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História O Segredo Das Internas - Capítulo 23


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Notas do Autor


Penúltimo capítulo, meu povo!
Boa leitura.

Capítulo 23 - Emergindo


Os primeiros raios de sol começavam a entrar pelas frestas da janela. Todo o quarto estava mergulhado numa confortável meia luz de final de madrugada. De longe os rostos quase unidos não passavam de siluetas na doce penumbra.

Olhavam atentamente para as feições um do outro, buscando sentir o cheiro da pele afogueada e suada pelo ato sexual recém terminado. Estavam tão próximos que os cílios quase se tocavam.

Vez ou outra trocavam beijos delicados. Aquela posição, Jim sentada no colo de Shaka, era sempre a preferida. Assim podiam se ver, podiam se curtir mais. Ele ficava ciente que não comprimia o corpo frágil da pupila com seu peso e ela se sentia confortável por estarem na mesma. Naquela posição eles se sentiam quase um só.

Shaka acariciou as costas de Jim por baixo da massa de cabelos castanhos. Jim suspirou com aquele carinho suave. Reparou que a respiração dela não mudava, permanecia calma assim como seu olhar. Os lábios dela pousaram nos seus suavemente, Shaka fechou os olhos sentindo o beijinho e depois seu pescoço foi abraçado. Retribuiu beijando o ombro de Jim. Voltou a olhar para ela enquanto lia cada curva de seu corpo com as mãos. Passou algum tempo penteando os longos fios castanhos com os dedos.

Ela havia mudado bastante. A principal mudança em sua aparência eram os cabelos. O cabelo estava maior, mais cheio ao mesmo tempo menos ondulado. A franja havia sumido por completo. Sem ela Jim parecia mais meiga.

Shaka sorriu pensando naquelas mudanças. Aquela jovem sentada em seu colo não era mais a mesma por muitos motivos e não só por que seus cabelos haviam crescido. Ela estava mais calma, controlada, sensata. Não parecia mais tão menina nem tão rebelde. Hoje era uma mulher, com certeza havia amadurecido graças ao treinamento. Voltou a admirar seu rosto de menina que não perdia nenhum encanto debaixo daquela meia luz. O rosto não havia mudado em nada, a não ser por um olhar perdido, por vezes pensativo que às vezes ganhava, mas logo Jim lhe presenteava com um sorriso.

Mais um beijo fora trocado. Enquanto as línguas brigavam por espaço dentro da boca de cada um, abraçaram-se apertado. Grudaram os corpos descobertos, apertaram-se até um arrancar um gemido do outro.

Cessado o beijo ardente, voltaram a mergulhar naquela contemplação tão íntima. Jim passou a língua no lábio feito vermelho pelo beijo intenso. Tocou a bochecha dele com a ponta do dedo, passou pelo nariz bem talhado, pelos lábios também vermelhos. Brincou com a franja que insistia em cobrir os olhos de Shaka.

Aqueles mesmos olhos que lhe causaram palpitações na primeira vez que os viu abertos. O tom de azul mais fascinante e misterioso daquele Santuário. Misterioso justamente por ser escondido, velado pela pálpebra sempre fechada. Sentia-se privilegiada por admirar aquela beleza misteriosa todos os dias, mas ainda se incomodava quando via Shaka de olhos fechados pela casa.

- Notei que anda muitas horas de olhos fechados... Por quê? – perguntou.

- É o meu treinamento, Jim. – respondeu Shaka sem desviar os olhos dos dela.

- Está querendo acumular o cosmo para despejar tudo no inimigo, por isso fecha os olhos?

- Você não está errada.

Ela apoiou a cabeça no ombro do mestre e fechou os olhos. Naquela posição, caída sobre o corpo dele, passou a ouvir a respiração de Shaka. Sentia o peito subir e descer no ritmo sereno que só ele tinha. Contornou cada curva com as pontas dos dedos antes de se aconchegar melhor no colo. Seus cabelos caíram completamente pelos ombros e costas de Shaka. Abraçou-o com carinho. Ele não era tão forte, sendo assim ela podia abraçá-lo sem esforço, quase o envolvendo completamente com os braços.

            Ficaram nessa posição por longos minutos. Do lado de fora o dia respirava suas primeiras horas de vida. Mais luz entrou pelas frestas da janela, que refletida nos lençóis brancos clareando o ambiente. Shaka segurou com delicadeza o queixo de Jim e a trouxe para mais perto. Roçou seus lábios com os dela de olhos fechados. Ouviram a respiração um do outro naquele doce momento de expectativa que precedia o beijo.

            A ponta do dedo de Shaka desceu lentamente do nariz ate os seios de Jim. A respiração dela não mudava. Ele já procurava se controlar, pois aquele contato dos corpos nus já o estimulava novamente, mas ela não. Jim parecia inabalável em sua calma contemplativa. Ficaram mais alguns segundos mergulhados um na íris do outro, no movimento hipnótico dos cílios loiros e escuros frente a frente. Até Shaka quebrar o silêncio.

- Gostaria de ir à Índia comigo?

            Jim piscou várias vezes os olhos.

- Índia?

- Vi que ficou interessada quando o Kiki falou que tinha viajado para lá.

- Sim, mas... Tem algum motivo especial para querer viajar para lá?

- Tem sim... – sorriu – Me casar com você.

- Heim?! – arregalou os olhos e quase levantou num pulo, só não o fez por que Shaka a segurou.

            Acabou rindo do susto da discípula.

- Como você consegue falar essas coisas com tanta naturalidade?

- Fique tranquila. A viagem não seria agora, e sim depois que toda essa confusão passasse. – fez um carinho no rosto feminino – Não tenho mais paciência para esperar, odeio ter que esconder nossa relação de todo mundo.

- Falta pouco. Só mais quatro meses e eu estou livre da Shina. – passou um tempo brincando com os lábios de Shaka. - Eu te amo... – sussurrou.

- Também te amo...

Amanheceu. A respiração de ambos foi ficando mais intensa e barulhenta enquanto uma buscava a boca do outro. Depois do beijo voltaram a se encarar. Jim esperou a respiração dele se estabilizar para voltar a falar. Mais do que nunca ela precisava demonstrar toda a sua calma aprendida, pois aquele era um assunto delicado.

- Eu quero participar da missão na floresta.             

            As sobrancelhas de Shaka se contraíram.

- Não devia ter te contado sobre essa missão. Só fiz para não correr o risco de você ficar sabendo por pessoas não autorizadas de novo...

- Mestre... – interrompeu segurando o rosto de Shaka – E se esse for o único jeito de pegar esse vilão?

- Encontraremos outras saídas.

            Jim suspirou e Shaka levantou seu queixo para olhá-lo.

- Já tomei minha decisão. Você não vai para aquela floresta.

- Por que não?

- Por que é muito perigoso. Não sabemos o que vamos encontrar...

- Eu sei que é perigoso, mas eu prometo fazer tudo o que vocês mandarem. Vou seguir a risca toda e qualquer recomendação...

- Por que você quer participar de uma coisa tão arriscada? Desapego pela vida? Vingança?

            Jim pensou um pouco antes de responder.

- Não é nada disso... – baixou os olhos – Ou melhor, eu não sei bem o que estou sentindo nesse momento. Tudo ficou tão vazio depois que soube que fiquei órfã, mas... Acho que é o único jeito de limpar o meu nome.

- Como assim?

- Todo mundo desconfia de mim! Desconfiam dos meus poderes, da minha falta de lembranças daquele ataque. Talvez seja a única forma de provar a minha inocência perante todo o Santuário...

- Ainda acha que tem parte com o inimigo? – disse Shaka olhando-a com severidade.

- Não é o que todo mundo acha?

- Essa suspeita não tem fundamento, Jim.

- E se for verdade?

            Silêncio. Shaka prendeu seu olhar no da discípula por alguns segundos. Quando ela não suportando mais baixou os olhos vencida, ele acariciou gentilmente o seu rosto:

- Eu te protegeria, por que conheço a tua essência. Eu não vejo o que você tem aqui... – tocou a testa de Jim – Mas eu vejo perfeitamente o que tem aqui... – tocou o peito de Jim onde fica o coração – Você não é maligna...

            Abraçaram-se mais uma vez. Naquele momento uma emoção forte atingiu a ambos.

- Agradeço todo o apoio e tudo o que você fez por mim, mas eu sinto que tenho que ir aquela floresta, tenho que ajudar...

- É a antiga Jim suicida que está falando nesse momento?

- Eu mudei, me sinto mais forte. Quero fazer isso por vocês também. – tocou o rosto de Shaka – Eu confio plenamente nos cavaleiros de Athena. Sei que nem você nem ninguém vai me colocar em perigo naquela floresta. Portanto, se existe um jeito de revelar esse inimigo e fazê-lo pagar pelos seus crimes, meu dever como aspirante a amazona de Athena é ajudar no que for preciso.

- Se alguma coisa te acontecer naquela floresta...

- Nada vai acontecer, pois vocês estarão lá me protegendo. Você, o Mu, o Milo... Farei tudo o que mandarem.

***

            Servos e servas andavam de cá para lá tentando arrumar o templo de Athena para a festa de noivado de Shiryu e Shunrei. A iluminação sofreu uma pane devido a instalações erradas, forçando os cavaleiros envolvidos, Seiya, Ikki e Dohko a re-arrumarem tudo. Novamente Saori cogitou chamar um técnico especializado em iluminação e outro especialista em som, mas o orgulho masculino não permitiu nenhum tipo de ajuda.

            Durante toda a manhã esses três cavaleiros não arredaram o pé da fiação. Hyoga veio da casa de Aquário para ajudar, com isso Dohko se retirou para falar com Shion na biblioteca. Assim que entrou avistou o grande mestre do Santuário conversando com sua serva perto do busto de Sage.

O lugar nem parecia uma biblioteca por conta da destruição, estava mais para um sítio arqueológico. As estantes estavam fora do lugar. Os livros foram empulhados no chão, sendo que muitos estavam espalhados. Buracos no chão e nas paredes podiam ser visto de longe e alguns eram tão grandes que cabia um homem sentado dentro.

Shion fez sinal para Dohko se aproximar.

- Terminaram a instalação? – perguntou o lemuriano.

- Em processo, e quanto a você, quando vai marcar a reunião para acertarmos todos os detalhes da missão na floresta?

- Amanhã. Vou aproveitar a folga dos aprendizes, não quero atrapalhar o treinamento deles com Shaka e Aiolos. Já pedi a Aneta que mandasse os e-mails informando os cavaleiros sobre a reunião.

            Dohko cruzou os braços.

- Pensou melhor na possibilidade de...

- Não pensei e nem vou pensar. A Jim não será usada como isca. Essa reunião que vou marcar é para discutirmos outras possibilidades.

- Shion, você fala como se a Jim fosse totalmente indefesa ou despreparada.

- Ela é só uma aprendiz, Dohko, por essa razão não quero que ela vá para aquela floresta.

            Dohko colocou a mão no ombro do amigo e disse com voz branda:

- Vamos proteger essa garota, estaremos lá o tempo todo. Nada vai sair do nosso controle.

            Shion respirou fundo e deu alguns passos. Ele queria acreditar nas palavras do amigo e nele mesmo no sentido de que estava fazendo a coisa certa, mas dentro do peito o coração não se aquietava. Pensava que se concordasse com aquele plano, seria o mesmo que mandar uma jovem inocente para a morte. Uma jovem que era muito especial para ele. Deixou Shion pensando sozinho e foi falar com Aneta.

- Pedi que Aneta trouxesse algo para comer e um chá para você se acalmar, já que vamos passar o resto do dia trancados aqui. – disse Dohko.

- Não vou sair dessa biblioteca enquanto não achar aquele catálogo.

- Acha mesmo que está por aqui? – perguntou Dohko limpando a poeira de um pequeno livro.

- Tenho uma forte suspeita. E não se esqueça que o primeiro catálogo estava aqui no meio desses livros.

- Sei. Mas você pretende destruir toda a biblioteca nessa procura?

- Se for preciso sim. No momento o que importa é achar o livro. Tenho esperanças de que apareça antes dessa missão.

****

            A cozinha do Templo de Athena estava deserta para aquele horário. Aneta já tinha colocado o bule cheio de chá na bandeja, as xícaras e os biscoitos preferidos de Dohko e Shion. Suas mãos vacilantes devido ao nervosismo tornavam o trabalho um suplício. Não conseguia desviar seu pensamento de seus pais nem por um segundo.

Apesar de todo o cuidado com que segurava a bandeja, acabou derrubando tudo no terceiro passo. Alexia a observava de longe correu para ajudar a serva pessoal de Shion. Agachou-se para pegar os cacos que antes eram belas xícaras de porcelana e disse olhando para o rosto aflito de Aneta:

- Algum problema, Aneta?

- Problema nenhum, Alexia. Deixe que cuido disso sozinha... – soltou um gemido ao cortar o dedo em um dos cacos da porcelana – Deuses! Como sou desastrada!

            Alexia levantou-se rapidamente e pegou um pano para limpar o pequeno fluxo de sangue que escorria do dedo indicador de Aneta.

- Há algum tempo estou notando você muito preocupada, abatida, sem falar que já é a segunda vez que se machuca... – olhou firme para o rosto de Aneta – Tem algum motivo para essa distração?

- Eu devo estar cansada, só isso.

            Alexia analisou Aneta de cima a baixo. É claro que muito das suas próprias desconfianças vinham de Kanon que sempre a estimulava a observar e a buscar aproximação com Aneta, mas havia uma preocupação sincera para com uma companheira de trabalho. Afinal, Aneta era sua chefe e uma boa chefe.

- Tudo bem. Sente-se um pouco. Deixe que preparo uma nova bandeja.

            Aneta acabou cedendo. Sentou em uma das cadeiras da cozinha soltando um suspiro cansado.

- Como está o braço?

            Aneta demorou a responder. Seu olhar perdido não passou despercebido pela atenta informante de Kanon. Aneta parecia estar com a mente a quilômetros de distância do Santuário.

- Ah... – piscou várias vezes os olhos azuis recobrando a consciência – Bem melhor, obrigada por perguntar.

- Contou a Shion que se machucou?

- O grande mestre é uma pessoa muito ocupada, não devo importuná-lo com meus pequenos acidentes.

            Terminada a bandeja, Alexia levou-a até a mesa para mostrar a sua chefe.

- Coloquei um pouco de creme no chá para o mestre Dohko. Sei que ele gosta de tomar chá com creme...

- Esqueci-me completamente desse detalhe. Fez um excelente trabalho, Alexia. Melhor até do que eu faria...

- Se quiser posso ajudá-la a levar a bandeja, já que está com a mão machucada...

- Agradeço a gentileza. Do jeito que ando distraída, sou capaz de derrubar outra bandeja no caminho... – levantou da cadeira – Vamos?

            As duas continuaram conversando enquanto caminhavam até a biblioteca. Alexia não perderia aquela oportunidade por nada, então ela foi direto ao ponto.

- Soube que Shion interditou a biblioteca do nosso templo.

- Nosso grande mestre está fazendo uma espécie de... “reforma” na biblioteca.

- E quando irá reabri-la? – perguntou Alexia parada em frente à porta.

- Em breve. – Aneta estendeu a mão para pegar a bandeja que a outra segurava.

            Alexia ainda registrou os buracos no piso e nas paredes quando Aneta abriu a porta. Ainda pensou em se oferecer para ajudar, mas sabia que Aneta não permitiria. Toda a atividade na biblioteca era restrita apenas a Aneta, Shio e Dohko. Contudo, se ainda continuavam lá, significava que o tal livro perdido continuava desaparecido.

- Obrigada por ter me ajudado duas vezes. Jamais esquecerei o apoio. Quero que saiba que admiro muito o seu trabalho. Você seria aquela que escolheria para ficar no meu lugar, caso algo acontecesse comigo. – falou Aneta.

            Alexia colocou a mão no peito pega de surpresa.

- Eu, senhora?

- Sim, você mesma. Alem de ser muito competente em seu trabalho, tem boa relação com os cavaleiros e com a própria Athena. Creio que seria uma ótima ajudante de Shion! Tem todos os requisitos para isso.

- É uma honra ouvir isso, mas, o que quer dizer com “se algo acontecesse comigo”?

- Apenas gostaria que soubesse. Agora vá até o jardim, deve ficar perto de Athena para no caso dela precisar de alguma coisa.

            As duas se despediram. Aneta entrou na biblioteca e Alexia seguiu na direção oposta. Mas antes, desviou o caminho para voltar à cozinha. Tinha que ligar para Kanon para contar aquela novidade.

Não precisou fazer isso. Kanon já a esperava na porta da cozinha comendo uma maça.

****

            Shaka e Jim chegaram vinte minutos antes de começar o treino. Os dois foram até Aiolos que conversava com Camus no meio da arena. O aquariano recebeu a interna de Shaka com um sorriso simpático, que desagradou totalmente Shaka.

            O tom de voz seco e os olhares atravessados que Shaka lançava para Camus não foram ignorados por Aiolos. Muita coisa estava clara para ele agora. A reação de Shaka diante daquela conversa inofensiva foi apenas uma confirmação de suas suspeitas. Quando Helena atravessou a arena em direção as arquibancadas, Jim se despediu de Camus dizendo que ia falar com a loira. Shaka vibrou por dentro.

            Camus se despediu também e acenou para as aprendizes conversando na arquibancada inferior.

- Então o grande mestre ainda não concordou com a participação dela na missão? – perguntou Aiolos de braços cruzados.

- Ambos discordamos.

- Na reunião eu concordei com o plano, mas depois de conhecer a sua interna melhor voltei atrás. Jim é completamente imprevisível. Aquela luta que presenciamos aqui na arena me fez pensar... Entendi as razões dela Shaka, mas nada justifica descontar a raiva daquela forma. Jim nunca teve controle emocional, e isso é bastante preocupante. Alias, nem ela nem a Lucy. As duas são as melhores da turma, são rápidas, tem controle satisfatório de seus cosmos e são muito espertas, mas ambas ainda não possuem o que é preciso para ser uma amazona de Athena. Uma amazona tem que ser forte tanto física como mentalmente e isso, infelizmente, as duas estão devendo. A sua discípula por ser impulsiva demais e a Lucy por ter medo de machucar os outros. Já com a Helena as coisas são bem diferentes. Ela é responsável e raramente comente erros. Está mais preparada mentalmente para ser uma amazona do que as duas.

            Mais internos chegaram à arena para treinar.           

- Ainda sobre a sua interna, Shaka – disse Aiolos – Continua te dando trabalho? Soube que antes vocês não tinham boa relação.

- Nossa relação era um pouco conflituosa, por que a Jim é uma jovem um tanto difícil de controlar.

- Eu posso imaginar, principalmente depois de ver a conduta dela aqui na arena. Sabe Shaka, eu fico pensando, em você que sempre viveu uma vida solitária de repente começa a morar com uma jovem tão diferente e tão bonita como a Jim. Pergunto-me se a relação de vocês poderia ter rumado para algo mais íntimo...

            Shaka evitou voltar-se para o sagitariano naquele momento.

 - Sempre fui ciente das chamadas “armadilhas da convivência”. Sei perfeitamente o meu papel de mestre e dele nunca vou me afastar, Aioros.

- Pela forma que você a protege e o ciúme que demonstra quando outro cavaleiro chega perto dela eu diria que você já caiu nas “armadilhas da convivência”. Se não caiu está perto de cair. Se bem me lembro na reunião parecia que você ia lutar com o Kanon de novo por causa dela. Você visivelmente sente dificuldades em repreendê-la, sem falar nas trocas de olhares que já presenciei aqui nesta arena. Vou ser direto: o que está acontecendo entre vocês?

            Desta vez Shaka não desviou o olhar. No fundo sabia que aquele dia chegaria mais cedo ou mais tarde. Aiolos era observador, um cavaleiro experiente que já teve vários discípulos e discípulas, era totalmente apto para reconhecer se havia algo mais naquela relação. Saga acabou descobrindo também, mas o geminiano fez vista grossa, optou por não se intrometer e até ofereceu apoio por ver na relação dos dois um espelho da sua própria com Gisty, sua antiga discípula. Desapontado consigo mesmo por ter deixado as coisas chegarem aquele ponto, o que saiu da boca de Shaka foi uma meia verdade:

- Ela é muito especial para mim, Aiolos.

            Aiolos coçou o queixo amenizando sua expressão séria com um sorriso depois deu uma risada que se transformou numa gargalhada. Shaka ficou sem entender nada. Ele esperava ouvir palavras duras e não risadas.

- Eu fico pensado nas intenções de Athena quando mandou uma discípula morar com você... – recomeçou Aiolos. - Talvez a nossa deusa conheça mais os seus cavaleiros do que nós mesmos. Quem sabe ela não mandou a Jim morar com você para acabar com a sua solidão?  

- Duvido muito que Athena pense assim.

Aiolos passou a mão na nuca.

- Bem, não posso dizer nada a respeito, nem julgá-lo, pois sei o quanto é responsável como cavaleiro e como mestre. A situação não é ideal, mas se quer saber o que eu faria, eu contaria tudo para Shion o mais rápido possível.

            Os dois continuaram conversando. Do outro lado, precisamente nas arquibancadas inferiores, Jim e Helena também tinham muito assunto.

- Me explica você não estar na casa de Touro, Helena? O seu mestre não está em nenhuma missão, tem todo tempo disponível para treinar e você escolheu treinar aqui. Achei que você gostasse muito do seu mestre.

- Gosto muito dele sim. – disse Helena – Gosto dele como se fosse da minha família. Aldebaram é muito importante para mim.

- Eu sinto a mesma coisa com relação à Shaka e Mu. Ainda mais agora que perdi toda a minha família... Mas como você conheceu o Aldebaram?

            Helena levantou a cabeça do seu alongamento.

- O Aldebaram salvou a minha vida. Há dois anos voltava de uma balada no Rio de Janeiro, já tinha passado da meia noite e eu estava sozinha. Então quando dobrei a esquina da minha rua fui surpreendida por três bandidos. Depois de levarem meus pertences um deles me deu uma coronhada e eu apaguei. Só me lembro de acordar com as roupas rasgadas em um beco escuro e ver o Aldebaram batendo nos três bandidos. Depois ele me procurou no hospital e me falou sobre o Santuário. Disse que havia sentido um cosmo poderoso dentro de mim e que se eu quisesse me treinaria. Depois de ouvi-lo não pensei duas vezes, vim para a Grécia, e aqui estou. Eu só conseguia pensar que se me tornasse uma amazona poderia acabar com todos os bandidos do Brasil e ninguém precisaria passar pelo susto que passei, mas com o passar do treinamento fui descobrindo que ser uma amazona era algo bem maior que isso.

            Jim colocou a mão no queixo.

- Mas e o Aiolos, o que você sente por ele?

            Helena ficou corada instantaneamente.

- O Aioros é uma referência, ele salvou Athena quando ela era só um bebê. Ele seria o grande mestre do Santuário se Saga não tivesse... Em fim, o Aiolos é um homem muito bonito sim, não vou negar, mas acho que nunca olharia para mim.

- Mas você queria que ele te olhasse, não queria?

- Eu sou só uma aprendiz e ele é quase um deus, Ji...

            Jim virou a amiga para que ela visse Aiolos no meio da arena. Ele estava testando seu arco de ouro numa pose completamente altiva. Seu olhar fixo para o alvo já era uma afirmação de que ele não erraria. Então veio o tiro que acertou bem no meio do alvo pintado de vermelho. O arqueiro deu um sorriso olhando para seu feito, e do outro lado, Helena sentiu como se aquele tiro fosse direto no seu coração.

            Ela se virou na mesma hora para olhar para Jim que sorria.

- É só admiração, Ji. Só admiração.

****

            Houve muita conversa na casa de Virgem sobre a missão na floresta da neblina. A procura pelo catálogo continuou, mas nada foi encontrado. Sem opções, o grande mestre Shion teve que ceder ao plano de Kanon. A relutância de Shaka também era vista com desconfiança. Shion havia concordado, Shina havia concordado, só faltava o santo de Virgem. Dele se encarregou a própria Jim, com ajuda de algumas lágrimas encantadas, ressalte-se. No fim Shaka acabou convencido, ou melhor, encurralado, pois não houve mais argumentos para a não participação da sua discípula na missão.

            Uma última reunião foi feita para acertar os últimos detalhes da missão. Era domingo, e passava do meio dia quanto terminou. A iluminação estava pronta, depois de mais 12 horas de trabalho. Agora era o som e o buffet que eram preparados. Seiya, Ikki, Hyoga, Aiolia e Dohko (o supervisor dos preparativos), não entendiam nada de instalação de mesa de som, mesmo assim arregaçaram as mangas para fazer tudo sozinhos. Era o atrapalhado estilo masculino do faça você mesmo e sem ajuda de técnicos ou manuais de instruções. Nem Athena teve forças para convencê-los do contrário.

            Do alto da escada, Jim viu Lucy quase engolida por uma mesa de arranjos de rosas. A gritou a sueca acenando.

- Veio ajudar na decoração também? – perguntou quando Jim se aproximou.

- Vim falar com o grande mestre antes do treino.

- Treino? Mas hoje é domingo, não me diga que vai treinar hoje...

- Sim... – disse fazendo cara de “fazer o que?” – Tenho que treinar dia e noite cosmo-telepatia para a missão.

- Mestre Afrodite me falou sobre essa missão. Disse que você era muito corajosa de ir aquela floresta.

- Às vezes somos obrigadas a ter coragem, Lucy. E você vai passar o dia aqui plantando rosas pelo templo?

- Esse não era o plano, mas acabou sendo. Vim com o mestre Afrodite checar a decoração agora estou com vontade de cometer um assassinato. Olha só o que fizeram com os arranjos do mestre Afrodite?

- Para mim parecem bons...

- Você chama isso bom? – apontou para um arranjo de rosas brancas – Estava perfeito até as servas botarem a mão! Elas conseguiram estragar tudo. Todas as rosas estão murchando...

- E o que tem isso, Lu? São flores e todas elas murcham com o tempo...

- Nada disso, Ji! – berrou interrompendo a amiga – Se as servas tivessem cuidado direito das rosas, se tivessem feito como o mestre Afrodite recomendou elas estariam perfeitas!

- Calma, Lu. Ainda tem muito tempo.

- Tudo o que eu queria era apertar os pescoços dessas servas sonsas...

            Lucy continuou reclamando enquanto era observada por Jim. Lembrou sem querer de como se conheceram. A partir daquele dia a amizade começou e hoje eram como irmãs.

            Depois de falar com o grande mestre e dele finalmente concordar com a sua participação na missão na floresta de repente passou por sua cabeça que poderia perder tudo aquilo. Se algo naquela missão desse errado ela estaria vendo aquele templo pela última vez, talvez nem visse a decoração pronta, pois a missão na floresta seria antes da festa.

            Pela primeira vez sentiu medo, mas não suficiente para fazê-la desistir da missão, pois participar dela era uma forma de vingança contra aquele que destruiu sua família cruelmente.

- Estava lembrando o meu primeiro dia no Santuário. Lu... – disse Jim abraçando a amiga – Você é a irmã que eu nunca tive. Eu te amo e nunca vou esquecer você, não importa o que aconteça...

- O que te deu para ficar tão nostálgica?

- Nada. Só queria que soubesse disso.

            Lucy pegou uma rosa vermelha de um dos arranjos e disse depois de aspirar o perfume:

- Vou conhecer o seu namorado misterioso na festa?

- Talvez.

- Ele vai levar você ou estará lá?

- Com certeza ele estará lá.

Jim se despediu e Lucy voltou para seu arranjo. Minutos depois viu Máscara entrar no templo. Até tentou ignorar a presença dele, mas para ela era impossível resistir ao olhar de mafioso que ele estava lhe dirigindo. Aproveitando que Afrodite tinha saído para dar mais instruções às servas, Máscara foi até sua interna preferida.

- Preciso falar com você.

- Agora não posso. – disse Lucy tentando dar atenção a seu arranjo.

            Máscara circundou a mesa e falou diretamente no ouvindo da sueca:

- Prefere que eu te arraste?

- Não... – ficou arrepiada com aquela proximidade – Não posso, preciso terminar esses arranjos...

- Vamos... – disse Máscara passando a mão na cintura dela ameaçando descer para o bumbum – É um assunto muito importante.

- Espero que seja importante mesmo.

            Olhou para Máscara apertando os lábios maliciosamente e juntos foram para um corredor deserto no segundo andar do templo. Assim que chegaram à metade do corredor, Máscara puxou Lucy pelo braço e jogou o corpo contra o dela até prensá-la na parede quase derrubando um quadro que estava pregado na mesma.

- Qual era o assunto? – disse Lucy fingindo interesse.

- Saudade...

            Mascara encarou os lábios vermelhos e brilhantes de Lucy por alguns segundos antes de atacá-los com a sua costumeira selvageria. Sem dar tempo para ela se mover ou respirar, até ser obrigado a interromper o beijo devido ao esperneio da jovem.

- Grosso, cruel. – sussurrou Lucy.    

- Como se você não gostasse...

            Uma mão do italiano entrou por baixo da blusa justa enquanto a outra continuou puxando os cabelos da sueca. Bagunçando-os, arrancando alguns fios. Tudo isso sob o som musical dos gemidos de Lucy.

- Mask... – ela gemeu puxando os cabelos da nuca dele – Gostoso, gostoso...

            A parede sofreu novamente. Desta vez o quadro caiu ao lado do casal que não deu a menor importância se estavam destruindo o Templo. Eles eram assim, tinham aquele fogo incontrolável. Bastava um olhar, um sussurro, um mínimo contato para causar uma erupção vulcânica de desejo.

            Beijaram-se lentamente enquanto Máscara abria a calça, só o suficiente para expor seu brinquedo. Completamente envolvida naquela erupção de desejo, Lucy se pendurou no pescoço de seu italiano, atacando com vontade seus lábios sem se dar conta que estava sendo despida.

            Depois de subir a blusa justa junto com o sutiã, Máscara arriou as calças da interna logo depois a calcinha rosa de rendas. Então Lucy acordou.

- Mask...

- Eu quero você agora...

            Sem avisar, levantou a perna dela e a penetrou de uma só vez. Lucy soltou um gritinho. Permaneceu imóvel enquanto ele a penetrava lento e profundamente, jogando o corpo musculoso contra o dela repedidas vezes. Era um pouco assustador, mas Lucy ficou hipnotizada. Máscara a hipnotizava, cada vez que a seduzia, a envolvia completamente naquele desejo violento, onde ela praticamente implorava para ser dominada todas as vezes. Lucy agarrou-se aos ombros largos dele, puxando a camisa com força para sentir a pele quente das costas. Segurou um grito de prazer quando ele a mordeu no pescoço, depois na orelha.

            A respiração barulhenta de Máscara a deixou mais molhada, seu corpo todo ficou molhado para ele. Voltaram a se beijar com selvageria. Então o som de algo se quebrando perto deles faz Máscara olhar para o lado. Havia um servo parado com expressão de assombro em frente a uma porção de cacos do que antes era um vazo de porcelana no meio do corredor.

- Figlio di una cagna... – disse Máscara fechando o zíper da calça. – De onde você saiu, infeliz?! – berrou indo em direção ao homem que tentava se explicar.

- Mask! – exclamou Lucy segurando o braço do cavaleiro – Ele é um servo da casa de Peixes...

            Máscara fez uma careta sabendo o que aquilo significava. No entanto, resolveu agir antes que Lucy enfartasse. Apontou para o servo lançando seu cosmo o fazendo desaparecer da frente deles.

- O que você fez?! – perguntou Lucy.

- O mandei para o mundo dos mortos.

- Você o que?! – exclamou pulando na frente do italiano.

- E você queria que deixasse o idiota contar tudo para o Afrodite?

- Também não precisava mandar ele para o mundo dos mortos!

            Máscara deu um sorriso malicioso diante da irritação da interna.

- Não precisa ficar tão nervosinha. Ele morre e nós estamos salvos. Que tal continuar de onde paramos...

- Nem pensar! – exclamou empurrando o cavaleiro – Por acaso você ficou maluco? Trás ele de volta já!

- Não vou fazer isso.

- Ah vai! Não pode atacar pessoas assim! Isso é crueldade! Trás o cara de volta já, Mask!

            Máscara levantou o dedo mostrando um sorriso cínico. Depois sussurrou direto no ouvido de Lucy:

- Sekishiki Meikai Há...

            Fumaçinhas saíram do dedo de Máscara e engoliram os dois, arrastando-os dolorosamente para o mundo dos mortos. Quando Lucy se viu onde estava deu um grito de pavor.

- Bem vinda ao meu salão de festas. – disse Máscara atrás dela.

            Lucy ficou alguns segundos em pânico olhando em volta, apavorada com a escuridão, o cheiro da morte e os gritos de agonia das almas que caminhavam em fila indiana para se atirar no Yomotsu. Jogou-se em cima de Máscara gritando.

- Para com esse escândalo, mulher! – ralhou o cavaleiro a segurando com força.

- Me tira daqui, Mask! – começou chorar – Esse lugar é horrível de mais para mim.

- Vai se acostumando, pois é aqui que eu treino os meus discípulos... – soltou-a para poder caminhar.

- O que?! – gritou Lucy.

            Máscara riu.

- Ta bom! Vou levar você de volta para o mundo dos vivos antes que mije nas calças.

            Ergueu novamente o dedo indicador para reverter o golpe. De volta ao corredor, Lucy sentiu-se tonta, teve que apoiar o corpo na parede para não cair.

- Onde está o servo que viu a gente?

- Por ai, não está mais no mundo dos mortos se faz tanta diferença para você. Eu só o mandei para lá para dar um susto nele.

            Lucy ficou chocada por alguns segundos, depois avançou em Máscara esmurrando seu peito e estapeando seus braços.

- Que merda é essa, garota? Ficou louca?! – berrou Máscara se protegendo como podia do ataque de fúria.

- Devia estar louca quando olhei para um cara cruel e sem coração como você que acha que pode brincar com a vida das pessoas!

            Deu um forte empurrão jogando o cavaleiro de Câncer contra a parede, e se precipitou para sair do corredor, mas Máscara conseguiu alcançá-la.

- Só fiz aquilo para proteger a gente! Por que você fica com essa frescura de esconder nosso namoro do Afrodite! – berrou segurando o braço da interna.

- Fez por que é um idiota, um imbecil, um babaca! Arranjou o pior jeito de resolver as coisas, atacando um pobre coitado sem motivo! Nem parece um santo de Athena...

            Máscara deu uma risada debochada.

- “Santo de Athena” como o Afrodite?

- Sim! – exclamou ficando vermelha de raiva.

- O Afrodite que eu conheçi não teria tomado uma atitude tão diferente da que eu tomei...

            Lucy desvencilhou-se de Máscara e olhou-o com raiva:

- Pode até ser, mas ele é uma pessoa melhor do que você com certeza... – Máscara tentou segurá-la novamente, mas Lucy deu-lhe novo empurrão usando de uma força e raiva nunca antes vista pelo canceriano - Nunca mais se aproxime de mim!

            E saiu do corredor com passos firmes segurando com todas as suas forças o choro e a vontade de olhar para trás.

***

            Passava das dezenove quando os cavaleiros partiram para a missão. Tinha que ser à noite, pois foi quando Máscara percebeu o cosmo invasor. Shaka, Mu, Milo, Camus, Saga, Máscara da Morte, Dohko e Jim formavam o grupo escolhido por Shion, o restante dos cavaleiros ficou nas doze casas para proteger o Santuário.

Kanon não gostou de ter que ficar para proteger a casa de Gêmeos. Antes de Saga sair houve uma clássica briga de irmãos. Briga esta que se estendeu até o último momento da partida.

- Ainda não entendi por que tenho que ficar na casa de Gêmeos. – disse Kanon andando atrás de Saga - Eu fui o mentor do plano, eu articulei praticamente tudo! Eu deveria ir aquela floresta...

- Ordens do grande mestre, Kanon. Apenas cumpra... – disse Saga de olhos fechados caminhando segurando seu elmo.

            Kanon acelerou o passo e parou em frente a Saga que foi obrigado a parar também.

- Não me venha com essa! – apontou o dedo na cara do irmão – Isso é coisa do Shaka. A Barbie de armadura vetou a minha presença, acertei?

            Saga olhou seriamente para o irmão antes de responder.

- O Shaka achou que seria mais prudente eu ir por causa da minha boa relação com a Jim...

- “Sua boa relação com a Jim...” – repetiu imitando a voz do irmão – Espera que acredite nisso? Aposto que o projeto de Buda disse para Shion que só permitia que a Jim fosse se eu não participasse da missão.

- Não seria de se estranhar depois de tudo o que você fez. Você não parou de perseguir essa moça desde que ela chegou aqui no Santuário. Agora pare de espernear e volte para a casa de Gêmeos. Você é um cavaleiro de Athena também, cumpra suas obrigações. – e deu as costas para descer as escadas.

Kanon ainda gritou “gentilezas” para o irmão que continuou descendo sem lhe dar ouvidos.

**

            Perto da entrada da Casa de Áries, Shaka pediu para sua discípula esperar.

- Quer mesmo fazer isso? – perguntou segurando o braço dela.

- Não se preocupe, treinamos todos esses dias, sei exatamente o que fazer... – e sorriu para passar confiança ao virginiano.

- Cuidado com o que for falar pelo cosmo. Também quero que prometa não fazer nada por conta própria.

- Prometido – disse passando os braços pelo ombro de Shaka. Teve que ficar na ponta dos pés para isso.

Beijou os lábios de Shaka com suavidade. Passaram algum tempo abraçados embaixo da entrada da casa de Áries. Quando se soltaram a preocupação do loiro havia passado um pouco. Soltaram as mãos quando saíram da primeira casa. Já no caminho de acesso, viram os outros cavaleiros. Após a rápida saudação, Mu usou teletransporte para levar todo mundo para o local da missão. Apareceram de frente para a floresta da neblina, no alto de um monte onde se podia ter uma visão panorâmica da área. A noite estava clara, com um céu noturno quase sem nuvens e cheio de estrelas rodeando a lua cheia.

            Máscara apontou para o vale.

- Estão vendo a neblina escura que está se formando na parte baixa? – indagou Câncer.

- Sim... – disse Camus – A temperatura do ar também está caindo. Essa variação de temperatura normalmente não ocorre nessa época do ano...

- Alguém não gosta de calor... – disse Milo. – Por isso está resfriando a floresta.

- Já sabem que estamos aqui. – disse Shaka chamando atenção do grupo. – Senti uma leve pulsação de cosmos vindo da floresta.

- Cosmos? – perguntou Saga com uma sobrancelha levantada.

- Sim. São de fato distintos e muito bem ocultados, só pude sentir a pulsação por alguns segundos. Com certeza há mais de um guerreiro a nossa espera.

- Cautela cavaleiros. Sem precipitações, entendido? – pediu Dohko.

            Todos se olharam sabendo que o inimigo estava ali bem escondido esperando por eles, por isso mandou aquele sinal, prevendo que Shaka captaria. Um sinal que claramente dizia: “Estou dando uma festa, e vocês são meus convidados especiais.”

            Teletransportaram-se mais uma vez reaparecendo em frente à floresta. O grupo maior formado por Mu, Jim, Saga, Milo, Camus e Máscara da Morte entraram ao mesmo tempo na área, desaparecendo em meio à vegetação e a neblina escura. Dohko e Shaka ficaram na entrada.

            A missão consistia em fazer um cerco na floresta. Shaka ficaria de fora para usar sua principal arma, a meditação, para detectar o cosmo invasor e se comunicar por cosmo telepatia com sua discípula. Dohko ficaria para dar cobertura a Shaka. Jim entraria junto com os outros cavaleiros, permanecendo ao lado de Mu e Saga. Se nada fosse encontrado durante as primeiras duas horas o grupo se separaria. Milo, Camus e Máscara iriam para o oeste. Jim, Saga e Mu seguiriam para o norte.

            Os dois grupos circulariam pela floresta durante mais duas horas. Se nesse espaço de tempo o inimigo continuasse desaparecido, haveria outra separação. Essa era a hora mais crítica, pois Jim ficaria sozinha.

            Não totalmente sozinha, pois Shaka, Mu e Saga permaneceriam monitorando seu cosmo. E ela teria que falar constantemente com Shaka sobre tudo o que visse ou sentisse. O menor sinal de cosmo maligno perto dela, Mu se teletransportaria para ajudar, assim como todos os outros cavaleiros deveriam correr para onde ela estivesse.

            Com tantos cavaleiros cercando a floresta, esperava-se que o inimigo se atrapalhasse na ocultação o que facilitaria o trabalho de Shaka que estava meditando só para encontrá-lo. Por todos os pontos a floresta ficaria cercada, e como Shaka e Dohko vigiavam a única entrada, pois ao norte as montanhas cercavam tudo, o inimigo também seria capturado se tentasse sair.  

            Logo nos primeiros metros caminhados mata à dentro, Jim percebeu que a missão não seria nada fácil. Mesmo com céu claro a floresta estava mergulhada quase na escuridão total. A mata fechada e a neblina sinistra deixava tudo muito sombrio, tampando até a visão de curto espaço. Literalmente o grupo não podia enxergar um palmo à frente do nariz.

            Saga e Mu andavam mais a frente olhando para os lados a todo momento.

- Essa neblina é realmente muito estranha. – disse Saga olhando para a própria mão coberta de fumaça

- Só está aqui para dificultar a nossa procura e nos desorientar. Tomem cuidado, cavaleiros... – disse Mú.

            Máscara da Morte era uma espécie de guia, ele andava na frente de todos tendo Milo ao seu lado. Deu um golpe para dissipar a neblina do caminho, mas esta voltou a ocupar o espaço logo em seguida.

- Está pior do que das outras vezes. – disse olhando para o punho.

****

No Templo de Athena, Shion olhava para as montanhas a oeste da maior sacada do Templo imaginando o que estaria acontecendo na floresta. Quase duas horas havia se passado e nenhum sinal fora mandado. Tocou a sacada dando um suspiro longo que mostrava toda sua preocupação. Fechou os olhos sentindo o agradável vendo noturno que soprava seus longos cabelos verdes. A noite estava naturalmente bela, mas terrivelmente pesada para ele.

            Abriu os olhos assim que sentiu a presença de Athena ao seu lado.

- Como estão as coisas por lá, grande mestre? – perguntou Athena.

- Sem mudanças.

            Ficaram os dois em silêncio observando o horizonte. Daquela distância não era possível ver a floresta. Saori olhou para Shion algumas vezes que não retribuiu o olhar.

- Shion... – disse Saori depois de pousar as mãos na varanda – Eu sei que foi contra a participação dela nesta missão, mas eu tenho certeza que ela está em boas mãos. Os cavaleiros vão protegê-la.

- Athena... – disse Shion franzindo sua testa.

- Confie nos cavaleiros, grande mestre. Shaka a trará de volta em segurança. Nada de mal vai acontecer a ela.

            O lemuriano sustentou seu olhar no rosto da deusa entendendo aquele gesto de carinho. Athena saiu de seus aposentos só para tranquilizá-lo. Nem mesmo ele entendia por que estava tão preocupado. Baixou a cabeça em sinal de agradecimento.

- A Jim tem muita sorte de ter a sua proteção. Certa vez me disse que se sente ligado a ela de alguma forma... – Athena olhou firme para os olhos violeta de Shion – Tem alguma possibilidade dela ser sua descendente? Era isso que estava pesquisando nos arquivos secretos do Santuário?

            Shion ficou mudo diante daquela observação perspicaz da jovem deusa. Nunca havia comentado com ninguém sobre a verdadeira suspeita que o levou a checar os antigos registros.

- Nada foi confirmado. Pelo menos eu não encontrei nada sobre isso nos arquivos secretos. Chequei minuciosamente a minha árvore genealógica, mas...

- Acha que pode haver alguma pista no catálogo perdido?

- Acredito que o catálogo só contenha informações sobre o inimigo. Seria impossível um livro tão antigo conter alguma informação sobre alguém tão jovem como a Jim.

- Entendo... – disse Athena com a mão no queixo – Mesmo tendo certeza que ela não é sua descendente ainda se sente ligado a ela. E agora não consegue lidar com a preocupação por ter permitido que ela fosse à missão junto com os cavaleiros. Não ignore seus sentimentos, Shion. Escute seu coração. Quem sabe ele esteja querendo lhe dizer que a Jim é sim sua descendente? Mesmo os livros dizendo que não.

            Sorriu e voltou a olhar para o horizonte enquanto Shion continuava pensando naquelas possibilidades, que vindas de uma deusa pareciam verdades, mas mesmo assim, ainda não passavam de possibilidades.

***

Na floresta, a situação não mudava. Os cavaleiros só encontravam pela frente neblina, escuridão, a floresta perigosa, mas nenhum sinal do inimigo. Separaram-se, conforme o combinado. Mu, Saga e Jim foram para o norte em direção as montanhas mais altas; Camus, Milo e Máscara da Morte seguiram para o oeste.

- Está ficando mais frio ou é impressão minha? – perguntou Jim.

- Estamos indo para a parte mais alta da floresta, por isso a temperatura está caindo. – disse Saga caminhado na frente.

            Mu abraçou os ombros de Jim, mantendo o corpo da jovem colado ao seu para aquecê-la um pouco através do contato com sua armadura.

- Está melhor agora? – perguntou olhando para ela.

- Sim.

- Está conseguindo falar com o Shaka?

- Praticamente a cada cinco minutos ele me manda uma mensagem via cosmo-telepatia. Como ele consegue se comunicar tão bem mesmo estando tão longe?

- É tudo culpa da meditação. O Shaka é um especialista em comunicação via cosmo energia e telepatia. Não há distância para o cosmo do homem mais próximo de deus... – disse Mu com um tom de voz divertido e ameaçador que arrancou risadas da jovem.

- Mas eu ainda não tenho uma antena de celular na minha cabeça. Está cada vez mais difícil responde-lo por conta da distância, poderia dizer a ele...

- Pode deixar o Shaka comigo. Sempre consigo acalmá-lo. – e deu uma piscadinha para Jim antes de mandar a mensagem telepática.

            De repente Saga parau de andar, colocando o braço na frente de Jim.

- O que foi Saga? – perguntou Mu.

- Senti um cosmo se movimentando muito rápido não muito longe daqui.

- É o invasor? – perguntou Jim.

- Não. É um cosmo conhecido. Acho que o Milo vai ter uma surpresa...

****

Depois de andar por horas, Milo, Camus e Máscara da Morte pararam para fazer contato com o outro grupo.

- Parece que o infeliz só vai aparecer quando ela ficar sozinha. Se tivéssemos jogado ela aqui sozinha antes já teríamos achado o inimigo, mas o Shaka não aceita que coloquem a preciosa discípula dele em perigo... – reclamou Máscara.

- Acho que ele está nos observando enquanto espera o momento certo para atacar como da outra vez... Droga! – disse Milo – Acho que pisei em bosta ou coisa parecida...

- É lama, entramos em um pântano. Não percebemos antes por conta da neblina. – explicou Camus.

- Odeio essa neblina! – exclamou Milo.

            De repente um vulto passa a toda velocidade atrás deles. Os três cavaleiros ficaram alertas. Então viram uma sombra correr entre as árvores e avançar na direção deles. Segundos precederam o bote... Os três cavaleiros de ouro saltaram cada um para direções opostas escapando assim de serem atingidos. Então Milo gritou:

- Esperem!

            Camus e Máscara da Morte olharam para o grego surpresos, o italiano já com o dedo em riste para lançar seu golpe ondas do inferno.

- Não é quem estão pensando. – falo Milo.

            O vulto avançou novamente parando no meio dos três. Shina. A amazona de Ofiúco levantou a cabeça e lançou um olhar vazio para o cavaleiro e Escorpião. Tinha muita neblina em volta dela.

- Por que a sua ex está aqui, Milo? – perguntou Máscara.

- Para vigiar a sua pupila. Shina nega até o fim, mas no fundo se importa com seus aprendizes. Aposto que ela vai xingar o grande mestre agora por não tê-la incluído na missão...

            Os três olharam para a amazona esperando uma resposta, mas Shina não se moveu.

- Ela está diferente. – disse Milo dando um passo à frente. – Cuidado amigos...

            Os três viram o cosmo de Shina se elevar muito rápido, em seguida ela ficou em posição de ataque. Máscara tentou imobilizá-la, mas acabou atingido por um chute certeiro no rosto. Antes do italiano cair Shina já tinha golpeado Camus com suas garras. Milo foi atacado por último. Esperou ela vir para segurar o pulso dela, optando por receber todo o impacto do golpe. Olhou para o rosto de sua ex e teve certeza de suas suspeitas. Os olhos de Shina estavam vítreos e completamente vazios. Suas mãos tremiam a cada movimento que ela fazia. Ela estava sem controle nenhum sobre seus atos.

- Que diabos ela tem?! Por que está nos atacando? – perguntou Máscara ao se levantar.

- Está sendo controlada pelo inimigo...

            Antes de Milo terminar a frase, Shina dá um salto para trás. Volta a concentrar seu cosmo preparando seu ataque mais poderoso.

- Isso significa que ele está perto de nós? – perguntou Camus ao lado de Milo.

- Ele controla as mentes de longe. Sei bem do que se trata por que já fui vitima. – disse Milo odiando ver Shina naquela situação.

Máscara e Camus estavam prontos para lutar, mas tinha de deter seus golpes para não machucar Shina. Sabiam que ela não tinha passado para o lado inimigo, apenas estava sendo usada.

Viram Shina saltar espalhando seu como em volta deles como uma enorme cobra preparando-se para dar seu abraço mortal. Ela veio com tudo, se Camus e Máscara não tivessem a velocidade da luz teriam sido atingidos gravemente. Novamente Milo recebeu todo o impacto. As garras de Shina cravaram-se no peitoral da armadura de Escorpião. Se não fosse pela proteção de ouro, Milo teria seu coração perfurado.

Aproveitando-se da proximidade, Milo segura o braço de Shina e o contorce. Depois de conseguir imobilizá-la, grita para os companheiros:

- Saiam daqui. Eu cuido dela!

- Milo, você tem certeza? – pergunta Camus.

- Alcanço vocês depois. – responde em seguida contorce o outro braço de Shina a fazendo soltar um grito de dor e raiva monstruoso - Vão logo! Não vou consegui segura-la por muito tempo.

            Máscara corre em direção ao pântano primeiro entendendo as intenções de Milo. Antes de seguir o companheiro, Camus avisa:

- Estamos esperando por vocês do outro lado do pântano. – e corre a toda velocidade sumindo entre os arbustos.

            Usando sua enorme força a amazona se inclina para frente jogando Milo de suas costas. O cavaleiro bate as costas violentamente contra uma árvore depois cai no chão de cabeça para baixo perdendo com a queda seu elmo.

            Antes do adversário se erguer, Shina salta em cima dele novamente queimando seu cosmo para lançar as garras do trovão. Nesse momento os olhos verdes da amazona encontram os azuis penetrantes de Milo. Shina ergue a garra segundo a vontade de Hanzo que tomava conta da sua mente impiedosamente durante aquela luta.

- Eu sei que você não quer fazer isso. – disse Milo deitado.

            Milo permanece imóvel sob o corpo da marionete. Shina ataca, mas a mão dela para a milímetros do rosto de Milo. Os dedos tremiam.

- Shina! – gritou tentando fazê-la acordar – Sei que pode me ouvir. Tem que lutar contra ele. É o único jeito. Resista!

            O punho da amazona se fecha diante dos olhos de Milo. Em seguida ela leva as mãos a cabeça soltando um grito de agonia para fazer seu cosmo queimar. Ouvia a voz de Milo alta e clara e naquele momento estava lutando contra a influência de Hanzo com todas as suas forças. Podia ver os olhos azuis de brilho lunar absorvendo sua mente e sua vontade. Uma voz tranquila e sombria sussurrava incessantemente em seus ouvidos: “mate-o, mate-o...”

- Resista, Shina! – gritou mais uma vez Milo.

            Então houve uma explosão violenta de cosmo. Até a neblina se dissipou com a onda de choque, mas voltou a cobrir todo o espaço em poucos segundos. Shina soltou um gemido baixo e desmaiou em cima do cavaleiro de Escorpião, completamente exausta, mas livre.

- Eu sabia que conseguiria, raio de Sol... – disse Milo antes de abraça-la.

            Assim que recobra os sentidos, Shina levanta rapidamente permanecendo sentada sobre a cintura de Milo.

- Está tudo bem? – pergunta Milo esticando a mão para tocar o rosto da ex.

- Agora está... Ai – fez uma careta e depois olha assustada para as marcas no peitoral da armadura de Milo – Seu louco! Por que não fugiu do golpe ou se defendeu?

- Não se preocupe, são só alguns buracos na armadura. O Mu dá um jeito depois. Eu sabia que você não queria me atacar. – passou a mão na coxa de Shina.

- Nem pense nisso, Escorpião!

- É um pouco difícil não pensar com você em cima de mim desse jeito...

            Shina levantou e soltou um grunhindo.

- Nem ferido você deixa de ser abusado, não é?

            Milo levantou, sorrindo aliviado.

- E você pode me dizer o que veio fazer aqui?

- Eu segui vocês. Queria ver de perto o que aquela fedelha ia fazer. Não confio na supervisão do Shaka e do Mu. Eles são muito moles com ela. Também não fiquei satisfeita do grande mestre não ter me incluído nessa missão, afinal eu sou a mestra responsável pela Jim.

            Milo foi calmamente pegar seu elmo. Assim que colocou na cabeça, indagou:

- Então você entrou na floresta e o inimigo se apossou da sua mente, mandando você atacar o grupo?

- Como adivinhou?

- Ele fez a mesma coisa comigo. Mas ele atacou você? Conseguiu ver alguma coisa?

- Não. A ação foi rápida demais. No mesmo instante em que percebi um cosmo maligno perto de mim, perdi o controle sobre a minha mente.

- Esse miserável ainda está brincando com a gente. – disse Milo olhando sério para o pântano. – Deve estar por ai ocultando seu cosmo, mas não vai conseguir se esconder de nós por muito tempo. Uma hora ele vai ter que aparecer.

****

O cerco a floresta da neblina entrou em sua quarta hora. O grupo realizou a segunda separação. Cada um tinha que explorar sozinho de agora em diante. A neblina havia clareado, agora estava esbranquiçada. Ainda continuava frio. Compridas nuvens geladas saiam das bocas dos defensores de Athena cada vez que eles respiravam.

            A apreensão era grande, pois havia uma aprendiz sozinha perambulando por aquela floresta perigosa a mercê de um ataque. Contudo toda a atmosfera de terror e escuridão havia ido embora com a chegada da madrugada. A floresta respirava o ar gelado das primeiras horas do dia parecendo estranhamente natural, como se o inimigo nunca tivesse passado por ali.

            Jim andava lentamente por entre as árvores, afastando os grossos cipós com o braço para conseguir passar. Segurava sua lanterna apontando a luz para todos os cantos. Começava a sentir os efeitos do cansaço. Sentia dores pelo corpo e muita sonolência.

Ela havia treinado com Shaka durante as últimas noites para aquele momento. Seu mestre usou ilusões para fazê-la se acostumar com a noite escura, querendo deixar Jim física e mentalmente preparada para aquele crucial momento onde ficaria sozinha.

Treinaram também comunicação via cosmo telepatia.

- “Está cansada?” – perguntou Shaka pelo cosmo.

- “Muito.” – respondeu.

- “Descanse um pouco.”

- “Acho que posso continuar.”

- “Jim...”

- “Ta bom!”

            Sentou-se em cima de uma rocha esticando as pernas.

- “O cansaço dificulta a sua concentração, consequentemente a nossa comunicação.” – disse Shaka.

- “Eu sei, mestre...” – gemeu apertando o ombro dolorido – “Mas eu queria continuar. Não quero que essa missão seja em vão. Preciso continuar. Só vou parar quando chegar ao limite das minhas forças.”

- “Entendo... Como está se sentindo, fora o cansaço?”

- “Normal. Não senti nenhuma presença, nem cosmo, nem ouvi nada estranho, nem vi nada. Os outros tiveram mais sorte?”

- “Até agora não. Sua mestra está aqui também.”

- “Shina está aqui?! Por que causa, motivo, razão, circunstância...”

- “Acalme-se, ela veio para ajudar e para te proteger também...”

            A ligação entre mestre e discípula era tão forte que cada vez que Shaka falava usando seu cosmo, era como se estivessem lado a lado.  

- “Vamos fazer o exercício de busca de novo. Concentre-se mais uma vez nos cosmos a sua volta.” – pediu Shaka.

            A jovem fechou os olhos, respirando fundo, buscando no silêncio de sua mente os cosmos dos outros cavaleiros de ouro. Viu com os olhos do cosmo, Shaka meditando em frente a floresta. Depois sentiu o cosmo de Mu se movimentando, por último o de Saga, distante alguns quilômetros dela.

- “Não consigo sentir o cosmo do Milo e do Máscara.” – disse apertando os olhos. – O cosmo do Camus está fraco.”

- “Eles estão ocultando os seus cosmos para poder vigiar o ambiente melhor. Quero que se concentre mais um pouco...”

- “Nada, não consigo sentir nada de anormal ao meu redor, mestre.“ – falou depois de alguns minutos.

            Levantou e pegou sua lanterna para continuar a caminhada. Olhou ao redor e percebeu que estava em um ponto ainda mais alto da floresta. O vento soprava mais forte por conta da altitude. Caminhou alguns metros e viu a luz da sua lanterna se apagar. As pilhas haviam ido embora.

            Parou de andar e coçou a cabeça soltando um bufar de irritação. Ainda não havia clareado o bastante para ela não precisar da lanterna. Sem ter outra opção, continuou andando no escuro, ou melhor subindo. Olhou para os lados e teve a impressão de já ter passado por uma árvore grossa que crescia cheia de raízes contorcidas por cima das rochas. Teria ela se perdido no meio daquela floresta? Ou estava andando em círculos?

            Perguntou-se se os cavaleiros também estariam perdidos ou andando em círculos como ela. Mesmo assim não sentiu medo de imediato, pois, sabia se teletransportar para onde quisesse. Na pior das hipóteses ela chamaria Mu pelo cosmo e ele apareceria para resgatá-la.

            A neblina voltou a se adensar. Repentinamente toda a atmosfera sombria voltou a reinar no ambiente. As árvores ganharam aspectos terríveis, com seus galhos contorcidos como se urrassem de dor. Os sons ficaram fugidios, sombras estranhas se projetavam por toda parte. Sombras que pareciam que iam ganhar vida e atacá-la a qualquer momento. Até a neblina parecia se mover de modo a criar figuras ameaçadoras. Lembravam fantasmas ou rostos congelados em expressões de agonia e desespero.

- “Mestre...” – chamou Jim usando seu cosmo.

            Ele não respondeu. Então Jim chamou de novo e de novo.

- “Estou aqui.”

- “Quer me matar de susto?! Não demore tanto para responder. Esqueceu que estou sozinha aqui?”

- Você não está sozinha, Jim. Eu sempre estarei com você.”

            Jim respirou aliviada depois de ouvir aquela frase mágica.

- “O que está acontecendo?”

- “Minha lanterna quebrou e eu fiquei com um pouco de medo, mas já passou.”

- “Tem certeza?”

- “Sim.”

            Voltou a caminhar. No terceiro passo ouviu um barulho às suas costas que a fez estancar. O barulho de algo se movendo e folhas foi ouvido de novo, desta vez mais perto. Jim colocou a lanterna no bolso do casado e se virou lentamente na direção do ruído. Deu mais dois passos soltando fumaça cada vez que respirava, o coração batendo rápido dentro do peito.

- “Mestre, acho que tem alguma coisa aqui...”

            Afastou uma cortina de cipós marrons e ouviu de novo o ruído. Era pequeno e corria entre aos arbustos com pressa...

- “O que Jim? diga o que está vendo?” – perguntou Shaka incisivamente. Ao seu lado Dohko se levantou começando a usar seu poder telepático para contatar Mu.

- “É um...” – aproximou-se lentamente para ver melhor e não espantar a criatura esquecendo-se de continuar se concentrando para não cortar a conversa com o mestre – Coelho... um coelho branco... – sussurrou.

            O coelho branco correu mais rápido e depois parou. Virou-se para olhar para Jim, em seguida movimentou seu focinho. Era grande, gordo e muito peludo. Um coelho típico de regiões frias, com grandes patas traseiras e tufos de pelos saindo de suas orelhas pontudas.

- É apenas um coelho branco... – sussurrou novamente.

            Tanto barulho por nada, pensou Jim. O coelho precipitou-se por entre os arbustos, correndo rápido e graciosamente por uma espécie de trilha que surgia no meio da neblina. Trilha esta que Jim não havia percebido antes. O que quer que seja formou-se naquele instante e bem diante dos seus olhos.

            Jim afastou um grande arbusto para ver melhor para onde o coelho ia. Estava hipnotizada com aquela aparição inesperada. O coelho parou novamente sua corrida e virou a cabeça para olhar para ela como um doce chamado para segui-lo.

- “Jim? responda!” – a voz do cosmo de Shaka soou mais alta.

            Passaram mais alguns segundos em que a jovem permaneceu parada observando a corrida do coelho. Até o animal desaparecer completamente como se tivesse sido tragado pela neblina. Uma rápida rajada de vento levou seus cabelos castanhos para frente de seus olhos. Então algo sombrio sussurrou em seu ouvido.

“Irmã”

            Depois do sussurro ela não ouviu mais nada. Nem o som do vento, nem os sons da noite. No fim do caminho onde o coelho branco havia desaparecido surgiu a figura de um homem. Ele estava de costas e virou lentamente seu rosto na direção da interna. Mesmo naquela distância, Jim pode perceber que ele sorria.

            Deu alguns passos na direção da aparição. Uma aparição em todos os sentidos, pois o homem parecia fazer parte da neblina. Ainda estava surda para o mundo a sua volta. Nada mais importava, só aquele homem no fundo da floresta. Aquela figura sinistra e sorridente que parecia ganhar cores vivas à medida que ela se aproximava. Os detalhes surgiam conforme a distância entre eles diminuía. Ele era alto e sua pele muito alva contrastava com a escuridão de suas vestes e de seus cabelos.

            De repente ouviu mais um sussurro no mesmo instante que toda a neblina em volta dela desapareceu formando um novo caminho onde o homem de negro estava no final dele. Finalmente ouviu a voz de Shaka falando diretamente com seu cosmo. De tanto prestar atenção no homem de negro. Não conseguiu entender direito o que ele falava, só conseguindo decifrar a última frase:

- “... O que está acontecendo?!”

            Jim encarou o homem de negro seriamente. Ela sabia exatamente quem ele era. Em milésimos de segundos sua mente começou a trabalhar nas hipóteses: contar a Shaka ou se calar? Salvação ou vingança? Redenção ou morte? Qualquer decisão tinha que ser tomada rápido. Soltou o ar dos pulmões e respondeu Shaka:

- “Não é nada, mestre. Eu me assustei a toa, era apenas um coelho...” – respondeu friamente.

            O homem de negro sorriu mais uma vez para ela. Um sorriso um pouco mais aberto desta vez, parecendo concordar com aquela resposta. Em seguida se movimentou como a fumaça e apareceu mais distante.

- “Coelho?”

- “Sim mestre, um coelho branco...” – e continuou andando para perto do inimigo.

            A cada passo que ela dava, o fantasma se movimentava para longe. Do lado de fora da floresta Shaka não conseguia entender o porquê daquele comportamento estranho. O cosmo de sua discípula estava estável e sem o menor sinal de perturbação, nem ele sentia a presença do inimigo na floresta, mas algo dentre dele gritou quando ouviu coelho branco.

            Shaka concentrou mais seu poder para tentar achar algum cosmo oculto:

- “Está sentindo alguma coisa, Jim?”

- “Não.” – agora ela estava perto suficiente do fantasma.

- “O que está vendo, Jim?” – insistiu Shaka.

- “Eu não vejo nada, mestre.” – disse calmamente pelo cosmo enquanto caminhava pela trilha que levava até o inimigo – Achei você desgraçado... – sussurrou encarando-o.

            Ela sentia seu cosmo maligno tão perto como uma mão fria tocando sua pele. As mesmas sensações do dia do ataque nas ruínas voltaram com tudo, mas desta vez, Jim não sentiu medo. Ela esperou por aquele encontro, por isso não disse nada a Shaka. Queria enfrentá-lo sozinha, queria se vingar por sua família.

            Sem tirar os olhos do inimigo, começou a correr. Mais uma vez ele se movimentou rápido como um fantasma, Jim continuou correndo, correu o mais rápido que pode. A raiva a fez esquecer o cansaço. O inimigo desapareceu outra vez no meio da neblina e Jim se teletransportou, pois depois de tanto ver ele flutuando aprendeu a calcular a distância, portanto sabia onde ele ia reaparecer.

            Então uma luz arroxeada tomou conta do que antes era o final da trilha engolindo a ambos.

- O coelho é uma ilusão! – disse Shaka de olhos abertos.

            Tarde de mais. O cosmo de Jim já havia desaparecido.

****

            Todos os cavaleiros presentes na floresta perceberam o desaparecimento do cosmo da aprendiz. A neblina voltou a escurecer atrapalhando a visão e dificultado a orientação. O cosmo do inimigo não deu nenhum sinal, mesmo assim ninguém duvidava que ele estava lá no meio daquelas árvores e daquela cerração sinistra.

            Os cavaleiros corriam pela floresta sem conseguir ver nada além de árvores, fumaça negra e escuridão. O dia estava amanhecendo, mas não era o que parecia, pois o espaço estava todo tingido de negro como se fosse noite.

            Camus se encontrava mais distante, num ponto localizado no extremo oeste da floresta. Assim que sentiu o desaparecimento do cosmo de Jim, sentiu também o ar esfriar abruptamente. Em segundos todas as plantas ao redor dele estavam congeladas. Fechou os olhos. Sabia perfeitamente de quem era aquele cosmo.

- Estava procurando por mim, mestre? – perguntou Isaak do alto de uma rocha.

            Camus continuou em silêncio. Desde que ficara sozinho sentira uma sombra familiar a lhe perseguir. Só um cavaleiro de gelo seria capaz de sentir aquela mínima variação de temperatura causada pelo poder de outro guerreiro de gelo. Isaak podia se esconder dos outros, mas dele nunca.

            Isaak saltou posicionando-se atrás de Camus. O ar em volta deles ficou mais frio.

- Por que resolveu aparecer só agora, Isaak? – perguntou Camus ainda de olhos fechados.

- Precisávamos desse momento a sós, mestre... – disse Isaak usando notas de ironia ao pronunciar a palavra mestre.

            Camus se virou para olhar o rosto do ex-discípulo.  Havia ressentimento e raiva naquele olhar. Até a escama de general marina estava diferente, parecia ter ganhado um brilho sombrio semelhante ao estado atual do cosmo de Isaak, que por sua vez combinava perfeitamente com aquela floresta sinistra.

            Isaak deu um passo à frente disparando contra Camus um olhar forte e impiedoso tão implacável como uma arma apontada para sua testa. Realmente ele não era mais o mesmo. Estava muito mais poderoso, poderoso de uma forma que Camus não sabia dizer o quanto, como se o próprio não quisesse demonstrar o quanto estava forte.

            A única coisa que parecia não ter sofrido mudanças profundas era o rosto do ex general de Poseidon, este ainda exibia as feições das quais Camus havia marcado em sua memória junto com a doce época que o treinava na Sibéria junto com Hyoga. O rosto do jovem que treinava duro para ser um cavaleiro ainda estava lá quase intacto. Quem sabe ainda pudesse ser salvo.

- Isaak, eu sabia que você precisava de mim. – falou Camus.

- De fato eu precisei. Há muito tempo atrás, mas hoje como pode ver estou muito bem. Aprendi aquilo que você nunca seria capaz de ensinar.

- Então realmente passou para o lado inimigo?

Só Camus sábia o quanto estava sendo doloroso dizer aquelas palavras. Seus companheiros suspeitavam, mas ninguém teve coragem de lhe dizer diretamente. No fundo ele era o único que não acreditava nas suspeitas de Shion, não queria acreditar na verdade. Mas a realidade era dura e se pintava bem na sua frente em cores berrantes. Ele havia perdido Isaak e se perguntava se aquela traição a Poseidon, a Athena e a humanidade podia ser um pouco culpa dele também, afinal ele foi o seu primeiro mentor, aquele que o ensinou as primeiras lições de luta. Teria errado em algum momento?

            A resposta de Isaak veio através da queima de seu cosmo. Seu novo cosmo. Um cosmo cheio de ressentimento, sedento por vingança e morte. Não. Não era mais o seu discípulo, mas ele se sentia na obrigação de tentar socorrê-lo.

- Não me olhe como se se importasse, Camus! – gritou Isaak - Você me abandonou há anos atrás... – fechou o punho – Agora me olha como se quisesse ou pudesse me ajudar.

- É o meu dever te ajudar. Preciso te tirar desse caminho antes que seja tarde...

            Isaak saltou para trás e abriu os braços para elevar o seu cosmo preparando seu ataque.

- É tarde demais!

            Camus teve que se proteger com o braço na frente do rosto por conta da força esmagadora do cosmo de Isaak. Naquele curto espaço de tempo que precedeu o ataque, Camus pensou apenas em Isaak. Procurando a todo custo entender os motivos que levaram aquela revolta, aquela traição, a toda aquela loucura. Vendo a expressão impiedosa e toda a raiva vinda daquela energia absurda, Camus entendeu. Isaak voltou-se contra ele para ficar mais forte, ele queria poder, seu rosto transmitia essa sede. O motivo era ele, a culpa era dele.

- Explosão Boreal! – exclamou Isaak no momento em que enviou seu ataque.

            Toda a energia explodiu na direção do cavaleiro de Aquário com a força de uma onda gigantesca. Camus se sentiu imerso em um oceano profundo, sendo carregado pelo lendário Kraken em alto mar. Tudo ao redor deles se despedaçou, as árvores congeladas viraram pó. Camus olhava com profunda tristeza para seu oponente. Repetia em sua mente que se tivesse voltado a Sibéria e não deixado seus discípulos sozinhos Isaak não teria se ferido e não teria ido parar no reino de Poseidon. Se ele tivesse sido mais atencioso, se tivesse o procurado depois que ressuscitou, se o tivesse apoiado naquela hora difícil de reconstrução das vidas. Sentia-se em falta com seu amado discípulo. Ele mais do que ninguém devia tê-lo ensinado e o protegido. Ele, Camus de Aquário, seu mestre.

            Camus fechou os olhos, decidindo então revidar o ataque que sofria, mas essa decisão veio tarde demais. No momento em que começou a arder seu cosmo, a energia destrutiva da explosão boreal atingia seu ápice. O cosmo maligno do discípulo venceu a guerra contra o cosmo de defesa do mestre. As pernas de Camus fraquejaram e ele recebeu toda a energia em cheio, sendo jogado a vários metros de distância floresta adentro.

            Camus perdeu os sentidos por alguns segundos devido ao impacto e quando abriu os olhos viu Isaak bem na sua frente com a mão erguida.

- Chegou a hora de enterrar velhas lembranças, mestre Camus. – disse Isaak.

            A mão de Isaak brilhou. Em segundos, Camus viu o gelo crescer a sua volta até tomar sua visão. Isaak estava criando um esquife de gelo que aprisionaria seu mestre para sempre.

            A explosão boreal foi sentida por todos. Milo e Shina que estavam mais perto correram a toda velocidade para ajudar.  Quando chegaram depararam-se com Camus dentro do esquife de gelo.

            Milo gritou o nome do melhor amigo prestes a golpear o imenso retângulo de gelo. O objetivo era salva-lo, mas aquele golpe seria inútil para livrar o aquariano da morte certa. Felizmente antes do punho de Milo atingir a esquife, Dohko o empurrou com força. Derrubando o grego em cima da amazona de Ofiúco.

            Vendo o mestre de libra de frente para o esquife, Shina puxou Milo pelo braço deduzindo o que Dohko iria fazer. O desespero de Milo só atrapalharia o salvamento. Máscara apareceu depois e também viu quando Dohko ergueu a espada do conjunto das armas de Libra e bradou contra o gelo eterno com a força e velocidade de um raio. Um corte reto fora feito bem no meio do retângulo, depois tudo estava em pedaços e Camus jazia no chão.

            Depois do golpe de Dohko, Milo soltou-se de Shina e correu para amparar o amigo.

- Camus! – chamou Milo segurando o corpo do aquariano – Fale comigo... – viu os olhos castanhos avermelhados do amigo se abrirem lentamente – O que aconteceu?

- Isaak... – disse Camus e seguida ficou inconsciente.

****

Depois de ser tragada pela luz, Jim abriu os olhos sentindo o corpo ser jogado para frente como se tivesse levado um violento empurrão. Aprumou o corpo e olhou ao redor. Ainda estava na floresta, mas parecia uma floresta completamente diferente. Não havia neblina nem escuridão, só as árvores verdes e o chão coberto de folhas secas que faziam barulho a cada passo que dava.

            Girou o corpo observando a trilha pela qual andava, parecia ser a mesma de antes só que mais larga. Observando com mais atenção viu que as árvores estavam diferentes também, nada se movia naquele espaço.

            Assim que saiu da trilha viu várias folhas secas suspensas no ar, como se o vento tivesse soprado e depois parado transformando aquele movimento natural numa estranha escultura. Olhou mais uma vez ao redor, girou o corpo várias vezes, querendo entender por que aquele ambiente estava paralisado.

O tempo estava parado.

            Deu mais alguns passos até se deparar com um imenso casarão. Eram três andares sendo o mais alto visível apenas por uma única janela em forma de triangulo que seguia o desenho do telhado. A construção tinha um aspecto muito antigo, era todo feito em pedras escuras com uma grossa porta de madeira servindo de entrada principal. A vegetação caía pelas laterais e parte superior. Não era como as construções típicas do Santuário, com colunas gregas e mármore, aquele casarão tinha um aspecto notadamente gótico. Lembrava um velho castelo de vampiro abandonado.

            O som de folhas secas sendo pisadas a fez olhar para trás e ver o que antes era só um fantasma caminhando ao encontro dela. Era bem mais alto e forte aparição e carregava uma espada samurai presa na cintura. Continuava com o mesmo sorriso de antes.

            A aproximação daquela enorme figura de negro causou arrepios em Jim. Seu olhar era excessivamente frio, mas o sorriso estranho tornava aquela expressão sorrateira em algo talvez perverso, talvez sereno, talvez feliz. Deu um passo para trás forçando as pernas a se moverem. O homem se aproximou mais, parou de frente para ela e a abraçou.

            Jim arregalou os olhos sentindo-se completamente surpresa com aquele gesto totalmente inesperado. Esperava tudo menos um abraço.

- Esperei tanto por esse momento... – disse o estranho. – Irmã...

            A última palavra suspendeu sua respiração. Todo o corpo de Jim retesou-se instantaneamente. Primeiro um abraço caloroso, depois “irmã”? A surpresa foi tanta que ela não conseguiu se mexer durante aquele contato. Só depois que Hanzo a apertou contra o corpo fazendo seus pés levantarem do chão é que ela voltou a raciocinar. A segunda coisa que sentiu foi medo.

- Foram anos e anos de espera e agora você está aqui... – Hanzo fechou os olhos encostando a cabeça no ombro da jovem – Finalmente esse dia chegou...

Soltou o corpo esguio bem devagar temendo derrubá-la, em seguida acariciou o rosto delicadamente, tocando-a como se ela fosse um cristal raro e frágil e ele tivesse medo de quebrá-la.

– Você é completamente diferente de como eu esperava... – tocou o rosto de Jim agora com as duas mãos, esticando delicadamente a pele, checando cada detalhe. – É mil vezes melhor, é perfeita.

            Dito isso a abraçou de novo sussurrando a palavra perfeita várias vezes, parecendo tomado por uma estranha emoção. Quando tornou a encarara-la estava sorrindo, não um sorriso dissimulado como os anteriores, mas um sorriso de felicidade. Depois começou a gargalhar na frente de Jim que permanecia imóvel.

- Você não se parece nada com a nossa mãe, nem como o seu pai. Não tem absolutamente nada dos dois. – deu outra gargalhada – É perfeito! Fale alguma coisa, deixe-me ouvir a sua voz... – pediu a segurando agora nos ombros.

            Jim o empurrou violentamente.

- Quem é você? E que lugar é este?

- Não era bem isso que eu queria ouvir, mas já é um começo. – deu um passo a frente – Muito bem, estou usando atualmente o nome Hanzo, sou o seu irmão mais velho, Jim. Seja bem vinda a sua casa.

- Por acaso isso é alguma piada? – recuou – Não se aproxime de mim, afaste-se!

- Irmã, não tenha medo de mim, eu nunca te machucaria...

- Como pode me chamar de irmã?! Como ousa! Eu não tenho irmãos... Você destruiu toda a minha família, esqueceu? – e dirigiu um olhar inflamado para Hanzo que o fez parar de avançar.

            Hanzo fechou os olhos.

- Vejo que ainda está zangada com isso... – deu um suspiro curto, olhou para a jovem, abriu os braços: – Entendo se quiser descarregar sua raiva.  

O coração de Jim começou a bater muito rápido. Ele disse que nunca a machucaria, mas era impossível confiar em um cara com um olhar tão frio. Sua postura, seu andar, sua aparência ameaçadora, tudo nele despertava os piores temores em Jim. Afinal ele era o inimigo, aquele que estava por trás de todos os ataques ao Santuário. O assassino de mais da metade da população de Rodório e de sua família também.

Então a raiva falou mais alto. Não pensou duas vezes: apontou a mão espalmada para o inimigo com intenção de lançar-lhe todo o seu cosmo, porém nada aconteceu quando ela concentrou sua energia na palma da mão como Shaka havia lhe ensinado há meses atrás. Olhou para a própria mão intrigada. Novamente não foi capaz de mandar nenhuma faísca de cosmo.

- O que está acontecendo? – perguntou olhando agora para as duas mãos.

- Eu tirei os seus poderes. – disse Hanzo tranquilamente. - Não se preocupe, não vai durar muito tempo.

            Jim se esforçou na concentração, mas não conseguiu sentir o próprio cosmo. Toda a sua energia havia desaparecido por completo. A raiva aumentou quando ela reviu o sorriso do inimigo. Ficou em posição de luta, se ele queria que ela descarregasse a raiva, era isso que faria mesmo sem cosmo.

            Avançou contra Hanzo iniciando uma sequência de chutes rápidos. Atingiu a lateral dele e as pernas, estranhando ao vê-lo imóvel. Ele não demonstrava nenhuma intenção de se defender ou de revidar, também não se mexia com o impacto dos golpes. Parecia que Jim estava atacando uma estátua.

            A falta de reação não intimidou a jovem. Ela continuou atacando, desta vez golpeando a barriga e o tórax com os punhos. Apesar de tudo o inimigo continuou imóvel, nem sua expressão mudava. Jim colocou mais força nos golpes e acabou sendo jogada para traz, caiu sentada no chão.

            Rapidamente olhou em volta procurando algo mais efetivo para atacar. Viu um pedaço fino de madeira com uma ponta em uma das extremidades. Segurou o pedaço de madeira como uma adaga e avançou contra o inimigo cravando a ponta em seu peito, bem no coração. A adaga entrou até a metade na pele, um filete de sangue escorreu pela roupa preta em seguida.

            Mas Hanzo permaneceu estático.

- Você não sente dor?

- Sinto... – Hanzo respondeu olhando seu ferimento – Mas você ainda não é capaz de me fazer sentir dor... – sem mover um músculo de sua face, Hanzo arranca a arma do peito jogando-a fora em seguida. Começa a avançar em direção a jovem... – Está mais calma agora, irmãzinha?

- Afaste-se de mim! – ela gritou recuando.

- O que vai fazer? Chamar os inúteis cavaleiros de Athena? Eu tirei a sua cosmo-telepatia também.

             Assustada com o avançar do inimigo, Jim se vira para tentar fugir, mas dá de cara com o corpo de Hanzo. Novamente cai sentada. Ele havia se teletransportado para impedir sua passagem. Agachou-se para ficar na mesma altura que ela.

- Não vai conseguir fugir de mim sem os seus poderes.

- Quando terei meus poderes de volta? – pergunta encarando os olhos lunares.

- Se eu falar o truque perde a graça, mas como eu disse antes, não precisa se preocupar com isso. Seu cosmo voltará para você em breve. - esticou a mão para tocar o rosto de Jim mais uma vez – Não tenha medo de mim.

- O que quer comigo?

- Eu precisava te ver. Por isso te trouxe para um lugar mais sossegado, não queria que houvesse nenhuma interrupção.

- Estamos em outra dimensão? – indagou afastando a mão fria de seu rosto.

- Mais ou menos.

            Os olhos castanhos de Jim movimentaram-se para os lados, à esquerda o casarão a direita as folhas suspensas no ar e a sua frente aquele homem sinistro a observando com aqueles olhos dissimulados.

- Quem é você?

            Novamente Hanzo sorri.

- Eu já disse, sou o seu irmão mais velho.

- Eu não tenho nenhum irmão.

- Somos filhos da mesma mãe, mas não do mesmo pai. Temos o mesmo sangue, os mesmos poderes...

- Se era o seu pai também, por que o matou?

            Hanzo desviou o olhar sorrateiramente da expressão indignada de Jim e levantou.

- Aquele que morreu no acidente não era meu pai, tão pouco o seu. – volta a encará-la - Ele não era o seu pai verdadeiro, Jim. Você não carrega os genes da sua mãe nem do seu pai, nem de ninguém daquela família. Eles não eram iguais a você.

- Isso é impossível! – exclamou também se levantando.

- É perfeitamente possível. O DNA do nosso clã se escondeu na raça humana há muito tempo para fugir da perseguição deuses e assim sobreviver a extinção. – voltou a se aproximar dela - Nunca se perguntou por que era tudo tão fácil para você? A escola, a faculdade, o treinamento no Santuário. Nunca se perguntou por que é mais inteligente do que as outras pessoas? Ou de onde vinha essa habilidade de aprender as lições mais rápido do que todo mundo? Nunca se perguntou como consegue saber quando as pessoas mentem para você? Ou por que elas sempre fazem o que você quer quando você chora? Nunca se perguntou por que você não envelhece?

- Aonde quer chegar com tudo isso?

- Quero que você entenda de uma vez por todas que eles não eram como você. Você é diferente, é especial. Não é como os cavaleiros, nem como seus colegas aprendizes. Pertencemos a outra classe de seres, irmã... - Voltou-se para o casarão fazendo uma pausa para que ela processasse tudo o que estava ouvindo. – Quer saber por que eles foram mortos? Eu lhe direi. O verdadeiro motivo é que eles estavam perto de descobrir a verdade sobre você. Começaram a desconfiar da sua aparência jovem demais para a sua idade, além do fato de você não se parecer em nada com eles, nem fisicamente, nem na personalidade. Estavam prontos para te levar a um geneticista para fazer um exame de DNA. Como acha que o mundo reagiria a uma filha que não tivesse DNA nem do pai nem da mãe? – olhou seriamente para Jim – Sua identidade estava em perigo, por isso eu tive que agir.

            No meio do discurso de Hanzo ela sentiu as pernas fraquejarem e o estômago revirar. A possibilidade de não ser filha daquelas pessoas que amava era destruidora demais para ela suportar. Que espécie de vida era aquela que estava vivendo no Brasil? Uma mentira? Um teatro?

O pior era que muito do que ele dizia fazia sentido, pois sempre se sentiu diferente, nunca se sentiu parte daquela família e de mundo algum. Até no Santuário tinha vezes que se achava deslocada. De uma coisa não tinha mais dúvidas: ela tinha realmente parte com o inimigo, tal como Kanon suspeitava. Baixou a cabeça sentindo o peso daquela realidade.

- Eles eram desnecessários, Jim. – disse Hanzo – Eles não tinham nada a ver com você, não pertencia ao mundo deles.

- Quem é o meu pai verdadeiro? – quis saber Jim.

- Você o conhece bem. – disse Hanzo com o sorriso de sempre – Ele está mais perto do que imagina.

            Aquela informação deveria confortá-la, já que era a prova de que ela não estava mais sozinha no mundo. Indagou novamente Hanzo sobre quem ele era e se haviam outros, mas ele não quis responder mais suas perguntas a deixando ainda mais confusa.

- Espera que eu acredite nisso? – questionou com olhar inflamado – Como eu posso ter certeza de que isso tudo é verdade? Precisa provar o que está falando.

- Não estou mentindo. Como acha que conseguiu me encontrar? Você é a única pessoa no mundo que pode sentir o meu cosmo. Nenhum cavaleiro de ouro é capaz de me achar, apenas você. – olhou-a nos olhos, seus azuis lunares contra os castanhos assustados dela – Nós temos uma ligação, não podemos nos esconder um do outro. Eu também sou o único que pode ouvir os seus pensamentos, essa é uma habilidade exclusiva do nosso clã. – agarrou o braço da irmã – Vou dizer o que está pensando nesse momento: você não está querendo acreditar em mim, está lutando contra a verdade por que acha doloroso demais encarar os fatos. Qual o motivo dessa covardia? – derrubou-a no chão usando sua telecinese e continuou questionando: – Não foi para isso que veio até aqui? Para saber a verdade e se vingar por sua família morta? Então por que não luta comigo já que me odeia tanto?

             Intensificou seus poderes mentais para invadir mais profundamente a mente de Jim, pois precisava saber o motivo daquela relutância. A jovem apoiou os cotovelos no chão sentindo-se completamente pressionada. Quando todo o processo terminou sentiu-se completamente tonta, ao ponto de não conseguir se levantar.

- Não foi para isso que você veio até mim... – disse Hanzo olhando para a irmã – Não veio para lutar ou se vingar, e sim para morrer... – desembainhou sua espada e levantou o rosto dela com a ponta – Veio para essa floresta perseguindo a morte. Achou que eu simplesmente tiraria a sua vida e acabaria com o seu sofrimento de viver. Por isso foi incapaz de explodir o cosmo quando eu te ataquei duas vezes. Além de temer os seus verdadeiros poderes ainda é suicida. Isso é patético... – levantou a espada na frente do rosto dela – Você é tão fraca que me faz sentir vontade de matá-la aqui mesmo, mas não ainda tenho muitos planos para você.

            Com um olhar decepcionado Hanzo brande sua espada contra a irmã. Não chega a cortá-la, apenas usa a espada para lançar uma pequena onda de cosmo que jogou o corpo de Jim a vários metros de distância. Ela acabou batendo a cabeça numa rocha perdendo a consciência instantaneamente.

- Achei que estivesse preparada para despertar o seu verdadeiro cosmo, mas vejo que ainda tem muito que aprender sobre si mesma. – disse Hanzo olhando friamente sua irmã.

****

            Passou-se dez minutos sem que o cosmo de Jim fosse sentido na floresta. Os cavaleiros estavam empenhados de corpo e alma na busca pela jovem desaparecida. Depois de vasculhar a área reuniram-se num ponto central da floresta para discutir os próximos passos.

            Shaka era o mais apreensivo:

- Como ele conseguiu raptá-la debaixo dos nossos narizes?

- Mestre Shion estava certo quando disse que esse inimigo é um especialista em ocultação. – disse Mu - Passamos as últimas horas cercando a floresta e não conseguimos descobrir uma só pista dele, fora o ataque que o Camus sofreu...

- Não importa o quão poderoso ele é, nem o tempo que leve. Não vou sair dessa floresta até achá-la. – disse Shaka visivelmente nervoso.

- Sei o quanto está sendo difícil para você, mas você precisa manter a cabeça fria. – falou Mú - Ela vai aparecer. O inimigo não deu as caras em nenhum momento, quem sabe nem tenha chegado perto dela...

- Esse maldito está brincando com a gente. – disse Shaka cuspindo as palavras – Está vendo essa neblina? Ela fica mudando de cor só para nos confundir. O objetivo da fumaça é nos desorientar. - então Shaka parou de andar e disse sombriamente – É como um jogo para ele no qual o objetivo é derrubar peça por peça. Primeiro ele controlou a mente da Shina para atacar o Milo. Depois ele expôs o Isaak, fazendo com que atacasse o Camus, desviando sua atenção da missão também. – Shaka deu mais alguns passos para concluir seu raciocínio. – Dohko precisou levar o Camus de volta para o Santuário por que a vida dele corria perigo. Sete cavaleiros de ouro entraram nessa floresta, mas apenas quatro estavam verdadeiramente na missão...

- Três cavaleiros. – disse Saga dando um passo – Você também não estava totalmente focado na missão por que estava preocupado demais com a segurança da sua discípula. Na verdade, todos nós estávamos, mas você foi quem conseguiu sentir o sinal do inimigo primeiro. Assim que chegamos aqui ele mandou aquele sinal de cosmo que só você captou com exatidão. Em nenhum momento ele lutou contra você, Shaka, pois a sua atenção não estava nele e sim na sua interna. Você é o cavaleiro mais sensato do exército de Athena e um dos mais poderosos. Sabemos que você é capaz de achar a solução para esse jogo de ocultação, Shaka. No fundo você sabe que a Jim está em segurança, só precisa voltar a ouvir a voz da sensatez e achar a saída como sempre fez.

            Os três se olharam em silêncio. Depois de pensar friamente na situação, Shaka respirou fundo e disse:

- Tem razão, Saga. Eu também não estava presente nessa missão. Depois que o cosmo de Jim desapareceu acabei entrando em pânico.

- Tudo bem. – disse Mu – Você a ama, é normal se sentir preocupado...

            Enquanto Mu falava, Shaka deu alguns passos e achou a lanterna de Jim jogada no chão parcialmente coberta por folhas. Pegou o objeto e virou-se para os companheiros:

- Montanhas. Camus ia para essa direção quando foi atacado pelo Isaak. Talvez o Isaak estivesse guardando aquela área. Pode haver alguma coisa lá.

            Saga e Mu concordaram. Mu usou o teletransporte para chegar até lá mais rápido. Separam-se. Então quando a neblina se acalmou por conta da proximidade do raiar do dia, Shaka entrou numa área de terreno inclinado onde a vegetação era mais seca e as árvores eram mais altas. Caminhou observando atentamente tudo a sua volta e quando chegou ao extremo oeste da floresta, numa região montanhosa e fria viu e sua discípula desacordada.

            Imediatamente saltou para resgatá-la. Limpou o rosto sujo de terra com algumas pequenas folhas secas grudadas. Havia uma lesão na cabeça que sangrava moderadamente. Provavelmente ela havia batido a cabeça quando caiu. A conclusão fora tirada depois de olhar para cima e ver a beira do pequeno precipício. Imaginou Jim andando no escuro sem a lanterna, por isso não viu a falha no terreno. O chão frágil da beirada cedeu e ela caiu. Foi tudo um acidente.

****

Amanhecia quando Shaka entrou no templo de Athena carregando sua discípula desacordada nos braços. Shion esperava por eles na porta do Templo ao lado de Aiolos e Aneta. Enquanto Jim recebia os cuidados por conta da pancada na cabeça, Shaka, Saga, Mu, Mascarada da Morte, Milo e Shina relatavam tudo o que tinha acontecido na missão.

            Quando Jim acordou foi interrogada pelo grande mestre. Ela não se lembrava de nada. Suas lembranças iam até a perseguição ao coelho branco, além disso tudo foi apagado pelo inimigo. Mais uma vez Hanzo não deixou nenhum vestígio de sua presença. Apenas a confirmação de que Isaak havia traído Poseidon e se voltado contra o Santuário.

            A versão de Jim foi questionada por alguns cavaleiros, Kanon era o mais veemente. Era como um promotor de acusação implacável durante a reunião pós-missão que perdurou até perto do meio dia. De fato, a amnésia de Jim era muito suspeita. A teoria máxima de que o inimigo estava atrás dela havia caído, tendo em vista que ela não foi morta nem atacada. Mas não totalmente descartada já que ela viu uma ilusão produzida por ele. O coelho branco era tão real quanto a neblina negra.

            Aquela pancada na cabeça e a falta de memórias eram convenientes demais, por isso Shion fez outra sessão usando cristais de ametista lemurianos para checar se o inimigo tinha apagado as memórias de Jim. Acabou confirmando suas suspeitas quando viu novamente os borrões na mente da jovem.

            Antes que mais culpa caísse nas costas da aprendiz, Athena interveio. Deu total apoio a Jim, corroborando as versões de Shaka e Shion de que ela não tinha culpa, que era apenas mais uma peça no jogo de ocultação do inimigo. Para Athena ela era inocente e a deusa tinha a última palavra.

****

Naquela noite Shion voltou sozinho à biblioteca para pensar. O grande mestre sentia-se inquieto. Não dormia bem há dias. A imagem de Shaka trazendo Jim ferida nos braços não saia de sua mente. Desistiu de acender as luzes e começou a andar com passos lentos entre as pilhas de livros, olhando para as estantes fora de seus lugares e para os buracos feitos por ele e Dohko durante a busca pelo catálogo que por total falta de sorte, continuava perdido. Foram dias inteiros de busca pelo Santuário. Ainda continuavam sem saber o que estavam combatendo e o inimigo continuava com total liberdade para atacar quando quisesse. Enquanto não fosse revelado as forças de Athena estariam em desvantagem.

            Tudo levava a crer que o jogo só viraria em favor dos cavaleiros se eles soubessem quem estavam enfrentando, e para isso, o catálogo tinha que aparecer. Aquele livro era a chave para todo aquele mistério, Shion tinha certeza. Suspirou olhando para o centro da biblioteca onde estava o busto de bronze do seu antecessor, o grande mestre Sage de Câncer. A estátua estava iluminada pela luz da lua que entrava através de uma janela redonda em forma de vitral no alto da biblioteca. Com os pensamentos perdidos caminhou até a estátua parando em frente à mesma. Era como estar num palco iluminado por apenas um holofote apontado para sua cabeça.

            Encarou o antigo mestre do Santuário por alguns segundos no meio de todo aquele silêncio e fechou os olhos iniciando uma meditação. Seus pensamentos são interrompidos por passos leves de mulher e um farfalhar de saias. Aneta.

- Grande mestre, já enviei todos os e-mails que pediu...

- Excelente. – virou o rosto para olhar para a serva – Como está Camus?

- Melhor, senhor. – disse segurando as mãos – Hyoga me disse que ele estava muito abalado por conta do Isaak, mas fisicamente está passando bem.

            Shion soltou o ar dos pulmões e voltou-se para sua serva:

- Não e fácil superar a dor de perder um discípulo dessa forma. Apesar da traição, talvez no fundo ele pensasse que podia resgata-lo... – andou até Aneta que baixou a cabeça quando ouviu a palavra traição. Acariciou os ombros da serva e levantou o rosto dela. – Estava pensando em te convidar para passear pelos jardins do templo, mas vejo que está muito cansada depois desse longo dia que tivemos.

- Não me sinto cansada. Vim até aqui para ajudá-lo a procurar pelo catálogo. Imaginei que estava aqui para continuar as buscas...

- Não... – respondeu segurando as mãos de Aneta – Achei que a biblioteca seria um lugar melhor para refletir.

- Eu entendo, senhor... – disse Aneta com um sorriso – Precisa de alguma coisa? Há algo que eu possa fazer?

            Shion deu um sorriso malicioso e olhou por cima do ombro de Aneta para ver se a porta da biblioteca estava fechada. Não queria correr o risco de Dohko ou outra pessoa entrar e flagrá-los.

- Tudo o que eu preciso para ficar bem é alguns minutos com você, meu anjo... – disse a abraçando.

            Passou a mão pelas costas de Aneta, sentindo a maciez dos cabelos cacheados, aspirando em seguida o perfume floral que vinha do pescoço da sua namorada secreta. Quando iniciou o beijo deve que parar em seguida por que Aneta estava imóvel.

- Shion eu... – disse de cabeça baixa.

- Não precisa se justificar... – disse fazendo carinhos no rosto de Aneta – Eu sei que está cansada. Estamos trabalhando aqui nessa biblioteca há dias. – voltou a segurar as mãos da gaulesa – Por isso, eu o grande mestre do Santuário, estou ordenando que vá descansar.

            Deu um beijo na mão de Aneta e a conduziu até a porta. Naquele momento ela fez o que ele pediu, pois estava sem forças para insistir, apesar de saber que devia insistir. Tinha que seguir todos os passos de Shion para descobrir onde estava o catálogo que Jamian queria, mas naquele momento o carinho de Shion fez doer mais ainda o peso da traição em seu peito.

            Sem desconfiar de nada, Shion volta para sua meditação. Seu manto branco com detalhes dourados na ponta arrastava pelo chão conforme andava. Seus pensamentos voltaram-se para o passado sem querer. As lembranças sempre vinham quando ele estava naquele lugar de estudo. Imagens do mestre Sage falando por horas sobre os milhares de livros reunidos naquela biblioteca se formavam em sua mente enquanto ele atravessava o salão.

            Lembrava-se com carinho do cuidado que o lemuriano tratava aqueles livros. Virou-se para as estantes e viu Sage ali, perfeitamente vivo em sua lembrança. Ele carregava um grande livro de capa azul, um azul um pouco mais claro do que o azul de seu manto que também arrastava no chão quando ele andava. A postura imponente ao mesmo tempo serena, os longos cabelos brancos sempre devidamente penteados.

            Viu Sage caminhar até o centro da biblioteca segurando aquele livro e parar em frente a seu busto de bronze. Em seguida virar-se para ele sorrir e dizer:

- Seu mestre Hackurei acaba de chegar ao Santuário e está esperando por você no jardim. Devia se apressar.

            A lembrança se desfez. A imagem holográfica de Sage parado em frente a estátua de bronze desapareceu em meio a luz que vinha dos vitrais no alto da biblioteca restando apenas o silencioso busto de bronze. Shion abriu a boca para puxar o ar que lhe faltava nos pulmões sentindo-se completamente arrebatado por aquela lembrança tão real.

            Caminhou até a estátua com passos rápidos. Lembrava-se perfeitamente daquele dia. O dia em que Hakurei veio de Jamiel para conversar com ele. Infelizmente nesse mesmo dia houve uma invasão de espectros de Hades em uma vila próxima do Santuário e ele foi um dos cavaleiros designados para o combate. Saiu sem falar com o mestre. Nunca soube o que ele tinha para lhe dizer.

- E se meu mestre quisesse me falar sobre o catálogo naquele dia? – indagou ao rosto de bronze de Sage.

            “Sim, ele queria me falar sobre o catálogo, queria me dizer onde estava escondido, possivelmente. Aquele livro azul que o mestre Sage segurava era parecido com o catálogo que eu encontrei. Tinha os mesmos detalhes dourados, a mesma letra grega no título. A versão completa do catálogo estava nas mãos de Sage naquele dia! Mas onde ele colocou o livro? Para onde ele foi?”, pensou enquanto revivia a cena. “O jardim! Sage disse que o mestre Hakurei estava a minha espera no jardim. Devia ter um bom motivo para escolher aquele local...” e saiu correndo da biblioteca.

            Atravessou o grande salão principal de entrada com a mesma pressa. Em pouco tempo estava no jardim lateral parado em frente a outro busto de bronze, o busto feito em memória ao lendário cavaleiro de Altar, Hakurei, seu mentor e irmão gêmeo de Sage.

- Mestre Hakurei... – sussurrou tocando a estátua – Onde estará o catálogo verdadeiro?

            Deslizou a mão na pedra que servia de base para o busto de bronze e emanou seu cosmo. Olhou em seguida para o rosto sereno e sábio de Hakurei. O olhar de bronze parecia concordar com tudo, parecia querer lhe dizer: “Você está no lugar certo, meu bom discípulo Shion...” Era dessa forma que Hakurei sempre o chamava.

            Então a pedra reagiu ao seu cosmo.  Aquilo não era mármore como a base da outra estátua de Sage que estava na biblioteca, parecia mármore, mas não era.

- Essa rocha é endêmica da minha terra, Jamiel – disse sentindo a energia transferida para suas mãos aumentar – É um resultado de uma combinação rara de minerais. É muito antiga. Usada na construção de antigos templos lemurianos... – voltou a encarar o rosto de bronze de Hakurei – Diziam que só os lemurianos com grandes poderes telecinéticos podiam levantá-las com a mente, pois são mais pesadas que as rochas normais. Como não vi isso antes? Vivo aqui há tantos anos e nunca tomei conhecimento que esse mineral raro estava aqui.

            Abriu um sorriso lembrando a última vez que esteve de frente para aquela estátua. Athena estava ao seu lado. As palavras da deusa vieram imediatamente à lembrança como um sussurro revelador onde as vozes da deusa e de Hakurei se misturavam: “Ás vezes as respostas estão bem na nossa cara e não somos capazes de enxergar. O obvio esconde segredos também, mas é preciso habilidades extras, como visão além do alcance para poder enxergá-los”.

- O catálogo estava bem na minha cara e eu não era capaz de enxergar. Obrigado Athena! Obrigado mestre Hakurei...

            Dito isso, afastou-se da estátua e usou seus poderes telecinéticos para tirar a pedra do lugar. Teve que se concentrar intensamente para isso, pois aquela pedra era um desafio para seu povo. Segundo depois, pedra já estava se movendo. Lentamente revelou um compartimento secreto, parecido com uma gaveta. Dentro dela estava um grande livro de capa azul, o título escrito em letras douradas: Catálogo de Hakurei.

 

 

 



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