discípula, agora pode descansar...

– Mas ainda falta uma parte...

- Eu posso retirar essa parte sozinho...

- Nada disso, iluminado que vive dizendo que tem o dever de me proteger e já cuidou de mim muitas vezes. – argumentou Jim – Logo, é minha vez de retribuir. Deite-se de bruços. – Shaka a encarava sem entender – É só uma massagem nas costas, não vou arrancar pedaço.

            Shaka sabia que se arrependeria, mas não teve forças para desobedecer. A curiosidade sobre como seria aquela massagem feita pelas mãos delicadas da pupila falou mais alto. Ela ficou de joelhos na cama e esfregou as mãos até ter as palmas quentes então iniciou a massagem. Fez tudo com paciência e cuidado, dando o melhor de si para relaxar o corpo exausto do cavaleiro que lhe treinava com tanto empenho. Ele tinha as costas magnificas de definidas e uma pele tão macia... Concentre-se! Gritou para se mesma. Ficou satisfeita quando sentiu que seus toques firmes o tornavam cada vez menos tenso. Shaka já parecia um tanto sonolento.

- Não quero ofender, mas não pensei que se sairia tão bem. – comentou Shaka de olhos fechados. Notou que ela de ficou muda e imóvel de repente – Algo errado, Jim?

- Está machucado. – ela sussurrou notando pequenos hematomas e arranhões pelo corpo de Shaka – Estava usando armadura quando me salvou do desabamento. Isso só pode ter sido resultado da luta com Kanon... – não foi capaz de conter o choro, pois se sentia diretamente culpada – Que droga, ele poderia tê-lo...

- Me matar? Impossível. Ele não tem poder para isso. – falou Shaka usando um tom de voz consolador. Sentou na cama e tentou acalmá-la, mas Jim agora estava muito irritada para aceitar qualquer toque.

- Aquele idiota! Odeio ele! – exclamou furiosa em seguida voltou a chorar.

- Não chore por alguém que não merece suas lágrimas nem sua raiva. – disse Shaka tocando-a gentilmente no ombro e surpreendeu-se quando Jim pulou nos seus braços chorando baixinho. - Eu defenderia você de qualquer um, até dos deuses se fosse preciso. Não permito que ninguém te faça mal. Você é muito importante para mim... – Queria dizer mais coisas a ela, mas a mente sensata de Shaka protestou avisando que ele ainda era um mestre. A jovem perfumada e trêmula em seus braços era prometida a Athena e não a ele.

Jim parou de chorar depois de um tempo, o coração acelerado ao ouvir que ela era importante para ele. Ele também gostava dela. Suspirou, desejando que aquele momento durasse para sempre. Até estranhar o peso do corpo do mestre abraçado ao seu. E pouco a pouco aquele corpo foi ficando mais pesado, assim como a respiração. Apoiou uma das mãos na cama para se equilibrar melhor e poder olhar o rosto de Shaka: “ele pegou no sono”, pensou um tanto decepcionada. Depois de uma noite mau dormida, uma quase guerra de mil dias e de usar o cosmo para curar inúmeras vezes, Shaka havia sido vencido pela exaustão.

Devagar deitou na cama, segurando a cabeça de Shaka com carinho, movimentos sutis para não acorda-lo. Deixou que ele se aninhasse ao seu corpo, abrigando a cabeça na curva de seu pescoço. Segundos depois, ela também estava dormindo profundamente.

 

###

 

Jim acordou sozinha na ampla cama do quarto de Shaka. Espreguiçou-se e andou descalça até a saída. Assim que abriu a porta se deparou com um imenso jardim. As flores voavam desprendidas de seus caules em sua direção. Lindos pássaros passavam cantando de cá para lá, parecia um cenário de sonho. O perfume daquele paraíso lhe lembrava só de coisas felizes, assim como as cachoeiras em volta, as árvores e a brisa fresca. Estava na casa de Virgem mesmo? Teve certeza quando viu o dono parado de costas no meio do jardim. Jim parou e ficou admirando o cavaleiro de costas para ela. A sua frente o sol brilhava mansamente, mas a luz não deixava de ser intensa. No mesmo instante a mente de Jim não pode distinguir quem brilhava mais, o sol ou os cabelos de Shaka. Já tinha ouvido seu mestre ser chamado por tantos nomes diferentes, mas só um encaixava perfeitamente: iluminado.

– Gostou da surpresa? – perguntou Shaka depois de se virar.

– Muito. Você podia só fazer ilusões como essas nos treinos.

– Mesmo esse tipo de ilusão pode ser perigosa, sabia?

– Sério? – disse Jim olhando para os lados com medo do sonho se tornar pesadelo a qualquer momento.

– Não tenha medo. Não estamos em treinamento. E a surpresa ainda não acabou... – e Shaka conduziu Jim para atrás de uma árvore.

No momento em que eles passaram a ilusão se desfez. Estavam de volta a casa de Virgem de frente para uma cozinha e uma mesa farta com as comidas e guloseimas que Jim mais gostava.

– Não acha que precisamos nos alimentar devidamente depois de dormir tantas horas? – perguntou Shaka a colocando sentada e sentando-se ao lado dela na mesa.

– Que horas são, mestre? – perguntou pegando uma fatia de um bolo vermelho.

– São onze horas, dormimos pouco mais que seis horas.

– Tudo isso? – diz Jim falando de boca cheia. Estava com tanta fome e a comida era tão deliciosa que nem se importou com os modos. – O que é isso? – e colocou mais duas fatias do doce vermelho no seu prato.

– Chama-se Anjeer King, é um doce indiano. É feito com morangos, pistache, castanha e açafrão...

– Nossa, vai me deixar mal acostumada! – e lembrou que já era o segundo banquete que Shaka lhe oferecia desde que venceu Gisty de Serpente. – Não sabia que cozinhava tão bem.

– Na verdade pedi ajuda das servas, pois eu quase nunca saiu da minha dieta vegetariana. Mas hoje é um dia especial...

– Pensei que não gostasse de doces, mestre. E por que hoje é um dia especial? – perguntou mais séria depois da palavra servas.

Aquelas desenxabidas infelizmente viviam perambulando pela casa de Virgem de vez em quando para pegar roupas para lavar e fazer dentre outras coisas. Mas Shaka até que não era tão dependente das servas do Santuário. Gostava de cuidar da própria casa e principalmente de fazer Jim cuidar também, tal como os preceitos budistas de humildade e organização.

– Eu gosto de doces, só não abuso como você e o Kiki. Disse que hoje é um dia especial por que estamos comemorando o sucesso da sua primeira missão fora do Santuário. Quando estava na casa de Áries, Shina me contou que você se saiu muito bem na missão de salvamento.

– É sério? A Shina falou bem de mim?! Ela mesma, Shina de Ofiúco?!

– Isso mesmo. Sua mestra Shina te elogiou muito depois da missão, assim como Lucy e Helena...

– Nunca pensei que fosse viver para ver isso.

– Por que o espanto? Você é uma das alunas mais aplicadas ao treinamento. Ainda tem muito o que aprender, é bem verdade, mas está bem a frente da sua turma. É mais do que natural Shina ver isso. Coma alguma proteína também Jim, não coma tanto doce. – sugeriu Shaka depois de ver ela pegar mais bolos Anjeer King.

Era como Mu dizia, dava gosto ensiná-la. Dava gosto também vê-la sorrir, vê-la caminhar pela casa com aquela graciosidade que só ela tinha. Muita coisa havia mudado depois daquela noite. Surpreendentemente não se sentiu culpado por ter dormido com sua discípula. Eles apenas dormiram na mesma cama, mas com muita inocência. Se bem que quando Shaka acordou e a viu dormindo embaixo dele foi impossível segurar os pensamentos libidinosos. Ficou a observando dormir por alguns minutos. Nesses últimos dias seus sentimentos ficaram mais claros. Começou com a luta contra Gisty, quando ele viu todo o esforço feito por ela para superar suas limitações. Depois foi o sentimento horrível que sentiu quando a viu dançar com Camus. Reconhecia que sentia ciúme, mas nunca sentiu tanto medo de perder alguém como naquele momento. E pensar que Mu sempre o avisara!

Entendeu que passava por descobertas violentas, insensatas. Nem ele mesmo sabia que tinha tanto desejo reprimido, e não era só desejo em si, puramente carnal, era vontade de protege-la, de cuidar dela, de estar com Jim o tempo todo. Não havia mais como negar. Estava apaixonado. Estava perdido.

 

###

 

Enquanto isso, na Vila de Rodório Saga, Dohko e Aiolia permaneceram até de manhã para supervisionar a reconstrução da vila afetada pelo terremoto. Aiolia reforçou a segurança na vila a pedido de Dohko com soldados. Alguns cavaleiros de prata e amazonas ficaram para ajudar na reconstrução junto com os soldados, de modo que em poucas semanas a vila estaria com tudo no lugar graças a ajuda do Santuário. Era uma forma de agradecer aquele povo pelos anos de devoção e servidão a Athena. A própria deusa iria fazer uma visita aos sobreviventes em poucos dias para agradecer pessoalmente e demonstrar apoio.

Saga andava pela vila destruída com olhos atentos a procura de mais pistas. Ele tinha visto coisas suspeitas demais naquele terremoto e agora estava diante de mais uma prova. Não perdeu tempo, chamou Dohko pelo cosmo para mostrar mais uma evidência suspeita:

– Encontrou mais alguma coisa, Saga? – perguntou Dohko assim que chegou aonde o cavaleiro de Gêmeos se encontrava.

– O que te parece esse lugar, Dohko?

– Não sei bem, não sobrou muita coisa deste prédio para se dizer com exatidão... – observou mais atentamente e disse: - Pelas pedras que sobraram na base me parece um prédio público, um cartório talvez. Já vi esse tipo de material em muitos prédios antigos do Santuário.

– Não te parece que esse prédio está destruído demais? Todos os outros, apesar de destruídos pelo terremoto, conservaram parte de sua estrutura. Alguns mais outros menos... Mas deste não restou absolutamente nada. Só o piso e pouca coisa da base... e de fato, pelo material é um cartório. Esse material é resistente demais, não seria pulverizado por um terremoto dessa maneira. – andou pelos restos das construções. – Vê aquele tijolo?

Os dois foram até o pequeno fragmento. Saga o apanhou e entregou a Dohko:

– Está congelado. – disse Dohko depois de analisar rapidamente.

– Assim como aqueles corpos que encontramos, esse lugar foi destruído com gelo. Foi completamente arrasado de propósito, para que ninguém suspeitasse. – concluiu Saga.

– Devia guardar alguma coisa muito valiosa.

– Cartórios guardam meramente registros de nascimentos, óbitos, casamentos, dentre outras coisas. O que pode não ser importante para um pode ser um tesouro para outro. – encontrou um pedaço de papel rasgado em meio a terra revirada. – Este é o selo do Santuário. Pela tinta é muito antigo. Na minha época de grande mestre já não se usava mais esse tipo de tinta em documentos oficiais. – e entregou a folha para Dohko.

– Essa tinta era usada quando Shion ainda estava no comando. Quem estaria interessado em destruir documentos dessa época?

– Não faço ideia, Dohko. Eu estive nos arquivos do Santuário junto com Aiolos procurando alguma coisa relativa aos antepassados da Jim. Até o momento não encontramos nada de relevante. Só um bando de documentos que parecem desconexos e que não tem nada a ver com ela, mas a falta desses arquivos ainda é estranha.

– Shion me contou dessa investigação sobre as origens da interna de Shaka e sobre o fortíssimo bloqueio mental que ela possui, capaz de resistir a telepatia de todos os cavaleiros de ouro. Não é todo mundo que tem essa habilidade.

– Sim mestre Dohko, mas não é só o bloqueio. O poder dela em si é impressionante para alguém que acaba de iniciar o treinamento. Prova disto é a forma que ela lutou com Gisty. Estou pensando que a resposta para essa charada pode não estar no Santuário. Eu lembro que quando era grande mestre, muitos documentos dos arquivos vieram daqui de Rodório. Eu mesmo mandei buscar vários. No entanto, não há mais nenhum por aqui, todos foram destruídos ou roubados. Um terremoto não sumiria com tantos papeis. Alguém quis encobrir a existência desses documentos destruindo tudo. Mas a limpeza não foi completa.

 

###

 

Casa de Virgem....

Depois de comerem tanta comida gostosa foram parar nas almofadas da sala. Jim praticamente se jogou em cima das almofadas e do tapete indiano. As folgas dadas nos treinos e o mestre de bom humor eram coisas muito raras, de modo que ela tinha que aproveitar cada segundo:

– Mas já vai meditar! Vamos conversar mais – pediu.

– Nem se quisesse não conseguiria. Não é bom meditar de estomago cheio. Nem deitar. – disse enquanto deitava ao lado de Jim.

– Então por que está deitado? – ela perguntou com um sorriso maroto.

– Para ficar mais perto de você. – disse Shaka devolvendo o sorriso.

A resposta a fez corar instantaneamente. Tinha ouvido aquilo mesmo? Buda, Buda...

– Quando você disse perto, quis dizer assim? – disse Jim se chegando mais perto de mestre. Pensou que ele ficaria envergonhado ou tímido, mas ele não ficou não.

– Na verdade eu quis dizer mais perto. – disse retirando uma almoçada pequena que estava entre eles e se chegando mais para perto dela.

– Assim? – disse Jim colando ombro com ombro.

Os cabelos estavam misturados, castanhos com loiros espalhados pelo tapete, mas foi ela quem ficou tímida. Não teve coragem de encarar os olhos azuis de Shaka, baixou a cabeça quase encostando no ombro dele.

Os corações de ambos batiam acelerados com aquela proximidade. Já era a segunda vez que ela fazia isso. Se aproximava dele depois escondia o rosto. Shaka se perguntava por que em nome de Buda ela fazia isso com ele? E mais uma vez a força invisível fez Shaka e sua mente sensata se renderem aos desejos. Até por que, a mente sensata não era mais a mesma. Jim encostou a cabeça no ombro de Shaka ainda evitando olha-lo, mas não durou muito tempo sem o faze-lo. Ele segurou o queixo de Jim carinhosamente, afim de levanta-lo até o seu. O cheiro da pele e dos cabelos da morena invadiram as narinas de Shaka trazendo todas as lembranças do beijo tórrido ocorrido na cozinha na noite anterior. Ele queria sentir a maciez daquela pele de ninfa mais uma vez. Deu um beijo demorado na testa e depois desceu roçando os lábios pelo nariz. Jim fechou os olhos esperando o beijo chegar, imóvel. Era boa demais a sensação dos lábios quentes do mestre provando o seu rosto. Os lábios estavam quase se tocando quando eles sentiram alguma coisa andando entre eles. Era pequeno e tinha garrinhas...

– O que está fazendo aqui, coisinha fofa? – disse Jim se sentando e pegando gatinho com as duas mãos. ‘Que merda! Eu devia ter beijado logo em vez de ficar esperando’, pensou segurando o pequeno bichano amarelo de olhos verdes.

– Finalmente apareceu. Eu pedi as servas que dessem comida e um banho nele mas elas disseram que não conseguiram encontra-lo. – disse Shaka.

– Deve ter se metido em algum canto enquanto explorava a casa. – falou Jim sorrindo para o gato que miava e lambia sua mão todo feliz.

– Deve estar com fome se ficou a manhã inteira explorando meu templo.

– Vou dar alguma coisa para ele comer. Ah, amanhã vou descer até a vila para comprar ração. É bem melhor para ele comer ração do que qualquer outra comida.

– Devia escolher um nome para ele logo, para chama-lo quando ele se esconder de novo. – disse Shaka se rendendo a fofura do pequenino e acariciando a cabecinha felina.

– Já escolhi.

– Qual?

– Hades.

– Quê!?

– Por que essa cara de Buda espantado?

– Por que você quer colocar o nome de um deus cruel que tenta destruir o planeta a cada 200 anos?

– Por que eu achei bonito. Na biblioteca do templo de Athena tem um livro que conta a estória da guerra santa de 200 anos atrás. Foi uma batalha muito sangrenta, o grande mestre contou tudo nos mínimos detalhes, e no final Athena triunfou e Hades foi selado. Eu adorei a narrativa do grande mestre. Só não é melhor do que a do Camus. E só um nome de um deus, combina com ele...

– Não combina na minha casa você ficar chamando esse nome. Pode arranjar outro.

– É só um nome. Que mal há? - questionou Jim diante do retorno do mau humor. Eles estavam indo tão bem.

– Como assim que mal há? Esse maldito tomou o corpo do Shun e tentou matar Athena, fora todas as outras crueldades que ele fez durante a guerra santa e você ainda quer que eu permita um absurdo destes?

– Mas a guerra já acabou, estamos em paz agora. – pegou o bichano amareno e colocou na frente do rosto de Shaka segurando a patinha enquanto falava como se fosse o próprio gato : - Deixa vai, mestre? Por favor...

A cena era até cômica, mas Shaka estava irredutível e também cansado de fazer tudo o que Jim queria:

– Arranje outro. O nome deste deus sanguinário não será pronunciado nesta casa enquanto eu a defender. Se você estivesse no Santuário durante a última guerra santa saberia do que eu estou falando. Hades corrompeu os cavaleiros de Athena exigindo que eles lhe trouxessem a cabeça dela e isso foi só o começo... eu estive frente a frente com aquele maldito no inferno, teria o matado com minhas próprias mãos se Athena não interferisse...

– Encontrou com o Hades mesmo? – perguntou Jim muito interessada.

Um pouco exaltado com as lembranças terríveis do momento, Shaka contou todos os acontecimentos da guerra santa. Do momento em que os cavaleiros de ouro, então espectros de Hades, invadiram o Santuário ao desfecho trágico deles se sacrificando para destruir o muro das lamentações...

– Você ainda quer batizar o seu animal de estimação com esse nome, Jim? Depois de saber tudo? – perguntou Shaka voltando a sua postura serena.

– Melhor não né. Foi só uma brincadeira sem noção minha.

– Está perdoada.

– Eu vou pensar em outro nome enquanto dou comida para ele na cozinha. – disse Jim se levantando segurando gatinho com muito cuidado.

Na cozinha ela refletiu sobre o que Shaka havia lhe contado. Ficou chocada com todas as atrocidades cometidas pelo exército de Hades, mas o que mais lhe chocou foi como os cavaleiros de ouro se tornaram traidores. “Deve ter sido uma dor terrível lutar contra os próprios amigos. E pior é que eles fizeram tudo por amor a Athena... imagino o sofrimento deles, logo eles que são tão leais e devotados. Não sei se eu teria coragem de enfrentar um amigo...”, ela pensava olhando para seu gatinho comer.

Voltou para a sala com um sorriso acanhado. O mestre notou a mudança no estado de espírito da interna logo de cara. A viu se sentar de frente para ele.

– Perdão mestre. Não devia ter feito aquela brincadeira estúpida. Essa guerra santa deve ter sido a pior coisa do mundo...

– Vamos esquecer esse assunto, está bem?

– Já esqueci.

– Que bom. Já escolheu um novo nome para seu mascote?

– Ele vai se chamar Fred. – respondeu sorridente.

Fazer uma homenagem a uma amizade breve em meio ao sofrimento de uma tragédia. O nome Fred lhe pereceu mais do que perfeito. Alguém chegou anunciando-se pelo cosmo:

– Espero não estar interrompendo alguma coisa. Quero dizer, espero estar interrompendo alguma coisa. – brincou Mú.

– A que devo a honra, Mu de Áries? – saudou Shaka.

– Já esqueceu da reunião? – indagou Mú. – A reunião que o Saga e o mestre Dohko marcaram para logo mais? Um servo não te entregou o aviso hoje de manhã Shaka?

– Deve ter vindo quando eu estava dormindo. Acabei perdendo a hora hoje. – disse Shaka olhando para Jim.

– Você devia estar muito cansado... – disse Mu com um sorrisinho. – A reunião vai começar daqui a vinte minutos, lá na casa de Sagitário.

– Então é melhor irmos logo para não chegarmos atrasados e aturar as gracinhas daqueles cavaleiros folgados. – disse Shaka já de pé. - Jim, cuide de tudo enquanto estiver fora...

– Jim também foi convocada. – interrompeu Mu.

– Como assim? – estranhou Shaka.

– Saga e Dohko solicitaram a presença dela.

Jim olhou para o mestre depois para o Mu sem entender nada. Não imaginava o porquê de ter sido convocada numa reunião de cavaleiros de ouro. Logo ela, uma reles interna do primeiro ano.

 

###

 

Os três se sentaram lado a lado sob os olhares atentos de Máscara da Morte e Kanon, que já tinham notado o quando Shaka era cuidadoso com sua interna na presença de outros cavaleiros. Afrodite estava com Camus e Milo, Shura chegou junto com Saga e Dohko. Aiolos estava sentado na frente e recebeu Jim com um sorriso quando a viu sentar ao lado de Shaka. Vendo que não faltava mais ninguém e que todos estavam acomodados nas cadeiras postas no salão central de lutas de Sagitário, Saga começou a falar tendo Dohko ao seu lado:

– O assunto que nos levou a convocar essa reunião urgente é de suma importância, por isso vou direto ao ponto. Mestre Dohko e eu descobrimos indícios de que o terremoto ocorrido ontem a noite na Vila de Rodório não foi proveniente de causas naturais. Acreditamos que a Vila foi atacada.

Jim quase caiu da cadeira. Aquela destruição toda foi um ataque de um inimigo?. Ao seu lado Shaka permanecia impassível de olhos fechados. Foi então que Saga começou a relatar todas as suas suspeitas. Dos corpos de cavaleiros congelados misteriosamente, da destruição quase total do antigo cartório da Vila e do desaparecimento de todos os documentos que ali estavam guardados, documentos com o selo do Santuário ele lembrou. Todos ouviram em silêncio. Jim lembrou de toda a missão de salvamento com um aperto no peito, tanta gente inocente morta, aos pedaços, seu amigo Alfred morrendo... era tudo horrível demais para ser verdade, aquilo tudo ter sido provocado... por que? Não pode mais se conter, tomada pela indignação, pela raiva e pela curiosidade, levantou-se e disse em voz alta:

– Alguém pode me dizer que inimigo poderoso seria esse capaz de fazer tudo aquilo e com que propósito?

– Ainda não sabemos, querida. Esse é um dos motivos da sua presença aqui nesta reunião. – respondeu Saga bondosamente.

- Jim, sente-se por favor. – pediu Shaka. – Havia uma presença maligna naquela vila. Eu pude sentir isso assim que coloquei meus pés lá. – disse Shaka.

– Fala daquela perturbação que você sentiu, Shaka? – perguntou Mu.

– Isso mesmo. – confirmou Shaka.

Sentada ao lado mestre, Jim se encontrava mais perplexa. Ia falar mais uma vez, mas Shaka a impediu com um gesto sereno de mão. Nesse momento Aiolos que esteve calado o tempo todo se manifestou:

– Alguns feridos me relataram que muitos objetos se congelaram sozinhos antes do terremoto. E ainda, ouviram gritos de soldados. Então tudo começou com gelo e o tremor de terra veio depois.

– A razão de você estar aqui presente nesta reunião, minha querida, é que você foi a primeira vítima deste inimigo. – disse Saga se aproximando de Aiolos.

– Achamos que o atentado que você sofreu no lago tem ligação com esse ataque a Vila de Rodório. – falou o mestre Dohko.

Do seu lugar, Jim olhou para Saga e depois para o mestre Dohko para então baixar a cabeça respirando fundo. Tinha mesmo que lembrar do terror que passou naquele dia? Foi então que Saga pediu a interna que relatasse o incidente mais uma vez. Ela reforçou, que não sentiu nenhum cosmo no lago e que chegou lá por acaso. Kanon continuou dizendo que foi o primeiro a chegar e a salva-la. Debateram também sobre o brilho repentino de um cosmo poderoso próximo a vila no momento em que Jim salvava o filhote de gato. Aquilo era outra prova, outro indicio fortíssimo de que alguém quis deixar um aviso.

Aiolos e Saga, também estavam investigando os documentos que poderiam estar guardados no cartório de Rodório. Mas aquele assunto eles debateriam entre si, já que envolvia uma investigação sigilosa sobre as origens de Jim. Depois de muito debater, os cavaleiros chegaram a conclusão que tendo em vista tantas evidências suspeitas, a Vila de Rodório foi mesmo atacada por um inimigo até então desconhecido. E que esse inimigo esteve no Santuário no dia do atentado sofrido por Jim, sendo provavelmente o autor dos dois ataques. Para encerrar os debates, Saga decretou tão sério como o próprio grande mestre:

– Cavaleiros, é importante que tudo o que conversamos aqui fique retido nas doze casas. Não é interessante que todo o Santuário fique sabendo de nossas suspeitas. Não podemos declarar que estamos sob ameaça, assim o inimigo ficaria sabendo de nossas desconfianças e não queremos isso. É importante que ele pense que não desconfiamos de nada ainda. O Santuário está oficialmente sob vigília máxima. Sejam discretos e nem preciso dizer para ficarem de olhos abertos.

– É importante também, que todos voltem a rotina de treinos pesados como se estivéssemos na véspera da guerra santa. Saga e eu vamos relatar a Shion e a Athena tudo o que foi acertado nessa reunião. O grande mestre concordou que não devemos fazer nenhum alarme, mas provavelmente alguns de nós viajará em missão em busca de mais pistas... – e Dohko deu mais algumas instruções depois passou a palavra para Saga.

– Os aprendizes terão treino avançado de agora em diante. Vamos comunicar a Shina e a Marin sobre isso, e pessoalmente devemos auxilia-las nessa tarefa. – disse Saga olhando para todos.

Dito isso Saga encerrou a reunião e todos voltaram para suas casas. A expectativa era grande, mas aqueles cavaleiros sabiam exatamente o que fazer. Eram a elite do exército de Athena. Já passaram por situações semelhantes aquela, tinham plena certeza de que esse inimigo seria descoberto mais cedo ou mais tarde.

Jim voltou sozinha para casa por que Shaka foi com Mu, Saga, Dohko e Camus falar com o grande mestre e com Athena. Ela até que tentou meditar para esquecer ou tentar entender tudo o que tinha ouvido naquela reunião mas não conseguiu. Permaneceu jogada nas almofadas martelando as palavras de Saga enquanto esperava pelo mestre. Aquilo tudo parecia um pesadelo. Shaka percebeu a preocupação da discípula assim que entrou em sua casa a a viu deitada fitando o teto com olhar vazio, foi logo quebrando o silêncio e se sentando ao lado dela:

– Algo errado, minha discípula?

– Estou um pouco chocada com tudo o que ouvi. Uma destruição daquelas causada por uma pessoa só? Nunca poderia imaginar que isso fosse possível.

– Ainda não sabemos se foi uma pessoa ou mais. Tudo aquilo que você viu é só uma parcela do que nossos inimigos são capazes de fazer. Eu entendo como se sente, mas não deve sentir medo. Muito pelo contrário, deve treinar com mais afinco para ficar cada vez mais forte. Essa é nossa função como defensores de Athena.

– Só não entendo por que acham que foi esse mesmo inimigo que me atacou no lago... por que ele escolheria justo a mim?

– Não se preocupe com isso agora. Só teremos respostas quando pegarmos o autor dos ataques, e pode acreditar, nós vamos caça-lo até o fim do mundo se for preciso. Apenas foque no treinamento e em nada mais. O melhor a fazer é esquecer tudo isso por enquanto. – disse Shaka serenamente.

A verdade é que ele podia afastar as preocupações da mente de Jim, mas não as dele próprio. Era muito estranho sua interna ter sido a primeira a cruzar com um inimigo tão poderoso. Alguma coisa naquela estória parecia chamar a atenção para Jim, mas por que ela? Por via das dúvidas não deixaria Jim sozinha mais nem por um segundo. Também se encarregaria de apressar o ritmo do treinamento para deixa-la mais forte. Não seria tão complicado, já que Jim demostrava estar completamente adaptada a rotina de treinos. Seu poder se desenvolvia a cada dia.

Foi para a cozinha preparar algumas coisas e quando voltou a encontrou mais animada, brincando com o gatinho amarelo. Logo pensou numa maneira de preservar aquela animação e passar mais tempo com sua interna.

– Que acha de dar um passeio? – perguntou Shaka.

– Passeio para onde? – ela perguntou achando aquele convite totalmente inesperado.

– Nunca fazemos nada juntos, pensei que poderíamos aproveitar esse tarde de folga. Quer ir a praia?

– Tipo agora? – perguntou se levantando num pulo.

– Isso mesmo.

– Vou ligar para a Lucy, a gente podia fazer um piquenique, que tal?

– Na verdade eu estava pensando em irmos só você e eu. – disse Shaka meio tímido.

– Por mim tudo bem. Vou me trocar e já volto. – disse sorrindo marotamente.

“Senhor, se é para ser, tua filha está pronta!”, pensou Jim quando entrou em seu quarto. Então ele queria ficar a sós com ela? Tratou de se arrumar de pressinha. Desde que chegou ao Santuário quis ir à praia, mas nunca teve tempo. Ir à praia com Shaka seria maravilhoso e fora que seria uma ótima oportunidade para provoca-lo um tantinho mais, por isso colocou o menor biquíni dos três que tinha trazido. Era um modelo de listras horizontais azul claro, branco e rosa. A parte de cima era tipo cortininha e a calcinha de lacinhos. Prendeu os cabelos num coque alto, abusou do protetor solar e vestiu algo leve. O toque especial ficou com os brincos de bijuteria com pedrinhas vermelhas. Um pouco grandes, mas nunca se deve esquecer dos acessórios quando se vai à praia, ouviu Lucy dizer em sua mente.

Em menos de dez minutos já estava na sala onde Shaka a esperava. ‘Nossa, ele deve ter se trocado na velocidade da luz, só pode...’, pensou quando o viu. Shaka mais uma vez abandonara seu traje de monge por roupas comuns. Muito simples, diga-se de passagem: bermuda tactel azul e camisa recata branca de algodão. Uma baba escorreu do conto da boca de Jim.

– Pensei que demoraria mais. – disse Shaka.

– Não queria te deixar esperando. – Jim respondeu.

Infelizmente outras pessoas também escolheram a praia para passar aquela tarde de folga. Estavam lá Saga, sentado na areia, e Helena conversando com Milo enquanto observavam Kiki brincar perto da água.

– Pensei que ficaria o resto do dia no templo de Athena reunido com Shion e Dohko... – disse Shaka um pouco contrariado pela presença do amigo ter estragado sua tarde com Jim.

– Felizmente a reunião com o grande mestre terminou um pouco mais cedo do que o previsto, por isso resolvi vir a praia para pensar um pouco vendo o mar. Acabei encontrando Milo, Helena e Kiki pelo caminho. – olhou para Jim - Resolveu dar um passeio com sua discípula, Shaka?

– Sim. Ela ainda não conhecia a praia do santuário...

Helena logo a chamou aos berros para ver o novo truque de telecinese que Kiki tinha aprendido. Tirou a roupa que estava usando por cima do biquíni para desespero de Shaka que nunca tinha visto nada tão pequeno em toda sua vida. Saga riu achando graça da cara vermelha de vergonha de Shaka:

– Pelo iluminado! Coloque já suas roupas! – ralhou Shaka. Se estivesse de armadura e de capa, com certeza a teria coberto imediatamente.

– O que foi mestre? Nunca viu uma mulher de biquíni antes? – e riu faceiramente - Se você passasse um verão no litoral do meu país perderia esse medo em dois tempos...

– Não estou com medo é só... Ei mocinha, volte aqui! – gritou Shaka inutilmente pois Jim já estava longe.

– Shaka, não adianta ser tão controlador, elas sempre acabam fazendo tudo o que querem. – disse Saga sorrindo.

– Mas aquilo não é traje de banho e ainda por cima ela está perto do Milo! – disse Shaka indignado.

– Milo não oferece perigo algum. Se você observar os dois com mais atenção vai entender que o Escorpião vê sua interna como uma amiga e nada mais.

– Você pode até ter razão, mas com o Milo não se brinca. Onde está Aldebaram? – perguntou Shaka temendo também por Helena.

– Ele estava aqui ainda pouco mas subiu com Kanon para ver uns assuntos. Não esqueça que a Jim já é bem grandinha.

– Mas ainda é inocente frente a esses cavaleiros libidinosos.

– Bom saber que vocês finalmente estão se dando bem. Primeiro balada e agora vieram a praia... ela está mudando a sua vida Shaka, tem que admitir...

– Mudando da água para o vinho. – disse Shaka sorrindo serenamente olhando para sua discípula brincando de aparecer e desaparecer com Kiki.

– Você tem muita sorte de tê-la ao seu lado, meu amigo. – disse Saga dando tapinhas nas costas de Shaka.

– As vezes eu penso que as coisas estão acontecendo rápido demais... E por falar nela, o que vocês descobriram sobre suas origens nos arquivos do santuário?

            Saga ficou sério.

– Eu sinto muito, mas não posso revelar nada sobre essa investigação. Até mesmo para você...

– Não compreendo o motivo de tanto segredo. Eu preciso saber de alguma coisa, já que sou o mestre da Jim e convivo diretamente com ela.

– Eu entendo o seu lado perfeitamente. Shion optou por te deixar de fora para que nada interferisse no treinamento de Jim. Ela tem muito potencial...

– Quanto ao treinamento, não devem se preocupar com nada. Sempre soube do grande potencial de Jim, tenho certeza que ele será uma amazona poderosa no futuro. Trabalharei duro para isso como mestre.

– Disso ninguém duvida, ainda mais se as suspeitas de Shion se confirmarem...

– Que suspeitas?

– Até o momento, nada encontramos de relevante nos arquivos. Mas acredito que essa investigação será elucidada em breve. Só então revelaremos a todos os interessados. Eu até entendo a preocupação do grande mestre depois dos últimos acontecimentos...

– Fala do terremoto ocorrido em Rodório?

– Do terremoto e da luta de Jim contra Gisty...

E continuraram conversando sobre as habilidades de Jim. Shaka não tentou mais arrancar a verdade de Saga, pois sabia que o geminiano levava muito a sério as ordens do grande mestre. Com certeza não revelaria mais nada.

 

###

 

Perto da água, precisamente na zona de arrebentação das ondas, Kiki, Jim, Helena e Milo estavam entretidos em conversas sobre as peripécias do Kiki com o as servas e com um cavaleiro do Santuário:

– Kiki, não acredito que você fez isso? – perguntou Jim abismada. – Gritar cólera do dragão enquanto o Máscara da Morte está dormindo é muita maldade.

– Perturbar o Máscara é a melhor coisa do mundo! – falou Kiki.

– O Máscara merece, vai fundo Kiki! Tem meu total apoio. – estimulou Milo bagunçando os cabelos do lemurianozinho.

– Quero só ver quando ele conseguir colocar as mãos em você... – alertou Helena - Cadê a Lucy, Ji? Por que ela não veio com você?

– Ela me ligou dizendo que ia ficar em casa com o mestre o dia todo... e parece que eles iam dar um almoço para a June, lembra dela?

– Lembro sim... – as duas iam conversar mais, porém a conversa do aprendiz de Mu com Milo desviou a atenção das duas.

– Milo, a bunda da Helena não é a maior do santuário? – disse Kiki com um sorriso sapeca.

– Ah é mesmo, senhor Kiki? Deixa o Mu saber que você fica olhando a bunda das habitantes do santuário... – disse Helena balançando o dedo como se estivesse ameaçando.

– Ei, nada de contar para o meu mestre! – exaltou-se o menino.

– Ah Heleninha, faz isso com o pobre moleque não. Ei Kiki, quem é essa bunda que ganha da Helena? – perguntou Milo muito interessado.

– É uma serva que trabalha na cozinha do templo de Athena. A bunda dela é do tamanho de uma abóbora de cada lado... – disse o menino mostrando os tamanhos com os braços abertos.

– Humm, preciso visitar mais o templo treze... – Milo pensou alto.

– Fala sério! – exclamaram Jim e Helena ao mesmo tempo.

            Kiki chamou Milo para brincar na água, que por sua vez arrastou Helena.

– Eu prefiro ficar sentada com o meu mestre. – disse Jim.

– Pensei que você gostasse de mar. – estranhou Helena.

– E eu gosto, mas isso foi antes...

– Vai ficar só olhando para esse marzão lindo? – perguntou Helena apontando para a imensidão de água que tinha um tom de azul claríssimo. A água que avançava nos pés deles em forma de ondas era morna e muito, muito convidativa.

– Fica para outro dia então. – respondeu meio sem jeito por que estava morrendo de vontade de mergulhar naquele mar.

O motivo dela não querer mergulhar no mar pela primeira vez na vida era o trauma da quase morte nas águas no lago. Depois daquele dia, Jim pensava duas vezes antes de chegar perto da água.

– Sabe o que ta parecendo, pessoal? Que a Jim está com medo da água! Ela não gosta tomar banho. – brincou Kiki jogando água salgada em cima de Jim.

– Para! – berrou Jim por que Milo e Helena também se juntaram a brincadeira de molha-la, e ela já sentia seus olhos arderem de tanta água salgada que estava tomando no rosto.

Tentou fugir, mas Milo a agarrou pela cintura a tirando do chão como se ela fosse uma boneca. O cavaleiro correu com ela presa em seus braços até a água. Por sua vez, Jim se debatia tanto que acabou caindo na água.

– Agora você vai sentir a fúria do pudinzinho... – ameaçou Jim e começou a jogar água em cima do grego com muita vontade de afoga-lo

Shaka fez menção de se levantar quando viu Milo correndo com Jim nos braços, mas Saga não deixou. Mais uma vez, ele se lembrou das palavras de Mu, que diziam para ele conter o ciúme que sentia. Aquela conversa as vezes vinha a mente de Shaka como o grilo falante nos contos de fadas do Pinóquio, sempre o impedia de se exaltar. Vendo o desconforto do amigo, Saga resolve ser direto:

– Você sente ciúmes da sua interna, não é Shaka?

– Não vou negar.

– Sente ciúmes por que gosta dela. – afirmou Saga. - Sei como se sente. Já tive uma discípula que foi muito importante para mim no passado... – disse Saga também observando a turma que brincava no mar.

– Está falando da Gisty? – perguntou Shaka tão direto quanto Saga foi com ele na primeira pergunta.

Aquela estória triste Shaka conhecia bem. Saga lhe confidenciou tudo assim que voltaram a vida. Gisty representava uma das maiores culpas do cavaleiro de Gêmeos.

– Pois é... Fiquei muito feliz que ela tenha voltado para o Santuário. Athena precisa de suas amazonas por perto...

– Vocês conversaram depois que ela retornou? – perguntou Shaka.

– Sim. Ela esteve na minha casa pouco antes do terremoto. Nós conversamos brevemente. Fiquei bastante satisfeito em vê-la bem e ansiosa por servir Athena. Gisty com certeza ainda ajudará muito a nossa deusa, e é muito bom que ela viva no Santuário numa época de paz, já que antes não teve esse oportunidade... Só de pensar em tudo o que aquele monstro fez a ela... imaginar as mãos dele tocando uma discípula minha tão querida...

– Não se culpe. Você não tinha controle sobre seus atos. Não era a sua mão, era a da sua face maligna. – disse Shaka colocando a mão no ombro do grego.

– Eu fiz muito mal a ela Shaka. A ela só não... – respirou fundo – Eu a muito Gisty, mas infelizmente não tive tempo de dizer isso a ela antes que mal tomasse conta de tudo. É por isso que eu lhe digo meu amigo: não desperdice o tempo ao lado da mulher que você ama. Eu tive medo de falar sobre meus sentimentos à Gisty por que ela era minha discípula, mas hoje percebo que cometi um erro terrível. Se tivesse dito antes, poderia ter evitando que ele... poderia tê-la protegido...

A culpa de Saga em relação a Gisty era imensa. Quando se conheceram, Gisty era muito jovem, passou toda a sua adolescência treinando com Saga. Era uma das poucas amazonas que controlava o poder das ilusões. Aluna aplicadíssima, a discípula mais fiel que Saga já teve. Não era de se estranhar que tanta devoção se transformasse em amor. Durante aqueles anos de treinamento, mestre e discípula nutriam sentimentos secretos um pelo outro. Saga era responsável demais, não poderia arriscar o futuro de Gisty como amazona, por isso não se declarou. O que pensariam se ele então cavaleiro de ouro de Gêmeos namorasse uma jovem aprendiza? Com toda certeza, Gisty sairia prejudicada em sua reputação e esse não era o desejo de Saga. Pouco tempo depois da jovem se sagrar amazona de serpente, a mente de Saga foi tomada pelo mal, e então, tudo se transformou num mar de dor e sangue. Ninguém foi poupado, nem sua amada discípula Gisty, para desespero de Saga, que não passava de um mero espectador das atrocidades cometidas por sua face maligna. Mesmo nessas circunstâncias, Saga nunca fora capaz de se perdoar.

– Eu entendo como se sente Saga, mas sabemos que a culpa não foi sua. Tenho certeza que Gisty também sabe disso e não lhe guarda nenhum rancor. – argumentou Shaka.

– Tomara que não, meu amigo... Por isso que acho que não deve esconder o que sente. O Santuário mudou muito. Tenho certeza que Athena não condenaria a relação de vocês, quanto a Shion, sabemos o quanto é moralista, mas não se oporá a Athena.

– Shion teria toda razão em me condenar... – lamentou Shaka.

– Não cometa o mesmo erro que cometi no passado. – interrompeu Saga.

Coincidentemente, aquela da qual os dois cavaleiros estavam falando aparece na praia. Gisty veio com sua amiga Shina dar um passeio pelas areias gregas e ficou muito feliz quando viu Saga. Foi até eles deixando a amiga amazona parada na areia observando o mar. Shina que não quis acompanhar a ex discípula de Saga, pois avistou Milo de longe resolvendo ficar a uma distância segura.

– Oi mestre! Que felicidade vê-lo por aqui! E você também Shaka. – disse Gisty com animação.

– Olá Gisty, como está? – perguntou Saga um pouco constrangido e admirado com a visão do corpo escultural de sua antiga aprendiz vestida num biquíni preto tão pequeno quanto o de Jim.

– Melhor agora que te vi mestre – ela se sentou na frente de Saga ainda sorrindo.

– Veio sozinha, Gisty? – perguntou Saga.

– Vim com a Shina, ela está logo ali... – e apontou para a amiga de pé observando o quebrar das ondas um pouco distante. – Antes que me esqueça: Shaka meus parabéns pela sua discípula. A Jim foi uma oponente difícil, dá para ver que está muito bem treinada.

– Agradeço suas palavras, Gisty. Mas o mérito não é só meu. Shina também tem parte no desenvolvimento das habilidades de Jim. – falou Shaka.

– Também fiquei sabendo que ela está sendo treinada pelo Mu de Áries. Com três mestres tão poderosos não me admira que ela tenha me vencido com tanta facilidade. – voltou-se para Saga e pediu sorridente: - Mestre, pode me ajudar a passar protetor solar nas minhas costas? Esqueci de passar antes de sair de casa.

– Claro. – disse Saga todo solicito sem saber que aquilo era mais uma provocação da ex discípula.

Gisty se virou e puxou os longos cabelos negros para frente enquanto Saga passava uma grande quantidade do produto em suas costas. Gisty teve que se segurar para não suspirar de alegria sentindo as mãos grandes e quentes do cavaleiro espalhando o creme em suas costas, pescoço e ombros. Quanto a Saga, não percebeu maldade alguma no gesto e fez de bom grado e eficiência. Shaka viu Milo sair da água pingando para todo lado sem tirar os olhos de Shina. Chegou com um largo sorriso para Gisty.

– Gisty, o que aconteceu com a sua amiga? Ela não parece nada bem... – observou Milo se sentando na frente dos três.

– Ela acordou meio tristonha. Deve ser por conta do desastre de ontem e do temor de guerra iminente... – responde Gisty.

– Quem falou que estamos sob ameaça, Gisty? – perguntou Shaka.

– Basicamente, estão dizendo que o Santuário seria o próximo alvo.

– Não dê crédito a boataria. O Santuário está seguro. Quanto ao incidente em Rodório, ainda estamos investigando. – disse Saga querendo por fim aquele assunto.

Milo continuava observando Shina, até que pergunta como se pedisse um conselho para os amigos:

– Vocês acham que eu deveria ir até lá falar com ela? Tipo, só para saber como ela está.

– Ela vai te receber com quatro pedras na mão, como sempre, e vocês vão acabar brigando mais uma vez. – opinou Shaka.

– Mas eu não quero brigar, eu só quero conversar um pouco... Eu vou lá gente. – e fez menção de se levantar mas Saga o impediu:

– Se você for falar com ela agora, só vai arranjar confusão. – disse Saga.

– Será que ela nunca vai me perdoar? – perguntou com semblante triste depois de desistir de ir até a amazona.

– O que esperava depois de tudo o que você fez no passado? – disse Shaka tentando chamar Milo para a realidade.

– Eu sei Shaka, mas já faz tanto tempo...

Milo não disse mais nada. Gostaria voltar no tempo e consertar todas os erros que cometeu, mas não podia. Coincidentemente, Saga tinha o mesmo olhar para Gisty. Nesse momento, Jim saiu da água e viu Gisty. Fez uma careta que foi percebida por Helena:

- A Gisty é muito legal.  – disse Helena também saindo da água com Kiki sentado em seus ombros.

– Pois para miam ela e a Shin são farinha do mesmo saco. – devolveu Jim – Se ela estiver falando mal de mim para o meu mestre... – e foi andando decidida em direção ao local onde estavam os quatro.

Saga já tinha terminado de passar o protetor solar nas costas de Gisty e agora estava conversando com ela animadamente. Milo ainda permanecia calado assim como Shaka, que estava ao lado deles, mas com a mente em outro país. Ele refletia com afinco sobre as palavras de Saga, e todos os acontecimentos dos últimos dias. A mente sensata ainda relutava em se entregar por completo ao amor que sentia por Jim, tal como Saga aconselhara. “Não cometa o mesmo erro que eu cometi no passado”, essa frase era a que mais pesada, mas pensava que ainda não era hora. Mas quando será? De repente viu Jim se aproximar toda molhada e com aquele biquini diminuto...

– Posso saber o que tanto conversam por aqui? – perguntou a aprendiza diretamente para Shaka que ficou de boca aberta por alguns segundos olhando para ela.

Saga percebeu na hora o motivo do amigo ter perdido o sentido da fala e sorriu discretamente com vontade de dar um tapa nas costas de Shaka para faze-lo acordar. Felizmente, não foi necessário:

– Gisty estava elogiando suas habilidades. – respondeu Shaka piscando rapidamente os olhos.

– É mesmo? – ela perguntou com ironia na voz.

– Você faz jus a fama que já tem nesse Santuário. – respondeu Gisty com sinceridade. Ela não tinha motivo algum para odiar Jim. Sabia perfeitamente que a luta serviu para a formação de uma futura amazona.

– Fama eu? Imagine... – disse Jim sem jeito. Depois daquelas palavras, Jim entendeu que Gisty era completamente diferente de Shina apesar de serem muito amigas.

– Shaka, veja só você, a sua interna, além de muito forte e modesta! – continuou Saga.

            Jim notou o silêncio de Milo, algo bastante incomum. Antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, o viu levantar e se despedir friamente.  

– O que deu nele? – indagou Jim.

– É uma longa estória. – disse Saga.

– Que não vale a pena ser lembrada. – completou Gisty.

Uma longa estória que não valia a pena ser lembrada. O que eles queriam dizer com isso? Para ela qualquer estória envolvendo seu amigo, ainda mais capaz de deixa-lo naquele estado valia a pena ser lembrada. Até tentou arrancar alguma informação, mas ninguém abriu o bico.

 

###

 

Horas depois, na casa de Gêmeos, Saga tomava um demorado banho de chuveiro. Esfregava freneticamente os longos cabelos querendo remover toda a areia que o vento havia jogado na sua cabeça. Já havia passado sabonete em todo corpo musculoso de quase dois metros de altura e agora se preparava para passar o xampu para lavar os cabelos. Esticou a mão ainda com a cabeça embaixo da água corrente para pegar o frasco que para sua surpresa estava quase vazio. A quantidade restante era tão pouca que mal dava para sair de dentro do frasco transparente. Em meio a sua insatisfação por ter acabado o seu xampo favorito numa hora tão necessária, ele escutou a porta do banheiro se abrir e ser fechada. Imediatamente ele imaginou Kanon, o único a ter livre acesso pela sua casa e com cara de pau suficiente para usar suas coisas sem permissão:

– Kanon é você? Você usou todo o meu xampu de novo! Pelo amor de Atena, quantas cabeças você tem? Não combinamos que aquele que terminasse o xampu compraria um novo?

O suposto Kanon não respondeu.

– Não fique aí parado e me traga outro frasco que está no armário embaixo da pia. Está na porta da direita bem no fundo do compartimento. Sim eu escondi para você não descobrir que eu tenho um reserva e usar tudo nesse seu cabelo. – falou com voz irritada.

Em vez de fazer o que foi mandado, o suposto Kanon foi até o suporte de toalha que fora posta ali pelo cavaleiro de Gêmeos para se enxugar depois que terminasse o banho. Os pezinhos que andam pelo banheiro da casa de Gêmeos eram brancos e diminutos, havia uma tatuagem de uma serpente negra em um dos tornozelos e não faziam quase nenhum barulho quando pisavam no chão. A dona dos pés pegou a toalha e aproximou do nariz, se deliciando com o cheiro masculino que saia daquele pano vermelho felpudo. Era o cheiro do homem que ela amava. Sorriu e recolocou a toalha no suporte, removeu a que estava enrolada no próprio corpo e foi em direção ao boxe. Sem pensar duas vezes, ela abre o boxe totalmente, dando um grande susto no cavaleiro que se banhava:

– Gisty! O que está faz aqui?! – perguntou Saga olhando para a jovem nua com os cabelos negros enrolados num coque no alto da cabeça parada a sua frente. - Ela sorriu sensualmente mordendo o lábio inferior olhando para o corpo nu de deus grego de Saga. - É melhor você sair antes que o Kanon entre e te veja aqui...

– Xiu. – falou Gisty colocando o dedo indicador nos lábios de Saga – Não se preocupe, mestre, ninguém me viu entrando. – e o beijou o empurrando para o chuveiro.

Completamente pego de surpresa, Saga interrompeu o beijo, tentando conduzi-la fora do boxe.

– É melhor você ir embora, não podemos fazer isso assim. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu... – tentou Saga.

– Eu senti tanta saudade! – falou Gisty.

– Eu também, mas não podemos. Por favor, Gisty entenda, você precisa sair. Kanon vai chegar a qualquer momento...

– Quer mesmo que eu vá embora, mestre? – perguntou com sorriso safado olhando para a ereção do cavaleiro.

Saga teve que ponderar por alguns segundos (segundos que pareciam horas para Gisty), finalmente puxou a amazona para o chuveiro, beijando-a com toda intensidade.  Gisty pulou no corpo enorme de Saga se pendurando no pescoço e abraçando o corpo dele com as pernas. Permanecem na mesma posição aumentando o vigor das preliminares que debaixo d’água eram ainda mais excitantes. Gisty gemeu satisfeita por finalmente estar nos braços do homem que amou em segredo durante tantos anos. E ele estava correspondendo, sentia que também era amada. Nem em seus sonhos imaginou que aquele momento seria tão maravilhoso. Já não podia esperar mais, precisava dizer:

– Eu te amo tanto, eu sempre te amei... esperei tanto por isso...

– Eu também te amo, Gisty, e sempre te amei... – e a segurou pelas coxas firmemente. E continuaram se beijando naquele box apertado e foi justamente esse o motivo que fez Saga soltar as pernas de Gisty colocando-a de pé, para então voltar a carrega-la no colo. Saíram do banheiro antes de Gisty esticar a mão e pegar uma toalha para não andarem nus pela casa. – Não se preocupe. Ninguém vai passar pela casa de Gêmeos agora. O labirinto nos protegerá.

Quando foi que ele produziu aquela ilusão? Gisty se perguntou, mas na verdade estava pouco interessada em descobrir. Apenas achou o máximo tudo aquilo. O casal nu e molhado terminou o trajeto até o quarto entre beijos. Saga a colocou na cama delicadamente e resolveu passar um tempo olhando para Gisty. Era lindíssima. Observou cada detalhe do corpo nu deitado a sua frente, até que viu uma coisa que lhe chamou muita atenção por ser carregada de lembranças, estava lá, bem na região da cintura da jovem:

– Essa cicatriz... – e aproximou o rosto da marca. – Eu me lembro do dia em que você a ganhou. Você caiu de cima de uma pilha de colunas que o pessoal fazia de área de convivência, Tinha mais ou menos 16 anos, estou certo?

– Exatamente. Eu tinha 16 anos. Lembro de gritar bem alto seu nome pensando que tinha quebrado uma costela com a queda... – ela sorriu lembrando. – E você veio correndo para me ajudar. Você me carregou nos braços até esta casa e me curou. Ficou cuidando de mim até o dia seguinte. Confesso que fiz um certo teatrinho para ficar mais tempo ao seu lado...

– Eu me lembro de tudo isso. Menos de desconfiar que tudo não passava de um teatro! – os dois riram. - Eu passei os melhores anos da minha vida ao seu lado, sabia?

– Eu digo o mesmo. Você já era muito importante para mim naquela época. Eu me sentia tão segura quando estava perto de ti...

– Você também era muito importante para mim... – e beija a cicatriz localizada na cintura de Gisty com muito carinho, depois foi subindo com beijos até chegar nos lábios dela.

E mais uma vez se beijaram com desejo e amor. Gisty sentia toda a excitação dele pressionado sua feminilidade. Se movimentou por debaixo do corpo de Saga querendo encaixar seu corpo no dele. O geminiano, experiente como era, entendeu o gesto e tratou de iniciar a consumação do ato tão, iniciando a penetração.

Ele era muito carinho e gentil, completamente diferente das vezes que esteve com ele há anos atrás. Na época, a mente de Saga estava dominada por sua face maligna e tudo o que faziam era marcado pela brutalidade. Mesmo se sentindo humilhada, Gisty era incapaz de escapar aos desejos dele, por que justo naqueles momentos, ele removia a máscara que escondia a sua identidade para o mundo e exibia o rosto de Saga para ela. Parecia que aquele maldito fazia aquilo tudo por diversão. Mas apesar dos olhos vermelhos que brilhavam de ódio e de toda a brutalidade, Gisty via a alma de Saga presa dentro da própria mente. Durante aqueles dias sombrios, nunca perdeu a esperança que Saga voltasse a ser quem era.

Depois de ter sido usada várias vezes, o exílio lhe pareceu até bem vindo. Exilada na Ilha do Espectro, Gisty sofreu sozinha por estar longe de Saga, longe de seus amigos, suas companheiras de lutas e mais ainda por saber que seu mestre era um mero escravo, assim como os outros. Estava cada vez mais longe dela. Quando surgiram os rumores de que Athena tinha finalmente voltado, o coração de Gisty se encheu de esperanças. Quem sabe a deusa libertasse seu querido Saga? Não pensou duas vezes e voltou para casa. Logicamente, servir a Athena e proteger o Santuário eram também a sua missão como amazona, mas foi o amor que sentia pelo cavaleiro de Gêmeos que a fez sair do exílio e ir ao Santuário buscar o perdão de Athena. O convite para testar as habilidades da interna de Shaka numa luta foi o pretexto final para ficar no Santuário de vez. Já tinha seu posto de amazona de Athena de volta, só faltava reconquistar o coração de Saga.

E lá estava ela, deitada na cama do amor da sua vida, sendo amada finalmente por ele. Gisty fechou os olhos lembrando a si mesma que aquela não era hora para lembrar de coisas tristes. Abraçou os ombros de Saga com muito carinho, sentindo toda a gentileza daquele homem investindo nela. Nem em seus sonhos imaginou que transar com Saga seria tão maravilhoso. Não conseguia pensar em mais nada, só em gemer, abraçar e beijar. Até que ambos chegam ao clímax quase ao mesmo tempo. Exaustos, deixaram o corpo desabar na cama. Saga assustou-se ao vê-la chorando.

– Querida, eu te machuquei? – perguntou preocupado.

– Muito pelo contrário... – Gisty respondeu soluçando.

– Me diz o que é então? – Saga perguntou beijando-a na testa.

A emoção de Gisty era na verdade o grito de seu coração aliviado por finalmente demostrar aquilo que sentia.

– Eu sei o quanto é indelicado chorar numa hora como essa, mas... – permitiu que ele a abraçasse apertado - Estou chorando de alegria. Não sabe o quanto esperei por esse dia, o dia que estaria nos seus braços.

– Eu também esperei muito por esse dia Gisty,  o dia em que pudesse dizer o quanto eu te amo e estar com você sem medo... – sentiu a voz embargar.

– Eu te amo Saga, te amo... – Gisty finalmente sorri.

Os dois voltam a deitar na cama abraçados, até que Saga interrompe o silêncio:

– Perdão por tudo o que eu te fiz Gisty.

– Não há o que perdoar. Eu sei que não era você antigamente.

– Gisty...

            Interrompeu-o com um beijo:

– Esqueça o passado, por que eu já esqueci.

Continuaram se amando até tarde da noite protegidos pelo labirinto de Gêmeos.

 

###

 

Assim que chegou na casa de virgem, Jim foi direto para a cozinha atacar as sobras do almoço indiano. Estava varada de fome. Descobriu que amava comida indiana. Enquanto comia, sentiu Fred se esfregando no seu pé.

– Que tal um pouco de leite, fofinho? – disse para o gato.

Lembrou a mudança de humor de Shaka enquanto subiam. Ele fez o caminho de volta para casa com aquela expressão indecifrável que Jim odiava. Saiu da cozinha e foi para sala se perguntando que diabos tinha feito de errado. Parou na frente de Shaka, que estava em posição de meditação sobre o tapete, e foi perguntando:

– Vai ficar sem falar comigo mesmo?

– Devia ir tomar um banho e tirar todo este sal do corpo. – respondeu Shaka, com azedume.

– Você também devia ir, está tão salgado quanto eu. – sentou em cima dos joelhos de frente para ele. – Ah vai! Me diz o que ta acontecendo.

– Nada. Vá tomar o seu banho de uma vez.

Ela ainda estava com aquela roupa mínima perturbadora e um short completamente molhado. Os cabelos molhados pela água do mar estavam mais brilhantes e exibiam um pouco de areia em meio as ondulações naturais. Mas aquilo de jeito nenhum a tornava feia, muito pelo contrário. Bronzeada, ela estava mais bela do que nunca.

– Fique sabendo que nem precisa dizer, eu sei por que você está assim. – e deu um sorriso maroto.

– Sabe mesmo, aprendiza? – perguntou já sem a postura séria de antes. Ela o desarmava facilmente.

– Você ficou com ciúmes de mim de novo. – Jim respondeu com ares de triunfo.

– Estou com ciúmes nada. – e desviou o olhar do rosto dela. Era perigoso demais ficar olhando para ela, pois ela estava quase nua! As bochechas e o nariz vermelhos pelo sol lhe deram um quê mais sedutor. Como ele poderia resistir a tanta sensualidade, Buda?

Jim riu achando linda aquela carinha de Buda envergonhado. Ficou com vontade de dar um beijo nele de novo, mas em vez disso apenas o abraçou. Para surpresa de Shaka...

– Você é bobo de mais mestre... – ela sussurrou sorrindo.

– Por que diz isso? – murmurou Shaka fechando os olhos se entregando ao cheiro do mar que vinha dos cabelos e do corpo de Jim.

– Por que você é... – disse Jim roçando os labios na face quente do cavaleiro.

Ela não tinha o abraçado com intenção de provoca-lo, fez mais pelo ímpeto do que por algum motivo malicioso. Por outro lado, aquele contato carinhoso fez o coração se agitar. De repente um lampejo de culpa lhe assolou a mente: ainda era o mestre dela. Se alguém passasse pela sua casa e visse os dois daquele jeito o que pensariam? Com certeza alguma maldade, tendo em vista a pouca roupa que usavam. Ambos também estavam um pouco molhados. A mente sensata de Shaka não dava trégua um só minuto.

– Vá tomar banho, precisa esfriar o corpo para a meditação. – disse num tom firme e carinhoso afastando os braços de Jim do pescoço.

– Ta eu vou. – disse Jim vencida. Realmente estava com muita vontade de lavar os cabelos.

Porém, não foi capaz de se afastar muitos centímetros de Shaka, já que seu brinco enorme de miçangas vermelhas se enganchou nos cabelos do indiano formando um verdadeiro nó de cabelos loiros, castanhos e miçangas vermelhas. Ela tentou soltar o nó que prendia os cabelos de Shaka em seu brinco, mas era muito complicado, pois ela não tinha visão nenhuma na posição em que se encontrava. Shaka percebeu a situação enrolada em que se encontravam e tantou ajudar aproximando-se mais rosto com rosto.

– Que raiva desse brinco! – irritou-se Jim.

– Puxe devagar e com paciência. – sugeriu Shaka se esforçando para manter o tom sereno.

Ele percebia o quanto Jim estava frustrada e envergonhada por não conseguir desfazer o nó que prendia seus cabelos ao brinco. Os rostos corados pelo sol e pela timidez acabaram se encontrando de novo. Primeiro foram os narizes, depois os lábios. O beijo saiu mais uma vez suave no início, até ganharem jeito de beijo de cinema. Jim abraçou o pescoço do mestre com mais vontade enquanto Shaka segurava sua cintura trazendo-a para mais próximo de si. Os minutos se passaram e eles não pararam nem por um segundo de se beijar. Tomado pelo desejo, Shaka levou sua interna nos braços até o próprio quarto. Fechou a porta com o pé e a colocou na cama sentada em seu colo. Então Shaka perguntou como se fosse coisa muito importante:

– E o brinco, você conseguiu soltar?

– Brinco? Ah, acho que se soltou sozinho. – ela sorriu.

Shaka sorriu de volta e tornou a beija-la. A posição dava margem a muitas carícias quentes, fora que Jim podia sentir toda excitação do homem mais próximo de deus estando sentada em seu colo. Ela não queria ser tocada só no rosto, queria que ele a tocasse seu corpo todo, mas Shaka não tomava a iniciativa, apenas a beijava carinhosamente. Não que aquilo fosse ruim, mas ela queria mais. Retirou as mãos do mestre do próprio rosto e as pousou em seus seios. O toque delicado do mestre em cima do biquíni úmido desencadeou um arrepio pelo corpo todo da jovem. Já imaginava tudo o que poderia acontecer depois, era inevitável: ele puxando o nó do biquíni nas suas costas e deitando em cima dela, mas ele não fez isso. Pelo contrário, permaneceu tocando delicadamente os seios firmes de Jim, como se estivesse explorando novo terreno. Ficou com vontade de saber até onde aquela delicadeza. Deixou que ele explorasse mais seus seios enquanto dava beijinhos na boca de Shaka, descendo vez ou outra até o queixo.

Ele pensou no mesmo instante que se ela queria enlouquece-lo estava conseguindo. Abraçou-se a sua cintura colocando os corpos que já se encontravam encaixados um sobre o outro. Jim foi mais uma vez ao céu a espera do próximo ato. Deixou que o mestre a beijasse do jeito que quisesse, limitou-se a deslizar suas mãos pelo rosto dele, depois pescoço, afastou os cabelos loiros dos ombros e foi sentindo os ombros fortes até as costas. Apalpou tudo o que podia. Até que Shaka parou de acaricia-la. Jim notou os olhos baixos de Shaka, uma expressão meio chocada. Ia perguntar o que tinha acontecido mas foi ele quem falou primeiro:

– É muito errado o que estamos fazendo. Eu sou o seu mestre, não podemos fazer isso...

– Por que diz que é errado? – pergunta Jim tentando entender aquela atitude.

– Você é minha discípula! Não posso fazer de você a minha... – falava Shaka com voz um pouco embargada pela culpa. O que foi que Saga tinha dito mesmo na praia? Antes que seja tarde. Sim, tarde para ele, mas e quanto a ela?

Sem pensar, Jim abraçou Shaka o fazendo encostar a cabeça nos seus seios, como uma mãe que acalenta um filho assustado depois de um pesadelo. Acariciava seus cabelos sussurrando várias vezes:

– Está tudo bem... está tudo bem... – e colocou os braços de Shaka em torno de seus quadris indicando como queria ser abraçada.

Embalado pela respiração calma de Jim, Shaka fechou os olhos se sentindo completamente sem forças. Ele amava Jim demais, mais sua mente sensata não lhe deixava em paz. A todo momento o atormentava dizendo que aquilo era errado, que ele devia respeita-la, que Shion o reprovaria, que todos reprovariam, até Buda via aquela cena com olhar de tristeza. Shaka queria se entregar, mas ainda tinha medo. Como ficaria a relação deles depois que fizessem sexo? E Jim, será que realmente queria aquilo, ou só estava sendo levada por ele? As perguntas pipocavam na cabeça de Shaka. Até que os pensamentos foram se desconectando do corpo lentamente devido ao cansaço e ao calor do corpo de Jim.

Por sua vez, Jim se sentia muito emocionada, mas estava tranquila verdadeiramente apesar de tudo. Sentiu toda a tristeza de Shaka através daquelas palavras culpadas. Continuou afagando os cabelos do mestre, até o momento que ambos deitaram na cama de lençóis brancos. ‘Fique aqui comigo’, ele pediu com voz sussurrante trazendo Jim para mais próximo de si. Não queria ficar sem aquele calor quase materno naquela noite que já caia fria no Santuário de Athena.

 

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Voltando a casa de Gêmeos...

Kanon sentiu que a casa estava trancada logo que botou um pé no templo. Contrariado, resolveu esperar sentado na escadaria até que o irmão desfizesse a maldita ilusão, porque se tentasse entrar ficaria perdido por horas. Ele melhor do que ninguém conhecia o labirinto da casa de Gêmeos. Chamou o irmão algumas vezes pelo cosmo, mas este não respondeu. O que aquele filho da mãe estava fazendo tanto que não respondia? E ainda com aquele labirinto? “Saga, seu filho de uma cadela, vou ficar trancado do lado de fora a noite toda?”, perguntou mais uma vez Kanon pelo cosmo. Sem resposta. Bufou e voltou a se sentar na escadaria. O jeito era esperar.



 



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